Perguntas que não querem calar
Por Eduardo Corch
Faça chuva ou faça sol, domingo, é o dia de assistir ao futebol.
Tiro do armário a camiseta do meu clube de coração. Original, mas em muitas casas não são.
Ficam ainda no armário, o shorts, meião, chuteira, tênis de futsal, bola, bandeira, agasalho de inverno e cachecol. Todos com o escudo do meu time.
No quarto ao lado, meu filho caçula usa macacão do NOSSO time, e engatinha no chão, brincando com bonecos, mini-bolas, mamadeira nas cores do time
Já está de chupeta . Logo, logo, deita no berço, já arrumado com a colcha, travesseiro, lençol. Tudo com com o escudo do nosso time.
Pro mais velho, tá na hora de comprar aquela camisinha com as cores do time.
Antes de sair, passo no outro quarto. Tenho um ritual de sorte: beijo as camisas antigas e arrumo as 300 revistas de futebol que guardo desde moleque, as 50 flâmulas, o jogo de botão, posters e o álbum de figurinhas.
Estou atrasado, onde está a chave do carro? Meu filho do meio, devidamente trajado, tem o chaveiro com o distintivo em mãos. Vambora!
No caminho ao estádio, ouço os programas esportivos no rádio, uma legião de narradores, comentaristas, repórteres.
Ouço que o técnico adversário chamou um pai de santo para um servicinho….
Perto do estádio, aparecem os flanelinhas, oferecendo aquele lugarzinho pro dotô. Isso também não mudou, ainda sou refém deles… Paciência. Deixo o café adiantado!
No caminho, me sinto na feira livre… Barracas de churrasco, pernil, varais com camisas falsificadas e os cambistas, oferecendo ingressos sem fila.. É a tal da economia informal. Do outro lado, vejo a polícia com seus cavalos, caminhões e até um tanque de guerra.
Compro ingresso mas não escapo do garoto que pede um real para inteirar e assistir também ao jogo. Vamos lá, o jogo está pra começar.
Sento no meu lugar, e como abelha no mel, chegam os vendedores de sorvete, refrigerante, esfiha, pipoca, água. Até pastel de Belém….
Olho o gramado, uma legião de pessoas corre de um lado ao outro, repórteres, cinegrafistas, procurando os jogadores, técnicos, juízes e assistentes.
Meu filho pergunta o porque de tanta gente de branco: médicos, psicólogos, fisiologistas, fisioterapeutas, ortopedistas, quiropratas, massagistas, todo mundo no campo.
Ao redor do gramado, uma infinidade de placas, anunciando produtos e serviços, empresas de grande e pequeno porte presentes no palco de espetáculo.
O jogo começa e num piscar de olhos termina. Enquanto o exército de limpeza e conservação entra no gramado, rápido para casa para assistir as mesas redondas.
Peço para minha mulher escolher a pizza porque das seis a uma da manhã, o controle remoto é meu aliado, não posso perder nada. Quero ver se o juiz errou, se a bola entrou…
O empresário de jogador sendo entrevistado por uma modelo? Ex-jogador comentando futebol?… antigamente não era assim
E os merchans? é um tal de fios e cabos elétricos pra cá, cantina italiana pra lá. Vou ligar para o despachante, tirar aquela multa da carteira.
2a feira, antes de trabalhar, passo na banca e compro todos os jornais para conferir a classificação do meu time. Isso se contar, as revistas mensais que já sou assinante desde moleque.
Na hora do almoço, vou com os meninos do escritório (de camisa e boné do NOSSO time) ao bar do Mané. não podemos perder os programas esportivos na tevê.
E chego em casa cedo, para acompanhar as últimas novidades nas mesas redondas de 2a feira.
Uhm, meu time vai jogar na Argentina. Já sei, vejo o jogo em Buenos Aires e levo a patroa pra fazer compras lá … Como chama a agência de turismo especializada em pacotes de futebol?
Ah! Se meus filhos forem tão bem na escola como nosso time vai no campeonato, dezembro vamos todos pro Japão.
O artigo acima analisa o grande impacto do futebol na economia, gerando emprego e renda.
Hoje, um clube bem estruturado pode empregar diretamente 500 pessoas, ou seja, similar a uma empresa de médio ou grande porte
Diversos segmentos são impactados diretamente pelo futebol: profissionais liberais, prestadores de serviços, agências, mídia, indústria de artigos esportivos, governo, economia informal.
Isso sem falar no imensurável, a emoção envolvida, a paixão gerada.
E se o futebol fosse bem organizado e levado a sério pelos nossos dirigentes? Quanto seria gerado? Quantos empregos extras? Temos saída? Qual a solução?
Essas são algumas perguntas que não querem calar.


















Sempre aos domingos