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Este blog é atualizado às segundas, quartas e sextas antes do meio-dia.


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Já é

(por Carlos Eduardo S. Souza)

 

Jales dirigia cuidadosamente o seu carro, pela BR-040, voltando do trabalho que fazia de vigilante na torre do Shopping Alta Vila, em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte.

Todo o cuidado com que Jales guiava seu veículo era pouco, pois naquele trecho da rodovia, a descida do Bairro Olhos D’Água, por onde ele passava, o número de acidentes é assustador.

Pelo retrovisor, Jales viu uma carreta se aproximar rapidamente.

Preocupado, tratou logo de levar seu carro para a faixa mais à direita, e a carreta atrás, já piscando um farol que não tinha tamanho.

De repente, um baque e um susto. A Belina 79 de Jales deu num buraco que não ele não vira, tão tenso estava, e o pneu furou.

Entrou pelo Bairro Betânia, resolvido a nunca mais fazer aquele caminho outra vez, sem saber, entretanto, como faria então para chegar a Ribeirão das Neves, onde morava com a mulher e a filha.

Encostou o carro um pouco à frente e, ainda taquicárdico, desceu. O pneu, de fato, fora embora.

A Belina até tinha estepe, mas não tinha uma ferramenta sequer.

- Que foi aí, véio?! – alguém perguntou.

Um jovem alto, usando boné e uma camisa do Atlético já estava agachado ao lado do carro, olhando o pneu estourado.

- Entrei num buraco ali no Anel, cara.

- Tem estepe não?

- Tem, mas tô sem chave e macaco pra levantar o carango.

- Já é. Vô lá em casa buscá, que eu tenho... Peraí!

- Pô, irmão, valeu mesmo. Brigadão!

- Já é.

O rapaz não demorou nadinha.

Enquanto trocavam o pneu, iam conversando. Foi quando Jales soube que o jovem morava ali perto e se chamava Jefferson, mas era conhecido como Moicano.

- Por causa do cabelo – disse, tirando o boné.

Moicano era motoboy, tinha 24 anos, era solteiro, mas tinha um filho pequeno com uma menina do colégio.

- A vida é dura, mermão! – e concluiu – E ainda tem o Galo que num ganha...

Os dois riram.

Jales disse que o Cruzeiro também não estava isto tudo. Que o time era bom no meio-campo, mas destoava um pouco na defesa e ainda não acharam o cara pra jogar com o Guilherme lá na frente.

- ‘Cê é cruzeirense?

- Hum-hum.

- Ihhh... Que maré, aê! Tanta gente pra ajudar e me cai logo um cruzeirense!

E os dois riram de novo.

- Pelo menos ‘cês tão ganhando uma coisinha aqui, outra ali de vez em quando. E a gente que custa a ganhar, e quando ganha é só esse mineiro páia aê!

E os dois foram ali, conversando, rindo e trocando o pneu da Belina.

Quando terminaram, Jales agradeceu:

- Quanto é que eu te devo, cara!

- Sai dessa, maluco. ‘Cê tem dinheiro?

- Não.

- Então, véi! Num vem com esse papo mole de dívida, que isso é coisa de grã-fino. Nóis é tudo parceiro, trabalhador, plebe, sangue-bom, aê...

- É mesmo, valeu!

- Manda seu timeco perder pra nóis no domingo, e tá tudo certo!

- Hahaha! Só, cara. Vou mandar. Mas valeu mesmo. Brigadão!

- Já é.

Jales entrou no carro, e viu Moicano atravessando a rua e sumir, dobrando uma esquina.

- Gente boa, esse Moicano. – pensou.

***

No domingo, o jogo entre Cruzeiro e Atlético, como sempre, agitaria a cidade. Eram esperadas mais de 50 mil pessoas e cidade respirava o clássico.

À medida que o horário da partida se aproximava, o fluxo de pessoas em direção ao estádio aumentava.

O grupo de amigos em que Jales estava era, ao todo, de umas 20 pessoas.

Moicano foi junto com uns amigos para a sede do Galo, em Lourdes, e, de lá, seguiam até o ponto de ônibus que os levaria ao Mineirão.

O pequeno grupo cruzeirense cantava o hino do clube e descia ali pela Rua Rio Grande do Sul.

Os atleticanos gritavam palavras de ordem, e vindos da Avenida Olegário Maciel, já contornavam a Praça Raul Soares.

Foi então que, nas esquinas da Rua Goitacazes com a Avenida Bias Fortes, no centro de Belo Horizonte, aconteceu o fatídico encontro.

O quebra-quebra foi geral.

Paus e pedras voavam entre os carros. O embate era de uma brutalidade assustadora.

Jales armara-se de um pedaço de fibra arrancado de um orelhão que seus amigos quebraram.

Seu grupo, menor, era perigosamente acuado.

Moicano e seus amigos lançavam pedras das calçadas, e espalhados por um raio maior, tentavam cercar os cruzeirenses.

Rapidamente a pancadaria selvagem começou.

Outros torcedores que por ali passavam também entraram na briga, e a correria se espalhou pelas ruas adjacentes.

Jales tentava defender-se dos chutes e socos, usando sua fibra, feita lâmina.

Moicano aproveitava a vantagem numérica dos torcedores atleticanos, e se juntava a outros na hora de atacar.

Por uma brecha entre dois carros, Jales se lançou e, desesperado, tentou fugir do grupo que se aproximava cercando-o, mas foi atingido por um pontapé e caiu, batendo fortemente a cabeça contra um poste.

Alguém gritou: “Mata!”.

Moicano se virou e viu alguns de seus amigos partirem pra cima de um cruzeirense atirado ao chão.

Outros cruzeirenses chegaram para ajudar, e fizeram um cerco a Jales, que tentava se reerguer, mas o número maior de atleticanos os fez fugir novamente.

A polícia chegou atirando suas bombas de efeito moral, e gás lacrimogêneo.

A turba, então, desfez-se.

Jales, mesmo grogue, tentou correr de novo, mas caiu.

Moicano e seus amigos, correndo, depararam-se com o agonizante cruzeirense em seu caminho, e cada um tratou de dar-lhe ainda um golpe final.

Vindo em último, Moicano atingiu-o fortemente na cabeça, com um pedaço de madeira que encontrara no chão.

- Já é – disse a si mesmo.

E Jales tombou definitivamente.

***

De volta ao trabalho, na segunda-feira seguinte, Moicano estava feliz. Seu Galo ganhara, e ganhara bem. Ia assobiando e cantando o hino do Atlético sobre sua moto.

Lançou um dos exemplares do jornal que entregava, na portaria do Shopping Alta Vila, onde Jales ainda não havia aparecido.

Na manchete do jornal, o “Show do Galo” era tudo o que se lia.

Mas do outro lado da cidade, o ronco seco do motor de uma Belina não foi ouvido.

Só o choro de uma mãe e sua filha.



Escrito por Torero às 22h57
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Sempre aos domingos - Uma idéia para Isidoro

Texto de Marcio R. Castro

Esta semana, em ação de busca e apreensão da polícia, foram encontrados na sede da torcida organizada Mancha Verde munição, clavas de metal, bastões de madeira com pregos e outros apetrechos que em nada lembram bandeiras, flâmulas ou faixas.

Um dos “diretores” da torcida, Isidoro Lopreto, prometeu severas providências. “As pessoas que erraram serão penalizadas, podendo, inclusive, ser excluídas do quadro de sócios. A entidade está acima de qualquer coisa”.

Sugiro ao austero Isidoro que comece as expulsões pelo “presidente de honra” da torcida, Paulo Serdan. Afinal, seu extenso currículo de violência foi coroado recentemente com as agressões ao técnico das categorias de base que ousou tirar seu filho de um jogo. Costelas e dentes quebrados, ainda que só alguns, não devem ficar na conta da entidade, não é mesmo?

Na mesma leva, o atual “presidente” da organizada, Jânio Carvalho, poderia sofrer impeachment. Há pouco tempo, o representante máximo da torcida deu uma edificante declaração, após desavença com seguranças do Palmeiras em que dois membros da torcida foram esfaqueados. "Se tivermos que fazer alguma coisa, vamos resolver na mesma moeda. É olho por olho e dente por dente. Se a Justiça não fizer, vamos ter que fazer. Depois não adianta me prender. Eu volto para a cadeia, mas volto com ele [segurança]". Pelo que entendi, Jânio iria para cadeia e o segurança para o cemitério, mas deixa para lá. O importante é que a família Mancha Verde não vai compactuar com ameaças de morte. Já vai tarde, presidente!

Isso geraria um devastador efeito cascata. Na Gaviões da Fiel, por exemplo, o ex-“presidente” Douglas Deúngaro, vulgo Metaleiro, seria afastado sumariamente da torcida. Aquele, que durante sua gestão, em 1997, planejou e executou a emboscada ao ônibus do Corinthians, em plena rodovia dos Imigrantes, apedrejando e aterrorizando jogadores e demais membros da delegação. Sim, ele mesmo, que se escondeu no banheiro do ônibus da equipe (já reformado, 10 anos depois do primeiro ataque) e, de surpresa, agrediu novamente jogadores que não honraram a camisa alvinegra. Como sobram outros episódios em sua ficha que não condizem com lealdade, humildade e procedimento, não ia ter jeito: rua!

Na Independente, torcida são-paulina, o primeiro da lista seria o ex-“presidente” Carlos Amorosino Júnior, o Sukita. Condenado a 14 anos de prisão pelo assassinato a pauladas de um torcedor “rival”, o “presidente” enfrentaria agora o crivo de seus colegas, preocupados também em preservar a instituição e em manter o ambiente amistoso dos estádios. Um a um, começando por Sukita, cairiam aqueles que tanto desonram a Independente.

Apesar do cenário otimista que se anuncia se minha sugestão for aceita, uma coisa me incomoda. Todos os casos mencionados acima se referem aos “presidentes” das associações, aos líderes máximos de cada grupo. Constantemente, ouvimos desses “dirigentes” que não há como exercer controle sobre milhares de pessoas, que a torcida não deve ser responsabilizada nem punida pelos atos individuais de cada integrante.

Pura balela. O discurso dos líderes das torcidas organizadas é absolutamente demagógico, já que são justamente eles que incentivam, promovem e praticam os mais absurdos atos de violência e selvageria. O pior é que, pelas posições de destaque que ocupam, eles se tornam o exemplo a ser seguido. Para completar o círculo, devemos lembrar que nossos heróis são eleitos pelos sócios das agremiações, que formam efetivamente o que chamamos de torcidas. É evidente, então, que as instituições têm sim responsabilidade sobre si mesmas, já que são os sócios que escolhem os rumos que sua torcida deve seguir ao eleger e compactuar com seus nobres representantes.

Isso leva a crer que a mentalidade dominante das organizadas, como um conjunto, e não individualizada nas pessoas que as compõe, é essa mesmo que conhecemos, ainda que imposta por uma minoria atuante frente a uma maioria desinteressada: violenta, belicista, hipócrita e muitas vezes criminosa. Portanto, nada mais justo do que responsabilizar e punir também as torcidas pelo comportamento de seus componentes.

Talvez assim, sob o risco de sofrer sanções, multas, suspensões e, em último caso, extinção, a maioria adormecida (será mesmo que é maioria?) se levante e tome conta de verdade de sua torcida. Ou, impulsionados pelo instinto de sobrevivência, os que hoje comandam as agremiações mudem suas atitudes.

Parte fundamental desse processo civilizatório, a maneira como os clubes se relacionam com as organizadas também deve mudar. Carga de ingressos exclusiva, viagens bancadas pelo clube, reuniões com a diretoria e comissão técnica, tudo isso deve ser eliminado ou, pelo menos, vinculado à transformação de conduta das torcidas. É preciso que apenas um cartola, assim como vai fazer Isidoro, comece a revolução. Alguém se habilita?



Escrito por Torero às 06h36
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