Blog do Torero

28/04/2010

Outra Copa do Brasil

 
 

Outra Copa do Brasil

(Como hoje teremos uma bela rodada da Copa do Brasil, aproveito para colocar uma proposta de campeonato, enviado por Eduardo Batista)

Por Eduardo Batista de Souza

Como todos sabem, a Copa do Brasil foi um torneio criado pelo Eurico Miranda, a CBF e o SBT para continuar o apadrinhamento dos pequenos clubes espalhados pelo interior do Brasil em 1989. Ou puramente um torneio caça-níquel como muitos disseram na época. O único ponto relevante em disputá-la era o fato da copa dar ao campeão o direito de disputar a CopaLibertadores da América, e justamente no período em que os times brasileiros voltariam a dar valor no campeonato continental.

A idéia era dar a chance de equipes do que fizeram boas campanhas pelos estaduais (ou convidadas pelos dirigentes) pudessem jogar contra os grandes clubes do Brasil, ou até mesmo disputar uma taça internacional oficial. A idéia foi brilhante, pena que foi utilizada apenas para manter os afilhados quietos e felizes pelo país afora, enquanto o que realmente interessava, que era o campeonato brasileiro, pegava fogo.

Depois de muitas fórmulas e vários conceitos, a Copa do Brasil tornou-se o que é hoje: o segundo torneio mais importante do país, e o caminho mais curto para quem quer disputar uma Libertadores da América. Graças à Copa do Brasil, passamos a tomar conhecimento de times como ASA, Ivinhema, Mallutron, Naviraiense, Paulista, XV de Campo Bom, entre tantos outros. Graças a Copa do Brasil, times como Criciúma, Juventude, Santo André e novamente o Paulista puderam disputar uma Libertadores. Ou seja, para um torneio que foi criado para ser apenas um caça-níquel, o resultado foi muito bom. Ótimo, para falar a verdade.

Hoje, times tradicionais do nosso futebol disputam a Copa com vontade vencer. Porém nem tudo é perfeito, e se a Copa do Brasil é boa, poderia ser muito melhor.

O maior defeito do atual modelo é o fato de que o seu campeão não poder defender o seu título no ano seguinte, coisa que não ocorre em nenhum outro torneio do mundo. Tudo porque as equipes que estão disputando a Libertadores não podem disputar a Copa do Brasil. Uma maneira (já utilizada em algumas edições) de acertar isso é fazendo com que os times brasileiros da Libertadores entrassem na disputa da Copa do Brasil só em fases mais avançadas, como nas oitavas ou quartas de final.

O período em que a Copa do Brasil é disputado, no primeiro semestre, é muito curto. A Copa poderia muito bem se estender pelo ano todo, sem atrapalhar a disputa da Libertadores ou dos estaduais.

Outro ponto problemático da Copa do Brasil é a quantidade de participantes, que hoje está em 64 times. Mas considerando as dimensões continentais do Brasil, e da existência de clubes profissionais de futebol até no meio da floresta amazônica, esse número poderia ser bem maior.

Com base nesses problemas e com idéias coletadas aqui e ali, cheguei a fórmula de como seria uma Copa do Brasil perfeita, pelo menos na minha humilde opinião:

· Participantes: 144 times
· Período: de Fevereiro a Novembro
· Datas: 16 datas no decorrer de 10 meses (1,6 datas por mês)
· Fases: 8 sendo 4 fases preliminares e 4 fases finais (oitavas, quartas, semi e final); nas 4 primeiras fases os times que vencerem o jogo
de ida na casa do adversário com diferença de 2 ou mais gols eliminam o jogo de volta.
· Campeão fará no máximo 16 jogos e no mínimo 9 jogos, menos que o mínimo de hoje, onde o campeão joga pelo menos 10 vezes

Os 144 participantes serão escolhidos da seguinte forma:

· 16 melhores times da série A do campeonato brasileiro do ano anterior (esses entrando na disputa a partir da 4º fase);
· 4 times rebaixados para a série B no ano anterior;
· 20 times da série B no ano anterior;
· 20 times da serie C no ano anterior;
· 81 times por indicação técnica das 27 federações estaduais, sendo 3 em cada estado;
· 3 times “convidados” pela CBF, sendo 1 o campeão da Copa do Brasil do ano anterior, desde que o mesmo esteja fora das distribuições anteriores
(hipotética situação em que o campeão da Copa do Brasil do ano anterior não esteja disputando nenhuma das 3 primeiras divisões do campeonato brasileiro e nem tenha indicação técnica de alguma das 27 federações).

A primeira fase teria 128 times divididos em 64 chaves. Essas chaves seriam agrupadas, preferencialmente, de maneira regional, evitando assim
que haja grandes deslocamentos. Os 64 vencedores, em jogos de ida e volta, passariam para a segunda fase. As duas datas para essa fase se daria no mês de fevereiro.

A segunda fase teria 64 times divididos em 32 chaves. Havendo possibilidade, essas chaves também seriam agrupadas regionalmente. Os 32 vencedores passariam à terceira fase. A duas datas da segunda fase seriam disputadas em março.

A terceira fase teria 32 times divididos em 16 chaves. Os 16 vencedores passariam para a quarta fase. As duas datas seriam em abril.

A quarta fase teria os 16 times vencedores da terceira fase jogando contra os 16 melhores times do campeonato brasileiro do ano anterior, em
16 chaves. Os vencedores passariam para as oitavas-de-final. Os jogos dessa fase ocorreriam durante os meses de maio e junho, conforme houvesse espaço nas datas dos times que disputam a Copa Libertadores.

As oitavas-de-final ocorreriam durante o mês de agosto, após o término da Libertadores.

As quartas-de-final ocorreriam em setembro.

As semifinais ocorreriam em outubro e a grande final da Copa do Brasil ocorreria em novembro.

Para não atrapalhar o calendário do segundo semestre, onde é disputada a Copa Sul-americana, os jogos poderiam ocorrer nas datas FIFA, onde os campeonatos param para os jogos da Seleção brasileira.

Isso não seria problema, pois conforme históricos recentes, a Seleção não costuma convocar jogadores que atuam no futebol brasileiro.

Essa é a minha idéia. Espero que as pessoas leiam e discutam onde pode ser melhorada. Ou se a consideram perda de tempo, deixemos a Copa do Brasil do jeito que está, que assim já está muito bom.

 

Por Torero às 08h38

25/04/2010

Sempre aos domingos: A última

 
 

Sempre aos domingos: A última

Caro Torero,

Há cerca de 3 anos, havia abandonado a 'trouxida'. Mas, vendo esse time do Santos jogar, resolvi tentar mais uma vez ir ao estádio de futebol, a despeito dos recentes relatos de outros 'trouxedores' em seu blog. Assim, comprei 2 entradas para a numera coberta do Pacaembu, ao custo de R$ 360,00. Hoje, minha esposa e eu saímos de casa, próxima da Henrique Shaumann com a Rebouças, por volta das 14h30.

Resolvemos deixar o carro em casa, vacinados que estamos em relação às mazelas enfrentadas para se estacionar nos arredores de um estádio de futebol. Contudo, não esperávamos tanta dificuldade em conseguir que um táxi parasse para nós... Talvez porque trajássemos camisas do Santos. Lamentável a postura dos taxistas que, em outros eventos de grande porte, também se dão ao luxo de escolher corridas.

Após caminharmos até o estádio, nossa segunda surpresa: a incapacidade da Polícia Militar de oferecer segurança aos cidadãos que pagam impostos nos obrigou a dar toda a volta no estádio para que pudéssemos ingressar no setor das numeradas cobertas, sob a espúria justificativa de que a torcida do Santo André entraria justamente pela rua que seria o acesso mais curto (e mais lógico) para se tomar em direção ao referido setor.

Explico-me: descemos pela rua do cemitério do Araçá e, em vez de tomarmos a esquerda em direção às numeradas cobertas, tivemos que ir até a praça Charles Miller, para depois subirmos em direção ao setor. Obviamente que nenhum comunicado prévio foi feito através da imprensa, o que nos impediu de planejar uma chegada menos penosa. Aos poucos, nossa paciência ia sendo minada.

Ao entrarmos na numerada coberta, por volta das 15h00, novas surpresas. A lanchonete ainda não havia recebido lanches (sic). Quem sabe na final de 2011 eles cheguem! Em seguida, descobrimos que, embora o setor se chame 'numerada', a marcação dos as sentos não estava sendo respeitada. Segundo agentes da Federação Paulista de Futebol (FPF), os assentos eram 'aleatórios'. Bem, após acharmos dois lugares livres, dirigimo-nos aos mesmos e sentamo-nos. Rapidamente, um dos brutamontes com braçadeira da FPF nos avisou que não poderíamos nos sentar ali, pois aquele pedaço na numerada coberta estava 'reservado' para o patrocinador do Santos. Na numerada coberta.

Ou seja, os assentos que deveriam ser numerados eram aleatórios, mas não para todos. Dentro do mesmo setor, havia privilégios para uns, descaso para outros. Realmente, é para se rasgar a enésima Constituição deste país. A falta de assentos disponíveis logo me fez lembrar o dia em que minha mulher e eu fomos assistir a um jogo da WNBA no Madison Square Garden. Quando perguntei ao bilheteiro quanto tempo antes do início da partida deveríamos chegar para podermos nos sentar, ele me olhou com cara de 'onde você estacionou seu disco-voador?' e me respondeu: 'cinco minutos'. Sim, porque lá, todos os assentos são marcados e o país, até hoje, teve apenas uma Constituição.

Bem, após acharmos dois assentos livres, próximos da separação com a numera descoberta, com os focinhos encostados no acrílico mal-instalado da divisão dos dois setores, quase tivemos nossas pernas amputadas por outro agente da FPF, que ferozmente comandava um portão que dava acesso aos ambulantes de um setor para o outro.

Eram 15h35. Olhamo-nos e, sem pestanejar, decidimos sair do estádio. Após nova volta no estádio e alguma dificuldade para conseguirmos que um táxi parasse para nós, chegamos em casa, a tempo de assistir ao início do jogo. Curtimos a televisão de 42 polegadas, a pipoca e o banheiro limpo de nossa casa. Curtimos o respeito as leis, que eu e minha esposa prezamos. E ficamos felizes de ter deixado no estádio os R$ 360,00 de nossas entradas. Felizes, sim, porque foi a última vez que nos tungaram.

A última.

Flavio Eduardo Prisco
'O trouxedor-mor'

Por Torero às 19h31

24/04/2010

7 + 3 = 10. Dez Horas de Fila!

(Um santista conta a saga de um torcedor comum para comprar ingresso para a final do Paulista)
Por Felipe Goulart

Quarta-feira. Feriado. Não estou fazendo nada mesmo... vou lá no Pacaembu garantir meu ingresso pra final.

Cheguei 11h30 e a fila já estava quilométrica. Até aí tudo bem, afinal, espetáculos como esse parece só acontecer a cada 40, 50 anos!

O que tira a gente do sério não é o tamanho da fila, mas o descaso com quem está lá de pé, num sol de rachar. Um estádio do tamanho do Pacaembu, com tanta bilheteria espalhada no entorno, abrir só três ou quatro guichês, é brincadeira.

Um lugar onde fizeram o Museu do Futebol, belíssimo, com tecnologia de primeira, visando turistas de todo mundo, não está nem aí para o torcedor brasileiro, aquele que está lá toda semana, faça chuva ou faça sol.

Ao invés de facilitarem a vida de todo mundo (quem está trabalhando e quem está comprando), resolvem complicar, ao que parece, a troco de nada. Sim, porque inventaram que pra vender os ingressos, eu teria que portar CPF, RG, cadastrar meu nome completo no sistema, cadastrar a numeração do documento, uma demora inacreditável. Tudo isso supostamente para evitar os cambistas né? Claro que não adiantou absolutamente nada. Quando cheguei, de manhã, já tinha cara vendendo ingresso de arquibancada (de estudante) por R$ 120,00. Na cara dura. Na porta do estádio. Na frente da fila. Na manhã do primeiro dia em que os ingressos estavam sendo vendidos.

E eu, trouxa, que só queria um ingresso pra mim e pro meu irmão, tive que informar praticamente até meu tipo sanguíneo. E ainda assim não consegui comprar nem meia entrada, nem para o setor que eu queria, por “falta de documentação suficiente”. Afinal, durante as sete horas que fiquei na fila, 90% dos ingressos se esgotaram.

Não satisfeito, resolvi ir no dia seguinte ao Ginásio do Ibirapuera. Sim, realmente eu não tinha o que fazer! Fiquei mais 3 horas. A palhaçada se repetiu. Fila imensa, lentidão em cada um dos três guichês, cadastra toda tua vida no computador e... adivinha se não tinha cambista na porta? Claro que tinha. Um não, vários.

E para coroar essas 10 horas de fila, uma situação surreal. Na minha vez, uma senhora aposentada, sexagenária, foi furar a fila se valendo do seu direito de aposentada. Eu segui direto para o guichê e começou uma gritaria na fila. Achei que era comigo, mas não. Era com a velha! O pessoal que estava lá, já tinha ficado outras tantas horas na fila no dia anterior, e perceberam a tática dela. Muito da safada, ela usava do seu direito para ficar furando a fila o tempo todo e comprar um monte de ingresso. Ela já tinha feito isso no dia anterior e estava fazendo novamente, na quinta-feira. Quando a galera se revoltou chamando a atenção do fiscal, um garoto gritou na filha: - “Minha Senhora, aqui ninguém é otário não!”. E sabe o que ela fez? Partiu para bater no rapaz, dizendo que ele tinha lhe xingado. Claro que todo mundo da fila foi segurar a espertalhona e proteger o garoto.

Isso é o que acontece com quem é honesto e enfrenta horas de fila para garantir seu ingresso.

Que venha agora o primeiro de muitos títulos para essa geração Santástica!

 

Por Torero às 09h12

18/04/2010

Um domingo de velório

 
 

Um domingo de velório

texto de  Marcus Vinicius Batista

A menina de sete anos presenciava o ritual pela primeira vez. Havia feito um pedido para que o pai a levasse lá. Queria testemunhar de perto tudo o que vira pela TV. Entrou no velório com ansiedade. Estava fascinada. Tinha polícia, bastante gente. Depois, fiquei sabendo que eram 616 presentes. Até vendiam água e pipoca. Sabia que o pai não recusaria o pedido de pipoca. Se o passeio ficasse chato, pegava emprestado o bloquinho e a caneta do pai. Ela poderia desenhar caso estivesse cansada da cerimônia.  

O público estava desconfiado, ligeiramente tenso. O cheiro de esperança prevalecia, o que indicava a espera por um milagre. Quem sabe o caminho da ressurreição? Mas havia a dependência de outros endereços, de outras pessoas. Quando não é possível depender apenas de si, ainda que floresça o esforço único, aguarda-se pelo sobrenatural, apela-se para superstição, acendem-se velas de todas as cores.

A menina torce para o Santos, mas entendeu que tinha que emprestar a voz para a Portuguesa Santista. Berrou algumas vezes. Parou quando viu que não dava resultado. A Portuguesa Santista precisava vencer o Força, em casa, e rezar para derrotas de dois dos três concorrentes diretos: Itapirense, Batatais e Barueri. Nomes que jamais figuraram na história da Briosa, mas a tradição não era pré-requisito para o domingo passado. O fundo do poço não escolhe camisa. As manchas nascem para todos que insistem nos pecados.

O tempo nublado e a timidez dos torcedores eram sinais claros de um ar de velório, ao lado da Santa Casa de Santos. Não havia choro ou defunto à mostra. Somente lamentações diante de pior fase de uma vida. O rebaixamento para a quarta divisão do Campeonato Paulista soava nítido como os tambores e os gritos de uma parte pequena dos torcedores, sonhadores por dias melhores e pela aproximação de um passado de destaque. Qualquer curandeiro notaria a combinação dos sintomas. O sonho era a manifestação mais aguda de uma doença chamada utopia.

A partida elevava a dor e cultivava a humilhação. Cada chutão sem consciência testava o amor pela Briosa. A bola era a maior uma vítima do nervosismo, do medo, do gosto do fracasso e da qualidade mínima. A bola, coitada, parecia viajar mais tempo no ar do que permanecer grudada nos pés dos coadjuvantes. Protagonista não era um papel necessário. Quem assumiria a responsabilidade de alterar um destino desenhado há cinco anos e cumprido à risca até o momento?

Os goleiros, por exemplo, deveriam ser cobrados em R$ 10. O preço do ingresso, sem direito à meia-entrada. Mal sujaram o uniforme e assistiam passivos ao choque de pernas na intermediária do campo. Os atacantes da Portuguesa apanharam como se tivessem feito algo errado. Talvez punidos pela baixa produtividade ao longo do campeonato.

Nas arquibancadas, torcedores permaneciam sentados. Calados. Resignados. Ex-jogadores também estavam lá. Eles desmentiam os místicos e os historiadores. Nenhum deles poderia influenciar naquele ritual sofrido. Nem o capitão do time que subiu à Primeira Divisão, que permanecia discreto, quase no anonimato.

A Portuguesa Santista venceu por 1 a 0. Gol de pênalti. Talvez a maneira menos emocionante e óbvia de marcar. O otimista poderia dizer que o time cumpriu a obrigação. O pessimista também, com uma dose sutil de sarcasmo.

A Briosa morreu abraçada com o Força. Depois do jogo, uma combinação de suor, lama e alguma choradeira. Não me comovi. A bravura me pareceu reação de quem andava rumo à forca. Não senti alma que negasse a  falta de planejamento e de qualidade de uma equipe composta – quase na totalidade – por andarilhos. Jogadores que pulam de estádio em estádio e seguem a vida melancólica das partidas sem glamour. Não tiveram o que havia no nome do adversário.

Ao lado do estádio, um circo, chamado O Mundo de Fantasia de Beto Pinheiro, ironizava o enterro simbólico. O nome do circo é genérico mesmo, assim como o futebol daquela manhã de domingo. A diferença é que o circo pode aguçar a fantasia e aliviar os males da alma, nem que seja por instantes. No estádio Ulrico Mursa, a tristeza de uma história atirada ao lixo, como um palhaço que perde o picadeiro, o prazer de rir e a própria identidade.

A menina de sete anos ainda cultiva a ingenuidade do universo infantil. Adorou o jogo! À tarde, a mãe perguntou se a menina assistiria a Santos e São Paulo pela TV. A resposta foi direta:

- Não vejo mais jogo pela televisão. É chato.

O mundo da imaginação, estampado nos desenhos do bloquinho, aliviou o tédio e alimentou o amor pelo futebol. A menina ficará adulta e poderá escolher melhor as companhias e os lugares para se divertir. Fico feliz que ela sequer notou que estava em uma cerimônia fúnebre.  Não sou estraga-prazeres.

 

Por Torero às 08h16

17/04/2010

Avesso do Avesso

 
 

Avesso do Avesso

Torero inverteu os resultados das finais das Copas. Nacionalistas descarados, nós as subvertemos. O tempo parece nos ensinar quão salutares nos foram certas derrotas...

por Cláudio e Lino Porto

1930: Na primeira Copa, sabedor de seu favoritismo, o Brasil dá-se ao luxo de enviar uma seleção apenas de jogadores cariocas. Nada adiantou os paulistas torcerem contra. O primeiro título veio com um 4 x 2 sobre os donos da casa, os uruguaios.

1934: O fascismo caboclo de Getúlio dá uma lição no fascismo branco de olhos azuis de Mussolini. O Brasil é bi em cima da Itália.

1938: Fácil repetição da conquista anterior. Leônidas traz a primeira Jules Rimet em definitivo para o Brasil.

 Barbosa o herói de 50.

1950: A Segunda Guerra impede mais duas conquistas brazucas. Mas em casa o tetra foi fácil, apesar de o Uruguai ter dado algum trabalho na final, obrigando Barbosa a grandes defesas. 2 x 1, de virada.

1954: Depois de tirar a favorita Hungria na batalha de Berna, o Brasil de Julinho vence a Alemanha por 3 x 2 e se consagra pentacampeão mundial.

1958: O hexa viria fácil, mas a soberba levou a CBD a cometer erros primários, como escalar o Rei Édson, de apenas 17 anos, e o imprevisível Manoel, ponta-direita do Botafogo, famoso por seus dribles necessários. Na final, a Suécia nos impôs um sonoro 5 x 2. Foi a nossa primeira derrota em Copas do Mundo.

 Édson chora e tem que ser carregado para fora do campo depois da derrota de 58.

1962: A lição não foi aprendida. O Príncipe Édson machucou-se. Manoel até fez boas partidas, mas na final, a Tchecoslováquia nos dá outra dura lição: 3 x 1.

1966: Disposta a recuperar o prestígio abalado, a CBD organiza nossa melhor seleção de todas as copas, com 44 craques. Apesar de tropeços contra Hungria e Portugal, na final superamos os ingleses, donos da casa, que até hoje reclamam que em nosso terceiro gol a bola não teria entrado. 4 x 2. Duque Édson e Manoel, ambos na reserva, aplaudem a conquista da segunda Jules Rimet, que seria derretida anos depois.

 Aqui, Édson perde mais um gol na Copa de 70.

1970: Jamais uma seleção canarinho saiu tão confiante do país, mas na decisão o Brasil acaba levando uma surra da Itália, 4 x 1. Durante o certame, o Conde Édson, por puro preciosismo, perde gols incríveis, os quais ficariam marcados para sempre em sua irregular carreira.

1974: Depois de frear a boa seleção holandesa, o Brasil despacha os alemães de virada, 2 x 1. Zagallo solta pela primeira vez a frase “vocês vão ter que me engolir”. Um justo desabafo contra a imprensa paulista, que tentou forçar, sem sucesso, a convocação do Barão Édson, já em final de carreira no Santos.

1978: Os argentinos até hoje alegam que o Brasil teria “comprado” os peruanos para endurecerem o jogo contra eles. Um golzinho na goleada que sofreram da Argentina foi suficiente para colocar os brasileiros na final contra a Holanda, derrotada por 3 x 1. Chicão, melhor jogador do mundial, acabaria contratado pelo futebol italiano, onde se tornaria Rei de Roma. Menotti declara: “A Argentina foi campeã moral”.

 Campeões imorais?

1982: Depois de um sofrido empate contra a Itália, em que o treinador Telê Santana jogou com o regulamento na mão, colocando Batista somente para quebrar Paolo Rossi, o Brasil vence a Alemanha por 3 x 1 e tornou-se eneacampeão mundial. Serginho Chulapa é eleito o jogador da Copa e Valdir Peres ganha da FIFA o título de maior goleiro da história.

1986: Novamente a freguesa Alemanha é derrotada na final pelo Brasil. 3 x 2, gol decisivo de Josimar (eleito o maior lateral direito da história), após passe de Elzo (o maior jogador daquela copa).

1990: A Alemanha perde novamente, agora vítima de um pênalti duvidoso, convertido por Alemão (?), craque daquela copa ao lado de Dunga. Pela clareza de seu esquema tático, Lazaroni é eleito o maior treinador de todos os tempos.

1994: O Brasil caminhava para o seu 12º título, mas na disputa por pênaltis o mediano Romário perde o seu e a Itália fatura o bi.

 Romário chora mais uma vez ao lembrar do pênalti perdido em 94.

1998: Mesmo sonolento, Ronaldo faz 3 na final contra a França e garante mais um título para o Brasil, pouco comemorado por aqui, já que o grande carnaval daquele ano fora reservado para Rubens Barrichello, primeiro brasileiro campeão mundial de Fórmula Um. Rubão repetiria a façanha outras seis vezes.

2002: A Alemanha finalmente se vinga. Com duas falhas gritantes do goleiro Marcos, a família Scolari contenta-se com o vice. Anos depois, Marcos encerraria melancolicamente a sua carreira na reserva do São Bento de Sorocaba.

2006: Parreira dá-se ao luxo de pouco treinar a equipe e levar jogadores velhos e fora de forma. Mesmo pesado e dando uma barrigada em Materazzi, Ronaldo garante a 13º Copa do Mundo para o Brasil. Zágallo diz que “13 é tudo” e decide encerrar sua carreira de altos e baixos. Roberto Carlos destaca que o título só foi possível devido à humildade do grupo.

2010: Favorito absoluto, a CBF decide escalar um técnico sem experiência, o qual se dá ao luxo de não convocar vários craques, sabedor de que mais título virá naturalmente nos gramados africanos.

2014: A CBF confirma que o Brasil só usará seus titulares no jogo final. E caso se confirme mais uma conquista, promete atender ao pedido da UEFA para que equipes européias disputem a segunda divisão do campeonato brasileiro...

 

Por Torero às 09h20

07/04/2010

Santos, sempre Santos?

 
 

Santos, sempre Santos?

Texto de Ivan Massocato

Torero, estava lendo hoje as notícias e deparei-me com uma declaração do diretor de marketing (argh!) do Santos na Folha: "Precisamos aproveitar este momento e fazer o Santos crescer, mesmo após o fim dessa geração dos meninos da Vila". Que triste. Mesmo sacado do contexto, acho que está fácil compreender que vem por aí o tal "desmanche", que todos prevêem para depois da Copa do Mundo.

É óbvio que quando Neymar, André ou Ganso deixarem o Santos, será por uma montanha de dinheiro, que "estará fora da realidade brasileira" tentar mantê-los no elenco, etc, etc et coetera. Mesmo sabendo que esta montanha de dinheiro virá da lavanderia da máfia russa, de poços de petróleo "de família" sem fundo social de investimentos e sem eleições, ou das operações de salvamento do Real Madrid feitas pelo governo espanhol e outras canalhices do gênero, que lá como cá, como nos ensinou Oliver Seitz, o futebol é mais notícia do que negócio, e a parte que é negócio não é mais limpinha do que o Lelê nos dias em que chove no campinho.

Sei que você é um sujeito decente e que não fica se imiscuindo no dia-a-dia do Santos (não estou dizendo que o Santos seja indecente, você me entendeu, né?) , mas -puta que pariu!- alguém precisa dizer para os meninos de onde virá o dinheiro que vai pagá-los. Precisa dizer pro Neymar que os meninos que pedem histéricos autógrafos a ele hoje, não moram em Londres ou Milão, só falam Português e vão ficar órfãos quando ele se for. E que por uma estranha hipérbole, ele ficará órfão deles, que vai ficar velho e ter banzo aos 23 anos e sentirá falta do sol e dos rachas no final da tarde. De alguma forma ele precisa saber, antes de sentir, que vai ficar triste e vai sentir saudade dos dias alegres de hoje. Ele sabe que é feliz, mas não sabe o quão desgraçada é a tristeza, não importa quantas casas ele possa comprar para a Dona Nadine ou quantos andares de hotel possa alugar num final de semana.

O time do Santos é um bálsamo para o futebol brasileiro. Robinho à parte, apesar do talento (sim, acho que ele ganha demais, nenhnum time deveria pagar tanto para um jogador), o time do Santos mostra que é possível fazer futebol sem fazer transações estapafúrdias. E de quebra tem o treinador: lúcido, ele atribui ao time e não a si próprio os méritos do futebol que mostra; humilde de verdade, por força do caráter e não do marketing, não fica tentando articular frases com palavras que não sabe usar para tentar demonstrar um saber que não possui; sóbrio, não inventa esquisitices táticas para tentar trazer para si o bando de repórteres que deve ficar mesmo é com os jogadores. Não sei o quanto ganha. Não deve ser pouco, porque ninguém vai do Cruzeiro ao Santos, passando por Coritiba e Vasco com brilhante campanha, ganhando mal. Mas deve estar bem longe dos 450 mil por mês que meu pobre palestra pagava ao Muricy.

O Time do Santos não pode se acabar. Não pode ter "desmanche". O time do Santos é a vergonha de todos os cartolas e medalhões-chinelinhos do futebol brasileiro. É a redenção da torcida, do apaixonado. É a vingança dos torcedores desorganizados contra o conluio de cartolas e torcedores profissionais que tomou conta dos clubes e estádios do Brasil nas últimas décadas. E particularmente para mim, o time do Santos é minha pessoal e intransferível esperança. Que todos sejam obrigados a jogar igual.

 

Por Torero às 00h09

06/04/2010

desfalcado

 
 

desfalcado

Armandão se foi
ficamos todos
armandinhos

 

Por Al-Chaer

Por Torero às 20h34

03/04/2010

Sempre aos domingos: Depois daquele jogo

 
 

Sempre aos domingos: Depois daquele jogo


Texto de José Henrique Calazans de Souza

Não conseguiu dormir. Como repousar a cabeça no travesseiro quando o impensável, o inexplicável, o impossível se torna real? Como suportar que, no dia seguinte, todas as músicas de incentivo que ele cantou até ficar rouco fossem transformadas em canções de escárnio, reinventadas pela crueldade das torcidas adversárias? Não sabia como teve forças pra sair do estádio, muito menos como conseguiu voltar pra casa. Todo o seu ânimo havia desaparecido e ele se sentia sem rumo, como se estivesse perdido num sonho estranho e precisasse desesperadamente acordar. Uma tristeza enorme invadia seu coração e, junto com ela, a certeza de que a cidade ia amanhecer mais triste. Ou melhor: parte da cidade ia amanhecer mais triste. Se fosse uma derrota da seleção, haveria uma certa solidariedade na tristeza, um entendimento mútuo entre olhares cabisbaixos, uma dor compartilhada que faria todos se tornarem mais próximos e um desejo universal de afogar as mágoas. Mas não, era uma derrota do seu time, e a infelicidade que oprimia o peito de tantos outros como ele serviria de gozo para todos os adversários, o que doía muito mais. Sabia que no dia seguinte ia acordar sem vontade de levantar da cama, ia trabalhar de mal-humor e passar o caminho de ida e volta ao batente se perguntando como aquilo era possível, tentando descobrir um porquê, buscando em seus pensamentos algo que explicasse a derrota que seus olhos e seu coração se recusavam a aceitar. Como os jogadores podiam causar tanta decepção à uma torcida tão apaixonada? Tinha raiva, uma raiva alucinada, vontade de invadir o campo e sacudir um por um. Não honravam a camisa que vestiam! Enquanto gente como ele encarava as horas na fila pra comprar o ingresso, os preços absurdos, os banheiros sujos, a bagunça generalizada e o medo da violência pra apoiar o time até o fim, aqueles traidores seguiam só no bem-bom, como se o problema não fosse deles, enquanto a torcida sofria com a derrota. Deviam ser todos mandados embora: jogadores, técnico, auxiliares, dirigentes, e começar tudo do zero, com sangue novo, com raça e amor à camisa. Só assim pra apagar aquela vergonha da história do clube. Um clube com uma história tão linda, uma torcida tão linda... Mas sabia que, por mais raiva que tivesse, perder a cabeça só ia piorar a situação. Os jogadores que ele agora condenava não eram os mesmos que, há pouco tempo atrás, ele celebrava como heróis que regressavam de uma batalha? Não eram os mesmos que, há pouco tempo, tinham dado aos torcedores tantas alegrias? Não eram os mesmos cujo nome e posição ele sabia de cor e salteado, acompanhando cada notícia nos jornais, sentido quase como se eles fossem parte da sua família? Como explicar uma coisa dessas? Aquilo não podia ser verdade, era um pesadelo, uma alucinação! Aquela derrota jamais aconteceu e, quando acordasse no dia seguinte, veria que tudo não passava de um grande mal-entendido. Então, em sua imaginação, a canelada virou um belo drible, o frangaço uma defesa monumental, a bola que quicou em cima da linha arrastou-se matreira até a rede, o gol contra virou gol de placa, o choro transformou-se em festa. E ele foi dormir feliz, extasiado pela vitória, dando-se ao direito de um último momento de ilusão antes do massacre do dia seguinte.

Por Torero às 15h03

02/04/2010

Sempre aos domingos: O Anti-Herói

 
 

Sempre aos domingos: O Anti-Herói

Texto de Angelo Renato Tibério

Maradona driblou meia dúzia antes de meter um golaço nos ingleses. Dodô já fez cinco num jogo. Robinho e sua molecada endiabrada; dez. Garrincha quase fez chover. Pelé nem se fala. Romário? Esse fala muito e já nos deu uma Copa. Até Tupãzinho, Mineiro e Adriano Gabiru, se nunca foram craques, já tiveram o seu dia de glória.

Mas eu gosto mesmo é dos vilões.

Torço para o time mais fraco. Porque sem o amargo da vitória suada, o doce não é tão doce. Se pintar na tela um Naviraiense x Real Madrid, torço para os heróis de Mato Grosso do Sul. Faroeste? Escolho o bigodudo malvado. E nem me mostre um pernilongo na teia. Faço figas para que ele escape e engula a aranha.

Don Vito Corleone é rei. Hanibal, um gênio. Lampião mereceria uma placa e aquela malvada da novela das 8 é uma graça. O que seria de Chico Buarque sem a ditadura? E de Tom e Jerry sem o pega pra capar entre ambos? O que seria da rosa sem o espinho?

Sem os malvados, os bonzinhos não são nada.

Por mais que eles não queiram ser tão maus.

Sem o chutaço de Baggio para as nuvens na Copa de 94, o grito de Tetra talvez nunca existisse. Sem o pênalti perdido por Marcelinho Carioca, São Marcos talvez não fosse tão santo. Se a cabeçada de Zidane não tivesse acontecido, quiçá a França não tivesse estragado a festa dos ragazzos de azul?

E sem a cabeçada contra o próprio gol de Alex Silva, o Corinthians não teria espantado a crise e jogado a bucha para o rival.

Ah, porque em um mundo que precisa de heróis,esses heróis andam tão preguiçosos,sempre precisando da ajudinha dos vilões.

(Angelo Renato Tiberio é um são-paulino que acredita no tetra da Libertadores, com um gol do zagueiraço Alex Silva. E sem quatro volantes no meio de campo, né Ricardo?)

 

 

Por Torero às 18h07

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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