Blog do Torero

23/04/2006

O dia em que Telê abriu o portão

O dia em que Telê abriu o portão

(Texto enviado pelo leitor Gabriel França)

 

Lembro-me de ir ao CT do São Paulo quando bem pequeno. Era fascinante, pois não havia uma divisão muito clara entre o que era espaço para torcedores e que era permitido somente aos jogadores, tanto que bati bola umas três ou quatro vezes com craques do escrete dentro do palco onde ocorriam os rachões e os dois-toques.

Até que algo ficou diferente.

 

- Xi, Gabriel. Parece que o Telê mandou fechar as coisas por aqui. Agora só jogador pode entrar em campo.

 

- É chato esse Telê, hein, pai?

 

Chegou a esperada hora de pegar os autógrafos e eu estava ansioso para que minha listradinha ficasse rabiscada. E fomos então, meu pai e eu, ao alambrado.

 

Jogador pra cá, jogador pra lá e chega a vez do Telê, aquele sujeito que proibira que eu me divertisse um pouco com as figurinhas em forma de pessoa dos álbuns que eu colecionava. E o espanto veio quando o severo e rígido treinador ousou descumprir uma das regras que ele mesmo criara e abriu o portão para que eu entrasse.

 

Certo que foi para facilitar o rabisco, mas mais certo ainda que foi por acreditar que futebol é graça, magia e alegria. Telê sabia, e disso tenho certeza, que aquele gesto levaria alegria a um torcedor, talvez o motivo maior do futebol.

 

Não há táticas, estratégias ou resultados que se comparem aos momentos de alegria aos amantes do futebol que Telê proporcionou , assim como não há homenagens suficientes.

Por Torero às 01h11

16/04/2006

Nós, os tafaréis

Nós, os tafaréis

(texto enviado pelo leitor Carlos Alexandre Rodrigues)

 

Nestes tempos em que – infelizmente –  o racismo voltou a ser tema corrente nos noticiários esportivos, acho que cabe a lembrança de uma história que aconteceu quando eu era ainda criança, mas já fanático por futebol, em Londrina – PR. Pois tem a ver com futebol e racismo, ainda que um pouco diferente do racismo dito comum.

 

Em 1988 aconteceram as Olimpíadas de Seul, e, por mais que os jogos acontecessem de madrugada, valia a pena acordar às seis da manhã para assistir àquele time jogar. Romário e Geovani, ambos ex-Vasco (lembra dele? Pergunto do Geovani, não do Vasco, embora os dois andem meio sumidos), jogando muito, nos faziam ter a certeza que traríamos a medalha de ouro. Mas era o Taffarel, ao que eu me lembre, o maior ídolo da meninada que, mal acabava o jogo da seleção, fazia fila na quadra para jogar um misto de futebol de salão com bola de capotão, tão logo o jogo acabasse, até a hora do almoço, antes da aula.

 

Nestes jogos, todos que iam no gol – os seja, os últimos da fila, como na maioria das peladas – “eram” o Taffarel. Assim, afora os que estavam na fila, cada time tinha um Taffarel no gol, pois era uma delícia gritar “TAFFARELLLLLLLL” a cada bola defendida. Todos, menos um: o Ferrugem. Mas não porque ele não quisesse, já que ele até gostava de jogar no gol, pra onde ia até quando estava na bem colocado na fila: o pai dele é que não deixava.

 

O Ferrugem tinha esse apelido por razões óbvias: era cor de ferrugem, todo sardento, e tinha cabelo vermelho. Como se sabe, os “ferrugens”, quando adultos, passam a ser chamados de ruivos, mas até então são apenas Ferrugem, como esse nosso amigo. Ocorre que o pai do Ferrugem (que era adulto, e portanto, ruivo), não gostava que ele fosse chamado assim ou por qualquer apelido relacionado à “ruivisse” deles ou à “loirice” da mãe e das irmãs, carinhosamente conhecidas por “branquelas azedas”, e, para ele, quando nós o chamávamos de “Taffarel”, estávamos, na verdade, o chamando também, de branquelo azedo, e que isso era racismo.

 

O Ferrugem ficava triste com isso, e entendia que nada tinha de racismo. Na verdade, num grupo de crianças de 10 ou 11 anos, de todas as cores e raças, o que certamente não se via era racismo: tinha até japonês jogando de atacante! Mas para o seu pai, era racismo e pronto.

 

Pois então o Ferrugem era o único que podia ser o Taffarel.

 

Até que chegou o dia em que o Brasil jogou a semi-final com a Alemanha, e, num jogo onde tudo parecia perdido, o Taffarel pegou pênalti, quando o Brasil mais precisava (coisa que ele, depois, se habituou a fazer em Copa do Mundo também), e a Seleção foi para a final.... Às 8 da manhã, com a quadra repleta de “taffaréis”, a maioria inclusive, jogando na linha, chega o Ferrugem, todo orgulhoso, dizendo que o pai dele tinha deixado ele ser o Taffarel naquele dia.

 

De uma vez só, então, todos nós, meninos que jogávamos bola, mesmo sem perceber, entendemos o que era racismo e como combatê-lo: racismo é o tratamento de uma raça como inferior, como pior. O antídoto é mostrar que todos são bons, como nós, que éramos tafaréis e romários, independentemente da cor.

 

(mande sua história para blogdotorero@uol.com.br)

Por Torero às 07h14

02/04/2006

Mulher ou Timão, eis a questão

Mulher ou Timão, eis a questão

Ano de 1990.Dezembro, dia de final de brasileiro, Timão jogando pelo empate.

 

Um dia antes, meu melhor amigo, palmeirense, me convida a ir à matinê de uma danceteria nos Jardins. Prontamente, recusei.Mas, ao ser informado que algumas meninas do colégio pelas quais eu nutria certa 'simpatia' lá estariam, os hormônios falaram mais alto e resolvi abrir mão, com pesar,  de assistir ao que seria nosso primeiro título brasileiro.

 

Lá chegando, um telão ligado, mostrando videoclipes da época. Utopicamente sonhei com o jogo sendo transmitido ao vivo , no telão, e já me acomodei numa mesa onde a visão era privilegiada.Quatro horas passadas, e nada do jogo. Eis que me dirijo cabisbaixo até o bar, em busca de um refrigerante, quando me deparo com uma TV escondida abaixo de uma escada que levava à cabine do DJ. Desligada.

 

Não pensei duas vezes e, sorrateiramente, levei o dedo indicador ao botão para ligá-la. A imagem do jogo se montou à minha frente, e ali parei, esquecendo do refrigerante, das meninas que dançavam na pista, e de meu amigo. Apenas sofria com a pressão são-paulina e as defesas de Ronaldo, com Neto apagado em campo, e com Tupãzinho se esforçando ao correr por todos os lados do campo, nem sempre com produtividade.

 

Intervalo de jogo. Vou até onde meu amigo estava. Ele, fulo da vida, me diz onde eu havia estado aquele tempo todo. Praticamente me pegando pelo braço, me obrigou a entrar na pista para dançar com as meninas, onde ele enxergava a oportunidade de 'fazermos um gol' naquele dia.

 

Disse que não gostava de dançar. E lá foi ele sozinho. Voltei para perto da TV, já naquele momento com a companhia de vários outros corintianos e são-paulinos.

 

Eu ali, imóvel, até o lance fatal.

 

Tupãzinho tabela com Fabinho, este chuta, a zaga rebate e Tupãzinho marca de carrinho o gol do título. Era emoção demais. Quase fui às lágrimas, pulando, me descabelando e acabando com qualquer possibilidade de 'ficar' naquele dia. Mas eu nem ligava, só queria comemorar, gritar, extravasar. Meu amigo só olhava, de longe, balançando a cabeça negativamente, gesto repetido pelas meninas que me motivaram a estar ali.

 

Mas, qualquer menina que lá estivesse, e/ou que não entendesse o tamanho do meu corintianismo, certamente 'não era para o meu bico'...

 

Texto enviado por Carlos Fabrício Colombo Marques.

 

 

(PS: Mande seu texto com até 3 mil toques para o blogdotorero@uol.com.br)

 

Por Torero às 07h49

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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