Blog do Torero

29/08/2010

O tabu entre Corinthians e São Paulo

 
 

O tabu entre Corinthians e São Paulo

Texto de Nathan Malafaia

Há poucas coisas capazes de mexer tanto com o torcedor de futebol do que o Tabu. Quando você olha na tabela e percebe que o próximo adversário é aquele do qual seu time não ganha há um bom tempo, já começa a sentir um certo mal-estar; se for rival, então, o sentimento beira o insuportável. Carrega-se uma leve esperança, que pode aumentar (bem pouco) caso o seu time consiga um gol, mas que, invariavelmente, rui diante de mais um resultado desfavorável. Tabu pesa, mexe, é confiança para seu portador e frio na espinha para quem sofre por ele.

Ultimamente, ouve-se muito que o clássico “Majestoso”, disputado entre Corinthians e São Paulo, seria o de maior rivalidade do Estado. Acredito que uma das maiores razões para isso (senão a maior) é o Tabu. Acredito que, se procurarmos no futebol mundial, não encontraremos clássico disputado entre rivais que se enfrentam regularmente que detenha o maior tempo nesta situação: em última análise, desde o longínquo dia 22 de Março de 2003, quando o Corinthians tornou-se Campeão Paulista ao derrotar o São Paulo, o “Majestoso” vive sob tabu.

Tabu é um tempero saborosíssimo: quem o detém quer manter, quem é sua vítima quer exterminar. Após a final de 2003, foram mais de quatro anos, nos quais foram disputados 13 jogos entre São Paulo e Corinthians, sem que este último conseguisse um resultado positivo. Corintiano que sou, acompanhei grande parte destes jogos, sendo que, depois de um tempo, o jogo pesa e fica amargo a cada vez que você percebe que não será desta vez que o tabu será quebrado. Recordo-me de pênaltis perdidos que mudariam jogos, grandes atuações dos tricolores, expulsões tolas, viradas inesperadas, técnicos demitidos. A impressão, a cada novo jogo, é que o tal do tabu não teria fim.

E o que intriga é que o último jogo do Tabu são-paulino é, também, o primeiro do Tabu corintiano. Num jogo feio, em que o 0x0 perdurou até os 37 minutos do 2° Tempo, Dagoberto fez o gol que mantinha a escrita a favor do São Paulo. E foi nos acréscimos deste jogo que o Tabu corintiano começou.

Há três personagens principais do Tabu que o Corinthians mantém sobre o São Paulo, e que aumentou para dez jogos neste domingo, com um retumbante 3 a 0:

A primeira delas é Zelão. Jogador que muitos corintianos gostariam de esquecer, foi dele o gol que, nos acréscimos, impediu nova derrota do Corinthians.

A segunda é Betão. Em mais um confronto que parecia fadado ao placar em branco, aconteceu o que os corintianos esperavam: aos 40 minutos da segunda etapa, Gustavo Nery (!) cobrou falta da intermediária, Fábio Ferreira (!!) escorou e Betão (!!!) cabeceou para o gol. Nada mudou para o São Paulo, que chegaria ao bicampeonato brasileiro; nada mudou para o Corinthians, que acabaria rebaixado à segunda divisão. Mas para as torcidas, o Tabu havia terminado.

Mera ilusão. Dois empates, pelas fases iniciais do Campeonato Paulista, em 2008 e 2009, mantinham uma curta invencibilidade do Corinthians. Nas semi-finais do Paulistão 2009, as duas equipes se encontraram. No primeiro jogo, persistia novo empate por 1x1, e continuava a dúvida, pois Tabu está intimamente relacionado com derrota, e o São Paulo perdera apenas uma vez.

Mas aí veio Cristian, a terceira personagem da série: nos acréscimos, roubou a bola na intermediária, avançou e chutou, certeiro, no canto de Rogério Ceni. Golaço!

Aí sim corintianos e são-paulinos tiveram certeza de que o Tabu continuava. E continua ainda. E a minha torcida, como corintiano, é para que demore a acabar, a menos, é claro, que mude de lado novamente.

Por Torero às 09h29

26/08/2010

Só de coisa importante

 
 

Só de coisa importante

Por  Marcio R. Castro

Seu Vittorino Gennaro completa hoje 96 invernos. Se bem que, mesmo em agosto, ainda inverno portanto, seria mais justo falarmos em
primaveras.

Primeiro porque inverno passa a impressão de fim da linha, o que definitivamente não é o caso do vecchio signore. Ele é daqueles que nos
causam admiração aos 30, inveja aos 50 e uma certa raiva depois dos 60.

Depois, porque primavera é a estação em que o verde fica mais verde. Argumento que basta, nada é mais verde que o coração do Seu Vittorino.
Palestrino de nascimento, parmerista desde sempre e palmeirense até a morte, se ela um dia vier.

De uns tempos para cá, vez ou outra a memória do patriarca resolvia falhar. Nada de muito grave, não se alarme. Esquecer onde estavam as
chaves era o que acontecia de mais preocupante. Vittorino dizia que sua memória estava ótima, ele só não tinha mais paciência para lembrar de
qualquer banalidade, só de coisa importante.

Mesmo assim, nonno Vitto percebeu que essas pequenas mancadas de sua memória haviam deixado seus familiares preocupados. No último
domingo, ao chegar à cozinha, se deparou com seus dois bisnetos adolescentes, que conversavam sobre futebol em meio a mordidas em
sanduíches de mortadela. Meio sem quê nem porquê, Dom Vittorino disparou:

- Fred, Júlio, nostro Palmeiras joga hoje pelo Rio-São Paulo?

Os dois se olharam ressabiados. Será que nonno Vitto começava a esquecer até as coisas do Palestra? Logo ele???

- Não, nonno, o Rio-São Paulo não é mais jogado. O Verdão é o maior vencedor do torneio, com cinco taças. E nossos títulos são todos inteiros,
nenhuma conquista dividida, nem inacabada, lembra?

- Ah, é vero, ando meio esquecido, jogamos agora no Brasileirone... A propósito, e campeone brasileiro, nós já fomos?

- Como assim, nonno?! O Palmeiras é o maior de todos, temos oito títulos. São duas Taças Brasil, dois Roberto Gomes Pedrosa e quatro
Brasileirões. Sem contar que também somos o clube com mais taças nacionais. Com a Copa do Brasil e a Copa dos Campeões, somamos dez
conquistas! Só a gente ganhou tanto. O senhor esqueceu?

- Dio santo, é vero! Agora me recordo, o Verdone também é o único clube a vencer todas as competiciones nacionais já disputadas, não é?

Com a piscada do nonno, a farsa acabava. Os garotos ficaram aliviados, sorriram com a pegadinha do bisavô, mas resolveram continuar a gincana
alviverde.

O primeiro título mundial do futebol brasileiro? Palmeiras, sete anos antes da Seleção. Na final da Copa Rio, mais de 100 mil pessoas no
Maracanã. Pobre Juventus de Turim...

Falamos de Seleção? Qual o único clube que representou o Brasil por inteiro, do goleiro ao ponta-esquerda, do técnico ao último reserva?
Palmeiras, 1965, inauguração do Mineirão. Os uruguaios tomaram de três.

Momentos críticos também vieram à baila, sem ressalvas. A fila de 16 anos? Acabou em grande estilo, 4 a 0 no arquirrival. E quando eles estavam
nos 20 anos de fila, nós os deixamos na espera por mais três.

O rebaixamento? Até quando cai, um gigante fica de pé. Fomos e voltamos campeões, sem tapetão, sem regulamentos estranhos, sem
pataquada. Com o Palmeiras, o futebol brasileiro finalmente se moralizou, pelo menos nessa questão: nunca mais houve viradas de mesa.

E a inusitada conversa foi se estendendo. As Academias, o jogo de estreia do Pacaembu, a Libertadores, o supercampeonato de 59, a arrancada
heróica de 42, a Copa Mercosul, o Palestra de São Paulo, a surra de seis em cima do Boca, os 24 títulos estaduais (sim, tem os dois Campeonatos
Paulistas Extras), a sova de oito pra cima do Corinthians (coitados!), os três troféus Ramon de Carranza (dois deles vencidos em cima de um tal
de Real Madrid), o "morreu líder, nasceu campeão", a Arena Palestra, a campanha dos mais de cem gols em 96, o tri da década de 30, o "dá-lhe
porco!", o campeão do século XX... Se tantas glórias e tradições mal cabem nesse planeta, imagine naquela cozinha!

Hoje, ao receber os parabéns, Vittorino tentou disfarçar a surpresa, mas não conseguiu.

- Tinha se esquecido do próprio aniversário, nonno?!!

- Hoje joga o Palestra, cazzo! Só me lembro de coisa importante!

 

Marcio R. Castro é, obviamente, palmeirense.

Por Torero às 07h56

14/08/2010

Técnicos de futebol e economistas

 
     

Keynes ou Cruyff?

 

Luiz Guilherme Piva*

Técnicos de futebol podem ser comparados a economistas. Os dois profissionais lidam com realidades de difícil controle (sociedade, jogadores) e, tendo em mente concepções e planos de ação, buscam seus objetivos pondo para atuar os recursos de que dispõem. Na maioria das vezes dá errado, e eles sempre atribuem a culpa ao imprevisto e aos recursos disponíveis - nunca às concepções e aos planos de ação.

Às vezes chegam a crer que o problema é com a realidade, inadaptada à sofisticação e ao acerto do modelo adotado. E mais: diante de fracassos seguidos, eles acreditam que o problema é a impaciência do público, que não vê que no longo prazo tudo dará certo – embora um dos mais famosos economistas (Keynes) afirmasse que no longo prazo estaremos todos mortos.

Na prancheta do técnico ou na planilha do economista, coloca-se um boi na entrada de um modelo e saem bifes do outro lado. Os pressupostos do modelo são escolhidos casuisticamente por eles mesmos, com a ponderação e os riscos que arbitram para produzir exatamente o que pretendem. Tudo perfeito. Aí vem a realidade, com fatores e pesos não considerados, e atrapalha: oligopólios, retrancas, dribles, greves, banqueiros, juízes, morrinhos, tecnologias, trivelas, burocracias, geadas, traves, etc. Seria o caso de, como os russos, perguntar para o técnico: combinou com o Garrincha?

Não, é claro. Mas técnicos e economistas seguem acreditando com tanta fé no modelo que, frente ao fracasso, voltam à prancheta e à planilha, colocam na saída do seu modelo os bifes e vêem sair um boi inteiro, perfeito, lá na entrada. Eles então se convencem ainda mais do seu acerto. E tentam de novo, de novo, de novo. Morre gente no caminho. Times se acabam. Torcedores se enfurecem. O país se afunda. Mas, caramba, é preciso ter paciência!

Avançando na comparação, há um antigo paradoxo que acabei de inventar. É que economistas são considerados ortodoxos quando pretendem que o governo não intervenha em nada: se ele não agir e só der as regras gerais, tudo dará certo, apregoam. Produtores, distribuidores, consumidores, trabalhadores, desempregados e miseráveis encontrarão seu lugar e sua função da melhor forma, com a maximização de suas individualidades no livre jogo das forças de mercado, em prol do benefício de todos. Os técnicos classificados de ortodoxos, porém, são os que controlam todos os movimentos do time, coibindo o individualismo e o improviso, que resultariam, crêem, no caos e na derrocada. Por isso, desenham, cronometram, ensaiam, gritam, premiam e punem quem não seguir estritamente suas determinações táticas. 

Já os heterodoxos, na economia, são os que querem planejamento, intervenção e gasto público para evitar o caos e a miséria. E, no futebol, ao contrário, heterodoxos são aqueles técnicos que não se apegam a modelos rígidos e propõem o jogo livre com base na individualidade e na criatividade dos jogadores, guiados apenas por suas diretrizes gerais – que eles preferem chamar de estratégia, em lugar de tática.

Ou seja, Cruyff, treinador heterodoxo, seria, transplantando-se seu ideário, um economista ortodoxo. Milton Friedman, economista ortodoxo, seria um técnico heterodoxo. Parreira e Keynes seriam os opostos daqueles, respectivamente.

Mas as coisas não são simples assim. Há aqui um outro paradoxo clássico, que montei agora só para fechar o texto. É que, se dividirmos em grupos de afinidade as pessoas que gostam simultaneamente de economia e de futebol, certamente haverá um grupo que gosta de Friedman e Parreira (ambos ortodoxos, mas com acepções opostas de ortodoxia) e outro grupo que gosta de Cruyff e Keynes (ambos heterodoxos, mas com acepções opostas de heterodoxias).

Façam o teste com vocês mesmos e com as pessoas que vocês conhecem. Estou convencido de que vão encontrar o resultado que modelei aí em cima. Se não encontrarem nas primeiras vezes, não desistam. Sigam testando. É preciso ter paciência, caramba!


*Luiz Guilherme Piva publicou “Ladrilhadores e Semeadores” (Editora 34) e “A Miséria da Economia e da Política” (Manole).

Por Torero às 07h22

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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