Sempre aos domingos: Ah, tá...
Texto de Lino e Claudio Porto
Meu nome é Bruninho, mas pode me chamar pelo meu apelido: Bruno. Eu tenho mais ou menos seis anos e meio, e dois tios bem chatos. Eles ficam tentando o tempo todo me convencer a gostar de futebol e a torcer pelo time deles, mas eu não gosto de futebol. Eu só gosto um pouco de ciências, de pizza e de brincar com o Turbo.
No Natal, meu tio Lino me deu uma camisa do Santos de presente. Eu não gostei nem da camisa nem do nome do time. A camisa era toda branca com uma propaganda bem no meio. Só era boa pra dormir, porque o meu pijama já tava meio velho mesmo. E meu pai vive me dizendo que eu não sou nenhum santo.
No meu aniversário, meu tio Cláudio me deu uma camisa do Botafogo. Eu gostei do nome do time. Minha mãe nunca deixa fósforo perto de mim, porque eu vivo fazendo experiência com fogo. A camisa era listrada e se parecia com aquelas roupas que os presos usam nos filmes, só que com a listra ao contrário. E tinha também uma propaganda no peito, e logo dum refrigerante que eu não gosto.
Um dia eu vi um guri com uma camisa igual. Aí eu perguntei se ele era botafoguista. Ele ficou furioso e falou:
- Cê é burro, hein, Bruninho. Cê não vê que essa é a camisa número 2 do Santos?
Eu não sabia que tinha camisa número 2, então eu só respondi:
- Ah, tá...
O pior foi quando eu vi um menino com uma camisa parecida com a do Santos que o tio Lino tinha me dado. Quer dizer, com a camisa número 1 do Santos. Aí eu perguntei se ele era santense que nem meu tio. Ele ficou p da vida e me disse:
- Pô, Bruninho, tu não entende nada de futebol. Tu não vê que essa é a camisa número 2 do Botafogo?
- Ah, tá...
Eu fiquei meio confuso com essa história, mas depois eu descobri que na verdade meus dois tios torciam era pro mesmo um time, só que um era o número dois do outro, se é que vocês entendem o que eu quero dizer.
Um dia a gente tava no shopping comendo pizza, quando passou um bando de moleque fazendo mó bagunça, com uma camisa mó legal, preta e vermelha com uma propaganda no meio. Meu tio Lino explicou que era do Flamengo e que era a maior torcida do Brasil. Devia ser mesmo, porque eles eram uns seis com a mesma camisa.
No outro dia, lá no colégio, eu vi um guri com uma camisa do Flamengo, só que com as listras ao contrário, que nem a do Botafogo número 1 e a do Santos número 2. Então eu falei pra ele:
- Pô, legal essa tua camisa número 2 do Flamengo.
O guri ficou bem brabo comigo.
- Ô, piá, vai dizer que tu não sabe que essa é a camisa do Atlético Paranaense?
Eu não sabia que o Atlético tinha nascido no Paraná, então na dúvida eu só falei:
- Ah, tá...
Pra piorar, um dia desses um colega meu foi com uma camisa listrada, igualzinha a do Santos número 2 e a do Botafogo número 1. Aí eu perguntei pra ele se ele era santense ou botafoguista, porque num dos dois eu ia acertar. Aí ele ficou fulo comigo:
- Uai, Bruninho, tu não vê que essa é a camisa do Atlético?
- Nem vem, a do Atlético eu sei que é vermelha e preta!
- Seu tanço! Aquela é do Atlético Paranaense, essa é do Atlético Mineiro!
Eu pensava que quem nascia no Paraná era paranaense e não mineiro. E me lembro bem da professora explicando que mineiro é quem trabalha em mina de carvão. Mas como o guri era bem maior que eu e esse pessoal do futebol é meio nervoso, eu achei melhor só concordar com ele:
- Ah, tá...
Eu já tava ficando bem chateado com essa coisa de futebol. Não sei como podem gostar tanto de um jogo tão sem graça. Mas aí eu vi três moleques, cada um com uma camisa diferente e uma mais legal que a outra. Uma era tão amarela que dava pra achar a gente no escuro. A outra era um verde assim tipo meio a limonada fraquinha que a minha avó faz. E a terceira era um azul bem legal, parecia pintada com lápis de cor. Aí eu perguntei pra eles os times que eles torciam e os três responderam juntos com tanta força que eu até me assustei:
- Verdão!!!
- Mas que verdão, se só tem um de verde e bem fraquinho?
- Ô Bruninho, seu burro, vai dizer que você não conhece o Palmeiras?
Eu não entendi mais nada. Então o Palmeiras tem três camisas? Meu tio Cláudio depois explicou que são camisas comemorativas. E me disse também que o apelido da torcida é porco.
Dessa parte eu gostei. Minha mãe vive dizendo que eu sou bem porquinho porque quase não tomo banho, então eu decidi torcer pro Palmeiras. E o time tem três camisas bem diferentes que dá pra usar uma pra cada dois dias da semana! No domingo eu uso uma do Pink Floyd que o tio Lino me deu.
Quando meus tios ouviram o que eu tinha dito, pronto, quase tiveram um ataque e ameaçaram nunca mais me dar presente se eu torcesse praquele time de italiano.
- Mas italiano faz pizza e a gente gosta de pizza.
- Não adianta. Se virar porco, nunca mais te dou carrinho.
- Nem no dia das crianças!, gritou meu tio Cláudio.
Então eu resolvi obedecer, mas eu tava louco pra ganhar uma camisa igual àquela amarela que mais parecia um farol de caminhão quando tem cerração. Então eu disse:
- Ah, tá...
Mas logo eu mudei de idéia porque vi uns carinhas com uma camisa branca quase igual do Santos número 1 e do Botafogo número 2, e outro com uma camisa preta riscadinha parecida com a do Botafogo número 1, só que com as listras brancas bem fininhas, e um outro com uma camisa roxa, que mais parecia uma berinjela, apesar de eu odiar berinjela. Eu nem precisei perguntar que time eles torciam, porque eles logo gritaram:
- Timão e ô! Timão e ô!
Gostei do nome do time: Timão. Nada de nome esquisito. Se bem que um gritou “é Coringão, mano!”. Pensei que ele tava jogando baralho, mas era o nome número 2 do Timão. Achei massa.
Aí meu tio Lino explicou que o nome certo é Corinthians. Aí eu não gostei mais, muito comprido. E também me falou que eles são gambás. Dessa parte eu gostei bastante, porque minha avó vive dizendo que eu fedo que nem gambá, só porque não gosto muito de tomar banho.
Quando eu falei que queria uma camisa do Coringão, quer dizer do Timão, meus tios ficaram doidos.
- Ficou louco, Bruninho? Se aparecer com camisa do Corinthians nunca mais eu te pago pizza, sorvete, hambúrguer, vídeo-game... Mais nada. Tem que torcer é pro peixe.
- Mas eu não gosto de peixe. Eu gosto é de pizza.
Meu tio Lino franziu a testa. Quando ele franze a testa é porque a coisa é séria mesmo. Então eu desisti de ser gambá, apesar de ainda não ter tomado banho esta semana porque tá frio. E já tava meio cheio desse negócio de futebol. Eta jogo complicado e cheio de coisa! Até banco imobiliário é mais emocionante.
- Só falta agora esse moleque virar bambi.
Perguntei o que era bambi e meus tios riram, dizendo que era coisa de gay e era o apelido da torcida do São Paulo.
- Paulista é gay?
- Não é paulista, é são-paulino.
- Nem vem, a professora falou que quem nasce em São Paulo é paulista!
- Não é o estado, é o time.
- Ah, tá...
- Pare com essa mania de “ah, tá”!
- E a camisa do São Paulo é rosa?
- Não, seu tonto, a camisa é tricolor.
- Que nem o Palmeiras?
Todo mundo fez cara que não entendeu.
- O Palmeiras é verde e branco, duas cores, seu burro.
- Três: verde, amarelo e azul. E a professora ensinou que três é tricolor...
Meu tio Lino ficou com raiva da minha resposta.
- O São Paulo é vermelho, preto e branco, seu tongo.
- É uma mistura de Flamengo com Botafogo?
- Não! Gritou meu tio Cláudio, furioso.
- Mas as cores...
- Chega, Bruno, vai lá fora chutar uma bola pra ver se aprende alguma coisa.
- E depois vai tomar um banho! Berrou minha mãe lá da cozinha.
Então eu fui lá fora brincar com o Turbo que é bem melhor. Meu pai falou que o Turbo é uma mistura de duas raças: “pelo duro” e “xinaider”, mas eu não acredito, porque não achei essas duas raças na internet. Pra mim, o Turbo é só da raça dele, porque nunca ninguém viu um outro cachorro nem parecido.
E o Turbo é o único que me entende, porque também não gosta de tomar banho. Aí eu fiquei pensando: quando eu crescer eu vou criar um time chamado Turbo e a camisa vai ser meio branca, tipo assim um marrom meio cinza, igualzinho ao pêlo do Turbo...
Falei pros meus tios que tinha visto um guri no colégio usando uma camisa laranja, bem bonita. Tio Cláudio me disse que só podia ser da seleção da Olanda.
- Holanda com H, Bruno, disse meu tio Lino sempre querendo me ensinar alguma coisa.
No outro dia eu perguntei pro guri, que sempre tá com a mesma camisa, até dorme com ela pra não ter o trabalho de ficar trocando todo dia, se ele era holandês:
O menino me olhou atravessado e respondeu:
- Ficou maluco, brother? Eu sou é tricolor das laranjeiras.
Eu fiquei tentando entender.
- Mas só tem uma cor na camisa...
- Seu burro, essa é a camisa número 3 do Fluzão...
- Ah, tá...
Quantas camisas que cada time tem? Eu tinha até gostado dessa história de laranjeira. Tem uma lá no quintal de casa, mas as laranjas tão sempre azedas. Será que existe algum bicolor dos limoeiros?
Aí, na rua, eu vi duas meninas com duas camisas quase iguais: uma era preta com uma lista branca atravessada no peito, e a outra era ao contrário. Aí eu perguntei que time era aquele e elas me responderam que era Vasco da Gama.
Achei o nome bem engraçado, mas deixei pra perguntar depois pro tio Lino como que é a camisa do time Pedro Álvares Cabral, que deve ser o inimigo delas.
Perguntei pra elas qual que era a camisa número 1 e qual que era a número 2.
- Sei lá, Bruninho, qualquer uma é a número 1.
- Ah, tá...
Mulher não entende nada de futebol mesmo, pensei comigo para mim mesmo. Aí eu vi outra menina, do meu tamanho, mó bonita, com uma daquelas camisas do Vasco. E eu logo arrisquei, pra puxar conversa:
- E aí, Gama?
Ela me olhou com cara de nojo e falou:
- Eu sou Ponte Preta desde criancinha, seu bobo!
Então eu pensei cá com eu: deve fazer bem pouco tempo que ela é Ponte Preta... E fiquei tentando imaginar uma ponte preta, mas só conseguia imaginar ponte branca, ponte bege e até ponte tricolor, que mal deu tempo de falar pra ela:
- Ah, tá...
Aí no ônibus da escola eu vi um guri com uma camisa bem vermelha e outro com uma bem azul. Eles me disseram que era do Internacional e do Cruzeiro. Um falou de um jeito meio engraçado “bah, sou colorado, tchê!”, e o outro logo retrucou “eu sou raposa, uai”.
Que pena: na minha terra não tem raposa, só galinha, porco e gambá. Fora o Turbo.
Perguntei pro meu tio Cláudio se o inimigo do Internacional era o Nacional. Ele me olhou estranho, suspirou e disse:
- Bruno, o inimigo do Inter é o Grêmio.
- O Grêmio Recreativo Unidos da Vila Moema, perto da casa da vó?
- Não, seu burrinho, o Grêmio de Porto Alegre. Tricolor gaúcho.
- Verde, amarelo e azul que nem o Palmeiras?
- Não!
- Já sei: preto, vermelho e branco?
- Não! É azul, preto e branco, seu tosco.
- Ah, tipo assim uma mistura de Botafogo com Cruzeiro.
- ...
- Nunca mais repita uma bobagem dessas! Falou meu tio Cláudio, bem devagarzinho.
- Ah, tá...
Tio Cláudio fica zangado muito fácil. Mas meu tio Lino logo me explicou que Inter e Cruzeiro são dois times muito simpáticos.
- Simpáticos por quê?
- Bem... (ele ficou pensando numa resposta)
- Porque eles nunca venceram nenhum jogo importante dos nossos times e já derrotaram os nossos inimigos em muitas decisões, disse meu tio Cláudio.
- É isso, Bruno: o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo, discursou meu Tio Lino, igualzinho a minha professora de religião.
- Ah, tá...
Aí ia passar o jogo do Brasil e da França na televisão e todo mundo foi lá em casa pra comer a pizza que a minha mãe faz. Só eu sozinho como oito! Tio Cláudio, sempre fazendo piada sem graça, disse pra eu torcer pro Brasil e que o Brasil era o time de amarelo.
- Ah, tá, respondi na hora, fazendo de conta que não sabia.
A camisa da França parecia a do Cruzeiro misturada com a do Internacional e a do Santos número 1. Muito antipática, eu achei. O amarelo do Brasil é meio desmaiado e mais parece um canário que meu pai tinha e o gato do vizinho comeu.
Aí meus tios começaram a gritar juntos “vai Kaká, vai Kaká”. Até minha mãe gritou, porque acha o Kaká bonito.
- Mas ele não era do time dos bambis?
- Cala a boca, Bruninho, e vê se torce.
- O seu Nelson, lá da venda, parece meio bambi mas não torce pelo São Paulo. Eu vi ele com uma camisa do Vasco, acho que a número 2...
- Se dane, Bruno, resmungou meu avô com a boca cheia de pizza de champignon.
- Ou será que o seu Nelson é Ponte Pretense?
- Pedala, Robinho! Gritou tio Lino, sem querer me dando uma boa idéia...
Saí de fininho e fui lá fora andar de bicicleta com o Turbo correndo atrás. Maravilha, não tinha ninguém na rua porque tava todo mundo vendo o jogo. Brinquei até suar um monte e dar mais fome de comer pizza. Quando voltei, fui logo perguntando:
- De quanto o Brasil perdeu?
- Como é que você sabe que o Brasil perdeu, Bruno, se nem viu o jogo?
- É que ninguém soltou foguete...
Meus tios se olharam, meio tristes, meio sem graça, e falaram quase na mesma hora:
- Ah, tá...