Blog do Torero

26/07/2009

Sempre aos Domingos: "Há 100 anos acontecia o primeiro Clássico dos Clássicos"

 
 

Sempre aos Domingos: "Há 100 anos acontecia o primeiro Clássico dos Clássicos"

Por Houldine Nascimento

O jogo mais tradicional do Nordeste. O terceiro embate mais antigo do Brasil. Um duelo que balança Pernambuco. Náutico x Sport, Sport x Náutico. Confrontos épicos que decidiram o rumo de competições não só no estado, mas também na região e no país.

Grandes jogadores construíram essa história que move milhões de fanáticos. Só para citar: Ademir Menezes, Juninho Pernambucano, Dadá Maravilha, Bita, Marinho Chagas, Manga, Neneca, dentre outros. Verdadeiras seleções de craques!
 
A primeira partida aconteceu no dia 25 de julho de 1909, no British Club. Para os jornais da época, uma surpreendente vitória alvirrubra, já que o Leão era considerado franco favorito: 3 a 1. Gols de Maunsell (2) e Thomas para o Timbu. Chalmers descontou. De lá para cá, a disputa ficou cada vez mais acirrada.

O Campeonato Pernambucano começou a ser disputado em 1915. O Flamengo do Recife foi o ganhador daquele ano. Mas a primeira decisão entre Sport e Náutico aconteceu apenas em 1951, justamente no cinquentenário alvirrubro. O Leão venceu o primeiro turno e o Timbu o segundo. Sendo assim, disputaram uma melhor de três. O Náutico ganhou duas e conquistou o título.

A revanche leonina veio quatro anos depois. Justamente nos 50 anos do Sport. Com Traçaia, Naninho, Gringo, Soca e Geo, ataque que ficou conhecido pelo futebol encantador, o Leão da Ilha derrotou o rival.

Em 66, as equipes decidiram nos Aflitos o Torneio dos Campeões do Norte. Na disputa, estavam grandes clubes da região: Bahia, Fortaleza e Ceará. O Náutico não tomou conhecimento e passou por cima deles. Na última rodada, apenas o Timbu e o Sport tinham chances de ser campeão. O empate sem gols foi suficiente para que o troféu ficasse em Rosa e Silva.

O Brasileirão também abriu espaço para que as centenárias agremiações definissem a sorte. Em 1987, edição mais polêmica, ocorreu um clássico dos clássicos. O Leão ganhou por 1 a 0 e essa vitória o fortaleceu para o restante da disputa. Mais tarde, o rubronegro bateu o Guarani e se sagrou campeão brasileiro. Junto com o Bugre, representou o país na Libertadores de 88.

Mas 25 de julho não ficou só restrito ao clássico. Esse dia parece não fazer bem ao Sport. O time perdeu a oportunidade de voltar ao torneio internacional após 12 anos. Em 2000, decidiu com o Palmeiras a extinta Copa dos Campeões e acabou derrotado por 2 a 1.

Neste domingo (26), às 16 horas, a Ilha do Retiro será palco do centenário duelo. O jogo é válido pela décima-quarta rodada do Campeonato Brasileiro. Os clubes vivem situação difícil no nacional. O Náutico é o último colocado e o Sport o décimo-sexto. Mais um motivo para apimentar o confronto. Quem vencerá a partida de número 513?

Dados do Clássico dos Clássicos

Número de jogos: 512* (*Não se sabe o resultado do jogo do Torneio Terezinha de Jesus)

Vitórias: 169 do Náutico; 197 do Sport.
Empates: 145.
Local onde houve mais partidas: Ilha do Retiro (207).
Gols: 634 (NÁU); 687 (SPO).
Artilheiros: Fernando Carvalheira, 26 gols (NÁU); Traçaia, 13 gols (SPO).

Por Torero às 11h50

19/07/2009

Sempre aos Domingos - Mario Ovão

 
 

Sempre aos Domingos - Mario Ovão

Texto de Sylvio Ferreira


Mário Ovão trabalhava num talho de carne no Alto do Capitão, em Dois Unidos. Nas tardes de domingo, ele vestia calção, camisa, meião e calçava um arremedo de chuteira, que dava a impressão de ter sido feita de couro de sapo de macumba, para jogar pelo Saci-Pererê. Ele era beque central à moda antiga, no estilo “espana pro mato”. O seu vigor era invejável. Em campo, chispava pelas narinas.

Em nada adiantava driblá-lo, já que os adversários logo sentiam na nuca o bafo quente da sua respiração e o rapa que lhe acompanhava – o que fazia com que largassem a bola e pulassem antes mesmo do rapa ser dado. O curioso era que Mário Ovão, ao recuperar a posse da bola, e após passá-la adiante, costumava rodopiar sobre um dos pés, como um mestre-sala, e gargalhava feito Exu num terreiro em dia de festa.

Dentes de ouro à mostra, era como se ele dissesse “Eu sou o rei da zaga”. E era! A sua figura era imponente, digna de um soba africano. E o seu potente chute equivalia a um édito real – Gol na certa! De tão potente, o seu chute explodia no ar em forma de som e de fúria e causava medo. O que lhe deixava ancho de si ao ver o medo estampado na face dos adversários, tal como um monarca absolutista assim se sentia ao causar pavor nos seus súditos.

Além de jogar futebol, Mário Ovão, que era feito no santo e filho de Ogun, tinha outros prazeres na vida: Tocar atabaque nos terreiros, beber cachaça e freqüentar gafieiras. Nas gafieiras, ele revoluteava pelos salões até o dia amanhecer; ao som de cumbias, boleros e merengues. O salão de “Biu da Madeireira”, em Água-fria, era um dos seus favoritos. Lá, qualquer um podia encontrá-lo acompanhado de uma cabrocha de ocasião dando o seu show à parte.

Nessas ocasiões, o beque ameaçador dos campos de várzea cedia lugar ao elegante dançarino que revoluteava pelo salão possuído pela leveza de um invertebrado. Enquanto em campo os adversários fugiam dele, nos salões as cabrochas o requisitavam. Ele era o rei das gafieiras. Nos salões, a sua voz grave adquiria um tom aveludado e a sua gargalhada de Exu era substituída por um sorriso tinhoso. Mais do que um soba africano, ele parecia um gato preto – tamanha era a sua manha nas noitadas.

Embora enchesse a cara de cachaça, ninguém nunca o viu embriagado caindo pelos cantos. Nem por isso quem o conhecia deixava de ficar espantado com o fato de que o excesso de cachaça em nada parecia afetar o seu vigor físico. A sua vitalidade era impressionante. À época, ele estava em meados da casa dos vinte. Era o início dos anos sessenta.

Porém, tendo cruzado a casa dos trinta, Mário Ovão (que ainda não era “Ovão”, mas simplesmente Mário), foi acometido do que, a princípio, foi dito que era hidrocele. Os seus testículos incharam – o que o levou a usar, por conta própria, uma cinta especial, comumente encontrada nas farmácias, para apóia-los no escroto. Consultado, o seu pai-de-santo recomendou algumas mandingas. Os amigos lhe aconselharam a pratica de algumas simpatias.

Entretanto, os seus testículos não paravam de crescer. O rei da zaga e das gafieiras estava ameaçado de perder o cetro. Teimoso como ele só, e inteiramente crédulo nos efeitos medicinais das mandingas e das simpatias recomendadas, ele tardou em procurar ajuda médica. E continuou jogando e dançando, enquanto pôde – sem que perdesse a potência do chute e o charme da dança. Tampouco largou a cachaça. Apenas aumentou a porção dedicada ao “santo”.

Numa certa tarde de domingo, Mário deixou de ser simplesmente Mário e passou a ser Mário Ovão, para sempre. Mas o seu codinome está associado menos ao tamanho dos seus testículos, mas a um feito pioneiro na história do futebol. O que o colocou na dimensão do maior rei do futebol de todos os tempos: O rei Pelé.  Todos dão como líquido e certo que a chamada “paradinha”, na hora do pênalti, é uma invenção do Atleta do Século, mas se enganam. A tal “paradinha” é invenção de Mário Ovão.

Eis o que vi!  Naquela tarde, no campo do Condor, em Peixinhos, Olinda, o Saci-Pererê teve um pênalti marcado a seu favor. Mário, então, caminhou em direção a marca de pênalti para efetuar a cobrança. Todos que assistiam ao jogo viram o goleiro da equipe adversária tremer de medo feito uma vara verde. Mário marcou distância da bola e partiu para a efetuação da cobrança com o seu chute tão temido. Por conta da hidrocele, correu e parou bem próximo à bola e soltou um esganido de dor, em razão de uma forte fisgada que sentiu nos testículos.

Entretanto, o goleiro já havia saltado para um dos lados da meta. Mesmo acometido de intensa dor, Mário usou as duas mãos para bem apoiar os seus ovos (a cinta já não lhe bastava), fez uma careta horrenda e chutou, levemente, a bola em gol; na direção oposta a que o goleiro havia pulado. O goleiro sem saber do problema que lhe acometia, apanhou a bola na rede e sorriu para Mário; acreditando que ele o havia poupado de uma desgraça maior. O público também sorriu – e muito. E feliz da vida gritou: “Gol de Mário Ovão!”.

Essa foi a última partida que Mário disputou. O seu problema era mais grave e mais sério do que se podia imaginar – ele estava acometido de filariose, tal como foi corretamente diagnosticado, após a realização de exames específicos. A filariose lhe atacou o escroto, ao invés das pernas. Assim surgiu a escrota da “paradinha”, graças ao inchaço que acometeu os testículos de Mário. Que lhe seja dado o devido crédito, portanto. E que o seu feito seja para sempre lembrado.

 

(O texto foi publicado originalmente no site www.loucospelosanta.com. )

Por Torero às 02h12

16/07/2009

Carta de um vizinho solidário

 
 

Carta de um vizinho solidário


Texto de Fernando Mendanha


Prezado amigo cruzeirense,

Confesso que fiquei chocado com o que vi na noite da última quarta-feira. No início, tudo era festa. O grito que se ouvia do outro lado da lagoa fez me lembrar, mesmo que de longe, o caldeirão com sua massa favorita em dias de grande banquete.

Até os estrondosos foguetes que rasgavam o silêncio dos céus soavam (quase) tão altos quanto o mais bravo dos cacarejos em dia de festa. Tamanha algazarra que não passara de 90 minutos. E cá, eu ainda estava, ciscando de um lado para o outro, pensativamente em apenas um fato: o que teria acontecido com ele?

Bom, meu caro amigo cruzeirense. Peço-lhe até desculpas por adentrar em um campo que, confesso, não é das minhas especialidades. Mas é que preciso dar asas aos pensamentos que me intrigam.

Primeiramente, digo-lhe algo com a maior sinceridade. Às vezes, é preciso reconhecer a derrota, pois, talvez, tu vivas cheio de vaidade, mas na realidade, não foi o grande campeão. É inegável que nos gramados de Minas Gerais tens páginas heróicas e imortais...

Mas, oh, vizinho, vizinho querido! Não desta vez. Fostes combatido e abatido foi vencido, justamente por não ter jogado com muita raça e amor. Por não ter vibrado mais com alegria pras vitórias.

Oh, vizinho, vizinho querido! Mesmo com o seu grande nome na cidade, saiba que para vencer, vencer, vencer – que és o nosso grande ideal – era preciso honrar o nome de Minas no cenário desportivo mundial.

Lutar, lutar, lutar, meu nobre azul, com toda a sua raça pra vencer, mesmo que uma vez até morrer, fostes o detalhe ausente que transformara o bonito e colorido azul dessa quarta num triste fim de noite meio preto e branco.

Contudo, bola pra frente, amigo, e não fique triste. Já que, por aqui, as coisas vão muito bem, obrigado. Hoje, abrindo cada vez mais espaço frente à concorrência, se Deus quiser, quem sabe refaço suas batalhas, seus desejos e seus sonhos pela América no ano que vem.

E aí sim (até com a sua torcida), talvez voltemos a ser o campeão dos campeões e o orgulho do esporte nacional.

Melhoras,

Ass.: O vizinho do terreiro ao lado

Por Torero às 21h14

05/07/2009

Minha primeira vez no Maracanã

 
 

Minha primeira vez no Maracanã

Texto de Antonio Carlos Carvalho

O ano era 1981 e, como presente de aniversário, Zé do Gás (meu pai) resolveu assistir a uma partida de futebol no Maracanã e, me convidou para ir junto com ele. Na época eu era um rapazinho de 15 anos e já era torcedor do “mais querido” e, como meu pai era botafoguense e ainda tinha esperanças de que eu me “convertesse”, escolheu para assistir justamente a partida entre Botafogo e Flamengo pelo Campeonato Carioca de 1981.

Nós morávamos em Muriaé-MG (pertinho de Itaperuna-RJ) e meu pai combinou tudo por telefone com um irmão dele (também botafoguense) que morava no Rio. Saímos de Muriaé no sábado (véspera do jogo) e chegamos ao Rio sem que a Brasília velha do meu pai apresentasse qualquer problema.

Meu tio havia pedido que meu primo comprasse os ingressos e este (em um momento iluminado) comprou duas entradas para torcida do Fogão e duas para a torcida rubro-negra. Assim, no domingo, dia 08/11/1981 eu entrei pela primeira vez na minha vida no Maracanã. O estádio estava lotado e até hoje, só de lembrar, fico arrepiado. Fiquei na torcida do Flamengo, ao lado do meu primo, enquanto Zé do Gás ficou com o irmão dele no outro lado do estádio. Não consigo descrever aqui a emoção que senti quando o Mengão entrou em campo e a torcida gritava, um a um, o nome dos jogadores. 

Nessa ocasião eu estava com muito medo que se repetisse a humilhação de 1972, quando o Mengão foi goleado pelo Botafogo. Naquela época eu tinha só 7 anos e nem me lembrava do jogo, mas de tanto meu pai e meu tio me falarem no tal 6X0, eu fiquei com muito medo de que a goleada se repetisse. Me preocupei à toa.

Mal começou o Jogo e Nunes abriu o placar. Vibrei como um louco na arquibancada. Minha primeira vez no Maraca e o Mengão ganhando o jogo?!

Era a realização de um sonho! Pouco tempo depois o Mengão faz 2X0. Gol de Zico. Nessa hora eu confesso que cheguei às lágrimas. Ver meu ídolo marcando um gol pelo meu time de coração foi uma emoção indescritível. Olhei para o meu primo e ele me disse: "Tá muito fácil..!"

O Flamengo pressionava e uns 5 minutos depois, o que é que aconteceu? Mengão 3X0! Nesse momento, não só eu, mas toda a torcida rubro-negra foi ao delírio e o canto de “Queremos 6, tum dum dum, queremos 6” tomou conta do estádio.

Antes de terminar o primeiro tempo Adílio foi lá e... 4X0. Nessa hora ninguém mais duvidava de que o troco pelo 6X0 de 72 seria possível. Só que aí eu deixei de me divertir com o jogo e passei a ficar preocupado com o Zé do Gás. Meu primo percebeu meu estado de espírito e perguntou o que estava havendo e eu respondi:

“Pôxa o cara vem comemorar o aniversário no Maracanã e vê o time dele perder de 4X0... Pô, é muito triste!”

Sabe o que o meu primo me respondeu? “Bem feito! Quem manda torcer para time ruim?”

Isso me deixou ainda mais triste porque eu pensei: “Pó, o cara é meu pai e, além do mais, podia ser comigo!”.

Mas acabou o intervalo (e com ele a minha preocupação) e os times voltaram para o segundo tempo. O Mengão voltou com o mesmo time e o Botafogo com Jairzinho (o Furacão) no lugar de alguém que eu não me lembro o nome agora. O Fogão voltou bem melhor no segundo tempo e quase fez o seu gol, se não fosse duas defesas importantes do Raul Plasman. Mas, aos 30 min o Mengão encaixa um contra-ataque e Adílio sofre pênalti. Advinha quem vai bater? Ele mesmo! Zico faz 5X0.

Ainda faltavam uns 15 minutos para acabar o jogo e muitos botafoquenses já estavam saindo do estádio. A massa rubro-negra não parava mais: “Queremos 6, tum dum dum, queremos 6!”

E o 6X0 veio em um foguete de Andrade de fora da área. A torcida flamenguista (comigo junto) foi ao êxtase. Era o troco de 72 e todos nós (rubro-negros) saímos do estádio com a alma lavada.

Quando encontrei meu pai na casa do meu tio, ele era a imagem da decepção. Dirigiu do Rio a Muriaé (cerca de 400 km) sem dizer uma palavra. Eu estava doido de vontade de comentar sobre o jogo, mas sabia que isso o deixaria ainda mais aborrecido e fiquei na minha, tentando disfarçar o largo sorriso que teimava em tomar o meu rosto.

Depois disso meu pai nunca mais voltou ao Maracanã. Eu fui muitas outras vezes até me mudar para Cuiabá-MT em 1988 e, depois disso, fui pouquíssimas vezes. Mas sempre quando o Mengão jogava e estava perdendo, meu pai me ligava e dizia: “a televisão aqui em casa estragou. Como é que está o placar do jogo?” 

Meu pai passou para o andar de cima no ano passado e sempre me lembro dele quando o Flamengo está perdendo uma partida. Fico olhando para o telefone esperando ele tocar.

Sua benção Zé do Gás. Espero que esteja em um bom lugar e que esteja tudo bem contigo. Sinto sua falta.

Por Torero às 19h18

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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