Colunas Folha
Copa dos Pesadelos (em .pps)

Torero e Pimenta
Blog do Juca
Blog do Lelê
Curtas-metragens
Rapadura de Humor
Caroço
Publishnews
Pelenet
Portal Literal
Trivela
Blog da Soninha
Charges
Rolo compressor

Sábado do criolo doido
Sempre aos domingos
Estórias das Copas

Receba as novidades deste blog



01/10/2008 a 31/10/2008
01/09/2008 a 30/09/2008
01/08/2008 a 31/08/2008
01/07/2008 a 31/07/2008
01/06/2008 a 30/06/2008
01/05/2008 a 31/05/2008
01/04/2008 a 30/04/2008
01/03/2008 a 31/03/2008
01/02/2008 a 29/02/2008
01/01/2008 a 31/01/2008
01/12/2007 a 31/12/2007
01/11/2007 a 30/11/2007
01/10/2007 a 31/10/2007
01/09/2007 a 30/09/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/04/2007 a 30/04/2007
01/03/2007 a 31/03/2007
01/02/2007 a 28/02/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006
01/06/2006 a 30/06/2006
01/05/2006 a 31/05/2006
01/04/2006 a 30/04/2006
01/03/2006 a 31/03/2006
01/02/2006 a 28/02/2006
01/01/2006 a 31/01/2006
01/12/2005 a 31/12/2005
01/11/2005 a 30/11/2005
01/10/2005 a 31/10/2005
XML/RSS Feed   O que é isto?

Dê uma nota para o blog
Leia este blog no
   seu celular


Este blog é atualizado às segundas, quartas e sextas antes do meio-dia.


Saiba quem é Torero
Estórias das Copas

1998 – Futebol é bom pra cachorro!

Eis um belo lugar para se viver, pensei quando desembarcamos em Paris.

Acho que ele concordava comigo, mas, talvez por causa de sua idade, trocou uma palavra da frase e disse: — Eis um belo lugar para se morrer.

O seu nome era Feijão. Dividíamos há dez anos um quarto no Méier e cada um conhecia a fundo as manias e rotinas do outro. Ele era o meu melhor amigo. Por ser um pouco mais jovem, cabia a mim acordá-lo, incentivá-lo a caminhar e agüentar suas crises de mau humor:

— Ah, Marcos Roberto — ele dizia. — O que seria de mim sem você?

Eu apenas inclinava a cabeça, assim como quem diz: — Ora, deixe pra lá... — Nunca soube reagir a elogios.

Feijão tinha já cem anos e não contava mais com sua companheira Noemi. Mas estava recuperado. Tanto que logo que chegamos a Paris ele procurou saber o destino de Coco, uma antiga namorada. Descobriu que ela agora morava em Sevilha, onde estava casada com um barbeiro chamado Piolho. Meu amigo pôs o telefone no gancho e suspirou com tristeza. Ele nunca soube viver sem mulheres.

Mas, afinal, ele não estava ali para tratar de amores, e sim para ver o Brasil pentacampeão. Uma das poucas pessoas ainda vivas a ter acompanhado o time na Copa de 1930, ele não queria abotoar o paletó de madeira antes de comemorar um título mundial. Por isso, vinha economizando cada centavo há muito tempo. Eu, que não gostava de futebol, achava aquilo um exagero. Bem, é como diz o ditado, cada cachorro sabe por que balança o rabo.

Quando ainda estávamos no Brasil, Feijão vivia dizendo aos amigos que a seleção tinha tudo para conseguir o título. Lá estavam os tetras Taffarel, Aldair, Dunga, Leonardo e Bebeto, além de Cafu, Roberto Carlos, César Sampaio, Rivaldo e, principalmente, o fenômeno Ronaldo. Na defesa havia um tal de Júnior Baiano, de quem Feijão não gostava muito, mas, como ele mesmo fazia questão de lembrar, nenhum time é perfeito.

No dia do jogo de abertura, contra a Escócia, saímos do hotel bem penteados e cheirosos, como se fôssemos a uma festa.

— Prepare-se, Marcos Roberto — ele disse. — Hoje você vai ver o primeiro passo de uma grande caminhada.

Não respondi nada, apenas olhei-o nos olhos assim como quem está com a pulga atrás da orelha.

Pegamos o metrô e seguimos na direção do campo. Apesar de ter deixado Paris há sessenta anos, meu amigo ainda conhecia bem a cidade e se movimentava com desenvoltura.

Chegando à entrada do Stade de France, encontramos uma multidão tão grande que, por um minuto, ficamos paralisados. Depois de respirar um fundo e tomar um vaso-compressor, um bronco-dilatador, um antialérgico, um antiartrítico, um calmante, um excitante e um bocado de gim, Feijão resolveu abrir caminho a bengaladas. Mas eu, mais baixo e sem armas, não consegui acompanhá-lo. Então deu-se o que eu mais temia: nos perdemos. Fiquei desesperado. Como não sabia emitir um mísero som em francês, fiz a única coisa que podia fazer naquele momento: sentei na calçada e chorei.

Pensei que ia ficar ali, esquecido para sempre, quando ouvi uma voz aguda dizer em português:

— Jesus amado!

Era uma mulher baixa e de cabelos grisalhos. O homem ao seu lado comentou: — Também te amo, Madalena.

— Não, Jesus, não estou falando com você. Olhe esse pobre cãozinho. O coitado deve ter se perdido do dono.

A boa senhora apanhou-me então com seus braços magros, apertou-me contra o peito e levou-me para dentro do estádio. Os carinhos dela consolaram-me um pouco, mas volta e meia eu erguia o focinho tentando sentir o cheiro de Feijão.

Quanto ao jogo, se me permitem o trocadilho, a Escócia foi um osso duro de roer. O Brasil fez 1 a 0 com César Sampaio, no que deve ter sido o primeiro gol de ombro de todas as copas, mas, logo depois, o mesmo Sampaio empurrou Durie na área e o juiz marcou pênalti. Collins igualou.

A vitória veio, enfim, na segunda etapa, depois de um longo lançamento de Dunga. Cafu, que vinha entrando em diagonal, chutou para a defesa de Leighton, mas, no rebote, o infeliz Boyd acabou colocando a bola dentro das próprias redes. Nesse momento, a boa senhora atirou-me para o alto.

Os humanos são imprevisíveis. Ainda mais Madalena. Ela havia sido freira por muitos anos no convento de Santa Chiara e estava numa missão religiosa em El Salvador quando reencontrou Jesus, que era o treinador de goleiros do Club Deportivo Dragón. Madalena abandonou a cruz, ele, as traves, e os dois abriram um restaurante católico no bairro de Pigalle, em Paris.

Na saída, ia eu no colo de Jesus quando uma senhora passou a mão em minha cabeça e falou:

— Que trem bonito demais da conta!

Jesus e Madalena trocaram um olhar de espanto e perguntaram ao mesmo tempo: — A senhorita é mineira?

— Sou, uai.

— Parece que ele gostou de você — disse Jesus, enquanto eu lambia a mão da mulher, na qual havia uns restos de pipoca.

— Igualzim um que eu tinha lá em Guadalajara.

Aquela mulher contou então que seu nome era Amélia e o apelido, Mel. Tinha acabado de chegar do México, onde dirigiu um hotel por quase trinta anos, até perder tudo num terremoto. Sentindo-se íntima dos dois, revelou que tinha ido à França para ver a seleção ser campeã como em 70. Depois pretendia voltar para o Brasil e terminar seus dias numa casinha no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte.

Meus donos ficaram tão comovidos com a história que a convidaram para ficar em seu pequeno apartamento.

Eles se abraçaram e eu gani, emocionado.

Nós quatro fomos, dias depois, assistir ao jogo contra Marrocos. O escrete brasileiro venceu por 3 a 0 com uma pancada de Ronaldo e dois gols do tipo até-eu-faria, marcados por Rivaldo e Bebeto. Mais fácil que correr atrás de um gato manco!

Para ser sincero, eu continuava não ligando muito para aquela história de Copa, mas, em respeito aos sentimentos deles, fazia o mínimo barulho possível durante os jogos. Até mesmo quando estouravam os rojões — vocês não imaginam o efeito daquilo nos nossos tímpanos — eu procurava me manter calado.

Em seu colar, Mel carregava uma foto do ex-marido, um tal de Jiló, de quem às vezes sentia saudades. Madalena perguntou se ela não tinha encontrado outros homens na vida e ela respondeu: — Fui solteira a vida toda, mas não estou matando cachorro a grito.

Não entendi bem o que ela quis dizer, de qualquer forma, fiquei aliviado.

Dois ou três dias depois do segundo jogo, nós passeávamos pela região de Les Halles quando ouvimos um sujeito berrar em francês: — Fora! Fora! Nunca mais me apareçam aqui, seus caiporas duma figa!

Ele parecia ser dono de hotel e gritava para dois sujeitos que vestiam camisas da seleção brasileira. Penalizada, Mel quis saber do que se tratava:

— Madame — disse o dono do hotel — desde que estes indivíduos se hospedaram aqui, o elevador quebrou, a calefação pifou, meu telefone ficou sem linha e apareceu uma rachadura na caixa d’água.

— Monsieur, o senhor está exageran... — ia contestar um dos sujeitos quando uma titica de pombo espatifou-se nos seus óculos.

— Puxa, que azar! — disse Mel. — Como é o seu nome?

— Frieira — disse Frieira limpando-se com um lenço. — E este é meu irmão, o Chulé.

Generosos como eles só, Jesus e Madalena convidaram os dois de boa fé para ficar alguns dias em seu apertado apartamento. Completando as boas vindas, Mel propôs que todos fossem juntos a Marseille ver o próximo jogo contra a Noruega:

— Aposto como o Brasil ganha desses comedores de bacalhau — brincou Jesus.

— Eu prefiro não apostar — emendou Frieira.

Nós seis embarcamos horas depois para ver a tal partida. Como o Brasil já estava na fase seguinte, entrou em campo meio desinteressado. Fizemos um gol, com Bebeto, mas os noruegueses viraram com Flo e Rekdal. Mel comentou: — Tem dia que o poste mija no cachorro.

Nem quero imaginar uma coisa dessas.

Apesar do aperto, dos esbarrões e das dificuldades (viviam pisando no meu rabo), o ambiente no apartamento ia de bom a melhor. Mel era uma filha para Jesus e Madalena, e os três riam dos azares de Frieira e das excentricidades de Chulé. Éramos quase uma família.

Chegou então a fase das oitavas-de-final e coube ao Brasil enfrentar o Chile, que vinha de três empates. Todos tinham um certo medo desse jogo, mas isso só durou até os onze minutos,  quando Dunga cobrou uma falta perto da área e César Sampaio, de cabeça, abriu o placar. Aos 27 minutos, numa confusão na área, ele mesmo ampliou. E, um pouco antes de acabar o primeiro tempo, Ronaldo, cobrando pênalti, fez 3 a 0.

Na etapa final, o Brasil desperdiçou um monte de gols e um baixinho de nome Salas diminuiu. Mas aí Ronaldo marcou mais um e acabou com o jogo.

Saindo do Parc de Princes, fomos a um café beber alguma coisa. Chulé, Frieira, Mel e Madalena pediram Kir Royale e Jesus, é claro, tomou vinho. Eu fiquei na água mesmo. Na mesa ao lado havia um casal que comia silenciosamente. Depois de um tempo, o homem começou a olhar para Mel e levou uma cotovelada da esposa.

— Calma, querida, acho que reconheci alguém. — Então virou-se para Mel e perguntou: — Por acaso a senhora não era dona de um hotel em Guadalajara?

Logo o casal se juntou ao grupo. Ele era um sujeito grisalho chamado Minhoca e sua maquiada mulher tinha o nome de Victoire. Aliás, não sei se mulher é a palavra certa. Nós, cachorros, temos o hábito de cheirar as partes íntimas dos humanos e, bem, não é que eu queira meter o nariz na vida alheia, mas Victoire estava mais para Victor.

Os dois vinham da casa da mãe do Minhoca, onde tinha acabado de haver uma discussão.

— Mas por quê, gente? — perguntou Mel.

— Minha sogra é um pouco preconceituosa — respondeu Victoire sem entrar em detalhes.

Não é difícil imaginar o que aconteceu em seguida, difícil é imaginar como as pessoas se arranjaram na hora de dormir. Os donos da casa continuaram dividindo a cama de casal do único quarto, enquanto Minhoca e Victoire foram dormir na sala, Mel ficou no corredorzinho de entrada e os irmãos Frieira e Chulé ajeitaram seus colchonetes na cozinha. Quanto a mim, tive que me contentar com a área de serviço.

Foram dias felizes. Todos conversavam, jogavam cartas e riam sem parar. Eram gentis comigo e não havia hora em que alguém não estivesse me afagando. Apesar disso, eu não ficava um minuto sem pensar em Feijão, meu velho amigo. Onde estaria ele?

Depois de prepararmos lanches e sucos, os oito fomos a Nantes ver a partida das quartas-de-final contra a Dinamarca.

Foi um jogo terrível! Mal começou e Brian Laudrup cruzou para Jorgensen, que fez 1 a 0.

(Ops! Exagerei nas fotos e o espaço acabou. Continua no post abaixo) 



Escrito por Torero às 07h54
[comente] [Regras para comentários] [envie esta mensagem]

(continuação)

Quando parecia que tudo estava perdido, veio o empate, com Ronaldo deixando Bebeto na cara do gol.

Quando tudo era indefinição, Ronaldo deu outro presente, dessa vez para Rivaldo, que definiu com perfeição: 2 a 1.

Quando parecia que tudo estava tranqüilo, Brian empatou.

Quando parecia que eles iam virar, Rivaldo marcou 3 a 2.

Quando parecia que tudo estava resolvido, estava mesmo, porque o nosso travessão defendeu uma bola no último minuto.

Confesso que acompanhei essa partida com mais atenção do que as anteriores e deixava cair as orelhas sobre os olhos quando o time de camisas escuras (nós vemos as coisas em preto e branco) fazia a seleção recuar para dentro da área.

Na saída do estádio vi uma grande estátua da taça Jules Rimet. Não me contive e fiz xixi no seu pé. Para meu espanto, a estátua disse: “Fora, cão!”. A estátua era um brasileiro de uns cinquenta anos chamado Cândido, que ganhava a vida fazendo aquele número. Todos se apresentaram e ficaram ali conversando por um tempo, até que, ao ver o colarzinho de Mel, Cândido apontou para a fotografia do ex-marido e disse:

— Ele foi um grande amigo do meu amigo Brutus.

— O Jiló? Jura? — perguntou Mel.

— Juro. O Brutus tinha até uma foto dele pendurada num quadro.

Com os olhos úmidos, Mel perguntou a Jesus e Madalena se ele também poderia ficar no apartamento.

Cândido passou a dormir na banheira.

Alguns dias depois, nós nove fomos assistir à semifinal entre Brasil e Holanda. Na outra, jogavam a dona da casa e uma seleção que vinha surpreendendo a todos, a Croácia.

Nessa altura, de tanto ouvir conversas sobre o assunto, entendia o meu bocado de futebol. Já sabia, por exemplo, que há dois tipos de jogos: os tranqüilos e os outros, aqueles em que se sofre, se ri, se fica nervoso, se dá pulos e se tem vontade de morder o próprio rabo. Brasil x Holanda foi um desses. O bom time holandês tocava a bola com inteligência, não desperdiçava passes e exibia craques como Frank de Boer, Davids e Bergkamp. Felizmente o esperto Overmars, contudido, não jogou. Mais felizmente ainda, Kluivert jogou.

 Kluivert urra depois de perder um gol

Acho que isso pede uma explicação: É que, já no primeiro tempo, Kluivert perdeu duas boas chances; e no segundo desperdiçou outras duas, uma deles incrível, livre diante de Taffarel.

Ronaldo fez nosso gol aos vinte segundos do segundo tempo, depois de uma boa enfiada de Rivaldo. Quando faltavam quatro minutos para o fim do jogo, pensei que não corríamos mais perigo e já me preparava para abanar o rabo de felicidade. Mas aí Kluivert resolveu acertar uma cabeçada. 1 a 1.

 Kluivert urra depois de fazer um gol

Na prorrogação, a Holanda, com a língua de fora, fechou-se lá atrás e nós tivemos nosso melhor momento em toda a Copa. A pressão foi constante e tivemos pelo menos quatro chances perdidas.

Vieram então os pênaltis e nessa hora valeu o treinamento: Ronaldo, Rivaldo, o capitão Dunga e até o reserva Émerson bateram com firmeza. Do outro lado, são Taffarel defendeu as cobranças de Cocu e Ronald de Boer.

Depois dessa classificação sofrida, os brasileiros fizeram um minicarnaval na Champs Elysées. Foi quando Cândido, parando diante de um pequeno palco improvisado, reconheceu dois amigos fazendo evoluções no meio de algumas passistas de escola de samba.

— Aqueles sujeitos já trabalharam no meu circo!

Um se chamava Gulliver e teria pouco mais que a minha altura, caso eu andasse em duas patas. O outro, magricela e com um turbante verde-amarelo, atendia pelo nome de Zé Cabala.

— E então, amigos, que fazem por aqui? — perguntou Cândido.

Zé Cabala falou: — As leis brasileiras não compreendem nosso ramo de atuação empresarial.

E Gulliver traduziu: — Estamos sendo procurados por curandeirismo e charlatanice.

Jesus e Madalena, sempre solícitos, perguntaram: — E onde vocês estão hospedados?

Gulliver e Zé Cabala foram dormir na área de serviço. Pior para mim, que tive de ser transferido para a pia da cozinha.

Às vezes a vida de cachorro é uma vida de cachorro.

Com dez humanos e um cão esbarrando-se a toda hora, era natural que todos preferissem passar a maior parte do tempo fora do apartamento. Nosso ponto de convivência passou a ser um bar em La Chapelle. Ali travamos longas discussões sobre futebol, regadas pelo bom vinho da casa. Mais curioso é que cada uma daquelas pessoas tinha uma história de Copa para contar. Eram histórias mirabolantes, espantosas e, digamos, incríveis.

Apesar do aperto, dos roncos, dos chutes, da falta de lençóis e de haver só um banheiro na casa, tudo se acalmava ao apagar das luzes. Nisso somos iguais: basta fechar os olhos e nossa imaginação nos leva para o melhor dos mundos. Naquela noite, com certeza, um mundo em que havia uma taça e faixas de campeão.

Jesus; Madalena e Mel; Frieira, Chulé e Minhoca; Victoire, Cândido, Gulliver, Zé Cabala e eu, Marcos Roberto. Esse foi o time que assistiu à final entre Brasil e França roendo unhas, limpando o suor do rosto e dizendo um bocado de palavrões cabeludos.

Como é do conhecimento geral, perdemos feio. A França deu um banho de disciplina, vontade e estratégia em nossa confusa seleção.

Esse jogo, aliás, foi precedido de muita tensão e histórias que só com o tempo serão explicadas. Primeiro divulgou-se uma escalação do time sem Ronaldo, depois outra com Ronaldo e depois o time não subiu ao gramado para fazer o aquecimento de rotina.

Por fim, Ronaldo jogou; quer dizer, entrou em campo.

Pela direita, Cafu estava emparedado por Petit e Lisarazu. Do outro lado, Rivaldo e Roberto Carlos nada conseguiam diante de Thuram e Deschamps. Sozinho no meio, Bebeto era presa fácil para Desailly e Le Boeuf.

Lá atrás, para piorar, Júnior Baiano dava calafrios na torcida e nosso capitão não mostrava a personalidade das partidas anteriores. Em vez do Dunga brigão e líder, mais parecia o dócil e mudo Dunga da Branca de Neve.

Mas o pior foi terminar o primeiro tempo já perdendo por 2 a 0, dois gols de Zinedine Zidane, de cabeça, após cobranças de escanteio em que Leonardo falhou na marcação.

Na segunda etapa, com Denílson e Edmundo, o Brasil tentou soltar os cachorros, mas o posicionamento dos franceses continuou perfeito. Desailly ainda foi expulso, porém, na maior parte do tempo, parecia que nós é que estávamos com dez. No fim, num contra-ataque veloz, o grande Petit selou o 3 a 0.

Saímos todos cabisbaixos do Stad de France e fomos afogar as mágoas num café do Quartier Latin.

O que aconteceu com Ronaldo? Por que ele jogou se não estava em condições? Por que Edmundo não começou como titular? Por que o time esteve tão apático? Eram perguntas que todos se faziam e que continuavam sem resposta.

De repente, senti um cheiro conhecido. Estiquei o pescoço, levantei as orelhas e olhei para a rua.

Sim, era Feijão! Ele vinha do estádio e andava sozinho, resmungando palavrões. Ao reconhecer meu latido, ele se virou, abriu um sorriso que até hoje não me sai da cabeça e disse:

— Marcos Roberto, onde você estava, seu cachorro?

— Au! — eu respondi.

— Procurei você por toda a cidade!

— Au! — eu comentei.

— Não faz mal — ele concluiu. — O importante é que estamos juntos de novo.

Feijão enturmou-se rapidamente com o grupo e, no momento em que reconheceu Madalena, sua quase-filha, ficou quase tão contente quanto ao me ver.

Já voltávamos para casa quando resolvemos dar uma parada no meio da Ponte Neuf, onde abrimos uma garrafa de vinho e fizemos uma espécie de brinde dos derrotados. Lá estavam um centenário senhor, dois ex-religiosos que encontraram o amor quando não mais esperavam, uma adorável senhora solitária, dois irmãos azarados e estranhos, um amoroso e diferente casal, um sujeito mais bondoso que inteligente e uma dupla de simpáticos picaretas, todos falando de vitórias, empates e derrotas, mas, na verdade, celebrando a alegria de terem se conhecido.

Nessa hora, o vento empurrou uma latinha de cerveja até os pés de Feijão. Ele a chutou na direção de Cândido, que passou para Victoire, que deu de chaleira para Chulé, que tocou para Mel, que fez duas embaixadas e mandou-a para Gulliver, que de cabeça passou para Frieira, que tropeçou na latinha. Não demorou muito e a brincadeira se transformou num jogo, com todos dando passes, dribles, chutes e risadas.

Se não fosse pela seleção e pelas copas, aquele curioso grupo nunca teria se encontrado, o que seria uma pena. Naquele momento pensei que, se é verdade que uma meia dúzia de tolos briga por causa do futebol, muito maior é o número dos que se tornam amigos por causa dele.

Foi então que, enquanto eles continuavam naquela festa, subi na mureta da Pont Neuf e, na minha língua particular, que vocês entendem como ganidos, latidos e rosnados, bradei para as estrelas:

— Futebol é bom pra cachorro!



Escrito por Torero às 07h52
[comente] [Regras para comentários] [envie esta mensagem]