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Este blog é atualizado às segundas, quartas e sextas antes do meio-dia.


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Sempre aos domingos

Sempre aos domingos

Muitos leitores reclamaram do fim precoce da série "Estórias das Copas". Mas três deles resolveram o problema por conta própria. Carlos Eduardo Massarico, Max Fischer e Thomas Pacheco botaram a mão na massa, dio, no teclado, e criaram um texto que mistura Winning Eleven com a Copa de 2002. O texto é longo, mas vale a pena.

 

2002 - Para conquistar o mundo é preciso atravessá-lo

Sempre tive duas grandes paixões na vida: Winning Eleven e Mangás. Tinha dezoito anos e no bolso minha vaga para Publicidade no Mackenzie. Logo na primeira semana de aulas fiz duas amizades daquelas de levar para sempre. Seriam os meus companheiros de bares e tardes vazias nos quatro anos mágicos que viriam. Cadu e Thomas eram dois fanáticos por futebol. Antes que eu me esqueça, meu nome é Daniel, a maioria me chama de Del, mas meus grandes amigos me chamam apenas por Deolino.

Estava montado então o circo. Não demorou muito para criarmos uma liga universitária de WE. Cadu, sempre com espírito de perfeccionismo, queria tudo ao seu modo, então nunca deixou que eu ou Thomas fossem os organizadores dos torneios. Era o presidente e anfitrião, disponibilizava sua casa para os encontros. Thomas era seu tesoureiro e eu, entre um jogo e outro, comprava uns salgados na padaria da esquina com os trocos da faculdade.

Numa daquelas tardes de futebol no ar e nas discussões apaixonadas, descobrimos que haveria uma Copa do Mundo de Winning Eleven, disputada no Japão, na mesma época da verdadeira Copa do Mundo, nosso assunto mais discutido entre uma partida e outra. Sem pestanejar, nos inscrevemos. Sequer tinhamos pretenções mais animadoras. Nas eliminatórias brasileiras, ficamos surpresos com Cadu e Thomas, que conseguiram ficar entre os primeiros e garantiram a vaga no individual, enquanto eu e Alan, um dos participantes de nossos torneios modestos, vencemos nas duplas, ao ganhar de dois japoneses que faziam Cinema na USP. Eles haviam aniquilado os adversários, mas desde quando Nakata era melhor que o Rivaldo?

Com as passagens garantidas, nos deparamos com um problema dos grandes: não poderíamos faltar por quase um mês na faculdade sem correr o risco de sermos jubilados logo no primeiro semestre. Quis o destino ou os deuses do futebol, que o Mackenzie entrasse em greve logo naquela semana, a mesma de nosso maior triunfo como atletas, virtuais, mas mesmo assim atletas. Meu companheiro de duplas não teve a mesma sorte. Alan já fazia estágio, não estava disposto a perder seu emprego. Thomas faria dupla comigo.

Naquele ano a Copa do Mundo prometia ser histórica. Não devido a nossa crença na seleção brasileira, que vinha capengando desde 98, quando foi arrasada no St. Denis pela França de Zinedine. Pela primeira vez a Copa ocorreria fora do eixo América-Europa e além disso, era uma Copa dividida entre dois países de grande rivalidade política: o Japão e a Coréia do Sul. Nos mesmos países ocorreria a nossa Copa do Mundo.

No banco tínhamos Felipão, que deixava de fora o baixinho Romário para dar seu lugar a Luizão. Mesmo com os pedidos do povo e do próprio dono da CBF. Mas o técnico gaúcho era duro na queda, pagou pra ver. Marcos, Lúcio, Edmilson, Roque Júnior, Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Esse era nosso selecionado.

Chegamos ao extremo oriente alguns dias antes do jogo do Brasil contra a Turquia. No aeroporto vimos a vitória surpreendente de Senegal sobre a França. Foi o suficiente para Cadu mandar mais uma de suas pérolas. Adorava usar da ironia para nunca estar errado: se acertasse, era sério, se errasse, era só mais uma brincadeira inocente e despretenciosa.

- Vai ser o ano das zebras. Que Ronaldo, que Rivaldo, o craque mesmo vai ser o Luizão. Ele pôs o Brasil na Copa. – profetizou Cadu, ao mesmo tempo em que carregávamos as malas para o centro de convenções do torneio.

- Acidente de percurso. A França tem um grande time e vai se classificar sem problemas. – retruquei enquanto tentava decifrar um mapa horroroso, mal desenhado do aeroporto, até que desisti e fui usar o instinto brasileiro.

Depois de termos nos perdido, é claro e quase sermos desclassificados do torneio por não chegarmos ao hotel a tempo, fomos encaminhados para os sorteios dos grupos, pois cada competidor jogaria com uma única seleção o torneio todo. Thomas acabou caindo com a Alemanha e adorou a notícia, era uma seleção de força, Cadu ficou com o Uruguai, tudo o que mais queria, afinal jogava mais com raça do que com habilidade, não tinha jogo perdido pra ele. Já nas duplas, Thomas ficou triste, eu fiquei muito contente. Nas duplas teríamos nas mãos, nada mais, nada menos, que o Brasil.

Meu jogo só aconteceria na manhã seguinte, véspera da estréia da real seleção brasileira. Mesmo assim, na competição virtual o festival das zebras se iniciou. Veio a queda da França, perdendo seus dois jogos, eliminada sem fazer um golzinho sequer. Japão e Coréia do Sul, grandes azarões, levaram a diante seus elencos. Cadu não conseguiu sua classificação, mesmo após uma vitória épica, e como ele mesmo diria “de puro coração”, sobre a Argentina, em um 3 a 2 que entraria para a história. Depois, veio a derrota de goleada para a Nigéria, um 5 a 1 esmagador. Pra variar, ele deu espetáculo: quebrou o controle depois de uma pancada com gosto no chão e um chororô danado.

- Vocês viram aquele pênalti claro que o juiz não deu no Zalayeta? Poxa, ele é gênio da bola, não ia se jogar frente-a-frente com o goleiro! E os gols de impedimento dos nigerianos? Dois foram claríssimos. Foi roubo, foi roubo. – ele chorou depois da desclassificação.

- Ah, Cadu, relaxa, vamos ver se seu Uruguai classifica na Copa mesmo, agora é o que resta, você pegou sentimento demais por nossos rivais! – alertou Thomas, que ainda jogaria naquele mesmo dia.

Quis o destino que ele também fosse desclassificado. Caiu horas depois de nosso amigo “uruguaio”. Contra a seleção do Senegal, comandada por um irlandês pé-de-cana. Depois o empate contra a Inglaterra, por mais que tenha sido um jogaço em 0 a 0, foi só o jogo de despedida do Thomas. Tristes, fomos conhecer a cidade, onde acabamos num bar de um Dekassegui gente boa.

Brasileiro, neto de japoneses, o senhor nos recebeu muito bem. Com os meus dois amigos ainda inconsoláveis, resolvemos chorar nossas mágoas. Era triste ser eliminado na primeira fase. Mas saquê vai, saquê vem, começamos a nos animar. Foi quando conhecemos um velho simpático chamado Feijão e seu cachorro Marcos Roberto.

- É o único cachorro que entende de futebol. – explicou Feijão, depois de beber uma dose de saquê.

- Duvido. – eu disse.

- Não acredito. – revelou Thomas.

- Pago pra ver. – apostou Cadu.

- Irei provar então. – disse Feijão, jogando uma pequena bola em direção ao cachorro, que ao invés de morder a bola, a dominou com a cabeça. Não era ainda o bastante: começou a fazer embaixadinhas. – Viram?

Rimos. Nos despedimos de Feijão e marcamos um novo encontro no dia seguinte, para combinarmos de ver juntos o jogo inicial do Brasil. Acordamos mais cedo no dia seguinte e fomos ao centro de convenções. A arena já estava montada. O adversário seria uma dupla de turcos que tiveram a sorte de pegar a seleção de seu país.

O jogo começou tenso. Não que os turcos jogassem alguma coisa, mas Thomas ainda não parecia ter engolido a derrota no dia anterior e não acertava os passes curtos. No final, com um pouco da ajuda da sorte, vencemos o nosso primeiro desafio. Como Cadu havia dito, Luizão era o gênio da bola. Fomos ao bar comemorar e lá estava Feijão, com uma agradável surpresa: passagens e ingressos para o jogo inicial.

- Ia com alguns amigos, mas acho que me desencontrei deles. Melhor dar os ingressos a vocês do que ter algum lugar vazio no estádio, né?

Embarcamos para a Coréia, onde o Brasil enfrentaria a Turquia. O jogo começou parecido com o virtual. O escrete canarinho parecia estar em estado de choque ou algo do gênero. Conseguimos terminar o primeiro tempo atrás e só viramos com um gol de canela do Ronaldo – mas é gol, argumentaria Feijão – e com um pênalti forjado dele: Luizão. Cadu foi à loucura, se achava vidente.

O próximo adversário do Brasil era a China. Não é que a China acabou sendo a minha próxima rival no torneio? Com Thomas um pouco mais tranqüilo e com a tarde inspirada de Marcos no gol e Romário – sim, ele mesmo, a pedido de seu grande fã, Cadu, convocado – no ataque, vencemos por 3 a 0. Tínhamos a vaga e com uns dias de folga, aproveitamos para pegarmos um avião até Seogwipo, para assistir o confronto verdadeiro do Brasil com a China. Regalias concedidas pela vitória no torneio. Uma maravilha.

Mais calmo, o Brasil fez 3 a 0 só no primeiro tempo e esperou o tempo passar no segundo. Ainda fez mais um com o Fenômeno. Com uma bolinha até que razoável a nação verde-amarela estava nas oitavas-de-final.

(continua no post abaixo)



Escrito por Torero às 08h30
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(continuação)

Enquanto eu e Thomas passávamos os dias treinando para as oitavas contra a Argentina, carrasca no saldo de gols contra nosso amigo Cadu, ele próprio havia encontrado um rival a altura quando o assunto era discutir a história do futebol: ele mesmo, Feijão. Podia ter seus cento e tantos anos, mas não havia história do futebol que ele se esquecesse.

Ainda tínhamos tempo até a próxima partida, então resolvemos pegar um trem-bala e ver a seleção contra a Costa Rica. No trem, continuamos os treinos no Winning Eleven, enquanto Cadu e Feijão discutiam o posicionamento defensivo do time nos últimos jogos.

- Com esse posicionamento ridículo, não sei não. Essa zaga vai falhar, cruzamento na área é meio gol! É amigo, haja coração! – afirmou Cadu, usando um jargão de mais um de seus ídolos da narração.

- Está bem, rapaz! Vamos ver quem tem razão no jogo contra a Costa Rica! – encerrou a conversa Feijão, enquanto tomava um coquetel de remédios para o coração, vivido de tantas Copas.

Não deu outra. Vencemos por 4 a 2 da Costa Rica, mas adivinhem de qual maneira saiu o segundo gol da equipe da Concacaf? O sinal de alerta estava dado pelo “hermano uruguaio”.

Nas oitavas, o Brasil teria a Bélgica pela frente, em Kobe. No hotel, um telegrama informou que nossa próxima rodada nas duplas também seria em Kobe. Para nossa tristeza, seria no mesmo dia e horário do jogo do Brasil. Foi o jogo mais fácil do campeonato para nós, Thomas vestia a camisa inglesa e fez o papel de inibir os argentinos. A goleada só não foi mais sonora porque ficamos atentos a qualquer detalhe do jogo do verdadeiro Brasil.

Contra a Bélgica, contamos com a sorte, mas com um poderoso chute de Rivaldo, inspirado na Copa, e com um leve desvio de Ronaldo, renascido na Copa, que o goleiro Geert quase defendeu. Nas quartas, viria a Inglaterra. Só viríamos os melhores momentos no quarto do hotel, enquanto comemorávamos nossa passagem às quartas. Segundo Cadu, não seria exagero em falar que a Bélgica poderia ter ganho aquele jogo, mas o Brasil tinha a sorte do campeão. Começara desacreditado na Copa, mas já estava entre os oito melhores.

Infelizmente, as agendas não bateram dessa vez. Enquanto o Brasil jogaria em Shizuoka contra os ingleses, a próxima rodada do torneio seria em Osaka. Nos despedimos de Feijão e seu cachorro bom-de-bola e pegamos um trem-bala em direção a Osaka, enquanto Feijão viajaria de avião. Nosso jogo, de novo seria no mesmo horário da partida do Brasil. Um sufoco.

Entrei no estádio suando frio, pois até ali não parecia acreditar que eu poderia ter chego às quartas da minha Copa do Mundo. Cadu ficou com um rádio ligado, ouvindo o jogo em japonês, mas atento ao nome dos jogadores. Se fossem os de ataque, o grito de gol era um momento feliz, se fossem os de defesa, o grito de gol seria um martírio.

Nosso jogo começou brigado. Os adversários eram dois mexicanos que comandavam a Irlanda guiada por Robbie Keane. Numa falha grotesca de Lúcio, que era controlado pelo meu controle, eles abriram o placar. Thomas até ameaçou uma reclamação, mas alguns minutos depois, tudo mudaria. Sofri uma falta no meio de campo, despretenciosa. Pensei num botão, apertei outro. Na hora da cobrança, mandei chutar, mas de repente o Ronaldinho cruzou.

- Mas não era o bola que chutava? – perguntei em voz alta.

Encobri o goleiro deles. Um gol que ninguém tinha visto ainda. No intervalo de nosso jogo, Cadu veio com a notícia de que o Brasil estava empatando em 1 a 1 com a Inglaterra, que Lúcio tinha falhado e que Rivaldo havia empatado. Depois da primeira notícia nos assustamos. Tinha sido igual ao jogo! Mas o gol do Rivaldo nos aliviou, não estava sendo igual.

Voltamos no jogo e conseguimos a virada justamente com Rivaldo, em uma bela assistência de Ronaldinho, comandado pelo Thomas. Viramos na base da raça e do coração, nos melhores ensinamentos do Cadu.

- Quando não dá na técnica, vai na raça!

Terminado nosso jogo, respiramos aliviados. Estávamos nas semifinais. Quase nos esquecemos das quartas do Brasil visto por milhões. Cadu, que estava com os olhos no nosso jogo e os ouvidos no rádio, preferiu não dizer como foi o gol da vitória do Brasil. Disse que não entendeu o que o japonês disse. Realmente foi uma boa desculpa.

Nosso torneio estava acabando, mas teríamos pelo menos mais dois jogos, na pior das hipóteses a disputa de terceiro lugar. Em Saitama, o Brasil teria pela frente a Turquia, carrasca do Japão e de Senegal, sem contar na vitória contra os franceses na estréia. No jogo, teríamos a Espanha.

- Se o jogo for como a vida, vocês estão nas finais! Me digam, quando é que a Espanha vai vingar em mata-mata? Nem em jogo de botão ela ganha. – revelou Cadu, sempre profetizando. Depois de nove erros, ele até que acertava uma de vez enquando.

Nosso jogo seria em Yokohama, assim como o outro restante. Dessa vez, enfim uma partida em que os horários não se cruzariam com os da Copa. Já estava na hora de assistirmos um pouco os jogos de fato, essa vida de ficar jogando só às vezes cansa. Mas só às vezes também.

Não deu outra. Cadu enfim acertou uma, depois de sua desilusão com a história de que Luizão seria o “número 9” que daria efeito, desacreditado da recuperação do Ronaldo. Os russos vieram comandando a Espanha, mas sem dúvidas o jogo foi bem fácil para nós. Armamos um 4-3-3 que assustou os russos, que só jogavam bem contra as retrancas que o pessoal adora de armar nos jogos de Winning Eleven. 3 a 0, um do Ronaldo, um do Ronaldinho e um do Rivaldo. O trio de erres funcionou muito bem naquela Copa.

Cadu saiu logo após o terceiro gol, guardaria lugar no bar para que então comemorássemos nossa classificação para as finais. Veríamos o jogo ao lado de quem? Feijão e seu cachorro. Parecia perseguição. Nossa ou deles?

- A Turquia vai acabar com o Brasil. Era pra ter sido 1 a 0 contra o Brasil naquele jogo, não fosse a sorte. – afirmou Cadu, com cara de desconfiado.

- Esse rapaz só fica secando o Brasil, mas tá dando sorte, continua! – pediu Feijão dando risada, já na nossa mesa.

Mesmo secando, o Brasil sofreu, mas passou. Foi um 1 a 0 com a marca do Ronaldo – e do biquinho da chuteira também. Rustu pegou até vento, mas o goleiro turco não contava com a astúcia do Fenômeno. Nem parecia um jogo de semifinal. Era incrível, mas o Brasil já era finalista. De mansinho chegou.

Thomas não estava ainda tão feliz assim. Tinha pego carinho pela equipe que defendeu na Copa de Winning Eleven: a Alemanha, seleção que um dia antes havia carimbado vaga na final. Por incrível que pareça, ele estava dividido. Ao menos Cadu não sofreu o mesmo, viu seu Uruguai ser eliminado depois de empatar com a França e Senegal. Uma judiação.

Pensei que isso fosse abalar nossas estruturas no torneio virtual. Dessa vez, nossa final seria antes do jogo da seleção: glória a Deus. Além de tudo, estaríamos em Yokohama, cidade da final. O campeão ganharia ingressos para o jogo. Sem dúvidas esses ingressos seriam disputados a tapa se fosse preciso. Cadu já havia garantido o seu, o único que comprou, mesmo sem saber que o Brasil estaria na final. Restava os nossos, o meu e o de Thomas.

Contra a Nigéria, outra carrasca de Cadu, o jogo prometia ser difícil. Era pura correria o jogo dos africanos e pior, a Nigéria só tinha perdido para a já eliminada Argentina. De resto, só goleadas. Seria difícil parar o Okocha e os dois japoneses que comandavam a seleção. Sabiam todos os mínimos detalhes do jogo, mas confiávamos na categoria de nossos jogadores.

Entramos no centro de convenções mais uma vez, daquela vez seria a última delas. Em uma cerimônia bem bonita, as duas duplas foram recepcionadas com aplausos e passaram diante do cobiçado prêmio: o troféu e os ingressos. Sentamos nas nossas cadeiras e tivemos a sensação de que seria nosso o troféu – e o mais importante, os ingressos.

Foi duro. Em menos de 15 minutos de jogo, a Nigéria havia feito dois gols. Nos matamos para manter o placar, os japoneses eram duros na queda. Nas estatísticas do intervalo, tínhamos só três chutes, nenhum no gol, contra uma dezena deles contra a meta de nosso sofrido Marcos, o homem do jogo na primeira etapa da peleja.

- Gente, na final de 58 foi assim, o Brasil tomou uma chapuletada logo no começo, em Estocolmo contra a Suécia. Será que é coincidência ou o jogo no Japão contra os japoneses será igualzinho? – motivou Cadu, que além de torcer para nós, estava com fome de vingança da equipe nigeriana.

Deu certo. Não foi o 5 a 2 da seleção mágica de 58, mas o 3 a 2 suado nos bastou. Tudo na base da sorte. Supersticiosos, os japoneses começaram a suar frio quando o Shorunmu, goleiro deles, tomou um frango homérico. Daí em diante, foi só dominar o jogo, usando um 4-2-4 bem à moda antiga, usando o Ronaldinho e o Roberto Carlos como pontas. Até que a invenção deu certo. Era a prova de que existem coisas que só o Winning Eleven pode comprovar.

No último minuto, a pressão foi grande, mas nos seguramos e juntos, os três, comemoramos. Depois daquilo, vencer da Alemanha seria tarefa fácil. Embora discurso de quem já era campeão, era também uma grande torcida. Se a vida copiasse o jogo ao menos mais uma vez, Kahn poderia falhar igualzinho o Shorunmu. Seria quase um milagre.

Corremos para o estádio, depois da enrolação da entrega do troféu e dos ingressos. Detalhe: quase esquecemos o troféu. No fim, ele seria o menos importante, acabamos perdendo ele no aeroporto mesmo. Queríamos é estar no estádio para a final da Copa do Mundo. Sabia que o Feijão estaria em um bar a torcer pelo Brasil, aquela nossa conquista tinha também uma parcela dele e de seu cachorro? Brasil bem no jogo, Brasil bem em campo, era como ele brincava ao saber de nossos feitos.

Emocionante final. Perdemos o começo do jogo, mas enfim, não dava pra ser tudo perfeito. Ou até dava, porque no primeiro tempo o Brasil tomou pressão da Alemanha. Não tomou os dois gols que sofreu no Winning Eleven, mas era até para ter sofrido. São Marcos impediu. Nosso herói só podia ter sido ele mesmo: Ronaldo. Em menos de 15 minutos, lavou a alma de 98, colocou os dois gols do placar de 2 a 0 que não seria mais alterado.

Comemoramos no estádio. Que momento incrível. 170 milhões em ação, era o povo brasileiro que encontrava pela quinta vez o sentimento máximo de chegar ao topo do mundo. Quanto a nós três, fizemos parte daquele momento histórico e nunca mais deixaríamos de ser amigos. Uma Copa em que o Brasil foi campeão duas vezes. Era a prova e a contra-prova de que nosso futebol é mesmo o maior do mundo, de que com o Brasil ninguém pode, de que vivemos a felicidade máximo do brasileiro: um título em uma Copa do Mundo.

 



Escrito por Torero às 08h23
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Sempre aos domingos

Para não esquecer, conte até oito (Por MARCIO R. CASTRO)

A taça da bolinhas ainda não encontrou o seu destino, em mais uma polêmica do futebol brasileiro. Afinal, qual é o primeiro clube a ser 5 vezes campeão brasileiro de futebol, Flamengo ou São Paulo?

Pois é, nenhum dos dois. Polêmica por polêmica, vamos resgatar uma que valha a pena, quase cinqüentenária, numa boa idade para ser levada a sério. Afinal, porque considerar como título brasileiro apenas as conquistas de 1971 em diante, se já existia, de fato, uma competição nacional desde 1959, criada justamente para dar tal representatividade ao campeão?

A Taça Brasil (1959 a 1968) e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1967 a 1970) foram campeonatos equivalentes ao Brasileirão. Não “embriões” ou “laboratórios”, mas disputas de mesmo peso e valor. Muitos torcem o nariz para a idéia. Desconfio que o motivo principal para essa rejeição seja a falta de conhecimento geral quanto às duas competições.

E isso se deve graças à CBF, a própria criadora e organizadora dos torneios. É algo de um absurdo inalcançável que a entidade que deveria salvaguardar as tradições do futebol brasileiro simplesmente tenha se esquecido dos dois campeonatos. Um mistério. E repito: foram competições criadas, estimuladas e organizadas pela própria CBF, ainda como CBD, com o fim específico de eleger um campeão brasileiro de futebol. Talvez seja o exemplo esportivo mais emblemático da propagada falta de memória (e respeito, e justiça, e história...) de nosso país. É vergonhoso.

Essa inexplicável amnésia também acomete a mídia esportiva, que não faz o que era de se esperar de “especialistas” do assunto: informar, relembrar, não nos deixar esquecer. Se o órgão oficial é inepto e não preza pela memória do esporte, que tal se posicionar de forma independente sobre o assunto? São jornalistas ou assessores de imprensa?

É a falta de familiaridade com a história do nosso futebol que faz com que o torcedor desconfie de quem insiste em lembrar da existência do que de fato existiu. É como se quisessem “roubar”, ganhar no tapetão. Ironicamente, o que acontece é o exato oposto disso, só que os roubados somos todos nós.

Se a CBF nunca se pronunciou sobre os motivos do esquecimento, pelo menos alguns desprezam a Taça Brasil e o Robertão baseados em argumentos. Vamos a eles, e aos devidos contrapontos.

A CBF não os oficializa como tal, então não são títulos de campeão brasileiro, ponto final. Essa posição é defendida por muitos jornalistas. São os “oficialistas”. Eu os entendo perfeitamente: com tantas competições disputadas, extintas e ressuscitadas, com tantas interpretações diferentes do que deve “valer”, caberia às entidades que dirigem o esporte definir esses parâmetros de forma criteriosa. Trariam ordem ao caos. Infelizmente, não é o que acontece, os cartolas gostam mesmo é de uma boa confusão. Aí está a questão, a chancela oficial não pode estar acima de tudo. Quer dizer que não importa se os dirigentes estão prestando maus serviços, agindo com interesses escusos ou são completos aparvalhados, só o que vale é o selo oficial?

Oficial não é o mesmo que legítimo. Todos nós esperamos uma conduta adequada das instituições e das pessoas que as comandam, mas nem sempre é o que acontece (no caso do futebol, quase nunca). Devemos questionar e ser questionados. O exemplo é esportivo, mas o tópico acaba se referindo à nossa cidadania de forma geral. Não se trata aqui de achar que tudo que reivindicamos esteja adequado, tudo que acreditamos seja o melhor. Basta que as entidades apresentem suas razões, suas convicções e motivos, de forma transparente, que tudo funcionaria a contento. Oficial e legítimo caminhariam juntos.

Mas a CBF nunca explicou, e nem vai, a contradição de que foi a própria entidade que formulou as competições, com o intuito já mencionado de coroar um campeão nacional de futebol. Federações e Confederações não são infalíveis, ao contrário. Quantas e quantas vezes já nos deparamos com decisões estapafúrdias dessas entidades?

Recentemente, FIFA sentenciou que só existiram quatro mundiais de clubes (2000; 2005 a 2007). Porém, pouco antes do torneio de 2005, a FIFA publicava em seu site, para o mundo inteiro ver “oficialmente”, a lista de campeões mundiais com os títulos da Copa Intercontinental incorporados, se reconciliando com a história. Um breve período se passou, e a entidade voltou atrás silenciosamente, sem alardes, colocando as disputas que ocorreram a partir 1961 numa seção a parte.

A questão voltou à tona com a discussão sobre a Copa Rio 1951. A FIFA tomou sua decisão de forma inequívoca, oficializou o título do Palmeiras como mundial de clubes, não deixando qualquer dúvida na mensagem de seu Secretário-Geral. Todos imaginavam que a questão havia sido discutida por algum tipo de conselho, pesquisando-se a questão a fundo. Parece que não foi assim. O presidente da entidade veio a público desmentir a decisão “oficial”, dizendo que o texto queria dizer outra coisa, tratando a todos como idiotas analfabetos. Essa é a FIFA, a mesma que defende que o primeiro mundial de clubes (depois que se lembrou de tê-lo organizado) é o de 2000, no qual o representante sul-americano foi o vencedor continental de 1998, enquanto os outros campeões continentais, naturalmente, eram de 1999.

Quantas idas e vindas, quantas decisões oficiais. Dá para aceitá-las totalmente, em busca do tal selo oficial? Quem acha que os clubes vencedores da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa não devem ser considerados campeões brasileiros também acha que Santos, Flamengo, Grêmio, Boca, River, Peñarol, Juventus, Real Madrid e Liverpool não são campeões mundiais? O carimbo da cartolagem não deve ter peso absoluto sobre a questão, a não ser que alguém ache adequado nos submetermos a tantas pataquadas.

A fórmula de disputa da Taça Brasil é outro argumento dos que consideram a competição menos importante. Afinal, as equipes paulistas e cariocas só entravam na disputa nas semifinais, precisando fazer apenas quatro jogos para se sagrarem campeãs. É verdade que, fora do contexto de sua época, tal regulamento não faria sentido. Porém, regulamentos pouco razoáveis se proliferam na história de nosso futebol. De 1980 a 1985, o Campeonato Brasileiro era jogado com uma fórmula que unia 1ª e 2ª divisões num mesmo certame. Eram as famigeradas Taça de Ouro e Taça de Prata. Para piorar, a classificação para o campeonato se dava através de vagas conquistadas nos campeonatos estaduais. Brilhante, não?

Alguns campeonatos brasileiros conseguiram a proeza de juntar 3 divisões (módulos verde, amarelo e branco) num torneio comum, outros reuniram quase cem clubes. Até mesmo a Copa União, apesar da boa intenção de emancipação, cometeu o pecado de renegar o vice-campeão nacional do ano anterior. São incontáveis despautérios, mas não vejo ninguém concluir que esses títulos devam ser apagados da história.

O Mundial Interclubes era decidido somente por duas equipes (a bem da verdade, ainda o é). Na Libertadores, em seus primeiros anos, o atual campeão entrava na disputa direto nas semifinais. É razoável apagar da história títulos continentais de Santos e Independiente, e conquistas mundiais de São Paulo e Milan? Obviamente, não.

Portanto, ressalvas quanto à fórmula de disputa da Taça do Brasil, e também do Robertão, não são motivos para não considerarmos os clubes vencedores como campeões brasileiros. Ainda mais porque, se paulistas e cariocas entravam nas semifinais, Bahia e Cruzeiro ganharam a Taça Brasil disputando-a de ponta a ponta.

Outro ponto sempre mencionado: por dois anos, 1967 e 1968, ambas as competições foram realizadas. Nesses anos, então, duas equipes foram campeãs brasileiras? Claro que sim. Do mesmo modo que dois clubes foram campeões mundiais em 2000 (Corinthians e Boca Juniors). São períodos de transição, em que um campeonato vai se tornando mais representativo do que outro, em que uma Liga se torna soberana enquanto a outra desaparece, como no futebol paulista dos anos 20 e 30 (de 1926 a 1929 e em 1935 e 1936, mais de uma equipe foi campeã paulista, em cada ano, por conta de ligas paralelas).

Como acontece nos casos mencionados acima, devemos reconhecer os títulos dos vitoriosos, nada mais. Além disso, mesmo fora desses períodos de transição, atualmente existe em diversos países mais de um campeonato nacional por ano. É o caso da Argentina, Colômbia e Chile, que podem consagrar dois campeões nacionais anualmente, com os torneios Apertura e Clausura.

Isso mostra que ao longo da história, devido a transformações que ocorrem naturalmente no esporte, mais de um clube conquistou títulos com igual representatividade num mesmo ano.

A falta de continuidade também é apontada por muitos “contrários” à Taça Brasil e ao Robertão. Comparo novamente com a disputa do mundial de clubes para dissipar essa desconfiança. Como foi dito a pouco, os torneios crescem, se transformam, evoluem ou involuem, mas isso não invalida o que foi conquistado em campo. Campeões mundiais são campeões mundiais, hoje ou na década de 60.

Aliás, de acordo com os critérios de quem alega uma separação entre o Robertão e o Brasileirão, o Campeonato Brasileiro disputado desde 1971 também não mantém continuidade, sequer em sua denominação. Em sua alegada edição inicial, foi batizado de “Campeonato Nacional de Clubes”. A partir de 1975, recebeu a alcunha de “Copa Brasil”, até se tornar a já citada “Taça de Ouro”. Todos completamente distintos entre si, na fórmula de disputa, regulamento, nº de participantes, rebaixamento etc.

Além disso, não são só as mudanças de nome ou a salada de formatos que demonstram descontinuidade: a Copa União (1987 e 1988) e a Copa João Havelange (2000), além de nomes e regulamentos diferentes, foram cisões tão ou mais marcantes do que a transição que ocorreu com o fim do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

Os vencedores da Copa União e da Copa João Havelange são campeões brasileiros de futebol, assim como os ganhadores da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. A tal falta de continuidade é apenas organizacional, não esportiva, e não deve servir para tirar a representatividade de conquista nenhuma.

Outro equívoco recorrente é classificar a Taça Brasil como equivalente a uma copa nacional, não a um campeonato brasileiro. É o que faz, por exemplo, a revista Placar, merecidamente reconhecida por muitos como o mais importante veículo esportivo do país. Ao contrário da maior parte da imprensa especializada, a Placar tem memória e posição. Mas também se engana.

Primeiramente, a diferenciação entre campeonato (liga) e copa que fazemos hoje é muito recente. O Campeonato Brasileiro é jogado em pontos corridos há somente seis anos, antes disso era decidido no famoso mata-mata, exatamente o que caracteriza o que classificamos de copa agora.

Além disso, quando a Taça Brasil foi criada, não existia um campeonato nacional vigente. Foi justamente a competição que veio preencher essa lacuna. A Taça Brasil consagrava o campeão brasileiro de futebol.

Já a Copa do Brasil, atual copa nacional brasileira, foi instituída como segundo torneio, pois a “liga” já existia. Portanto, a Taça Brasil, grande competição nacional de sua época, não pode ser equiparada à Copa do Brasil. Talvez o engano se dê pelo fato da Copa do Brasil ter sido inspirada na Taça Brasil, mas, de qualquer modo, os dois torneios nunca tiveram o mesmo significado.

Por tudo isso, creditar à Taça Brasil e ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa o mesmo status do atual Campeonato Brasileiro seria o mais correto, o que resgataria inclusive parte da história do nosso futebol. A diferenciação entre as competições existe de acordo com o contexto e época de cada uma delas, mas são conquistas equivalentes. Sendo assim, e como desfecho, proponho a seguinte maneira de classificarmos os campeões brasileiros. E até a próxima polêmica.

Palmeiras: 8 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros; 2 Torneios Roberto Gomes Pedrosa; 2 Taças Brasil).

Santos: 8 vezes campeão brasileiro (2 Campeonatos Brasileiros; 1 Torneio Roberto Gomes Pedrosa; 5 Taças Brasil).

Flamengo: 5 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros; 1 Copa União).

São Paulo: 5 vezes campeão brasileiro (5 Campeonatos Brasileiros).

Vasco: 4 vezes campeão brasileiro (3 Campeonatos Brasileiros; 1 Copa João Havelange).

Corinthians: 4 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros).

Internacional: 3 vezes campeão brasileiro (3 Campeonatos Brasileiros).

Fluminense: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Torneio Roberto Gomes Pedrosa).

Bahia: 2 vezes campeão brasileiro (1 Copa União; 1 Taça Brasil).

Botagogo: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Taça Brasil).

Grêmio: 2 vezes campeão brasileiro (2 Campeonatos Brasileiros).

Cruzeiro: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Taça Brasil).

Atlético: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).

Guarani: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).

Coritiba: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).

Atlético Paranaense: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).

(A seção "Sempre aos domingos" é destinada a textos enviados por leitores) 



Escrito por Torero às 11h57
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Sempre aos domingos

Hoje, no "Sempre aos Domingos" (seção reservada para textos enviados por leitores), um polêmico texto sobre o Rei. Leia e opine.

Que bom seria outro Pelé!

POR CARLOS EDUARDO S. SOUZA

Imagine você poder ir aos estádios e rever lances geniais, mais que apoteóticos, poéticos!

Imagine você não podendo imaginar como seria a próxima jogada!

Você vê a bola chegar quadrada e sair redonda...

Elíptica...

Parabólica...

Hiberbólica!

Hiper bola!

Ah, como faria bem aos nossos olhos, já tão calejados, ultrajados, marejados, outro rei tão belo!

Por certo, nós, provincianos de novo, nos curvaríamos, por prazer, reverentes ante o retorno daquele imperialismo, lúdico e bucólico, sobre a bola, do qual nos vemos emancipados há tanto tempo.

Pois hoje, havendo se ido o rei, pela democracia, acabamos por eleger representantes do povo, e, embora duros e grossos, com eles nos acostumamos.

Nem sequer nos lembramos mais de como era bom ter um rei.

Quando Pelé pendurou suas chuteiras mágicas, em 1977, a coroa do futebol caiu.

Depois dele, outros até chegavam a se destacar, mas nenhum trazia sobre si o mesmo manto carmesim, ou nas mãos o mesmo cetro de genialidade, ou na cabeça o mesmo diadema real.

O brilho do seu tesouro não fora lá tão puro.

Nosso dano foi grande, sem dúvida.

Mas hoje vemos, sobretudo, que ninguém sofre mais com a ausência de um rei como Pelé nos gramados, como ele próprio, Pelé.

Ele não tem vocação plebéia.

Sabia bem o que fazer sobre o seu trono mudo, de bola nos pés.

Mas não tem a mínima idéia do que fazer fora dele.

Pelé sabe que foi rei, mas não sabe que não chegou a ser deus.

E age como se o fosse ou houvera sido.

Cinco vezes Atleta do Século, Atleta do Milênio, membro do Hall da Fama, ganhador do prêmio “Athlete Who Changed the Game” e o Oscar do Esporte. Foi nomeado Cavaleiro Honorário do Império Britânico, Cidadão do Mundo na ONU, Embaixador para a Educação, Ciência, Cultura e da Boa Vontade pela UNESCO, Embaixador da Ecologia e do Meio Ambiente pela ONU, Ministro dos Esportes do Governo Brasileiro e Embaixador dos Esportes no Fórum Econômico Mundial em Davos, em 2006. Pelé alcançou a condição de mito (Fonte: Bola Solidária)

Entretanto, como gente comum, sem seu trono, sem seu campo, sem a bola, Pelé é um perna-de-pau, um zagueirão tosco e indisciplinado. Um mau exemplo, afinal.

Fala com a propriedade de um rei, mas não tem propriedade sequer sobre sua família mais.

Seus herdeiros diretos e indiretos são conhecidos pela orfandade.

Um de seus filhos teve problemas com drogas e com a polícia, e disse ter sentido muita falta da presença de um pai. Do seu pai, obviamente.

Outra precisou da ajuda da justiça para ser reconhecida como filha, mas mesmo assim viveu e morreu, coitada, jamais sendo.

Dois de seus netos só o viram de longe, e pior, cercado de perto por outras crianças, que, apesar disto, nunca lhe foram tão próximas quanto eles.

Aqueles seus netinhos provavelmente nunca foram carregados pelo famoso braço direito do avô que socava o ar na hora do gol.

Aliás, falando acerca deles em entrevista a uma emissora de TV, Pelé chamou-os de “esses meninos”, e a mãe deles de “a mãe deles”, somente.

“Não, Pelé... Sandra (o nome dela era Sandra, se não sabe) não era só a mãe deles; era a sua filha. E ‘esses meninos’ são seus netos”.

Recentemente, uma separação.

Mas, a propósito, será que Pelé, de fato, já se casou alguma vez?

O que é mais fácil, afinal: ser pai ou ser rei?

Ou ainda, o que é mais nobre: ser rei ou ser pai?

Provavelmente, Pelé não sabe.

Ele só conhece um dos lados.

Dá saudade, sim, um rei do futebol nos gramados.

Mas daria também mais humildade a Pelé.

Sozinho, Pelé se sente único, e ignora os demais.

Outro rei, à sua altura, colocaria Pelé à altura dos outros.

Um novo rei, este mais nobre, faria de Pelé, talvez, mais filho, mais pai, mais avô. Mais gente, eu diria.

E de tabela, ah, como seria bom também para nós, os provincianos do futebol arte!

Mas, sobretudo, que bom seria, para Pelé, um outro Pelé!



Escrito por Torero às 07h34
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