O último sábado do criolo doido
Como está chegando a Copa, este é o último “Sábado do Criolo Doido”.
Fiquei em dúvida sobre qual livro falar nesta despedida. E fiquei em dúvida entre dois livros: “Memórias póstumas de Brás Cubas”, do Machado de Assis, e “Grande sertão: veredas”, do Guimarães Rosa.
Hoje em dia pouca gente lê esses livros por prazer. A maioria lê porque o professor manda, por causa do vestibular, coisas assim. Mas a verdade é que são dois livros deliciosos.
Memórias Póstumas é uma comédia elegante, onde um defunto conta a sua vida, e aí, como ele é um defunto e já não deve nada para ninguém, pode falar de si mesmo e dos outros sem medo, fazendo um grande raio-x da alma humana.
O Machado criou um narrador que, de certa forma, fala em primeira e terceira pessoa ao mesmo tempo.
Há capítulos curtíssimos, capítulos só com pontos, sem nenhuma palavra, e um humor fino. A história é simples: uma traição. Mas o humor com que ele revela a psicologia dos personagens é que é o charme do livro.
O curioso é que, cada vez que você lê o “Memórias Póstumas...”, ele fica melhor. Li aos 18 e achei bacana, aos 25 achei excelente, aos 35 achei sensacional e daqui a pouco vou lê-lo de novo. Deve estar melhor ainda.
Já o “Grande sertão: veredas” tem uma construção de linguagem sensacional, e talvez seja o melhor livro já escrito em português, se é que ele é escrito em português.
E eu digo isso porque o Guimarães Rosa faz os seus personagens falarem numa língua diferente, quase inventada. Nas primeiras páginas você vai achar estranho, mas continue lendo mesmo assim. Depois de umas trinta páginas você se acostuma e aprende aquela língua que tem uma musicalidade inacreditável.
Uma coisa engraçada que me aconteceu durante a leitura deste livro é que às vezes eu relia uma página logo depois de lê-la, de tão pasmado que ficava. Ou então me sentia tão contente depois de ler um capítulo que tinha que dar uma volta para espairecer. É um livro impressionante, tanto que eu nunca tive coragem de lê-lo outra vez. Talvez seja inveja. Freud explica.
Enfim, acho que ninguém que fala português pode morrer sem ter lido estes dois livros.


















Sábado do criolo doido