Sempre aos domingos: O remédio da minha avó
Texto de Marcelo Ferioli
Hoje estava andando na calçada do centro da cidade, quando uma mulher que andava de mãos dadas ao seu filho lhe disse em tom bravo : “-Porque você mexe em tudo?!”. Isso porque o garoto esticou o outro braço pra tocar a caixa do correio. Neste instante eu pensei: “eu era igualzinho quando pequeno”.
Me lembrei que quando ainda muito criança eu acompanhava minha avó até a feira. Eu também ia de mãos dadas com ela. Durante o trajeto eu esticava a outra mão e ia passando o dedo indicador nos muros e portões do caminho. Um dia minha avó me disse que eu não deveria fazer aquilo, “senão meu dedo iria se desgastar e restaria apenas um toquinho”. Isso me marcou, eu não queria “gastar” meu dedo.
Perdi minha avó ainda garoto, acho que eu tinha uns 8 ou 9 anos na época. Me lembro de pouca coisa com detalhes daquele período, mas algumas cenas não saem da minha cabeça. Embora eu não me lembre com muitos detalhes muita coisa, eu guardo um carinho enorme por minha vó.
Minha avó era muito legal, ela deixava eu e meus irmãos brincar com água no tanque, a gente podia fazer sujeira no quintal, podiamos balançar no pé de goiaba, dar minhocas pras galinhas, martelar as madeiras do meu avô... Tenho a impressão que na casa da minha avó a gente podia fazer de tudo.
Meu avô era meio mau humorado, mas minha avó sempre defendia a gente depois das “artes” que a gente fazia...
Minha avó esquentava o pãozinho pra gente na chama do fogao e passava requeijao com uma colher!
Minha vó fazia macarrão e frango assado aos domingos, e a maionese dela era a melhor do mundo, nunca mais comi nenhuma igual!
Minha vó tinha um “remédio” que ficava guardado la no alto, dentro do banheiro. Era um liquido que devia ser feito com umas ervas e álcool. Aquela coisa de vó, tipo um remédio caseiro. Uma vez eu tava com “dores nas pernas”, já era hora de dormir, eu tinha brincado de bola o dia todo no quintal. Minha vó me levou lá no banheiro e pegou aquele vidro de remédio e esfregou o líquido nas minhas pernas. Eu não sei se aquilo tinha algum efeito medicinal, mas o simples fato de sentir-se amparado trazia a cura.
Outro dia meu irmão reclamou de dor de barriga e minha vó passou aquilo na barriga dele, aí eu perguntei: “Vó, isso aí não é pra dor nas pernas?”. Ela respondeu que servia pra dor na barriga também.
Mesmo quando minha irmã tinha dores de cabeça minha vó usava o mesmo remédio.
Quando era época de natal, minha avó tentava convencer-nos a puxar a barba do Papai Noel, para verificarmos se era de verdade. A gente nunca ousaria puxá-la, mesmo porque nós tinhamos certeza que ele realmente existia. Mas eu me lembro que depois de um certo Natal, o comentário foi que a barba do Papai Noel daquele ano era verdadeira. Ainda bem que ninguém a puxou. E eu não me esqueço que aquele Papai Noel ficou um pouco lá com a gente mesmo depois de entregar os presentes, e inclusive ele tomou uísque!
Lembro de uma cena muito triste com minha avó. Foi depois que ela tinha quebado o braço. Ela tropeçou e esbarrou sei lá onde. Acho que foi a unica vez que vi a minha avó chorar. Ela dizia que tinha acabado com a vida dela, ou algo do tipo. Ela dizia que aquilo era muito sério. Eu do meu lado não achava isso tão grave, eu já tinha visto vários coleguinhas com gesso no braço na escola.
Um dia, meu irmão me disse que minha avó estava com câncer. É claro que eu não acreditei, porque na minha concepção de doenças, qualquer doença tinha cura, menos câncer e aids. Como é que minha vó poderia estar com câncer? Meu irmão chamou minha mãe pra confirmar, ela confirmou, mas eu acho que não era para o meu irmão ter me contado aquilo.
Minha vó estava com câncer nos ossos. Aos poucos o seu estado foi piorando e eu me lembro que ela ficou um longo período de cama.
Instalaram um colchão d’agua na casa dela. Ela tinha dificuldade para se movimentar. Umas três pessoas a auxiliavam quando ela precisava ir ao banheiro. À cada barulho que escutavam tinham medo que fosse um osso se quebrando.
Meu pai ia frequentemente visitá-la, e quase sempre nos levava junto. Eu me lembro que tinha até uma especie de enfermeira que passou a dormir com minha avó.
Logo a hora da minha avó partir chegou, e meus pais fizeram de tudo pra que eu não sofresse muito. Eu era pequeno, e sinceramente sua morte não foi algo tao marcante pra mim. Nada ao lado dos bons momentos que tenho como lembrança dela.
Depois ouvi meu pai dizer que o câncer é uma doença que mata aos poucos, que vai sugando toda energia do doente. Ai, meu avô me contou a historia de um jogador de futebol chamado Rubens, ou melhor, o “Doutor Rúbis”, como era conhecido aquele atleta do Flamengo da década de 50. Ele disse que este foi um jogador que dominava o meio-de-campo como poucos. Falou que o apelido de Doutor veio exatamente dessa facilidade de comandar as ações no setor e foi dado carinhosamente pelos próprios torcedores flamenguistas.
Meu vô me disse que esse tinha sido um baita jogador, meia-armador clássico, jogava pela direita e formava dupla com Dequinha no flamengo. Ele disse que o time era todo formado por excelentes jogadores, que ajudaram o clube a chegar ao tricampeonato carioca de 53, 54 e 55, sob o comando do Fleitas Solich.
E segundo meu avô, assim como minha avó, a causa da morte desse ex-jogador, uns anos antes dela, em 1987, teria sido o câncer. No caso do “doutor” foi câncer no pulmão.
Lembro que uns dois ou três anos depois foi meu avô que adoeceu. Câncer também. O processo foi mais ou menos o mesmo da minha avó. Ficou muito tempo de cama, com auxílio de enfermeiro e tal.
Chorei muito com a morte de meu avô, eu já era mais velho, compreendia um pouco mais as coisas. Mas hoje curiosamente guardo mais lembranças da minha avó. Guardo boas lembranças de ambos, apesar de o final estar marcado tristemente na minha história com o falecimento deles.
Depois disso ainda perdi um tio querido também por conta de um câncer no pulmão. Recentemente foi outro tio por câncer no pâncreas. Muito triste.
Tenho medo do câncer. E minha mãe fuma muito, tenho medo que ela e consequentemente todos nos soframos com isso. Gostaria que ela largasse o cigarro, porque caso ela fique doente, acredito que apenas o remédio que fica lá no alto do banheiro não será suficiente.






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