Blog do Torero

12/09/2010

Sempre aos domingos

 
 

Sempre aos domingos

 

 

grande cara, amigo de todos, síndico, presidente do time, na quermesse canta o bingo. de manhã lê o salmo, depois deixa a mulher na feira e vai pro botequim. conversa vai, conversa vem, sempre acaba meio bêbado, conta o passado glorioso. um dia fui num navio. na corrida, peguei com a esquerda, no ângulo. na época nenhuma escapava. meti a mão nos quatro sozinho. ganhei dinheiro, perdi, a casa eu deixei pros meus pais, meus filhos nunca mais vi. nessa hora sempre pára, morde o ovo colorido, joga o sal, com o indicador e o polegar pede outra dose. meus filhos nunca mais vi. a talagada. bate na barriga. ajeita a camiseta. o chinelo. na parede o retrato da seleção de 58. também, não sei pra quem aqueles desgraçados puxaram.

 

Texto: Luiz Guilherme Piva

Ilustração: André Bernardino  

Por Torero às 01h13

09/09/2010

O suicídio do Moto Club

 
 

O suicídio do Moto Club

Por Marcio R. Castro

 


O Moto Club, ao lado do Sampaio Corrêa, é (ou era...) o maior clube de futebol do Maranhão. Um dos mais importantes times do Nordeste, dono de 24 títulos estaduais e de uma torcida apaixonada.

Infelizmente, o Moto fechou seu departamento de futebol profissional no último dia 27 de agosto. A alegação da diretoria, obviamente, é a falta de recursos financeiros.

Tive conhecimento dessa triste notícia pelo blog do jornalista Flávio Gomes, que indicou o texto "Morre o Moto", de Luiz Antônio Simas (blog "Histórias Brasileiras").

Peço a todos que leiam o belíssimo texto do professor Simas. Nele, o autor se indigna com "mais esse capítulo da transformação do futebol brasileiro em um ramo do big business, da consolidação dos clubes como valhacoutos de escroques travestidos em empresários e da proliferação de jogadores-celebridades desvinculados da história e das tradições dos times".

Tem muito mais, vejam lá, mas em resumo morre o Moto porque morrem, cada vez mais, as boas tradições, em nome do que se diz novo e moderno. Mais do que isso: morre o que deveria ser eterno pelo apreço ao fugaz, pelo consumo despropositado, pela força destruidora dele, sempre ele, o Mercado.

Tudo isso é realmente verdade, julgo eu, mas certamente não é toda a verdade. A verdade, se é que ela existe, é sempre mais cinza.

Luiz Antônio Simas escreveu um texto com alma, lírico, cheio de sentimento e, como já disse, verdade. Porém, seguem algumas considerações, intencionalmente frias e sem brilho, que misturam o preto e o branco em busca de algo mais cinza. E, ainda que menos poético, também real.

Afinal, por que morre o Moto e não o Sampaio Corrêa? São ambos os mais fortes clubes do Maranhão, com torcidas, tradições, conquistas e histórias equivalentes, não são? Por que morre um e o outro não?

Aliás, por que morre o Moto e não o Bacabal? Nesse caso, então, a comparação é quase indevida. Mas é justamente o time da capital, o mais poderoso e rico que está fechando, não o modesto. Por quê?

Crise financeira, pelo que pude me informar, atinge a todos no futebol maranhense, dos grandes aos pequenos. Mas como não são todos os que fecham as portas, fica claro que a crise do Moto também é política, administrativa, técnica, de planejamento e, até, de criatividade. Pasmem, o resultado foi o rebaixamento do Moto Club à série B do estadual.

Apesar disso, não podemos ignorar que a confusão é generalizada e institucional no futebol maranhense. Escândalos, manipulação de resultados, falta de dinheiro. O atual campeão, o JV Lideral, pediu desligamento da Federação (parece que voltou atrás, se embananou...) e outros três clubes estariam pensando em também desistir do futebol profissional.

A grita é geral contra a Federação Maranhense de Futebol, acusada de promover competições mal-organizadas e deficitárias, além de não apoiar devidamente seus associados. Vale lembrar que são os próprios clubes que elegem seus representantes na Federação e que, sem dúvida, o Moto Club tem enorme influência política.

Mas por que o Moto, como um dos mais importantes clubes maranhenses e líder natural de todos os outros, não começou uma revolução no futebol do estado? Por que não juntou forças com os demais times e propôs a criação da Liga Maranhense, por exemplo? Por que não se articulou em grupo com seu pares para organizar o próprio campeonato, o próprio calendário, o próprio destino?

Poderia ter iniciado esse processo sem litígio nenhum, chamando a Federação e todos os interessados para a mesa. Elaborando, em conjunto com os demais, planos de melhorias esportivas, programas de adequação e conservação dos gramados e da iluminação dos estádios, estudos sobre a utilização dos recursos das leis de incentivo ao esporte, mais e mais maneiras de atrair o torcedor e muitas outras iniciativas. Um projeto ambicioso, mas com o pé no chão, gradativo, sem fórmulas mágicas.

A partir disso, com a criação de uma liga de fato e tudo o que isso implica, seria saudável parar de vilanizar o tal do Mercado e, melhor ainda, atraí-lo para o benefício de todos. Negociar contratos em grupo, criar novas oportunidades comerciais, estabelecer outras vertentes de patrocínio, trabalhar o licenciamento de marcas e produtos são só algumas das possibilidades que proporcionariam melhores condições econômicas às agremiações.

Fazer isso, com critérios e princípios, respeitando os torcedores, não é se render a quem quer que seja. É, pelo contrário, uma maneira de perpetuar a história de um clube. Numa outra realidade, mas que serve de exemplo à nossa, não me parece que Barcelona, Liverpool ou Milan estejam perdendo suas tradições por fazerem isso. Estão, na verdade, as ampliando.

Nada disso aconteceu. Não houve competência, nem iniciativa, muito menos visão e atitude de vanguarda. É por isso que as tradições do Moto Club não foram honradas. O Moto não morre "em nome da gestão empresarial, da modernização dos estádios, do estatuto do torcedor". Essas e outras coisas, ainda que sejam sinais de tempos menos românticos e encantados, o fariam viver melhor, preservariam "a aldeia, a terra, a comida da terra, a várzea, a esquina e o canto de cada canto".

O Moto Club não morreu, professor. Ele se matou.

 

Marcio R. Castro é palmeirense.

Por Torero às 08h50

04/09/2010

Confissão em homenagem ao Centenário do Corinthians

 
 

Confissão em homenagem ao Centenário do Corinthians

Texto de Nathan Malafaia

Recordo-me que, antes mesmo de entender o que era futebol, eu já torcia para o Corinthians: herança passada de pai para filho - como tantos por aí. Mesmo jogando bola nas ruas de terra do bairro do Golfinho, em Caraguatatuba, o menino que eu era no início dos anos noventa ainda não possuía o fascínio pelo futebol que o adulto de hoje tem. Sabia que era gostoso ir para a rua jogar com o meu irmão Artur, com vários amigos do bairro, e com o tio Edi, que tanto me paparicava - e que, em meio aos moleques, se sobressaía, não só por seus quase 20 anos, mas também por sua habilidade.

Meu tio Edi era o caçula de cinco filhos, irmão de minha mãe. Embora fosse santista, meu querido e finado avô Francisco não conseguiu fazer com que qualquer de seus filhos o seguisse na paixão clubística (diferentemente do que aconteceu com meu pai, Eduardo): a tia Rosa, mais velha, virou corinthiana; minha mãe, Rose Mary, palmeirense (mas depois decidiu dar um passo a frente e virou ponte-pretana); o tio Gil, corinthiano, como a tia Ana. E o tio Edi deveria seguir pelo mesmo caminho - mas algo o desviou. Insondável como é a escolha de um time, ele preferiu dedicar sua torcida ao São Paulo.

Meu avô foi, durante muitos anos, feirante, e meu tio Edi trabalhava com ele. Trabalhavam com roupas, entre elas, também estavam os uniformes dos clubes. Lembro-me certa vez que o meu tio Edi foi presentear a mim e ao Artur com uniformes; entretanto, escondeu-os atrás do corpo. Perguntou se queríamos, independente de ver, ao que respondemos: “queremos, se for do Corinthians!”. Meu tio não deixava nem mesmo meu pai ver os uniformes - que eram, afinal, do Corinthians mesmo. Como dito acima, meu tio Edi me paparicava bastante (à época, eu era o mais novo dos seus sobrinhos homens), vivia me elogiando, quando jogávamos bola (logo eu, que nunca fui grande coisa com a bola nos pés). Uma época, eu estava com certa habilidade no gol, e cheguei a ganhar um par de luvas dele. Sempre engraçado e brincalhão, eu tinha (e tenho hoje, embora já não igual ao de uma criança) um grande amor pelo por ele.

E certa noite ele tentou se aproveitar disto: disse, a mim e a meu irmão mais velho, que, se trocássemos o Corinthians pelo São Paulo, nos daria um uniforme completo do tricolor. Meu irmão não topou (nunca perguntei a ele nada sobre isto); eu, depois de muita insistência, aceitei. Afinal, seria muito legal torcer para o mesmo time que o tio Edi, que eu tanto adorava.

Na hora de dormir, deitei-me e fiquei na cama acordado; o tempo passava e percebi que algo me incomodava. Além de teimar em não pegar no sono, minha mente não conseguia esquecer a promessa feita ao tio, e o seu significado: torcer pelo São Paulo significaria...  Não torcer pelo Corinthians. Ainda que eu, do alto de meus seis anos de idade, não acompanhasse o futebol de perto, já tinha no peito um grande amor pelo meu time. A única saída que eu tive diante daquela situação foi chorar, pois eu percebi que não queria ser são-paulino - o que eu queria era apenas agradar meu tio. Mas não havia espaço para o São Paulo no meu coração.

Pois ele já era corintiano, como sempre será. E só me restou pedir desculpas ao meu tio pela promessa que não poderia cumprir.

 


Nathan Malafaia, obviamente, ainda é corintiano.

Por Torero às 09h10

29/08/2010

O tabu entre Corinthians e São Paulo

 
 

O tabu entre Corinthians e São Paulo

Texto de Nathan Malafaia

Há poucas coisas capazes de mexer tanto com o torcedor de futebol do que o Tabu. Quando você olha na tabela e percebe que o próximo adversário é aquele do qual seu time não ganha há um bom tempo, já começa a sentir um certo mal-estar; se for rival, então, o sentimento beira o insuportável. Carrega-se uma leve esperança, que pode aumentar (bem pouco) caso o seu time consiga um gol, mas que, invariavelmente, rui diante de mais um resultado desfavorável. Tabu pesa, mexe, é confiança para seu portador e frio na espinha para quem sofre por ele.

Ultimamente, ouve-se muito que o clássico “Majestoso”, disputado entre Corinthians e São Paulo, seria o de maior rivalidade do Estado. Acredito que uma das maiores razões para isso (senão a maior) é o Tabu. Acredito que, se procurarmos no futebol mundial, não encontraremos clássico disputado entre rivais que se enfrentam regularmente que detenha o maior tempo nesta situação: em última análise, desde o longínquo dia 22 de Março de 2003, quando o Corinthians tornou-se Campeão Paulista ao derrotar o São Paulo, o “Majestoso” vive sob tabu.

Tabu é um tempero saborosíssimo: quem o detém quer manter, quem é sua vítima quer exterminar. Após a final de 2003, foram mais de quatro anos, nos quais foram disputados 13 jogos entre São Paulo e Corinthians, sem que este último conseguisse um resultado positivo. Corintiano que sou, acompanhei grande parte destes jogos, sendo que, depois de um tempo, o jogo pesa e fica amargo a cada vez que você percebe que não será desta vez que o tabu será quebrado. Recordo-me de pênaltis perdidos que mudariam jogos, grandes atuações dos tricolores, expulsões tolas, viradas inesperadas, técnicos demitidos. A impressão, a cada novo jogo, é que o tal do tabu não teria fim.

E o que intriga é que o último jogo do Tabu são-paulino é, também, o primeiro do Tabu corintiano. Num jogo feio, em que o 0x0 perdurou até os 37 minutos do 2° Tempo, Dagoberto fez o gol que mantinha a escrita a favor do São Paulo. E foi nos acréscimos deste jogo que o Tabu corintiano começou.

Há três personagens principais do Tabu que o Corinthians mantém sobre o São Paulo, e que aumentou para dez jogos neste domingo, com um retumbante 3 a 0:

A primeira delas é Zelão. Jogador que muitos corintianos gostariam de esquecer, foi dele o gol que, nos acréscimos, impediu nova derrota do Corinthians.

A segunda é Betão. Em mais um confronto que parecia fadado ao placar em branco, aconteceu o que os corintianos esperavam: aos 40 minutos da segunda etapa, Gustavo Nery (!) cobrou falta da intermediária, Fábio Ferreira (!!) escorou e Betão (!!!) cabeceou para o gol. Nada mudou para o São Paulo, que chegaria ao bicampeonato brasileiro; nada mudou para o Corinthians, que acabaria rebaixado à segunda divisão. Mas para as torcidas, o Tabu havia terminado.

Mera ilusão. Dois empates, pelas fases iniciais do Campeonato Paulista, em 2008 e 2009, mantinham uma curta invencibilidade do Corinthians. Nas semi-finais do Paulistão 2009, as duas equipes se encontraram. No primeiro jogo, persistia novo empate por 1x1, e continuava a dúvida, pois Tabu está intimamente relacionado com derrota, e o São Paulo perdera apenas uma vez.

Mas aí veio Cristian, a terceira personagem da série: nos acréscimos, roubou a bola na intermediária, avançou e chutou, certeiro, no canto de Rogério Ceni. Golaço!

Aí sim corintianos e são-paulinos tiveram certeza de que o Tabu continuava. E continua ainda. E a minha torcida, como corintiano, é para que demore a acabar, a menos, é claro, que mude de lado novamente.

Por Torero às 09h29

26/08/2010

Só de coisa importante

 
 

Só de coisa importante

Por  Marcio R. Castro

Seu Vittorino Gennaro completa hoje 96 invernos. Se bem que, mesmo em agosto, ainda inverno portanto, seria mais justo falarmos em
primaveras.

Primeiro porque inverno passa a impressão de fim da linha, o que definitivamente não é o caso do vecchio signore. Ele é daqueles que nos
causam admiração aos 30, inveja aos 50 e uma certa raiva depois dos 60.

Depois, porque primavera é a estação em que o verde fica mais verde. Argumento que basta, nada é mais verde que o coração do Seu Vittorino.
Palestrino de nascimento, parmerista desde sempre e palmeirense até a morte, se ela um dia vier.

De uns tempos para cá, vez ou outra a memória do patriarca resolvia falhar. Nada de muito grave, não se alarme. Esquecer onde estavam as
chaves era o que acontecia de mais preocupante. Vittorino dizia que sua memória estava ótima, ele só não tinha mais paciência para lembrar de
qualquer banalidade, só de coisa importante.

Mesmo assim, nonno Vitto percebeu que essas pequenas mancadas de sua memória haviam deixado seus familiares preocupados. No último
domingo, ao chegar à cozinha, se deparou com seus dois bisnetos adolescentes, que conversavam sobre futebol em meio a mordidas em
sanduíches de mortadela. Meio sem quê nem porquê, Dom Vittorino disparou:

- Fred, Júlio, nostro Palmeiras joga hoje pelo Rio-São Paulo?

Os dois se olharam ressabiados. Será que nonno Vitto começava a esquecer até as coisas do Palestra? Logo ele???

- Não, nonno, o Rio-São Paulo não é mais jogado. O Verdão é o maior vencedor do torneio, com cinco taças. E nossos títulos são todos inteiros,
nenhuma conquista dividida, nem inacabada, lembra?

- Ah, é vero, ando meio esquecido, jogamos agora no Brasileirone... A propósito, e campeone brasileiro, nós já fomos?

- Como assim, nonno?! O Palmeiras é o maior de todos, temos oito títulos. São duas Taças Brasil, dois Roberto Gomes Pedrosa e quatro
Brasileirões. Sem contar que também somos o clube com mais taças nacionais. Com a Copa do Brasil e a Copa dos Campeões, somamos dez
conquistas! Só a gente ganhou tanto. O senhor esqueceu?

- Dio santo, é vero! Agora me recordo, o Verdone também é o único clube a vencer todas as competiciones nacionais já disputadas, não é?

Com a piscada do nonno, a farsa acabava. Os garotos ficaram aliviados, sorriram com a pegadinha do bisavô, mas resolveram continuar a gincana
alviverde.

O primeiro título mundial do futebol brasileiro? Palmeiras, sete anos antes da Seleção. Na final da Copa Rio, mais de 100 mil pessoas no
Maracanã. Pobre Juventus de Turim...

Falamos de Seleção? Qual o único clube que representou o Brasil por inteiro, do goleiro ao ponta-esquerda, do técnico ao último reserva?
Palmeiras, 1965, inauguração do Mineirão. Os uruguaios tomaram de três.

Momentos críticos também vieram à baila, sem ressalvas. A fila de 16 anos? Acabou em grande estilo, 4 a 0 no arquirrival. E quando eles estavam
nos 20 anos de fila, nós os deixamos na espera por mais três.

O rebaixamento? Até quando cai, um gigante fica de pé. Fomos e voltamos campeões, sem tapetão, sem regulamentos estranhos, sem
pataquada. Com o Palmeiras, o futebol brasileiro finalmente se moralizou, pelo menos nessa questão: nunca mais houve viradas de mesa.

E a inusitada conversa foi se estendendo. As Academias, o jogo de estreia do Pacaembu, a Libertadores, o supercampeonato de 59, a arrancada
heróica de 42, a Copa Mercosul, o Palestra de São Paulo, a surra de seis em cima do Boca, os 24 títulos estaduais (sim, tem os dois Campeonatos
Paulistas Extras), a sova de oito pra cima do Corinthians (coitados!), os três troféus Ramon de Carranza (dois deles vencidos em cima de um tal
de Real Madrid), o "morreu líder, nasceu campeão", a Arena Palestra, a campanha dos mais de cem gols em 96, o tri da década de 30, o "dá-lhe
porco!", o campeão do século XX... Se tantas glórias e tradições mal cabem nesse planeta, imagine naquela cozinha!

Hoje, ao receber os parabéns, Vittorino tentou disfarçar a surpresa, mas não conseguiu.

- Tinha se esquecido do próprio aniversário, nonno?!!

- Hoje joga o Palestra, cazzo! Só me lembro de coisa importante!

 

Marcio R. Castro é, obviamente, palmeirense.

Por Torero às 07h56

14/08/2010

Técnicos de futebol e economistas

 
     

Keynes ou Cruyff?

 

Luiz Guilherme Piva*

Técnicos de futebol podem ser comparados a economistas. Os dois profissionais lidam com realidades de difícil controle (sociedade, jogadores) e, tendo em mente concepções e planos de ação, buscam seus objetivos pondo para atuar os recursos de que dispõem. Na maioria das vezes dá errado, e eles sempre atribuem a culpa ao imprevisto e aos recursos disponíveis - nunca às concepções e aos planos de ação.

Às vezes chegam a crer que o problema é com a realidade, inadaptada à sofisticação e ao acerto do modelo adotado. E mais: diante de fracassos seguidos, eles acreditam que o problema é a impaciência do público, que não vê que no longo prazo tudo dará certo – embora um dos mais famosos economistas (Keynes) afirmasse que no longo prazo estaremos todos mortos.

Na prancheta do técnico ou na planilha do economista, coloca-se um boi na entrada de um modelo e saem bifes do outro lado. Os pressupostos do modelo são escolhidos casuisticamente por eles mesmos, com a ponderação e os riscos que arbitram para produzir exatamente o que pretendem. Tudo perfeito. Aí vem a realidade, com fatores e pesos não considerados, e atrapalha: oligopólios, retrancas, dribles, greves, banqueiros, juízes, morrinhos, tecnologias, trivelas, burocracias, geadas, traves, etc. Seria o caso de, como os russos, perguntar para o técnico: combinou com o Garrincha?

Não, é claro. Mas técnicos e economistas seguem acreditando com tanta fé no modelo que, frente ao fracasso, voltam à prancheta e à planilha, colocam na saída do seu modelo os bifes e vêem sair um boi inteiro, perfeito, lá na entrada. Eles então se convencem ainda mais do seu acerto. E tentam de novo, de novo, de novo. Morre gente no caminho. Times se acabam. Torcedores se enfurecem. O país se afunda. Mas, caramba, é preciso ter paciência!

Avançando na comparação, há um antigo paradoxo que acabei de inventar. É que economistas são considerados ortodoxos quando pretendem que o governo não intervenha em nada: se ele não agir e só der as regras gerais, tudo dará certo, apregoam. Produtores, distribuidores, consumidores, trabalhadores, desempregados e miseráveis encontrarão seu lugar e sua função da melhor forma, com a maximização de suas individualidades no livre jogo das forças de mercado, em prol do benefício de todos. Os técnicos classificados de ortodoxos, porém, são os que controlam todos os movimentos do time, coibindo o individualismo e o improviso, que resultariam, crêem, no caos e na derrocada. Por isso, desenham, cronometram, ensaiam, gritam, premiam e punem quem não seguir estritamente suas determinações táticas. 

Já os heterodoxos, na economia, são os que querem planejamento, intervenção e gasto público para evitar o caos e a miséria. E, no futebol, ao contrário, heterodoxos são aqueles técnicos que não se apegam a modelos rígidos e propõem o jogo livre com base na individualidade e na criatividade dos jogadores, guiados apenas por suas diretrizes gerais – que eles preferem chamar de estratégia, em lugar de tática.

Ou seja, Cruyff, treinador heterodoxo, seria, transplantando-se seu ideário, um economista ortodoxo. Milton Friedman, economista ortodoxo, seria um técnico heterodoxo. Parreira e Keynes seriam os opostos daqueles, respectivamente.

Mas as coisas não são simples assim. Há aqui um outro paradoxo clássico, que montei agora só para fechar o texto. É que, se dividirmos em grupos de afinidade as pessoas que gostam simultaneamente de economia e de futebol, certamente haverá um grupo que gosta de Friedman e Parreira (ambos ortodoxos, mas com acepções opostas de ortodoxia) e outro grupo que gosta de Cruyff e Keynes (ambos heterodoxos, mas com acepções opostas de heterodoxias).

Façam o teste com vocês mesmos e com as pessoas que vocês conhecem. Estou convencido de que vão encontrar o resultado que modelei aí em cima. Se não encontrarem nas primeiras vezes, não desistam. Sigam testando. É preciso ter paciência, caramba!


*Luiz Guilherme Piva publicou “Ladrilhadores e Semeadores” (Editora 34) e “A Miséria da Economia e da Política” (Manole).

Por Torero às 07h22

29/07/2010

O início, o fim e a bola no meio

 
 

O início, o fim e a bola no meio

Marcus Vinicius Batista*

 

            O primeiro impulso é colocar o atacante Neymar na cruz e começar o apedrejamento. O jogador do Santos teria cobrado um pênalti contra o Vitória para aparecer entre os vídeos bizarros do YouTube? Vamos ponderar um pouco mais com o garoto de 18 anos, momentos de veterano, circunstâncias de moleque.

            Um jogador do nível dele transita numa fronteira perigosa. Caminha entre a genialidade e a chacota. Entre a luz e o deboche. Craque para os apressados. Jogador em formação para os conscientes.

            O pênalti era o campo minado entre os dois lados. Se o goleiro Lee tivesse deitado para morrer, Neymar seria aclamado em palmas e urros. Diante da obviedade, o goleiro-menino da Bahia saiu da vida para entrar na história. E Neymar, com os ovos e tomates para os que declamam um texto ruim.  

            O atacante do Santos é algoz de si mesmo e vítima de quem o cerca. Neymar é instrumento do dinheiro rápido, dos holofotes oportunistas, das mercadorias que nascem sedentas de um ídolo ainda embrião. Neymar é carrasco porque, pela imaturidade, engole a soberba, digere a vaidade e vomita a arrogância, típicas dos que subiram as escadas de motocicleta.

            Não há como jogar o peixe aos tubarões. Neymar é fruto da ânsia pelos lucros sem limites. Pelos euros que balançam em frente aos seus olhos. E quem sacode o pote de moedas de ouro são os que deveriam puxar o freio da locomotiva. São aqueles que deveriam dizer ao menino alçado ao topo da responsabilidade que a vida se faz por etapas. Queimá-las é pisar em bombas escondidas sob a terra.

            O pênalti é tão importante que o presidente do clube sequer poderia pensar em cobrá-lo. Pênalti exige homens de caráter. Mais do que maniqueísmo, caráter significa a dimensão do que o jogador representa para aqueles que o admiram, o veneram, o amam das arquibancadas, das poltronas, com os radinhos colados nos ouvidos.

            O goleiro tem, a princípio, um papel de figuração. É o condenado à frente do pelotão de fuzilamento. Chances mínimas de sobrevivência. Neymar não pode desafiar a lógica. Se a bola batesse na trave, seria uma brincadeira de quem joga dados por nós. O gol, a obrigação.

            O pênalti perdido por Neymar não seria o primeiro com o desfecho pelo meio. Ainda moleque, meu primeiro treinador, o ex-ponta esquerda Zé Luiz, conhecido como Galo, contava a história de uma cobrança perdida.

            Durante os treinos no Estádio Ulrico Mursa, da Portuguesa Santista, sempre havia sessões de cobranças de penalidades. Eu, como goleiro, adorava a brincadeira, já que poderia tomar refrigerante de graça se defendesse as cobranças.

            Quando o batedor perdia por displicência, Zé Luiz repetia a história do jogo entre XV de Piracicaba e Guarani, em um distante Campeonato Paulista dos anos 70. Zé Luiz jogava no XV e foi bater um pênalti. Neneca era o goleiro do Guarani. O ponta-esquerda resolveu bater no meio, pois esperava que Neneca escolhesse o canto.

            Bateu no meio. Neneca ficou parado, segurou a bola com facilidade e saiu jogando com o lateral-direito. Confesso que me esqueci do resultado da partida. Daí em diante, Galo só dava pancada rasteira nos cantos.

            Neymar será lembrado pelo pênalti. Mas tem a chance de reescrever o final do episódio, delegando a defesa de Lee à nota de rodapé da biografia. Basta entender que pênalti é uma bomba prestes a explodir sob os pés do cobrador.

 

* Marcus Vinicius Batista é santista de nascimento, não de time. Nem torce para o Guarani ou XV de Piracicaba.

Por Torero às 20h32

28/07/2010

“Esse time não tem nenhuma perca!”

 
 

“Esse time não tem nenhuma perca!”

Por Luiz Guilherme Piva*

Ponta-direita, neguinho, rápido, driblador. Gostava de brincar com uns passos de dança americana – break, soul, rap ­– imitando o som das canções. O time era da firma. Todo domingo, de caminhão, nas roças por perto, contra o onze local. Às vezes, com corte de fita, bola novinha em celofane amarelo. Às vezes várzea, pirambeira, pinguela, terra. Das dez ao meio-dia, o sol no uniforme todo preto, poeira subindo.

Moringa. Carregador de caminhão. Esticava na corrida e o lateral-esquerdo ficava. Ou parava e driblava. Difícil era acertar o cruzamento anunciado: “olha o cruzo!”. Escanteio, então, só bateu uma vez, no primeiro jogo da série de quatro ou cinco anos de vitórias, derrotas, torneios, amistosos e cervejada no final do jogo (o maior torcedor, de certa idade, também trabalhador braçal na firma, com o copo erguido dizendo: “esse time não tem nenhuma perca!”). O time pressionando pelo empate, nos acréscimos, córner a favor. Moringa foi lá, todo mundo na área, o juiz com o relógio apressado, ele ajeitou, olhou, ajeitou de novo, rolou um pouquinho a bola, a turma gritando, ele pedindo calma, um remelexo, parecia que uns dois dias já tinham se passado. Foi gingando pra bola e bateu com estilo – pra fora, longe, fraco. O juiz apitou o fim do jogo. Nunca mais deixaram.

Mas virou alguns jogos difíceis. O outro time em cima, a defesa esticava e lá ia ele, ganhava do beque e batia rasteiro, cruzado. Depois, no bar, ficava rindo, só no guaraná, repetindo “make up your mind, guy”, que aprendera com alguém.

Uma vez desapareceu de campo, numa disputa relativamente desigual com um lateral-esquerdo. O campo tinha uma descaída bem do lado em que ele correria: acabava o campo, um barranco descia para um terreno lá embaixo. Antes do início o capitão avisou: “tá vendo aquele gigante ali? É o lateral. Vai te marcar. Cuidado. É violento”. Moringa ficou ali, de olho no marcador, chegou perto, tentou sorrir, acenar, e o gigante nem nada. Queria ficar bem com o cara, dava na altura do peito dele, era melhor conquistá-lo. Times a postos, bola no meio, Moringa viu que o lateral já colara nele ali na risca central, na beira do campo – a coisa ia ser homem-a-homem.

Tentou a diplomacia: “aí, brother, vou passar umas três vezes no meio das suas pernas, mas é do jogo, não leva a mal”. Estátua gigante. Silêncio. Não deu a mão e deixou a do Moringa no ar. Primeiros minutos, pressão adversária, a defesa tira (dois beques cujos chutões exigiam as travas de ferro que usavam – quando a bola ia para um bambuzal o jogo parava. Uma vez, cobrado pelo exagero, um deles argumentou: “é pra acalmar; vocês ficam aí se agredindo uns aos outros!”), a bola cai com o Moringa na ponta, rente ao que deveria ser a linha lateral, atrás dela a descida de terra, o Moringa estica na frente, o gigante vai atrás, o Moringa pára, ginga, estica de novo, o gigante em cima dele, poeira em volta.

Um baque surdo. Sobe mais poeira. De repente só se vê o gigante com a bola, tocando. O Moringa, cadê? Sumiu. Ninguém entende. O juiz pára o jogo. Daí a pouco, duas mãos na beira do campo, subindo o barranco. O Moringa tinha sido jogado lá embaixo pela entrada digamos ríspida do lateral. Sorte que tinha uns arbustos. Alça o corpo, põe-se de pé. Bate a poeira do corpo. Faz sinal pro jogo seguir.

Mas nesse dia ele não jogou nada.

 

Luiz Guilherme Piva publicou “Ladrilhadores e Semeadores” (Editora 34) e “A Miséria da Economia e da Política” (Manole).

 

Por Torero às 09h31

26/07/2010

O bilheteiro

 
 

O bilheteiro

(Estou em Cuba, ou seja, nos anos 50, onde a internet ainda nem existe (ou, quando existe, mostra-se absurdamente lenta e cara), de modo que terei que usar os escritos dos senhores leitores esta semana. Na outra semana, hei compensar-vos. Por ora, mandem seus textos!).

 

Por Marcio R. Castro

- Bom dia.

Reginaldo nunca respondia de forma intelegível. Se ainda fosse uma mulher que lhe falasse, sabe-se lá. Mas nunca era, e o bilheteiro se contentava em dar um leve balanço de cabeça.

- Duas arquibancadas.

Reginaldo conferia o dinheiro, entregava o troco, passava os ingressos pela grade.

- Brigado.

Não vinha resposta do cubículo escuro. Na despedida, nem com a cabeça. Próximo.

Mas não era apenas essa a rotina do bilheteiro. Era Reginaldo o responsável por separar a cota dos cambistas. No começo, havia uma preocupação em não levantar suspeitas. O rapaz abria diversos pacotes de ingressos, que vinham em lotes, e pinçava apenas alguns de cada embrulho. Mesmo assim, nunca em sequência. Chegava a embaralhar os ingressos antes de abduzi-los, garantindo assim uma seleção aleatória.

Ao longo do tempo, tais esforços foram sendo deixados de lado. Dependendo do seu estado de espírito, vez ou outra Reginaldo colocava novamente a prática em voga. Logo isso também acabou. Nem ele, nem seus superiores, vamos chamar assim, se importavam mais. E realmente não havia com o que se preocupar.

Além de receber alguns trocados do esquema, é claro, Reginaldo se reservava o direito de separar ingressos para ele mesmo. Ia a todos os jogos, era fanático. Em seu peito fervia uma paixão por seu clube que não tinha por mais nada na vida. E acompanhava seu time com o que acreditava ser uma devoção verdadeira, mesmo com a equipe em má fase.

Aliás, eram nesses momentos que, curiosamente, o bilheteiro mais gostava de estar presente. Xingava aos berros, ameaçava a tudo e a todos, arrumava briga, vociferava expelindo perdigotos de fúria. Parecia que tinha um prazer especial em hostilizar suas próprias cores, seu próprio amor. No fim das contas, a si mesmo.

Um dia, após uma derrota mais amarga, lá estava ele entre os torcedores que se amontoavam na saída do vestiário. Os jogadores, escoltados, passavam em direção ao ônibus rapidamente enquanto eram homenageados. Reginaldo avistou o zagueiro Odlaniger, que tinha o exótico nome envolvido em especulações sobre uma conturbada transferência, após negociações fracassadas de renovação do contrato. Dizia-se por aí que o jogador estava forçando sua saída, mas não era verdade. A própria diretoria do time passava à imprensa tais desinformações, a fim de prejudicar possíveis contatos com outros clubes.

De qualquer modo, estava escolhido o alvo de Reginaldo, que gritou como quem atirava em uma raposa acuada:

- Mercenáriooooooooooooo!!! Traidooooooorrrr!!! Vendido de merdaaaaaaa!!!

Os impropérios se alastraram como uma epidemia, mas, diferentemente dos demais, Odlaniger seguiu altivo e sem apertar o passo. O jogador olhou fixamente para seu primeiro algoz, como quem dissesse, quase irônico: eu? Pelo menos foi o que pareceu ao bilheteiro, que mesmo querendo desviar o olhar, não conseguiu. Durante todo o trajeto os dois ficaram se fitando nos olhos.

Estranhamente, já que não guardava qualquer semelhança física com o jogador, naquele breve momento o bilheteiro se sentiu como se estivesse em frente a um espelho. Um tipo particular de espelho, diga-se, que parecia refletir só em sua mente. Quando finalmente Odlaniger desapareceu no ônibus, Reginaldo estremeceu.

No jogo seguinte de seu time, lá estava ele. Mesmo tendo, depois de muito tempo, que comprar seu próprio ingresso. Reginaldo estava diferente, introspectivo. Mas se percebia mais leve, apesar de se sentir um tanto vigiado.

Na saída do estádio, passou em frente à bilheteria, deu uma boa olhada à sua janelinha. Sua não, já que havia largado o trabalho. Estava preocupado, dependia do emprego para sobreviver. Mas, antes de tudo, precisava sobreviver à sua inesperada consciência.

Por Torero às 11h41

14/07/2010

ABC da Copa do Mundo

 
 

ABC da Copa do Mundo

Por Silvio Roberto Freitas

A de Alemanha, que nos trouxe um time renovado e totalmente diferente do futebol carrancudo que (quase) sempre a caracterizou;

B de  Ballack, que não fez a menor falta à renovada Alemanha de Bastian (Schwainsteiger);

C de Cacau, o brasilemão que ao tocar pela primeira vez na bola, fez um gol na Austrália;

D de David, Villa, um dos artilheiros do Mundial, com 5 gols, que poderia  ter feito mais uns 5, não perdesse tantos;

E de Eto’o, que de esperança dos africanos tornou-se uma das maiores decepções desta Copa;

F de Forlán, o Diego, filho de Pablo, que foi, mui justamente, eleito o melhor da Copa;

G de de Gerrard, meia inglês, que, se não ficou devendo tanto quanto Rooney, não chegou a brilhar;

H de Henry, o avante francês que viu do banco de reservas sua seleção fracassar;

I de Iker, primeiro nome de  Casillas, goleiro que garantiu o tíitulo espanhol ao salvar gol certo de Robben e que deixou sua (belíssima) namorada totalmente desconcertada , ao sapecar-lhe um beijo durante entrevista ao vivo;

J de Joachim Low, o técnico alemão que trouxe ao Mundial um selecionado jovem, ofensivo e talentoso ;

K de Klose, que, se não ultrapassou Ronaldo, igualou a marca de Gerd Müller, 14 gols em Mundiais;

L de Luiz Suárez, o avante uruguaio que fez a  jogada mais importante de sua vida ao defender com a mão uma bola que seria o  gol da vitória de Gana nas quartas de final;

M de Müller, que fez cinco gols e foi o maior destaque individual do ótimo time alemão;

N de Nadal, que foi à final e vibrou muito com a vitória da Fúria;

O de  Özil, outro jovem promissor alemão, que só não foi melhor do que seu companheiro de time, Müller;

P de Puyol, o zagueiraço espanhol que, ainda que não seja muito alto, fez golaço de cabeça contra os gigantes alemães e quase repete a dose na final ante a Holanda.

Q de Queiroz, o Carlos, técnico de Portugal, que parou o Brasil e, depois, parou na Espanha.

R de Ronaldo, o Cristiano, que, preocupado apenas em aparecer bem nas imagens, ficou devendo muito futebol nesta Copa;

S de Sneidjer, o craque da Holanda, que, apesar de ser muito chato, joga um bolão e quase conseguiu consagrar Robben na final;

T de Tabarez, o Oscar, técnico do Uruguai, que levou os platinos a um honroso quarto lugar;

U de Uruguai, que renasceu e abrilhantou a Copa com a sua raça.

V de Vicente, Del Bosque, o tranqüilo técnico espanhol, que, ao contrário de outros que andam por aí, fez tudo para não atrapalhar o timaço que tinha em mãos;

X de Xavi, o grande comandante da nau espanhola,  cracaço de bola;

W de Wayne, Rooney, que, a exemplo de Cristiano Ronaldo, também ficou devendo e muito nesta Copa;

Y de Yniesta, que se escreve com I, mas não poderia ficar de fora deste ABC, já que fez o gol mais importante da história da Espanha

Z de Zebra, que não poderia faltar na Copa da África, e que se materializou na eliminação precoce da Itália e na derrota imposta pela Suíca à campeã Espanha.

Silvio Roberto Freitas é advogado e, principalmente, torcedor do Sport).

Por Torero às 09h14

13/07/2010

Clube do Apito Final

 
 

Clube do Apito Final

Por Ricardo Laganaro

No salão de festas da sede do Ameriquinha carioca um evento secreto é realizado todo ano de Copa, assim que acaba a competição mais comentada em todo planeta.

O primeiro a chegar sempre é o presidente. O beija-flor, o dono da solucionática e do gol de velotrol : Dadá Maravilha. Fundador do clube e titular vitalício da cadeira. Normalmente chega acompanhado do vice. Debochado, de risada alta e andar malandro: Paulo César Caju.

Juntos, ambos começam o ritual de montagem da cerimônia. Posicionando as mesas em forma de “U”, preparando as plaquinhas com o nome de cada integrante e trazendo o tão esperado telão.

Nesse ano, na seqüência, chegou meio tímido e deslocado, Luizão. Acho que nem ele ainda se convenceu que faz parte do seleto grupo, mas foi convocado em 2002, não tinha como excluí-lo. De qualquer forma, chegou cedo e ajudou na preparação com muita boa vontade.

A “diretoria” veio depois com Viola, Edmundo e Renato Gaúcho. Formada pelos 3 cavaleiros que tiveram a maior honra pra um integrante do Clube: entrar nos minutos finais de uma partida com o destino já sacramentado, pra tentar o impossível.

Aí a coisa animou, entre os abraços e cumprimentos, quando se deram conta, todos estavam lá. Aqueles que já foram citados, além do Casagrande, Fred, Denílson e Roberto Dinamite.

Todos estavam loucos para começar o ritual de assistir e comentar suas rápidas participações nas Copas do Mundos, mesmo que apenas sentados no banco, dando entrevistas para canais menos favorecidos pela CBF, ou (a glória!!) entrando no final, com mais vontade que todos os jogadores em campo e dando demonstrações como aquela dura no Rivaldo na final de 98 (Fair Play uma hora dessas?!?!), ou numa jogada que quaaase definiu a parada sem precisar de pênaltis em 94.

No momento que todos sentaram, como que por mágica, chegou o homenageado da noite : Grafite. Ainda abatido com o pífio desempenho da seleção contra a Holanda, mas emocionado ao ver aquelas grandes figuras do futebol brasileiro o aplaudindo. Entregou para o Fred, ex-calouro, um dvd com seus momentos na Copa e sentou no seu lugar pra ouvir as histórias dos colegas, ansioso.

Aos poucos todos foram se posicionando, e num momento inesperado o foco de luz foi então para a mesa da presidência. Após uma ou outra piada sobre médios-volantes e zagueiros, um clássico por lá, Dadá pediu a palavra:

- Amigos! Antes de fazermos o de sempre, gostaria de dizer algumas frases. Estamos aqui mais uma vez reunidos pra celebrar a continuação desse clube. Não somos os craques do time. Não somos quem levanta a taça, e nem aqueles que levam a bola de ouro. Somos mais do que isso! Somos o ilógico, o irracional. Somos o clube dos atacantes reservas, o clube do último suspiro, o clube da espera de um milagre, o nosso querido “Clube do Apito Final”. – aplausos –  Não importa o que aconteça com a seleção nas eliminatórias e na primeira fase da Copa, é sempre no final angustiante de um jogo decisivo que nosso clube ressurge. São nesses minutos finais que o atacante reserva se transforma na vontade do povo materializada! Nesses instantes que até cego vê que só um de nós pode fazer todo país acreditar que o que já tá escrito, pode mudar. E você, meu querido, Grafite, sinta-se honrado de estar aqui. Num vai fazer como o Fenômeno que veio um ano, e depois esqueceu que era um dos nossos, heim!? Porque o que representamos aqui é muito maior do que qualquer título, não é Dinamite?

- Mesmo com 6 volantes, mesmo falando que o Brasil só tem guerreiros, ou qualquer outra bobagem desse tipo, o dia que a seleção brasileira não tiver um de nós no banco de reservas, aí sim pode ter certeza que o Futebol acabou! Porque quem nos convoca não é o técnico. Quem nos convoca é a voz de Deus.

– Ou o Médici, gritou o Casão, em tom de brincadeira.

Dadá, emocionado, continuou: – Que venham os novos Zagallos, os novos Parreiras e os novos, Deus que me perdoe, Dungas! Enquanto um dos nossos tiver lá sentado, no jogo final, pronto pra lembrar pro Brasil inteiro que a magia é a última salvação da seleção, o Brasil ainda continuará a ser o País do Futebol. Não importa o resultado do jogo. Muito obrigado!

Aplausos e assovios!

Bem mais emocionado que de costume, Dadá chorou. Com razão. Reza a lenda que antes da convocação dessa copa cogitaram até em suspender o evento. Foi por pouco … Muito pouco …


(Ricardo Laganaro, publicitário, cronista semi-amador, palmeirense e fã do bom futebol brasileiro.)

Por Torero às 08h27

09/07/2010

Seleção "alternativa" da Copa

 
 

Seleção "alternativa" da Copa

Por Eduardo Tavares

Eis a minha seleção "alternativa" da Copa, formada pela onzena de não-jogadores que mais deu o que falar nos últimos 30 dias.


1 - Larissa Riquelme - Não, a musa não joga no gol porque sabe bem como agarrar as bolas. Nesse time, o goleiro pouco trabalharia e poderia até ler jornal durante a partida. Moderna e confiante em sua equipe, Larissa tem tempo de sobra para navegar pela internet em seu celular, muito embora ele, o celular, prefira ficar quietinho no paraíso que lhe fora destinado.

2 - Paul, o Polvo - Preciso nos cruzamentos, Paul, o Polvo, não erra nenhuma jogada. Seu índice de acertos é motivo de preocupação constante para os adversários. Além disso, é adorado pela imprensa em virtude das previsões que realiza antes dos jogos, transformando as entrevistas coletivas em grandes momentos. Brincam os companheiros dizendo que Paul, o Polvo, não faz apenas previsões, sendo capaz também de trazer a pessoa amada em 72 horas.

3 - Nelson Mandela e 4 - Desmond Tutu - os dois zagueiros da seleção são retratados assim, juntos, porque juntos representam uma fortaleza na defesa dos direitos humanos e da igualdade racial. A eles não basta o prêmio de melhor jogador da Fifa. O Nobel da Paz, este sim, é digno da altura destes dois zagueiros.

6 - Mick Jagger - A verdade é que não há equipe sem ponto fraco. Certamente os adversários explorarão os erros cometidos pelo inesperado roqueiro britânico, um verdadeiro azarão na convocação. No entanto, suas atuações ao menos serviram para mostrar ao mundo o porquê do famoso verso "I can't get no satisfaction".

5 - Galvão - O cabeça-de-área da nossa seleção é assim: não se cala por um instante que seja. Está sempre orientando os demais jogadores e, nas coletivas, costuma responder as próprias perguntas. Se o árbitro não der um minuto de acréscimo no primeiro tempo e três no segundo, Galvão reclama. Os colegas de time dizem que instalarão um microfone em seu cotovelo.

8 - Alex Escobar - Atleta discreto, garantiu presença no time titular por uma única atuação. Aconteceu no dia em que ele tomou emprestado o celular da Larissa Riquelme em pleno jogo, o que é proibido aos jogadores de linha. Tomou uma bronca homérica do treinador, que vazou para o mundo inteiro. No entanto, Alex, que é tataraneto de Capitu e, ao menos oficialmente, de Bentinho, superou bem o momento e segue desempenhando seu trabalho com qualidade.

11 - Jabulani - Cansada de ser maltratada, Jabulani resolveu entrar em campo para demonstrar que a culpa de eventuais tropeços não é sua. Se derem espaço, Jabulani promete se chutar de fora da área e marcar muitos gols.

10 - Twitter - Eis o maestro da seleção. Sem ele, o time não rende, já dizem os comentaristas. Todavia, nos momentos cruciais das partidas, Twitter pode se sentir sobrecarregado e atuar como uma baleia. Mas nada que retire do camisa 10 o status de sensação da Copa.

9 - Vuvuzela - Vuvuzela é daqueles centro-avantes barulhentos, que não se contenta apenas em marcar gols. De fato, muito mais do que dar espetáculo, Vuvuzela se preocupa mesmo é em ensurdecer a torcida e a imprensa com suas declarações estrondosas. E assim, numa nota só, Vuvuzela garantiu presença nesta seleção.

7 - Álbum da Copa - Outrora jogador favorito apenas da criançada, Álbum da Copa passou a ser idolatrado também por adultos de todas as idades. É verdade que as atuações de Álbum da Copa costumam perder em inovação na medida que o torneio avança, o que leva muitos cronistas a rotular seu futebol de "figurinha repetida". Entretanto, Álbum da Copa veio com a missão de completar o time e assim o fará, sobretudo se contar com a sorte e com a ajuda dos companheiros.

 

Eduardo Tavares é torcedor do Ferroviário/CE e, portanto, um eterno otimista.
www.twitter.com/Dudu_Tavares

Por Torero às 00h37

07/07/2010

Brasil e Argentina na final? Nunca!

 
 

Brasil e Argentina na final? Nunca!

Luiz Guilherme Piva

O lado bom das derrotas: não haverá a final entre Brasil e Argentina nesta Copa. E tomara que não haja em nenhuma Copa. Certas coisas devem existir somente como possibilidade. Temidas ou desejadas ao extremo, elas são muito melhores – corrijo: elas só são boas, ótimas, maravilhosas – quando pensadas: “Já imaginou se?”, “só de pensar me dá um troço esquisito”, “nunca mais o mundo será o mesmo” – e por aí. São sensações que valem dessa forma. A coisa imaginada, desejada, temida, não deve ocorrer. Porque extinguiria o que a idéia tem de supremo. Porque a realidade será muito menor do que seria quando somente imaginada.

Ganhar na loteria sozinho é um bom exemplo. Problemas com aplicações, parentes, seguranças. Prazeres vãos do consumo e da carne. E lá se vai o sabor incomparável de deitar pensando em como seria se seu bilhete fosse o único premiado. O sorriso no travesseiro antes da babinha alegre do sonho inatingível. Outro exemplo: virar o melhor jogador de futebol do mundo. Ou o cantor, ator, escritor ou cientista mais admirado e famoso do mundo. Sono pesado, de olhos fechados ou abertos, e um prazer imenso.

Exemplos de temor: a guerra aberta entre EUA e China, ou Rússia, ou Oriente. A bomba atômica de efeito global. A invasão da terra por marcianos malévolos. Choque entre planetas. A fome, a praga, a peste, o fogo – corroendo tudo. Insônia, olhos arregalados, pavor. Que nada disso aconteça é muito melhor.

Uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina está nesta categoria de coisas que não podem ocorrer. Devem ser imaginadas. Temida ou desejada, ela é muito melhor – corrijo: só é fantástica – assim: não acontecendo jamais. Se ocorrer, com sua mesquinhez de lances reais, com o fatídico resultado concreto, com as versões, teipes e discussões, tudo perderá tensão, prazer, pavor. Que joguem em amistosos, torneios, eliminatórias, que se matem e se amem em qualquer lugar – até em semi-finais de Copa, se preciso. Mas em final de Copa, não.

Devem seguir o exemplo de América e Pombense, de Rio Pomba, em Minas. Rivais mortais e fraternos, só jogaram duas vezes entre si em mais de cem anos. Uma no início e outra no final do século XX. Foram dois empates - se não me engano, sem gols. E a cidade, pequena, se agiganta de prazer e pavor imaginando o que seria se voltassem a se confrontar. Mas todos sabem que isso não deverá e não poderá ocorrer. Preferem até que haja a guerra mundial, o choque entre planetas, a fome e a peste, a cura de todas as doenças.

Estou com eles. Tudo, menos a final de Copa entre Brasil e Argentina.


[Luiz Guilherme Piva, economista, é autor dos livros "Ladrilhadores e Semeadores" (Editora 34) e "A Miséria da Economia e da Política" (Manole).]

 

 

Por Torero às 10h05

30/06/2010

Resposta à Síndrome de Abstinência

 
 

Resposta à Síndrome de Abstinência

(Thiago Ribeiro enviou esta solução para o problema enfrentado por Alaor e descrito alguns posts abaixo)

 

Caro Torero,

A identificação que senti com o Sr. Alaor foi impressionante. Ainda não estou em estado tão crítico. Mas temo pelo dia de amanhã.

Inspirado pelo tempo que me resta, passei a pensar sobre uma solução para os dias sem jogos. Envio, por solidariedade ao Sr. Alaor, a ideia que me surgiu. Por favor, repasse ao distinto e me envie os comentários que ele, espero já recuperado, teceu sobre o assunto.

Por que não o Torneio da Consolação?

Hoje sinto um vazio. Depois de quase 20 dias com pelo menos dois jogos diários, está sendo das coisas mais difíceis sobreviver sem uma partidinha sequer da Copa. E pensar que amanhã o martírio continua…

Melhor pensar em outra coisa. Melhor pensar numa solução para os dias sem jogos. A mais simples seria distribuir os jogos das quartas diariamente, em vez de concentrá-los entre sexta e sábado. Porém, essa alternativa seria injusta com os times que jogassem depois. Teriam menos tempo de descanso. É correto, pois, fazer os jogos de adversários futuros no mesmo dia.

Mas isso não é motivo para tristeza. Há sim uma solução para os dias sem jogos. O Torneio da Consolação! Seria um certame disputado pelas seleções eliminadas ao longo das fases, para determinar cada uma das posições na Copa. Nada mais justo, afinal algumas equipes fazem campanhas piores do que outras não por serem de fato piores, mas por darem o azar de pegar grupos mais fortes pelo caminho. O Torneio da Consolação (TC) resolveria isso.

Para não obrigar os jogadores a um esforço excessivo para alguém que já perdeu as chances de título, o TC contaria com regras especiais, inspiradas nos Torneos de Verano argentinos, devidamente adaptadas em nome da emoção. Cada jogo teria 45 minutos e, em caso de empate, iria direto para a disputa de pênaltis. Se um time abrisse uma vantagem de dois gols durante o tempo regulamentar, seria imediatamente considerado vencedor por nocaute.

Com regras como essas e a tabela abaixo, construída a partir dos pontos conquistados por cada seleção na Copa, o TC seria garantia de sucesso. Confiram:

9º lugar: Japão x Estados Unidos

11º lugar: Chile x Portugal

13º lugar: Inglaterra x México

15º lugar: Coreia do Sul x Eslováquia

17º lugar: Costa do Marfim x Eslovênia

19º lugar: Suíça x África do Sul

21º lugar: Austrália x Nova Zelândia

23º lugar: Sérvia x Dinamarca

25º lugar: Grécia x Itália

27º lugar: Nigéria x Argélia

29º lugar: França x Honduras

31º lugar: Camarões x Coreia do Norte

A magnificência de alguns confrontos salta aos olhos. Japão e Estados representariam em campo a velha rixa econômica tão alimentada entre meados das décadas de 80 e 90. Inglaterra e México seria o duelo dos que poderiam ter sido e não foram. Suíça e África do Sul definiria de uma vez por todas o que é melhor: ser triste e taciturno ou alegre e extrovertido.

Austrália e Nova Zelândia faria parar toda a Oceania. Os habitantes das grandes ilhas encheriam dezenas de estádios de rugby para acompanhar a batalha. Itália e Grécia decidiriam em campo quem foi o melhor da Antiguidade. Nigéria e Argélia definiriam quem está à frente na disputa entre as Áfricas negra e branca.

Quanta diferença em relação aos tristes dias sem jogos…

Em nome da desportividade e em defesa os indefesos seres humanos prejudicados pela falta de criatividade da FIFA, fica a partir de agora oficialmente lançada a campanha pelo Torneio da Consolação Brasil 2014.

Lutemos juntos por essa bandeira. Para que o vazio de hoje não se repita em nossas pobres almas daqui a quatro anos.

Obrigado. E estimas de melhoras ao Sr. Alaor,

Abraço,
Thiago B. Ribeiro
(http://coisasmais.wordpress.com)

Por Torero às 18h48

16/06/2010

A estreia do Brasil vista por 11 mulheres

 
 

A estreia do Brasil vista por 11 mulheres

Texto de Maria Rita Barbi

Confortavelmente acomodada em um escritório ao lado do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, acompanhei a estréia da seleção na Copa do Mundo, cercada só por amigas. Onze mulheres formaram um time completo de torcedoras, sem reservas.

Nos momentos que antecederam o início do jogo, fizemos um bolão. Como prêmio, combinamos uma indulgência para os regimes estabelecidos: uma pizza grande, sabor mussarela.

A ausência completa de testosterona no nosso grupo pôde revelar dois interessantes tipos de torcedoras nessa Copa: as futebolistas-arte e as analistas técnicas.

As futebolistas-arte primam pela beleza no jogo. Gostam de ver contra-ataques com velocidade, dribles, pedaladas e gols de bicicleta.

As analistas técnicas entendem de futebol. Conhecem as habilidades de cada jogador, discutem os esquemas táticos e emitem opiniões contundentes sobre as partidas.

Seguindo uma linha festiva, as futebolistas-arte enfeitaram o escritório com bandeirolas, prepararam uma mesa de quitutes temáticos e distribuíram cornetas. Já as analistas técnicas compilaram uma síntese das estatísticas sobre as equipes.

O início do jogo na África do Sul foi morno. Os primeiros minutos, tensos e sofridos. Para piorar, ninguém entendia os nomes dos jogadores asiáticos, o que dificultava a compreensão das jogadas. Aos trinta minutos, a partida estava tão ruim que no escritório já tinha gente batendo bola com o deus do sono Morfeu.

As futebolistas-arte que ainda estavam acordadas foram preparar um café. As analistas técnicas, irritadas, discutiam o desempenho pífio da seleção no jogo.  Seria culpa da Jabulani? Do frio? Do Dunga? Dos olhos de choro dos jogadores adversários?

Não havia mistério. A Coréia do Norte defendia e ocupava bem o campo, fechando o Brasil na defesa. E o time brasileiro mostrava dificuldade para impor sua qualidade contra o adversário.

De qualquer ângulo, o Brasil estava longe do desempenho pentacampeão.

Em face de tamanha decepção, as mulheres começaram até a falar de moda:

“Ousado o casaco do Dunga. É de grife?”

“Claro. Mas prefiro as chuteiras amarelas dos jogadores da Coréia do Norte. Ficam descoladas com o uniforme vermelho.”

No final do primeiro tempo, uma futebolista-arte resumiu o espírito coletivo de frustração:

“A gente se fantasia, se arruma pra festa e ninguém faz nada!” - desabafo digno de quem tem namorado que dribla responsabilidade e põe a relação de escanteio.

Para as torcedoras, ainda restava uma dúvida: o Brasil voltaria forte depois do intervalo? Bem. Forte, não voltou. Mas o time começou a apresentar algum resultado.

Quando o primeiro gol saiu aos 10 minutos do segundo tempo, as mulheres gritaram histericamente. Inclusive eu. O escritório foi preenchido por altíssimos decibéis, equivalentes a uma dezena de vuvuzelas. Salve Maicon!

Quinze minutos depois, o gol de Elano provocou outro surto de comoção. Mas os norte-coreanos logo vieram com um balde de água-fria, provando que a seleção brasileira tem muito que mudar.

Final de jogo. Dois a um para o Brasil em cima da Coréia do Norte. Vitória sofrida. Estréia tímida. Eu, sem querer, acertei o placar do jogo. Ganhei o bolão do escritório. Mas confesso que preferia ter perdido.

Seria bom ter visto uma goleada, como reivindicaram as futebolistas-arte. Ou mesmo um jogo tático consistente, como pediram as analistas técnicas.

De qualquer forma, por unanimidade, as torcedoras concordaram que a seleção não começou bem sua campanha na Copa. Para mim, pelo menos, a estréia do Brasil terminou em pizza...

 Maria Rita Barbi escreve o blog Quebrando o salto e vai gastar o dinheiro do bolão no sapateiro.

Por Torero às 02h41

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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