Sempre aos Domingos: "O gol mais dolorido"
Texto e ilustrações de Adilson Delaim
Logo após sua aposentadoria dos campos de futebol como atleta, o hoje Sr. Luiz que até o presente no exercício de sua profissão (hoje rara) de sapateiro e que por mais de duas décadas serviu nossa agremiação como massagista (tendo inclusive curado muitas chagas e fraturas) nos brindava com suas peripécias, quando íamos até sua oficina levar nossas bolas para a mais perfeita calibragem, sendo esta, a que considero a maior de todas.

Após uma campanha invicta no Campeonato do Oeste, nossos bravos heróis do PIANCÓ ATLÉTICO CLUB haviam galgado a final do ano de 1959 contra a agremiação da comarca de Arabela. Sendo a mais jovem região do Estado e com tantos municípios emancipados naqueles anos, a Federação de Futebol premiaria o campeão com o acesso à 3ª Divisão do Campeonato Estadual como estímulo ao desenvolvimento do desporto na região.
O maior entrave (recorrente até os dias atuais) era justamente o oponente, que simplesmente abrigava em seus domínios a sede da Liga Arabelense de Futebol, detendo além de um grande time, todos os meandros para selecionar árbitros, regras e quiçá resultados (dizem que só entraram na final por terem literalmente forjado resultados na última rodada do octogonal). E por terem campanha inferior, fariam somente um jogo em seus domínios na melhor de três partidas.
Já na primeira partida o PIANCÓ em seu território impôs uma sonora goleada por 4 x 1, com três gols só na primeira etapa do nosso lépido ponteiro direito, nosso herói maior LUIZ, que tivera de ser substituído no intervalo, pois fora caçado como preá rabicó e alvejado em seu ponto fraco, no “joanete” que sempre lhe incomodava.
No retorno uma vitória bastava para decretar o passaporte para o Estadual, sem contar com LUIZ ainda em recuperação, mas já apoiando o pé no chão, vencia pelo placar mínimo e eis que no último minuto nosso defensor, em um salto dentro da área para afastar o perigo de cabeça é deslocado pelo centroavante adversário e tem a bola resvalada em seu punho.
Estava ai instalada a primeira das grandes discussões desta decisão, primeiro dentro das quatro linhas, pois, nenhum argumento fora atendido e ainda no calor dos brados a injusta expulsão da dupla de zaga titular para a partida final, caso nosso grande arqueiro “Mão-de-onça” não evitasse o tento. E o pior aconteceu, bem que “Mão-de-onça” pulou feito um felino no ângulo espalmou para o lado o violento chute, que ricocheteou nas duas traves, e entrou lentamente balizas adentro, (calma este ainda não foi o mais gol mais dolorido).
Durante a semana ares dramáticos tomou conta de nossa região, dois amigos um ourives e outro coletor, disseram ter ouvido a conversa de um conselheiro do Arabela FC, numa selaria da comarca, afirmando ter ajustado com um atleta adversário, sobre uma possível facilidade de emprego na capital caso pudesse dar uma ajudazinha durante o prélio.
Logo o delegado impôs uma ampla diligência fazendo a acareação de todos os fatos, e ficando simplesmente provado que fora uma mera brincadeira do nobre conselheiro com o matuto selador. Certo é que o defensor não participou da grande final por desarranjos intestinais.
Enfim chegou o domingo dia da grande final, a região toda torcendo por nossos heróis, uma cidade recém emancipada, acolhedora e acima de tudo merecedora do título. Nosso artilheiro após duas semanas de muitas ervas, sebo de carneiro, simpatias e até a benção do vigário, já dava os primeiros trotes naquele domingo, com suas ataduras protegendo seu joanete, mas demonstrando um semblante de dor, ao menos já estava prontamente paramentado caso houvesse a necessidade de sua entrada no decorrer da partida.
E praticamente em menos de cinco minutos o drama se instalara no estádio municipal, num contragolpe fulminante a zaga substituta não conseguira parar os fortes atacantes e o placar estava inaugurado em favor do Arabela FC.

Imediatamente a torcida começa os primeiros gritos tímidos do nome do nosso glorioso ponta/atacante LUIZ, LUIZ, LUIZ....
O jogo se desenrola numa disputa desleal de ambas as partes, com três sangrando (um na perna e dois nas testas) e dois enfaixados com suspeitas de fratura, um na clavícula e outro na sic, "cana do braço", mas ninguém quisera abandonar a primeira etapa da batalha final.
Caso o PIANCÓ empatasse a partida se consagraria campeão. Em caso de vitória do Arabela FC, teríamos a prorrogação, e somente ai nosso PIANCÓ teria a vantagem do empate pelo saldo de gols. Retornam então para o que seriam os últimos 45 minutos, deste épico evento, com a substituição de um moribundo de cada lado (eram permitidos a troca de dois jogadores de cada time por motivos eminentemente comprovados de incapacidade de locomoção), e sob os gritos cada vez mais encorpados da torcida pedindo nosso herói, LUIZ, LUIZ, LUIZ....
Mas para infelicidade local volta no banco.
Desenrola-se o prélio num marasmo total, os já combalidos atletas não dispunham de forças para suportar aquela tarde de estiagem em outubro que beirava os 40º, e numa tentativa de tirar com a cabeça aquilo que seria o segundo gol, o lateral direito piancoense afasta com precisão o mais forte chute até então do campeonato e cai desmaiado, com seus oito pontos novamente abertos e desta vez maiores, parecia ter sido atropelado por um jipe, e segue reanimado ao leito do atendimento médico, isso tudo faltando menos de dez minutos para o final.
Neste instante a torcida só vê uma saída, e entusiasmados clamam a entrada do nosso grande atleta, artilheiro e driblador... quem??? LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ... este grito ecoou quilômetros naquela tarde.
Imediatamente amarrou sua “bota”, se aqueceu e dá mais algumas alongadas e lá estava pronto para o que desse e viesse. E assim, na primeira oportunidade que tocara na bola, fez a maior seqüência de dribles até hoje já vistos, desde a intermediária não teve um adversário que não fosse vencido ao menos duas vezes, parecia que nosso serelepe estava possuído por forças cósmicas, sendo somente parado na pequena área pelo arqueiro rival, ferindo-lhe novamente sua recente lesão – o joanete.
A torcida toda sob o alambrado, bradando como nunca o nome do maior jogador de todos os tempos em nossa pequena e pacata PIANCÓ, nunca houvera tamanho furor até então, era somente os berros ao nosso herói... LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ... que levantou-se lentamente.
Bola na marca da cal (nas dezoito jardas), a torcida numa mistura de aflição e devoção pronta para invadir o campo, era um só coro LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ... nosso batedor oficial tomara tanta distância e quando se vê está próximo do círculo central, partiu à bola como um touro e desferiu um petardo que nem Roberto Carlos (aquele da ajeitadinha na meia na Copa/2006) consegue chegar à metade da força, o goleiro pula em direção à bola, mas o que se vê é o estufar e o tremular da rede, o time todo em direção ao nosso grande herói, comemorando efusivamente, carregando-lhe nos ombros, coincidindo com o apito final.
Uma mistura de alegria com risos e choros, e apreensão, pois todo o time do Arabela corre para o juiz puxado pelo arqueiro que lhe apresenta o capotão encaixada em suas mãos, e aponta dizendo que somente a “câmara de ar” que entrara meta adentro.

De um lado toda a torcida vibrando com o gol salvador no último minuto da partida, do outro o protesto dos inconformados arabelenses, e por fim a dúvida que não estava nas regras, ou seja, nossas autoridades maiores em campo não puderam decidir se o gol seria ou não válido, algo inusitado até então. Fato é que os argumentos de ambas as partes não chegaram a uma conclusão tanto em campo, quanto na Liga Arabelense.
Como tal resultado elevaria uma das equipes ao campeonato Estadual do próximo ano, o caso foi levado ao julgo dos nobres postulantes dos tribunais de recursos da Federação Estadual de Futebol.
Depois de semanas de análises, e também não chegando num consenso resolvem encaminhar à CBD – Confederação Brasileira de Desporto, e após vários estudos, hipótese físicas, quânticas e análises de fotos dos objetos e relatos de todos envolvidos, conta-se que o jovem presidente daquela entidade que atendia pela graça de “João”, levou ao conhecimento da FIFA e até o prezado momento, não se tem o conhecimento do veredicto emitido pela entidade mor do nosso futebol mundial.
Quanta “DOR” dos nossos heróis piancoenses em não ter disputado o Estadual de 60, quanta “DOR” daqueles que se foram e descansam na paz eterna e com esta dúvida que atravessa décadas.
Pra mim, quanta dor na face e no abdômen ao ouvir esta e outras proezas.






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