“O último jantar” não foi um grande sucesso no Brasil. Pelo contrário, foi um pequeno fracasso. Mas que eu achei um filme excelente, com um ótimo roteiro, feito com um humor negro e inteligente. Ele pode ser encontrado em qualquer boa locadora, mas só em VHS. De qualquer forma, é um desses filmes que vale a pena garimpar.
Foi dirigido pela Stacy Title e fez muito sucesso no Sundance, aquele festival de cinema independente promovido pelo Robert Redford. “O último jantar” tem esse nome porque conta a história de um grupo de amigos que convida pessoas para jantar e acaba matando estes convidados. Mas estes convidados têm uma coisa em comum. São todos extremistas.
O filme tem um final surpreendente, mas, é claro, eu não vou contar nada para não estragar a surpresa. No elenco, o destaque é a Cameron Diaz, que hoje é uma pop star mas que em 1996 ainda não era conhecida.
Enfim, “O último jantar” é um filme para aquela turma que gosta de comédias inteligentes, aquela turma que acha que o cinema pode ser uma coisa divertida, mas não necessariamente boba. Para aquela turma que acha que um filme não é só uma coisa que a gente vê enquanto come pipoca.
Matadouro cinco
Saiu por aquela coleção de livros de bolso da editora LP&M, um dos melhores livros que eu já li. Chama-se “Matadouro Cinco” e foi escrito pelo Kurt Vonnegut Junior. É um livraço! Inteligente, com um humor sutil, com uma estrutura narrativa muito interessante, onde a gente avança e recua no tempo, mas sem se perder. E o livro custa só quinze reais, quer dizer, o mesmo preço de um cineminha. Só que com várias vantagens. Um filme só te dá duas horas de diversão. Um livro dura muito mais. E também fica na nossa memória por mais tempo. Ainda mais nesse caso, porque Matadouro Cinco é um daqueles livros que se transformam em clássicos porque inventam uma nova forma de contar uma história. E esta nova forma tem duas características principais: o avanço e o recuo no tempo, e as micro-histórias que o autor vai espalhando pelo livro.
De certa forma, a estrutura do livro parece uma árvore de natal, com uma história principal, que é a árvore, mas com várias historiazinhas penduradas, que são as bolas de natal.
O Vonnegut faz isso nos seus outros livros, como Hócus-Pócus e Cama de Gato, que também são muito bons. Os livros dele estão esgotados há muito tempo. Tomara que a LP&M reedite os outros. Mas você já pode ler seu livro mais importante.
Bob Roberts
Tem dois tipos de filmes: ficção e documentário. Certo? Errado! Existe também o falso documentário. Ou seja, um filme que tem formato de documentário mas, na verdade, é uma ficção. É um tipo de filme que eu gosto muito, porque mostra como se pode manipular a verdade.
Nas locadoras você encontra poucos falsos documentários. Um deles é Bob Roberts. O filme é de1992, e o Tim Robbins é o diretor e o ator principal. Ele faz o papel de um cantor folk, uma espécie de Daniel, que está disputando a eleição para presidente dos Estados Unidos. E o filme é um documentário sobre a campanha desse tal Bob Roberts.
Os filmes políticos têm sempre o risco de serem chatos, de ficarem abaixo do que a gente vê no noticiário, ainda mais em tempos de Zé Dirceu e Roberto Jefferson. Mas este filme é uma comédia ácida, muito inteligente e bem dirigida, apesar de ser o primeiro filme do Tim Robbins como diretor.
O personagem Bob Roberts nasceu num esquete do programa "Saturday Night Live", em oitenta e seis. Outra coisa curiosa é que, no filme, o Gore Vidal, um dos maiores romancistas americanos vivos, faz uma ponta como ator. Enfim, se você quer ver um falso documentário de verdade, veja o Bob Roberts. Aí você vai ver que a verdade é que não existe verdade, não é verdade?
Numa erudita tertúlia travada com alguns filósofos no botequim da esquina de casa, chegamos à conclusão de que as duas melhores coisas do mundo são futebol e comida (a TV ficou em terceiro, e o sexo, no quarto, que, pensando bem, é o seu lugar).
Foi então que Nietzsche (o português dono do bar, que recebeu o apelido pelo seu vasto bigode) disse que o melhor mesmo era juntar os dois e comer no estádio. Nietzsche recebeu uma salva de palmas, e eu, tendo como desculpa a abertura do Brasileiro, me lancei na incumbência de fazer uma reportagem sobre comida nos estádios pelo país.
O primeiro que visitei foi o Arruda, no Recife, casa do Santa Cruz. Comecei com o pé direito, porque ali há uma grande variedade de acepipes, alguns muito bons. Se o time é de Série B (que também começa hoje), o cardápio é de Série A. O Arruda é uma espécie de Fasano dos estádios.
Antes de entrar no "Gigante da rua das moças" já se pode forrar o estômago nas barraquinhas. Aliás, a qualidade e o capricho mudam muito de uma para outra.
O salsichão em espiral é bem interessante (R$ 0,50), assim como os bons espetinhos de carne entremeados de cebola (R$ 1 a R$ 1,50) e os espetos mistos (vaca, frango e linguiça, R$ 1,50). Para os vegetarianos, há uma boa salada de fruta e, é claro, o tradicional queijo coalho (R$ 1 e R$ 1,50).
Já os mais corajosos podem enfrentar as asinhas de frango (um tanto desconfiáveis, R$ 0,25) e, principalmente, as largas fatias de fígado de boi (R$ 0,50). Eu, confesso, refuguei. Mas havia uma boa aceitação entre os locais.
No estádio, a variedade continua. Só de amendoim há três tipos: sem casca, com casca e cozido (todos a R$ 0,50 ou 3 por R$ 1). Já o saquinho com ovos de codorna sai por R$ 1. Os sorvetes (marca Só Mel, R$ 0,25) também possuem sabores diferentes dos do Sul, como graviola e cajá.
Os frequentadores dizem que há também roletes de cana (vendidos em tabuleiros, enfiados em palitinhos), mas são mais encontrados nos jogos vespertinos. Para meu azar, fui ao Arruda à noite.
Na região das sociais há uma certa sofisticação. Ambulantes oferecem doses de Johnie Walker e Teacher's por R$ 2. Há espetos de coração (raros na arquibancada), e o coalho vem com orégano.
Para os que conseguirem controlar a fome, na saída os preços em geral caem pela metade. E ainda mais em caso de derrota. Segundo os ambulantes do Arruda (que pagam R$ 15 para entrar no estádio), a vitória dá fome.
Homenagem prestada, falemos agora da Série A. Começando pelo começo, por quem já começou no campeonato: o Santos, que ontem pegaria o Botafogo em casa.
Na Vila Belmiro há um comércio tradicional nas ruas que cercam o campo: pipoca, sorvete, espetinhos e dogões. De diferente, uma salsicha com queijo. As barracas têm qualidades muito diferentes entre si e é bom dar uma espiada na higiene dos ambulantes.
Dentro da Vila, há boas opções. O sanduíche de carne assada da lanchonete (R$ 2,50) é bem respeitável. O molho é caprichado, com bastante cebola e alho. Outra opção é a linguiça (em três versões: com alho, apimentada e com queijo, R$ 2,50). Curiosamente não há peixe no estádio do Peixe.
Quem foi ontem ao Morumbi, para ver o São Paulo estrear contra o Paysandu, pôde degustar as calabresas das barracas ao redor do estádio. Alguns vendedores dizem trazê-las de Bragança. Verdade ou não, meu estômago diz que elas são bem aceitáveis.
Já em São Januário, que ontem viu Vasco x Figueirense, as coisas não são tão saborosas. O Rio tem uma grande e merecida fama de possuir ótimos botequins, onde são encontradas obras de arte, como o sanduíche de pernil e abacaxi do Cervantes ou o bolinho de aipim do Bracarense. Porém a tradição de bons petiscos não chegou ao estádio do Vasco.
Há algumas lanchonetes e nenhum prato diferente. O hambúrguer (R$ 0,50) é comível, mas sua carne é muito fina (no mau sentido). O joelho italiano (massa com presunto e queijo, R$ 1) é sólido demais, e os salgadinhos (coxinha, salsicha empanada, bolinho de carne, R$ 1) são medianos.
Podem-se encontrar alguns ambulantes que montam pequenas churrasqueiras e vendem salsichão e espetinho. Isso é proibido, mas um dos vendedores explicou sua presença: "Se tiver conhecimento, não tem problema".
Há também alguns produtos industrializados, mas as marcas são pouco conhecidas, como o biscoito de polvilho Sortilège (R$ 1), o guaraná Frutline (R$ 2) e um sorvete sem identificação, que os ambulantes chamam de Dragão Chinês (R$ 0,50, muito ruim). Para as partidas monótonas pode-se recorrer aos vendedores de café que ficam zanzando pelas arquibancadas com uma garrafa térmica (R$ 0,50). Sem Romário, eles devem ter mais trabalho neste ano. No Mineirão, mesmo fora de campo já são encontradas algumas coisas curiosas. O cachorro-quente (R$ 1), por exemplo, usa aquela salsicha suspeita de sempre e aquela gama de molhos (mostarda, catchup, maionese, vinagrete, batata palha,...).
Mas não pára por aí. No rotidógui mineiro você ainda pode colocar frutas cristalizadas. É isso mesmo, aquelas coisas que vêm nos panetones. Não cheguei a experimentar, mas fiquei com a impressão de que as passas são um estranho no ninho. Mais ou menos como quando o Roque Júnior decide subir para o ataque: pode até dar certo, mas é perigoso.
Há também os espetinhos tradicionais (R$ 1,50). Uma variação interessante é o espetinho de frango enrolado no toucinho, onde um ajuda o outro e cada um sozinho não merece destaque. Uma espécie de Washington e Assis.
Nesta categoria, o melhor foi o espetinho-no-prato-com-cebola-e-jiló (R$ 2). O jiló sozinho é sem graça como um centroavante de um time sem meias, mas, com a carne e a cebola, faz uma bela triangulação. Na área dos doces, o destaque é uma farta pamonha com queijo, grande como um tijolo. E com o mesmo gosto.
Porém o grande sucesso culinário do Mineirão está dentro dos muros. É uma iguaria servida desde a inauguração do estádio, 30 e tantos anos atrás: o feijão tropeiro. Trata-se de uma verdadeira refeição e custa R$ 3,50.
O tropeiro vem numa embalagem de alumínio. O problema é que, para evitar assassinatos, não é servido com garfo e faca, mas apenas com uma colher de plástico. Por sorte, ou azar, o lombo é tão diáfano que quase sempre se consegue cortá-lo com a colher, a não ser onde a nervura é mais forte. Aí o jeito é tascar-lhe os dentes como um homem das cavernas.
O tropeiro vende cerca de 50% a mais nos jogos noturnos. Nas partidas vesperais, como a de hoje, do Atlético-MG contra o Corinthians, a torcida já vai almoçada e aí o sucesso é a cerveja.
Segundo Júlio Coelho, dono de 17 bares no estádio, em grandes jogos são vendidas mais de 10 mil quentinhas. Elas vêm com arroz (farto), feijão (decente), couve (seca), torresmo (bom), lombo (quase transparente), ovo (gema dura, mas salgadinho) e farofa.
A refeição mata a fome e é o grande sucesso do Mineirão, depois de Tostão e Reinaldo, é claro.
Quanto a petiscos, são decepcionantes. Como se trata de um estádio público, a Vigilância Sanitária só permite a venda de produtos industrializados, ou seja, batatas Chips, sorvetes Yopa...
Assim, acabaram com os "toreros" (vendedores ilegais que entram "na tora", "na marra"). Isso garante a saúde do torcedor, mas faz com que ele perca amendoinzinhos e sua família de pitéus.
Não sei porquê, mas o fim dos toreros me dá um frio na barriga.
(Publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 11/08/2002)
19 de novembro de 1969. Maracanã. Pelé, autor de 999 gols, prepara-se para bater o pênalti contra o Vasco da Gama.
Ele ajeita a bola na marca de cal. Antes de bater, olha para as arquibancadas. Centenas de milhares de pessoas querem compartilhar aquele momento histórico. Ele também olha para Andrada, o goleiro magricela que, para tornar ainda maior a alegria de Pelé, é argentino.
Pelé começa a correr. Escolhe o canto direito e bate colocado à meia altura. Ainda cego pelos inúmeros flashes das máquinas fotográficas, não consegue entender direito o que se passa, mas a reverberação de um comprido “Uuuh!” chega aos seus ouvidos. Ele esfrega os olhos e vê Andrada com a bola apertada contra o peito. Não tinha sido daquela vez.
Pelé ficou triste e desmotivado; até pediu para ser substituído minutos mais tarde. No jogo seguinte, contra o São Paulo, esteve outra vez perto da glória, mas por duas vezes mandou a bola de encontro às traves.
Vieram outras chances. No empate contra o Palmeiras, o jovem goleiro Leão rebateu a bola à frente de seus pés; ele, porém, mandou-a para fora. Alguns dias depois deu dois chapéus em Ditão, mas acabou chutando em cima de Ado. Pena! Ele adorava vencer o Corinthians...
Pelé foi ficando nervoso e um dia, sem que ninguém visse, começou a beber. Primeiro foi uma cerveja, depois uma caipirinha e no fim acabou experimentando aguarrás. O efeito disso foi que começou a chegar atrasado aos treinos, caiu de rendimento e, diante dos clamores da torcida, perdeu a posição para Brecha.
Isso foi fatal para seus planos de jogar a Copa de 1970. Zagallo, receoso, não o convocou para a equipe tricampeã. Tostão jogou um pouco mais recuado no meio-campo e Dario foi o centroavante.
Nos anos seguintes, na reserva, Pelé não conseguiu fazer seu milésimo gol. Decidiu então despedir-se do futebol. As glórias passadas ainda estavam na memória de todos, e a Vila Belmiro lotou naquela tarde de 1972 para ver o seu adeus contra um combinado de craques. Quem sabe se na partida derradeira ele não chegaria ao milésimo gol.
Pelé estava infernal. Num lance brilhante, a Vila Belmiro quase veio abaixo. Pôs a bola no meio das pernas de Piazza, deu o drible da vaca em Luís Pereira, deixou Figueroa no chão e chutou colocado no ângulo. Ele já ia dar um soco no ar quando viu a bola sendo espalmada para escanteio pelo goleiro. O nome dele era Andrada.
Daquele dia em diante, ninguém mais o viu. Pelé deixou a barba crescer e ficou conhecido pelos habitantes de Três Corações como um mendigo esquisito, que vivia chutando pedrinhas como se estivesse cobrando um pênalti. E nunca acertava.
“Acorda, acorda!”
“Que foi, Assíria?”
“Você está tendo um pesadelo e não pára de me chutar!”
“Sonhei que perdi o pênalti contra o Andrada, entende?”
“Que bobagem... Dorme, Edson.”
Mas ele não consegue mais dormir e passa a noite em claro. Enquanto isso, em algum lugar, Andrada tem o mesmo sonho de Pelé. E sorri.
(Publicado originalmente em "Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso")