Blog do Torero

15/07/2010

Do nascimento dos esportes

 
 

Do nascimento dos esportes

(O Lucas Beleza Rocha, de Belo Horizonte, lembrou-se desta coluna escrita há onze anos e pediu sua republicação. Como não quero contrariar alguém de tão boa memória, vai aí o texto)

 

O surgimento de um esporte é sempre algo curioso. Como esta coluna visa contribuir para o crescimento intelectual e cultural de seus leitores, resolvi pesquisar a origem de alguns. Pode ser que, às vezes, os relatos não pareçam verídicos, mas lembre-se: a realidade sempre é mais criativa que a ficção.

O pólo, por exemplo. Acredite ou não, foi inventado por Pizarro, o sanguinário espanhol que se divertia matando incas.

Certa feita, após conquistar a fortaleza de Olantaytambo, nos arredores de Cuzco, ele decidiu que queria comemorar a vitória com alguma competição. Dividiu os soldados em dois grupos a cavalo, pegou a cabeça do chefe Ucayali e começou um jogo em que cada time tentava, com suas lanças, jogar a cabeça de Ucayali contra a meta adversária.

O jogo agradou e, com o tempo, foi levado para a Europa e tornou-se um grande sucesso. Ainda mais quando, em 1912, decidiu-se trocar as cabeças incas por bolas de couro.

Mas há também o caso do basquete, que, como poucos sabem, foi inventado pelo jornalista norte-americano Oscar Bloom, famoso pela obsessão em reescrever seus textos. Um dos hábitos de Bloom era fazer bolas de papel com as páginas que não aproveitava. Ele gritava "ball to the basket" e as atirava numa cesta de lixo.

Pouco tempo depois, toda a redação de seu jornal -o "Buffallo News"- começou a atirar rascunhos ao lixo no estilo de Bloom. Mais algum tempo e o espírito competitivo do ser humano levou à formação de dois times na redação: o Buffallo Blue e o Buffallo White.

Infelizmente, com o desperdício de papel e a dispersão dos jornalistas, o "Buffallo News" acabou indo à falência.

Já o vôlei nasceu no Oriente. Do lado oeste da Muralha da China vivia o clã dos Takaesu. E no leste, viviam os Narimatsu. Duas famílias inimigas. Para provocar os Takaesu, os Narimatsu atiravam frutas para o lado dos Takaesu. E vice-versa.

Com o tempo, as duas famílias foram inventando maneiras para evitar que as frutas tocassem o solo e se espatifassem, devolvendo-as em seguida. Esse conjunto de movimentos ficou conhecido como o "vorêi", que, em chinês mandarim, significa "segura essa, seu paspalho". Passaram-se os anos, e o vorêi evoluiu e se transformou no nosso vôlei. Assim sendo, a Grande Muralha da China foi, por assim dizer, a primeira rede de vôlei da humanidade.

E o boxe? Poucos sabem, mas foi inventado por um alfaiate inglês, sir James Woodworth, que fabricava uma luva arredondada e macia para as noites de frio londrino. Como eram escorregadias e não serviam para pegar quase nada, encalharam e viraram motivo de piada. Woodworth já as considerava um fracasso quando deu-as para que suas filhas, Janice e Ethel, brigassem sem se arranhar como de costume. Elas mal tinham começado a se socar quando Woodworth teve uma idéia. Ele as levou para continuarem o duelo na vitrine da loja. No alto do vidro, escreveu um cartaz que dizia: "Luvas Woodworth: para resolver desinteligências de um modo diferente". E até hoje as luvas Woodworth são as mais usadas pelos boxeadores.

Esporte também é cultura.
 

Por Torero às 16h18

01/08/2009

Decisões

 
 

Decisões

1


Numa fria tarde de novembro de 1961, quatro rapazes caminhavam à beira do rio Mersey. Ares preocupados, o vento batendo em suas franjas, de vez em quando olhavam para os navios que entravam pelo porto de Liverpool.

Eles lembravam-se, quem sabe, do tempo em que tinham que tocar oito horas para ganhar uns cobres num clube de Hamburgo. Tempos difíceis, é verdade, mas pelo menos não havia a tensão de se ter que tomar decisões, como naquela hora. Então um deles resolveu falar:

"Vamos encarar a realidade, rapazes, isso não vai dar certo." Era Pete Best (o terceiro aí da foto), um rapaz alto, forte e bem apessoado, o baterista do grupo. "Estamos na estrada há anos e até agora só estamos perdendo tempo. Agora, trabalhar para um empresário bicha é o fim da linha."

"Pode dar certo", murmurou George sem muito entusiasmo.

"Eu não acho que devamos desistir", completou Paul. "Acho que ainda podemos ganhar dinheiro com isso."

"Quem poderia substituir você?", completou John, sempre mais frio e pragmático que os outros.

Pete esperava algum tipo de adulação. A pergunta de John deixou-o um pouco incomodado. Ainda assim, não perdeu a pose:

"Pode ser aquele narigudo, o Starkey".

Ninguém respondeu nada. Continuaram caminhando com os rostos enfiados nos capotes. Best, ainda mais incomodado com o silêncio, resolveu abrir o jogo. Disse que sua mãe lhe havia proposto tomar conta de um bar em Penny Lane e ele estava disposto a aceitar. Os outros talvez tivessem ficado com alguma inveja daquela estabilidade financeira tão precoce, mas nada disseram.

O que é bom para nós, pode não ser para você", sentenciou George com ares de filósofo oriental.

Pete animou-se com a resposta e, com pena dos amigos, procurou encorajá-los. Disse que o rock'n roll estava no fim, que ninguém poderia substituir Elvis e que eles deveriam investir na música italiana, estara é que seria a música dos anos 60. No fim, despede-se dos amigos com um abraço.

"Boa sorte, Pete", disse John.

"É isso aí", falou George.

"Obrigado pelos conselhos, mas vamos ficar mais um pouco", finalizou Paul. "Talvez a gente ainda ganhe algum dinheiro com isso."

Pete soltou um longo suspiro. Estava com uma sincera pena de seus amigos. "Vocês é que sabem, rapazes, mas não vão dizer que eu não avisei..."


2


No outro lado da cidade, um narigudo, dono de de um arrojado topete e com a barba por fazer, espera sua namorada sair da manicure lendo sobre a apertada vitória do Blackburn sobre o Warrington pela segunda divisão do campeonato inglês.

"Esperou muito, Ringo querido?"

"Já lhe disse, Maureen, não gosto que você me chame de Ringo. A última coisa que me lembro quando olho no espelho é de um pistoleiro mexicano."

"OK Rick. E quanto àquele negócio, já decidiu?"

"Mamãe acha melhor eu aceitar aquele o emprego de fiscal de vigilância sanitária. Ela disse que eu sou um cara de muita sorte por conseguir passar nesse concurso."

"E a música, Ringo."

"Rick."

"Está bem. E a música, Rick?"

"Não vamos discutir isso de novo. Eu entendo tanto de música quanto você entende de corrida de cavalos."

"Mas você está ficando melhor. Ontem, em Mr. Moonlight você manteve o compasso até o final."

"Você está falando para me agradar."

"Não acho certo que você desista de um sonho."

Richard estava em dúvida. Se havia algo que ele detestava era decepcionar alguém. Sua mãe queria o emprego público, sua namorada queria a carreira artística. No entanto, Richard planejava levar Maureen a um drive-in naquela noite. Se a desapontasse, poderia ter que ficar em casa ouvindo um concerto da BBC ao lado de sua mãe.

"Está bem, vou tentar mais um pouco na música. Ano que vem vão abrir outro concurso mesmo."

"Eu te amo, Ringo."

"Não me chame assim, eu detesto apelidos ridículos."

Por Torero às 14h09

25/07/2009

Novas e mais criativas tarifas

 
 

Novas e mais criativas tarifas

(Só para não passar em branco, publico hoje um textinho antigo, que não tem nada a ver com futebol. Certa vez um banco me pediu um texto para seu jornal interno, ofereci este, mas estranhamente não foi aceito.)

 

Já faz algum tempo que o Conselho Monetário Nacional (CMN) liberou a cobrança de tarifas pelos bancos, mas até agora os bancos não utilizaram essa liberdade em todo seu potencial. Talvez por falta de criatividade. Se é assim, deixarei aqui algumas humildes sugestões:

a-) Sobre uso do cartão: R$ 1,00 por ocasião.

b-) Sobre uso do cartão para retirada de saldo: Tarifa (A) + R$ 1,50

c-) Sobre a retirada de extratos: Tarifa (A) + (B) (o extrato não deixa de ser um saldo) + R$ 3,55.

d-) Sobre cheques emitidos: R$ 1,35.

e-) Sobre uso do estacionamento: R$ 1,50 por hora (ops!, esse já existe!)

f-) Sobre conversas com o gerente: R$ 5,50 a cada meia hora (se o cliente ocupar uma cadeira, soma-se a esse valor a Tarifa (E).

g-) Sobre permanência de crianças, esposas e acompanhantes em geral no interior da agência: R$ 1,50 a cada quinze minutos.

h-) Sobre dúvidas sanadas no interior da agência: R$ 3,25.

i-) Sobre o uso da porta giratória: R$ 0,75.

j-) Sobre uso do banheiro da agência (gastos de saneamento): R$ 12,00

l-) Sobre espirros dados no interior da agência (gastos com limpeza e manutenção): R$ 3,50.

m-) Sobre consultas para aplicações: Tarifa (H) + (F) + R$ 5,00.

n-) Sobre pagamentos de contas no horário do almoço: R$ 1,25.

o-) Sobre preenchimento errado de guias: R$ 0,90.

p-) Sobre permanência no caixa: R$ 0,12 por minuto.

q-) Sobre canetas emprestadas pelo caixa: Tarifa (P) + R$ 0,30.

r-) Sobre uso dos serviços telefônicos: R$ 2,25.

s-) Sobre uso do ar condicionado: R$ 0,10 por entrada na agência.

t-) Sobre transmissão de música ambiente: R$ 0,15 por entrada na agência.

u-) Sobre transmissão de energia negativa para os funcionários: R$ 2,20.

v-) Sobre expressões de aborrecimento na fila: Tarifa (U) + R$ 1,15.

x-) Sobre recusa de seguro de vida: R$ 2,80 mensais.

Pode ser que a população reclame dessas novas tarifas, não reconhecendo o direito de cobrar-se por um bom serviço prestado. Para esse caso guardei a tarifa “z”, que pode vir a ser a grande fonte de renda dos bancos:

z-) Sobre reclamações sobre as novas tarifas: R$ 25,55.

Por Torero às 11h19

28/02/2009

O mundo se curva ao Jardim Irene

 
 

O mundo se curva ao Jardim Irene

(Publicado originalmente em 1 de julho de 2002, logo depois da conquista daquela Copa, e republicado aqui por sugestão de Gilmar, de São Paulo)

 

Penta leitor, penta leitora, eu vos pergunto: qual o melhor momento desta conquista? E eu vos respondo: para mim, o melhor momento foi a comemoração.

Ali, depois de ter vencido o principal evento esportivo do planeta, depois de ter superado o país mais poderoso da Europa, o Brasil mostrou um pouco de sua alma, um pouco do que faz dele um país tão especial.

Edílson vestindo uma saia improvisada, Edmilson com sua camisa evangélica, Vampeta de camiseta toda rabiscada, Roque Júnior de boné, os jogadores usando a bandeira como capa, aquela esculhambação toda foi um retrato de um país que tem seu próprio jeito de ser.

Aquela festa sem modos, sem respeito a protocolo, funcionou como uma terapia coletiva. Quem tinha algum complexo de inferioridade em relação ao resto do mundo, pode esquecer.

E não paramos por aí. Nosso capitão não se contentou em ficar atrás do púlpito. Montou sobre ele como se fosse um caixote de feira e ali, acima de Pelé, Blatter, Beckenbauer e Teixeira, levantou a taça. Aquele improviso foi a cara da seleção, que venceu graças à invenção, ao talento, ao inusitado.

E talvez a síntese disso tudo seja o que Cafu escreveu em sua camisa: "100% Jardim Irene", que é o nome do humilde bairro da zona sul de São Paulo em que ele nasceu. Enfim, hoje a capital do mundo não é Paris, nem Londres, nem Berlim, nem Jerusalém, nem Meca, nem Tóquio. É o Jardim Irene.

Por Torero às 00h51

24/01/2009

Festa em Los Angeles é para pessoas comuns

 
 

Festa em Los Angeles é para pessoas comuns

(Como a leitora Érika pediu, coloco aqui o texto que fiz quando estive na premiação do Oscar (eu fui um dos roteiristas do curta "Uma história de futebol"). O texto foi pulbicado na Folha de S.Paulo em 27 de março de 2001)

Caro leitor , caso você algum dia vá parar na festa do Oscar, deixo-lhe aqui algumas impressões que podem ser úteis. Digo-lhe, que você começa a sentir o clima da festa quando coloca o seu smoking (o meu foi alugado por R$ 165! e nem era um dos mais caros). Aí, depois de conter o riso ao se olhar no espelho, você vai para o Shrine Civic Auditorium e será uma das 5.800 pessoas que assistirão ao Oscar ao vivo.

Chegando ali você vai encontrar um congestionamento diferente, de limusines. São centenas. Algumas brancas, a maioria negra, todas muito compridas e caras (para o dia do Oscar, elas custam US$ 100 por hora e são alugadas por nove horas). Durante esse congestionamento, você vai ver alguns fãs malucos. Havia, por exemplo, uma Marilyn, um Super-Homem e, é claro, um Jesus Cristo, que benzia todos os carros.

Então desce-se da limusine e os porteiros já começam a pedir seu bilhete. É o papel mais caro que já me caiu nas mãos. No câmbio negro, um ingresso atinge o preço de US$ 2 mil, o que me deixou tentado a ver a festa pela TV.

Depois de mostrar seu bilhete, você vai pisar no glorioso tapete vermelho. Mas a frequência do "red carpet", como dizem os americanos, não é tão nobre assim. Ele é pisado por pés bem comuns. Os famosos são poucos. Não há nada mais equivocado do que pensar que o Oscar é uma festa na qual só vão beldades e celebridades. Tanto que eu estava lá.

A maioria das pessoas que vai à festa do Oscar é uma gente comum, provavelmente parentes ou profissionais secundários nas empresas cinematográficas. Se você der uma olhada em volta enquanto está entrando no Shrine, terá a impressão de que está entrando num baile de debutantes. Com a desvantagem de que há mais mães do que filhas.

As roupas também não são lá grande coisa. Só umas poucas exceções usam Chanel, Prada, Gucci e Valentino. A maioria parecia usar uma roupa feita pela costureira do bairro. Mas, para não dizer que não falei das flores, digo que as bebidas são de primeira, em especial os vinhos. Porém os salgadinhos, que foram feitos por um tal de Wolfang Puck, uma mistura local de Laurent com Ofelia, deixam muito a desejar.

Depois de passar pelo "red carpet", você vai sentar no seu lugar. O meu era bem longe do palco. Provavelmente um espaço reservado para concunhados dos genros das sogras da tia-avó dos assistentes de produção. Fiquei no terceiro e último andar, de modo que, para ver Steve Martin, eu tinha de apertar bem os olhos e ter um pouco de imaginação. Para quem quisesse, havia uns binóculos à venda por US$ 10. Mas preferi olhar para um dos dois telões que ficavam dos lados do palco. Mesmo lá, vendo o Oscar ao vivo, o melhor era assistir pela TV.

Logo que começa a premiação, já podem ser vistos os primeiros derrotados indo ao bar. Mas agora as bebidas eram pagas. E bem pagas. Um refrigerante custava US$ 3. Num baile de debutante, pelo menos, a bebida é grátis.

Essas coisas podem fazer você pensar que não há vantagem em ver o Oscar de perto. Talvez seja verdade, mas há uma diferença importante. Quando se vê ao vivo os atores e apresentadores, os premiados e os perdedores, a equipe de filmagem e o público, se vê que o show é menos perfeito do que se pensa. Ao vivo ele perde muito de sua aura, de seu glamour, e se torna uma festa em que não há só beldades, mas também, e principalmente, gente normal, com ares de tia, de primo, de vizinho.

Depois da premiação, há uma grande aglomeração, pois todos querem pegar suas limusines. A saída do teatro fica parecendo o metrô da Sé, com a diferença de que todos estão bem vestidos.

Mas o chato mesmo é que o filme no qual trabalhei perdeu. E nestes momentos há que ser maduro e adulto. Por isso, amanhã, vou à Disneylândia.


 

Por Torero às 20h42

06/12/2008

O maior atleta do ano

 (Atendendo a sugestão do leitor José Carvalho, de Mogi Guaçu, republico aqui um texto que publiquei na Folha de S.Paulo em 28/12/99)

 

Qual o maior atleta brasileiro deste ano?

Há vários candidatos. No automobilismo há Rubens Barrichello, no futebol temos o corintiano Ricardinho, o atleticano Guilherme, o gremista Ronaldinho e os exilados Rivaldo e Jardel.

Mas não podemos esquecer dos outros esportes. No iatismo houve Robert Scheidt, no atletismo, Claudinei Quirino, no vôlei de praia, Shelda, no basquete, o eterno Oscar ajudou o Flamengo a conquistar o Estadual do Rio e o técnico Hélio Rubens levou a seleção ao ouro nos Jogos Pan-Americanos.

Além disso, Rodrigo Pessoa, no hipismo, terminou o ano em primeiro no ranking, Popó conseguiu um título mundial no boxe e Kuerten firmou-se como nosso maior tenista de todos os tempos.

Mas eu lhes pergunto: Como comparar esportes tão diferentes? E eu lhes respondo: com objetividade e método!

Primeiro devemos pensar em qual é a principal função do esporte. Se fosse dinheiro, nosso atleta do ano provavelmente seria Ronaldo. Mas o principal objetivo do esporte é dar saúde aos seus praticantes. Então consultei alguns médicos, e eles foram unânimes. Nesse quesito, o melhor esporte é a natação.

Mas há várias modalidades de natação, e temos que escolher apenas uma.

Como o esporte é também um desafio às regras da natureza, creio que a modalidade de natação que mais claramente enfrenta as forças naturais é aquela que acontece em águas abertas, que faz suas provas em rios e mares.

Mas esse tipo de prova é dividido em provas rápidas, de 1 km, e de resistência, com 6 km. Qual delas escolher? Fico com a de velocidade, já que, mesmo na de resistência, vence quem chega primeiro. Mas resta ainda uma questão: a natação é dividida em várias categorias quanto à idade, e qual seria a mais adequada a este escrutínio?

Creio que o tal atleta deve estar no mais perfeito equilíbrio entre intelecto e físico. Como depois dos trinta começa nossa decadência física e só depois dos quarenta é que atingimos a plenitude de nosso intelecto, fiquemos com a média aritmética: 35 anos, o que em natação significa a categoria Master C.

Fui então até o site do principal torneio de águas abertas do país (www.maratonaaquatica.com.br) para ver quem havia se sagrado campeão este ano na categoria Master C.

Caros leitores, nem posso expressar o tamanho de minha surpresa ao ver o nome que lá estava: José Roberto Torero Fernandes Júnior. Ou seja, eu!

Sei que alguns dirão que fiz um raciocínio cabotino só para chegar a esta conclusão, mas quem pensar assim será um leitor maldoso, desses que já não crêem na beleza da alma humana, desses que acham que a vereadora Maria Helena é culpada ou que Pitta está envolvido no caso dos precatórios. Porém, a verdade é que sou tão inocente quanto eles.

O que conta é que agora, como principal atleta do país, já posso pensar na coisa mais importante para um esportista, que não são medalhas ou recordes, mas patrocínio. Creio que anunciarei duas revistas em meu calção. Na parte da frente estará escrito ""Veja". E na de trás, obviamente, ""Bundas".

Se bem que posso fazer o inverso, pois não são poucos os que acham a ""Veja" uma revista bundona e a ""Bundas", do cacete.

Por Torero às 13h01

29/11/2008

Meu primeiro texto

Meu primeiro texto

[Conforme a sugestão do leitor Thiago Esteves Nogueira, publico aqui a minha primeira coluna. Ela foi escrita para o JT, onde comecei a escrever  no final de 94 no Caderno de Cultura (mas logo de cara já falei de futebol). Depois, quando passei para a Folha, em janeiro de 98, refiz a crônica, trocando Clarice Lispector pelo Padre Vieira, e também a usei como texto inicial. Mais tarde, em 2001, quando ela saiu no livro "Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso", troquei mais uma ou outra palavra (lembro que foi então que coloquei Rivaldo, Robnaldo e Romário). Enfim, é o meu primeiro texto, mas com alguma plástica.  

 

Dize-me quem escalas e te direi quem és

A seleção de cada torcedor funciona como uma espécie de espelho. Assim, se ele escolhe um meio-campo formado por Dunga, Galeano, Mauro Silva e César Sampaio, fica evidente que se trata de um precavido, talvez até de um covarde. Por outro lado, se propõe um ataque com Rivaldo, Ronaldinho e Romário, estamos na frente de um ousado, de um destemido. Se a linha é Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, falamos com um saudosista, e se a defesa conta com Carlos Alberto, Figueroa, Domingos da Guia e Nílton Santos, estamos ao lado de um amante dos clássicos.

Convencido de que escalar uma seleção seria a forma ideal de me apresentar ao leitor, pus o cérebro para trabalhar e escolhi meus onze jogadores preferidos:

Goleiro: Drummond. Um grande time começa por um grande goleiro. Drummond nasceu em Itabira, mas atuou longo tempo no Rio de Janeiro. Ele traz segurança e tranqüilidade para o resto da equipe. É elástico e seguro, dono de um estilo que marcou época e fez seguidores.

Lateral direito: Bandeira. O pernambucano merece a posição apesar dos problemas respiratórios. Lateral direito de inegável leveza, caracteriza-se por criar jogadas aparentemente simples, mas que só parecem tão simples porque ele faz um complexo trabalho para descomplicá-las.

Zagueiro central: Érico. Central tem que ser gaúcho. Érico, além de ter nascido em Cruz Alta, é um beque polivalente: joga com qualquer tempo e vento. Pode atuar com aspereza e rudeza, ou sair jogando com maleabilidade e graça. Assim como outro central, Domingos da Guia, também possui um filho de inegável talento.

Quarto zagueiro: Nelson Rodrigues. Essa é uma posição onde é proibido ter falsos pudores; tem que se chutar a bola para a arquibancada e, se preciso for, deixar o inimigo estatelado no chão com fratura exposta. É o caso de Rodrigues, um jogador de moral polêmica. Alguns críticos mais ácidos dizem que ele cai muito pela direita, mas trata-se de um defeito menor que suas qualidades.

Lateral-esquerdo: Vieira. Começou a carreira timidamente, mas um dia teve um estalo e passou a jogar como que inspirado pela luz divina. Seu estilo é lógico, mas também grandiloqüente. Às vezes traça caminhos tortuosos, mas sempre chega ao seu objetivo. De todos os convocados é o único Atleta de Cristo.

Médio volante: Gregório. Um bom cabeça-de-área tem que saber xingar a mãe do adversário de doze formas diferentes. Gregório conhece 118. Não é à toa que o apelidaram de Boca do Inferno. Perguntado sobre as violentas faltas que comete, diz que são para a glória de Deus, pois, “quanto maior o meu pecar, maior a graça d’Ele em perdoar”. Não raro, elabora firulas e gongorismos que surpreendem a torcida.

Meia-direita: Mário. Um ponta-de-lança tem que ser ao mesmo tempo clássico e inovador. Mário consegue as duas coisas: sabe estudar o jogo e inventar lances com a mesma competência. Pode-se dizer que é um clássico de vanguarda.

Meia-esquerda: Machado. A nobre camisa dez não poderia ser vestida por outro. Excelente nos lançamentos em profundidade, é um especialista nos dribles sutis e no toque refinado. Estranhamente, está sempre com um riso nos lábios. Não se sabe, contudo, se ri dos inimigos, de si mesmo ou do público.

Ponta-direita: Guimarães. É um inventor. Guimarães cria dribles e ziguezagueia pelos campos gerais como ninguém. Seus lances são inesperados, como se ele sempre tivesse que criar um caminho pró¬prio. Aprendeu tudo que sabe na várzea, mas seu jogo é universal.

Centroavante: Oswald. Um centroavante deve ser imprevisível, e imprevisibilidade é a única coisa previsível em Oswald. Seu jogo é feito de toques curtos e dribles em pequenos espaços. Tem um temperamento difícil e costuma polemizar com os adversários. É um típico rompedor.

Ponta-esquerda: Graciliano. Vindo de Quebrângulo, Alagoas, este extrema-esquerda é dono de um estilo duro, sisudo e seco. O torcedor sempre pode esperar dele um jogo consistente e seguro. Odeia concentrações e pretende escrever um livro de memórias condenando essa prática.

Obs.: Obviamente esta seleção de imortais conta apenas com jogadores defuntos, o que deixou de fora vá¬rios nomes. Em meu banco de reservas estão Verissimo, Ubaldo, Millôr e Fonseca. São grandes atletas, mas desconfio que não têm muita pressa em entrar nesse time.

(PS: Relendo agora o texto, deu-me vontade de trocar um dos selecionados. Ficaria mais ou menos assim: Centroavante: Amado. O jogador baiano é adorado pela torcida, mas um tanto desprezado pela crítica esportiva. Porém, é inegável que sabe prender como poucos a atenção dos zagueiros e do público. O excesso de acarajé compromete um pouco a sua forma. Começou a jogar na praia, onde ficou conhecido como o capitão da areia.

 

Por Torero às 09h39

08/03/2008

O mais nobre dos esportes

O mais nobre dos esportes

O homem mais rico do mundo queria saber qual era o mais nobre dos esportes e, para isso, chamou três sábios: um da Chi¬na, porque a China é o berço da sabedoria; outro da França, porque a França é o berço da ciência; e outro dos Estados Unidos, que não são o berço de coisa nenhuma mas ganham muitas medalhas nas Olimpíadas.

Logo que os três sábios chegaram à casa do magno magnata, este lhes perguntou: “Senhores, qual o mais nobre dos esportes? Aquele que me convencer receberá um pote de ouro.”

Então o chinês disse: “Honorável senhor, em todos os esportes há nobreza, mas em nenhum outro há mais do que no xadrez. Ele é um jogo de estratégias e inteligên¬cias, onde mais conta o cérebro do que qualquer outra coisa. O xadrez é o esporte do intelecto.” Depois, satisfeito com suas próprias palavras, sentou e tomou seu chá.

Então o francês falou: “Monsieur, nenhum esporte se compara à esgrima. Na esgrima treinamos pontaria e rapidez, defesa e ataque, reflexos e precisão. É um esporte onde todo o corpo é chamado a agir, e por isso é o esporte da habilidade física.” Depois, satisfeito com suas palavras, sentou e tomou seu vinho.

Então o norte-americano rosnou: “Mister, o xadrez e a esgrima são okeis, mas o mais nobre mesmo é o pôquer, que exige dissimulação e farsa, psicologia e trama. Ele não é jogado apenas com o corpo e o cérebro, mas também com a alma. É o esporte do controle emocional.” Depois, satisfeito, sentou e tomou sua Diet Coke.

O homem mais rico do mundo disse que precisava de algum tempo para pensar sobre aqueles profundos arrazoamentos, e, como pensar dá fome, pediu uma pizza pelo ¬telefone.

Quando o entregador chegou com a pizza, o homem mais rico do mundo, só por brincadeira, resolveu lhe perguntar qual era o esporte mais nobre: o xadrez, a esgrima ou o pôquer. O entregador não se fez de rogado e disse: “Esses três esportes são importantes, mas o mais nobre de todos é o futebol de botão.”

Os três sábios caíram na gargalhada, mas o entregador permaneceu imperturbável.

“Vejam, o futebol de botão é uma síntese do conhecimento humano. Ele necessita de movimentos estratégicos como o xadrez; pede pontaria, reflexos e precisão como a esgrima — e requer autodomínio como o pôquer. O futebol de botão, senhores, é o único esporte onde são necessários intelecto, habilidade física e controle emocional. Tudo ao mesmo tempo e em igual proporção.”

Todos ficaram boquiabertos com tais idéias e as aplaudiram com entusiasmo.

O entregador então fez uma partida de botão com cada um dos presentes para celebrar a mais nobre das artes. Ele venceu o chinês por 8 a 0, goleou o francês por 9 a 0 e deu de 10 a 0 no norte-americano. Estranhamente, porém, perdeu de 1 a 0 para o anfitrião; e com um gol contra.

O homem mais rico do mundo ficou tão feliz com a inesperada vitória que não deu apenas um pote de ouro ao entregador de pizza, mas também a mão de sua linda filha e única herdeira.

E a moral dessa fábula esportiva, se é que há alguma, é que é bom ser sábio, mas melhor ainda ser sabido.

*Do livro "Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso".

Por Torero às 16h59

20/05/2006

O último sábado do criolo doido

O último sábado do criolo doido

Como está chegando a Copa, este é o último “Sábado do Criolo Doido”.

 

Fiquei em dúvida sobre qual livro falar nesta despedida. E fiquei em dúvida entre dois livros: “Memórias póstumas de Brás Cubas”, do Machado de Assis, e “Grande sertão: veredas”, do Guimarães Rosa.

 

Hoje em dia pouca gente lê esses livros por prazer. A maioria lê porque o professor manda, por causa do vestibular, coisas assim. Mas a verdade é que são dois livros deliciosos.

 

Memórias Póstumas é uma comédia elegante, onde um defunto conta a sua vida, e aí, como ele é um defunto e já não deve nada para ninguém, pode falar de si mesmo e dos outros sem medo, fazendo um grande raio-x da alma humana.

 

O Machado criou um narrador que, de certa forma, fala em primeira e terceira pessoa ao mesmo tempo.

 

Há capítulos curtíssimos, capítulos só com pontos, sem nenhuma palavra, e um humor fino. A história é simples: uma traição. Mas o humor com que ele revela a psicologia dos personagens é que é o charme do livro.

 

O curioso é que, cada vez que você lê o “Memórias Póstumas...”, ele fica melhor. Li aos 18 e achei bacana, aos 25 achei excelente, aos 35 achei sensacional e daqui a pouco vou lê-lo de novo. Deve estar melhor ainda.

 

Já o “Grande sertão: veredas” tem uma construção de linguagem sensacional, e talvez seja o melhor livro já escrito em português, se é que ele é escrito em português.

 

 E eu digo isso porque o Guimarães Rosa faz os seus personagens falarem numa língua diferente, quase inventada. Nas primeiras páginas você vai achar estranho, mas continue lendo mesmo assim. Depois de umas trinta páginas você se acostuma e aprende aquela língua que tem uma musicalidade inacreditável.

 

Uma coisa engraçada que me aconteceu durante a leitura deste livro é que às vezes eu relia uma página logo depois de lê-la, de tão pasmado que ficava. Ou então me sentia tão contente depois de ler um capítulo que tinha que dar uma volta para espairecer. É um livro impressionante, tanto que eu nunca tive coragem de lê-lo outra vez. Talvez seja inveja. Freud explica.

 

Enfim, acho que ninguém que fala português pode morrer sem ter lido estes dois livros.

Por Torero às 07h27

13/05/2006

Dois livros e um filme

Dois livros e um filme

 

 

 

Tristram Shandy

 

Se eu fizesse uma lista dos dez livros que mais me impressionaram na vida, nessa lista entraria, em lugar de destaque “As idéias e as opiniões do cavaleiro Tristram Shandy”.

Ele foi escrito por volta de 1740 pelo Lawrence Sterne, um pastor inglês. Isso pode dar a idéia de que é um livro antigo, com uma linguagem antiquada, uma história que se arrasta, etc... Nada mais errado. É um livro sensacional. Bem humorado e com idéias formais revolucionárias.

Ele conta a história do Tristram Shandy em primeira pessoa, ou seja, é uma falsa autobiografia. O Sterne foi escrevendo este livro aos poucos, lançando um volume a cada dois, três anos. E é uma autobiografia tão diferente que ele só vai nascer ali pelo terceiro volume.

O livro tem mais de 250 anos, mas tem invenções que até hoje são impressionantes. Por exemplo, ele coloca uma folha toda negra para mostrar que está triste, muda o número das páginas e faz breques na narrativa para introduzir pensamentos, coisa que o Machado de Assis vai fazer 150 anos depois.

A tradução, feita pelo José Paulo Paes, é ótima. Para mim, o Tristam Shandy merece estar na mesma estante que a Divina Comédia, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Quixote, Em busca do Tempo Perdido e Grande sertão: veredas.



2001  

 

“2001, uma odisséia no espaço” é um clássico. Mas o que faz de um filme, um clássico? Bom, primeiro, ele tem que ser muito bom. Mas muito bom mesmo. A ponto de ele se tornar um paradigma, um exemplo a ser imitado. E depois ele tem que trazer alguma coisa de novo, porque um clássico, quando aparece, tem sempre algo de vanguarda. E o 2001 tem estas características: é um filme excelente, é um paradigma no gênero e trouxe inovações. Sem falar que tem a maior elipse de tempo da história do cinema, que é quando um dos macacos atira um osso para cima e ele se transforma numa estação espacial. Com esse corte, o Kubrick faz uma passagem de centenas de milhares de anos.

Uma coisa curiosa é que o filme não ficou velho. O que é incrível, porque ele é de 1968, mas pode ser visto hoje em dia sem o menor problema. De certa forma, isso acontece porque ele foi o fundador da estética futurista, e os outros filmes são seus seguidores.

Para ajudar a ver, a entender e para aproveitar melhor o filme, tem um livrinho muito bom do crítico Amir Labaki só sobre o 2001. Foi editado naquela coleção Folha Explica e custa só 14 reais.

Se você gosta de ficção científica, ou de cinema, 2001 é um filme obrigatório.

 

 

 

Galvez, o imperador do Acre

 

“Galvez, o imperador do Acre” é um romance histórico que fez muito sucesso ali em meados dos anos setenta. Muito mesmo. Vendeu mais de meio milhão de exemplares. E foi um sucesso merecido. É um livraço! Engraçado e inteligente, com um ritmo rápido, daqueles que você vai virando as páginas a duzentos por hora. Já virou peça, o Hector Babenco já quis filmar a história e o livro foi um sucesso internacional.

Ele tem um formato de narrativa próximo do folhetim, mas um folhetim meio modernista, com capítulos muito curtos e muita ação. Mas, além de todo esse humor e toda essa ação, o leitor ganha de brinde uma certa reflexão sobre a América Latina.

O livro foi escrito pelo Márcio Souza e conta a história do Galvez, que é um pícaro, uma espécie de malandro, que vivia na Amazônia do fim do século dezenove, no auge do ciclo da borracha. Esse Galvez é um ninguém, um pobre-coitado, mas, por conta de algumas sortes, alguns azares e de alguma esperteza, acaba como imperador do Acre.

Este livro vai fazer trinta anos, mas envelheceu muito bem. E envelhecer bem não é difícil só para as atrizes. Para os livros, também não é fácil. Mas  “Galvez, o imperador do Acre” conseguiu.

 

Por Torero às 07h27

Convite

Convite

Nesta segunda-feira, a partir das 19h30, em São Paulo, no Bar São Cristóvão (rua Aspicuelta, 533, Vila Madalena), será lançado o livro "11 histórias de futebol", composto por onze histórias escritas por onze sujeitos diferentes, entre eles, eu. Quem puder, apareça (não pelo livro, claro, mas porque a caipirinha do São Cristóvão é ótima).

Por Torero às 07h27

06/05/2006

Um livro, um livrinho e um livrão

Um livro, um livrinho e um livrão

 

O Anatomista

No futebol, Brasil e Argentina são rivais tremendos. E na literatura não é muito diferente. Eles têm Borges e Maradona, a gente tem Machado de Assis e Pelé, eles têm Di Stéfano e Cortázar, a gente tem Garrincha e Guimarães Rosa. A diferença da literatura para o futebol é que, na literatura, todo mundo sai ganhando. Quanto mais escritores bons, melhor, inclusive para nós, brasileiros.

E um ótimo escritor argentino foi publicado agora no Brasil. O nome dele é Federico Andahazi e ele escreveu “O Anatomista”. É a história de um médico do Renascimento, o Mateo Colón, que descobre uma parte muito importante da anatomia feminina: o misterioso clitóris (que, aliás, para muitos continua um mistério até hoje).

O problema é que Mateo Colón é um abade, um religioso. E aí, é claro, isso vai provocar alguns problemas para ele, inclusive um processo pela inquisição. Para não enganar o leitor, já aviso que esse não é um romance erótico, apesar de ter uma ou outra cena de sexo.

É um livro com trama, com bons personagens, que mistura prostitutas e papas. O Anatomista foi um grande sucesso nos países de fala espanhola e foi editado aqui pela LP&M, naquela coleção de bolso, e custa só 15 reais. O preço de um ingresso de futebol.

 

 

PS: Beijei

Ninguém fala de livros para adolescentes ou pré-adolescentes. Ninguém. Se você tem entre 11 e 16 anos, a coisa mais difícil vai ser encontrar a crítica de um livro para você. E não é porque a turma dessa idade não goste de ler. Taí o Harry Porter, o maior sucesso editorial do mundo, que prova justamente o contrário. A verdade é que os críticos não gostam de ler este tipo de livro, e aí não escrevem sobre eles.

O adolescente é faminto por livros, mas, como não existe uma crítica voltada para eles, acabam lendo só os paradidáticos indicados pela escola, o que é uma pena. É como se você só pudesse ver TV Educativa.

Por isso hoje eu vou indicar um livro para essa turma. Ou melhor, para as meninas dessa turma. Ele se chama “PS: Beijei” e foi escrito por duas pessoas: Mariana Veríssimo e Adriana Falcão. E ele foi escrito por duas pessoas porque o formato dele pedia isso: é que o livro tem o formato de uma troca de emails entre duas meninas.

A trama, onde tem um tanto de romance, é bacana e o final é cheio de surpresas. Sem falar que mostra bem como é o raciocínio adolescente feminino, o que em si já é um grande feito.

Se você tem entre 12 e 16 anos, o “PS: Beijei” é um bom jeito de você gastar sua mesada.

 

 

Viva o povo brasileiro

Caros blogleitores, eu vos pergunto: Que livro será um clássico daqui a cinqüenta anos? E repergunto: Que livro vai ser obrigatório nas escolas de amanhã? O meu palpite é “Viva o Povo Brasileiro”, do João Ubaldo Ribeiro.

Ainda é um livro novo, só com vinte anos, mas é um daqueles livros fortes, cheio de invenções, e ainda por cima com uma excelente história.

É um livro grande, com quase setecentas páginas, mas o esforço vale a pena. Tanto que no final você vai achar que ele devia ser ainda maior.

O livro conta a história de várias gerações de brasileiros, e tem algumas páginas sensacionais, como uma guerra que o João Ubaldo conta através dos orixás, ou o assassinato de um senhor de engenho que é morto por seus escravos de um modo muito diferente: eles provocam uma tremenda prisão de ventre no coitado.

A primeira vez que eu tentei ler o livro, desisti ali na página vinte. Mas na segunda vez eu passei da vinte e aí fui até o fim. E tem livro que é assim mesmo: você tem que pagar uma espécie de pedágio para poder entrar no livro. O “Grande sertão: veredas” é assim, o “Em busca do tempo perdido” é assim, e até “O nome da Rosa” é assim.

Eu garanto que, no caso de “Viva o povo brasileiro”, esse pedágio é muito barato e vale a pena.

Por Torero às 07h07

22/04/2006

Dois filmes e um livro

Dois filmes e um livro

 

O último jantar

“O último jantar” não foi um grande sucesso no Brasil. Pelo contrário, foi um pequeno fracasso. Mas que eu achei um filme excelente, com um ótimo roteiro, feito com um humor negro e inteligente. Ele pode ser encontrado em qualquer boa locadora, mas só em VHS. De qualquer forma, é um desses filmes que vale a pena garimpar.

Foi dirigido pela Stacy Title e fez muito sucesso no Sundance, aquele festival de cinema independente promovido pelo Robert Redford. “O último jantar” tem esse nome porque conta a história de um grupo de amigos que convida pessoas para jantar e acaba matando estes convidados. Mas estes convidados têm uma coisa em comum. São todos extremistas.

O filme tem um final surpreendente, mas, é claro, eu não vou contar nada para não estragar a surpresa. No elenco, o destaque é a Cameron Diaz, que hoje é uma pop star mas que em 1996 ainda não era conhecida.

Enfim, “O último jantar” é um filme para aquela turma que gosta de comédias inteligentes, aquela turma que acha que o cinema pode ser uma coisa divertida, mas não necessariamente boba. Para aquela turma que acha que um filme não é só uma coisa que a gente vê enquanto come pipoca.

 

Matadouro cinco

Saiu por aquela coleção de livros de bolso da editora LP&M, um dos melhores livros que eu já li. Chama-se “Matadouro Cinco” e foi escrito pelo Kurt Vonnegut Junior. É um livraço! Inteligente, com um humor sutil, com uma estrutura narrativa muito interessante, onde a gente avança e recua no tempo, mas sem se perder. E o livro custa só quinze reais, quer dizer, o mesmo preço de um cineminha. Só que com várias vantagens. Um filme só te dá duas horas de diversão. Um livro dura muito mais. E também fica na nossa memória por mais tempo. Ainda mais nesse caso, porque Matadouro Cinco é um daqueles livros que se transformam em clássicos porque inventam uma nova forma de contar uma história. E esta nova forma tem duas características principais: o avanço e o recuo no tempo, e as micro-histórias que o autor vai espalhando pelo livro.

De certa forma, a estrutura do livro parece uma árvore de natal, com uma história principal, que é a árvore, mas com várias historiazinhas penduradas, que são as bolas de natal.

O Vonnegut faz isso nos seus outros livros, como Hócus-Pócus e Cama de Gato, que também são muito bons. Os livros dele estão esgotados há muito tempo. Tomara que a LP&M reedite os outros. Mas você já pode ler seu livro mais importante.

 

Bob Roberts

Tem dois tipos de filmes: ficção e documentário. Certo? Errado! Existe também o falso documentário. Ou seja, um filme que tem formato de documentário mas, na verdade, é uma ficção. É um tipo de filme que eu gosto muito, porque mostra como se pode manipular a verdade.

Nas locadoras você encontra poucos falsos documentários. Um deles é Bob Roberts. O filme é de1992, e o Tim Robbins é o diretor e o ator principal. Ele faz o papel de um cantor folk, uma espécie de Daniel, que está disputando a eleição para presidente dos Estados Unidos. E o filme é um documentário sobre a campanha desse tal Bob Roberts.

Os filmes políticos têm sempre o risco de serem chatos, de ficarem abaixo do que a gente vê no noticiário, ainda mais em tempos de Zé Dirceu e Roberto Jefferson. Mas este filme é uma comédia ácida, muito inteligente e bem dirigida, apesar de ser o primeiro filme do Tim Robbins como diretor.

O personagem Bob Roberts nasceu num esquete do programa "Saturday Night Live", em oitenta e seis. Outra coisa curiosa é que, no filme, o Gore Vidal, um dos maiores romancistas americanos vivos, faz uma ponta como ator. Enfim, se você quer ver um falso documentário de verdade, veja o Bob Roberts. Aí você vai ver que a verdade é que não existe verdade, não é verdade?

Por Torero às 07h04

15/04/2006

As duas melhores coisas do mundo - 1

As duas melhores coisas do mundo - 1

Numa erudita tertúlia travada com alguns filósofos no botequim da esquina de casa, chegamos à conclusão de que as duas melhores coisas do mundo são futebol e comida (a TV ficou em terceiro, e o sexo, no quarto, que, pensando bem, é o seu lugar).

Foi então que Nietzsche (o português dono do bar, que recebeu o apelido pelo seu vasto bigode) disse que o melhor mesmo era juntar os dois e comer no estádio. Nietzsche recebeu uma salva de palmas, e eu, tendo como desculpa a abertura do Brasileiro, me lancei na incumbência de fazer uma reportagem sobre comida nos estádios pelo país.

O primeiro que visitei foi o Arruda, no Recife, casa do Santa Cruz. Comecei com o pé direito, porque ali há uma grande variedade de acepipes, alguns muito bons. Se o time é de Série B (que também começa hoje), o cardápio é de Série A. O Arruda é uma espécie de Fasano dos estádios.

Antes de entrar no "Gigante da rua das moças" já se pode forrar o estômago nas barraquinhas. Aliás, a qualidade e o capricho mudam muito de uma para outra.

O salsichão em espiral é bem interessante (R$ 0,50), assim como os bons espetinhos de carne entremeados de cebola (R$ 1 a R$ 1,50) e os espetos mistos (vaca, frango e linguiça, R$ 1,50). Para os vegetarianos, há uma boa salada de fruta e, é claro, o tradicional queijo coalho (R$ 1 e R$ 1,50).

Já os mais corajosos podem enfrentar as asinhas de frango (um tanto desconfiáveis, R$ 0,25) e, principalmente, as largas fatias de fígado de boi (R$ 0,50). Eu, confesso, refuguei. Mas havia uma boa aceitação entre os locais.

No estádio, a variedade continua. Só de amendoim há três tipos: sem casca, com casca e cozido (todos a R$ 0,50 ou 3 por R$ 1). Já o saquinho com ovos de codorna sai por R$ 1. Os sorvetes (marca Só Mel, R$ 0,25) também possuem sabores diferentes dos do Sul, como graviola e cajá.

Os frequentadores dizem que há também roletes de cana (vendidos em tabuleiros, enfiados em palitinhos), mas são mais encontrados nos jogos vespertinos. Para meu azar, fui ao Arruda à noite.

Na região das sociais há uma certa sofisticação. Ambulantes oferecem doses de Johnie Walker e Teacher's por R$ 2. Há espetos de coração (raros na arquibancada), e o coalho vem com orégano.

Para os que conseguirem controlar a fome, na saída os preços em geral caem pela metade. E ainda mais em caso de derrota. Segundo os ambulantes do Arruda (que pagam R$ 15 para entrar no estádio), a vitória dá fome.

(continua no post abaixo)

Por Torero às 07h18

As duas melhores coisas do mundo - 2

As duas melhores coisas do mundo - 2


Sem peixe


Homenagem prestada, falemos agora da Série A. Começando pelo começo, por quem já começou no campeonato: o Santos, que ontem pegaria o Botafogo em casa.

Na Vila Belmiro há um comércio tradicional nas ruas que cercam o campo: pipoca, sorvete, espetinhos e dogões. De diferente, uma salsicha com queijo. As barracas têm qualidades muito diferentes entre si e é bom dar uma espiada na higiene dos ambulantes.

Dentro da Vila, há boas opções. O sanduíche de carne assada da lanchonete (R$ 2,50) é bem respeitável. O molho é caprichado, com bastante cebola e alho. Outra opção é a linguiça (em três versões: com alho, apimentada e com queijo, R$ 2,50). Curiosamente não há peixe no estádio do Peixe.

Quem foi ontem ao Morumbi, para ver o São Paulo estrear contra o Paysandu, pôde degustar as calabresas das barracas ao redor do estádio. Alguns vendedores dizem trazê-las de Bragança. Verdade ou não, meu estômago diz que elas são bem aceitáveis.

em São Januário, que ontem viu Vasco x Figueirense, as coisas não são tão saborosas. O Rio tem uma grande e merecida fama de possuir ótimos botequins, onde são encontradas obras de arte, como o sanduíche de pernil e abacaxi do Cervantes ou o bolinho de aipim do Bracarense. Porém a tradição de bons petiscos não chegou ao estádio do Vasco.

Há algumas lanchonetes e nenhum prato diferente. O hambúrguer (R$ 0,50) é comível, mas sua carne é muito fina (no mau sentido). O joelho italiano (massa com presunto e queijo, R$ 1) é sólido demais, e os salgadinhos (coxinha, salsicha empanada, bolinho de carne, R$ 1) são medianos.

Podem-se encontrar alguns ambulantes que montam pequenas churrasqueiras e vendem salsichão e espetinho. Isso é proibido, mas um dos vendedores explicou sua presença: "Se tiver conhecimento, não tem problema".

Há também alguns produtos industrializados, mas as marcas são pouco conhecidas, como o biscoito de polvilho Sortilège (R$ 1), o guaraná Frutline (R$ 2) e um sorvete sem identificação, que os ambulantes chamam de Dragão Chinês (R$ 0,50, muito ruim). Para as partidas monótonas pode-se recorrer aos vendedores de café que ficam zanzando pelas arquibancadas com uma garrafa térmica (R$ 0,50). Sem Romário, eles devem ter mais trabalho neste ano.
No Mineirão, mesmo fora de campo já são encontradas algumas coisas curiosas. O cachorro-quente (R$ 1), por exemplo, usa aquela salsicha suspeita de sempre e aquela gama de molhos (mostarda, catchup, maionese, vinagrete, batata palha,...).

Mas não pára por aí. No rotidógui mineiro você ainda pode colocar frutas cristalizadas. É isso mesmo, aquelas coisas que vêm nos panetones. Não cheguei a experimentar, mas fiquei com a impressão de que as passas são um estranho no ninho. Mais ou menos como quando o Roque Júnior decide subir para o ataque: pode até dar certo, mas é perigoso.

(continua no post abaixo)

Por Torero às 07h17

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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