Blog do Torero

21/02/2009

Já passou, já passou...

 
 

Já passou, já passou...

Texto de Marcio R. Castro

Prestes a completar oito anos de sua extinção, a Lei do Passe ainda sobrevive em um ambiente inusitado: as redações esportivas. É impressionante o número de jornalistas que continua usando o termo "passe" como se ele ainda existisse.

Outra parte, talvez influenciada pelo juridiquês esportivo, começou a usar expressões como "Direitos Federativos" e "Direitos Econômicos". Apesar das novas alcunhas, nem todos que as usam diferenciam uma era de outra. Aqueles que diferenciam, pouco explicam para o seu público o que significam os termos, deixando os torcedores desinformados e confusos.

Talvez isso se dê porque os jogadores, no geral, pouco se emanciparam (apenas trocaram de donos, antes os clubes, agora os empresários). Na prática, continuam sendo tratados como mera mercadoria, o que faz com que muitos jornalistas se mantenham indiferentes à questão. Obviamente, não se justifica. Mesmo que os jogadores não tenham percebido, as regras do jogo mudaram totalmente. E cabe aos jornalistas destrinchar a matéria e informar com precisão aos torcedores.

Ainda mais porque o cenário de hoje é bem simples: os jogadores mantêm contrato com um clube. Para que qualquer uma das partes o rompa, é estipulada uma multa. Com o pagamento da multa, ou com um acerto entre os lados, o contrato é rescindido, e o jogador está livre para assinar com outra equipe.

E os tais dos "Direitos Federativos", o que são? Nada mais do que uma forma empolada de falar "sob contrato". O clube que tem sob contrato um jogador é o detentor de seus direitos federativos.

Mas e os "Direitos Econômicos"? Afinal, sempre ouvimos que o jogador tal é 30% do clube, 50% do grupo "x" e 20% do empresário, certo? Para começar, o jogador não é de ninguém (mais um resquício dos tempos do passe). No mais, direitos econômicos simplesmente não existem de forma concreta, são um tanto virtuais.

A relação primordial é estabelecida apenas entre clube e jogador. Acontece que o jogador também pode assinar com um empresário, que recebe para representá-lo, negociar salários, estabelecer contratos publicitários e outros tantos.

Numa negociação, o clube oferece ao jogador R$ 50.000,00. O jogador e seu empresário querem R$ 120.000,00. O clube não pode pagar. Já que não pode, tudo bem, o salário fica por R$ 50.000,00. Porém, numa eventual negociação com outro clube, 40% do valor recebido ficam com o jogador (na verdade, para o empresário). Esse acerto geral e seus pormenores podem estar no contrato entre jogador e empresário, como pagamento pelos serviços prestados, ou num outro contrato entre clube e empresário, com repasse direto. O que era um acordo bilateral se torna uma triangulação.

Pronto, é daí que surgiu a expressão "direitos econômicos". No caso acima, 60% para o clube, 40% para o jogador e seu empresário. O rateio pode ser mais complicado, com outros empresários, procuradores, grupos de investidores e até pipoqueiros de porta de estádio, sabe-se lá, mas o desenho é esse.

Mas por que eu afirmo que direitos econômicos não existem concretamente, então? Porque se o contrato estipulado entre clube e jogador for cumprido até o seu final não há pagamento de multa rescisória e ninguém ganha nada. Ou seja, empresário, grupo e pipoqueiro não têm direito econômico nenhum. Tudo depende de uma eventual negociação.

Mesmo agora, em que grupos investidores e que administram fundos econômicos criam seus próprios clubes (caso do Desportivo Brasil, da Traffic) para manter jogadores contratados e emprestados a outras equipes, nada impediria que um atleta cumprisse seu contrato até o fim e fosse embora "de graça".

Não vai acontecer, é claro, já que não seria interessante para ninguém. Mas o exemplo vale para esquecermos denominações vazias e passarmos a usar algo mais simples, objetivo e elucidativo: "o jogador está sob contrato com o Taubaté. No caso de uma negociação, foi acertado entre as partes que 50% do valor fica com o clube, 30% com o empresário fulano e 20% com o procurador beltrano. E a propósito, não existe mais o passe".

Por Torero às 10h11

14/02/2009

Eu acredito!

 
 

Eu acredito!

Texto de Marcio R. Castro

"São mais de dez anos. Mais de dez anos... Juntando as pontas, encaixando as
peças, montando um imenso quebra-cabeça. Por todo esse tempo a verdade
esteve escondida. Mas isso acabou."

Foi dessa forma, grave e solene, que a conversa começou. Os olhos de
Fernando nos fitavam com intensidade. Não que isso fosse incomum, o cara é
daqueles que chega a te deixar constrangido com o olhar direto, que engole.
Dessa vez, era mais do que isso.

Na roda, além do Fernando, eu, o Rica, o Gelol e o finado Donizete. O bar
estava abarrotado, o que nos dava completa privacidade. Convocados por
Fernando, estávamos todos lá, na mesma mesa de tantos embates
futebolísticos.

"Mas isso acabou. E meu tormento também", continuou Fernando. "Como vocês
sabem, depois de muita pesquisa, muita investigação, contatos, ameaças,
enfim!, cheguei a conclusão de que a Nike vendeu a Copa de 98 para a Adidas
(nota: sim, foi ele que originou a tese). Não fui só eu, é claro. Gente do
calibre de Arnaldo Jabor e Luís Fernando Veríssimo estão comigo, é só
procurar na internet. Mas isso não interessa. O que importa é que houve o
negócio. A CBF e os franceses também sabiam de tudo, evidentemente. Os
jogadores, inclusive, ganharam o seu. Não todos, os pés-de-chinelo não. Só
os principais."

"Exceto um!", exclamou Rica, já convertido. "O Ronaldo não queria aceitar."

"Isso mesmo, amigo, o Ronaldo se recusou a participar. A retaliação foi
imediata, e todos nós conhecemos: a convulsão."

Piadista nato, Donizete, que Deus o tenha, não se conteve:

"Ah, de novo isso. E agora essa, a convulsão foi um atentado. Só falta falar
que os travecos também eram da Adidas."

"Cala essa boca!"

A truculência com que Fernando interrompeu o nosso companheiro foi
estrondosa, mas se misturou a algazarra do bar. Donizete nem teve tempo de
se ofender, muito menos de reagir. Imediatamente após o berro, ou mesmo
durante o voo dos perdigotos, Fernando agarrava o braço do amigo com uma
estranha combinação de violência e ternura. Pediu desculpas, e falou com o
coração:

"Amigo, meu amigo de longa data. Deixe-me terminar, eu quero abrir os seus
olhos. A verdade não pode ser mais escondida. Não de nós hoje, de ninguém
mais amanhã. Ouça-me, amigo..."

A fala se estendeu, quase messiânica. Se estivesse vivo, Donizete se
comoveria novamente só de lembrar. Ainda mais depois de algumas cervejas,
que sempre o deixavam meio sentimental. Fernando falava como um profeta.
Daqueles bem abilolados.

Voltando a si, e ao assunto, Fernando seguiu: "A Copa de 98 foi da França, da
Adidas. Mas o acordo comercial era mais amplo. Não foi bem uma venda, foi
mais uma permuta. Veio a Copa de 2002."

"E deu Brasil."

"Sim, deu Brasil. Era a vez da Nike faturar, Gelol. A França ficou fora do
páreo, logo na fase de grupos, com suas estrelas se arrastando. Não foi por
acaso. Estrategicamente, era importante para a Adidas dar destaque para
outra seleção controlada por ela. A escolhida foi a Alemanha, que estava
acabada, mas seria a sede do próximo mundial. Era preciso valorizá-la. De
qualquer jeito, 2002 era da Nike. É claro, do Brasil. Escaldado, Ronaldo
ficou na miúda, um cara esperto, percebeu o tamanho da coisa ao seu redor.
Além disso, agora ele ia se dar bem. Se consagrou..."

"Os jogadores estavam no esquema de novo?", eu perguntei.

"Claro que sim, não funcionaria sem eles. Como em 98, quase todos, mas com
certeza os graúdos. O goleirão, o Kanh, como foi a atuação do cara na final?
Ele deu o 'passe' para o Ronaldo! Bateu uma roupa como nunca tinha feito na
carreira, certo? Pois é, e ainda foi eleito o melhor da Copa! Tinham
reservado um agrado para o cara. Tava tudo no pacote!"

"Meu Deus!", se assombrou Gelol. "Faz todo o sentido."

"Gelol, calma, peraí. Fernando, você pediu para eu te ouvir, eu ouvi. Até
peço desculpas se eu comecei a fazer piada, tá legal. Não era a hora, eu
sei. Mas fala só pra gente: você esqueceu de tomar os remédios de novo?
Olha, se o médico descobre te coloca no manic..."

Pláá, pláá!!!!!!!!

Dois tabefes estalaram na cara de Donizete. Ida-e-volta, com a palma e as
costas da mão. Nem Donizete, sempre espirituoso e bem-humorado, acharia
aquilo normal. Só que, mais uma vez, ficou sem reação. Logo após as
bofetadas, um abraço desesperado de Fernando o deixou impotente. Um abraço
como um último abraço, definitivo. Do aperto, Fernando levou as mãos aos
cabelos de Donizete, agarrando-os, puxando fraternalmente a cabeça do amigo
em direção a sua.

"Irmão, meu irmão! Eles estão te manipulando, estão controlando você! Se
liberte deles, amigo. Confie na gente, nós estamos aqui, com você..."

O tom era de revelação. Durante o discurso do iluminado, Rica e Gelol se
aproximaram, estendendo os braços ao ombro e à nuca de Donizete,
respectivamente. Foi um momento demorado, até tocante. Uma das coisas mais
esquisitas que já vi.

Interrompendo a comoção, acho que me senti excluído e perguntei:

"Mas e aí, acabou assim?"

"Não, ainda não. Em 2006, tudo estava zerado. Nike e Adidas não chegaram a um
novo acordo, era cada vez mais difícil 'convencer' (nesse momento, Fernando
esfregava os dedos fazendo o característico sinal de dinheiro) as seleções,
os jogadores, a cartolagem. A imprensa cobrava mais caro também. Enfim, não
ia mais rolar. Só que a coisa azedou. Porque a Adidas resolveu partir para o
cada um por si. No Brasil e França, de 2006, tiveram uma ajudinha do Roberto
Carlos. Arrumar a meia, dá para acreditar?"

Todo mundo foi para cima do cara. Só que para ele, esse 'todo mundo' tava no
rolo de novo, esse tipo de coisa não se conversa com ninguém, fica
implícito. Aí ele via o Ronaldo com 140 quilos, o Gaúcho pisando na bola, o
Parreira com a cara de Parreira. Bem, ele pensou, só o Kaká tá fora dessa.

"Os caras ficaram furiosos. A Nike não ia deixar barato. A França chegou na
final, e o que aconteceu? O Zidane é expulso. Merecido, é claro que
merecido. Mas quem cavou a expulsão do cara? O tal do Materazzi. Já viu um
brucutu daquele ser garoto-propaganda de alguma coisa? O arranca-toco, no
'joga bonito'??? Pois é, era a última esperança da Nike, que aceitou na hora
as condições do italiano. E aí veio aquela história que ele ofendeu a
família do cara... Mexeu com a irmã coisa nenhuma! O que ele falou foi que
sabia do esquema de 98, que ia revelar para todo mundo que o grande craque
era uma fraude. Pois é, o Zizou se descontrolou. Uma baita carreira, melhor
do mundo, cracaço, ia acabar assim, desmascarado? Meteu o coco no italiano.
O cão de guarda conseguiu o que queria e man..."

Ouviu-se um engasgo. Era alguém segurando a risada. Outra vez, Donizete nem
teve tempo de reagir. Que descanse em paz.

 

Por Torero às 07h20

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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