Blog do Torero

19/06/2008

1998 – Futebol é bom pra cachorro!

1998 – Futebol é bom pra cachorro!

Eis um belo lugar para se viver, pensei quando desembarcamos em Paris.

Acho que ele concordava comigo, mas, talvez por causa de sua idade, trocou uma palavra da frase e disse: — Eis um belo lugar para se morrer.

O seu nome era Feijão. Dividíamos há dez anos um quarto no Méier e cada um conhecia a fundo as manias e rotinas do outro. Ele era o meu melhor amigo. Por ser um pouco mais jovem, cabia a mim acordá-lo, incentivá-lo a caminhar e agüentar suas crises de mau humor:

— Ah, Marcos Roberto — ele dizia. — O que seria de mim sem você?

Eu apenas inclinava a cabeça, assim como quem diz: — Ora, deixe pra lá... — Nunca soube reagir a elogios.

Feijão tinha já cem anos e não contava mais com sua companheira Noemi. Mas estava recuperado. Tanto que logo que chegamos a Paris ele procurou saber o destino de Coco, uma antiga namorada. Descobriu que ela agora morava em Sevilha, onde estava casada com um barbeiro chamado Piolho. Meu amigo pôs o telefone no gancho e suspirou com tristeza. Ele nunca soube viver sem mulheres.

Mas, afinal, ele não estava ali para tratar de amores, e sim para ver o Brasil pentacampeão. Uma das poucas pessoas ainda vivas a ter acompanhado o time na Copa de 1930, ele não queria abotoar o paletó de madeira antes de comemorar um título mundial. Por isso, vinha economizando cada centavo há muito tempo. Eu, que não gostava de futebol, achava aquilo um exagero. Bem, é como diz o ditado, cada cachorro sabe por que balança o rabo.

Quando ainda estávamos no Brasil, Feijão vivia dizendo aos amigos que a seleção tinha tudo para conseguir o título. Lá estavam os tetras Taffarel, Aldair, Dunga, Leonardo e Bebeto, além de Cafu, Roberto Carlos, César Sampaio, Rivaldo e, principalmente, o fenômeno Ronaldo. Na defesa havia um tal de Júnior Baiano, de quem Feijão não gostava muito, mas, como ele mesmo fazia questão de lembrar, nenhum time é perfeito.

No dia do jogo de abertura, contra a Escócia, saímos do hotel bem penteados e cheirosos, como se fôssemos a uma festa.

— Prepare-se, Marcos Roberto — ele disse. — Hoje você vai ver o primeiro passo de uma grande caminhada.

Não respondi nada, apenas olhei-o nos olhos assim como quem está com a pulga atrás da orelha.

Pegamos o metrô e seguimos na direção do campo. Apesar de ter deixado Paris há sessenta anos, meu amigo ainda conhecia bem a cidade e se movimentava com desenvoltura.

Chegando à entrada do Stade de France, encontramos uma multidão tão grande que, por um minuto, ficamos paralisados. Depois de respirar um fundo e tomar um vaso-compressor, um bronco-dilatador, um antialérgico, um antiartrítico, um calmante, um excitante e um bocado de gim, Feijão resolveu abrir caminho a bengaladas. Mas eu, mais baixo e sem armas, não consegui acompanhá-lo. Então deu-se o que eu mais temia: nos perdemos. Fiquei desesperado. Como não sabia emitir um mísero som em francês, fiz a única coisa que podia fazer naquele momento: sentei na calçada e chorei.

Pensei que ia ficar ali, esquecido para sempre, quando ouvi uma voz aguda dizer em português:

— Jesus amado!

Era uma mulher baixa e de cabelos grisalhos. O homem ao seu lado comentou: — Também te amo, Madalena.

— Não, Jesus, não estou falando com você. Olhe esse pobre cãozinho. O coitado deve ter se perdido do dono.

A boa senhora apanhou-me então com seus braços magros, apertou-me contra o peito e levou-me para dentro do estádio. Os carinhos dela consolaram-me um pouco, mas volta e meia eu erguia o focinho tentando sentir o cheiro de Feijão.

Quanto ao jogo, se me permitem o trocadilho, a Escócia foi um osso duro de roer. O Brasil fez 1 a 0 com César Sampaio, no que deve ter sido o primeiro gol de ombro de todas as copas, mas, logo depois, o mesmo Sampaio empurrou Durie na área e o juiz marcou pênalti. Collins igualou.

A vitória veio, enfim, na segunda etapa, depois de um longo lançamento de Dunga. Cafu, que vinha entrando em diagonal, chutou para a defesa de Leighton, mas, no rebote, o infeliz Boyd acabou colocando a bola dentro das próprias redes. Nesse momento, a boa senhora atirou-me para o alto.

Os humanos são imprevisíveis. Ainda mais Madalena. Ela havia sido freira por muitos anos no convento de Santa Chiara e estava numa missão religiosa em El Salvador quando reencontrou Jesus, que era o treinador de goleiros do Club Deportivo Dragón. Madalena abandonou a cruz, ele, as traves, e os dois abriram um restaurante católico no bairro de Pigalle, em Paris.

Na saída, ia eu no colo de Jesus quando uma senhora passou a mão em minha cabeça e falou:

— Que trem bonito demais da conta!

Jesus e Madalena trocaram um olhar de espanto e perguntaram ao mesmo tempo: — A senhorita é mineira?

— Sou, uai.

— Parece que ele gostou de você — disse Jesus, enquanto eu lambia a mão da mulher, na qual havia uns restos de pipoca.

— Igualzim um que eu tinha lá em Guadalajara.

Aquela mulher contou então que seu nome era Amélia e o apelido, Mel. Tinha acabado de chegar do México, onde dirigiu um hotel por quase trinta anos, até perder tudo num terremoto. Sentindo-se íntima dos dois, revelou que tinha ido à França para ver a seleção ser campeã como em 70. Depois pretendia voltar para o Brasil e terminar seus dias numa casinha no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte.

Meus donos ficaram tão comovidos com a história que a convidaram para ficar em seu pequeno apartamento.

Eles se abraçaram e eu gani, emocionado.

Nós quatro fomos, dias depois, assistir ao jogo contra Marrocos. O escrete brasileiro venceu por 3 a 0 com uma pancada de Ronaldo e dois gols do tipo até-eu-faria, marcados por Rivaldo e Bebeto. Mais fácil que correr atrás de um gato manco!

Para ser sincero, eu continuava não ligando muito para aquela história de Copa, mas, em respeito aos sentimentos deles, fazia o mínimo barulho possível durante os jogos. Até mesmo quando estouravam os rojões — vocês não imaginam o efeito daquilo nos nossos tímpanos — eu procurava me manter calado.

Em seu colar, Mel carregava uma foto do ex-marido, um tal de Jiló, de quem às vezes sentia saudades. Madalena perguntou se ela não tinha encontrado outros homens na vida e ela respondeu: — Fui solteira a vida toda, mas não estou matando cachorro a grito.

Não entendi bem o que ela quis dizer, de qualquer forma, fiquei aliviado.

Dois ou três dias depois do segundo jogo, nós passeávamos pela região de Les Halles quando ouvimos um sujeito berrar em francês: — Fora! Fora! Nunca mais me apareçam aqui, seus caiporas duma figa!

Ele parecia ser dono de hotel e gritava para dois sujeitos que vestiam camisas da seleção brasileira. Penalizada, Mel quis saber do que se tratava:

— Madame — disse o dono do hotel — desde que estes indivíduos se hospedaram aqui, o elevador quebrou, a calefação pifou, meu telefone ficou sem linha e apareceu uma rachadura na caixa d’água.

— Monsieur, o senhor está exageran... — ia contestar um dos sujeitos quando uma titica de pombo espatifou-se nos seus óculos.

— Puxa, que azar! — disse Mel. — Como é o seu nome?

— Frieira — disse Frieira limpando-se com um lenço. — E este é meu irmão, o Chulé.

Generosos como eles só, Jesus e Madalena convidaram os dois de boa fé para ficar alguns dias em seu apertado apartamento. Completando as boas vindas, Mel propôs que todos fossem juntos a Marseille ver o próximo jogo contra a Noruega:

— Aposto como o Brasil ganha desses comedores de bacalhau — brincou Jesus.

— Eu prefiro não apostar — emendou Frieira.

Nós seis embarcamos horas depois para ver a tal partida. Como o Brasil já estava na fase seguinte, entrou em campo meio desinteressado. Fizemos um gol, com Bebeto, mas os noruegueses viraram com Flo e Rekdal. Mel comentou: — Tem dia que o poste mija no cachorro.

Nem quero imaginar uma coisa dessas.

Apesar do aperto, dos esbarrões e das dificuldades (viviam pisando no meu rabo), o ambiente no apartamento ia de bom a melhor. Mel era uma filha para Jesus e Madalena, e os três riam dos azares de Frieira e das excentricidades de Chulé. Éramos quase uma família.

Chegou então a fase das oitavas-de-final e coube ao Brasil enfrentar o Chile, que vinha de três empates. Todos tinham um certo medo desse jogo, mas isso só durou até os onze minutos,  quando Dunga cobrou uma falta perto da área e César Sampaio, de cabeça, abriu o placar. Aos 27 minutos, numa confusão na área, ele mesmo ampliou. E, um pouco antes de acabar o primeiro tempo, Ronaldo, cobrando pênalti, fez 3 a 0.

Na etapa final, o Brasil desperdiçou um monte de gols e um baixinho de nome Salas diminuiu. Mas aí Ronaldo marcou mais um e acabou com o jogo.

Saindo do Parc de Princes, fomos a um café beber alguma coisa. Chulé, Frieira, Mel e Madalena pediram Kir Royale e Jesus, é claro, tomou vinho. Eu fiquei na água mesmo. Na mesa ao lado havia um casal que comia silenciosamente. Depois de um tempo, o homem começou a olhar para Mel e levou uma cotovelada da esposa.

— Calma, querida, acho que reconheci alguém. — Então virou-se para Mel e perguntou: — Por acaso a senhora não era dona de um hotel em Guadalajara?

Logo o casal se juntou ao grupo. Ele era um sujeito grisalho chamado Minhoca e sua maquiada mulher tinha o nome de Victoire. Aliás, não sei se mulher é a palavra certa. Nós, cachorros, temos o hábito de cheirar as partes íntimas dos humanos e, bem, não é que eu queira meter o nariz na vida alheia, mas Victoire estava mais para Victor.

Os dois vinham da casa da mãe do Minhoca, onde tinha acabado de haver uma discussão.

— Mas por quê, gente? — perguntou Mel.

— Minha sogra é um pouco preconceituosa — respondeu Victoire sem entrar em detalhes.

Não é difícil imaginar o que aconteceu em seguida, difícil é imaginar como as pessoas se arranjaram na hora de dormir. Os donos da casa continuaram dividindo a cama de casal do único quarto, enquanto Minhoca e Victoire foram dormir na sala, Mel ficou no corredorzinho de entrada e os irmãos Frieira e Chulé ajeitaram seus colchonetes na cozinha. Quanto a mim, tive que me contentar com a área de serviço.

Foram dias felizes. Todos conversavam, jogavam cartas e riam sem parar. Eram gentis comigo e não havia hora em que alguém não estivesse me afagando. Apesar disso, eu não ficava um minuto sem pensar em Feijão, meu velho amigo. Onde estaria ele?

Depois de prepararmos lanches e sucos, os oito fomos a Nantes ver a partida das quartas-de-final contra a Dinamarca.

Foi um jogo terrível! Mal começou e Brian Laudrup cruzou para Jorgensen, que fez 1 a 0.

(Ops! Exagerei nas fotos e o espaço acabou. Continua no post abaixo) 

Por Torero às 07h54

(continuação)

(continuação)

Quando parecia que tudo estava perdido, veio o empate, com Ronaldo deixando Bebeto na cara do gol.

Quando tudo era indefinição, Ronaldo deu outro presente, dessa vez para Rivaldo, que definiu com perfeição: 2 a 1.

Quando parecia que tudo estava tranqüilo, Brian empatou.

Quando parecia que eles iam virar, Rivaldo marcou 3 a 2.

Quando parecia que tudo estava resolvido, estava mesmo, porque o nosso travessão defendeu uma bola no último minuto.

Confesso que acompanhei essa partida com mais atenção do que as anteriores e deixava cair as orelhas sobre os olhos quando o time de camisas escuras (nós vemos as coisas em preto e branco) fazia a seleção recuar para dentro da área.

Na saída do estádio vi uma grande estátua da taça Jules Rimet. Não me contive e fiz xixi no seu pé. Para meu espanto, a estátua disse: “Fora, cão!”. A estátua era um brasileiro de uns cinquenta anos chamado Cândido, que ganhava a vida fazendo aquele número. Todos se apresentaram e ficaram ali conversando por um tempo, até que, ao ver o colarzinho de Mel, Cândido apontou para a fotografia do ex-marido e disse:

— Ele foi um grande amigo do meu amigo Brutus.

— O Jiló? Jura? — perguntou Mel.

— Juro. O Brutus tinha até uma foto dele pendurada num quadro.

Com os olhos úmidos, Mel perguntou a Jesus e Madalena se ele também poderia ficar no apartamento.

Cândido passou a dormir na banheira.

Alguns dias depois, nós nove fomos assistir à semifinal entre Brasil e Holanda. Na outra, jogavam a dona da casa e uma seleção que vinha surpreendendo a todos, a Croácia.

Nessa altura, de tanto ouvir conversas sobre o assunto, entendia o meu bocado de futebol. Já sabia, por exemplo, que há dois tipos de jogos: os tranqüilos e os outros, aqueles em que se sofre, se ri, se fica nervoso, se dá pulos e se tem vontade de morder o próprio rabo. Brasil x Holanda foi um desses. O bom time holandês tocava a bola com inteligência, não desperdiçava passes e exibia craques como Frank de Boer, Davids e Bergkamp. Felizmente o esperto Overmars, contudido, não jogou. Mais felizmente ainda, Kluivert jogou.

 Kluivert urra depois de perder um gol

Acho que isso pede uma explicação: É que, já no primeiro tempo, Kluivert perdeu duas boas chances; e no segundo desperdiçou outras duas, uma deles incrível, livre diante de Taffarel.

Ronaldo fez nosso gol aos vinte segundos do segundo tempo, depois de uma boa enfiada de Rivaldo. Quando faltavam quatro minutos para o fim do jogo, pensei que não corríamos mais perigo e já me preparava para abanar o rabo de felicidade. Mas aí Kluivert resolveu acertar uma cabeçada. 1 a 1.

 Kluivert urra depois de fazer um gol

Na prorrogação, a Holanda, com a língua de fora, fechou-se lá atrás e nós tivemos nosso melhor momento em toda a Copa. A pressão foi constante e tivemos pelo menos quatro chances perdidas.

Vieram então os pênaltis e nessa hora valeu o treinamento: Ronaldo, Rivaldo, o capitão Dunga e até o reserva Émerson bateram com firmeza. Do outro lado, são Taffarel defendeu as cobranças de Cocu e Ronald de Boer.

Depois dessa classificação sofrida, os brasileiros fizeram um minicarnaval na Champs Elysées. Foi quando Cândido, parando diante de um pequeno palco improvisado, reconheceu dois amigos fazendo evoluções no meio de algumas passistas de escola de samba.

— Aqueles sujeitos já trabalharam no meu circo!

Um se chamava Gulliver e teria pouco mais que a minha altura, caso eu andasse em duas patas. O outro, magricela e com um turbante verde-amarelo, atendia pelo nome de Zé Cabala.

— E então, amigos, que fazem por aqui? — perguntou Cândido.

Zé Cabala falou: — As leis brasileiras não compreendem nosso ramo de atuação empresarial.

E Gulliver traduziu: — Estamos sendo procurados por curandeirismo e charlatanice.

Jesus e Madalena, sempre solícitos, perguntaram: — E onde vocês estão hospedados?

Gulliver e Zé Cabala foram dormir na área de serviço. Pior para mim, que tive de ser transferido para a pia da cozinha.

Às vezes a vida de cachorro é uma vida de cachorro.

Com dez humanos e um cão esbarrando-se a toda hora, era natural que todos preferissem passar a maior parte do tempo fora do apartamento. Nosso ponto de convivência passou a ser um bar em La Chapelle. Ali travamos longas discussões sobre futebol, regadas pelo bom vinho da casa. Mais curioso é que cada uma daquelas pessoas tinha uma história de Copa para contar. Eram histórias mirabolantes, espantosas e, digamos, incríveis.

Apesar do aperto, dos roncos, dos chutes, da falta de lençóis e de haver só um banheiro na casa, tudo se acalmava ao apagar das luzes. Nisso somos iguais: basta fechar os olhos e nossa imaginação nos leva para o melhor dos mundos. Naquela noite, com certeza, um mundo em que havia uma taça e faixas de campeão.

Jesus; Madalena e Mel; Frieira, Chulé e Minhoca; Victoire, Cândido, Gulliver, Zé Cabala e eu, Marcos Roberto. Esse foi o time que assistiu à final entre Brasil e França roendo unhas, limpando o suor do rosto e dizendo um bocado de palavrões cabeludos.

Como é do conhecimento geral, perdemos feio. A França deu um banho de disciplina, vontade e estratégia em nossa confusa seleção.

Esse jogo, aliás, foi precedido de muita tensão e histórias que só com o tempo serão explicadas. Primeiro divulgou-se uma escalação do time sem Ronaldo, depois outra com Ronaldo e depois o time não subiu ao gramado para fazer o aquecimento de rotina.

Por fim, Ronaldo jogou; quer dizer, entrou em campo.

Pela direita, Cafu estava emparedado por Petit e Lisarazu. Do outro lado, Rivaldo e Roberto Carlos nada conseguiam diante de Thuram e Deschamps. Sozinho no meio, Bebeto era presa fácil para Desailly e Le Boeuf.

Lá atrás, para piorar, Júnior Baiano dava calafrios na torcida e nosso capitão não mostrava a personalidade das partidas anteriores. Em vez do Dunga brigão e líder, mais parecia o dócil e mudo Dunga da Branca de Neve.

Mas o pior foi terminar o primeiro tempo já perdendo por 2 a 0, dois gols de Zinedine Zidane, de cabeça, após cobranças de escanteio em que Leonardo falhou na marcação.

Na segunda etapa, com Denílson e Edmundo, o Brasil tentou soltar os cachorros, mas o posicionamento dos franceses continuou perfeito. Desailly ainda foi expulso, porém, na maior parte do tempo, parecia que nós é que estávamos com dez. No fim, num contra-ataque veloz, o grande Petit selou o 3 a 0.

Saímos todos cabisbaixos do Stad de France e fomos afogar as mágoas num café do Quartier Latin.

O que aconteceu com Ronaldo? Por que ele jogou se não estava em condições? Por que Edmundo não começou como titular? Por que o time esteve tão apático? Eram perguntas que todos se faziam e que continuavam sem resposta.

De repente, senti um cheiro conhecido. Estiquei o pescoço, levantei as orelhas e olhei para a rua.

Sim, era Feijão! Ele vinha do estádio e andava sozinho, resmungando palavrões. Ao reconhecer meu latido, ele se virou, abriu um sorriso que até hoje não me sai da cabeça e disse:

— Marcos Roberto, onde você estava, seu cachorro?

— Au! — eu respondi.

— Procurei você por toda a cidade!

— Au! — eu comentei.

— Não faz mal — ele concluiu. — O importante é que estamos juntos de novo.

Feijão enturmou-se rapidamente com o grupo e, no momento em que reconheceu Madalena, sua quase-filha, ficou quase tão contente quanto ao me ver.

Já voltávamos para casa quando resolvemos dar uma parada no meio da Ponte Neuf, onde abrimos uma garrafa de vinho e fizemos uma espécie de brinde dos derrotados. Lá estavam um centenário senhor, dois ex-religiosos que encontraram o amor quando não mais esperavam, uma adorável senhora solitária, dois irmãos azarados e estranhos, um amoroso e diferente casal, um sujeito mais bondoso que inteligente e uma dupla de simpáticos picaretas, todos falando de vitórias, empates e derrotas, mas, na verdade, celebrando a alegria de terem se conhecido.

Nessa hora, o vento empurrou uma latinha de cerveja até os pés de Feijão. Ele a chutou na direção de Cândido, que passou para Victoire, que deu de chaleira para Chulé, que tocou para Mel, que fez duas embaixadas e mandou-a para Gulliver, que de cabeça passou para Frieira, que tropeçou na latinha. Não demorou muito e a brincadeira se transformou num jogo, com todos dando passes, dribles, chutes e risadas.

Se não fosse pela seleção e pelas copas, aquele curioso grupo nunca teria se encontrado, o que seria uma pena. Naquele momento pensei que, se é verdade que uma meia dúzia de tolos briga por causa do futebol, muito maior é o número dos que se tornam amigos por causa dele.

Foi então que, enquanto eles continuavam naquela festa, subi na mureta da Pont Neuf e, na minha língua particular, que vocês entendem como ganidos, latidos e rosnados, bradei para as estrelas:

— Futebol é bom pra cachorro!

Por Torero às 07h52

15/05/2008

1978 – Tinha um peru no meio do caminho

1978 – Tinha um peru no meio do caminho

A Copa de 1978 foi na Argentina. Estava havendo lá uns atentados, seqüestros e coisa e tal. Por causa disso a Copa quase teve que mudar de lugar na última hora, mas os guerrilheiros fizeram um pacto com o governo, jurando que não aprontariam nada durante os jogos.

Novamente a delegação teve que ter uns seguranças e novamente lá estava eu. Logo que cheguei, recebi uma visita inesperada na concentração. Foi uma alegria só.

— Brutus!

Eu não via o meu amigo desde 1975. No quartel disseram-me que ele andava fazendo palestras pela América do Sul.

— Cândido, seu estúpido! — disse ele, mas esse “estúpido”, eu creio, era no sentido positivo da palavra.

— Você não estava no Chile? — perguntei.

— Fiquei lá um tempo, mas me convidaram para vir aqui dar um curso de “Estratégias de convencimento e persuasão”.

— O que que é isso?

— Você não ia entender, deixa pra lá.

— E está trabalhando muito?

— Feito um animal. A Argentina é um excelente campo para os profissionais do meu ramo.

 O Brutus disse que a Casa Rosada era branca, mas ficou rosada por causa do sangue dos vermelhos. Até hoje não entendi a piada. 

Começamos então a falar de futebol. Eu expliquei a ele que depois do trauma de 1974 começou um debate maluco em todo o país. Uns falavam que era preciso dar mais valor à estratégia, outros diziam que o jogador brasileiro era um artista que nunca se adaptaria aos rigores da tática européia.

Um dos principais defensores das novas idéias era o técnico Cláudio Coutinho. Ele chocava a imprensa com expressões do tipo overlaping e ponto futuro, e fazia experiências esquisitas para a época, como jogar com dois volantes. Invencionices à parte, a equipe impunha respeito: Leão; Toninho, Oscar, Amaral e Edinho; Batista, Toninho Cerezo, Zico e Rivelino; Gil e Reinaldo.

Ainda assim, o desgramado do Brutus, sempre com aquela desconfiança, achou que não era time suficiente para ser campeão: — Essa Copa já tem dono, cândido. Os argentinos vão ganhar para o povo ficar sossegado por uns tempos.

Nossa estréia aconteceu em Mar del Plata, contra a Suécia, num jogo que lembrou os da Copa de 74. Edinho não se acertava na lateral, Cerezo errava a maioria dos passes, e Zico e Reinaldo estavam tímidos que nem menina da roça. Lá pelas tantas, para ajudar, Rivelino se machucou.

Mas como desgraça pouca é bobagem, no segundo tempo o Coutinho deu um jeito de o ruim ficar pior: tirou Gil e colocou Nelinho, formando um ataque esdrúxulo com dois laterais. Ficamos no 1 a 1, golzinho sem graça de Reinaldo.

Nesse jogo, porém, no último minuto, houve um lance inacreditável: era escanteio para nós. A bola veio e o Zico, de cabeça, mandou para o fundo do gol, mas o juiz, um galês chamado Clive Thomas, disse que tinha encerrado a partida enquanto a bola estava no ar. Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas. 

 Este é o Clive Thomas. Enganos acontecem, coitado.

Quatro dias depois, contra a Espanha, o Brasil conseguiu o que parecia impossível: fez a gente sentir saudade do jogo contra a Suécia. Coutinho insistia nas excentricidades e o time não rendia. Aliás, nós só não perdemos para a Espanha porque aconteceu um milagre: o lateral deles fez um cruzamento para o atacante Santillana, e Leão saiu mal para cortar o cruzamento. Santillana chegou primeiro, tocou para Juanito e este avançou para o gol. Só o zagueiro Amaral, em cima da linha, podia evitar o desastre. Quando Juanito estava a três passos do gol, arriscou o chute.

Vou ser sincero: não tive coragem de olhar. Baixei a cabeça, fechei os olhos e fiquei ali, durinho, esperando o pior. Mas aí, em vez de eu escutar um “goooooool”, ouvi um “uuuuuh”. Então abri o olho esquerdo, olhei pro Brutus e vi ele beijando uma medalhinha de Nossa Senhora Aparecida:

— O Amaral tirou, Cândido! Pra frente, Brasil!

Depois desse jogo, a delegação entrou em crise. A imprensa descia o pau, todo mundo dava palpite. Até o Brutus, quando foi visitar a concentração, deu o seu. Ele chegou meio bêbado para o almirante Heleno Nunes e disse: — Esse time só tem uma solução: dinamite! — O almirante acabou chamando o Coutinho para uma reunião secreta. Não sei o que eles falaram lá, mas foram anunciadas algumas mudanças.


Na lateral-esquerda saía o Edinho (que na verdade era quarto-zagueiro) e entrava o simples e competente Rodrigues Neto.

Na meia-direita saía o Zico e entrava o Jorge Mendonça.

No ataque, atendendo ao pedido do Brutus, entrava o Roberto Dinamite no lugar do Reinaldo.

Foi um alívio. O Brasil finalmente achou um padrão de jogo e mostrou a sua força. Vencemos a Áustria por 1 a 0 e o gol, marcado justamente pelo Roberto Dinamite, fez o país inteiro explodir de alegria.

E lá fomos para a fase seguinte. Pegamos um grupo com Peru, Argentina e Polônia. Vá lá, eram jogos difíceis, mas eu estava esperançoso.

Logo na primeira partida, em Mendoza, a seleção brasileira confirmou o que eu pensava: estava pegando ritmo. Enfiamos 3 a 0 goela abaixo dos peruanos e jogamos bonito. Nessa partida o finado Dirceu comeu a bola: emplacou dois gols e foi o maestro do meio-campo. Cheio de personalidade. O terceiro quem fez foi o Zico, de pênalti.

Fomos então para o duelo contra os argentinos. Eu e Brutus pegamos o ônibus para Rosário e ficamos lá, quietinhos no meio dos hinchas. O Brutus estava de óculos, nariz e bigode falsos.

Cara estranho o Brutus.

Ninguém duvidava que dali sairia o finalista do grupo, por isso o jogo foi um nervosismo só! Na defesa, o Brasil fez tudo certo: prevendo que o pau ia comer, o Coutinho tirou o Toninho Cerezo e colocou o Chicão.

— Esse cara é o meu ídolo! — disse o Brutus.

O volante do São Paulo jogou como um xerife à frente da área e devolveu todas as botinadas que o pessoal da frente levou. Porém, faltou sorte no ataque, até na trave mandamos. Como a Argentina não se arriscou, no final o placar não saiu do 0 a 0.

Depois da Batalha de Rosário, a decisão ficou para a última rodada. O Brasil enfrentaria a Polônia e a Argentina o Peru.

Brasil e Polônia jogaram algumas horas antes de Argentina e Peru. O Brutus falou que isso era mutreta, porque os argentinos entrariam em campo sabendo quantos gols tinham que fazer. O meu amigo tinha cada idéia...

A Polônia era praticamente o mesmo time de 74, e ainda trazia novas estrelas como Lubanski e Boniek. Jogamos bem e vencemos por 3 a 1. Nelinho finalmente acertou um daqueles seus chutes tortos e Roberto Dinamite fez dois gols. Melhor ainda que a gente abriu um bom saldo. A Argentina só seria a finalista se ganhasse do Peru por quatro gols de diferença.

 Boniek era o Zico deles.

Eu e Brutus vimos essa partida na casa dele. Tinha uns objetos meio estranhos lá, mas o mais de todos era uma cadeira que parecia uma daquelas de barbeiro, só que com umas correias e uns fios. Ele chamava aquela poltrona de “cadeira do dragão”. Assisti ao jogo dali.

Reparei que na parede havia um quadro de cortiça com várias fotos.

— Seus amigos, Brutus?

— Mais ou menos.

— Tem um aqui com nome engraçado: Jiló!

— Esse eu conheci no Araguaia.

— Pescaria?

— Caça.

Então o Brutus fez pipoca e pôs um lacinho verde-amarelo na antena da tevê. Aos poucos, porém, a gente foi ficando verde de raiva e amarelo de tristeza.

Os jogadores peruanos, coitados, tiveram uma noite muito ruim: não se posicionaram direito, perderam bolas bobas, erraram passes e deixaram buracos na defesa. O goleiro deles, Quiroga — um argentino naturalizado peruano — vinha jogando muito bem, mas dessa vez levou gols fáceis. Acontece.

Quando a partida terminou, a decepção: 6 a 0. Brutus chamou Quiroga, Duarte, Rojas, Manzo, Chumpitaz, Quesada, Cueto, Cubillas, Muñante, Velásques e Oblitas de traidores. Houve até uma conversa de que cada um deles tinha ganhado cinqüenta mil dólares para facilitar a vitória argentina. Mas eu disse para o Brutus que nada tinha sido apurado e que não se devia acusar as pessoas sem provas. Ele não se conformou e disse:

— Se um dia eu for trabalhar no Peru, essa turma vai ver o que é bom pra tosse!

Fora das finais, o Brasil despediu-se diante de quase setenta mil pessoas no Monumental de Nuñez, contra a Itália. Vencemos bem, 2 a 1: Dirceu de novo, de fora da área, e Nelinho, com um gol de cinema, um chute que fez duas lindas curvas no ar e surpreendeu Dino Zoff.

Nelinho tinha um canhão no pé.

Saímos da Copa invictos mas em terceiro lugar. Coutinho, que adorava inventar expressões, disse que nós éramos os “campeões morais”. O Brutus, ainda chateado com aquele jogo contra o Peru, falou:

— Prefiro ser um campeão imoral de verdade do que um campeão moral de mentira.

A decisão foi disputada no dia seguinte, no mesmo Monumental de Nuñez, entre Argentina e Holanda. A Argentina marcou primeiro — Kempes —, e parecia que ia ganhar fácil, mas Naninnga, de cabeça, empatou aos 37 minutos do segundo tempo. No último minuto tivemos uma prova de que Deus pode até não ser brasileiro, mas seguramente não é holandês. Resenbrink foi lançado na ponta, adiantou-se aos zagueiros e tocou de leve na saída de Fillol: a bola pingou no chão e bateu na trave.

 Kempes, o herói da decisão.

No primeiro tempo da prorrogação, a profecia de Brutus se confirmou: Kempes trombou com Jongbloed e a bola ficou saltitando à frente do gol. Os holandeses correram para afastá-la, mas Kempes deu uma solada e empurrou a bola para as redes. O juiz ignorou os protestos. No segundo tempo, numa trama pelo meio da zaga, Bertoni marcou o terceiro e consolidou a vitória.

Acabado o jogo, o Brutus virou-se para mim:

— Viu? Eu não disse que a Argentina ganhava de qualquer jeito?

Eu respondi que eles venceram porque tinham um bom time, afinal não é todo dia que você junta Fillol, Passarella, Ardiles, Gallego, Luque e Kempes.

— Tá, mas você não achou umas coisas meio estranhas? — perguntou o Brutus.

— Como o quê?

— Por exemplo, se você pegar o mapa e fizer as contas, vai ver que, para jogar as sete partidas, o Brasil teve que viajar 4.659 quilômetros.

— E daí? A Argentina é um país muito grande.

— Mas a seleção deles só teve que percorrer 618 quilômetros.

— Caramba, que sorte! — eu disse. Não sei por quê, mas o Brutus ficou meio vermelho. Depois continuou:

— E não é só isso. Andei ouvindo que eles contrataram um cara só para fazer xixi, porque estavam tomando tanta anfetamina que nunca iam passar no exame antidoping.

— Imagina! Eles são profissionais, nunca iam fazer isso. Deve ser invenção da imprensa.

Ele ficou ainda mais vermelho e falou:

— E aquele jogo contra o Peru?

Eu, bem calmo, respondi:

— O Quiroga não estava inspirado.

Não sei se eu estou com impressão errada, mas acho que ele ficou ainda com mais raiva, tanto que do vermelho foi para o roxo. Aí falou assim, meio entre os dentes:

— Às vezes você é muito cândido, Cândido!

Naquela noite, enquanto toda a Argentina comemorava, Brutus preparou o jantar. Fiquei lendo umas revistas do Mickey e, quando ele me chamou para comer, vi que, bem no meio da mesa, havia um enorme peru assado. Nós nos sentamos e começamos a comer. Ele dava cada mordida que metia medo! Devia estar com uma fome tremenda. No corpo do bicho havia umas marcas meio esquisitas, como se fossem uns queimados.

— O que é isso, Brutus?

— Isso o quê?

— Essas marcas no peru...

— Essas seis, mesmo número de gols que levou a seleção do Peru e que parecem ter sido feitas com algum aparelho de eletrochoque de 100 volts e corrente de 10 ampères chamado “pimentinha”, muito usado por torturadores?

— É.

— Não sei, nem tinha reparado.

Cara estranho o Brutus. Nunca mais o vi depois daquela noite. Parece que morreu numa explosão, anos depois, no Rio de Janeiro. Uma coisa assim. Era um 1o de maio e ele estava num Puma, se não me engano. Teve quem dissesse que o carro explodiu por causa de uma bomba, mas deve ser mentira. O que o Brutus ia estar fazendo com uma bomba? Explodi-la no Riocentro e matar um monte de gente? Que bobagem! É a mesma coisa que dizer que teve tortura no Brasil.

Por Torero às 10h01

08/05/2008

1974 – Uma copa torturante

1974 – Uma copa torturante

Nas Olimpíadas de Munique, em 1972, tinham acontecido atos de terrorismo contra a delegação de Israel. Então, na Copa de 74, que também seria na Alemanha, acharam melhor incluir uns seguranças na delegação brasileira.

Eu tinha vinte e poucos anos e acabara de entrar para o Exército, mas, como minha mãe era tia da cunhada do irmão do genro da sobrinha da nora do primo de um coronel, consegui uma vaga como segundo segurança do massagista.

O primeiro segurança, meu superior, era um cara que tinha um apelido engraçado: Brutus. Ele trabalhava num setor especial do Exército, um tal de SNI, Serviço Nacional de Informação. Ele me disse que era um “agente de captação de dados através de métodos heterodoxos”, o que não faço a menor idéia do que seja. Nunca perguntei, mas acho que o Brutus tinha esse apelido porque gostava muito dos desenhos do Popeye.

Antes que me esqueça, meu nome é Cândido. Cabo Cândido.

Logo que chegamos a Frankfurt, eu e Brutus descobrimos que tínhamos uma coisa em comum: gostávamos de jogar mau-mau; ficávamos horas nas cartas. Como eu sempre perdia, uma vez falei:

— Brutus, jogar mau-mau com você é uma tortura.

E ele respondeu com voz cavernosa: — Essa é a minha especialidade — e riu tanto que quase caiu da cadeira.

Bem, vamos ao que interessa.

O Brasil era o campeão do mundo, mas contusões e aposentadorias nos tiraram Pelé, Tostão, Gérson, Carlos Alberto, Brito e Clodoaldo.

No gol, Leão ganhou a vaga. A defesa era respeitável: Nelinho, Luís Pereira, Marinho Peres e Marinho Chagas. O meio-campo também era forte: Piazza, Rivelino e Paulo César. E o ataque era pelo menos razoável: Valdomiro, Leivinha e Jairzinho.

Eu achava que era time de sobra para o tetra. O Brutus não. Ele dizia que nome não ganha jogo e que o esquema do Zagallo era retranqueiro. Como eu era teimoso e ele era turrão, essa discussão começava logo de manhã no palitinho, continuava à tarde no dominó e só terminava à noite no mau-mau.

Campeão mundial, o Brasil fez a partida de abertura contra a Iugoslávia no Wald Stadion. Eu não duvidava da vitória. E por goleada!

 A iugoslávia era assim.

— Esses branquelos têm que comer muito mocotó para ganhar da gente!

— Não sei — disse o Brutus. — Comunista é duro na queda.

Ele estava certo. Foi um jogo lá e cá. Atrás nos agüentamos, mas do meio-campo para a frente, tirando Rivelino e Jairzinho, só tristeza. Paulo César — que tinha sido vendido antes da Copa para o Olympique de Marseille — parecia um pouco desmotivado; Leivinha não desencantava e Valdomiro ia bem, mas errava passes, chutes e cruzamentos. No fim, 0 a 0. Brutus tinha a sua explicação para o empate:

— Contra comunista tem que jogar duro, não adianta enfeitar!

Paciência. Lá fomos nós pegar a Escócia. Bebemos meia garrafa de uísque para comemorar por antecipação e Brutus foi para o estádio dizendo que não podíamos perder para um time que usava saias.

 A seleção escocesa entrando em campo.

Não podíamos, mas quase perdemos. O Brasil até que atacou, mas esbarrou na retaguarda dos escoceses. Os jogadores que tinham ido mal na primeira partida continuaram não indo bem. O Brutus não se conformou com aquele segundo 0 a 0:

— Assim não dá! O Leivinha tá apanhando mais que estudante em passeata, o Paulo César joga mais escondido que guerrilheiro e o Valdomiro tá mais isolado que o Partidão!

Nunca entendi muito bem as coisas que o Brutus falava. No dia seguinte, por exemplo, ele chegou para mim e cochichou: — Cândido, acho que esse Zagallo deve ter sido torturador no passado.

— Por quê, Brutus?

— Porque ele domina as técnicas da profissão. O time está tão mal escalado que dói, mas ele fica ali, impassível, só vendo a gente sofrer. E tem mais: numa boa tortura, o torturado não pode perder a esperança de vez, entende? Senão ele não se importa com mais nada. E é isso o que acontece com o Brasil. Esses empates mantêm o time vivo, mas a gente não pára de sofrer. Coisa de profissional.

O certo é que com aqueles dois empates estávamos mesmo numa sinuca de bico. Tudo se decidiria em Gelsenkirchen — eh, nominho! — no jogo contra o Zaire. Eles tinham tomado de 9 a 0 da Iugoslávia e de 2 a 0 da Escócia. O Brasil precisava então ganhar pelo menos por três gols de diferença.

Era isso ou o vôo de volta.

Nem dá para imaginar o estado de nervos em que o Brutus ficou. Ele dizia que até o time dos pracinhas da FEB, treinando direitinho, ganharia do Zaire, mas que aquela seleção...

E veio o jogo. Bola daqui, bola dali, o Brasil em cima e lhufas. Pensei que a gente ia virar o primeiro tempo já com uns quatro gols na frente. Que nada! O placar foi unzinho a zero, gol de Jairzinho. Veio o segundo tempo e continuou a lengalenga. O Brasil superior, mas sem rapidez, sem entrosamento, sem trama de jogadas.

— Parece o pessoal da esquerda — disse o Brutus.

Resultado: faltando quinze minutos, estávamos caindo fora da Copa.

Aí, para dar uma esperancinha, veio o segundo gol. A zaga deles rebateu mal e a bola caiu nos pés de Rivelino, que mandou o canhão para as redes. Mas aquele resultado ainda não bastava. Com o 2 a 0, os escoceses ficavam com a vaga.

E toca a roer unha!

Mas então, quando o juiz já ia apitar o toque de recolher, passaram a bola para o Valdomiro e ele resolveu mandar para o gol. Não era o mais recomendado: ele estava sem equilíbrio, não tinha ângulo e, para piorar, pegou esquisito na bola. Não me pergunte como, mas ela entrou. O goleiro Kazadi engoliu um dos maiores frangos da história das copas e, graças a ele, passamos para a fase seguinte.

 Valdomiro, o salvador.

E quem vinha pela frente? A Argentina, a Holanda e a Alemanha Oriental.

Aí o Zagallo resolveu mudar o time. Nelinho deu lugar a Zé Maria, saiu Piazza e entrou Paulo César Carpegianni, e Leivinha, contundido, foi substituído por Dirceu. Com isso o time passou do 4-3-3 para o 4-4-2.

Os progressos apareceram no jogo contra a Alemanha Oriental. Como naquela Copa tudo foi sofrido, o gol só saiu numa cobrança de falta. Jairzinho ficou no meio da barreira adversária e se abaixou na hora do chute. O Rivelino mandou o tiro bem naquele buraco e a bola estufou o canto direito do goleiro Croy. Inacreditável! O Brutus vibrou muito com aquele gol e ficou pulando de alegria.

— Isso é que é tática! Infiltra um espião no meio dos comunas e depois manda a bomba!

Ele era um cara meio estranho.

Bom, e lá vieram os argentinos. Era o primeiro Brasil x Argentina numa Copa. Rivelino, sempre ele, fez 1 a 0, batendo de fora da área, mas Brindisi empatou. Saímos do sufoco no segundo tempo, depois de uma roubada de bola do Zé Maria, que entrou pela área e cruzou para o Jairzinho. Belo gol!

 Zé Maria era uma figura (clique no Super Zé para ver os gols daquele jogo)

A decisão de quem iria à final seria contra os holandeses, que vinham de um 2 a 0 sobre os alemães orientais e de um 4 a 0 contra os argentinos. Eles podiam até empatar. Vi esse jogo pela televisão, ao lado do Brutus, ele ali dizendo que o Brasil tinha que se cuidar, que o futebol deles era moderno, coisa e tal.

Eu respondi meio bravo: — Quê! Isso é jogo de peladeiro!

Sinceramente era o que eu achava. Os laterais avançavam como se fossem pontas; o tal de Krol, que era zagueiro, se mandava para o ataque quando bem entendia; o pelé deles, o Cruyff, jogava em todos os lugares do campo; e eles não tinham centroavante, porque os dois da frente — Rep e Resenbrink — zanzavam pelo ataque para confundir a marcação. Tinha lá um Haan, habilidoso, e o tal de Neeskens, que entendia do riscado. Mas era só.

No primeiro tempo a partida foi equilibrada: eles mais rápidos, claro, e nós pesadões, tocando a bola, esperando a hora do bote. Mas no segundo tempo, num piscar de olhos, eles definiram o jogo. O primeiro gol foi de Neeskens, num chute dividido com Luís Pereira, que encobriu Leão. O segundo numa escapada rápida que acabou com um toque de chapa de Cruyff.

 (clique na imagem para ver os gols daquela triste partida)

Restou-nos decidir o terceiro lugar. Perdemos para a Polônia: 1 a 0, gol do carequinha Lato, artilheiro do mundial com sete gols.

Meu amigo ficou enfurecido com o resultado desse jogo: — Odeio perder para vermelhos! — Para espairecer, decidimos ir a uma cervejaria e escolhemos uma chamada Der Röte, que, por acaso, quer dizer “O vermelhão”.

O dono era um sujeito com bochechas rosadas, casado com uma mulata brasileira que tinha uns trezentos dentes muito brancos. Curiosamente, todos os garçons usavam ternos amarelos como uniforme.

Quando soube que éramos brasileiros, o dono do Der Röte veio até nossa mesa e apresentou-se:

— Minha nome ser Dieter Bonn, mas toda munda chama eu de Dito Bombom. Depois fez com que experimentássemos uns vinte tipos de cerveja, das mais variadas cores, texturas e gostos.

Os neurônios de Brutus ficaram tão bêbados que ele começou a comparar as seleções com modelos econômicos. Disse que o Brasil lembrava um capitalismo de Estado, com algum espaço para a livre-iniciativa, mas amarrado por um sistema rígido e um tanto ultrapassado. A Holanda era o anarquismo, com cada um fazendo o que bem entendia, mas tudo de uma forma orgânica; a Polônia era socialista, organizada, forte na defesa mas sem muita mobilidade; e a Alemanha era o capitalismo dos países ricos, poderoso, eficiente, sempre jogando duro e entrando para ganhar nas divididas.

No dia seguinte fomos assistir à final da Copa entre a Holanda e a dona da casa, a Alemanha Ocidental. Todo mundo esperava a vitória da Laranja Mecânica, que começou na frente com um gol de Neeskens cobrando pênalti. Mas a Alemanha empatou com Breitner, também de pênalti, e passou à frente numa girada de Gerd Müller aos 43 minutos do primeiro tempo. Depois, a Holanda não teve forças para reagir e entregou os pontos.

Voltamos ao bar do senhor Bombom para tomar a última cerveja em Munique. Eu, que tinha torcido para a Holanda, estava inconformado:

— Os peladeiros tinham um jogo mais bonito, mais criativo, com mais liberdade. Não foi justo...

Então o Brutus fincou o garfo numa batata, ergueu o braço e exclamou: — Ao vencedor, as batatas!

E Bombom, erguendo um copo, emendou: — E o cerveja!

Por Torero às 06h48

01/05/2008

1970 – Ganhamos, ai, ai, ai!

1970 – Ganhamos, ai, ai, ai!

                  

Lembro como se fosse hoje. Era o nosso terceiro aniversário de casamento. Eu peguei uma taça de vinho, ergui e disse: — Luz dos meus olhos, ar que eu respiro, milho da minha pamonha, hoje completamos três anos de plena felicidade. Isso não é maravilhoso?!

Pensei que fosse ganhar um beijo, mas ele, sem mesmo se virar, resmungou: — Hoje é o aniversário da grande revolução albanesa e você vem me falar em casamento, essa bobagem burguesa!

O Jiló tinha entrado para um grupo de esquerda. Colocou um pôster do Marx na sala, um do Che no quarto e outro do Mao no banheiro. Tive prisão de ventre por duas semanas. No começo estranhei tudo, mas amava tanto aquele cruzeirense que nem pestanejei: fiz minha ficha na organização.

 Esse é o Marx novinho. O Jiló era a cara dele.

Naquela época fiquei com um visual um pouco diferente: parei de depilar as axilas, deixei crescer o cabelo, vestia jeans e usava boina. Mas por dentro continuava a mesminha: sempre que dava fugia das reuniões, me enfiava no banheiro, ligava o radinho e escutava os jogos do Atlético e da seleção. Um dia, depois do Brasil meter 6 a 0 na Venezuela pelas eliminatórias, fiquei emocionada e perguntei ao Jiló o que ele achava de a gente ir assistir à Copa no México. Perguntinha besta, coisinha de nada, mas não é que ele me vira um bicho e começa a dizer um monte na minha orelha?

— Como você me fala uma besteira dessas! O futebol é o ópio do povo, camarada Mel! Ir ao México? Nem morto!

— Mas Jilozinho, quer dizer, camarada Jiló, o técnico da seleção é do Partido Comunista.

— É verdade, o João Saldanha está no partidão...

Vendo que ele tinha ficado meio assim, aproveitei a chance e disse:

— Aqui ó, Jiló, escuta: a Copa vai ser transmitida ao vivo, sabe o que é isso? Ela vai ser vista pelo mundo todo. Meu plano é que a gente vá aos jogos, fique num lugar bem em frente às câmeras e aí abra uma faixa “Viva a revolução!” Entendeu aonde eu quero chegar?

O Jiló fez cara feia a princípio, mas depois achou o negócio interessante e, no fim aceitou, com a condição de que, depois da Copa, a gente desse uma passadinha em Cuba. Naquela hora tive vontade de cantar “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção...”, mas como isso iria estragar tudo assobiei o hino da Internacional Socialista. O Jiló sorriu e me beijou.

Aquela Copa tinha que ser nossa. A seleção juntou um monte de craques, tantos que cinco deles (Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivelino e Pelé) jogavam com a camisa dez nos seus times. Uns meses antes da competição, o general Médici, como bom ditador, cismou que o Saldanha tinha que escalar o centroavante Dario. O João Sem Medo respondeu que o presidente escalava o ministério e ele escalava o time. No dia seguinte o Zagallo assumiu.

Eu acho que eram tantos craques que nem de técnico precisava. O time-base era Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Pelé; Jairzinho e Tostão. No banco, feras como Leão, Zé Maria, Marco Antônio, Paulo César e Edu. Sem falar nos que não foram convocados. Dava para formar outra seleção: Manga; Eurico, Luís Pereira, Djalma Dias e Rildo; Zé Carlos, Dirceu Lopes e Ademir da Guia; Paulo Borges, Toninho Guerreiro e Lula.

Bom, nós viajamos, coisa e tal, e no dia 3 de junho de 1970 chegamos cedo ao estádio Jalisco, em Guadalajara. Colocamos a faixa em um lugar bem visível. Para falar a verdade, eu nem ligava para a faixa; estava mesmo é apreensiva com a estréia. No grupo, só pedreira: Tchecoslováquia, Inglaterra e Romênia.

Logo de cara pegamos os tchecos. O começo foi meio equilibrado, com pinta de 0 a 0, até que, numa escapada pela esquerda, Petras colocou no canto oposto de Félix. Jiló vibrou: — Viva o socialismo!

Mas quando Petras se ajoelhou e fez o sinal da cruz ele se sentou e esbravejou: — Carola traidor!

Logo depois, porém, falta para nós na entrada da área: Rivelino mandou uma bomba e empatou. Eu não agüentei e berrei: — Gol!

E o Jiló, impassível, disse: — Camarada Mel, com esse grito você está sendo conivente com a situação política do Brasil. Eu fechei a boca e a cara.

 Quem manjava mesmo de esquerda era o Rivelino

Ainda no primeiro tempo, esses olhos que a terra há de comer viram um dos lances mágicos de Pelé naquela Copa. Ele recebeu uma bola antes do meio-campo e, vendo Viktor adiantado, resolveu tentar o gol. O estádio inteiro viajou com aquela bola e soltou um “ohhh” de decepção quando ela passou a um metro da trave. No segundo tempo voltamos mais soltos e liquidamos a fatura com um gol de Pelé e dois de Jairzinho, um deles bonito demais, dando chapéu no goleiro, matando a bola no peito e soltando a bicanca.

Nesse dia, na saída do estádio, vi dois torcedores brasileiros brigando de um jeito muito esquisito: um só dava cabeçadas e o outro pontapés. Deve ser o efeito da tequila mexicana.

O segundo jogo foi contra os ingleses, os campeões do mundo, que tinham Banks, Hurst e os bobbies Moore e Charlton. Esse jogo foi realmente pau a pau, com os dois times perdendo chances de gol. Numa delas, Pelé acertou uma cabeçada mortal de cima para baixo, mas Banks voou e, com um tapa, conseguiu jogar a bola sobre o travessão. Aí foi a vez de Tostão. Ele recebeu uma bola na esquerda e foi fazendo fileira com os ingleses: fintou um, pôs a bola no meio das pernas de outro, fez que ia e não foi, girou o corpo e deu um centro milimétrico, pondo a bola nos pés de Pelé. O Rei dominou, atraiu os zagueiros e rolou para Jairzinho. Aí, meu filho, nem Banks.

 O Pelé estava dizendo: "I'm sorry, Bobby."

Depois dessa partida o Jiló começou a ficar desconfiado: — Será que estamos mesmo divulgando a revolução?

— Claro, camarada Ji, nós estamos ligando a revolução ao esporte, a guerrilha ao futebol, a luta aos gols.

Ele ficou coçando a barba por cinco longos minutos. Depois disse: — Então tá.

Com a classificação certa, o time poupou titulares e energias contra a Romênia. Entraram Fontana, Marco Antônio, Paulo César e Edu. Foi um jogo sem graça, meio lá e cá, e o Félix deu uma saída esquisita num dos gols deles. Ainda assim fizemos o suficiente para vencer por 3 a 2, dois gols de Pelé e um de Jairzinho.

Nas quartas-de-final pegamos o Peru, que tinha desclassificado a Argentina nas eliminatórias e era dirigido pelo nosso Didi. Quando a bola começou a rolar, deu pra perceber que seria carne de pescoço: eles marcavam o Pelé em cima e tinham uma espinha dorsal eficiente, com Chumpitaz, Mifflin, Baylon e Cubillas. Sorte nossa é que o goleiro deles era o Rubiños e não o Banks. Pelé foi muito bem marcado, mas Tostão assumiu a batuta e fez dois gols. Os outros foram de Jairzinho e de Rivelino, num chute de três dedos que fez uma curva inacreditável. No final das contas, 4 a 2.

A cada jogo eu ia ficando mais contente. E o Jiló mais desconfiado.

— Camarada Amélia, e se nós fôssemos direto para Cuba? Acho que a gente ainda consegue chegar no final da colheita do tabaco.

 O Jiló queria vir para cá.

Eu me imaginei com um lenço encardido na cabeça, debaixo de um sol de meio-dia, suando feito uma porca e sendo comida pelos mosquitos. Tive vontade de dizer: — Você está louco, Jiló?! Nem morta eu vou perder o próximo jogo do Brasil!

Mas o que eu falei foi: — Eu adoraria colocar um alvo lenço sobre meus cabelos, receber o calor do sol, suar pela revolução e doar meu sangue aos mosquitos cubanos, mas ainda não cumprimos nossa missão aqui no México. Temos que espalhar nossa mensagem pelos quatro cantos do mundo.

Quando olhei para o Jiló, ele estava com os olhos rasos d’água. Aí enxugou-os e disse: — Então tá.

O jogo seguinte já era a semifinal contra o Uruguai. Era nosso primeiro encontro com eles em Copa do Mundo desde a tragédia de 1950. Foi um jogo muito aguardado e disputado debaixo de grande tensão. Logo de cara, a Celeste abriu a contagem com um chute despretensioso de Cubilla: a bola passou pererecando na frente do Félix e depois bateu num morrinho e entrou. Era tudo que a gente não precisava. Os uruguaios se fecharam na defesa e começaram a descer o sarrafo, a catimbar, aquele joguinho enervante que eles sempre fazem.

Mas o que não faltava naquela seleção era opção de jogada. Tostão começou a cair para a lateral do campo, assim como quem não quer nada, e foi puxando os marcadores. Uma hora, ele percebeu um vazio na esquerda da área e fez um lançamento perfeitinho, perfeitinho. Os uruguaios estavam concentrados em Jairzinho, Pelé e Rivelino; mas, de repente, Clodoaldo apareceu na cara de Mazurkiewicz e mandou o tijolo. Foi o gol certo na hora certa! No segundo tempo o Brasil voltou tranqüilo e aí veio o baile: fizemos 3 a 1 com Jairzinho, num drible em que ele quase quebrou a espinha do zagueiro, e com Rivelino disparando o míssil de sempre e girando os braços feito doido.

Foi nesse jogo também que vi um daqueles momentos que deixam a gente com a respiração presa e os olhos umedecidos. Pelé foi lançado e o goleiro Mazurkiewicz saiu do gol. Ele fez que ia dar um drible pela esquerda, mas deu um meneio de corpo saindo pelo outro lado. Mazurkiewicz, desesperado, abriu os dois braços, um para pegar Pelé, outro para pegar a bola. Não pegou nada. Pelé girou e bateu de primeira. O zagueiro que vinha correndo para o gol se estatelou no chão. A bola passou a centímetros da trave. Deu um dó que só...

A final da Copa reuniu os dois bicampeões até então: o Brasil, campeão de 1958 e 1962, e a Itália, campeã de 1934 e 1938, que vinha de uma semifinal terrível contra a Alemanha, um 4 a 3 decidido na prorrogação. Seria mais que uma final, seria um desempate, o vencedor levaria definitivamente para casa a taça Jules Rimet.

Eu tinha acabado de passar batom quando o Jiló saiu do banheiro com uma camisa verde, uma calça branca e sapato vermelho. Nunca fui chata com essas coisas, mas naquela hora não me contive: — Uai, você vai assim?

E ele: — Claro, nós vamos torcer pela Itália.

Aquela frase foi como um coice. Ele nem ligou e continuou falando: — A Itália pode não ser uma experiência social perfeita, mas é muito superior ao nosso regime.

— Jiló de Deus, eu também detesto a ditadura, acho que militar tem mais é que ficar no quartel, mas aqui é diferente, é um jogo de futebol!...

— Não, tudo está interligado, cada mínima atitude nossa tem que ter lógica e coerência. Se o Brasil ganhar, os milicos vão se aproveitar; por isso nós vamos torcer pela Itália.

Vocês já sabem que pelo Jiló eu fazia qualquer coisa. Então lá fui eu, com a minha faixa “Viva a revolução!” assistir à final.

O Brasil começou bem, tocando a bola e esperando a hora do bote. A Itália, meio cansada, só assustava nas pontadas de Gigi Riva. De repente, o nosso gol: Rivelino cruzou no segundo pau e Pelé testou firme e colocado no canto de Albertosi. Foi o nosso centésimo gol em copas. Eu fiquei com o grito entalado na garganta. Vigiada pelo Jiló, só disse: — Dá vontade de chorar...

 Olha Ele comorando o gol.

Minutos depois a defesa brasileira entrou em pane. Clodoaldo quis fazer uma gracinha e perdeu a bola; os zagueiros ficaram apavorados e Félix saiu mal do gol. Resultado: Boninsegna dominou, girou e empatou. Jiló vibrou muito e me abraçou forte como nos tempos de namoro.

O segundo tempo começou naquela agonia: o Brasil superior, a Itália trancada, até que Gérson desistiu dos lançamentos, tabelas e jogadas ensaiadas. Aí driblou um, driblou outro e bateu de canhota. A bola passou por um monte de gente e foi parar no canto de Albertosi. Eu, com a mão direita em forma de soco, gritei: — Gol...eiro maldito! — E o Jiló só me olhando.

Aquele gol arrebentou a Itália. Eles teriam que sair, expor-se ao nosso ataque, e isso era morte certa. Logo depois, Gérson fez um daqueles lançamentos compridões e colocou a bola na pequena área, na cabeça de Pelé. O Rei, que enxergava tudo, deu um toquinho para o outro lado, onde Jairzinho vinha correndo em disparada. Até hoje não sei como o Furacão da Copa fez aquele gol: se foi com a cintura, com a coxa, com o joelho, com a barriga, com o umbigo... O que sei é que eu fiquei em pé e comecei a sapatear que nem o Tony Tornado. O Jiló, meio assustado, perguntou: — Que foi?

E eu disse: — É que a defesa está de salto alto; assim vamos perder, sô!

Quando chegamos nos minutos finais, o jogo entrou em clima de baile. Uma hora o Clodoaldo abusou e começou a tirar os italianos para dançar: driblou um, dois, três, quatro, e passou, na ponta, para Rivelino. O Garoto do Parque deu um esticão para Jairzinho e este passou para Pelé. Ele, de novo dando uma de garçom, rolou a bola mansinha, mansinha para Carlos Alberto, que não perdoou: mandou uma bomba rente à grama, fazendo a bola estufar as redes. Menino, aquele gol me deixou tão descontrolada, mas tão descontrolada que os meus olhos se encheram de lágrimas e o meu queixo começou a tremer. O Jiló, ao ver o meu estado, falou: — Eu também estou com raiva. Vamos embora.

Sabe o que eu fiz? Peguei a faixa e enfiei na boca do Jiló. Só ficou o “Viva” do lado de fora.

Aí o juiz apitou e, quando vi, estava no meio do campo com um sombrero na cabeça e correndo feito uma doida. Tentei tirar a chuteira do Tostão, dei um tapinha nas costas do Clodoaldo, fiquei gritando na frente do Rivelino, chutei a bunda do Carlos Alberto, abracei o Pelé, dei um beijo na careca do Gérson, carreguei o Félix nos ombros, dancei uma valsa com o Piazza, peguei a meia do Everaldo, dei um banho de água no Brito, sambei com o Jairzinho e, por fim, atravessei o campo de joelhos fazendo o sinal da cruz.

Aquele foi o dia mais feliz da minha vida.

 Eu estou em algum lugar nessa foto. É só procurar.

A conquista da Copa do México foi a mais linda de todos os tempos! O Brasil ganhou os seis jogos, fez dezenove gols e deixou na memória do esporte lances antológicos, coisas que a gente não se cansa de rever, como os gols que Pelé não fez, sem falar nas jogadas magníficas e no toque suave, bola de pé para pé, nas gingas e nas combinações inacreditáveis. Nunca uma seleção ganhou uma Copa do Mundo dando tanto destaque à beleza do futebol como aquela de 70. Nem antes nem depois. Meus olhos foram felizes por terem visto aqueles jogos. Aliás, jogos não! Aquelas aulas de história da arte.

O Jiló? Nunca mais vi nem quero ver.

Uma mulher faz tudo por um homem, menos torcer contra a seleção.

Por Torero às 00h55

24/04/2008

1966 - Perdemos, ié, ié, ié!

1966 - Perdemos, ié, ié, ié!

Sejamos francas, tudo que nós, mulheres, fazemos, fazemos para impressionar os homens. Pintar o rosto, usar minissaia, bater bolos, emagrecer, engordar, dar salto mortal segurando cálices de cristal, tudo é para impressionar os homens. No meu caso, para impressionar o Jiló.

Me apaixonei por ele num jogo Cruzeiro x Atlético. Lembro como se fosse hoje. Ele estava usando um enorme colar com o símbolo da paz, uma fita laranja na cabeça, calça roxa de boca larga e sapatos plataforma. Seus olhos azuis combinavam com sua camisa do Cruzeiro. Meu coração disparou feito boiada assustada. Quase troco de time.

O jogo terminou 4 a 0 para o Cruzeiro, mas dessa vez eu nem chorei. Só fui até ele e disse:

— Aqui ó, meu nome é Amélia, mas pode me chamar de Mel.

— Prazer, Jiló.

— Jiló, seu time mereceu a vitória. Como perdedora, quero te pagar um pão de queijo e um caldo de cana.

Ele respondeu: — Vamos lá, broto — e aquela frase entrou no meu ouvido como se fosse uma doce melodia, o que prova que, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a música está nos ouvidos de quem ouve. Bom, pão rima com mão, queijo rima com beijo e cana quase rima com cama, de modo que, de rima em rima, uma coisa puxou a outra e assim começou o nosso romance.

 Meu carrinho era lindo demais da conta

Dois meses depois, quando estávamos sentados no meu Simca na rua do Amendoim, tomei coragem e pedi a mão dele em casamento. O Jiló me respondeu que antes de aceitar precisava de uma prova de amor. Eu achava mesmo que ele ia dizer aquilo, tanto que tinha posto a minha melhor roupa de baixo:

— Faço o que você quiser, Jiló.

Aí o danado abriu um sorriso e disse:

— Tá bom, então quero um autógrafo dos Beatles.

— Mas eles são ingleses! Por que você não me pede um autógrafo da Wanderléa ou do Erasmo?

— Beatles, Beatles, Beatles! Se você me ama, me traz um autógrafo dos Beatles! — Ele pegou sua bolsa de couro e saiu do carro batendo a porta com força.

Como eu amava o Jiló demais da conta, três dias depois peguei um avião da Panair para a Inglaterra. Pelo menos eu tinha um consolo: veria a Copa do Mundo de 1966. Para minha sorte, o grupo do Brasil jogava justamente em Liverpool.

Gente, eu achava que a gente iria conquistar o tri com um pé nas costas. Mais que isso: com as mãos amarradas e uma venda nos olhos. Nós tínhamos Pelé, Zito, Gérson, Amarildo e, ainda, o velho Garrincha. Quem poderia vencer esse time? Infelizmente essa pergunta tinha uma resposta: os cartolas.

 A seleção meteu os pés pelas mãos

Depois do bicampeonato, em 1958 e 1962, o futebol virou negócio de Estado no Brasil, e a CBD foi ficando cada vez mais parecida com o Congresso Nacional, de tanto político que aparecia por lá. O técnico Vicente Feola, o mesmo da Copa da Suécia, não tinha pulso firme e ia aceitando as pressões.

A coisa ficou tão absurda que foram chamados 44 jogadores e formaram-se quatro seleções para o período de testes. Até convocação por engano teve. Alguém falou que na lista tinha que ter um jogador do Corinthians, e indicaram o Ditão, aquele zagueiro; só que a datilógrafa da CBD não sabia o nome completo dele e foi se informar com um jornalista. O rapaz, por engano, deu a ela o nome de outro Ditão, o do Flamengo.

Chegando à Inglaterra, peguei o trem para Liverpool. Lá, me hospedei num hotel de segunda categoria. Talvez de terceira. Ou quarta.

 Não parece a Rita Lee?

Mal ajeitei os trens, saí e fui comprar um LP chamado Revolver. Depois fui fazer vigília na frente dos estúdios, esperando a chegada de John, Paul, George e Ringo. Para meu azar, começou a chover. Esperei, esperei e nada. O dia seguinte foi igual ao primeiro, e o terceiro bastante parecido com o segundo.

Fiquei uma semana naquela vida, até que resolvi me dar uma folga e ver a estréia do Brasil. O jogo aconteceu numa tarde fria, contra a Bulgária, um time violento, sem graça e cheio de caras com o nome terminando em “ov”. Se o Jiló fosse búlgaro, ia se chamar Jilov.

O Brasil precisou de dois gols de falta para ganhar: um de Pelé e outro de Garrincha. Tabelinha, jogada mesmo, nadica de nada.

O outro jogo foi dali a três dias, contra a Hungria, que já tinha tomado de três de Portugal. Eu pensei: isso vai ser mais mole que curau.

O time estava bem desfalcado, sem Pelé e Zito. No primeiro tempo a coisa foi parelha, mas nós fizemos um gol. Quem marcou foi meu conterrâneo Tostão. Aí, quando veio o segundo tempo... Menino, que tristeza! Os húngaros corriam muito mais, trocavam passes rápidos, desarmavam com uma facilidade que dava dó. Perdemos de 3 a 1 e ficamos com saldo zero.

 Euzinha. Ai que saudade daquela tonta...

No dia seguinte, às cinco da manhã eu já estava na porta do estúdio. Para não ser surpreendida novamente pela chuva, dessa vez peguei de um, um tudo. Fui com duas calças, galochas, uma blusa de lã, um casaco de couro, um sobretudo, uma capa, um chapéu e um guarda-chuva. Pois não é que fez um sol de rachar! E eles, é claro, não deram as caras mais uma vez.

Aí veio o jogo contra Portugal, que tinha vencido suas duas partidas e estava classificado. Surgiu então o boato de que eles iam facilitar as coisas para nós. Bom, é difícil provar essas coisas, mas posso dizer que no começo eles estavam jogando em ritmo de treino; só um deles, um tal de Morais, destoava. Gente, esse aí desceu a lenha no Pelé! Se o boato era verdadeiro, tinham esquecido de avisar o Morais. E também os atacantes deles, porque o jogo terminou 3 a 1. Um vexame: nós, os bicampeões do mundo, não tínhamos nem passado da primeira fase!

 Eusébio foi bem bom naquela Copa.

Como o Brasil voltou para casa, resolvi torcer para os nossos irmãos portugueses, que iam continuar jogando em Liverpool. O primeiro adversário deles foi a seleção da Coréia do Norte, que tinha despachado a Itália. Achei que o resultado tinha sido só uma zebra, mas mal o juiz apitou o começo do jogo e os coreanos vieram para cima numa correria danada. Quando olhei para o placar, tive que arregalar os olhos: 3 a 0, gols de Pak-Seung-Jin, Li-Don-Woon e Yang-Sung-Hook. Se o Jiló fosse coreano, ia se chamar de Ji-Loh-Zim.

Se eles continuassem a jogar daquele jeito, acho que ganhariam de 100 a 0, mas os lusos conseguiram um golo, como eles dizem, e aí os orientais amarelaram. Foi então a vez dos portugueses passarem a correr feito doidos e, no fim, viraram o jogo para 5 a 3, com quatro gols de Eusébio. Foi um jogo de arrebentar coração; na minha opinião, o melhor daquela Copa.

Eu continuava indo aos estúdios. Um dia, perguntei ao porteiro se havia alguém gravando. Ele respondeu que sim, que lá estavam quatro rapazes e o conjunto se chamava Be... alguma coisa.

Passei a noite dormindo em frente à porta. Quando foi de manhãzinha, um dos quatro rapazes tropeçou em mim. Mais que depressa me levantei e perguntei:

— Você é o Paul?

— Não.

— John?

— Não.

— George?

— Não.

— Então é aquele... como é o nome mesmo... Bingo?

— Você quer dizer Ringo?

— Isso, Ringo!

— Também não.

— Uai, quem é você?

— Sou Joseph. Ele é Saul, este é Geoffrey e aquele é Django.

Então eles colocaram chapéus com orelhas de cachorro, deram-se as mãos e falaram ao mesmo tempo: — Nós somos os Beagles!

Como consolo, ganhei um chapéu daqueles. Pode uma coisa dessas?

Para esquecer Beagles e Beatles, fui para o hotel e assisti ao videoteipe da semifinal entre Portugal e Inglaterra. Era a primeira vez que se usava videoteipe numa copa, e eu achei demais da conta. O time inglês, além jogar em casa, era bom que só. Tinha Banks, Alan Ball, Hunt, o matador Hurst, Bobby Moore e Bobby Charlton. Se o Jiló fosse inglês, ia se chamar Bobby Jilorton. No fim, vitória suada da Inglaterra por 2 a 1, os dois gols de Bobby Charlton. Na final eles enfrentariam os alemães ocidentais, que tinham vencido a União Soviética também por 2 a 1.

 O Hurst não tinha um jeito de Beatle?

Já fazia três dias que eu estava na porta do estúdio, quando um sujeito chamado Pete Best me disse que os Beatles não gravavam ali fazia muito tempo e, que se eu quisesse encontrar um deles, teria que ir a Londres. Ele tentou me convencer que já tinha sido um beatle e até insistiu em me dar um autógrafo. Eu ri na cara dele e saí andando. Quando olhei para trás, o pobre homem estava abraçado a um poste e chorava com uma tristeza de dar dó.

Peguei então o trem para Londres. Para não perder a viagem, comprei um ingresso para a grande final.

Eu era uma das 95 mil pessoas que estavam no estádio de Wembley naquele dia. Como a torcida inglesa não é das mais comportadas, tratei de me sentar no meio de uns padres barbados que estavam por ali.

O jogo foi parelhinho da silva, mas como era diferente do nosso futebol! Não tinha aquele toque estilento, aqueles passes trivelados, aquelas tabelas manhudas, aqueles vai-que-vai-mas-não-vai... Era um estilo vigoroso, cheio de encontrões, com passes retos e muitos cruzamentos na área.

A Inglaterra era um bocadinho melhor e vencia por 2 a 1 até os 44 minutos do segundo tempo, quando, depois de um bate-rebate na pequena área, Weber empatou. Nessa hora, um sujeito de terno amarelo que estava sentado atrás de mim ficou de pé, começou a dançar e cantou com um sotaque estranho: — Olê, olá, o Alemanha está botanda pra quebrar!

A partida foi para a prorrogação e aí aconteceu aquele lance que até hoje dá o que falar. Hurst chutou a bola, que bateu na trave e depois caiu sobre a risca do gol. O estádio inteiro explodiu de alegria e os padres ao meu lado pularam tanto que pareciam macacos. Eu disse para o de óculos redondo: — Não foi gol! Bateu na linha! — Ele só respondeu: — Imagine!

 Não entrou, mas valeu.

Já o homem de terno amarelo atrás de mim chorava e gritava — Seus bandidas, suas safados!

Com aquele lance, os jogadores alemães se descontrolaram. No final, a Inglaterra ainda fez mais um gol, Hurst de novo, e levou a taça.

Aí foi uma festa só. Todos abraçavam todos, e os padres, menino!, pulavam que nem pipoca. Foi então que a barba de um deles caiu.

— Uai, gente, mas esse é o Paul! — eu disse a mim mesma, de forma que ninguém escutou. E se aquele padre era o Paul, logo o de óculos só podia ser o John, o narigudo era o Ringo e o de turbante era o George. Eles perceberam que eu os tinha reconhecido e pediram que eu ficasse quieta. Respondi que tudo bem, desde que eles autografassem o meu ingresso.

 Os autógrafos dos meninos

Quando cheguei a Belo Horizonte e dei os autógrafos para o Jiló, ele olhou para aquilo meio assim, sem interesse, e guardou o ingresso na gaveta. Eu não entendi nada.

— Uai, mas você não queria os autógrafos dos Beatles?!

— Sabe, Mel, os Beatles são legais, mas meio alienados. A gente tem que dar valor ao que é nosso.

E pôs na vitrola um disco do Geraldo Vandré.

Depois de tanto sofrimento, aquela desfeita... Fiquei possessa! Saí batendo a porta e fui dar um giro na Afonso Pena para espairecer. Na volta, mais calma, dei uma bofetada no Jiló e o pedi em casamento. Dessa vez ele aceitou; só exigiu que nosso primeiro filho se chamasse Fidel.

Eu achei que aquele seria o dia mais feliz de toda a minha vida. Mas não, foi o segundo.

 


(Para ler o especial do UOL sobre a Copa de 1966, clique aqui)

(Na semana que vem, a Copa de 70 e o último capítulo da história de Mel)

Por Torero às 07h08

17/04/2008

1962 – Chulé no Chile

1962 – Chulé no Chile

 

Para os religiosos, a parte mais nobre do ser humano é a alma; para os poetas, o coração. Estão todos errados. A parte mais importante do nosso corpo é o pé. Sem pés, as intenções da alma não seriam realizadas e os poemas do coração nunca chegariam às musas.

E digo mais: assim como as ciganas adivinham o futuro de um homem pela palma da mão, afirmo que é possível conhecer a personalidade, a capacidade profissional e o equilíbrio psicológico de um indivíduo por seus membros inferiores. “Mostra-me teus pés e te direi quem és”, eis o resumo da minha doutrina, que intitulei Podosofia.

 Grupo de podosofistas africanos.

Em maio de 1962, eu explicava os fundamentos desse meu sistema para o doutor Paulo Machado de Carvalho. Ele tinha ido à minha sapataria buscar um par de calçados feito especialmente para acomodar seus enormes calos.

 Nem exclavil dava jeito nos calos do Dr. Paulo.

Alguns dias depois, numa manhã escura e chuvosa, ele voltou. Estava encharcado mas alegre:

— Chulé, você é um gênio! Com estes sapatos eu posso até dançar!

Então, para tornar realidade suas palavras, ele começou a chapinhar nas poças d’água da calçada como se fosse Gene Kelly. E cantava: — I’m singing in the rain...

Esperei até que ele terminasse e bati discretas palmas. Quando pensei que ele iria embora, fui fulminado por uma pergunta:

— Que acha do Chile, Chulé?

Enxugando o rosto, respondi: — É um país comprido, senhor.

— Não, meu caro, não é isso. Quis saber o que você achava do Chile porque pretendo convidá-lo para integrar a comissão técnica que vai à Copa. Você vai cuidar das chuteiras dos jogadores.

Engoli em seco, fiquei em posição de sentido e bradei: — Se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação, digo ao senhor que vou.

Uma semana depois eu embarcava. Meu irmão mais velho, Frieira, que recentemente tinha perdido tudo no jogo, ficou cuidando da sapataria.

No avião coube-me sentar ao lado de um tipo muito baixo que usava um vistoso chapéu. Apresentei-me:

— Sou Chulé.

— Piolho, às suas ordens.

— Sou podósofo.

— E eu cabeçólogo.

Enquanto cruzávamos as nuvens, começamos um interessante debate. Eu disse que o pé dava rumo ao homem, ele falou que a cabeça estava acima de tudo. Eu disse que pelos calos e joanetes se pode conhecer o caráter de um sujeito, ele falou que pelo crânio e pela caspa podia-se conhecer a alma de um homem.

Não chegamos a nenhum acordo e, quando o avião pousou, despedimo-nos com um frouxo aperto de mão.

Chegando à concentração, comecei a trabalhar com afinco nas chuteiras dos jogadores, deixando cada uma o mais perfeitamente possível amoldada a seu dono. Garrincha me deu muito trabalho, porque até seus pés eram tortos. Fiz uma chuteira mais macia para os passes macios de Didi e, na ponta da chuteira de Vavá, coloquei um revestimento especial, pois ele gostava de dar um bico de vez em quando.

Já Piolho era o barbeiro da seleção e passava o dia aparando o cabelo dos jogadores.

Aimoré Moreira, o novo técnico, foi conservador e manteve a base do esquadrão de 1958. Lá estavam os pés-quentes Gilmar, Djalma Santos, Nílton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo. A única mudança foi feita no miolo de zaga, que passou a ser formado por Mauro e Zózimo.

 A turma de 62.

Nossa primeira partida aconteceu no estádio Sausalito, contra o México. Os supersticiosos ficaram tensos, porque em 1950 e em 1954 havíamos estreado contra os mexicanos e aquelas não foram grandes copas para nós.

De fato, começado o jogo, nosso ataque esbarrou na parede mexicana (um dos beques, aliás, se chamava Del Muro). Garrincha e Pelé simplesmente não conseguiam se mexer e lá se foi o primeiro tempo sem gols. Nossa agonia durou até os onze minutos da etapa final, quando Zagallo abriu a contagem. Depois, já mais tranqüilos, fizemos 2 a 0 com Pelé.

No segundo jogo, contra os tchecos, o Brasil sofreu muito e não saiu do 0 a 0. Alguém poderia pensar que foi um placar injusto, com o Brasil sufocando um adversário covarde e retranqueiro. Nada disso. A Tchecoslováquia não só se defendeu bem como trocou passes com inteligência e levou perigo ao gol de Gilmar. Mas isso só foi metade do sofrimento.

A outra metade foi ver Pelé, depois de um chute, levar a mão à coxa e fazer cara de dor. Era uma distensão na virilha. Ele estava fora da Copa.

Nos dias que se seguiram, o preocupado Aimoré Moreira andava de um lado para o outro na concentração. Tinha dúvidas sobre quem seria o substituto do Rei. Vendo que eu e Piolho estávamos por ali à toa, perguntou-nos quem deveria entrar no time.

— Sob a luz da Podosofia, senhor, não há dúvida de que quem deve jogar é Jair da Costa. Seus dedos têm um excelente formato parabólico, o que resulta em precisos arremates e primorosos passes.

Piolho, ajeitando o boné, pigarreou e disse: — Permita-me discordar do nobre colega, mas pelos princípios da Cabeçologia é óbvio que a melhor opção é Mengálvio. Seu crânio oblongo permite que tenha um amplo campo de visão, além de ser ideal para o cabeceio.

Aimoré Moreira sorriu: — Obrigado, vocês acabaram com as minhas dúvidas.

No jogo seguinte, ele escalou Amarildo.

 Amarildo olha para mim enquanto amarro suas chuteiras.

A Espanha tinha um timaço e era liderada por dois grandes jogadores, por sinal não-espanhóis: o argentino Di Stefano e o húngaro Puskas. Eles começaram melhor e logo fizeram um gol: Adelardo. A virada parecia impossível, mas no segundo tempo, em dois belos lances de Garrincha, Amarildo fez dois gols. Gols bonitos, em jogadas de velocidade e chutes precisos. Depois do segundo gol, eu disse para Piolho:

— Jair teria feito três.

— E Mengálvio, quatro.

Foi uma vitória dramática, mas serviu para que o Brasil começasse a crescer. Deu-nos aquele alívio de quando tiramos um sapato apertado.

No jogo das quartas-de-final, em Viña del Mar, tivemos pela frente uma medíocre Inglaterra. Foi o jogo mais fácil de toda a Copa. Vencemos por 3 a 1 em outra tarde inspirada de Garrincha. Ele jogou na ponta-direita, caiu pela esquerda e ziguezagueou pelo meio. Fez um gol de cabeça, um de folha-seca e ainda cobrou uma falta com tanta violência que o goleiro precisou rebater e a bola sobrou para Vavá fazer o terceiro.

Mais difícil que os ingleses foram os cachorros. Duas vezes o juiz teve que parar a partida para tirá-los de campo. Na primeira, o inglês Greaves ficou de quatro e foi se aproximando devagarinho até pegá-lo. Com o segundo não teve jeito. Como Garrincha, o cão driblou todos os seus marcadores e depois sumiu por baixo do alambrado.

— Eles nunca pegariam um cachorro com uma cabeça tão oviforme — disse Piolho, que naquele dia usava um chapéu de caubói.

— Pois ele podia ter duas cabeças, que não escaparia se não fossem as quatro patas.

— Humpf!

— Blergh...

Como podem perceber, a Podosofia e a Cabeçologia eram sistemas de pensamento rivais na busca da verdade. E a disputa entre as duas filosofias evoluiu a tal ponto que eu e o senhor Piolho mal nos cumprimentávamos.

A semifinal, contra o Chile, foi realizada no Estádio Nacional de Santiago e vista por setenta mil pessoas, a maior audiência do mundial.

Naquele dia, meu cabeçudo inimigo usava uma cocar de penas. Ele explicou que aquilo era uma relíquia tupinambá feita para dar sorte aos guerreiros. Tirei um pé de coelho do bolso e disse:

— Isso é que dá sorte!

— Não deu para o coelho.

Sem encontrar resposta, cruzei os braços, franzi o cenho e voltei a acompanhar a partida.

Dois chilenos marcavam a perna direita de Garrincha. Por isso ele fez o primeiro gol com a esquerda, logo aos nove minutos. Nessa hora não me contive e exclamei: — Ah, os pés...

Porém, aos 32 minutos, o mesmo Garrincha fez o segundo, para meu azar, de cabeça. Quase pulei no pescoço de Piolho ao ouvi-lo murmurar: — Ah, a cabeça...

 Aqui, Garrincha está dizendo para Pelé: "Com essas chuteiras do Chulé, eu vou jogar tão bem que o pessoal nem vai sentir sua falta."  

Os donos da casa então vieram com toda a fúria para cima de nós e Toro diminuiu no finzinho do primeiro tempo, enlouquecendo o estádio.

Fúria, porém, não basta para ganhar um jogo. Além disso é preciso ser pé-quente, não meter os pés pelas mãos e não tropeçar nas adversidades.

No segundo tempo, o Brasil manteve os pés no chão e Vavá, logo aos três minutos, completou um cruzamento de Garrincha, marcando 3 a 1. Leonel Sanchez, de pênalti, fez a torcida pensar que ainda dava pé, mas Vavá estufou as redes mais uma vez e chutou para longe as esperanças chilenas.

Nossa alegria só não foi total porque Garrincha, cansado de levar pontapés, confundiu as nádegas do zagueiro Rojas com a bola e foi expulso. Sabíamos que a seleção podia vencer sem Pelé, mas sem Pelé e Garrincha...

Por sorte, ou por causa de um bom trabalho de bastidores, o Tribunal da Fifa não puniu o nosso ponta. Por azar, ou por causa de um vírus, Garrincha pegou uma gripe.

Nosso adversário na final foi a velha Tchecoslováquia, que havia vencido os iugoslavos por 3 a 1. Não era um time fabuloso, mas fazia tudo certinho e, como bem se lembram, era o único adversário que o Brasil não havia conseguido vencer até então.

Naquela altura do campeonato, o clima entre mim e Piolho era de total animosidade, tanto que nos dispusemos a fazer um duelo, não com revólveres, e sim com nossas filosofias. Se o Brasil fizesse mais gols com o pé, ele beijaria meus sapatos e gritaria “Viva a Podosofia!” três vezes.

Caso saíssem mais gols de cabeça, eu usaria a meia de Garrincha como chapéu e sairia gritando pelo campo: “A Cabeçologia é supimpa!”

Enfim, um duelo de sábios.

Como na Copa anterior, o inimigo começou vencendo. Masoput abriu a contagem logo aos catorze minutos. Porém, a estrela de Amarildo brilhou novamente e o empate veio, com os pés, aos dezesseis minutos. Dei um pulo tão grande no banco que bati a cabeça no teto.

Garrincha, com 39 graus de febre, não fazia muita coisa. Mesmo assim, por via das dúvidas, era triplamente marcado, o que ajudava os outros jogadores do ataque a encontrar espaços.

No segundo tempo, Amarildo recebeu a bola na esquerda, driblou o seu marcador e cruzou para Zito, que vinha correndo na direção do segundo pau. Para alegria de Piolho, a testa do nosso volante teve a precisão de um pé e a bola foi parar no fundo das redes.

Um gol de pé e outro de cabeça. Nosso duelo estava empatado.

Então, aos 33 minutos, Djalma Santos fez um cruzamento despretensioso e o goleiro Schroif preparou-se para defender; o sol, porém, atrapalhou sua visão e ele acabou soltando a bola nos pés de Vavá, que usou o bico da chuteira que eu preparara especialmente para ele: 3 a 1.

Éramos bicampeões! E mais: a Podosofia vencera!

 Martha Rocha era o apelido de Mauro, o nosso elegante capitão.

Com um sorriso triunfante nos lábios, caminhei até meu antípoda, que estava sentado num canto do gramado, triste e cabisbaixo. Não resistindo à tentação, coloquei meu pé em seu joelho, lustrei a ponta do sapato e disse: — Beije o seu novo mestre.

Ele tirou a cartola lentamente e, quando pensei que fosse receber o seu ósculo, levei uma violenta testada nos testículos. Respondi a covarde agressão com um certeiro pé-de-ouvido. E assim, enquanto os jogadores comemoravam e se abraçavam, nós continuamos nossa luta, ele com cabeçadas, eu com chutes.

Acabamos os dois despedidos. A injustiça sempre perseguiu os filósofos. Foi assim com Sócrates, não seria diferente conosco.

As idéias são como os pés, e os tempos, como os sapatos. Quando elas são maiores que eles, forma-se o calo da injustiça. Um dia, “Mostra-me teus pés e te direi quem és” será uma frase tão famosa quanto “Penso, logo existo” ou “Em time que está ganhando não se mexe”.

 

(Para ler mais sobre a Copa de 1962, clique aqui.)

Por Torero às 08h54

10/04/2008

1958 – Jesus é brasileiro!

1958 – Jesus é brasileiro!

Nasci em Aparecida, meus pais conheceram-se numa missa e vim ao mundo num 25 de dezembro, mesmo dia do nascimento de Nosso Senhor. Diante de tais coincidências não é de admirar que me tenham batizado com o nome de Jesus.

Cresci num ambiente religioso e, quando fiz quinze anos, não tive alternativa: entrei para o seminário. Depois de professar votos, fui designado para uma igreja no bairro do Paraíso, em São Paulo.

Certa vez, no remoto ano de 1958, quando era ainda um jovem padre, fiz um sermão tão inspirado que, não fosse eu modesto, teria arrancado lágrimas dos meus próprios olhos.

Acabada a missa, resolvi andar por entre os fiéis para ver se estavam comentando minha pregação. Porém, chegando perto de um grupo, notei que não davam a mínima para o sermão. Seu assunto era outro: uma tal Copa da Suécia. Aquilo deixou-me tão contrariado que, aos berros, comecei a censurá-los:

— Raça de pecadores! Em vez de debater as santas palavras, formam uma roda para comentar assuntos mundanos!

Todos baixaram a cabeça e ficaram calados feito vacas de presépio. Só um deles, um senhor elegante e educado, ousou falar. Seu nome era Paulo Machado de Carvalho e, de vez em quando, ele ia ouvir minhas prédicas e pedir a Deus que curasse seus calos.

 Paulo Machado de Carvalho, um homem de ferro.

— Calma, padre, não fizemos por mal. Eu é que puxei o assunto. Acontece que sou o chefe da delegação brasileira de futebol e estava comentando as boas novas da seleção com estes cavalheiros.

Ainda irado, perguntei: — E que boas novas podem ser mais interessantes que as do evangelho?

Ele estava tão animado com seu projeto que realmente começou a explicá-lo:

— Até agora as delegações brasileiras têm sido muito amadoras. Estou planejando levar para a Copa uma equipe que tenha comissão técnica, chefe, supervisor, médico, dentista e até um psicólogo!

De pronto, perguntei:

— Pois tantos cuidados e ninguém para levar a palavra de Deus? Médico, dentista, psicólogo e nem mesmo um coroinha para levantar a fé dos jogadores? O senhor pensa que um atleta é apenas corpo? Pensa que eles não têm alma?

Já estava a caminho de um novo sermão quando ele me interrompeu para dizer que concordava comigo, o que é a pior forma de nos brecar a língua.

— E digo mais: o senhor está tão certo que eu o convido a vir conosco! Com as suas palavras, a taça do mundo é nossa! Com Jesus não há quem possa!

Aquilo me pegou desprevenido e, como não sabia o que responder, falei que teria de conversar com o bispo.

Foi o que fiz no dia seguinte. Era o meu primeiro encontro com aquele santo homem e, por isso, entrei tímido e reverente em seu escritório. Os móveis eram de madeira escura, havia um gigantesco crucifixo atrás de sua cadeira e ao longe podia-se escutar o canto gregoriano entoado pelos frades.

Aproximei-me e, de joelhos, contei a dúvida que me trazia à sua presença.

Ele olhou para o teto por alguns longos segundos e então me respondeu:

— Meu filho, a resposta a todas as perguntas está nas santas palavras. Lembra-te de Corinthians 2, versículos 7 e 8.

Puxei pela memória e citei o trecho da carta de Paulo aos coríntios: — Falamos a sabedoria de Deus, à qual Deus ordenou para nossa glória.

— Eu não disse coríntios, disse Corinthians! Vê o que diz a segunda estrofe, versos 7 e 8: Tu és o orgulho / dos desportistas do Brasil!

Então ele levantou a batina e me mostrou que usava uma camisa daquele time, autografada por um certo Baltazar, que não devia ser o rei mago. E o mais surpreendente é que continuou a cantar o hino enquanto dava rodopios pela santa sala: — Corinthians grande, sempre altaneiro, és do Brasil, o clube mais brasileiro.

Quando finalmente acabou seu número, pôs as mãos em meus ombros, olhou-me nos olhos e disse: — Jesus, se tu perderes essa chance, eu te crucifico!

Três semanas depois eu estava em Uddevalla, na Suécia.

Meu trabalho ali não era dos mais difíceis. Devia apenas dizer algumas palavras aos atletas antes das contendas e dar-lhes a bênção. Para minha surpresa, os jogadores tinham bastante fé e consideravam aquilo muito importante. Quase tanto quanto os filmes de Abbott e Costello, Charles Chaplin e Bob Hope que Carvalhais, o psicólogo, passava para nós.

 Garrincha adorava imitar o jeito de andar do Carlitos.

Quando veio o primeiro jogo, inspirei-me numa passagem do livro do profeta Daniel e disse: — Vençamos esses austríacos como Daniel venceu os leões, pois Deus está do nosso lado e não há inimigo que possa enfrentá-Lo.

Eu nunca tinha visto uma partida de futebol ao vivo e confesso que aquilo me deixou embasbacado. Os homens correndo pela grama verde, a bola descrevendo parábolas formidáveis, que divino! E, coincidentemente, onze jogadores para cada lado, o mesmo número de apóstolos de Nosso Senhor (não considerando Judas Iscariotes, é claro).

Os brasileiros venceram com certa facilidade: 3 a 0, dois gols de Mazzola e um de Nílton Santos, que desarmou um inimigo e se mandou para o ataque, enquanto o técnico Feola, ao mesmo tempo que comia um sanduíche, gritava: “Volta, volta!”. Ele não voltou e fez um golaço.

Para o segundo jogo, em Gotemburgo, contra a Inglaterra, reuni os jogadores e contei-lhes a história de Sansão, que vencera os infiéis com a força de seus longos cabelos. Garrincha, um ponta-direita torto feito as linhas em que Deus escreve, contestou-me: — Então vamos perder, porque o cabelo de todo mundo aqui é curtinho...

Aquela piada deixou o pessoal cabisbaixo e, não sei se por isso ou por causa da boa defesa inglesa, o fato é que aquele foi o primeiro 0 a 0 de todas as copas. Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nílton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Vavá e Zagallo voltaram para o hotel muito chateados. O técnico Feola estava tão abatido que só comeu quatro pratos no jantar.

No dia seguinte, logo que o treino acabou, alguns jogadores vieram ter comigo. Bellini, Nílton Santos e Didi queriam que eu falasse com o técnico para que fossem feitas três mudanças no time. Nos lugares de Dino Sani, Joel e Mazzola, queriam Zito, um volante sério e compenetrado, Garrincha, com suas pernas tortas como bananas, e Pelé, um quase desconhecido rapaz de dezessete anos.

— Por que eu? — perguntei.

Eles me explicaram que o Feola era tão teimoso quanto religioso, e assim só um padre o faria mudar de idéia.

Vesti minha melhor batina e fui até ele. Quando cheguei, disse que tivera uma visão. Feola arregalou os olhos e pôs seu pernil de lado. Continuei falando e disse que vira Pelé, Garrincha e Zito montados em três cavalos alados e brandindo espadas flamejantes, com as quais derrotaram um dragão vermelho. Primeiro ele ficou paralisado, depois o queixo começou a cair e a boca ficou tão aberta que quase tive medo de ser engolido. Então, depois de um pequeno arroto, ele disse: — Padre Jesus, não vou desprezar esse sinal.

 Feola, o maior técnico que o Brasil já teve.

No jogo seguinte, em Gotemburgo, a seleção entrou em campo com as três alterações.

Brasil e URSS tinham o mesmo retrospecto: haviam derrotado a Áustria e empatado com a Inglaterra. Quem vencesse seria o primeiro do grupo, quem perdesse poderia até ser desclassificado. A URSS era a campeã olímpica e havia desenvolvido um futebol científico. Eu falava com meus botões (o que não era fácil, pois os botões da batina ficam nas costas): — Se os soviéticos mandaram o Sputinik para o espaço, para onde mandarão nossa seleção?

Na preleção, lembrei como Davi havia derrubado Golias, que os gigantes nem sempre vencem, que os pequenos às vezes superam os grandes etc. Dessa vez Garrincha comentou: — Está para mim, eu sou o mais baixinho aqui.

 Olhando as pernas de Garrincha a gente entende que Deus escreve certos por linhas tortas.

Logo vi que ele estava com a razão. Mal começou a partida, Garrincha recebeu a bola e avançou em direção ao seu marcador, Kuznetsov. Ele fez que ia correr para a linha de fundo, mas parou, enquanto o ludibriado Kuznetsov saiu em disparada e depois teve que voltar, envergonhado. Veio então um novo drible e um cruzamento que quase resultou em gol.

Segundos depois, Garrincha ataca novamente. Krijevski estava atrás de Kuznetsov, caso ele fosse driblado. Garrincha driblou um, driblou o outro e disparou contra a trave de Yashin.

Na terceira bola para Garrincha, lá estavam o pobre Kuznetsov, Krijevski e agora Voinov. Garrincha passou pelos três e cruzou para Didi, que ajeitou para Vavá disparar um foguete contra as redes e fazer 1 a 0.

Depois disso, os ateus soviéticos perderam a fé na recuperação. Nosso time passeou em campo e Vavá ainda ampliou. Era outra seleção. No final do jogo, Feola olhou para mim e discretamente fez o sinal da cruz.

 Garrincha entortava até as câmeras dos fotógrafos.

Veio então o País de Gales, um time especialista em empates e cuja defesa era considerada inexpugnável. Na preleção, lembrei como os israelitas haviam derrubado as muralhas de Jericó tocando suas trombetas. Dessa vez, Garrincha disse: — Não tenho trombeta, serve uma gaitinha?

Como se esperava, foi um jogo bem difícil. A área inimiga estava congestionada e o goleiro Kelsey pegava tudo. Até o final do jogo — eu contei no meu rosário — foram 67 ataques brasileiros e só três galeses. A retaguarda deles parecia mais resistente que as muralhas bíblicas.

Foi então que, aos 26 minutos do segundo tempo, aconteceu o lance que foi a nossa trombeta, o lance que anunciou ao mundo um novo gênio. O menino Pelé recebeu na área, livrou-se do marcador e bateu colocado no cantinho de Kelsey. Aleluia! Estava decretada a vitória! O País de Gales sabia se defender, mas não tinha a menor idéia do que fazer na hora de atacar.

 Pelé deixou de ser menino na Suécia. E em vários sentidos.

No dia seguinte fui até uma igreja agradecer por aquela sofrida vitória. Enquanto orava para uma estátua do meu homônimo, uma freira, que percebeu que eu falava em português, aproximou-se e perguntou:

— O senhor é brasileiro?

— Feito feijão e farinha.

— Então conhece meus pais?

— Como?

— Feijão e Farinha! Bom, deixe para lá, é uma história muito comprida.

— Qual o seu nome?

— Madalena. E o seu?

— Sou Jesus.

Ela arregalou os olhos, recuou um passo e estava pronta para se atirar aos meus pés quando completei: — Jesus de Souza, não de Nazaré.

Depois de um suspiro de alívio, começamos a conversar e Madalena contou sua história. Era da irmandade de Santa Chiara e fazia parte de uma missão em Estocolmo. Apesar de não conhecer a terra de seus pais, ela simpatizava com o Brasil e confessou que adorava futebol.

Convidei-a para ver a semifinal. Ela lamentou muito não poder ir, disse que tinha de fazer uma distribuição de lanches em Sandviken. Pensei tê-la ouvido dizer “Malditos pobres!”, mas deve ter sido o vento.

O jogo contra a França aconteceu no dia 24 de junho, uma fria terça-feira, já no estádio Raasunda, em Estocolmo. Aquele seria um jogo muito difícil e eu caprichei na parábola da preleção. Lembrei como Moisés abriu o Mar Vermelho com seu cajado e disse que a defesa francesa também se abriria se tivéssemos fé. Garrincha respondeu que, se o problema era cajado, deixassem com ele.

 Os onze apóstolos do futebol fazem pose para a foto antes do jogo contra a França.

Na primeira etapa, Vavá, logo aos dois minutos, fez 1 a 0. Mas nossa alegria durou pouco porque Fontaine, seis minutos depois, já empatava. O juiz, um tal Mr. Griffiths, do País de Gales, anulou um gol legítimo de Zagallo, e Feola quis ir para cima dele. Mas eu o acalmei dizendo que Deus era justo e que nem uma folha caía se não fosse por sua vontade. Por uma divina coincidência, o desempate veio numa folha-seca de Didi aos 39 minutos, um chute celestial!

Mal começou o segundo tempo e Pelé fez um lindo gol. Depois outro aos 19 minutos e mais um aos 31. Três gols! Três golaços de um menino que não tinha idade para ver os filmes de Brigitte Bardot!

 

Fiquei emocionado com aquela goleada e percebi que estava me apaixonando pelo futebol. Já pensava se poderia continuar sendo um religioso pondo o esporte em tão destacado lugar no altar das minhas preferências. Tudo isso me torturava e fui conversar com irmã Madalena.

Ela aconselhou-me com um jogo de palavras muito ao gosto dos escolásticos: — Pense nos sentimentos do seu coração e sinta as razões do seu cérebro.

Aquilo me deixou confuso. Depois de coçar o queixo por alguns instantes, falei: — E então, quer ver a final da Copa? Sei que isso nada tinha a ver com o assunto, mas, como disse Santo Ernulfo, “Se não tens uma resposta, faze uma pergunta”.

 Ela rapidamente esqueceu o meu problema, deu uns pulinhos, bateu palmas e gritou: — Claro!, claro! — Ficou ainda mais eufórica quando eu lhe disse que poderia acompanhar minha preleção no vestiário. Se não fossem nossos hábitos, creio que teria me beijado.

A final seria disputada contra a Suécia. Os escandinavos fizeram uma belíssima campanha e também surpreenderam na semifinal, derrotando os campeões do mundo, os alemães ocidentais, por 3 a 1.

O treinador deles, um inglês chamado George Raynor, estava otimista e dizia que, se chovesse e o campo ficasse pesado, os suecos seriam os favoritos. E o pior aconteceu: naquele dia choveu a cântaros.

Outro acaso nos deixou ainda mais preocupados. Como a Suécia e o Brasil usavam uniformes amarelos, a administração da seleção teve que improvisar novas camisas. Comprou umas azuis, pintou os números em branco e costurou nelas o distintivo da CBD.

Essa troca de última hora deixou alguns jogadores desconfiados, achando que aquilo poderia ser um sinal de azar. Eu quis animá-los, mas, por mais que pensasse, não consegui encontrar nenhuma passagem bíblica que fizesse referência a uma troca de camisas.

Foi então que, supreendendo a todos, a irmã Madalena subiu num banquinho e fez um sinal pedindo silêncio:

— Vejam como Deus está do nosso lado — ela disse. — Ele faz com que joguemos com camisas que têm a mesma cor do manto da Virgem Maria. É um sinal! Não podemos perder! E vocês serão os apóstolos que levarão a boa nova, a boa nova de que o futebol é uma arte. Pelé é jovem como São João; Zito, forte como São Pedro; Didi, um organizador como São Tiago; Garrincha... Bem, Garrincha é Garrincha...

Ela ainda ia continuar, pois estava inspirada, mas então Paulo Machado de Carvalho lembrou que tínhamos que entrar em campo.

A seleção do Brasil começou o jogo um pouco tensa. Para piorar, a Suécia abriu a contagem logo aos quatro minutos, com um chute bem colocado de Liedholm.

Mas a ressurreição não demorou. Aos oito minutos, Garrincha driblou seu marcador e cruzou rasteiro para a área, onde Vavá, bem colocado, empatou. Nesse momento, irmã Madalena estava rezando e não viu o lance. Ela lastimou muito não ter visto o gol, e parece que Deus ouviu seus lamentos, porque alguns minutos depois Garrincha novamente foi à linha de fundo e cruzou para Vavá fazer 2 a 1. Igualzinho ao anterior!

 Vavá, o homem do gol-replay.

Mas foi no segundo tempo que vimos que os céus estavam do nosso lado. Aos onze minutos, Pelé recebeu um longo lançamento de Didi, matou a bola no peito, deu um chapéu no zagueiro e, antes de a bola tocar o chão, arrematou para o gol. Zagallo marcou o quarto do Brasil e Simonsson fez o segundo da Suécia, mas Pelé ainda não tinha esgotado seu repertório. Novo cruzamento na área, ele fugiu do seu marcador e cabeceou para o alto, colocando a bola no canto esquerdo do perplexo Svensson.

Logo depois o juiz apitou o fim do jogo e todos pulamos de alegria. Mário Américo, o massagista, correu para o campo e roubou a bola do juiz, driblando policiais suecos e dirigentes da Fifa.

Em verdade vos digo que não me contive quando o bem-aventurado Bellini ergueu o troféu. Sim, chorei. A taça do mundo era nossa!

Naquele momento virei-me para irmã Madalena, peguei suas mãos e, com os olhos pregados no chão, falei:

— Madalena, acho que estou amando...

— Eu também!

— ... o futebol.

— Ah, o futebol?... Eu também.

Quando voltei a São Paulo, larguei a batina e comecei a jogar como goleiro. Chamavam-me de Jesus, o milagroso. Tinha algum talento e cheguei até a atuar em times como São Bento, São José, Santo André e Santa Cruz.

Encerrei a carreira num time amador do Espírito Santo.

 

(Para ler mais sobre a Copa de 58, clique aqui.) 

Por Torero às 07h35

03/04/2008

1954 – O azar da sorte

1954 – O azar da sorte

Eu estava animado para ver a Copa da Suíça, ainda mais depois da campanha do Brasil, que pela primeira vez disputara a fase eliminatória. Foram quatro jogos e quatro vitórias contra Paraguai e Chile. Baltazar, nosso centroavante, fez gol em todos os jogos.

E havia outra novidade: por causa do fracasso de 1950, a seleção decidiu trocar as tradicionais camisas brancas por amarelas. Foi feito um grande concurso com trezentos participantes e o vencedor foi o gaúcho Aldyr Garcia Schlee, que ganhou como prêmio uma cadeira cativa no Maracanã.

 Fiz um casaco amarelão para combinar com a "amarelinha".

Para combinar, pedi ao Feijão, meu alfaiate, que me fizesse um terno amarelo para a viagem. Ele era resistente, bem cortado e de uma lã tão grossa que me deixava parecido com um urso. Por causa disso, eu vivia esbarrando nas pessoas enquanto andava, e a palavra que mais disse na Suíça foi pardon.

O técnico da seleção, Zezé Moreira, escalou: Castilho; Pinheiro e Nílton Santos; Djalma Santos, Brandãozinho e Bauer; Julinho, Didi, Baltazar, Pinga e Rodrigues para o primeiro jogo. Era uma boa equipe, mas a Copa já tinha uma grande favorita: a Hungria de Puskas, que jogava como uma máquina e estava invicta há 32 jogos.

 Puskas marcou 1176 ou 766 gols, dependendo de quem conta.

Nossa estréia aconteceu em Genebra, contra o México. Ganhamos fácil: 5 a 0. Gols de Baltazar, Didi, Julinho e dois de Pinga.

Na saída do estádio, contente, decidi entrar num café e beber alguma coisa para comemorar. Como de costume, esbarrei sem querer num sujeito e derramei minha champanhe em sua camisa. Sem perder tempo, soltei meu bordão “Pardon, monsieur” e segui em frente. Mas ele me agarrou pela gola e disse numa voz alta e potente:

— Pardon o puta que o parriu!

Olhei para trás e não acreditei. Era o Bombom.

Nós nos abraçamos e ele riu por não conseguir fazer com que suas mãos se juntassem nas minhas costas, tamanho era o volume do meu terno.

Ficamos horas lembrando os velhos tempos e depois, meio timidamente, ele contou que havia perdido todo o seu dinheiro num negócio de importação de cachaça. Estava em Genebra tentando alguns empréstimos, porque na Alemanha já não tinha crédito nenhum. Como eu andava com os bolsos cheios, perguntei o que ele achava de assistir aos jogos do Brasil comigo:

— Mas é clarro que eu aceita, meu amiga!

Fomos então a Lausanne, onde nosso adversário era a Iugoslávia. Foi um duelo sem vencedor, que terminou em 1 a 1, gol de Didi. O empate bastava para que as duas equipes passassem para a fase seguinte, mas ninguém na comissão técnica sabia disso. Vi jogadores iugoslavos, como o velho Mitic, tentando acalmar os brasileiros, mas eles não paravam de correr em busca da vitória.

Meu plano era ver apenas as partidas do Brasil, mas, atendendo a um pedido especial de Bombom, fomos a Basiléia assistir a Hungria x Alemanha Ocidental. Nunca vi meu ex-sócio tão arrasado. A Hungria simplesmente fez 8 a 3, com um baile de Toth, Kocsis, Hidegkuti, Puskas e Czibor. Dias depois, porém, chegava a minha vez de ficar triste: o sorteio indicara a Hungria como o próximo adversário do Brasil. E pior: quem perdesse cairia fora.

 Puskas e cia.

Antes do jogo dei um jeito de ir visitar a concentração brasileira em Macolin. Lá, prestando atenção nas conversas de corredor, pude perceber muito claramente que um sentimento unia os nossos guerreiros: medo. Dos húngaros. Para animá-los, disse que os tinha visto jogar contra a Alemanha e jurei que dois gols tinham sido feitos em impedimento, um outro de pênalti que não houve, três com a mão, um contra e o último pelo próprio juiz. Uma grande mentira, mas fiz minha parte.

Os dirigentes, por outro lado, em vez de acalmar os jogadores, berravam: — Vocês têm que ser machos! Se perderem, terão que enfrentar a multidão enfurecida no Brasil!

No dia do confronto, as piores previsões tornaram-se realidade. Os jogadores estavam nervosos e não conseguiam se achar em campo. Em sete minutos já perdíamos por 2 a 0. Os húngaros, mesmo sem Puskas, diga-se, nos dominavam com facilidade. A goleada se anunciava, porém um pênalti marcado a favor do Brasil e bem cobrado por Djalma Santos trouxe-nos esperança.

Vã esperança. A Hungria não dava trégua e, aos dezesseis minutos do segundo tempo, também de pênalti, Lantos ampliou. Julinho ainda diminuiu com um chute da entrada da área que acertou o ângulo de Grosics, mas a Hungria era mesmo mais time e Kocsis sacramentou a vitória com 4 a 2.

 Kocsis, o Cabeça de Ouro, foi o artilheiro daquela Copa.

Neste segundo tempo, irritados com a arbitragem, os brasileiros perderam a compostura. Nílton Santos, que era um gentleman, bancou o boxeur e trocou sopapos com Boszik: os dois foram para o chuveiro. Humberto deu um chute sem bola em Buzansky e também foi expulso.

 Naquele dia, até o Lorde perdeu as estribeiras.

Depois do apito final, nossos jogadores, tensos e descontrolados, partiram para a pancadaria. Garrafadas, rasteiras, cuspes, socos, voadoras, tapas e cadeiradas marcaram nossa despedida da Copa. Bombom comentou:

— A Brasil levou um surra com as pés e devolveu com os mãos.

Ao sair desse jogo, fomos a um bar, pensando que um ou dois cálices de vinho tirariam o sabor da derrota de nossa boca. Ali encontramos um suíço que, de tão bêbado, mal conseguia ficar sentado.

— Meus amigos — ele falou olhando para a nossa bandeira brasileira —, as bebidas lembram muito o futebol: os empates, por exemplo, são como a cerveja, comuns e rotineiras mas têm lá a sua graça; já as vitórias nos aquecem a alma e nos deixam bêbados de felicidade como o conhaque; e as derrotas, como a que vocês sofreram hoje, lembram o licor de fios de ovos, que nos deixa com tanta dor de cabeça que nos faz sonhar com a guilhotina!

Eu e Bombom trocamos um olhar admirado e, balançando a cabeça, mostramos que concordávamos com sua filosofia. Eu ia até pagar-lhe uma dose de gim, mas ele se levantou, sabe Deus como, e, depois de um soluço, disse: — Se me dão licença, preciso voltar para os braços da minha pequena Coco.

No dia seguinte à tragédia pensei em embarcar de volta, mas meu amigo tanto insistiu que fiquei com ele para ver o jogo decisivo. A taça ficaria ou com a favorita Hungria, que vencera o Uruguai, ou com a Alemanha Ocidental, que, contra todos os prognósticos, havia batido a Áustria por 6 a 1.

 Fritz Walter e cia.

Bombom estava duplamente feliz: a seleção tedesca estava na final e ele havia conseguido um empréstimo de mil francos suíços, o que resolvia metade de seus problemas. Pensando em ajudá-lo, propus que revivêssemos as apostas da Copa de 1950 e apostássemos aqueles mil francos.

— Você louca, Friêrra! Nem morta eu aposta contra o Hungria!

— Tudo bem, meu amigo, eu apostarei na Alemanha.

— Sérria?

— Sérria, digo, sério.

Eu tinha certeza que perderia, mas esse era meu objetivo: ajudar um velho amigo em dificuldades.

Chegamos ao estádio Wankdorf um pouco em cima da hora e, para nossa surpresa, ninguém estava sentado nos nossos lugares; ninguém também gritava nem se excedia nas comemorações. Mas, se o público parecia frio, o jogo fervia.

 O palco da final.

Logo aos quatro minutos, Puskas abriu a contagem. Bombom ainda estava dançando quando Czibor, aos oito, ampliou. Aí ele começou a pular. Aos dez, quando Morlock diminuiu, Bombom sentou. Aos dezessete, com o gol de empate marcado por Rahn, enfiou o rosto entre as mãos e disse que não queria ver mais nada.

Ficou assim até os 39 minutos do segundo tempo, quando Rahn, de novo, fez 3 a 2. Aí sim ele se levantou e começou a gritar feito doido:

— Vamos acabar com o Alemanha! Vamos honrar os corres do camisa do Hungria! Corre Puskas, sua gorda! Rahn, sua desgraçada, que tinha que fazer a gol!

Quando o árbitro inglês Walter Ling apontou o centro do campo, Bombom, o campeão do mundo, deitou-se na arquibancada e começou a chorar. E eu, Frieira, mesmo tendo ganho, sentia-me um perdedor. Voltava a ser o velho azarado, o velho caipora, o velho pé-frio.

No dia do embarque, nos despedimos no porto com um apertado abraço. Como não precisaria mais do terno amarelo, dei-o de presente ao meu amigo. No bolso escondi o dinheiro e um bilhete que dizia:

“Que são dois mil francos para dois francos amigos?”

Semanas depois, recebi uma carta:

“Obrigada pelo ajuda, minha amigo. O Claudete quase esticou os canelas quando encontrou a dinheirra na bolso. Que irronia: dessa vez eu foi Friêrra e você foi Bombom. As nomes não ser nada”.

 

(Na próxima semana, A Copa de 58 contada por Jesus)

Por Torero às 09h29

27/03/2008

1950 - A sorte do azar

1950 - A sorte do azar



Chamam-me Frieira. Na verdade, meu nome é Ismael, mas desde pequeno todos me conhecem apenas como Frieira. O motivo é simples: nunca ganhei uma aposta e nem há loteria ou carteado em que me dê bem. Mesmo no palitinho sou um fracasso. Pior: até no par ou ímpar. Para mim, todos os jogos são de azar. Enfim, sou pé-frio, e de pé-frio para Frieira foi um pulo. Tudo são nomes.

Na infância, meu sonho era ser um Friedenreich ou um Heleno de Freitas, mas era eu entrar em campo e o adversário começava a jogar melhor. Um dia, depois de fazer um gol contra no último minuto, deixei o esporte bretão. Na volta para casa choveu durante todo o caminho.

Quando cresci, pensei em ser marinheiro, porém, com minha sina, tive medo de que o navio afundasse; depois cogitei ser bombeiro, mas não queria pôr fogo no Rio de Janeiro e desisti; finalmente decidi abrir um botequim. Meu raciocínio era o seguinte: as pessoas sempre têm fome e sede e, sendo assim, enquanto houver gente no mundo, botequins serão sempre um investimento seguro. Propus sociedade a um alemão chamado Dieter Bonn, que, como eu, morava na Glória.

Tudo são nomes e com Dieter não foi diferente. À medida em que ia ficando mais brasileiro, seu nome ia mudando; ou melhor, iam mudando seu nome. Primeiro atacaram o prenome e começaram a chamá-lo de Dito; depois, mais íntimos, alteraram também o sobrenome, que passou a ser Bom. No fim de alguns meses, como ele fosse redondo e generoso, todos o chamavam de Dito Bombom, e ele, alma bondosa, atendia.

Mas Bombom não era bobo: sabia lidar com dinheiro e namorava uma mulata alta e forte chamada Claudete, passista da Mangueira. Além disso, adorava desafios. Tricolor fanático, a cada jogo do Fluminense propunha algum tipo de aposta: — Vamos, Friêrra!, dizia. — Um cerveja como a Flu ganha!

Eu não apostava. Não só porque sabia que ia perder, mas também porque, como comerciante, achava que não podia ser contra ou a favor de algum time. Eu era Flamengo, Fluminense, São Cristóvão, Bangu, Canto do Rio, Vasco, América ou Botafogo conforme o gosto do freguês. Só pela seleção eu tinha um amor devotado e sincero.

Já que falamos em seleção, devo lembrar que estávamos em 1950, o ano da Copa no Brasil. O país respirava um clima de festa e comigo não era diferente: dormia e acordava pensando em futebol.

Havia motivos para otimismo. Flávio Costa dispunha de material de sobra para formar uma bela seleção. Só para o ataque podia-se chamar Jair da Rosa Pinto, Tesourinha, Ademir, Zizinho, Baltazar, Friaça e Cláudio Christovam Pinho. Linhas médias, então, tínhamos duas: Eli, Danilo e Bigode, do Vasco, e Bauer, Rui e Noronha, do São Paulo. Dizia-se que se o Brasil formasse duas seleções, seria campeão e vice.

A festa tinha tudo para ser inesquecível e, como toda festa precisa de um grande salão, o Brasil construiu o Maracanã. Infelizmente, porém, nem todos os convidados puderam vir. A Europa ainda se ressentia da Segunda Grande Guerra e diversos países, mesmo classificados, não mandaram delegações. Como em 1930, o torneio teve apenas treze representantes.

 A maquete do maior do mundo.

As equipes foram então acomodadas em quatro chaves, numa divisão um tanto esdrúxula: dois grupos de quatro seleções, um de três e um só com duas. Torci muito para cairmos neste último, mas o sorteio nos colocou num dos grandes. Os adversários? México, Suíça e Iugoslávia.

À medida que ia se aproximando o momento da abertura, fui sendo tomado por uma enorme empolgação. Na véspera do primeiro jogo, contra o México, mandei enfeitar o bar com fitas verdes e amarelas, comprei um rádio novo e, depois de beber um pouco além da conta, até fiz um desafio ao Bombom:

— Aposto cem cruzeiros no Brasil.

— E a empate de quem é?

— Sua, quer dizer, seu.

— Negócia fechada.

 Apostamos cinco dessas.

No dia da estréia confesso que fiquei assustado ao ouvir a escalação pelo rádio. Maneca, Ademir, Baltazar, Jair e Friaça era uma linha de ataque totalmente diferente da que vinha treinando em Araxá. Dos cinco, só Jair estava na sua posição. Para meu azar, mal começou a partida e houve uma sobrecarga de energia no bairro. A voz do locutor sumiu, deixando em seu lugar um cheiro de queimado. Corri feito doido até a sapataria de meu irmão Chulé. Para meu azar, ele não estava. Fui então à casa do Bombom. No caminho tropecei e me estatelei no chão. Não é à toa que me chamam de Frieira.

Ao lado do meu amigo, com os joelhos esfolados e o nariz sangrando, ouvi o resto do jogo: 4 a 0 para o Brasil. Pela primeira vez eu ganhava uma aposta na vida. Mal havia recebido os cem cruzeiros e já apostava duzentos no match seguinte.

Esse jogo foi no Pacaembu, contra a Suíça. Para agradar os paulistas, Flávio Costa mudou a linha defensiva: em vez da do Vasco, que tinha feito o jogo de estréia, colocou a do São Paulo. No ataque, mais reviravoltas: Alfredo II, Maneca, Baltazar, Ademir e Friaça. Não deu outra: desentrosado, o time esbarrou na retranca helvécia e, sob vaias, não passou de um 2 a 2. Lá se foram duzentos cruzeiros. Para me recuperar do prejuízo, apostei quatrocentos no jogo seguinte.

Esse decepcionante empate ao menos serviu para que Flávio Costa acertasse o ataque, que foi escalado com Maneca, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Finalmente jogadores certos nas posições certas.

A prova de fogo veio contra a Iugoslávia, que tinha o craque Mitic e uma dupla que jogava por música: Tchaikovski I e Tchaikovski II.

 Tchaikovski, o grande jogador da seleção iugoslava.

De fato, foi emocionante. Os iugoslavos tinham um timão, mas o nosso era um timãozaço, se é que existe tal palavra. Vencemos por 2 a 0 e mostramos um futebol superlativo. Para o país, a vitória trouxe a impressão de que nosso time nascera para ser campeão. Para mim, trouxe quatrocentos cruzeiros.

Os classificados para a fase final foram Brasil, Uruguai, Suécia e Espanha. O sistema era todos contra todos, quem fizesse mais pontos seria o campeão.

O primeiro duelo foi contra a Suécia. Eu e Bombom chegamos ao Maracanã três horas antes da partida. O sol estava escaldante:

— Eu estar derretenda como um pedra de gela.

Enquanto me abanava com oito notas de cem, falei: — Estou apostando meu leque.

— Pois eu aceita!

Foi o dinheiro mais fácil que já ganhei. Com suas camisas brancas, a seleção mais parecia uma horda de anjos a voar pelo gramado. No final do jogo, o placar mostrava 7 a 1. 7 a 1! Ademir fez quatro, Chico dois e Maneca um. Eu ria sem parar: dos gols, da cara dos suecos e do desespero do Bombom.

 As camisas brancas. Ainda bem que foram aposentadas.

Mas isso ainda foi pouco perto do jogo contra a Espanha.

Acho que o Rio de Janeiro inteiro estava no Maracanã. Para todo o lado que eu olhava, via aquele imenso mar de cabeças e ouvia os gritos de “Brasil! Brasil!”

Contaminado pela euforia, apostei mil e seiscentos cruzeiros na vitória. Bombom, suando frio, aceitou.

De Barbosa a Chico, a seleção jogou como nunca naquela tarde. O trio Zizinho, Ademir e Jair estava um primor! Se na outra partida os jogadores lembraram anjos, nessa pareciam demônios. O resultado? 6 a 1. 6 a 1! 6 a 1 fora o baile, fora as tabelas maravilhosas, fora os incríveis gols perdidos. Bandeiras se agitavam, fogos estouravam, balões verdes e amarelos misturavam-se ao azul e branco do céu! Um deslumbramento! Quando Chico marcou o quarto gol, o estádio inteiro começou a cantar Touradas em Madrid. Eu, que mal tinha ouvido aquela marchinha antes, no final sabia a música de cor:

Eu fui às touradas de Madrid,

Parará-tim-bum, bum-bum...

Um dia conheci uma espanhola

Natural da Catalunha.

Dizia que tocava castanhola

E pegava touro à unha...

A festa na cidade só acabou ao nascer do sol. Era um carnaval em julho. Músicos apareceram com seus bandolins, flamenguistas abraçavam vascaínos, tricolores dançavam com botafoguenses. Todos estavam felizes, menos o Bombom, que não aguentava mais tanto prejuízo. Já perdera dois mil e setecentos cruzeiros. Desconsolado, ele disse uma frase que eu nunca escutara antes:

— Friêrra, você ser uma homem de muito sorte.

A decisão ficou para o dia 16 de julho, contra o Uruguai, que vinha de um sofrido 3 a 2 sobre a Suécia e de um empate em 2 a 2 com a Espanha. Seus destaques eram os atacantes Ghiggia e Schiaffino, responsáveis por onze dos treze gols da equipe. No Brasil, a única alteração era a entrada de Friaça no lugar do contundido Maneca. Nada de mais: era trocar seis por meia dúzia.

Eu estava tão alucinado que falei para Bombom:

— Vamos apostar tudo! Se o Brasil ganhar, o bar é meu. Se perder, é seu e ainda lhe devolvo o dinheiro.

— Você está louca, Friêrra?

— E mais: o empate é seu.

— A empate é minha?

— Claro. O Brasil vai esmagar esse timeco!

Ele coçou a cabeça por tanto tempo e com tanta força que pensei que fosse ficar careca. Então tomou um gole de cachaça e sussurrou: — Negócia fechada.

Naquele dia fomos cedo para o Maracanã, dispostos a conseguir um bom lugar. No entanto, quando chegamos, já havia milhares de pessoas. Era exatamente a hora da abertura dos portões e eu, erguendo o braço que segurava o ingresso, juntei-me ao grupo que avançava. Bombom entrou rápido e eu fui atrás dele, mas quando cheguei diante do homem da catraca, ele me fuzilou com os olhos. Só então vi que algum gatuno havia roubado meu bilhete. Era muito azar...

Tentei argumentar, mas ele me chamou de ímprobo e fez sinal para dois policiais virem me prender. Foi quando as pessoas que estavam atrás de mim, impacientes com a demora, começaram a forçar passagem. No começo, tentei resistir, mas logo percebi que aquela era a minha salvação: deixei-me levar pelos empurrões e desapareci no meio da multidão.

Lá dentro, nós, os torcedores, estávamos rindo à toa. Parecia mais uma convenção de protéticos, tantos eram os dentes que mostrávamos uns para os outros. O empate nos dava o título. Era só esperar noventa minutos para começar a festa.

 Estou ali, no canto direito da arquibancada. Sou o de chapéu palheta.

Eu enlouquecia só de olhar para o gramado, ver a classe de Zizinho, o toque bonito de Bauer, a ginga de Jair e as disparadas de Friaça e Chico. Todo o estádio esperava pelo primeiro gol.

Esperava, mas ele não vinha.

O problema era Tejera, Gambeta e Andrade, que não descuidavam dos nossos goleadores. E quando algum atacante conseguia vantagem, Gonzalez vinha na sobra e afastava o perigo. Danilo e Bauer tentavam variações, mas Obdulio Varela, à frente da zaga, catimbava, fazia faltas, cadenciava o jogo e irritava o estádio inteiro. Depois dos 7 a 1 na Suécia e dos 6 a 1 na Espanha, achávamos que venceríamos pelo menos por 5 a 1. Doce ilusão...

 Obdulio, el negro jefe.

Veio então a segunda etapa e, logo no início, o alívio. Zizinho lançou Friaça e ele, quando chegou a três passos do bico da pequena área, bateu cruzado. A bola estufou a rede e sacudiu o Maracanã. Todos se abraçaram. Tentei me aproximar de umas moças que vestiam blusas brancas com as iniciais B-R-A-S-I-L — principalmente da letra S —, mas havia tanta gente que não consegui sair do lugar.

Infelizmente, minha alegria e a tristeza de Bombom duraram pouco. Dez minutos depois, Obdulio Varela lançou Ghiggia, este passou por Bigode e cruzou rasteiro. A bola caiu nos pés de Schiaffino, que bateu de primeira, sem chance para Barbosa.

 Schiaffino jogava o fino.

Esse gol deixou nosso time atordoado. Os jogadores não conseguiam se entender sobre se era melhor buscar a vitória ou tocar a bola para segurar o empate. Enquanto isso, o Uruguai crescia.

O tempo é uma coisa estranha. Nos momentos felizes voa como um corcel alado, nos tristes arrasta-se como uma tartaruga manca. Depois do gol, ele parecia ser, para mim, uma lesma preguiçosa. Os segundos duravam minutos, os minutos duravam horas.

Veio, então, o momento fatal, a cena que não me sai da memória. Ghiggia recebeu um lançamento e só tinha Bigode pela frente. O uruguaio estava a alguns passos da entrada da grande área e ficou ameaçando o drible. Bigode resolveu esperar, não querendo fazer a falta. Ghiggia então fintou-o, avançou para a linha de fundo e arriscou o chute. A bola passou por um vão mínimo entre o corpo de Barbosa e a trave.

 O gol mais triste da nossa história.

Naquele instante, um silêncio sombrio baixou sobre o Maracanã.

Os jogadores correram em busca do empate, esforçaram-se, mas nada surtiu efeito. O tempo disparou e, quando o juiz George Rider apitou o fim da partida, ficamos lá, parados e mudos, sem saber o que fazer. Era um velório. Depois, fomos saindo do estádio como quem acompanha um enterro.

Muitos foram apontados como responsáveis por aquela derrota, mas eu sabia que o culpado era apenas um: eu, Frieira, o pé-frio.

Cheguei à Glória arrasado e, quando vi a rua toda enfeitada, cheia de fitas e bandeirolas, chorei feito criança. A vizinhança tinha arrumado mesas e cadeiras para fazer uma grande festa, mas tudo estava quieto. Só puseram uns lençóis em cima da comida e deixaram tudo lá. Dei uma última olhada para aquele que havia sido o meu botequim e fui para casa me embebedar.

No dia seguinte procurei o Bombom para honrar minha palavra. Ele me recebeu de terno e gravata, e quando eu disse “Vamos para o cartório” ele completou: — Antes eu ter que dar um passadinha no casa do Claudete, que ela vai com o gente. Então pensei: Não basta ter vencido, ainda leva a namorada para me humilhar.

Chegando ao cartório, dei um suspiro e exclamei: — Bem, adeus meu bar querido...

Ele, porém, começou a rir e disse: — Friêrra não entender nada. Friêrra continua com a botequim! Eu não querrer seu parte!

Fiquei um pouco atordoado ao ouvir aquilo e perguntei que diabo estávamos fazendo no cartório se não íamos desfazer a sociedade. Bombom respondeu:

— Eu vem casar com o Claudete — e então abraçou-se a ela, que sorriu mostrando seus trezentos dentes brancos. — Friêrra é a meu padrinha!

E assim foi que, ao contrário do que eu esperava, Bombom me vendeu a sua parte do bar e voltou para a Alemanha. Confesso que fiquei contente com aquele desfecho, pois amava o meu negócio e sofrer duas perdas talvez tivesse sido demais para o meu coração.

Curiosamente, a partir daquele momento as coisas começaram a dar certo para mim. O bar da esquina foi à falência e herdei sua freguesia, ganhei algumas vezes no bicho, tive ótimas noites no Cassino da Urca e, em 1954, fui sorteado pela revista O Cruzeiro. O prêmio era ir à próxima Copa com todas as despesas pagas.

Foram anos de tanta sorte que alguns até começaram a me chamar de Pé-de-Coelho. Tudo são nomes.

 

Por Torero às 10h20

21/03/2008

1938 – O Feijão e o coq au vin

1938 – O Feijão e o coq au vin

Minha vida com Coco foi feliz naqueles anos. Morávamos nos arredores de Paris, onde eu trabalhava como pintor de paredes. Ganhava pouco, mas me divertia muito e ia sempre aos estádios ver os jogos do Saint-Germain.

Quase caí de costas ao saber que a próxima Copa seria justamente na França. Porém, quando vi o preço dos ingressos, aí caí mesmo. Era muito mais do que os meus modestos ganhos permitiam e, para piorar, Coco não era exatamente econômica.

Só me restava uma opção: tentar fazer parte da comitiva brasileira. Logo que ela chegou, fui ao Pavillon Henri IV, em Saint-Germain-des-Prés, e falei com o doutor Castelo Branco, chefe da delegação, mas ele disse que infelizmente não precisavam de mais ninguém.

Foi então que escutei uma voz às minhas costas. Uma voz não, um grito:

— Me arrumem um ajudante de verdade para a cozinha! Aquele sujeitinho que vocês arranjaram só sabe fazer essas frescuras francesas. Os jogadores querem é feijão!

Virei-me, abaixei a cabeça e me apresentei:

— Feijão ao seu dispor.

Esperava ouvir muitas palavras em resposta ao que eu disse, menos as que escutei: — Feijão, seu cachorro! Era aqui que tu estavas!

Quando ergui a cabeça, vi que a cozinheira era Noemi. Sim, Noemi, aquela moça do Méier com quem eu deveria ter me casado duas copas atrás.

Lembrando-me da desculpa que tinha lhe dado em 1930, expliquei que havia sido ferido numa região muito particular durante o golpe de Getúlio Vargas, e que o único médico que poderia fazer o reimplante vivia em Paris.

— E a operação deu certo?

— Por que você acha que eu não voltei? Colocaram o cano no revólver, mas ele já não atira mais..., respondi cabisbaixo.

Noemi tentou segurar ao mesmo tempo lágrimas e risadas. Por fim, respirou fundo e me contratou.

Aos poucos fui me inteirando do estado da seleção: dessa vez contávamos com um scratch forte. A CBD e a FBF haviam se unido e não houve brigas entre paulistas e cariocas. Estavam lá Leônidas e Patesko, remanescentes de 34, e ainda alguns novatos: o zagueiro Domingos da Guia, de estilo tão elegante que podia jogar de terno, e dianteiros talentosos como Tim, Hércules e Romeu Pellicciari. Fiquei sabendo que dessa vez tinha havido até preparação, com a equipe ficando um mês em Caxambu. Tudo parecia bem melhor que em 34 e enchi-me de esperanças.

 Domingos da Guia: Do Bangu para o mundo.

A estréia aconteceu contra a Polônia no Stade de la Meinau, em Estrasburgo. Como os polacos também usavam camisas brancas, pela primeira vez a seleção entrou em campo com um segundo uniforme: camisas azuis e calções pretos. Mas os dois times acabaram ficando marrons, pois choveu tanto naquele dia que o campo transformou-se num lamaçal.

Por pouco não morri nesse jogo. Viramos o primeiro tempo vencendo por 3 a 1, com o que pensei que seria uma partida fácil. Porém, 45 minutos depois, olhei para o placar e o que vi foi um 4 a 4. Um tal de Willimoski tinha feito nada menos que três gols.

Veio a prorrogação: Willimoski fez mais um gol e achei que estava tudo acabado. Mas havia Leônidas. Ele virou o jogo e deixou o público boquiaberto. Até gol de pé descalço ele marcou. É que sua chuteira havia se soltado, mas o Diamante Negro continuou jogando e fez um golaço.

 Com Leônidas em campo, não perdemos nenhum jogo naquela Copa.

Depois viajamos mil quilômetros de trem até Bordeaux para enfrentar a Tchecoslováquia. Pensei que Coco fosse reclamar dessa minha segunda viagem. Mas eu estava enganado. Em três tempos ela fez minha mala e disse: — Adieu, mon Fejon.

Contra os tchecos, nova agonia. O Brasil largou na frente com Leônidas, mas Domingos da Guia fez um pênalti em Simunek. Nejedly botou a bola no cantinho de Válter e igualou: 1 a 1. Depois disso o jogo ficou equilibrado, inclusive na pancadaria. O Brasil teve Zezé Procópio e Machado expulsos; da Tchecoslováquia, Riha foi para fora.

Em toda guerra há um herói e nessa não foi diferente: o goleiro Planicka, depois de um choque com Perácio, deslocou a clavícula. Naquele tempo não se podia fazer substituições, e ele teve que jogar a prorrogação com um braço só. E o pior é que, mesmo assim, continuou fechando o gol. Ficou tudo para o jogo extra.

Quando a seleção entrou em campo dois dias depois, meus olhos arregalaram-se tanto que quase caíram da órbita: com exceção de Leônidas e Válter, o técnico Ademar Pimenta havia escalado o time reserva. Achei aquilo uma tolice sem tamanho e, ao final do primeiro tempo, quando os tchecos venciam por 1 a 0, estava doido de raiva e mordia meu panamá com ódio.

No segundo tempo, porém, a equipe reagiu e lamentei ter estragado meu único chapéu.

Tim foi o maestro da equipe, ditando o ritmo do jogo, dominando o meio-campo e lançando bolas certeiras. Leônidas — sempre ele! — empatou, e Roberto confirmou a vitória brasileira. Pela primeira vez na história, participaríamos de uma semifinal.

Essa honra, porém, exigiu grandes sacrifícios. A partida — contra a poderosa Itália — fora marcada para dali a dois dias na distante Marselha. Mais uma viagem! Para piorar, Leônidas estava sem condições de jogo por causa de duas partidas seguidas enfrentado as botinadas dos zagueiros tchecos.

O Brasil entrou em campo com Válter; Domingos da Guia e Machado; Zezé Procópio, Martim e Afonsinho; Lopes, Luisinho, Romeu, Perácio e Patesko.

Fiquei surpreso com a ausência de Tim e dessa vez não me contive. Fui até Ademar Pimenta e disse:

— O senhor tinha que pôr o Romeu na direita, tabelando com o Lopes, não no meio. E, na esquerda, Tim e Hércules, que estão em melhor fase que o Perácio e o Patesko. Ele olhou-me com desprezo e disse:

— Lugar de Feijão é na cozinha.

— De Pimenta também! — respondi.

Noemi, que estava ali ao lado, riu e falou: — Tu continuas um pícaro!

Mal o juiz apitou o início da partida e os italianos vieram para cima com uma tremenda fome de gol. O massacre era terrível, daqueles em que a única coisa que um torcedor pode fazer é rezar (o que eu, aliás, fazia com fervor). Meazza e Piola estavam impossíveis e Válter teve que fazer defesas históricas para segurar o 0 a 0.

Aqui Piola segura a bola do gol número 300. Mas ele ainda faria mais 105.


Porém, do mesmo jeito que eu rezava pelo empate, algum italiano devia estar rogando por um gol. E como Deus ouviu minhas preces no primeiro tempo, quis ser imparcial e atendeu o italiano no segundo, fazendo com que Colaussi abrisse a contagem.

Pensei que levaríamos uma goleada histórica, porém o Brasil se acalmou e começou a frequentar a área italiana. Parecia um novo jogo e criávamos boas chances para empatar. Mas aí aconteceu aquele lance que entrou para a história do futebol: a bola estava no ataque brasileiro quando Piola, pela milésima vez no jogo, começou a provocar Domingos da Guia. Empurra daqui, xinga dali, Piola deu um chute em Domingos e este, irado, passou-lhe uma rasteira dentro da área. O juiz, um suíço chamado Wuthrich, viu o lance de longe e marcou pênalti.

Os brasileiros ficaram doidos: reclamaram que a bola estava do outro lado, que nunca tinham visto uma coisa daquelas, mas o juiz, até porque não entendia português, permaneceu duro como uma pedra. Meazza bateu e fez 2 a 0.

Depois do gol, nosso time ficou atordoado. Só no final, aos 41 minutos, é que conseguimos chegar com mais força à área inimiga. Romeu marcou, mas era tarde. Aquele jogo ficou mesmo atravessado na nossa garganta como o jogo do “se”: se Leônidas tivesse jogado..., se o juiz não tivesse marcado o pênalti..., se o time tivesse sido mais bem escalado...

Para espantar um pouco a tristeza, eu e Noemi fizemos uma feijoada no dia seguinte. Não por acaso, deixei cair uma boa dose de pimenta no prato do Pimenta. Ele bebeu três copos de água depois da primeira garfada.

Alguns dias depois, em Bordeaux, conquistamos o terceiro lugar vencendo a Suécia por 4 a 2. Nesse jogo Leônidas fez mais dois gols, o que lhe valeu a honra de ser o artilheiro da Copa.

Só então tornamos a Paris e fui para minha casa. Quando abri o portão, esperava que Coco viesse correndo de braços abertos ao meu encontro. Mas ela não veio. Descobri o motivo quando cheguei à porta e vi um bilhete:

“Fejon, as coisas vão e vêm, e chegou a minha hora de ir. Apaixonei-me por um reserva da seleção suíça e fui com ele para Lausanne. Mando-lhe um relógio cuco de lá. Um beijo da sua, quer dizer, da que um dia foi sua, Coco”.

Rasguei aquele papel em mil pedaços e depois ainda queimei cada um deles. Para me consolar, convidei Noemi para assistirmos à final da Copa entre Itália e Hungria.

Cinqüenta e oito mil pessoas lotavam o estádio Colombes e quase todas torciam para a Hungria. Mas a Itália venceu de novo: 4 a 2, com mais uma grande exibição do maldito Piola, autor de dois gols.

Noemi percebeu que caíam lágrimas dos meus olhos e comentou: — Não sabia que gostavas tanto da Hungria.

— Não é isso, é que estou com saudades do passado...

Pensando que eu me referia a ela, Noemi tomou meu rosto em suas mão e deu-me um longo beijo. Não preciso dizer aos senhores, nem às senhoras, que esse tipo de carinho provoca reações fisiológicas abaixo do nosso equador. Percebendo isso, Noemi exclamou: — Feijão do céu, acho que alguma coisa se moveu!

Olhei para baixo e disse: — É um milagre! Só mesmo o teu toque divino poderia ressuscitar este Lázaro. Em seguida ajoelhei-me e perguntei: — Ainda queres casar comigo?

Ela aceitou.

Voltamos para o Brasil na manhã seguinte.

E foi assim que, depois de ver três copas em três países diferentes, voltei para meu antigo emprego, para a Noemi e para o Méier, como se nunca de lá tivesse saído.

  Noemi e eu, já de volta ao Rio. Ah, o mundo dá voltas... E sempre volta ao mesmo lugar.

Por Torero às 08h30

13/03/2008

1934 - O Feijão e a pizza

1934 - O Feijão e a pizza

Depois da Copa de 30, eu e Federica mudamos para os arredores de Roma, onde eu trabalhava como motorneiro de bonde. Ganhava pouco, mas me divertia muito e ia sempre ver os jogos do Lazio com Luigi, meu vizinho.

Depois do Uruguai aprendi a gostar de futebol e até estourei fogos quando soube que a próxima Copa do Mundo aconteceria justamente no país em que eu morava.

Naquele tempo, a Itália vivia sob o regime fascista. O Duce Benito Mussolini acalentava o sonho de reviver o Império Romano e, como os velhos césares, via no esporte uma valiosa arma para aumentar sua popularidade. O treinador Vitório Pozzo, como queria manter sua cabeça sobre o pescoço, não se fez de rogado e recorreu a vários filhos de italianos que jogavam na América do Sul, como os argentinos Orsi e Guaita, e o brasileiro Filó. O assédio aos oriundi era tão grande que o Palestra Itália, de São Paulo, chegou a esconder três de seus jogadores numa fazenda em Araras para que eles não recebessem as propostas italianas.

 Esse era o Filó.

A seleção brasileira, segundo as cartas do meu velho amigo Farinha, não ia muito bem. As brigas continuavam, mas agora não entre cariocas e paulistas, e sim entre a CBD, que defendia o amadorismo, e a Federação Brasileira de Futebol, que congregava os times profissionais. Um ano antes o futebol brasileiro havia se profissionalizado e as principais equipes paulistas e cariocas estavam do lado da Federação. A Fifa, porém, reconhecia apenas a CBD, que, entre os seus integrantes, só contava com um time importante: o Botafogo, que acabou cedendo oito jogadores.

Novamente não iríamos contar com nossos principais talentos, apesar de Carlito Rocha, o presidente do Botafogo, ter prometido uma nota preta para quem fosse para a CBD. Oferecer dinheiro para um jogador voltar ao amadorismo pode parecer uma coisa sem muita lógica, mas lógica e futebol não combinam muito, ainda mais no Brasil.

Fiquei aborrecido com essa história toda e um dia, almoçando com Federica e Luigi, disse que iria torcer para a Itália. Porém, como a raiva do torcedor é breve e a paixão, eterna, peguei um trem para Gênova e lá fui eu assistir ao primeiro jogo do Brasil. Nosso adversário, a Espanha, era uma das mais fortes seleções daquele tempo. Para piorar, a Copa foi disputada no sistema que hoje chamam de mata-mata. Perdeu, cai fora.

Quando vi aquelas camisas brancas entrando em campo, não contive a emoção e chorei (mas, entre as lágrimas, notei que elas não estavam tão bem lavadas, passadas e alinhadas como no meu tempo).

 A camisa de 34.

Mal começou o jogo e me dei conta de que nossa equipe sairia mais surrada que o uniforme. O team até que não era mau. Além de Leônidas da Silva, havia o bom goleiro Roberto Gomes Pedrosa e atacantes como Valdemar de Brito e Patesko. Mas se a nossa seleção não era má, a deles era muito boa. Quincoces, Lafuente e Langara eram craques e o goleiro Zamora parecia uma mistura de sapo com polvo.

 Para ler a biografia de Zamora, El Divino, clique aqui.

Já no final do primeiro tempo, eles venciam por 2 a 0. Depois Leônidas diminuiu, mas Langara fez 3 a 1 e jogou a última pá de cal sobre as nossas esperanças. Então novas lágrimas rolaram pelos meus olhos. Quase encharquei os sapatos.

Antes de voltar para casa, no entanto, fui andar um pouco para conhecer Gênova e, quando fiquei cansado, entrei numa doceria de nome Il Dulce. Ali acabei conhecendo Cosette, uma francesa cujo apelido era Coco e que logo começou a me chamar de Mon Fejon. Ela era garçonete e também estava desolada por causa da eliminação da sua França, batida pela Áustria.

A doce Coco foi uma excelente guia e, se não conheci tão bem as belezas de Gênova, é porque me ocupava com as da França.

Naquela noite, enquanto estávamos abraçados, ela propôs que fôssemos até Verona, cidade de Romeu e Julieta, para vermos a lua dos amantes. Fiz uma contraproposta: "E se fôssemos a Roma, cidade do Lazio, para ver a final da Copa?"

Acho que Coco me amava, pois aceitou sem titubear.

A euforia por causa da seleção italiana era enorme. Logo de cara, um bombardeio sobre os Estados Unidos: 7 a 1, devidamente dedicados a Mussolini.

 O exército italiano entra em campo para bombardear os Estados Unidos.

Depois, uma peleja emocionante contra os espanhóis; tão emocionante que os jornais disseram que o jogo deveria ter sido disputado num campo de batalha, e não de futebol. Como até a prorrogação terminou empatada e não havia disputa de pênaltis naquele tempo, os dois times tiveram que fazer outro match 24 horas depois.

No combate anterior, o time espanhol havia sido tão castigado pelos italianos que entrou sem sete titulares, entre eles Zamora e Langara. Mesmo assim a Espanha jogou com bravura e só foi derrotada porque o juiz não viu Meazza ajeitar a bola com a mão antes de fazer o gol da vitória. As copas nem sempre são ganhas só com futebol.

Nesses dias, eu e minha nova namorada vivíamos trancados num quarto de pensão feito um casal em lua-de-mel. Eu, é claro, não lhe contei que era casado. Às vezes batia-me um certo remorso e pensava em voltar para casa, mas então ficaria com remorso por ter deixado minha cherrizinha. Ora, já que sentiria remorso de qualquer jeito, preferi senti-lo ao lado de Coco.

Pelo rádio acompanhamos Itália x Áustria. Esse match foi considerado por muitos como uma final antecipada da Copa. Depois de muita luta, a defesa austríaca finalmente foi invadida. Quem conseguiu tal façanha foi o soldado Guaita.

Para a final contra a Tchecoslováquia, nos apertamos entre milhares de pessoas no estádio do Partido Nacional Facista. Mas isso não foi problema, pois quanto mais perto estivesse de Coco, melhor.

Esse combate não foi menos dramático que os dois anteriores. No primeiro tempo, as tropas de defesa levaram a melhor sobre as forças de ataque. Porém, no período final, as trincheiras caíram: primeiro a do Duce, que levou um gol de Puc; depois a tcheca, traspassada por uma bomba do artilheiro Orsi. 1 a 1. Tudo seria decidido na prorrogação.

 Orsi, o italiano da Argentina.

Então o exército italiano foi para cima dos inimigos e aos cinco minutos Schiavo fez o gol que decidiu a Copa. Terminado o jogo, todos se abraçavam e os casais trocavam beijos de amor.

No meio daquela festa toda, no entanto, reparei que Luigi, meu vizinho, também estava nas arquibancadas e beijava uma senhorita, ou melhor, senhora, pois a tal era ninguém menos que a minha, ou sua, Federica.

Nossos olhares se encontraram, andamos uns na direção dos outros e ficamos frente a frente.

Então Federica esbofeteou-me por eu a estar traindo com Coco.

Coco esbofeteou-me por eu não haver dito que era casado.

Eu esbofeteei Luigi por ele estar saindo com a minha mulher.

Luigi esbofeteou-me porque ainda não tinha batido em ninguém.

Federica esbofeteou Luigi por ele ter estapeado seu marido.

Coco esbofeteou Luigi por ele ter batido em seu amante.

Eu esbofeteei as duas por baterem em meu amigo.

E os três me esbofetearam porque em mulher não se bate.

Continuamos assim por um bom tempo, até que, com as bochechas vermelhas, resolvemos ir a uma cantina.

Depois de ter a razão iluminada por algumas canecas de vinho, ponderamos que o melhor seria que cada nova dupla seguisse seu destino: Luigi e Federica ficariam em Roma e eu e Coco partiríamos com destino a Paris. No final da noite, com as bochechas rosadas, até já brindávamos àquele feliz arranjo. Só uma coisa me deixava triste: separar-me da minha querida filha Madalena. Mas até isso se resolveu quando Federica sussurrou ao meu ouvido:

— Não seja por isso. Ela é filha do Farinha, Feijão.

 

Por Torero às 08h48

06/03/2008

1930 - O Feijão e o Sonho

1930 - O Feijão e o Sonho


Há dois tipos de sonho.

O primeiro é feito com uma massa de farinha e ovos, tem cobertura de açúcar e recheio de creme. O segundo não é feito de nada, se bem que também tenha o seu tanto de açúcar. Naquele dia, na Confeitaria Colombo, provei dos dois.

Estava ao lado do meu amigo Farinha. Enquanto eu cravava os dentes no doce, ele me disse de supetão:

— Feijão, já arranjei tudo! Vamos para o Uruguai na semana que vem.

Como estava de boca cheia, minha única reação foi levantar as sobrancelhas, como que dizendo:

— Fazer o quê no Uruguai? Não sabes que estou de noivado marcado com a Noemi?

Ele entendeu os meus supercílios e respondeu:

— É o seguinte, Feijão: vão fazer lá no Uruguai uma tal de Copa com as seleções de futebol de tudo quanto é país. A do Brasil também vai e eu dei um jeito para a gente ir com o pessoal. A coisa toda dura umas duas semanas. Eu vou de massagista, tu serás o roupeiro.

Minhas sobrancelhas agora mudaram de posição e tentaram encostar uma na outra, como que dizendo: “Eu?, roupeiro?”

Farinha, vendo a pergunta em minha face, respondeu:

— Que que tem? Se eu, que não encosto dedo em homem, vou como massagista, por que tu não podes cuidar dos uniformes?

De fato, naquele tempo eu trabalhava como ajudante de alfaiate e entendia um pouco de botões, agulhas e aviamentos; mas mesmo assim a coisa me parecia aventurosa demais. Percebendo isso, Farinha passou a falar das maravilhas da viagem, da beleza das uruguaias e até da neve. Como eu nunca tinha posto os pés fora do Méier, jamais tinha visto neve nem tocado uma uruguaia, a idéia começou a me fazer cócegas.

Quando saí da Colombo, carregava dois sonhos, um no estômago e outro na cabeça.

Fui então me despedir de Noemi. Contei a ela que ia juntar-me às tropas de Getúlio Vargas e que só voltaria ao Rio quando acabássemos com a ditadura dos malditos cafeicultores paulistas. Ela não entendeu bem aquela febre política, mas chorou muito e jurou que iria me esperar à porta do Catete.

Dias depois me apresentei à tal seleção. Não entendia de futebol, mas o Farinha era fanático e ia me explicando tudo. A primeira coisa que me disse foi que aquela seleção era, na verdade, uma seleção carioca. Isso aconteceu porque a Confederação Brasileira de Desportos só tinha convidado dirigentes do Rio de Janeiro para a comissão técnica, e os paulistas, de birra, proibiram seus jogadores de ir. Só Araken Patuska, que na época estava sem time, juntou-se à equipe.

Farinha contou-me que, por causa dessa briguinha de engravatados, o scratch ficara sem grandes jogadores, como o goleiro Athié, o atacante Feitiço, que driblava como poucos e chutava como ninguém, e principalmente sem Friedenreich, que meu amigo dizia ser o melhor jogador do mundo.

 Com Fried, a história teria sido outra. Ah, os dirigentes...

Um dos chefes da delegação era o doutor Píndaro de Carvalho. Um dia este senhor pediu minha opinião sobre o uniforme da seleção: camisa branca, calções azuis e meias brancas. Eu disse que era bonito, mas que faltavam as cores principais da nossa bandeira: o verde e o amarelo. Ele explicou que eram muito chamativas e que o futebol era um jogo de classe.

 Eis o uniforme da Copa de trinta. Não era muito colorido, mas estava sempre bem passado.

A ausência dos paulistas, do verde e do amarelo não foram os únicos problemas da seleção. Faltava também um técnico. O time jogava ao deus-dará e todo mundo arriscava palpites sobre a forma de jogo. Treinos mesmo, o time fez apenas dois. Eu era só um aprendiz de costuras, mas sabia que, sem uma boa tática que alinhavasse tudo, de nada adiantariam pontas agudos como alfinetes e defensores elegantes como seda. Como dizem os alfaiates: “sem um bom molde não há trapo que vire fato”.

Uma semana depois seguimos para Montevidéu, a bordo de um navio italiano chamado Conte Verde, que trazia entre seus passageiros ninguém menos que Jules Rimet. O homem não largava sua taça por nada. No convés, passeava com ela debaixo do braço e, durante as refeições, ficava a admirá-la como se fosse a própria Greta Garbo.

 Tirei esta foto da delegação dentro do navio. 

Como disse, eu jamais havia saído do Méier, portanto nunca tinha posto os pés num navio, nem sabia que eles sacudiam tanto em suas viagens. Enjoei muito e não vomitei menos. Pensei em desembarcar em Santos, quando parássemos para pegar Araken Patuska, mas a enfermeira de bordo, uma italiana chamada Federica, atendeu-me com tanto carinho que levantou meu ânimo.

Finalmente chegamos ao Uruguai e confesso que achei bom deitar numa cama que não balançasse, pois sempre pensei que elas devem chacoalhar pela vontade dos ocupantes e não pela de Netuno.

Falando nisso, naqueles dias, ou noites, os movimentos de meu leito embalaram-me de tal modo que, quando reparei, minha boca dizia a Federica: — Queres casar-te comigo? — Ela respondeu que não podia, pois tinha que voltar para a Itália. Choramos como crianças. Depois fomos tomar sorvete.

Mas voltemos à Copa. Em vez dos dezesseis participantes esperados, o torneio de 1930 teve apenas treze, o que obrigou a uma divisão complicada dos times em quatro grupos. Nós ficamos num grupo de três, no qual também estavam Iugoslávia e Bolívia. Só um time de cada chave passaria para as semifinais.

Era engraçado andar por Montevidéu e ver aqueles jogadores vindos de lugares tão diferentes. Por ser a primeira vez que se fazia uma competição daquelas, tudo era novidade e diversão. Pelo menos até o primeiro jogo.

Nossa estréia foi contra os iugoslavos. Os brasileiros entraram em campo muito galantes, em uniformes lavados e passados com o esmero de um artista. Deixando a modéstia de lado, devo dizer que, se elegância ganhasse jogo, teríamos saído invictos daquele campeonato.

 A seleção estava na maior estica.

Infelizmente as coisas não foram bem assim e, de chofre, enfrentamos um problema terrível: o frio. A temperatura era de um grau e, para se esquentarem, nossos jogadores ficavam sacudindo-se em campo. Quem olhasse de longe pensaria que eles estavam tendo um ataque epilético ou ensaiando passos de mambo. Os pobres homens soltavam fumaça pela boca, pelo nariz e por pouco não a soltavam pelos ouvidos.

Quando o jogo começou, surpresa: os beques estavam firmes, no meio Fausto fazia boas jogadas e, na frente, Preguinho martelava a defesa adversária. Mas, num descuido, nossas esperanças naufragaram: Tirnanic mergulhou e, de cabeça, fez 1 a 0. Mal nos refizemos do susto e Beck ampliou.

Pensei que sofreríamos uma goleada, porém, no segundo tempo, o Brasil cresceu, empurrou os iugoslavos para dentro da área e conseguiu o seu gol: Preguinho. Ficamos o resto do jogo atacando, mas o goleiro Yakovic fechou a meta iugoslava com cadeado. Não deu, perdemos de 2 a 1. Para esquecer a derrota, bebi sozinho uma garrafa de vinho.

Três dias depois, os iugoslavos meteram 4 a 0 nos bolivianos, destruindo nossas esperanças de classificação.

Mas restava o jogo contra a Bolívia e queríamos voltar para casa com, pelo menos, uma vitória. Nesse dia, com Russinho, Carvalho Leite e Moderato no ataque, jogamos mais soltos e chegamos com facilidade aos 4 a 0: dois gols de Moderato, dois de Preguinho. Esse Preguinho, aliás, era filho do escritor Coelho Neto e herdou do pai a capacidade de fazer firulas, só que com a perna em vez da pena. Para comemorar a vitória, bebi duas garrafas de vinho.

Passaram para as semifinais a Iugoslávia, que enfrentaria o Uruguai, e a Argentina, que pegaria os Estados Unidos. Eu e Farinha preferimos assistir a este segundo jogo. Nessa partida aconteceu um lance curioso: o juiz, um belga de nome Langenus, apitou uma falta contra os estadunidenses e o médico entrou em campo para reclamar. Na confusão, todos os seus vidros caíram no chão, inclusive o de clorofórmio, que quebrou e fez desmaiar um dos jogadores americanos. Cutuquei meu amigo e observei:

— Falta feijão para esse pessoal, Farinha.

— E farinha, Feijão.

Faltavam mesmo: a partida acabou 6 a 1 para os argentinos.

Toda a delegação brasileira embarcou de volta para o Rio no dia seguinte. Aliás, toda não, porque eu decidi me casar com Federica e seguir com ela para a Itália. Despedi-me do Farinha com lágrimas e logo que o navio sumiu no horizonte fui correndo comprar meu ingresso para a final, um duelo de sair faísca entre Uruguai e Argentina.

Nunca me esquecerei daquele dia. Os uruguaios estavam confiantes, mas os argentinos atravessaram o Prata em hordas e invadiram a cidade gritando “Victoria o muerte!” Muitas armas de fogo foram apreendidas na alfândega e houve várias brigas entre as torcidas pelas praças de Montevidéu. O clima era tão pouco civilizado que o juiz, de novo o belga Langenus, só aceitou apitar o jogo se lhe fizessem um seguro de vida.

Quando entrei no Centenário, meu queixo quase caiu. Nunca tinha visto um estádio daquele tamanho. Havia bem umas oitenta mil pessoas espremidas ali. Na verdade, era menos um estádio que uma arena, e mesmo antes do princípio do jogo já começaram os problemas: os argentinos queriam a bola argentina, os uruguaios só aceitavam a uruguaia. Langenus teve que decidir a questão na moedinha. Venceu a bola argentina.

 Tinha quase cem mil no Centenário.

A partida começou equilibrada, mas aos poucos o futebol de toques curtos e rasantes dos argentinos se impôs, e eles terminaram o primeiro tempo vencendo por 2 a 1.

Na etapa final, porém, os uruguaios voltaram enlouquecidos. Eram como leões mordendo cristãos. Ou pulgas mordendo cães. Logo aos doze minutos igualaram a partida com um gol de Cea. E, aos vinte e três, num chute de fora da área, o grande Iriarte desempatou. Então os papéis se inverteram e foi a vez dos argentinos atacarem. Seguiu-se uma terrível pressão: chuva de cruzamentos, tiros batendo nos beques, bolas salvas em cima da linha e o guardião Ballesteros fazendo milagres.

 Manco Castro deu o golpe fatal.

O empate parecia questão de tempo até que, num contra-ataque já nos derradeiros minutos da partida, Dorado fez o centro e Manco Castro deu uma cabeçada certeira que decretou o placar final: 4 a 2. Os argentinos alegaram toque de mão, mas como Manco era maneta, o juiz não lhes deu ouvidos.

Eu e Federica comemoramos muito a vitória uruguaia, tanto que, nove meses depois, já na Itália, nascia nossa filha Madalena. Mas isso é outra história.


 

Por Torero às 07h32

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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