Nós, os tafaréis
(texto enviado pelo leitor Carlos Alexandre Rodrigues)
Nestes tempos em que – infelizmente – o racismo voltou a ser tema corrente nos noticiários esportivos, acho que cabe a lembrança de uma história que aconteceu quando eu era ainda criança, mas já fanático por futebol, em Londrina – PR. Pois tem a ver com futebol e racismo, ainda que um pouco diferente do racismo dito comum.
Em 1988 aconteceram as Olimpíadas de Seul, e, por mais que os jogos acontecessem de madrugada, valia a pena acordar às seis da manhã para assistir àquele time jogar. Romário e Geovani, ambos ex-Vasco (lembra dele? Pergunto do Geovani, não do Vasco, embora os dois andem meio sumidos), jogando muito, nos faziam ter a certeza que traríamos a medalha de ouro. Mas era o Taffarel, ao que eu me lembre, o maior ídolo da meninada que, mal acabava o jogo da seleção, fazia fila na quadra para jogar um misto de futebol de salão com bola de capotão, tão logo o jogo acabasse, até a hora do almoço, antes da aula.
Nestes jogos, todos que iam no gol – os seja, os últimos da fila, como na maioria das peladas – “eram” o Taffarel. Assim, afora os que estavam na fila, cada time tinha um Taffarel no gol, pois era uma delícia gritar “TAFFARELLLLLLLL” a cada bola defendida. Todos, menos um: o Ferrugem. Mas não porque ele não quisesse, já que ele até gostava de jogar no gol, pra onde ia até quando estava na bem colocado na fila: o pai dele é que não deixava.
O Ferrugem tinha esse apelido por razões óbvias: era cor de ferrugem, todo sardento, e tinha cabelo vermelho. Como se sabe, os “ferrugens”, quando adultos, passam a ser chamados de ruivos, mas até então são apenas Ferrugem, como esse nosso amigo. Ocorre que o pai do Ferrugem (que era adulto, e portanto, ruivo), não gostava que ele fosse chamado assim ou por qualquer apelido relacionado à “ruivisse” deles ou à “loirice” da mãe e das irmãs, carinhosamente conhecidas por “branquelas azedas”, e, para ele, quando nós o chamávamos de “Taffarel”, estávamos, na verdade, o chamando também, de branquelo azedo, e que isso era racismo.
O Ferrugem ficava triste com isso, e entendia que nada tinha de racismo. Na verdade, num grupo de crianças de 10 ou 11 anos, de todas as cores e raças, o que certamente não se via era racismo: tinha até japonês jogando de atacante! Mas para o seu pai, era racismo e pronto.
Pois então o Ferrugem era o único que podia ser o Taffarel.
Até que chegou o dia em que o Brasil jogou a semi-final com a Alemanha, e, num jogo onde tudo parecia perdido, o Taffarel pegou pênalti, quando o Brasil mais precisava (coisa que ele, depois, se habituou a fazer em Copa do Mundo também), e a Seleção foi para a final.... Às 8 da manhã, com a quadra repleta de “taffaréis”, a maioria inclusive, jogando na linha, chega o Ferrugem, todo orgulhoso, dizendo que o pai dele tinha deixado ele ser o Taffarel naquele dia.
De uma vez só, então, todos nós, meninos que jogávamos bola, mesmo sem perceber, entendemos o que era racismo e como combatê-lo: racismo é o tratamento de uma raça como inferior, como pior. O antídoto é mostrar que todos são bons, como nós, que éramos tafaréis e romários, independentemente da cor.
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