Blog do Torero

12/09/2010

Sempre aos domingos

 
 

Sempre aos domingos

 

 

grande cara, amigo de todos, síndico, presidente do time, na quermesse canta o bingo. de manhã lê o salmo, depois deixa a mulher na feira e vai pro botequim. conversa vai, conversa vem, sempre acaba meio bêbado, conta o passado glorioso. um dia fui num navio. na corrida, peguei com a esquerda, no ângulo. na época nenhuma escapava. meti a mão nos quatro sozinho. ganhei dinheiro, perdi, a casa eu deixei pros meus pais, meus filhos nunca mais vi. nessa hora sempre pára, morde o ovo colorido, joga o sal, com o indicador e o polegar pede outra dose. meus filhos nunca mais vi. a talagada. bate na barriga. ajeita a camiseta. o chinelo. na parede o retrato da seleção de 58. também, não sei pra quem aqueles desgraçados puxaram.

 

Texto: Luiz Guilherme Piva

Ilustração: André Bernardino  

Por Torero às 01h13

09/09/2010

O suicídio do Moto Club

 
 

O suicídio do Moto Club

Por Marcio R. Castro

 


O Moto Club, ao lado do Sampaio Corrêa, é (ou era...) o maior clube de futebol do Maranhão. Um dos mais importantes times do Nordeste, dono de 24 títulos estaduais e de uma torcida apaixonada.

Infelizmente, o Moto fechou seu departamento de futebol profissional no último dia 27 de agosto. A alegação da diretoria, obviamente, é a falta de recursos financeiros.

Tive conhecimento dessa triste notícia pelo blog do jornalista Flávio Gomes, que indicou o texto "Morre o Moto", de Luiz Antônio Simas (blog "Histórias Brasileiras").

Peço a todos que leiam o belíssimo texto do professor Simas. Nele, o autor se indigna com "mais esse capítulo da transformação do futebol brasileiro em um ramo do big business, da consolidação dos clubes como valhacoutos de escroques travestidos em empresários e da proliferação de jogadores-celebridades desvinculados da história e das tradições dos times".

Tem muito mais, vejam lá, mas em resumo morre o Moto porque morrem, cada vez mais, as boas tradições, em nome do que se diz novo e moderno. Mais do que isso: morre o que deveria ser eterno pelo apreço ao fugaz, pelo consumo despropositado, pela força destruidora dele, sempre ele, o Mercado.

Tudo isso é realmente verdade, julgo eu, mas certamente não é toda a verdade. A verdade, se é que ela existe, é sempre mais cinza.

Luiz Antônio Simas escreveu um texto com alma, lírico, cheio de sentimento e, como já disse, verdade. Porém, seguem algumas considerações, intencionalmente frias e sem brilho, que misturam o preto e o branco em busca de algo mais cinza. E, ainda que menos poético, também real.

Afinal, por que morre o Moto e não o Sampaio Corrêa? São ambos os mais fortes clubes do Maranhão, com torcidas, tradições, conquistas e histórias equivalentes, não são? Por que morre um e o outro não?

Aliás, por que morre o Moto e não o Bacabal? Nesse caso, então, a comparação é quase indevida. Mas é justamente o time da capital, o mais poderoso e rico que está fechando, não o modesto. Por quê?

Crise financeira, pelo que pude me informar, atinge a todos no futebol maranhense, dos grandes aos pequenos. Mas como não são todos os que fecham as portas, fica claro que a crise do Moto também é política, administrativa, técnica, de planejamento e, até, de criatividade. Pasmem, o resultado foi o rebaixamento do Moto Club à série B do estadual.

Apesar disso, não podemos ignorar que a confusão é generalizada e institucional no futebol maranhense. Escândalos, manipulação de resultados, falta de dinheiro. O atual campeão, o JV Lideral, pediu desligamento da Federação (parece que voltou atrás, se embananou...) e outros três clubes estariam pensando em também desistir do futebol profissional.

A grita é geral contra a Federação Maranhense de Futebol, acusada de promover competições mal-organizadas e deficitárias, além de não apoiar devidamente seus associados. Vale lembrar que são os próprios clubes que elegem seus representantes na Federação e que, sem dúvida, o Moto Club tem enorme influência política.

Mas por que o Moto, como um dos mais importantes clubes maranhenses e líder natural de todos os outros, não começou uma revolução no futebol do estado? Por que não juntou forças com os demais times e propôs a criação da Liga Maranhense, por exemplo? Por que não se articulou em grupo com seu pares para organizar o próprio campeonato, o próprio calendário, o próprio destino?

Poderia ter iniciado esse processo sem litígio nenhum, chamando a Federação e todos os interessados para a mesa. Elaborando, em conjunto com os demais, planos de melhorias esportivas, programas de adequação e conservação dos gramados e da iluminação dos estádios, estudos sobre a utilização dos recursos das leis de incentivo ao esporte, mais e mais maneiras de atrair o torcedor e muitas outras iniciativas. Um projeto ambicioso, mas com o pé no chão, gradativo, sem fórmulas mágicas.

A partir disso, com a criação de uma liga de fato e tudo o que isso implica, seria saudável parar de vilanizar o tal do Mercado e, melhor ainda, atraí-lo para o benefício de todos. Negociar contratos em grupo, criar novas oportunidades comerciais, estabelecer outras vertentes de patrocínio, trabalhar o licenciamento de marcas e produtos são só algumas das possibilidades que proporcionariam melhores condições econômicas às agremiações.

Fazer isso, com critérios e princípios, respeitando os torcedores, não é se render a quem quer que seja. É, pelo contrário, uma maneira de perpetuar a história de um clube. Numa outra realidade, mas que serve de exemplo à nossa, não me parece que Barcelona, Liverpool ou Milan estejam perdendo suas tradições por fazerem isso. Estão, na verdade, as ampliando.

Nada disso aconteceu. Não houve competência, nem iniciativa, muito menos visão e atitude de vanguarda. É por isso que as tradições do Moto Club não foram honradas. O Moto não morre "em nome da gestão empresarial, da modernização dos estádios, do estatuto do torcedor". Essas e outras coisas, ainda que sejam sinais de tempos menos românticos e encantados, o fariam viver melhor, preservariam "a aldeia, a terra, a comida da terra, a várzea, a esquina e o canto de cada canto".

O Moto Club não morreu, professor. Ele se matou.

 

Marcio R. Castro é palmeirense.

Por Torero às 08h50

04/09/2010

Confissão em homenagem ao Centenário do Corinthians

 
 

Confissão em homenagem ao Centenário do Corinthians

Texto de Nathan Malafaia

Recordo-me que, antes mesmo de entender o que era futebol, eu já torcia para o Corinthians: herança passada de pai para filho - como tantos por aí. Mesmo jogando bola nas ruas de terra do bairro do Golfinho, em Caraguatatuba, o menino que eu era no início dos anos noventa ainda não possuía o fascínio pelo futebol que o adulto de hoje tem. Sabia que era gostoso ir para a rua jogar com o meu irmão Artur, com vários amigos do bairro, e com o tio Edi, que tanto me paparicava - e que, em meio aos moleques, se sobressaía, não só por seus quase 20 anos, mas também por sua habilidade.

Meu tio Edi era o caçula de cinco filhos, irmão de minha mãe. Embora fosse santista, meu querido e finado avô Francisco não conseguiu fazer com que qualquer de seus filhos o seguisse na paixão clubística (diferentemente do que aconteceu com meu pai, Eduardo): a tia Rosa, mais velha, virou corinthiana; minha mãe, Rose Mary, palmeirense (mas depois decidiu dar um passo a frente e virou ponte-pretana); o tio Gil, corinthiano, como a tia Ana. E o tio Edi deveria seguir pelo mesmo caminho - mas algo o desviou. Insondável como é a escolha de um time, ele preferiu dedicar sua torcida ao São Paulo.

Meu avô foi, durante muitos anos, feirante, e meu tio Edi trabalhava com ele. Trabalhavam com roupas, entre elas, também estavam os uniformes dos clubes. Lembro-me certa vez que o meu tio Edi foi presentear a mim e ao Artur com uniformes; entretanto, escondeu-os atrás do corpo. Perguntou se queríamos, independente de ver, ao que respondemos: “queremos, se for do Corinthians!”. Meu tio não deixava nem mesmo meu pai ver os uniformes - que eram, afinal, do Corinthians mesmo. Como dito acima, meu tio Edi me paparicava bastante (à época, eu era o mais novo dos seus sobrinhos homens), vivia me elogiando, quando jogávamos bola (logo eu, que nunca fui grande coisa com a bola nos pés). Uma época, eu estava com certa habilidade no gol, e cheguei a ganhar um par de luvas dele. Sempre engraçado e brincalhão, eu tinha (e tenho hoje, embora já não igual ao de uma criança) um grande amor pelo por ele.

E certa noite ele tentou se aproveitar disto: disse, a mim e a meu irmão mais velho, que, se trocássemos o Corinthians pelo São Paulo, nos daria um uniforme completo do tricolor. Meu irmão não topou (nunca perguntei a ele nada sobre isto); eu, depois de muita insistência, aceitei. Afinal, seria muito legal torcer para o mesmo time que o tio Edi, que eu tanto adorava.

Na hora de dormir, deitei-me e fiquei na cama acordado; o tempo passava e percebi que algo me incomodava. Além de teimar em não pegar no sono, minha mente não conseguia esquecer a promessa feita ao tio, e o seu significado: torcer pelo São Paulo significaria...  Não torcer pelo Corinthians. Ainda que eu, do alto de meus seis anos de idade, não acompanhasse o futebol de perto, já tinha no peito um grande amor pelo meu time. A única saída que eu tive diante daquela situação foi chorar, pois eu percebi que não queria ser são-paulino - o que eu queria era apenas agradar meu tio. Mas não havia espaço para o São Paulo no meu coração.

Pois ele já era corintiano, como sempre será. E só me restou pedir desculpas ao meu tio pela promessa que não poderia cumprir.

 


Nathan Malafaia, obviamente, ainda é corintiano.

Por Torero às 09h10

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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