1998 – Futebol é bom pra cachorro!

Eis um belo lugar para se viver, pensei quando desembarcamos em Paris.
Acho que ele concordava comigo, mas, talvez por causa de sua idade, trocou uma palavra da frase e disse: — Eis um belo lugar para se morrer.
O seu nome era Feijão. Dividíamos há dez anos um quarto no Méier e cada um conhecia a fundo as manias e rotinas do outro. Ele era o meu melhor amigo. Por ser um pouco mais jovem, cabia a mim acordá-lo, incentivá-lo a caminhar e agüentar suas crises de mau humor:
— Ah, Marcos Roberto — ele dizia. — O que seria de mim sem você?
Eu apenas inclinava a cabeça, assim como quem diz: — Ora, deixe pra lá... — Nunca soube reagir a elogios.
Feijão tinha já cem anos e não contava mais com sua companheira Noemi. Mas estava recuperado. Tanto que logo que chegamos a Paris ele procurou saber o destino de Coco, uma antiga namorada. Descobriu que ela agora morava em Sevilha, onde estava casada com um barbeiro chamado Piolho. Meu amigo pôs o telefone no gancho e suspirou com tristeza. Ele nunca soube viver sem mulheres.
Mas, afinal, ele não estava ali para tratar de amores, e sim para ver o Brasil pentacampeão. Uma das poucas pessoas ainda vivas a ter acompanhado o time na Copa de 1930, ele não queria abotoar o paletó de madeira antes de comemorar um título mundial. Por isso, vinha economizando cada centavo há muito tempo. Eu, que não gostava de futebol, achava aquilo um exagero. Bem, é como diz o ditado, cada cachorro sabe por que balança o rabo.

Quando ainda estávamos no Brasil, Feijão vivia dizendo aos amigos que a seleção tinha tudo para conseguir o título. Lá estavam os tetras Taffarel, Aldair, Dunga, Leonardo e Bebeto, além de Cafu, Roberto Carlos, César Sampaio, Rivaldo e, principalmente, o fenômeno Ronaldo. Na defesa havia um tal de Júnior Baiano, de quem Feijão não gostava muito, mas, como ele mesmo fazia questão de lembrar, nenhum time é perfeito.
No dia do jogo de abertura, contra a Escócia, saímos do hotel bem penteados e cheirosos, como se fôssemos a uma festa.
— Prepare-se, Marcos Roberto — ele disse. — Hoje você vai ver o primeiro passo de uma grande caminhada.
Não respondi nada, apenas olhei-o nos olhos assim como quem está com a pulga atrás da orelha.
Pegamos o metrô e seguimos na direção do campo. Apesar de ter deixado Paris há sessenta anos, meu amigo ainda conhecia bem a cidade e se movimentava com desenvoltura.

Chegando à entrada do Stade de France, encontramos uma multidão tão grande que, por um minuto, ficamos paralisados. Depois de respirar um fundo e tomar um vaso-compressor, um bronco-dilatador, um antialérgico, um antiartrítico, um calmante, um excitante e um bocado de gim, Feijão resolveu abrir caminho a bengaladas. Mas eu, mais baixo e sem armas, não consegui acompanhá-lo. Então deu-se o que eu mais temia: nos perdemos. Fiquei desesperado. Como não sabia emitir um mísero som em francês, fiz a única coisa que podia fazer naquele momento: sentei na calçada e chorei.
Pensei que ia ficar ali, esquecido para sempre, quando ouvi uma voz aguda dizer em português:
— Jesus amado!
Era uma mulher baixa e de cabelos grisalhos. O homem ao seu lado comentou: — Também te amo, Madalena.
— Não, Jesus, não estou falando com você. Olhe esse pobre cãozinho. O coitado deve ter se perdido do dono.
A boa senhora apanhou-me então com seus braços magros, apertou-me contra o peito e levou-me para dentro do estádio. Os carinhos dela consolaram-me um pouco, mas volta e meia eu erguia o focinho tentando sentir o cheiro de Feijão.
Quanto ao jogo, se me permitem o trocadilho, a Escócia foi um osso duro de roer. O Brasil fez 1 a 0 com César Sampaio, no que deve ter sido o primeiro gol de ombro de todas as copas, mas, logo depois, o mesmo Sampaio empurrou Durie na área e o juiz marcou pênalti. Collins igualou.

A vitória veio, enfim, na segunda etapa, depois de um longo lançamento de Dunga. Cafu, que vinha entrando em diagonal, chutou para a defesa de Leighton, mas, no rebote, o infeliz Boyd acabou colocando a bola dentro das próprias redes. Nesse momento, a boa senhora atirou-me para o alto.
Os humanos são imprevisíveis. Ainda mais Madalena. Ela havia sido freira por muitos anos no convento de Santa Chiara e estava numa missão religiosa em El Salvador quando reencontrou Jesus, que era o treinador de goleiros do Club Deportivo Dragón. Madalena abandonou a cruz, ele, as traves, e os dois abriram um restaurante católico no bairro de Pigalle, em Paris.
Na saída, ia eu no colo de Jesus quando uma senhora passou a mão em minha cabeça e falou:
— Que trem bonito demais da conta!
Jesus e Madalena trocaram um olhar de espanto e perguntaram ao mesmo tempo: — A senhorita é mineira?
— Sou, uai.
— Parece que ele gostou de você — disse Jesus, enquanto eu lambia a mão da mulher, na qual havia uns restos de pipoca.
— Igualzim um que eu tinha lá em Guadalajara.
Aquela mulher contou então que seu nome era Amélia e o apelido, Mel. Tinha acabado de chegar do México, onde dirigiu um hotel por quase trinta anos, até perder tudo num terremoto. Sentindo-se íntima dos dois, revelou que tinha ido à França para ver a seleção ser campeã como em 70. Depois pretendia voltar para o Brasil e terminar seus dias numa casinha no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte.
Meus donos ficaram tão comovidos com a história que a convidaram para ficar em seu pequeno apartamento.
Eles se abraçaram e eu gani, emocionado.
Nós quatro fomos, dias depois, assistir ao jogo contra Marrocos. O escrete brasileiro venceu por 3 a 0 com uma pancada de Ronaldo e dois gols do tipo até-eu-faria, marcados por Rivaldo e Bebeto. Mais fácil que correr atrás de um gato manco!

Para ser sincero, eu continuava não ligando muito para aquela história de Copa, mas, em respeito aos sentimentos deles, fazia o mínimo barulho possível durante os jogos. Até mesmo quando estouravam os rojões — vocês não imaginam o efeito daquilo nos nossos tímpanos — eu procurava me manter calado.
Em seu colar, Mel carregava uma foto do ex-marido, um tal de Jiló, de quem às vezes sentia saudades. Madalena perguntou se ela não tinha encontrado outros homens na vida e ela respondeu: — Fui solteira a vida toda, mas não estou matando cachorro a grito.
Não entendi bem o que ela quis dizer, de qualquer forma, fiquei aliviado.
Dois ou três dias depois do segundo jogo, nós passeávamos pela região de Les Halles quando ouvimos um sujeito berrar em francês: — Fora! Fora! Nunca mais me apareçam aqui, seus caiporas duma figa!

Ele parecia ser dono de hotel e gritava para dois sujeitos que vestiam camisas da seleção brasileira. Penalizada, Mel quis saber do que se tratava:
— Madame — disse o dono do hotel — desde que estes indivíduos se hospedaram aqui, o elevador quebrou, a calefação pifou, meu telefone ficou sem linha e apareceu uma rachadura na caixa d’água.
— Monsieur, o senhor está exageran... — ia contestar um dos sujeitos quando uma titica de pombo espatifou-se nos seus óculos.
— Puxa, que azar! — disse Mel. — Como é o seu nome?
— Frieira — disse Frieira limpando-se com um lenço. — E este é meu irmão, o Chulé.
Generosos como eles só, Jesus e Madalena convidaram os dois de boa fé para ficar alguns dias em seu apertado apartamento. Completando as boas vindas, Mel propôs que todos fossem juntos a Marseille ver o próximo jogo contra a Noruega:
— Aposto como o Brasil ganha desses comedores de bacalhau — brincou Jesus.
— Eu prefiro não apostar — emendou Frieira.

Nós seis embarcamos horas depois para ver a tal partida. Como o Brasil já estava na fase seguinte, entrou em campo meio desinteressado. Fizemos um gol, com Bebeto, mas os noruegueses viraram com Flo e Rekdal. Mel comentou: — Tem dia que o poste mija no cachorro.
Nem quero imaginar uma coisa dessas.
Apesar do aperto, dos esbarrões e das dificuldades (viviam pisando no meu rabo), o ambiente no apartamento ia de bom a melhor. Mel era uma filha para Jesus e Madalena, e os três riam dos azares de Frieira e das excentricidades de Chulé. Éramos quase uma família.
Chegou então a fase das oitavas-de-final e coube ao Brasil enfrentar o Chile, que vinha de três empates. Todos tinham um certo medo desse jogo, mas isso só durou até os onze minutos, quando Dunga cobrou uma falta perto da área e César Sampaio, de cabeça, abriu o placar. Aos 27 minutos, numa confusão na área, ele mesmo ampliou. E, um pouco antes de acabar o primeiro tempo, Ronaldo, cobrando pênalti, fez 3 a 0.
Na etapa final, o Brasil desperdiçou um monte de gols e um baixinho de nome Salas diminuiu. Mas aí Ronaldo marcou mais um e acabou com o jogo.

Saindo do Parc de Princes, fomos a um café beber alguma coisa. Chulé, Frieira, Mel e Madalena pediram Kir Royale e Jesus, é claro, tomou vinho. Eu fiquei na água mesmo. Na mesa ao lado havia um casal que comia silenciosamente. Depois de um tempo, o homem começou a olhar para Mel e levou uma cotovelada da esposa.
— Calma, querida, acho que reconheci alguém. — Então virou-se para Mel e perguntou: — Por acaso a senhora não era dona de um hotel em Guadalajara?
Logo o casal se juntou ao grupo. Ele era um sujeito grisalho chamado Minhoca e sua maquiada mulher tinha o nome de Victoire. Aliás, não sei se mulher é a palavra certa. Nós, cachorros, temos o hábito de cheirar as partes íntimas dos humanos e, bem, não é que eu queira meter o nariz na vida alheia, mas Victoire estava mais para Victor.
Os dois vinham da casa da mãe do Minhoca, onde tinha acabado de haver uma discussão.
— Mas por quê, gente? — perguntou Mel.
— Minha sogra é um pouco preconceituosa — respondeu Victoire sem entrar em detalhes.
Não é difícil imaginar o que aconteceu em seguida, difícil é imaginar como as pessoas se arranjaram na hora de dormir. Os donos da casa continuaram dividindo a cama de casal do único quarto, enquanto Minhoca e Victoire foram dormir na sala, Mel ficou no corredorzinho de entrada e os irmãos Frieira e Chulé ajeitaram seus colchonetes na cozinha. Quanto a mim, tive que me contentar com a área de serviço.
Foram dias felizes. Todos conversavam, jogavam cartas e riam sem parar. Eram gentis comigo e não havia hora em que alguém não estivesse me afagando. Apesar disso, eu não ficava um minuto sem pensar em Feijão, meu velho amigo. Onde estaria ele?
Depois de prepararmos lanches e sucos, os oito fomos a Nantes ver a partida das quartas-de-final contra a Dinamarca.

Foi um jogo terrível! Mal começou e Brian Laudrup cruzou para Jorgensen, que fez 1 a 0.
(Ops! Exagerei nas fotos e o espaço acabou. Continua no post abaixo)






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Kluivert urra depois de perder um gol


O Brutus disse que a Casa Rosada era branca, mas ficou rosada por causa do sangue dos vermelhos. Até hoje não entendi a piada. 
Este é o Clive Thomas. Enganos acontecem, coitado.

Boniek era o Zico deles.
Nelinho tinha um canhão no pé.
Kempes, o herói da decisão.


A iugoslávia era assim.
A seleção escocesa entrando em campo.
Valdomiro, o salvador.



Esse é o Marx novinho. O Jiló era a cara dele.
Quem manjava mesmo de esquerda era o Rivelino
O Pelé estava dizendo: "I'm sorry, Bobby."
O Jiló queria vir para cá.
Olha Ele comorando o gol.
Eu estou em algum lugar nessa foto. É só procurar.
Meu carrinho era lindo demais da conta
A seleção meteu os pés pelas mãos
Não parece a Rita Lee?
Euzinha. Ai que saudade daquela tonta...
Eusébio foi bem bom naquela Copa.
O Hurst não tinha um jeito de Beatle?
Não entrou, mas valeu.
Os autógrafos dos meninos
Grupo de podosofistas africanos.
Nem exclavil dava jeito nos calos do Dr. Paulo.
A turma de 62.
Amarildo olha para mim enquanto amarro suas chuteiras.
Aqui, Garrincha está dizendo para Pelé: "Com essas chuteiras do Chulé, eu vou jogar tão bem que o pessoal nem vai sentir sua falta."
Martha Rocha era o apelido de Mauro, o nosso elegante capitão.
Paulo Machado de Carvalho, um homem de ferro.
Garrincha adorava imitar o jeito de andar do Carlitos.
Feola, o maior técnico que o Brasil já teve.
Olhando as pernas de Garrincha a gente entende que Deus escreve certos por linhas tortas.
Garrincha entortava até as câmeras dos fotógrafos.
Pelé deixou de ser menino na Suécia. E em vários sentidos.
Os onze apóstolos do futebol fazem pose para a foto antes do jogo contra a França.
Vavá, o homem do gol-replay.

Fiz um casaco amarelão para combinar com a "amarelinha".
Puskas marcou 1176 ou 766 gols, dependendo de quem conta.
Puskas e cia.
Kocsis, o Cabeça de Ouro, foi o artilheiro daquela Copa.
Naquele dia, até o Lorde perdeu as estribeiras.
Fritz Walter e cia.
O palco da final.
A maquete do maior do mundo.
Apostamos cinco dessas.
Tchaikovski, o grande jogador da seleção iugoslava.
As camisas brancas. Ainda bem que foram aposentadas.
Estou ali, no canto direito da arquibancada. Sou o de chapéu palheta.
Obdulio, el negro jefe.
Schiaffino jogava o fino.
O gol mais triste da nossa história.
Domingos da Guia: Do Bangu para o mundo.
Com Leônidas em campo, não perdemos nenhum jogo naquela Copa.
Aqui Piola segura a bola do gol número 300. Mas ele ainda faria mais 105.


Esse era o Filó.
A camisa de 34.
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O exército italiano entra em campo para bombardear os Estados Unidos.
Orsi, o italiano da Argentina.
Com Fried, a história teria sido outra. Ah, os dirigentes...
Eis o uniforme da Copa de trinta. Não era muito colorido, mas estava sempre bem passado.
Tirei esta foto da delegação dentro do navio.
A seleção estava na maior estica.
Tinha quase cem mil no Centenário.
Manco Castro deu o golpe fatal.