Blog do Torero

28/09/2008

Clube de Futebol Pasquale

Clube de Futebol Pasquale

Por Marcio R. Castro

Pelas ruas, é fácil nos depararmos com pessoas vestindo roupas com mensagens em inglês, como “please, keep on smiling” ou “brazilian psicho surfers”. Em sua esmagadora maioria, as inscrições não têm qualquer propósito, é apenas bacana (“cool”, perdão) ostentá-las.

Se hoje isso pode ser apontado como um retrato da influência cultural que sofremos dos Estados Unidos, era outra nação de língua inglesa que exercia esse papel no fim do século 19, começo do 20. Justamente o berço do idioma, a própria Inglaterra.

Podemos achar prova dessa influência também no futebol, elo marcante entre os dois países (eles, os inventores, nós, os “inventores”). Os nomes completos de muitos de nossos clubes deixam claro que não é de hoje que somos assombrados pelo anglicismo. Só que, como de costume, fomos ainda mais longe: transformamos o anglicismo em anglicídio e, por conseqüência, em lusocídio também.

É verdade que a palavra “futebol”, em sua forma aportuguesada, só seria criada no começo da década de 30. Até então, usava-se “foot-ball” ou “football”, de maneira similar ao que ocorre hoje com a palavra “mouse”, com a grafia original incorporada ao Português.

De acordo com o dicionário Houaiss, as palavras “clube” e “esporte” também só seriam grafadas assim em 1899 e 1928, respectivamente. Antes disso, eram “club” e “sport”. Esportivo era, evidentemente, “sportivo”. Porém, tais palavras podiam ser usadas adequadamente, sem nenhum problema, como podemos ver no nome que os cruzmaltinos mantêm até hoje, Club de Regatas Vasco da Gama, ou como no tradicional periódico carioca, o “Jornal dos Sports”, que também conserva seu nome original. Português bem aplicado, na grafia da época.

Mas vamos às acusações de assassinato. Paremos para pensar: o Liverpool Football Club, se fundado aqui, seria Clube de Futebol Liverpool, certo? No fim do século 19, Club de Football Liverpool. Nada mais natural. Porém, não foi o que aconteceu. Santos, Cruzeiro e São Paulo são alguns exemplos da confusão lingüística criada.

O tricolor paulista, por exemplo. Em vez de Clube de Futebol São Paulo, foi batizado como São Paulo Futebol Clube, estranha formação que manteve a estrutura idiomática em inglês, mas que traduziu as palavras para o português, sem levar em conta que formam uma locução. O que hoje nos soa comum é na verdade bizarro. Não existem “futebóis clubes”, e sim clubes de futebol.

Internacional e Corinthians fizeram o contrário. Deixaram os substantivos comuns em inglês, mas quebraram a estrutura do idioma bretão ao colocarem o substantivo próprio por último. Então, o que deveria ser Clube Esportivo Internacional (ou Club Sportivo Internacional, pela época de fundação), não conseguiu sequer ficar no anglicismo escancarado que Internacional Sport Club proporcionaria: se tornou Sport Club Internacional, deformação em qualquer dos dois idiomas.

Outro caso inusitado é o do Leão da Ilha. Verdadeiro “frankenstein”, não quis ser nem Clube Esportivo do Recife (Club Sportivo do Recife, em 1905) nem Recife’s Sport Club. Virou Sport Club do Recife.

Mais exemplos dessa salada de idiomas não faltam: Esporte Clube Bahia, Esporte Clube Vitória, Paraná Clube, Figueirense Futebol Clube, Ceará Sporting Clube, Fortaleza Esporte Clube, Goiás Esporte Clube, Atlético Clube Goianiense, Santa Cruz Futebol Clube, ABC Futebol Clube e tantos outros.

Poucos são como Fluminense, Coritiba e Paysandu, que assumiram o anglicismo, mas não podem ser acusados de assassinarem os vernáculos: são Fluminense Football Club, Coritiba Football Club e Paysandu Sport Club, em inglês e pronto.

Reunidos em um grupo reduzido, alguns clubes não cometeram pecados contra os idiomas e nem se curvaram à rainha. Como não poderia ser diferente, a Lusa é um deles: Associação Portuguesa de Desportos, ora pois!

Sociedade Esportiva Palmeiras e Botafogo de Futebol e Regatas, dois dos nomes com maior personalidade de nosso futebol, também estão nesse grupo, ao lado de Clube de Regatas do Flamengo, Clube Náutico Capibaribe, Associação Atlética Ponte Preta, Clube do Remo, Clube Atlético Mineiro, Clube Atlético Paranaense, Associação Desportiva São Caetano e outros poucos.

Dos maiores clubes do Brasil, somente o Grêmio não havia sido mencionado por mim. Mas não foi esquecimento, preferi deixá-lo para o encerramento do caso. O glorioso Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense também não passou nos critérios desse tribunal improvisado. Às vezes, um pequeno detalhe como um “de” (que eu pensei que existisse) pode alterar dramaticamente o veredicto.

Curiosamente, as distorções que ocorreram ao longo dos anos foram se auto-alimentando e se tornaram padrão, verdadeiras aberrações. Por mais esquisitos que sejam os resultados, não há muito que possa ser feito, pois se trata de uma situação consolidada há muito tempo. Como diria o ilustre professor, é isso.

(A seção Sempre aos Domingos sempre traz textos enviados por leitores. Se quiser opinar sobre algum assunto futebolístico, mande aí o seu)

Por Torero às 21h52

14/09/2008

Sempre aos domingos: Adeus para um anão ou para o chinelão

Sempre aos domingos: Adeus para um anão ou para o chinelão

escrito por Fabiano Macieri

Adeus Dunga! São os gritos que o perseguem nessas Eliminatórias. Ele já parece estar bem mais conformado que em outras situações, onde batia o pé e se descabelava com os vexames. Todos, e ele também, sabem que, com outra decepção, esses gritos irão se confirmar. Muitos já querem agora, mais a grandessíssima e ilustre Confederação Brasileira de Futebol, vulgo Ricardo Teixeira, está com muito trabalho para se preocupar com essas bobagens de seleção.

O que eu vi no jogo contra a Bolívia não foi o Dunga errando passes e jogando como se quisesse que acabasse logo o jogo pra voltar para Europa. Não sou um defensor de Carlos Caetano Bledorn Verri no comando da seleção, sou a favor de “um técnico”, um técnico de verdade qualquer que seja. Mas não o crucifico. Quando jogador muitas vezes atuou muito bem. Corria, marcava e gritava, o que se espera de um capitão na época em que o Brasil era o Brasil.

O esquema que ele adota na seleção é ridículo. Todos sabem e criticam. É praticamente um desmanche: só volantes e peças de segunda mão, invenção de jogadores como Afonso, Fernando, Mineiro e Josué. Mas aí eu pergunto: E as peças importadas, caras e novas? Jogadores chinelinhos, esses sim eu quero fora da seleção.

Vendo os jogos na Olimpíada, Thiago Neves e Henanez, que ainda não encaixaram o chinelo, destruíram nos jogos. Ronaldinho é aquele cara que trabalha em uma grande empresa, faz de tudo para ela crescer, se dá bem e enriquece muito. Mas, de uma hora pra outra, ela está tão bem que ele não precisa mais se preocupar. É só mantê-la e, então, começa a curtir festas sem preocupação comer sem preocupação. Ou seja, um rico sem preocupação.

Robinho ainda precisa fazer a empresa crescer mais para chegar a um mesmo patamar. Como precisa lucrar, ainda se esforça. Tem também os homens trabalhadores: Lúcio, Julio César, Juan e alguns outros. Esses gostam do lugar onde trabalham e querem sempre que o negócio ande. Futebol é um grande negócio para eles.

A CBF podia adotar em todos os clubes que têm jogadores brasileiros uma lista para ser preenchida: a inscrição para a seleção. Vamos inverter a coisa, só convocando quem quiser ser convocado. Será que Ronaldinho Robinho e Kaká iriam se inscrever? Só se o jogo for na Europa, claro.

A CBF é tudo menos uma Confederação Brasileira. É uma multinacional com sede no Rio de Janeiro, vendendo um produto importado caro, que está dando problemas. Seus clientes foram enganados e é necessário um recall de todas as peças. Mas ela  não irá ter prejuízos. Por isso fazem a reposição com peças reaproveitadas e despedem o Diretor de Produção, jogando em suas costas a culpa e a responsabilidade. É o que ira ocorrer: Dunga se despedirá, com certeza. A pressão é enorme. A CBF continuará lucrando e nós torcedores iremos noa contentar com uma nova seleção, tomara que sem jogadores chinelões. Adeus Chinelões!

 

Por Torero às 00h22

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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