Blog do Torero

28/06/2009

Sempre aos domingos: O remédio da minha avó

 
 

Sempre aos domingos: O remédio da minha avó

Texto de Marcelo Ferioli

Hoje estava andando na calçada do centro da cidade, quando uma mulher que andava de mãos dadas ao seu filho lhe disse em tom bravo : “-Porque você mexe em tudo?!”. Isso porque o garoto esticou o outro braço pra tocar a caixa do correio. Neste instante eu pensei: “eu era igualzinho quando pequeno”.

Me lembrei que quando ainda muito criança eu acompanhava minha avó até a feira. Eu também ia de mãos dadas com ela. Durante o trajeto eu esticava a outra mão e ia passando o dedo indicador nos muros e portões do caminho. Um dia minha avó me disse que eu não deveria fazer aquilo, “senão meu dedo iria se desgastar e restaria apenas um toquinho”. Isso me marcou, eu não queria “gastar” meu dedo.

Perdi minha avó ainda garoto, acho que eu tinha uns 8 ou 9 anos na época. Me lembro de pouca coisa com detalhes daquele período, mas algumas cenas não saem da minha cabeça. Embora eu não me lembre com muitos detalhes muita coisa, eu guardo um carinho enorme por minha vó.

Minha avó era muito legal, ela deixava eu e meus irmãos brincar com água no tanque, a gente podia fazer sujeira no quintal, podiamos balançar no pé de goiaba, dar minhocas pras galinhas, martelar as madeiras do meu avô... Tenho a impressão que na casa da minha avó a gente podia fazer de tudo.

Meu avô era meio mau humorado, mas minha avó sempre defendia a gente depois das “artes” que a gente fazia...

Minha avó esquentava o pãozinho pra gente na chama do fogao e passava requeijao com uma colher!

Minha vó fazia macarrão e frango assado aos domingos, e a maionese dela era a melhor do mundo, nunca mais comi nenhuma igual!

Minha vó tinha um “remédio” que ficava guardado la no alto, dentro do banheiro. Era um liquido que devia ser feito com umas ervas e álcool. Aquela coisa de vó, tipo um remédio caseiro. Uma vez eu tava com “dores nas pernas”, já era hora de dormir, eu tinha brincado de bola o dia todo no quintal. Minha vó me levou lá no banheiro e pegou aquele vidro de remédio e esfregou o líquido nas minhas pernas. Eu não sei se aquilo tinha algum efeito medicinal, mas o simples fato de sentir-se amparado trazia a cura.

Outro dia meu irmão reclamou de dor de barriga e minha vó passou aquilo na barriga dele, aí eu perguntei: “Vó, isso aí não é pra dor nas pernas?”. Ela respondeu que servia pra dor na barriga também.

Mesmo quando minha irmã tinha dores de cabeça minha vó usava o mesmo remédio.

Quando era época de natal, minha avó tentava convencer-nos a puxar a barba do Papai Noel, para verificarmos se era de verdade. A gente nunca ousaria puxá-la, mesmo porque nós tinhamos certeza que ele realmente existia. Mas eu me lembro que depois de um certo Natal, o comentário foi que a barba do Papai Noel daquele ano era verdadeira. Ainda bem que ninguém a puxou. E eu não me esqueço que aquele Papai Noel ficou um pouco lá com a gente mesmo depois de entregar os presentes, e inclusive ele tomou uísque!

Lembro de uma cena muito triste com minha avó. Foi depois que ela tinha quebado o braço. Ela tropeçou e esbarrou sei lá onde. Acho que foi a unica vez que vi a minha avó chorar. Ela dizia que tinha acabado com a vida dela, ou algo do tipo. Ela dizia que aquilo era muito sério. Eu do meu lado não achava isso tão grave, eu já tinha visto vários coleguinhas com gesso no braço na escola.

Um dia, meu irmão me disse que minha avó estava com câncer. É claro que eu não acreditei, porque na minha concepção de doenças, qualquer doença tinha cura, menos câncer e aids. Como é que minha vó poderia estar com câncer? Meu irmão chamou minha mãe pra confirmar, ela confirmou, mas eu acho que não era para o meu irmão ter me contado aquilo.

Minha vó estava com câncer nos ossos. Aos poucos o seu estado foi piorando e eu me lembro que ela ficou um longo período de cama.

Instalaram um colchão d’agua na casa dela. Ela tinha dificuldade para se movimentar. Umas três pessoas a auxiliavam quando ela precisava ir ao banheiro. À cada barulho que escutavam tinham medo que fosse um osso se quebrando.

Meu pai ia frequentemente visitá-la, e quase sempre nos levava junto. Eu me lembro que tinha até uma especie de enfermeira que passou a dormir com minha avó.

Logo a hora da minha avó partir chegou, e meus pais fizeram de tudo pra que eu não sofresse muito. Eu era pequeno, e sinceramente sua morte não foi algo tao marcante pra mim. Nada ao lado dos bons momentos que tenho como lembrança dela.

Depois ouvi meu pai dizer que o câncer é uma doença que mata aos poucos, que vai sugando toda energia do doente. Ai, meu avô me contou a historia de um jogador de futebol chamado Rubens, ou melhor, o “Doutor Rúbis”, como era conhecido aquele atleta do Flamengo da década de 50. Ele disse que este foi um jogador que dominava o meio-de-campo como poucos. Falou que o apelido de Doutor veio exatamente dessa facilidade de comandar as ações no setor e foi dado carinhosamente pelos próprios torcedores flamenguistas.

Meu vô me disse que esse tinha sido um baita jogador, meia-armador clássico, jogava pela direita e formava dupla com Dequinha no flamengo. Ele disse que o time era todo formado por excelentes jogadores, que ajudaram o clube a chegar ao tricampeonato carioca de 53, 54 e 55, sob o comando do Fleitas Solich.

E segundo meu avô, assim como minha avó, a causa da morte desse ex-jogador, uns anos antes dela, em 1987, teria sido o câncer. No caso do “doutor” foi câncer no pulmão.

Lembro que uns dois ou três anos depois foi meu avô que adoeceu. Câncer também. O processo foi mais ou menos o mesmo da minha avó. Ficou muito tempo de cama, com auxílio de enfermeiro e tal.

Chorei muito com a morte de meu avô, eu já era mais velho, compreendia um pouco mais as coisas. Mas hoje curiosamente guardo mais lembranças da minha avó. Guardo boas lembranças de ambos, apesar de o final estar marcado tristemente na minha história com o falecimento deles.

Depois disso ainda perdi um tio querido também por conta de um câncer no pulmão. Recentemente foi outro tio por câncer no pâncreas. Muito triste.

Tenho medo do câncer. E minha mãe fuma muito, tenho medo que ela e consequentemente todos nos soframos com isso. Gostaria que ela largasse o cigarro, porque caso ela fique doente, acredito que apenas o remédio que fica lá no alto do banheiro não será suficiente.

Por Torero às 12h45

21/06/2009

Sempre aos domingos: Malditos paulistas!

 
 

Sempre aos domingos: Malditos paulistas!

Texto de Marcio R. Castro

Tem um gaúcho aqui no trabalho. Gente finíssima, colorado doente. Claro, adoramos falar de futebol. Juntos com mais alguns marmanjos, fazemos bolões e apostas, tiramos um sarro, torcemos ainda mais para os nossos times (rezando para escapar dos deboches da segunda-feira).

Como já percebi diversas vezes em seus conterrâneos, inclusive na imprensa sulista, também nele existe aquele bairrismo típico dos gaúchos. Há um terrível complô contra eles. Eu faço parte do grupo dos vilões, os paulistas.

Com Inter e Corinthians na final da Copa do Brasil, leio aqui e ali notícias de que o Colorado está preocupado com possíveis favorecimentos ao Corinthians. Afinal, os paulistas são sempre beneficiados. Têm mais influência, são mais poderosos. Malditos paulistas!

Argumento que o Inter foi campeão das Américas em cima de um paulista, o São Paulo. Que era o atual campeão continental. Com três títulos no currículo, sempre presente, influente nas rodas da Conmebol. Começo a mudar de ideia, era óbvio que teria um esqueminha para ajudá-lo... Mas não é que o Inter venceu?

O gaúcho se irrita: “Bah, tchê, tu vai falar que não existe nada? E 2005, e o pênalti no Tinga??? Aposto que o Corinthians decide a Copa do Brasil no Pacaembu! Escreve, escreve!”. Pena que eu não apostei. No sorteio, o segundo jogo ficou para o Beira-Rio.

A coisa é tão séria que até o impossível acontece. Contra o inimigo “estrangeiro”, colorados e gremistas se unem. Quem já não ouviu por aí a certeza gremista de que foram roubados no último Brasileirão. E foram mesmo, uma vergonha! Tudo para ajudar um clube paulista, só não vê quem não quer. Excetuando-se, claro, o confronto direto com o São Paulo no Olímpico. Logo naquele jogo o Grêmio foi beneficiado por erros da arbitragem.

Não são só os gaúchos que têm certeza da roubalheira pró-paulista. O sentimento é bem difundido Brasil afora. Em Pernambuco, por exemplo, o Sport fez um grande escarcéu, exigindo árbitros internacionais nos jogos contra o Palmeiras na Libertadores. Lá vêm os paulistas, temos que nos precaver. Dessa vez, não!

Nem adianta relembrar aos rubro-negros de que na conquista da Copa do Brasil, o Sport atropelou o Palmeiras e, mais tarde, despachou também o Corinthians. Decidindo os dois confrontos em casa. Com lance de pênalti duvidoso no finzinho do segundo jogo final, a favor do Corinthians. Que não foi marcado.

Não acredito num mundo cor-de-rosa. É claro que podem acontecer sacanagens, manipulações e favorecimentos, como já ocorreram diversas vezes. Também sei que existem pressões em arbitragem, brigas de bastidores, influências políticas indevidas.

Agora, definir tudo o que acontece como armação está mais para transtorno obsessivo-compulsivo. Para muitos incautos, todo erro de arbitragem é a prova inconteste de alguma grande conspiração. Ninguém se lembra muito dos lances que favorecem o próprio time.

Bairrismo sem sentido, complexo de inferioridade, inveja dos vencedores, raiva da cobertura auto-centrada do eixo Rio-São Paulo. Esses são os principais sentimentos por trás de tudo isso. Muitas vezes, todos misturados, enraizados em nossa cultura futebolística.

E está latente em todo o lugar. Entre os paulistas também. O esporte preferido dos palmeirenses hoje não é futebol, é espalhar aos quatro ventos que o São Paulo é favorecido. Porque você acha que eles estão ganhando tanto?

Há alguns anos, eram os tricolores que ficavam choramingando pelos cantos. Também, com aquela máfia italiana. Era o esquema Parmalat! Não importa que os verdes montaram esquadrões atrás de esquadrões, tudo era roubo.

Além dos inimigos íntimos, os paulistas também se consideram perseguidos lá “fora”. Para nós, os cariocas são os vilões. Estão próximos da CBF, são malandros. A Globo é de lá, meu deus!

Só não entendo porque, então, o Fluminense perdeu a Copa do Brasil para o Paulista de Jundiaí. Ou porque o Flamengo apanhou do Santo André em pleno Maracanã. Mas peraí, os dois pequenos são times de São Paulo. Bem que o gaúcho avisou: malditos paulistas!

 

Por Torero às 00h55

14/06/2009

Sempre aos domingos: "Senhores eu não vi"

 
 

Sempre aos domingos: "Senhores eu não vi"

Texto de Filipe Molina

Senhores eu não vi Pelé, o Rei do futebol, fazer mil gols, mas eu vi Romário, o Rei da pequena área, fazer mil gols. Senhores eu não vi a folha seca de Didi. Mas vi Ronaldinho encobrir Seaman.

Senhores eu não vi Diego Maradona driblar cinco e fazer o gol e também não vi o gol de mão, mas eu vi Lionel Messi fazer isso. Senhores eu não vi o carrasco do Brasil, Paolo Rossi, mas vi o gênio Zinedine Zidane acabar com nossa seleção duas vezes.

Senhores eu não vi a seleção de 70, mas eu vi a conquista do penta com a melhor campanha brasileira em uma Copa. Senhores eu não vi o profissional e motivador Oswaldo Brandão, mas vi o estrategista Vanderlei Luxemburgo.

Senhores eu não vi Garrincha ludibriar adversários sem tocar a bola, mas eu vi quatro turcos correrem atrás de Denílson. Senhores eu não vi O craque Zico perder pênalti em Copa, mas eu vi A craque Marta perder.

Senhores eu não vi Rivellino criar o elástico, mas eu vi Kerlon criar o drible da foca. Senhores e vocês ainda vêm me dizer que o futebol está perdendo sua magia?

 

Por Torero às 09h11

06/06/2009

Copa do Mundo na Terra do Nunca

 
 

Copa do Mundo na Terra do Nunca

Texto de Marcio R. Castro 

Desde que me entendo como gente, um dos meus sonhos era a realização de uma Copa do Mundo no Brasil.

Lembro agora, ao escrever essa primeira frase, que inclusive já “reservava” para o Brasil a Copa de 2014, com o primeiro jogo brasileiro em São Paulo, no Morumbi, que depois receberia o Brasil novamente na semifinal, e com a grande final contra a Itália no insubstituível Maracanã, jogo no qual eu fazia três gols, virando o placar na prorrogação!

Me recordo também que apenas Manaus e Natal não faziam parte das “minhas” cidades-sedes. De resto, todas estavam lá, na companhia de Goiânia, Belém e, talvez, Campinas ou Ribeirão Preto (“a força do interior paulista”).

A pontinha de orgulho que sinto por ter acertado tanto em meus devaneios infantis logo se dissipa. Percebo que são escolhas tão óbvias que até um mancebo com alguma imaginação as faria, como fizeram e farão cartolas bem crescidinhos, apesar de alguns preferirem continuar complicando as coisas.

Quase vinte anos se passaram e o sonho de menino se realizará. Imagino quantas crianças hoje não estejam com a mente em polvorosa, realizando grandes jogadas, marcando gols inesquecíveis, testemunhando por antecipação dramas e glórias nos nossos gramados.

Sorte dos pequenos. O desgosto com alguns pontos quase me faz estar entre aqueles que não queriam uma Copa por aqui. Quase, porque a esperança de que as coisas podem dar certo de uma forma decente insiste em sobreviver. Ou até mais do que isso, confesso, já que o desejo ainda supera a razão, mesmo com todo o dilema que vem junto.

Relatado recentemente por jornalistas esportivos, um diálogo entre o presidente Lula e o ministro dos esportes Orlando Silva Jr., durante as obras do Pan, retrata bem o sentimento dos incrédulos. Em determinado momento, ao perceber os rombos que se avolumavam, Lula teria dito ao ministro: vai sobrar para nós...

Sobrou, como todos sabem. O que mais me incomoda é a naturalidade com que o presidente, o ministro, os jornalistas e quase todos encararam a questão. Se o comitê olímpico, a prefeitura e o governo do estado foram incompetentes e corruptos, paciência, nós colocamos mais dinheiro. Afinal, o Brasil precisa fazer bonito.

Não seria mais bonito deixar o problema estourar, não passar a mão na cabeça de ninguém, responsabilizar os que trabalharam mal, investigar e punir os corruptos e recuperar o dinheiro possivelmente desviado? Em suma, dar (e praticar) o exemplo? Não seria mais adequado não corroborar com o círculo vicioso, custasse o que custasse?

Outra coisa inconcebível é ver os políticos alardeando bilhões e bilhões em investimentos em virtude única e exclusivamente da Copa. Acho ótimo que as cidades recebam dinheiro para infra-estrutura, mas tudo somente pela realização do Mundial? Não me refiro a investimentos públicos especificamente voltados para o turismo, nem a obras em parceria com a iniciativa privada que naturalmente vislumbram retorno financeiro com um evento dessa magnitude.

Agora, investimentos em transporte público, meio-ambiente, hospitais, saneamento básico e outros colocados no pacotão da Copa são, além de demagógicos, verdadeiros atestados de falta de planejamento e competência.

Mas parece que nos dicionários de nossas autoridades não existe o verbete cronograma. Nem vergonha e nem cara, aliás. Além de termos que ouvir dos “inspetores” da FIFA – com razão, diga-se de passagem – que o Brasil não tem 12 cidades em condições mínimas de abrigar o Mundial, nossos representantes ainda ficaram meses beijando a mão de cartolas e mais cartolas, responsáveis por grande parte do nosso atraso no âmbito esportivo. Eu perdi, mas o Ricardo Teixeira deve ter sido eleito o novo Papa!

É claro que articulações políticas fazem parte da equação. O problema é quando esse critério secundário se torna dominante. Um dos resultados dessa inversão serão estádios inteiramente financiados por dinheiro público, que provavelmente não terão utilidade constante ou adequada ao nível de investimento, se tornarão deficitários e, aos poucos, vão ser abandonados. Os tais dos “elefantes brancos”. Alguém duvida que vá acontecer?

Lembro novamente dos pensamentos daquele garoto de dez ou onze anos. E gostaria muito que esse texto pudesse ter acabado no 5º parágrafo. Ou melhor, que continuasse de forma inspiradora, tanto ao comentar proezas em campo quanto ao debatermos a realização da Copa em todas as suas complexidades.

A Copa do Mundo será no Brasil. Ver toda aquela festa popular no anúncio das cidades escolhidas deu um sentimento esquisito, infelizmente. Porque o menino cresceu. E escolheu não ser um Peter Pan de chuteiras.

Por Torero às 06h36

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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