Chamam-me Frieira. Na verdade, meu nome é Ismael, mas desde pequeno todos me conhecem apenas como Frieira. O motivo é simples: nunca ganhei uma aposta e nem há loteria ou carteado em que me dê bem. Mesmo no palitinho sou um fracasso. Pior: até no par ou ímpar. Para mim, todos os jogos são de azar. Enfim, sou pé-frio, e de pé-frio para Frieira foi um pulo. Tudo são nomes.
Na infância, meu sonho era ser um Friedenreich ou um Heleno de Freitas, mas era eu entrar em campo e o adversário começava a jogar melhor. Um dia, depois de fazer um gol contra no último minuto, deixei o esporte bretão. Na volta para casa choveu durante todo o caminho.
Quando cresci, pensei em ser marinheiro, porém, com minha sina, tive medo de que o navio afundasse; depois cogitei ser bombeiro, mas não queria pôr fogo no Rio de Janeiro e desisti; finalmente decidi abrir um botequim. Meu raciocínio era o seguinte: as pessoas sempre têm fome e sede e, sendo assim, enquanto houver gente no mundo, botequins serão sempre um investimento seguro. Propus sociedade a um alemão chamado Dieter Bonn, que, como eu, morava na Glória.
Tudo são nomes e com Dieter não foi diferente. À medida em que ia ficando mais brasileiro, seu nome ia mudando; ou melhor, iam mudando seu nome. Primeiro atacaram o prenome e começaram a chamá-lo de Dito; depois, mais íntimos, alteraram também o sobrenome, que passou a ser Bom. No fim de alguns meses, como ele fosse redondo e generoso, todos o chamavam de Dito Bombom, e ele, alma bondosa, atendia.
Mas Bombom não era bobo: sabia lidar com dinheiro e namorava uma mulata alta e forte chamada Claudete, passista da Mangueira. Além disso, adorava desafios. Tricolor fanático, a cada jogo do Fluminense propunha algum tipo de aposta: — Vamos, Friêrra!, dizia. — Um cerveja como a Flu ganha!
Eu não apostava. Não só porque sabia que ia perder, mas também porque, como comerciante, achava que não podia ser contra ou a favor de algum time. Eu era Flamengo, Fluminense, São Cristóvão, Bangu, Canto do Rio, Vasco, América ou Botafogo conforme o gosto do freguês. Só pela seleção eu tinha um amor devotado e sincero.
Já que falamos em seleção, devo lembrar que estávamos em 1950, o ano da Copa no Brasil. O país respirava um clima de festa e comigo não era diferente: dormia e acordava pensando em futebol.
Havia motivos para otimismo. Flávio Costa dispunha de material de sobra para formar uma bela seleção. Só para o ataque podia-se chamar Jair da Rosa Pinto, Tesourinha, Ademir, Zizinho, Baltazar, Friaça e Cláudio Christovam Pinho. Linhas médias, então, tínhamos duas: Eli, Danilo e Bigode, do Vasco, e Bauer, Rui e Noronha, do São Paulo. Dizia-se que se o Brasil formasse duas seleções, seria campeão e vice.
A festa tinha tudo para ser inesquecível e, como toda festa precisa de um grande salão, o Brasil construiu o Maracanã. Infelizmente, porém, nem todos os convidados puderam vir. A Europa ainda se ressentia da Segunda Grande Guerra e diversos países, mesmo classificados, não mandaram delegações. Como em 1930, o torneio teve apenas treze representantes.
A maquete do maior do mundo.
As equipes foram então acomodadas em quatro chaves, numa divisão um tanto esdrúxula: dois grupos de quatro seleções, um de três e um só com duas. Torci muito para cairmos neste último, mas o sorteio nos colocou num dos grandes. Os adversários? México, Suíça e Iugoslávia.
À medida que ia se aproximando o momento da abertura, fui sendo tomado por uma enorme empolgação. Na véspera do primeiro jogo, contra o México, mandei enfeitar o bar com fitas verdes e amarelas, comprei um rádio novo e, depois de beber um pouco além da conta, até fiz um desafio ao Bombom:
— Aposto cem cruzeiros no Brasil.
— E a empate de quem é?
— Sua, quer dizer, seu.
— Negócia fechada.
Apostamos cinco dessas.
No dia da estréia confesso que fiquei assustado ao ouvir a escalação pelo rádio. Maneca, Ademir, Baltazar, Jair e Friaça era uma linha de ataque totalmente diferente da que vinha treinando em Araxá. Dos cinco, só Jair estava na sua posição. Para meu azar, mal começou a partida e houve uma sobrecarga de energia no bairro. A voz do locutor sumiu, deixando em seu lugar um cheiro de queimado. Corri feito doido até a sapataria de meu irmão Chulé. Para meu azar, ele não estava. Fui então à casa do Bombom. No caminho tropecei e me estatelei no chão. Não é à toa que me chamam de Frieira.
Ao lado do meu amigo, com os joelhos esfolados e o nariz sangrando, ouvi o resto do jogo: 4 a 0 para o Brasil. Pela primeira vez eu ganhava uma aposta na vida. Mal havia recebido os cem cruzeiros e já apostava duzentos no match seguinte.
Esse jogo foi no Pacaembu, contra a Suíça. Para agradar os paulistas, Flávio Costa mudou a linha defensiva: em vez da do Vasco, que tinha feito o jogo de estréia, colocou a do São Paulo. No ataque, mais reviravoltas: Alfredo II, Maneca, Baltazar, Ademir e Friaça. Não deu outra: desentrosado, o time esbarrou na retranca helvécia e, sob vaias, não passou de um 2 a 2. Lá se foram duzentos cruzeiros. Para me recuperar do prejuízo, apostei quatrocentos no jogo seguinte.
Esse decepcionante empate ao menos serviu para que Flávio Costa acertasse o ataque, que foi escalado com Maneca, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Finalmente jogadores certos nas posições certas.
A prova de fogo veio contra a Iugoslávia, que tinha o craque Mitic e uma dupla que jogava por música: Tchaikovski I e Tchaikovski II.
Tchaikovski, o grande jogador da seleção iugoslava.
De fato, foi emocionante. Os iugoslavos tinham um timão, mas o nosso era um timãozaço, se é que existe tal palavra. Vencemos por 2 a 0 e mostramos um futebol superlativo. Para o país, a vitória trouxe a impressão de que nosso time nascera para ser campeão. Para mim, trouxe quatrocentos cruzeiros.
Os classificados para a fase final foram Brasil, Uruguai, Suécia e Espanha. O sistema era todos contra todos, quem fizesse mais pontos seria o campeão.
O primeiro duelo foi contra a Suécia. Eu e Bombom chegamos ao Maracanã três horas antes da partida. O sol estava escaldante:
— Eu estar derretenda como um pedra de gela.
Enquanto me abanava com oito notas de cem, falei: — Estou apostando meu leque.
— Pois eu aceita!
Foi o dinheiro mais fácil que já ganhei. Com suas camisas brancas, a seleção mais parecia uma horda de anjos a voar pelo gramado. No final do jogo, o placar mostrava 7 a 1. 7 a 1! Ademir fez quatro, Chico dois e Maneca um. Eu ria sem parar: dos gols, da cara dos suecos e do desespero do Bombom.
As camisas brancas. Ainda bem que foram aposentadas.
Mas isso ainda foi pouco perto do jogo contra a Espanha.
Acho que o Rio de Janeiro inteiro estava no Maracanã. Para todo o lado que eu olhava, via aquele imenso mar de cabeças e ouvia os gritos de “Brasil! Brasil!”
Contaminado pela euforia, apostei mil e seiscentos cruzeiros na vitória. Bombom, suando frio, aceitou.
De Barbosa a Chico, a seleção jogou como nunca naquela tarde. O trio Zizinho, Ademir e Jair estava um primor! Se na outra partida os jogadores lembraram anjos, nessa pareciam demônios. O resultado? 6 a 1. 6 a 1! 6 a 1 fora o baile, fora as tabelas maravilhosas, fora os incríveis gols perdidos. Bandeiras se agitavam, fogos estouravam, balões verdes e amarelos misturavam-se ao azul e branco do céu! Um deslumbramento! Quando Chico marcou o quarto gol, o estádio inteiro começou a cantar Touradas em Madrid. Eu, que mal tinha ouvido aquela marchinha antes, no final sabia a música de cor:
Eu fui às touradas de Madrid,
Parará-tim-bum, bum-bum...
Um dia conheci uma espanhola
Natural da Catalunha.
Dizia que tocava castanhola
E pegava touro à unha...
A festa na cidade só acabou ao nascer do sol. Era um carnaval em julho. Músicos apareceram com seus bandolins, flamenguistas abraçavam vascaínos, tricolores dançavam com botafoguenses. Todos estavam felizes, menos o Bombom, que não aguentava mais tanto prejuízo. Já perdera dois mil e setecentos cruzeiros. Desconsolado, ele disse uma frase que eu nunca escutara antes:
— Friêrra, você ser uma homem de muito sorte.
A decisão ficou para o dia 16 de julho, contra o Uruguai, que vinha de um sofrido 3 a 2 sobre a Suécia e de um empate em 2 a 2 com a Espanha. Seus destaques eram os atacantes Ghiggia e Schiaffino, responsáveis por onze dos treze gols da equipe. No Brasil, a única alteração era a entrada de Friaça no lugar do contundido Maneca. Nada de mais: era trocar seis por meia dúzia.
Eu estava tão alucinado que falei para Bombom:
— Vamos apostar tudo! Se o Brasil ganhar, o bar é meu. Se perder, é seu e ainda lhe devolvo o dinheiro.
— Você está louca, Friêrra?
— E mais: o empate é seu.
— A empate é minha?
— Claro. O Brasil vai esmagar esse timeco!
Ele coçou a cabeça por tanto tempo e com tanta força que pensei que fosse ficar careca. Então tomou um gole de cachaça e sussurrou: — Negócia fechada.
Naquele dia fomos cedo para o Maracanã, dispostos a conseguir um bom lugar. No entanto, quando chegamos, já havia milhares de pessoas. Era exatamente a hora da abertura dos portões e eu, erguendo o braço que segurava o ingresso, juntei-me ao grupo que avançava. Bombom entrou rápido e eu fui atrás dele, mas quando cheguei diante do homem da catraca, ele me fuzilou com os olhos. Só então vi que algum gatuno havia roubado meu bilhete. Era muito azar...
Tentei argumentar, mas ele me chamou de ímprobo e fez sinal para dois policiais virem me prender. Foi quando as pessoas que estavam atrás de mim, impacientes com a demora, começaram a forçar passagem. No começo, tentei resistir, mas logo percebi que aquela era a minha salvação: deixei-me levar pelos empurrões e desapareci no meio da multidão.
Lá dentro, nós, os torcedores, estávamos rindo à toa. Parecia mais uma convenção de protéticos, tantos eram os dentes que mostrávamos uns para os outros. O empate nos dava o título. Era só esperar noventa minutos para começar a festa.
Estou ali, no canto direito da arquibancada. Sou o de chapéu palheta.
Eu enlouquecia só de olhar para o gramado, ver a classe de Zizinho, o toque bonito de Bauer, a ginga de Jair e as disparadas de Friaça e Chico. Todo o estádio esperava pelo primeiro gol.
Esperava, mas ele não vinha.
O problema era Tejera, Gambeta e Andrade, que não descuidavam dos nossos goleadores. E quando algum atacante conseguia vantagem, Gonzalez vinha na sobra e afastava o perigo. Danilo e Bauer tentavam variações, mas Obdulio Varela, à frente da zaga, catimbava, fazia faltas, cadenciava o jogo e irritava o estádio inteiro. Depois dos 7 a 1 na Suécia e dos 6 a 1 na Espanha, achávamos que venceríamos pelo menos por 5 a 1. Doce ilusão...
Obdulio, el negro jefe.
Veio então a segunda etapa e, logo no início, o alívio. Zizinho lançou Friaça e ele, quando chegou a três passos do bico da pequena área, bateu cruzado. A bola estufou a rede e sacudiu o Maracanã. Todos se abraçaram. Tentei me aproximar de umas moças que vestiam blusas brancas com as iniciais B-R-A-S-I-L — principalmente da letra S —, mas havia tanta gente que não consegui sair do lugar.
Infelizmente, minha alegria e a tristeza de Bombom duraram pouco. Dez minutos depois, Obdulio Varela lançou Ghiggia, este passou por Bigode e cruzou rasteiro. A bola caiu nos pés de Schiaffino, que bateu de primeira, sem chance para Barbosa.
Schiaffino jogava o fino.
Esse gol deixou nosso time atordoado. Os jogadores não conseguiam se entender sobre se era melhor buscar a vitória ou tocar a bola para segurar o empate. Enquanto isso, o Uruguai crescia.
O tempo é uma coisa estranha. Nos momentos felizes voa como um corcel alado, nos tristes arrasta-se como uma tartaruga manca. Depois do gol, ele parecia ser, para mim, uma lesma preguiçosa. Os segundos duravam minutos, os minutos duravam horas.
Veio, então, o momento fatal, a cena que não me sai da memória. Ghiggia recebeu um lançamento e só tinha Bigode pela frente. O uruguaio estava a alguns passos da entrada da grande área e ficou ameaçando o drible. Bigode resolveu esperar, não querendo fazer a falta. Ghiggia então fintou-o, avançou para a linha de fundo e arriscou o chute. A bola passou por um vão mínimo entre o corpo de Barbosa e a trave.
O gol mais triste da nossa história.
Naquele instante, um silêncio sombrio baixou sobre o Maracanã.
Os jogadores correram em busca do empate, esforçaram-se, mas nada surtiu efeito. O tempo disparou e, quando o juiz George Rider apitou o fim da partida, ficamos lá, parados e mudos, sem saber o que fazer. Era um velório. Depois, fomos saindo do estádio como quem acompanha um enterro.
Muitos foram apontados como responsáveis por aquela derrota, mas eu sabia que o culpado era apenas um: eu, Frieira, o pé-frio.
Cheguei à Glória arrasado e, quando vi a rua toda enfeitada, cheia de fitas e bandeirolas, chorei feito criança. A vizinhança tinha arrumado mesas e cadeiras para fazer uma grande festa, mas tudo estava quieto. Só puseram uns lençóis em cima da comida e deixaram tudo lá. Dei uma última olhada para aquele que havia sido o meu botequim e fui para casa me embebedar.
No dia seguinte procurei o Bombom para honrar minha palavra. Ele me recebeu de terno e gravata, e quando eu disse “Vamos para o cartório” ele completou: — Antes eu ter que dar um passadinha no casa do Claudete, que ela vai com o gente. Então pensei: Não basta ter vencido, ainda leva a namorada para me humilhar.
Chegando ao cartório, dei um suspiro e exclamei: — Bem, adeus meu bar querido...
Ele, porém, começou a rir e disse: — Friêrra não entender nada. Friêrra continua com a botequim! Eu não querrer seu parte!
Fiquei um pouco atordoado ao ouvir aquilo e perguntei que diabo estávamos fazendo no cartório se não íamos desfazer a sociedade. Bombom respondeu:
— Eu vem casar com o Claudete — e então abraçou-se a ela, que sorriu mostrando seus trezentos dentes brancos. — Friêrra é a meu padrinha!
E assim foi que, ao contrário do que eu esperava, Bombom me vendeu a sua parte do bar e voltou para a Alemanha. Confesso que fiquei contente com aquele desfecho, pois amava o meu negócio e sofrer duas perdas talvez tivesse sido demais para o meu coração.
Curiosamente, a partir daquele momento as coisas começaram a dar certo para mim. O bar da esquina foi à falência e herdei sua freguesia, ganhei algumas vezes no bicho, tive ótimas noites no Cassino da Urca e, em 1954, fui sorteado pela revista O Cruzeiro. O prêmio era ir à próxima Copa com todas as despesas pagas.
Foram anos de tanta sorte que alguns até começaram a me chamar de Pé-de-Coelho. Tudo são nomes.
Minha vida com Coco foi feliz naqueles anos. Morávamos nos arredores de Paris, onde eu trabalhava como pintor de paredes. Ganhava pouco, mas me divertia muito e ia sempre aos estádios ver os jogos do Saint-Germain.
Quase caí de costas ao saber que a próxima Copa seria justamente na França. Porém, quando vi o preço dos ingressos, aí caí mesmo. Era muito mais do que os meus modestos ganhos permitiam e, para piorar, Coco não era exatamente econômica.
Só me restava uma opção: tentar fazer parte da comitiva brasileira. Logo que ela chegou, fui ao Pavillon Henri IV, em Saint-Germain-des-Prés, e falei com o doutor Castelo Branco, chefe da delegação, mas ele disse que infelizmente não precisavam de mais ninguém.
Foi então que escutei uma voz às minhas costas. Uma voz não, um grito:
— Me arrumem um ajudante de verdade para a cozinha! Aquele sujeitinho que vocês arranjaram só sabe fazer essas frescuras francesas. Os jogadores querem é feijão!
Virei-me, abaixei a cabeça e me apresentei:
— Feijão ao seu dispor.
Esperava ouvir muitas palavras em resposta ao que eu disse, menos as que escutei: — Feijão, seu cachorro! Era aqui que tu estavas!
Quando ergui a cabeça, vi que a cozinheira era Noemi. Sim, Noemi, aquela moça do Méier com quem eu deveria ter me casado duas copas atrás.
Lembrando-me da desculpa que tinha lhe dado em 1930, expliquei que havia sido ferido numa região muito particular durante o golpe de Getúlio Vargas, e que o único médico que poderia fazer o reimplante vivia em Paris.
— E a operação deu certo?
— Por que você acha que eu não voltei? Colocaram o cano no revólver, mas ele já não atira mais..., respondi cabisbaixo.
Noemi tentou segurar ao mesmo tempo lágrimas e risadas. Por fim, respirou fundo e me contratou.
Aos poucos fui me inteirando do estado da seleção: dessa vez contávamos com um scratch forte. A CBD e a FBF haviam se unido e não houve brigas entre paulistas e cariocas. Estavam lá Leônidas e Patesko, remanescentes de 34, e ainda alguns novatos: o zagueiro Domingos da Guia, de estilo tão elegante que podia jogar de terno, e dianteiros talentosos como Tim, Hércules e Romeu Pellicciari. Fiquei sabendo que dessa vez tinha havido até preparação, com a equipe ficando um mês em Caxambu. Tudo parecia bem melhor que em 34 e enchi-me de esperanças.
Domingos da Guia: Do Bangu para o mundo.
A estréia aconteceu contra a Polônia no Stade de la Meinau, em Estrasburgo. Como os polacos também usavam camisas brancas, pela primeira vez a seleção entrou em campo com um segundo uniforme: camisas azuis e calções pretos. Mas os dois times acabaram ficando marrons, pois choveu tanto naquele dia que o campo transformou-se num lamaçal.
Por pouco não morri nesse jogo. Viramos o primeiro tempo vencendo por 3 a 1, com o que pensei que seria uma partida fácil. Porém, 45 minutos depois, olhei para o placar e o que vi foi um 4 a 4. Um tal de Willimoski tinha feito nada menos que três gols.
Veio a prorrogação: Willimoski fez mais um gol e achei que estava tudo acabado. Mas havia Leônidas. Ele virou o jogo e deixou o público boquiaberto. Até gol de pé descalço ele marcou. É que sua chuteira havia se soltado, mas o Diamante Negro continuou jogando e fez um golaço.
Com Leônidas em campo, não perdemos nenhum jogo naquela Copa.
Depois viajamos mil quilômetros de trem até Bordeaux para enfrentar a Tchecoslováquia. Pensei que Coco fosse reclamar dessa minha segunda viagem. Mas eu estava enganado. Em três tempos ela fez minha mala e disse: — Adieu, mon Fejon.
Contra os tchecos, nova agonia. O Brasil largou na frente com Leônidas, mas Domingos da Guia fez um pênalti em Simunek. Nejedly botou a bola no cantinho de Válter e igualou: 1 a 1. Depois disso o jogo ficou equilibrado, inclusive na pancadaria. O Brasil teve Zezé Procópio e Machado expulsos; da Tchecoslováquia, Riha foi para fora.
Em toda guerra há um herói e nessa não foi diferente: o goleiro Planicka, depois de um choque com Perácio, deslocou a clavícula. Naquele tempo não se podia fazer substituições, e ele teve que jogar a prorrogação com um braço só. E o pior é que, mesmo assim, continuou fechando o gol. Ficou tudo para o jogo extra.
Quando a seleção entrou em campo dois dias depois, meus olhos arregalaram-se tanto que quase caíram da órbita: com exceção de Leônidas e Válter, o técnico Ademar Pimenta havia escalado o time reserva. Achei aquilo uma tolice sem tamanho e, ao final do primeiro tempo, quando os tchecos venciam por 1 a 0, estava doido de raiva e mordia meu panamá com ódio.
No segundo tempo, porém, a equipe reagiu e lamentei ter estragado meu único chapéu.
Tim foi o maestro da equipe, ditando o ritmo do jogo, dominando o meio-campo e lançando bolas certeiras. Leônidas — sempre ele! — empatou, e Roberto confirmou a vitória brasileira. Pela primeira vez na história, participaríamos de uma semifinal.
Essa honra, porém, exigiu grandes sacrifícios. A partida — contra a poderosa Itália — fora marcada para dali a dois dias na distante Marselha. Mais uma viagem! Para piorar, Leônidas estava sem condições de jogo por causa de duas partidas seguidas enfrentado as botinadas dos zagueiros tchecos.
O Brasil entrou em campo com Válter; Domingos da Guia e Machado; Zezé Procópio, Martim e Afonsinho; Lopes, Luisinho, Romeu, Perácio e Patesko.
Fiquei surpreso com a ausência de Tim e dessa vez não me contive. Fui até Ademar Pimenta e disse:
— O senhor tinha que pôr o Romeu na direita, tabelando com o Lopes, não no meio. E, na esquerda, Tim e Hércules, que estão em melhor fase que o Perácio e o Patesko. Ele olhou-me com desprezo e disse:
— Lugar de Feijão é na cozinha.
— De Pimenta também! — respondi.
Noemi, que estava ali ao lado, riu e falou: — Tu continuas um pícaro!
Mal o juiz apitou o início da partida e os italianos vieram para cima com uma tremenda fome de gol. O massacre era terrível, daqueles em que a única coisa que um torcedor pode fazer é rezar (o que eu, aliás, fazia com fervor). Meazza e Piola estavam impossíveis e Válter teve que fazer defesas históricas para segurar o 0 a 0.
Aqui Piola segura a bola do gol número 300. Mas ele ainda faria mais 105.
Porém, do mesmo jeito que eu rezava pelo empate, algum italiano devia estar rogando por um gol. E como Deus ouviu minhas preces no primeiro tempo, quis ser imparcial e atendeu o italiano no segundo, fazendo com que Colaussi abrisse a contagem.
Pensei que levaríamos uma goleada histórica, porém o Brasil se acalmou e começou a frequentar a área italiana. Parecia um novo jogo e criávamos boas chances para empatar. Mas aí aconteceu aquele lance que entrou para a história do futebol: a bola estava no ataque brasileiro quando Piola, pela milésima vez no jogo, começou a provocar Domingos da Guia. Empurra daqui, xinga dali, Piola deu um chute em Domingos e este, irado, passou-lhe uma rasteira dentro da área. O juiz, um suíço chamado Wuthrich, viu o lance de longe e marcou pênalti.
Os brasileiros ficaram doidos: reclamaram que a bola estava do outro lado, que nunca tinham visto uma coisa daquelas, mas o juiz, até porque não entendia português, permaneceu duro como uma pedra. Meazza bateu e fez 2 a 0.
Depois do gol, nosso time ficou atordoado. Só no final, aos 41 minutos, é que conseguimos chegar com mais força à área inimiga. Romeu marcou, mas era tarde. Aquele jogo ficou mesmo atravessado na nossa garganta como o jogo do “se”: se Leônidas tivesse jogado..., se o juiz não tivesse marcado o pênalti..., se o time tivesse sido mais bem escalado...
Para espantar um pouco a tristeza, eu e Noemi fizemos uma feijoada no dia seguinte. Não por acaso, deixei cair uma boa dose de pimenta no prato do Pimenta. Ele bebeu três copos de água depois da primeira garfada.
Alguns dias depois, em Bordeaux, conquistamos o terceiro lugar vencendo a Suécia por 4 a 2. Nesse jogo Leônidas fez mais dois gols, o que lhe valeu a honra de ser o artilheiro da Copa.
Só então tornamos a Paris e fui para minha casa. Quando abri o portão, esperava que Coco viesse correndo de braços abertos ao meu encontro. Mas ela não veio. Descobri o motivo quando cheguei à porta e vi um bilhete:
“Fejon, as coisas vão e vêm, e chegou a minha hora de ir. Apaixonei-me por um reserva da seleção suíça e fui com ele para Lausanne. Mando-lhe um relógio cuco de lá. Um beijo da sua, quer dizer, da que um dia foi sua, Coco”.
Rasguei aquele papel em mil pedaços e depois ainda queimei cada um deles. Para me consolar, convidei Noemi para assistirmos à final da Copa entre Itália e Hungria.
Cinqüenta e oito mil pessoas lotavam o estádio Colombes e quase todas torciam para a Hungria. Mas a Itália venceu de novo: 4 a 2, com mais uma grande exibição do maldito Piola, autor de dois gols.
Noemi percebeu que caíam lágrimas dos meus olhos e comentou: — Não sabia que gostavas tanto da Hungria.
— Não é isso, é que estou com saudades do passado...
Pensando que eu me referia a ela, Noemi tomou meu rosto em suas mão e deu-me um longo beijo. Não preciso dizer aos senhores, nem às senhoras, que esse tipo de carinho provoca reações fisiológicas abaixo do nosso equador. Percebendo isso, Noemi exclamou: — Feijão do céu, acho que alguma coisa se moveu!
Olhei para baixo e disse: — É um milagre! Só mesmo o teu toque divino poderia ressuscitar este Lázaro. Em seguida ajoelhei-me e perguntei: — Ainda queres casar comigo?
Ela aceitou.
Voltamos para o Brasil na manhã seguinte.
E foi assim que, depois de ver três copas em três países diferentes, voltei para meu antigo emprego, para a Noemi e para o Méier, como se nunca de lá tivesse saído.
Noemi e eu, já de volta ao Rio. Ah, o mundo dá voltas... E sempre volta ao mesmo lugar.
Depois da Copa de 30, eu e Federica mudamos para os arredores de Roma, onde eu trabalhava como motorneiro de bonde. Ganhava pouco, mas me divertia muito e ia sempre ver os jogos do Lazio com Luigi, meu vizinho.
Depois do Uruguai aprendi a gostar de futebol e até estourei fogos quando soube que a próxima Copa do Mundo aconteceria justamente no país em que eu morava.
Naquele tempo, a Itália vivia sob o regime fascista. O Duce Benito Mussolini acalentava o sonho de reviver o Império Romano e, como os velhos césares, via no esporte uma valiosa arma para aumentar sua popularidade. O treinador Vitório Pozzo, como queria manter sua cabeça sobre o pescoço, não se fez de rogado e recorreu a vários filhos de italianos que jogavam na América do Sul, como os argentinos Orsi e Guaita, e o brasileiro Filó. O assédio aos oriundi era tão grande que o Palestra Itália, de São Paulo, chegou a esconder três de seus jogadores numa fazenda em Araras para que eles não recebessem as propostas italianas.
Esse era o Filó.
A seleção brasileira, segundo as cartas do meu velho amigo Farinha, não ia muito bem. As brigas continuavam, mas agora não entre cariocas e paulistas, e sim entre a CBD, que defendia o amadorismo, e a Federação Brasileira de Futebol, que congregava os times profissionais. Um ano antes o futebol brasileiro havia se profissionalizado e as principais equipes paulistas e cariocas estavam do lado da Federação. A Fifa, porém, reconhecia apenas a CBD, que, entre os seus integrantes, só contava com um time importante: o Botafogo, que acabou cedendo oito jogadores.
Novamente não iríamos contar com nossos principais talentos, apesar de Carlito Rocha, o presidente do Botafogo, ter prometido uma nota preta para quem fosse para a CBD. Oferecer dinheiro para um jogador voltar ao amadorismo pode parecer uma coisa sem muita lógica, mas lógica e futebol não combinam muito, ainda mais no Brasil.
Fiquei aborrecido com essa história toda e um dia, almoçando com Federica e Luigi, disse que iria torcer para a Itália. Porém, como a raiva do torcedor é breve e a paixão, eterna, peguei um trem para Gênova e lá fui eu assistir ao primeiro jogo do Brasil. Nosso adversário, a Espanha, era uma das mais fortes seleções daquele tempo. Para piorar, a Copa foi disputada no sistema que hoje chamam de mata-mata. Perdeu, cai fora.
Quando vi aquelas camisas brancas entrando em campo, não contive a emoção e chorei (mas, entre as lágrimas, notei que elas não estavam tão bem lavadas, passadas e alinhadas como no meu tempo).
A camisa de 34.
Mal começou o jogo e me dei conta de que nossa equipe sairia mais surrada que o uniforme. O team até que não era mau. Além de Leônidas da Silva, havia o bom goleiro Roberto Gomes Pedrosa e atacantes como Valdemar de Brito e Patesko. Mas se a nossa seleção não era má, a deles era muito boa. Quincoces, Lafuente e Langara eram craques e o goleiro Zamora parecia uma mistura de sapo com polvo.
Para ler a biografia de Zamora, El Divino, clique aqui.
Já no final do primeiro tempo, eles venciam por 2 a 0. Depois Leônidas diminuiu, mas Langara fez 3 a 1 e jogou a última pá de cal sobre as nossas esperanças. Então novas lágrimas rolaram pelos meus olhos. Quase encharquei os sapatos.
Antes de voltar para casa, no entanto, fui andar um pouco para conhecer Gênova e, quando fiquei cansado, entrei numa doceria de nome Il Dulce. Ali acabei conhecendo Cosette, uma francesa cujo apelido era Coco e que logo começou a me chamar de Mon Fejon. Ela era garçonete e também estava desolada por causa da eliminação da sua França, batida pela Áustria.
A doce Coco foi uma excelente guia e, se não conheci tão bem as belezas de Gênova, é porque me ocupava com as da França.
Naquela noite, enquanto estávamos abraçados, ela propôs que fôssemos até Verona, cidade de Romeu e Julieta, para vermos a lua dos amantes. Fiz uma contraproposta: "E se fôssemos a Roma, cidade do Lazio, para ver a final da Copa?"
Acho que Coco me amava, pois aceitou sem titubear.
A euforia por causa da seleção italiana era enorme. Logo de cara, um bombardeio sobre os Estados Unidos: 7 a 1, devidamente dedicados a Mussolini.
O exército italiano entra em campo para bombardear os Estados Unidos.
Depois, uma peleja emocionante contra os espanhóis; tão emocionante que os jornais disseram que o jogo deveria ter sido disputado num campo de batalha, e não de futebol. Como até a prorrogação terminou empatada e não havia disputa de pênaltis naquele tempo, os dois times tiveram que fazer outro match 24 horas depois.
No combate anterior, o time espanhol havia sido tão castigado pelos italianos que entrou sem sete titulares, entre eles Zamora e Langara. Mesmo assim a Espanha jogou com bravura e só foi derrotada porque o juiz não viu Meazza ajeitar a bola com a mão antes de fazer o gol da vitória. As copas nem sempre são ganhas só com futebol.
Nesses dias, eu e minha nova namorada vivíamos trancados num quarto de pensão feito um casal em lua-de-mel. Eu, é claro, não lhe contei que era casado. Às vezes batia-me um certo remorso e pensava em voltar para casa, mas então ficaria com remorso por ter deixado minha cherrizinha. Ora, já que sentiria remorso de qualquer jeito, preferi senti-lo ao lado de Coco.
Pelo rádio acompanhamos Itália x Áustria. Esse match foi considerado por muitos como uma final antecipada da Copa. Depois de muita luta, a defesa austríaca finalmente foi invadida. Quem conseguiu tal façanha foi o soldado Guaita.
Para a final contra a Tchecoslováquia, nos apertamos entre milhares de pessoas no estádio do Partido Nacional Facista. Mas isso não foi problema, pois quanto mais perto estivesse de Coco, melhor.
Esse combate não foi menos dramático que os dois anteriores. No primeiro tempo, as tropas de defesa levaram a melhor sobre as forças de ataque. Porém, no período final, as trincheiras caíram: primeiro a do Duce, que levou um gol de Puc; depois a tcheca, traspassada por uma bomba do artilheiro Orsi. 1 a 1. Tudo seria decidido na prorrogação.
Orsi, o italiano da Argentina.
Então o exército italiano foi para cima dos inimigos e aos cinco minutos Schiavo fez o gol que decidiu a Copa. Terminado o jogo, todos se abraçavam e os casais trocavam beijos de amor.
No meio daquela festa toda, no entanto, reparei que Luigi, meu vizinho, também estava nas arquibancadas e beijava uma senhorita, ou melhor, senhora, pois a tal era ninguém menos que a minha, ou sua, Federica.
Nossos olhares se encontraram, andamos uns na direção dos outros e ficamos frente a frente.
Então Federica esbofeteou-me por eu a estar traindo com Coco.
Coco esbofeteou-me por eu não haver dito que era casado.
Eu esbofeteei Luigi por ele estar saindo com a minha mulher.
Luigi esbofeteou-me porque ainda não tinha batido em ninguém.
Federica esbofeteou Luigi por ele ter estapeado seu marido.
Coco esbofeteou Luigi por ele ter batido em seu amante.
Eu esbofeteei as duas por baterem em meu amigo.
E os três me esbofetearam porque em mulher não se bate.
Continuamos assim por um bom tempo, até que, com as bochechas vermelhas, resolvemos ir a uma cantina.
Depois de ter a razão iluminada por algumas canecas de vinho, ponderamos que o melhor seria que cada nova dupla seguisse seu destino: Luigi e Federica ficariam em Roma e eu e Coco partiríamos com destino a Paris. No final da noite, com as bochechas rosadas, até já brindávamos àquele feliz arranjo. Só uma coisa me deixava triste: separar-me da minha querida filha Madalena. Mas até isso se resolveu quando Federica sussurrou ao meu ouvido:
— Não seja por isso. Ela é filha do Farinha, Feijão.
O primeiro é feito com uma massa de farinha e ovos, tem cobertura de açúcar e recheio de creme. O segundo não é feito de nada, se bem que também tenha o seu tanto de açúcar. Naquele dia, na Confeitaria Colombo, provei dos dois.
Estava ao lado do meu amigo Farinha. Enquanto eu cravava os dentes no doce, ele me disse de supetão:
— Feijão, já arranjei tudo! Vamos para o Uruguai na semana que vem.
Como estava de boca cheia, minha única reação foi levantar as sobrancelhas, como que dizendo:
— Fazer o quê no Uruguai? Não sabes que estou de noivado marcado com a Noemi?
Ele entendeu os meus supercílios e respondeu:
— É o seguinte, Feijão: vão fazer lá no Uruguai uma tal de Copa com as seleções de futebol de tudo quanto é país. A do Brasil também vai e eu dei um jeito para a gente ir com o pessoal. A coisa toda dura umas duas semanas. Eu vou de massagista, tu serás o roupeiro.
Minhas sobrancelhas agora mudaram de posição e tentaram encostar uma na outra, como que dizendo: “Eu?, roupeiro?”
Farinha, vendo a pergunta em minha face, respondeu:
— Que que tem? Se eu, que não encosto dedo em homem, vou como massagista, por que tu não podes cuidar dos uniformes?
De fato, naquele tempo eu trabalhava como ajudante de alfaiate e entendia um pouco de botões, agulhas e aviamentos; mas mesmo assim a coisa me parecia aventurosa demais. Percebendo isso, Farinha passou a falar das maravilhas da viagem, da beleza das uruguaias e até da neve. Como eu nunca tinha posto os pés fora do Méier, jamais tinha visto neve nem tocado uma uruguaia, a idéia começou a me fazer cócegas.
Quando saí da Colombo, carregava dois sonhos, um no estômago e outro na cabeça.
Fui então me despedir de Noemi. Contei a ela que ia juntar-me às tropas de Getúlio Vargas e que só voltaria ao Rio quando acabássemos com a ditadura dos malditos cafeicultores paulistas. Ela não entendeu bem aquela febre política, mas chorou muito e jurou que iria me esperar à porta do Catete.
Dias depois me apresentei à tal seleção. Não entendia de futebol, mas o Farinha era fanático e ia me explicando tudo. A primeira coisa que me disse foi que aquela seleção era, na verdade, uma seleção carioca. Isso aconteceu porque a Confederação Brasileira de Desportos só tinha convidado dirigentes do Rio de Janeiro para a comissão técnica, e os paulistas, de birra, proibiram seus jogadores de ir. Só Araken Patuska, que na época estava sem time, juntou-se à equipe.
Farinha contou-me que, por causa dessa briguinha de engravatados, o scratch ficara sem grandes jogadores, como o goleiro Athié, o atacante Feitiço, que driblava como poucos e chutava como ninguém, e principalmente sem Friedenreich, que meu amigo dizia ser o melhor jogador do mundo.
Com Fried, a história teria sido outra. Ah, os dirigentes...
Um dos chefes da delegação era o doutor Píndaro de Carvalho. Um dia este senhor pediu minha opinião sobre o uniforme da seleção: camisa branca, calções azuis e meias brancas. Eu disse que era bonito, mas que faltavam as cores principais da nossa bandeira: o verde e o amarelo. Ele explicou que eram muito chamativas e que o futebol era um jogo de classe.
Eis o uniforme da Copa de trinta. Não era muito colorido, mas estava sempre bem passado.
A ausência dos paulistas, do verde e do amarelo não foram os únicos problemas da seleção. Faltava também um técnico. O time jogava ao deus-dará e todo mundo arriscava palpites sobre a forma de jogo. Treinos mesmo, o time fez apenas dois. Eu era só um aprendiz de costuras, mas sabia que, sem uma boa tática que alinhavasse tudo, de nada adiantariam pontas agudos como alfinetes e defensores elegantes como seda. Como dizem os alfaiates: “sem um bom molde não há trapo que vire fato”.
Uma semana depois seguimos para Montevidéu, a bordo de um navio italiano chamado Conte Verde, que trazia entre seus passageiros ninguém menos que Jules Rimet. O homem não largava sua taça por nada. No convés, passeava com ela debaixo do braço e, durante as refeições, ficava a admirá-la como se fosse a própria Greta Garbo.
Tirei esta foto da delegação dentro do navio.
Como disse, eu jamais havia saído do Méier, portanto nunca tinha posto os pés num navio, nem sabia que eles sacudiam tanto em suas viagens. Enjoei muito e não vomitei menos. Pensei em desembarcar em Santos, quando parássemos para pegar Araken Patuska, mas a enfermeira de bordo, uma italiana chamada Federica, atendeu-me com tanto carinho que levantou meu ânimo.
Finalmente chegamos ao Uruguai e confesso que achei bom deitar numa cama que não balançasse, pois sempre pensei que elas devem chacoalhar pela vontade dos ocupantes e não pela de Netuno.
Falando nisso, naqueles dias, ou noites, os movimentos de meu leito embalaram-me de tal modo que, quando reparei, minha boca dizia a Federica: — Queres casar-te comigo? — Ela respondeu que não podia, pois tinha que voltar para a Itália. Choramos como crianças. Depois fomos tomar sorvete.
Mas voltemos à Copa. Em vez dos dezesseis participantes esperados, o torneio de 1930 teve apenas treze, o que obrigou a uma divisão complicada dos times em quatro grupos. Nós ficamos num grupo de três, no qual também estavam Iugoslávia e Bolívia. Só um time de cada chave passaria para as semifinais.
Era engraçado andar por Montevidéu e ver aqueles jogadores vindos de lugares tão diferentes. Por ser a primeira vez que se fazia uma competição daquelas, tudo era novidade e diversão. Pelo menos até o primeiro jogo.
Nossa estréia foi contra os iugoslavos. Os brasileiros entraram em campo muito galantes, em uniformes lavados e passados com o esmero de um artista. Deixando a modéstia de lado, devo dizer que, se elegância ganhasse jogo, teríamos saído invictos daquele campeonato.
A seleção estava na maior estica.
Infelizmente as coisas não foram bem assim e, de chofre, enfrentamos um problema terrível: o frio. A temperatura era de um grau e, para se esquentarem, nossos jogadores ficavam sacudindo-se em campo. Quem olhasse de longe pensaria que eles estavam tendo um ataque epilético ou ensaiando passos de mambo. Os pobres homens soltavam fumaça pela boca, pelo nariz e por pouco não a soltavam pelos ouvidos.
Quando o jogo começou, surpresa: os beques estavam firmes, no meio Fausto fazia boas jogadas e, na frente, Preguinho martelava a defesa adversária. Mas, num descuido, nossas esperanças naufragaram: Tirnanic mergulhou e, de cabeça, fez 1 a 0. Mal nos refizemos do susto e Beck ampliou.
Pensei que sofreríamos uma goleada, porém, no segundo tempo, o Brasil cresceu, empurrou os iugoslavos para dentro da área e conseguiu o seu gol: Preguinho. Ficamos o resto do jogo atacando, mas o goleiro Yakovic fechou a meta iugoslava com cadeado. Não deu, perdemos de 2 a 1. Para esquecer a derrota, bebi sozinho uma garrafa de vinho.
Três dias depois, os iugoslavos meteram 4 a 0 nos bolivianos, destruindo nossas esperanças de classificação.
Mas restava o jogo contra a Bolívia e queríamos voltar para casa com, pelo menos, uma vitória. Nesse dia, com Russinho, Carvalho Leite e Moderato no ataque, jogamos mais soltos e chegamos com facilidade aos 4 a 0: dois gols de Moderato, dois de Preguinho. Esse Preguinho, aliás, era filho do escritor Coelho Neto e herdou do pai a capacidade de fazer firulas, só que com a perna em vez da pena. Para comemorar a vitória, bebi duas garrafas de vinho.
Passaram para as semifinais a Iugoslávia, que enfrentaria o Uruguai, e a Argentina, que pegaria os Estados Unidos. Eu e Farinha preferimos assistir a este segundo jogo. Nessa partida aconteceu um lance curioso: o juiz, um belga de nome Langenus, apitou uma falta contra os estadunidenses e o médico entrou em campo para reclamar. Na confusão, todos os seus vidros caíram no chão, inclusive o de clorofórmio, que quebrou e fez desmaiar um dos jogadores americanos. Cutuquei meu amigo e observei:
— Falta feijão para esse pessoal, Farinha.
— E farinha, Feijão.
Faltavam mesmo: a partida acabou 6 a 1 para os argentinos.
Toda a delegação brasileira embarcou de volta para o Rio no dia seguinte. Aliás, toda não, porque eu decidi me casar com Federica e seguir com ela para a Itália. Despedi-me do Farinha com lágrimas e logo que o navio sumiu no horizonte fui correndo comprar meu ingresso para a final, um duelo de sair faísca entre Uruguai e Argentina.
Nunca me esquecerei daquele dia. Os uruguaios estavam confiantes, mas os argentinos atravessaram o Prata em hordas e invadiram a cidade gritando “Victoria o muerte!” Muitas armas de fogo foram apreendidas na alfândega e houve várias brigas entre as torcidas pelas praças de Montevidéu. O clima era tão pouco civilizado que o juiz, de novo o belga Langenus, só aceitou apitar o jogo se lhe fizessem um seguro de vida.
Quando entrei no Centenário, meu queixo quase caiu. Nunca tinha visto um estádio daquele tamanho. Havia bem umas oitenta mil pessoas espremidas ali. Na verdade, era menos um estádio que uma arena, e mesmo antes do princípio do jogo já começaram os problemas: os argentinos queriam a bola argentina, os uruguaios só aceitavam a uruguaia. Langenus teve que decidir a questão na moedinha. Venceu a bola argentina.
Tinha quase cem mil no Centenário.
A partida começou equilibrada, mas aos poucos o futebol de toques curtos e rasantes dos argentinos se impôs, e eles terminaram o primeiro tempo vencendo por 2 a 1.
Na etapa final, porém, os uruguaios voltaram enlouquecidos. Eram como leões mordendo cristãos. Ou pulgas mordendo cães. Logo aos doze minutos igualaram a partida com um gol de Cea. E, aos vinte e três, num chute de fora da área, o grande Iriarte desempatou. Então os papéis se inverteram e foi a vez dos argentinos atacarem. Seguiu-se uma terrível pressão: chuva de cruzamentos, tiros batendo nos beques, bolas salvas em cima da linha e o guardião Ballesteros fazendo milagres.
Manco Castro deu o golpe fatal.
O empate parecia questão de tempo até que, num contra-ataque já nos derradeiros minutos da partida, Dorado fez o centro e Manco Castro deu uma cabeçada certeira que decretou o placar final: 4 a 2. Os argentinos alegaram toque de mão, mas como Manco era maneta, o juiz não lhes deu ouvidos.
Eu e Federica comemoramos muito a vitória uruguaia, tanto que, nove meses depois, já na Itália, nascia nossa filha Madalena. Mas isso é outra história.