O outro lado (por Joao Luis Amaral)
Belo domingo de setembro.
Bela manhã em que o Sol chegou forte.
Belo café José Carlos Pereira toma.
É dia de jogo, precisa estar bem alimentado.
É clássico, vai ter de correr muito.
Nada que uma boa cota de carboidrato não dê conta.
Enquanto brinca com Tobias, seu labrador, dá uma passada rápida pelas notas esportivas do jornal.
Futebol é sua grande paixão.
Respira o esporte. Sua o esporte.
Acompanha cada lance. No Brasil ou no exterior.
Sabe as escalações dos times, qualquer um deles, do goleiro ao ponta-esquerda.
Inclusive os reservas.
Hoje o dia será de grandes emoções.
O dia mais esperado, dentre todos da semana.
O dia em que ele deixa de ser coadjuvante, apenas mais um na multidão, para ter holofotes mirando-o pelos quatro cantos do campo.
Na semana anterior, a partida fora espetacular.
Recebera calorosos elogios de colegas e, o que mais o surpreendera, a mídia havia amplamente elogiado sua atuação.
Lances estupendos, de grande dificuldade.
E tais elogios foram suficientes para fazê-lo treinar ainda mais arduamente no decorrer da semana.
Ao contrário de todos os outros, quanto mais era elogiado, mais trabalhava, mais buscava aprimorar-se.
Queria estar “tinindo” para o clássico.
Sem dúvidas seria importante para sua carreira no futebol decolar definitivamente.
Uma atuação perfeita num clássico.
Era o passo que precisava para ir à Copa do Mundo.
Um beijo na esposa, um carinho nos dois filhos, uma corrida atrás de Tobias.
Pega a mochila, confere o equipamento, certifica-se de não ter esquecido o protetor solar.
E sai. Junta-se aos colegas para ir ao estádio.
Precisam chegar cedo.
Por que sabem como é, não é?
Aquecimento e alongamento precisam de atenção.
Principalmente antes de um jogos desses.
Chegam ao estádio e vão direto ao vestiário.
Não podem perder tempo ou parar para dar entrevistas.
Aquecem, alongam, ouvem instruções acaloradas enquanto amarram as chuteiras.
Um último gole de água antes do início da partida.
Uma oração, pedindo proteção e que ninguém se machuque.
Partem para as escadarias.
Ele e seus colegas, de mãos dadas.
Entram em campo. Primeiro, o pé direito, para dar sorte.
O sinal da cruz, típico dos amantes do futebol.
Arquibancadas lotadas.
Uma parte da torcida os aplaude.
A outra não perdoa e vaia.
Estão acostumados, não se deixam abater.
Foi sempre assim, durante anos, em todos os jogos.
Uma corrida rápida, “sente”a bola.
Algumas embaixadinhas.
Tudo pronto. O espetáculo vai começar.
Sente um frio na barriga.
É o grande momento.
Concentrado, não ouve mais o barulho da torcida.
Olha para os lados, para ver se todos estão em suas posições.
É agora.
Na cabine de uma rádio, o narrador anuncia:
- Apita, José Carlos Pereira! Bola rolando para o grande clássico deste domingo!
(PS: Na seção "Sempre aos domingos", publico textos enviados por leitores. Mande o seu para blogdotorero@uol.com.br)


















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