Esta semana, em ação de busca e apreensão da polícia, foram encontrados na sede da torcida organizada Mancha Verde munição, clavas de metal, bastões de madeira com pregos e outros apetrechos que em nada lembram bandeiras, flâmulas ou faixas.
Um dos “diretores” da torcida, Isidoro Lopreto, prometeu severas providências. “As pessoas que erraram serão penalizadas, podendo, inclusive, ser excluídas do quadro de sócios. A entidade está acima de qualquer coisa”.
Sugiro ao austero Isidoro que comece as expulsões pelo “presidente de honra” da torcida, Paulo Serdan. Afinal, seu extenso currículo de violência foi coroado recentemente com as agressões ao técnico das categorias de base que ousou tirar seu filho de um jogo. Costelas e dentes quebrados, ainda que só alguns, não devem ficar na conta da entidade, não é mesmo?
Na mesma leva, o atual “presidente” da organizada, Jânio Carvalho, poderia sofrer impeachment. Há pouco tempo, o representante máximo da torcida deu uma edificante declaração, após desavença com seguranças do Palmeiras em que dois membros da torcida foram esfaqueados. "Se tivermos que fazer alguma coisa, vamos resolver na mesma moeda. É olho por olho e dente por dente. Se a Justiça não fizer, vamos ter que fazer. Depois não adianta me prender. Eu volto para a cadeia, mas volto com ele [segurança]". Pelo que entendi, Jânio iria para cadeia e o segurança para o cemitério, mas deixa para lá. O importante é que a família Mancha Verde não vai compactuar com ameaças de morte. Já vai tarde, presidente!
Isso geraria um devastador efeito cascata. Na Gaviões da Fiel, por exemplo, o ex-“presidente” Douglas Deúngaro, vulgo Metaleiro, seria afastado sumariamente da torcida. Aquele, que durante sua gestão, em 1997, planejou e executou a emboscada ao ônibus do Corinthians, em plena rodovia dos Imigrantes, apedrejando e aterrorizando jogadores e demais membros da delegação. Sim, ele mesmo, que se escondeu no banheiro do ônibus da equipe (já reformado, 10 anos depois do primeiro ataque) e, de surpresa, agrediu novamente jogadores que não honraram a camisa alvinegra. Como sobram outros episódios em sua ficha que não condizem com lealdade, humildade e procedimento, não ia ter jeito: rua!
Na Independente, torcida são-paulina, o primeiro da lista seria o ex-“presidente” Carlos Amorosino Júnior, o Sukita. Condenado a 14 anos de prisão pelo assassinato a pauladas de um torcedor “rival”, o “presidente” enfrentaria agora o crivo de seus colegas, preocupados também em preservar a instituição e em manter o ambiente amistoso dos estádios. Um a um, começando por Sukita, cairiam aqueles que tanto desonram a Independente.
Apesar do cenário otimista que se anuncia se minha sugestão for aceita, uma coisa me incomoda. Todos os casos mencionados acima se referem aos “presidentes” das associações, aos líderes máximos de cada grupo. Constantemente, ouvimos desses “dirigentes” que não há como exercer controle sobre milhares de pessoas, que a torcida não deve ser responsabilizada nem punida pelos atos individuais de cada integrante.
Pura balela. O discurso dos líderes das torcidas organizadas é absolutamente demagógico, já que são justamente eles que incentivam, promovem e praticam os mais absurdos atos de violência e selvageria. O pior é que, pelas posições de destaque que ocupam, eles se tornam o exemplo a ser seguido. Para completar o círculo, devemos lembrar que nossos heróis são eleitos pelos sócios das agremiações, que formam efetivamente o que chamamos de torcidas. É evidente, então, que as instituições têm sim responsabilidade sobre si mesmas, já que são os sócios que escolhem os rumos que sua torcida deve seguir ao eleger e compactuar com seus nobres representantes.
Isso leva a crer que a mentalidade dominante das organizadas, como um conjunto, e não individualizada nas pessoas que as compõe, é essa mesmo que conhecemos, ainda que imposta por uma minoria atuante frente a uma maioria desinteressada: violenta, belicista, hipócrita e muitas vezes criminosa. Portanto, nada mais justo do que responsabilizar e punir também as torcidas pelo comportamento de seus componentes.
Talvez assim, sob o risco de sofrer sanções, multas, suspensões e, em último caso, extinção, a maioria adormecida (será mesmo que é maioria?) se levante e tome conta de verdade de sua torcida. Ou, impulsionados pelo instinto de sobrevivência, os que hoje comandam as agremiações mudem suas atitudes.
Parte fundamental desse processo civilizatório, a maneira como os clubes se relacionam com as organizadas também deve mudar. Carga de ingressos exclusiva, viagens bancadas pelo clube, reuniões com a diretoria e comissão técnica, tudo isso deve ser eliminado ou, pelo menos, vinculado à transformação de conduta das torcidas. É preciso que apenas um cartola, assim como vai fazer Isidoro, comece a revolução. Alguém se habilita?
Muitos leitores reclamaram do fim precoce da série "Estórias das Copas". Mas três deles resolveram o problema por conta própria. Carlos Eduardo Massarico, Max Fischer e Thomas Pacheco botaram a mão na massa, dio, no teclado, e criaram um texto que mistura Winning Eleven com a Copa de 2002. O texto é longo, mas vale a pena.
2002 - Para conquistar o mundo é preciso atravessá-lo
Sempre tive duas grandes paixões na vida: Winning Eleven e Mangás. Tinha dezoito anos e no bolso minha vaga para Publicidade no Mackenzie. Logo na primeira semana de aulas fiz duas amizades daquelas de levar para sempre. Seriam os meus companheiros de bares e tardes vazias nos quatro anos mágicos que viriam. Cadu e Thomas eram dois fanáticos por futebol. Antes que eu me esqueça, meu nome é Daniel, a maioria me chama de Del, mas meus grandes amigos me chamam apenas por Deolino.
Estava montado então o circo. Não demorou muito para criarmos uma liga universitária de WE. Cadu, sempre com espírito de perfeccionismo, queria tudo ao seu modo, então nunca deixou que eu ou Thomas fossem os organizadores dos torneios. Era o presidente e anfitrião, disponibilizava sua casa para os encontros. Thomas era seu tesoureiro e eu, entre um jogo e outro, comprava uns salgados na padaria da esquina com os trocos da faculdade.
Numa daquelas tardes de futebol no ar e nas discussões apaixonadas, descobrimos que haveria uma Copa do Mundo de Winning Eleven, disputada no Japão, na mesma época da verdadeira Copa do Mundo, nosso assunto mais discutido entre uma partida e outra. Sem pestanejar, nos inscrevemos. Sequer tinhamos pretenções mais animadoras. Nas eliminatórias brasileiras, ficamos surpresos com Cadu e Thomas, que conseguiram ficar entre os primeiros e garantiram a vaga no individual, enquanto eu e Alan, um dos participantes de nossos torneios modestos, vencemos nas duplas, ao ganhar de dois japoneses que faziam Cinema na USP. Eles haviam aniquilado os adversários, mas desde quando Nakata era melhor que o Rivaldo?
Com as passagens garantidas, nos deparamos com um problema dos grandes: não poderíamos faltar por quase um mês na faculdade sem correr o risco de sermos jubilados logo no primeiro semestre. Quis o destino ou os deuses do futebol, que o Mackenzie entrasse em greve logo naquela semana, a mesma de nosso maior triunfo como atletas, virtuais, mas mesmo assim atletas. Meu companheiro de duplas não teve a mesma sorte. Alan já fazia estágio, não estava disposto a perder seu emprego. Thomas faria dupla comigo.
Naquele ano a Copa do Mundo prometia ser histórica. Não devido a nossa crença na seleção brasileira, que vinha capengando desde 98, quando foi arrasada no St. Denis pela França de Zinedine. Pela primeira vez a Copa ocorreria fora do eixo América-Europa e além disso, era uma Copa dividida entre dois países de grande rivalidade política: o Japão e a Coréia do Sul. Nos mesmos países ocorreria a nossa Copa do Mundo.
No banco tínhamos Felipão, que deixava de fora o baixinho Romário para dar seu lugar a Luizão. Mesmo com os pedidos do povo e do próprio dono da CBF. Mas o técnico gaúcho era duro na queda, pagou pra ver. Marcos, Lúcio, Edmilson, Roque Júnior, Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Esse era nosso selecionado.
Chegamos ao extremo oriente alguns dias antes do jogo do Brasil contra a Turquia. No aeroporto vimos a vitória surpreendente de Senegal sobre a França. Foi o suficiente para Cadu mandar mais uma de suas pérolas. Adorava usar da ironia para nunca estar errado: se acertasse, era sério, se errasse, era só mais uma brincadeira inocente e despretenciosa.
- Vai ser o ano das zebras. Que Ronaldo, que Rivaldo, o craque mesmo vai ser o Luizão. Ele pôs o Brasil na Copa. – profetizou Cadu, ao mesmo tempo em que carregávamos as malas para o centro de convenções do torneio.
- Acidente de percurso. A França tem um grande time e vai se classificar sem problemas. – retruquei enquanto tentava decifrar um mapa horroroso, mal desenhado do aeroporto, até que desisti e fui usar o instinto brasileiro.
Depois de termos nos perdido, é claro e quase sermos desclassificados do torneio por não chegarmos ao hotel a tempo, fomos encaminhados para os sorteios dos grupos, pois cada competidor jogaria com uma única seleção o torneio todo. Thomas acabou caindo com a Alemanha e adorou a notícia, era uma seleção de força, Cadu ficou com o Uruguai, tudo o que mais queria, afinal jogava mais com raça do que com habilidade, não tinha jogo perdido pra ele. Já nas duplas, Thomas ficou triste, eu fiquei muito contente. Nas duplas teríamos nas mãos, nada mais, nada menos, que o Brasil.
Meu jogo só aconteceria na manhã seguinte, véspera da estréia da real seleção brasileira. Mesmo assim, na competição virtual o festival das zebras se iniciou. Veio a queda da França, perdendo seus dois jogos, eliminada sem fazer um golzinho sequer. Japão e Coréia do Sul, grandes azarões, levaram a diante seus elencos. Cadu não conseguiu sua classificação, mesmo após uma vitória épica, e como ele mesmo diria “de puro coração”, sobre a Argentina, em um 3 a 2 que entraria para a história. Depois, veio a derrota de goleada para a Nigéria, um 5 a 1 esmagador. Pra variar, ele deu espetáculo: quebrou o controle depois de uma pancada com gosto no chão e um chororô danado.
- Vocês viram aquele pênalti claro que o juiz não deu no Zalayeta? Poxa, ele é gênio da bola, não ia se jogar frente-a-frente com o goleiro! E os gols de impedimento dos nigerianos? Dois foram claríssimos. Foi roubo, foi roubo. – ele chorou depois da desclassificação.
- Ah, Cadu, relaxa, vamos ver se seu Uruguai classifica na Copa mesmo, agora é o que resta, você pegou sentimento demais por nossos rivais! – alertou Thomas, que ainda jogaria naquele mesmo dia.
Quis o destino que ele também fosse desclassificado. Caiu horas depois de nosso amigo “uruguaio”. Contra a seleção do Senegal, comandada por um irlandês pé-de-cana. Depois o empate contra a Inglaterra, por mais que tenha sido um jogaço em 0 a 0, foi só o jogo de despedida do Thomas. Tristes, fomos conhecer a cidade, onde acabamos num bar de um Dekassegui gente boa.
Brasileiro, neto de japoneses, o senhor nos recebeu muito bem. Com os meus dois amigos ainda inconsoláveis, resolvemos chorar nossas mágoas. Era triste ser eliminado na primeira fase. Mas saquê vai, saquê vem, começamos a nos animar. Foi quando conhecemos um velho simpático chamado Feijão e seu cachorro Marcos Roberto.
- É o único cachorro que entende de futebol. – explicou Feijão, depois de beber uma dose de saquê.
- Duvido. – eu disse.
- Não acredito. – revelou Thomas.
- Pago pra ver. – apostou Cadu.
- Irei provar então. – disse Feijão, jogando uma pequena bola em direção ao cachorro, que ao invés de morder a bola, a dominou com a cabeça. Não era ainda o bastante: começou a fazer embaixadinhas. – Viram?
Rimos. Nos despedimos de Feijão e marcamos um novo encontro no dia seguinte, para combinarmos de ver juntos o jogo inicial do Brasil. Acordamos mais cedo no dia seguinte e fomos ao centro de convenções. A arena já estava montada. O adversário seria uma dupla de turcos que tiveram a sorte de pegar a seleção de seu país.
O jogo começou tenso. Não que os turcos jogassem alguma coisa, mas Thomas ainda não parecia ter engolido a derrota no dia anterior e não acertava os passes curtos. No final, com um pouco da ajuda da sorte, vencemos o nosso primeiro desafio. Como Cadu havia dito, Luizão era o gênio da bola. Fomos ao bar comemorar e lá estava Feijão, com uma agradável surpresa: passagens e ingressos para o jogo inicial.
- Ia com alguns amigos, mas acho que me desencontrei deles. Melhor dar os ingressos a vocês do que ter algum lugar vazio no estádio, né?
Embarcamos para a Coréia, onde o Brasil enfrentaria a Turquia. O jogo começou parecido com o virtual. O escrete canarinho parecia estar em estado de choque ou algo do gênero. Conseguimos terminar o primeiro tempo atrás e só viramos com um gol de canela do Ronaldo – mas é gol, argumentaria Feijão – e com um pênalti forjado dele: Luizão. Cadu foi à loucura, se achava vidente.
O próximo adversário do Brasil era a China. Não é que a China acabou sendo a minha próxima rival no torneio? Com Thomas um pouco mais tranqüilo e com a tarde inspirada de Marcos no gol e Romário – sim, ele mesmo, a pedido de seu grande fã, Cadu, convocado – no ataque, vencemos por 3 a 0. Tínhamos a vaga e com uns dias de folga, aproveitamos para pegarmos um avião até Seogwipo, para assistir o confronto verdadeiro do Brasil com a China. Regalias concedidas pela vitória no torneio. Uma maravilha.
Mais calmo, o Brasil fez 3 a 0 só no primeiro tempo e esperou o tempo passar no segundo. Ainda fez mais um com o Fenômeno. Com uma bolinha até que razoável a nação verde-amarela estava nas oitavas-de-final.
Enquanto eu e Thomas passávamos os dias treinando para as oitavas contra a Argentina, carrasca no saldo de gols contra nosso amigo Cadu, ele próprio havia encontrado um rival a altura quando o assunto era discutir a história do futebol: ele mesmo, Feijão. Podia ter seus cento e tantos anos, mas não havia história do futebol que ele se esquecesse.
Ainda tínhamos tempo até a próxima partida, então resolvemos pegar um trem-bala e ver a seleção contra a Costa Rica. No trem, continuamos os treinos no Winning Eleven, enquanto Cadu e Feijão discutiam o posicionamento defensivo do time nos últimos jogos.
- Com esse posicionamento ridículo, não sei não. Essa zaga vai falhar, cruzamento na área é meio gol! É amigo, haja coração! – afirmou Cadu, usando um jargão de mais um de seus ídolos da narração.
- Está bem, rapaz! Vamos ver quem tem razão no jogo contra a Costa Rica! – encerrou a conversa Feijão, enquanto tomava um coquetel de remédios para o coração, vivido de tantas Copas.
Não deu outra. Vencemos por 4 a 2 da Costa Rica, mas adivinhem de qual maneira saiu o segundo gol da equipe da Concacaf? O sinal de alerta estava dado pelo “hermano uruguaio”.
Nas oitavas, o Brasil teria a Bélgica pela frente, em Kobe. No hotel, um telegrama informou que nossa próxima rodada nas duplas também seria em Kobe. Para nossa tristeza, seria no mesmo dia e horário do jogo do Brasil. Foi o jogo mais fácil do campeonato para nós, Thomas vestia a camisa inglesa e fez o papel de inibir os argentinos. A goleada só não foi mais sonora porque ficamos atentos a qualquer detalhe do jogo do verdadeiro Brasil.
Contra a Bélgica, contamos com a sorte, mas com um poderoso chute de Rivaldo, inspirado na Copa, e com um leve desvio de Ronaldo, renascido na Copa, que o goleiro Geert quase defendeu. Nas quartas, viria a Inglaterra. Só viríamos os melhores momentos no quarto do hotel, enquanto comemorávamos nossa passagem às quartas. Segundo Cadu, não seria exagero em falar que a Bélgica poderia ter ganho aquele jogo, mas o Brasil tinha a sorte do campeão. Começara desacreditado na Copa, mas já estava entre os oito melhores.
Infelizmente, as agendas não bateram dessa vez. Enquanto o Brasil jogaria em Shizuoka contra os ingleses, a próxima rodada do torneio seria em Osaka. Nos despedimos de Feijão e seu cachorro bom-de-bola e pegamos um trem-bala em direção a Osaka, enquanto Feijão viajaria de avião. Nosso jogo, de novo seria no mesmo horário da partida do Brasil. Um sufoco.
Entrei no estádio suando frio, pois até ali não parecia acreditar que eu poderia ter chego às quartas da minha Copa do Mundo. Cadu ficou com um rádio ligado, ouvindo o jogo em japonês, mas atento ao nome dos jogadores. Se fossem os de ataque, o grito de gol era um momento feliz, se fossem os de defesa, o grito de gol seria um martírio.
Nosso jogo começou brigado. Os adversários eram dois mexicanos que comandavam a Irlanda guiada por Robbie Keane. Numa falha grotesca de Lúcio, que era controlado pelo meu controle, eles abriram o placar. Thomas até ameaçou uma reclamação, mas alguns minutos depois, tudo mudaria. Sofri uma falta no meio de campo, despretenciosa. Pensei num botão, apertei outro. Na hora da cobrança, mandei chutar, mas de repente o Ronaldinho cruzou.
- Mas não era o bola que chutava? – perguntei em voz alta.
Encobri o goleiro deles. Um gol que ninguém tinha visto ainda. No intervalo de nosso jogo, Cadu veio com a notícia de que o Brasil estava empatando em 1 a 1 com a Inglaterra, que Lúcio tinha falhado e que Rivaldo havia empatado. Depois da primeira notícia nos assustamos. Tinha sido igual ao jogo! Mas o gol do Rivaldo nos aliviou, não estava sendo igual.
Voltamos no jogo e conseguimos a virada justamente com Rivaldo, em uma bela assistência de Ronaldinho, comandado pelo Thomas. Viramos na base da raça e do coração, nos melhores ensinamentos do Cadu.
- Quando não dá na técnica, vai na raça!
Terminado nosso jogo, respiramos aliviados. Estávamos nas semifinais. Quase nos esquecemos das quartas do Brasil visto por milhões. Cadu, que estava com os olhos no nosso jogo e os ouvidos no rádio, preferiu não dizer como foi o gol da vitória do Brasil. Disse que não entendeu o que o japonês disse. Realmente foi uma boa desculpa.
Nosso torneio estava acabando, mas teríamos pelo menos mais dois jogos, na pior das hipóteses a disputa de terceiro lugar. Em Saitama, o Brasil teria pela frente a Turquia, carrasca do Japão e de Senegal, sem contar na vitória contra os franceses na estréia. No jogo, teríamos a Espanha.
- Se o jogo for como a vida, vocês estão nas finais! Me digam, quando é que a Espanha vai vingar em mata-mata? Nem em jogo de botão ela ganha. – revelou Cadu, sempre profetizando. Depois de nove erros, ele até que acertava uma de vez enquando.
Nosso jogo seria em Yokohama, assim como o outro restante. Dessa vez, enfim uma partida em que os horários não se cruzariam com os da Copa. Já estava na hora de assistirmos um pouco os jogos de fato, essa vida de ficar jogando só às vezes cansa. Mas só às vezes também.
Não deu outra. Cadu enfim acertou uma, depois de sua desilusão com a história de que Luizão seria o “número 9” que daria efeito, desacreditado da recuperação do Ronaldo. Os russos vieram comandando a Espanha, mas sem dúvidas o jogo foi bem fácil para nós. Armamos um 4-3-3 que assustou os russos, que só jogavam bem contra as retrancas que o pessoal adora de armar nos jogos de Winning Eleven. 3 a 0, um do Ronaldo, um do Ronaldinho e um do Rivaldo. O trio de erres funcionou muito bem naquela Copa.
Cadu saiu logo após o terceiro gol, guardaria lugar no bar para que então comemorássemos nossa classificação para as finais. Veríamos o jogo ao lado de quem? Feijão e seu cachorro. Parecia perseguição. Nossa ou deles?
- A Turquia vai acabar com o Brasil. Era pra ter sido 1 a 0 contra o Brasil naquele jogo, não fosse a sorte. – afirmou Cadu, com cara de desconfiado.
- Esse rapaz só fica secando o Brasil, mas tá dando sorte, continua! – pediu Feijão dando risada, já na nossa mesa.
Mesmo secando, o Brasil sofreu, mas passou. Foi um 1 a 0 com a marca do Ronaldo – e do biquinho da chuteira também. Rustu pegou até vento, mas o goleiro turco não contava com a astúcia do Fenômeno. Nem parecia um jogo de semifinal. Era incrível, mas o Brasil já era finalista. De mansinho chegou.
Thomas não estava ainda tão feliz assim. Tinha pego carinho pela equipe que defendeu na Copa de Winning Eleven: a Alemanha, seleção que um dia antes havia carimbado vaga na final. Por incrível que pareça, ele estava dividido. Ao menos Cadu não sofreu o mesmo, viu seu Uruguai ser eliminado depois de empatar com a França e Senegal. Uma judiação.
Pensei que isso fosse abalar nossas estruturas no torneio virtual. Dessa vez, nossa final seria antes do jogo da seleção: glória a Deus. Além de tudo, estaríamos em Yokohama, cidade da final. O campeão ganharia ingressos para o jogo. Sem dúvidas esses ingressos seriam disputados a tapa se fosse preciso. Cadu já havia garantido o seu, o único que comprou, mesmo sem saber que o Brasil estaria na final. Restava os nossos, o meu e o de Thomas.
Contra a Nigéria, outra carrasca de Cadu, o jogo prometia ser difícil. Era pura correria o jogo dos africanos e pior, a Nigéria só tinha perdido para a já eliminada Argentina. De resto, só goleadas. Seria difícil parar o Okocha e os dois japoneses que comandavam a seleção. Sabiam todos os mínimos detalhes do jogo, mas confiávamos na categoria de nossos jogadores.
Entramos no centro de convenções mais uma vez, daquela vez seria a última delas. Em uma cerimônia bem bonita, as duas duplas foram recepcionadas com aplausos e passaram diante do cobiçado prêmio: o troféu e os ingressos. Sentamos nas nossas cadeiras e tivemos a sensação de que seria nosso o troféu – e o mais importante, os ingressos.
Foi duro. Em menos de 15 minutos de jogo, a Nigéria havia feito dois gols. Nos matamos para manter o placar, os japoneses eram duros na queda. Nas estatísticas do intervalo, tínhamos só três chutes, nenhum no gol, contra uma dezena deles contra a meta de nosso sofrido Marcos, o homem do jogo na primeira etapa da peleja.
- Gente, na final de 58 foi assim, o Brasil tomou uma chapuletada logo no começo, em Estocolmo contra a Suécia. Será que é coincidência ou o jogo no Japão contra os japoneses será igualzinho? – motivou Cadu, que além de torcer para nós, estava com fome de vingança da equipe nigeriana.
Deu certo. Não foi o 5 a 2 da seleção mágica de 58, mas o 3 a 2 suado nos bastou. Tudo na base da sorte. Supersticiosos, os japoneses começaram a suar frio quando o Shorunmu, goleiro deles, tomou um frango homérico. Daí em diante, foi só dominar o jogo, usando um 4-2-4 bem à moda antiga, usando o Ronaldinho e o Roberto Carlos como pontas. Até que a invenção deu certo. Era a prova de que existem coisas que só o Winning Eleven pode comprovar.
No último minuto, a pressão foi grande, mas nos seguramos e juntos, os três, comemoramos. Depois daquilo, vencer da Alemanha seria tarefa fácil. Embora discurso de quem já era campeão, era também uma grande torcida. Se a vida copiasse o jogo ao menos mais uma vez, Kahn poderia falhar igualzinho o Shorunmu. Seria quase um milagre.
Corremos para o estádio, depois da enrolação da entrega do troféu e dos ingressos. Detalhe: quase esquecemos o troféu. No fim, ele seria o menos importante, acabamos perdendo ele no aeroporto mesmo. Queríamos é estar no estádio para a final da Copa do Mundo. Sabia que o Feijão estaria em um bar a torcer pelo Brasil, aquela nossa conquista tinha também uma parcela dele e de seu cachorro? Brasil bem no jogo, Brasil bem em campo, era como ele brincava ao saber de nossos feitos.
Emocionante final. Perdemos o começo do jogo, mas enfim, não dava pra ser tudo perfeito. Ou até dava, porque no primeiro tempo o Brasil tomou pressão da Alemanha. Não tomou os dois gols que sofreu no Winning Eleven, mas era até para ter sofrido. São Marcos impediu. Nosso herói só podia ter sido ele mesmo: Ronaldo. Em menos de 15 minutos, lavou a alma de 98, colocou os dois gols do placar de 2 a 0 que não seria mais alterado.
Comemoramos no estádio. Que momento incrível. 170 milhões em ação, era o povo brasileiro que encontrava pela quinta vez o sentimento máximo de chegar ao topo do mundo. Quanto a nós três, fizemos parte daquele momento histórico e nunca mais deixaríamos de ser amigos. Uma Copa em que o Brasil foi campeão duas vezes. Era a prova e a contra-prova de que nosso futebol é mesmo o maior do mundo, de que com o Brasil ninguém pode, de que vivemos a felicidade máximo do brasileiro: um título em uma Copa do Mundo.
Para não esquecer, conte até oito (Por MARCIO R. CASTRO)
A taça da bolinhas ainda não encontrou o seu destino, em mais uma polêmica do futebol brasileiro. Afinal, qual é o primeiro clube a ser 5 vezes campeão brasileiro de futebol, Flamengo ou São Paulo?
Pois é, nenhum dos dois. Polêmica por polêmica, vamos resgatar uma que valha a pena, quase cinqüentenária, numa boa idade para ser levada a sério. Afinal, porque considerar como título brasileiro apenas as conquistas de 1971 em diante, se já existia, de fato, uma competição nacional desde 1959, criada justamente para dar tal representatividade ao campeão?
A Taça Brasil (1959 a 1968) e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1967 a 1970) foram campeonatos equivalentes ao Brasileirão. Não “embriões” ou “laboratórios”, mas disputas de mesmo peso e valor. Muitos torcem o nariz para a idéia. Desconfio que o motivo principal para essa rejeição seja a falta de conhecimento geral quanto às duas competições.
E isso se deve graças à CBF, a própria criadora e organizadora dos torneios. É algo de um absurdo inalcançável que a entidade que deveria salvaguardar as tradições do futebol brasileiro simplesmente tenha se esquecido dos dois campeonatos. Um mistério. E repito: foram competições criadas, estimuladas e organizadas pela própria CBF, ainda como CBD, com o fim específico de eleger um campeão brasileiro de futebol. Talvez seja o exemplo esportivo mais emblemático da propagada falta de memória (e respeito, e justiça, e história...) de nosso país. É vergonhoso.
Essa inexplicável amnésia também acomete a mídia esportiva, que não faz o que era de se esperar de “especialistas” do assunto: informar, relembrar, não nos deixar esquecer. Se o órgão oficial é inepto e não preza pela memória do esporte, que tal se posicionar de forma independente sobre o assunto? São jornalistas ou assessores de imprensa?
É a falta de familiaridade com a história do nosso futebol que faz com que o torcedor desconfie de quem insiste em lembrar da existência do que de fato existiu. É como se quisessem “roubar”, ganhar no tapetão. Ironicamente, o que acontece é o exato oposto disso, só que os roubados somos todos nós.
Se a CBF nunca se pronunciou sobre os motivos do esquecimento, pelo menos alguns desprezam a Taça Brasil e o Robertão baseados em argumentos. Vamos a eles, e aos devidos contrapontos.
A CBF não os oficializa como tal, então não são títulos de campeão brasileiro, ponto final. Essa posição é defendida por muitos jornalistas. São os “oficialistas”. Eu os entendo perfeitamente: com tantas competições disputadas, extintas e ressuscitadas, com tantas interpretações diferentes do que deve “valer”, caberia às entidades que dirigem o esporte definir esses parâmetros de forma criteriosa. Trariam ordem ao caos. Infelizmente, não é o que acontece, os cartolas gostam mesmo é de uma boa confusão. Aí está a questão, a chancela oficial não pode estar acima de tudo. Quer dizer que não importa se os dirigentes estão prestando maus serviços, agindo com interesses escusos ou são completos aparvalhados, só o que vale é o selo oficial?
Oficial não é o mesmo que legítimo. Todos nós esperamos uma conduta adequada das instituições e das pessoas que as comandam, mas nem sempre é o que acontece (no caso do futebol, quase nunca). Devemos questionar e ser questionados. O exemplo é esportivo, mas o tópico acaba se referindo à nossa cidadania de forma geral. Não se trata aqui de achar que tudo que reivindicamos esteja adequado, tudo que acreditamos seja o melhor. Basta que as entidades apresentem suas razões, suas convicções e motivos, de forma transparente, que tudo funcionaria a contento. Oficial e legítimo caminhariam juntos.
Mas a CBF nunca explicou, e nem vai, a contradição de que foi a própria entidade que formulou as competições, com o intuito já mencionado de coroar um campeão nacional de futebol. Federações e Confederações não são infalíveis, ao contrário. Quantas e quantas vezes já nos deparamos com decisões estapafúrdias dessas entidades?
Recentemente, FIFA sentenciou que só existiram quatro mundiais de clubes (2000; 2005 a 2007). Porém, pouco antes do torneio de 2005, a FIFA publicava em seu site, para o mundo inteiro ver “oficialmente”, a lista de campeões mundiais com os títulos da Copa Intercontinental incorporados, se reconciliando com a história. Um breve período se passou, e a entidade voltou atrás silenciosamente, sem alardes, colocando as disputas que ocorreram a partir 1961 numa seção a parte.
A questão voltou à tona com a discussão sobre a Copa Rio 1951. A FIFA tomou sua decisão de forma inequívoca, oficializou o título do Palmeiras como mundial de clubes, não deixando qualquer dúvida na mensagem de seu Secretário-Geral. Todos imaginavam que a questão havia sido discutida por algum tipo de conselho, pesquisando-se a questão a fundo. Parece que não foi assim. O presidente da entidade veio a público desmentir a decisão “oficial”, dizendo que o texto queria dizer outra coisa, tratando a todos como idiotas analfabetos. Essa é a FIFA, a mesma que defende que o primeiro mundial de clubes (depois que se lembrou de tê-lo organizado) é o de 2000, no qual o representante sul-americano foi o vencedor continental de 1998, enquanto os outros campeões continentais, naturalmente, eram de 1999.
Quantas idas e vindas, quantas decisões oficiais. Dá para aceitá-las totalmente, em busca do tal selo oficial? Quem acha que os clubes vencedores da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa não devem ser considerados campeões brasileiros também acha que Santos, Flamengo, Grêmio, Boca, River, Peñarol, Juventus, Real Madrid e Liverpool não são campeões mundiais? O carimbo da cartolagem não deve ter peso absoluto sobre a questão, a não ser que alguém ache adequado nos submetermos a tantas pataquadas.
A fórmula de disputa da Taça Brasil é outro argumento dos que consideram a competição menos importante. Afinal, as equipes paulistas e cariocas só entravam na disputa nas semifinais, precisando fazer apenas quatro jogos para se sagrarem campeãs. É verdade que, fora do contexto de sua época, tal regulamento não faria sentido. Porém, regulamentos pouco razoáveis se proliferam na história de nosso futebol. De 1980 a 1985, o Campeonato Brasileiro era jogado com uma fórmula que unia 1ª e 2ª divisões num mesmo certame. Eram as famigeradas Taça de Ouro e Taça de Prata. Para piorar, a classificação para o campeonato se dava através de vagas conquistadas nos campeonatos estaduais. Brilhante, não?
Alguns campeonatos brasileiros conseguiram a proeza de juntar 3 divisões (módulos verde, amarelo e branco) num torneio comum, outros reuniram quase cem clubes. Até mesmo a Copa União, apesar da boa intenção de emancipação, cometeu o pecado de renegar o vice-campeão nacional do ano anterior. São incontáveis despautérios, mas não vejo ninguém concluir que esses títulos devam ser apagados da história.
O Mundial Interclubes era decidido somente por duas equipes (a bem da verdade, ainda o é). Na Libertadores, em seus primeiros anos, o atual campeão entrava na disputa direto nas semifinais. É razoável apagar da história títulos continentais de Santos e Independiente, e conquistas mundiais de São Paulo e Milan? Obviamente, não.
Portanto, ressalvas quanto à fórmula de disputa da Taça do Brasil, e também do Robertão, não são motivos para não considerarmos os clubes vencedores como campeões brasileiros. Ainda mais porque, se paulistas e cariocas entravam nas semifinais, Bahia e Cruzeiro ganharam a Taça Brasil disputando-a de ponta a ponta.
Outro ponto sempre mencionado: por dois anos, 1967 e 1968, ambas as competições foram realizadas. Nesses anos, então, duas equipes foram campeãs brasileiras? Claro que sim. Do mesmo modo que dois clubes foram campeões mundiais em 2000 (Corinthians e Boca Juniors). São períodos de transição, em que um campeonato vai se tornando mais representativo do que outro, em que uma Liga se torna soberana enquanto a outra desaparece, como no futebol paulista dos anos 20 e 30 (de 1926 a 1929 e em 1935 e 1936, mais de uma equipe foi campeã paulista, em cada ano, por conta de ligas paralelas).
Como acontece nos casos mencionados acima, devemos reconhecer os títulos dos vitoriosos, nada mais. Além disso, mesmo fora desses períodos de transição, atualmente existe em diversos países mais de um campeonato nacional por ano. É o caso da Argentina, Colômbia e Chile, que podem consagrar dois campeões nacionais anualmente, com os torneios Apertura e Clausura.
Isso mostra que ao longo da história, devido a transformações que ocorrem naturalmente no esporte, mais de um clube conquistou títulos com igual representatividade num mesmo ano.
A falta de continuidade também é apontada por muitos “contrários” à Taça Brasil e ao Robertão. Comparo novamente com a disputa do mundial de clubes para dissipar essa desconfiança. Como foi dito a pouco, os torneios crescem, se transformam, evoluem ou involuem, mas isso não invalida o que foi conquistado em campo. Campeões mundiais são campeões mundiais, hoje ou na década de 60.
Aliás, de acordo com os critérios de quem alega uma separação entre o Robertão e o Brasileirão, o Campeonato Brasileiro disputado desde 1971 também não mantém continuidade, sequer em sua denominação. Em sua alegada edição inicial, foi batizado de “Campeonato Nacional de Clubes”. A partir de 1975, recebeu a alcunha de “Copa Brasil”, até se tornar a já citada “Taça de Ouro”. Todos completamente distintos entre si, na fórmula de disputa, regulamento, nº de participantes, rebaixamento etc.
Além disso, não são só as mudanças de nome ou a salada de formatos que demonstram descontinuidade: a Copa União (1987 e 1988) e a Copa João Havelange (2000), além de nomes e regulamentos diferentes, foram cisões tão ou mais marcantes do que a transição que ocorreu com o fim do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.
Os vencedores da Copa União e da Copa João Havelange são campeões brasileiros de futebol, assim como os ganhadores da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. A tal falta de continuidade é apenas organizacional, não esportiva, e não deve servir para tirar a representatividade de conquista nenhuma.
Outro equívoco recorrente é classificar a Taça Brasil como equivalente a uma copa nacional, não a um campeonato brasileiro. É o que faz, por exemplo, a revista Placar, merecidamente reconhecida por muitos como o mais importante veículo esportivo do país. Ao contrário da maior parte da imprensa especializada, a Placar tem memória e posição. Mas também se engana.
Primeiramente, a diferenciação entre campeonato (liga) e copa que fazemos hoje é muito recente. O Campeonato Brasileiro é jogado em pontos corridos há somente seis anos, antes disso era decidido no famoso mata-mata, exatamente o que caracteriza o que classificamos de copa agora.
Além disso, quando a Taça Brasil foi criada, não existia um campeonato nacional vigente. Foi justamente a competição que veio preencher essa lacuna. A Taça Brasil consagrava o campeão brasileiro de futebol.
Já a Copa do Brasil, atual copa nacional brasileira, foi instituída como segundo torneio, pois a “liga” já existia. Portanto, a Taça Brasil, grande competição nacional de sua época, não pode ser equiparada à Copa do Brasil. Talvez o engano se dê pelo fato da Copa do Brasil ter sido inspirada na Taça Brasil, mas, de qualquer modo, os dois torneios nunca tiveram o mesmo significado.
Por tudo isso, creditar à Taça Brasil e ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa o mesmo status do atual Campeonato Brasileiro seria o mais correto, o que resgataria inclusive parte da história do nosso futebol. A diferenciação entre as competições existe de acordo com o contexto e época de cada uma delas, mas são conquistas equivalentes. Sendo assim, e como desfecho, proponho a seguinte maneira de classificarmos os campeões brasileiros. E até a próxima polêmica.
Palmeiras: 8 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros; 2 Torneios Roberto Gomes Pedrosa; 2 Taças Brasil).
Santos: 8 vezes campeão brasileiro (2 Campeonatos Brasileiros; 1 Torneio Roberto Gomes Pedrosa; 5 Taças Brasil).
Flamengo: 5 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros; 1 Copa União).
São Paulo: 5 vezes campeão brasileiro (5 Campeonatos Brasileiros).
Vasco: 4 vezes campeão brasileiro (3 Campeonatos Brasileiros; 1 Copa João Havelange).
Corinthians: 4 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros).
Internacional: 3 vezes campeão brasileiro (3 Campeonatos Brasileiros).
Fluminense: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Torneio Roberto Gomes Pedrosa).
Bahia: 2 vezes campeão brasileiro (1 Copa União; 1 Taça Brasil).
Botagogo: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Taça Brasil).
Grêmio: 2 vezes campeão brasileiro (2 Campeonatos Brasileiros).
Cruzeiro: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Taça Brasil).
Atlético: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).
Guarani: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).
Coritiba: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).
Atlético Paranaense: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).
(A seção "Sempre aos domingos" é destinada a textos enviados por leitores)
Hoje, no "Sempre aos Domingos" (seção reservada para textos enviados por leitores), um polêmico texto sobre o Rei. Leia e opine.
Que bom seria outro Pelé!
POR CARLOS EDUARDO S. SOUZA
Imagine você poder ir aos estádios e rever lances geniais, mais que apoteóticos, poéticos!
Imagine você não podendo imaginar como seria a próxima jogada!
Você vê a bola chegar quadrada e sair redonda...
Elíptica...
Parabólica...
Hiberbólica!
Hiper bola!
Ah, como faria bem aos nossos olhos, já tão calejados, ultrajados, marejados, outro rei tão belo!
Por certo, nós, provincianos de novo, nos curvaríamos, por prazer, reverentes ante o retorno daquele imperialismo, lúdico e bucólico, sobre a bola, do qual nos vemos emancipados há tanto tempo.
Pois hoje, havendo se ido o rei, pela democracia, acabamos por eleger representantes do povo, e, embora duros e grossos, com eles nos acostumamos.
Nem sequer nos lembramos mais de como era bom ter um rei.
Quando Pelé pendurou suas chuteiras mágicas, em 1977, a coroa do futebol caiu.
Depois dele, outros até chegavam a se destacar, mas nenhum trazia sobre si o mesmo manto carmesim, ou nas mãos o mesmo cetro de genialidade, ou na cabeça o mesmo diadema real.
O brilho do seu tesouro não fora lá tão puro.
Nosso dano foi grande, sem dúvida.
Mas hoje vemos, sobretudo, que ninguém sofre mais com a ausência de um rei como Pelé nos gramados, como ele próprio, Pelé.
Ele não tem vocação plebéia.
Sabia bem o que fazer sobre o seu trono mudo, de bola nos pés.
Mas não tem a mínima idéia do que fazer fora dele.
Pelé sabe que foi rei, mas não sabe que não chegou a ser deus.
E age como se o fosse ou houvera sido.
Cinco vezes Atleta do Século, Atleta do Milênio, membro do Hall da Fama, ganhador do prêmio “Athlete Who Changed the Game” e o Oscar do Esporte. Foi nomeado Cavaleiro Honorário do Império Britânico, Cidadão do Mundo na ONU, Embaixador para a Educação, Ciência, Cultura e da Boa Vontade pela UNESCO, Embaixador da Ecologia e do Meio Ambiente pela ONU, Ministro dos Esportes do Governo Brasileiro e Embaixador dos Esportes no Fórum Econômico Mundial em Davos, em 2006. Pelé alcançou a condição de mito (Fonte: Bola Solidária)
Entretanto, como gente comum, sem seu trono, sem seu campo, sem a bola, Pelé é um perna-de-pau, um zagueirão tosco e indisciplinado. Um mau exemplo, afinal.
Fala com a propriedade de um rei, mas não tem propriedade sequer sobre sua família mais.
Seus herdeiros diretos e indiretos são conhecidos pela orfandade.
Um de seus filhos teve problemas com drogas e com a polícia, e disse ter sentido muita falta da presença de um pai. Do seu pai, obviamente.
Outra precisou da ajuda da justiça para ser reconhecida como filha, mas mesmo assim viveu e morreu, coitada, jamais sendo.
Dois de seus netos só o viram de longe, e pior, cercado de perto por outras crianças, que, apesar disto, nunca lhe foram tão próximas quanto eles.
Aqueles seus netinhos provavelmente nunca foram carregados pelo famoso braço direito do avô que socava o ar na hora do gol.
Aliás, falando acerca deles em entrevista a uma emissora de TV, Pelé chamou-os de “esses meninos”, e a mãe deles de “a mãe deles”, somente.
“Não, Pelé... Sandra (o nome dela era Sandra, se não sabe) não era só a mãe deles; era a sua filha. E ‘esses meninos’ são seus netos”.
Recentemente, uma separação.
Mas, a propósito, será que Pelé, de fato, já se casou alguma vez?
O que é mais fácil, afinal: ser pai ou ser rei?
Ou ainda, o que é mais nobre: ser rei ou ser pai?
Provavelmente, Pelé não sabe.
Ele só conhece um dos lados.
Dá saudade, sim, um rei do futebol nos gramados.
Mas daria também mais humildade a Pelé.
Sozinho, Pelé se sente único, e ignora os demais.
Outro rei, à sua altura, colocaria Pelé à altura dos outros.
Um novo rei, este mais nobre, faria de Pelé, talvez, mais filho, mais pai, mais avô. Mais gente, eu diria.
E de tabela, ah, como seria bom também para nós, os provincianos do futebol arte!
Mas, sobretudo, que bom seria, para Pelé, um outro Pelé!
O futebol não depende de milhões de euros ou belos estádios. Essa paixão ludopédica nem mesmo precisa de grama ou trave. Prova disso são peladas inesquecíveis nas praias em que as traves são feitas com chinelos. O esporte mais popular do mundo tem a essência na paixão de seus seguidores, no sentimento verdadeiro que iguala pais e filhos.
É um esporte ingrato, pois basta olhar os torcedores num estádio para perceber que eles não se divertem. A comemoração de um gol é mais parecida com raiva e desabafo do que com alegria. Alegria só nas goleadas. O jogo é para sofrer. Nada se compara ao sentimento do gol na vitória por 1 a 0.
O time de cada um é, por muitas vezes, o que mais se preza na vida. Vale a velha frase: “homem que é homem muda até de sexo, mas não de time”. Pois vá perguntar a um torcedor do Juventus se o Real Madrid é mais importante que a tradicional equipe que veste grená. E, de fato, há que se respeitar o cenário que serviu para Pelé, segundo ele mesmo, fazer seu gol mais bonito da carreira. Os espanhóis, mesmo com o manto imaculado, todo branco, não alcançam as mesmas histórias que só as entranhas da Rua Javari podem guardar.
Se o futebol é dramático por DNA, os clubes menores são verdadeiros Gardéis cantando o tango de chuteiras. O esquema novo do esporte e as más administrações de grande parte das equipes decidiram assim: os pequenos tradicionais correm perigo de extinção qual as velhas e simpáticas farmácias de bairro. Apesar das dificuldades, o exército de fanáticos, composto por eternas crianças, não pára.
O time do bairro pode não ter garantia de futuro com êxito, mas é certeza que seguirá vivo no coração e na mente de sua gente. As pelejas da rua explicam os grandes clássicos europeus. O objetivo é o mesmo, a conquista dos três pontos, como dizem os milionários futebolistas em discurso ensaiado.
Histórias desses clubes não faltam. Podemos contar outra do Rei, que quase teve sua carreira encerrada por causa do Jabaquara, durante um torneio municipal com jovens jogadores. Pelé perdeu um pênalti que resultou na derrota do Santos Futebol Clube. O menino ficou tão abalado que, acreditem, já estava de malas prontas para voltar a Bauru quando foi convencido a ficar.
Há também histórias de feitos grandiosos. Pelos arredores do Brinco de Ouro da Princesa, os amantes do Guarani não esquecem o título brasileiro de 1978. Aquele campeonato ficará na memória com as lembranças da época que a princesa, dona dos brincos, namorava Careca e Zenon.
Que a bola (ou qualquer objeto que sirva para impulsionar uma pelada) entre no gol (ou qualquer lugar com essa função) e os amantes do esporte mereçam comemorações lúdicas e verdadeiras, seja em qualquer parte do planeta redondo.
(A seção "Sempre aos domingos" será publicada excepcionalmente nesta segunda porque ontem, depois de participar de uma corrida de 10 km em Santos, não consegui ter coordenação motora para colocá-la no ar.)
Os gramados do nosso futebol: soluções (e tristes risadas).
por MÁRCIO R. CASTRO
Ao término do primeiro match disputado em terras brasileiras, os poucos curiosos que acompanharam a peleja correram em bloco em direção à estrela da tarde, Charles Miller, um rapazote de 20 anos. Diversos aspectos do jogo foram explorados até que Mr. Miller desse ênfase a um em particular: “o prélio foi mesmo empolgante, mas as condições do terreno...”.
Mais de cem anos se passaram, muita coisa mudou. Não as condições dos gramados pelo Brasil. Continuam lastimáveis, por todos os cantos do país.
Apesar do cenário ser usado demagogicamente por dirigentes, técnicos e jogadores, na tentativa de atenuar maus resultados, não há como negar a situação crítica em que nos encontramos. Apenas recentemente alguns clubes vêm se prontificando a reformar os gramados de seus estádios. Novas arenas e alguns campos administrados pelo poder público também escapam dessa conta, mas o resultado continua deprimente.
Parte da responsabilidade é dos próprios clubes, geralmente administrados de forma amadora, controlados ad infinitum por clãs políticos e usados por seus dirigentes para interesses pessoais. Porém, devemos lembrar que a maioria dos clubes apenas luta para se manter, muito distante das possibilidades de arrecadação das grandes equipes (ainda que os “grandes” não as aproveitem tão bem). Portanto, existe também componente econômico nessa equação.
Desse modo, sendo a má qualidade dos gramados brasileiros um problema generalizado, com os clubes vivendo em constante dificuldade financeira e numa cultura auto-destrutiva, não caberia uma participação ativa da CBF em busca de melhorias?
Sem dúvida que sim. E qual é o plano dos nossos cartolas? Pois é, nem adianta tentar se lembrar. Em tese, CBF e Federações deveriam ser as primeiras a se preocupar com a boa saúde do esporte, com melhores condições para os atletas, com o respeito aos torcedores. Eu sei, eu sei, também posso ouvir as risadas.
E o pior é que mesmo havendo possibilidade de vantagens comerciais (único momento em que os olhinhos de nossos dirigentes brilham de verdade), nada acontece. Afinal, gramados em boas condições potencializam o espetáculo, o que atrai torcedores e investimento. Mas essa me parece ser uma perspectiva muito longínqua para causar sequer um bocejo na cartolagem.
Não fosse o total desinteresse, uma ação efetiva não seria nada utópica. Sob a liderança da CBF, cada federação criaria uma “Comissão de Gramados”, força-tarefa formada por engenheiros agrônomos, técnicos em equipamentos e outros profissionais especializados. Essa equipe elaboraria um manual de cuidados básicos, com orientações quanto à irrigação, corte, manutenção pós-jogo etc. O manual seria disponibilizado a todos os clubes, mesmo os amadores.
Periodicamente, a comissão realizaria visitas técnicas a todos os estádios que abrigam jogos das principais divisões estaduais. A partir dos diagnósticos, os reparos seriam iniciados, primeiramente com a comissão trabalhando diretamente no local e na seqüência pelos funcionários responsáveis pelos gramados, devidamente orientados.
Por se tratar de um projeto universalista, as reformas não contariam com intervenções mais dispendiosas, como sistema de irrigação eletrônica. Nesse momento, a preocupação é dar boas condições a um número elevado de campos, não alcançar excelência em poucos gramados.
Em dois anos, no máximo, a comissão faria uma avaliação final dos campos reformados. No caso de algum gramado não apresentar as condições esperadas, jogos profissionais seriam vetados nessas praças até a finalização dos ajustes. Depois desse primeiro período, caberia aos clubes e proprietários a manutenção dos gramados. No meio e no fim de cada temporada, novas inspeções seriam realizadas, não se permitindo retrocessos.
Os investimentos do projeto seriam divididos entre clubes, federações e CBF, mas as entidades dirigentes arcariam com parte destacada dos custos. Por se tratar de uma proposta bastante abrangente, é de se esperar que os valores envolvidos não sejam baixos. De onde viria a verba necessária?
Principalmente da CBF, que mantém várias fontes de recursos. A entidade tem despesas, obviamente, mas a relação custo/receita é muito positiva, o que não é o caso dos clubes. Em menor escala, as Federações também têm receitas suficientes para custear parte do projeto. Além disso, o programa pode ser dividido em etapas, estabelecendo-se prioridades. Definitivamente, falta de recursos não inviabilizaria a idéia.
É praticamente impossível que transcorra sem percalços um projeto dessa magnitude, revisões de cronograma e adaptações devem mesmo ocorrer. O essencial é não se perder de vista o resultado esperado: gramados em condições adequadas por todo o Brasil, reduzindo drasticamente um problema que assola nosso futebol desde sempre. Só depende de alguma organização, competência e, primordialmente, boa vontade por parte dos nossos cartolas. Eu sei, eu sei, também posso ouvir as risadas.
Belo domingo de setembro. Bela manhã em que o Sol chegou forte. Belo café José Carlos Pereira toma. É dia de jogo, precisa estar bem alimentado. É clássico, vai ter de correr muito. Nada que uma boa cota de carboidrato não dê conta.
Enquanto brinca com Tobias, seu labrador, dá uma passada rápida pelas notas esportivas do jornal. Futebol é sua grande paixão. Respira o esporte. Sua o esporte. Acompanha cada lance. No Brasil ou no exterior. Sabe as escalações dos times, qualquer um deles, do goleiro ao ponta-esquerda. Inclusive os reservas.
Hoje o dia será de grandes emoções. O dia mais esperado, dentre todos da semana. O dia em que ele deixa de ser coadjuvante, apenas mais um na multidão, para ter holofotes mirando-o pelos quatro cantos do campo.
Na semana anterior, a partida fora espetacular. Recebera calorosos elogios de colegas e, o que mais o surpreendera, a mídia havia amplamente elogiado sua atuação. Lances estupendos, de grande dificuldade.
E tais elogios foram suficientes para fazê-lo treinar ainda mais arduamente no decorrer da semana. Ao contrário de todos os outros, quanto mais era elogiado, mais trabalhava, mais buscava aprimorar-se. Queria estar “tinindo” para o clássico. Sem dúvidas seria importante para sua carreira no futebol decolar definitivamente. Uma atuação perfeita num clássico. Era o passo que precisava para ir à Copa do Mundo.
Um beijo na esposa, um carinho nos dois filhos, uma corrida atrás de Tobias. Pega a mochila, confere o equipamento, certifica-se de não ter esquecido o protetor solar. E sai. Junta-se aos colegas para ir ao estádio. Precisam chegar cedo. Por que sabem como é, não é? Aquecimento e alongamento precisam de atenção. Principalmente antes de um jogos desses.
Chegam ao estádio e vão direto ao vestiário. Não podem perder tempo ou parar para dar entrevistas. Aquecem, alongam, ouvem instruções acaloradas enquanto amarram as chuteiras. Um último gole de água antes do início da partida. Uma oração, pedindo proteção e que ninguém se machuque. Partem para as escadarias. Ele e seus colegas, de mãos dadas.
Entram em campo. Primeiro, o pé direito, para dar sorte. O sinal da cruz, típico dos amantes do futebol. Arquibancadas lotadas. Uma parte da torcida os aplaude. A outra não perdoa e vaia. Estão acostumados, não se deixam abater. Foi sempre assim, durante anos, em todos os jogos.
Uma corrida rápida, “sente”a bola. Algumas embaixadinhas. Tudo pronto. O espetáculo vai começar.
Sente um frio na barriga. É o grande momento. Concentrado, não ouve mais o barulho da torcida. Olha para os lados, para ver se todos estão em suas posições.
É agora.
Na cabine de uma rádio, o narrador anuncia:
- Apita, José Carlos Pereira! Bola rolando para o grande clássico deste domingo!
(PS: Na seção "Sempre aos domingos", publico textos enviados por leitores. Mande o seu para blogdotorero@uol.com.br)
Faça chuva ou faça sol, domingo, é o dia de assistir ao futebol.
Tiro do armário a camiseta do meu clube de coração. Original, mas em muitas casas não são.
Ficam ainda no armário, o shorts, meião, chuteira, tênis de futsal, bola, bandeira, agasalho de inverno e cachecol. Todos com o escudo do meu time.
No quarto ao lado, meu filho caçula usa macacão do NOSSO time, e engatinha no chão, brincando com bonecos, mini-bolas, mamadeira nas cores do time
Já está de chupeta . Logo, logo, deita no berço, já arrumado com a colcha, travesseiro, lençol. Tudo com com o escudo do nosso time.
Pro mais velho, tá na hora de comprar aquela camisinha com as cores do time.
Antes de sair, passo no outro quarto. Tenho um ritual de sorte: beijo as camisas antigas e arrumo as 300 revistas de futebol que guardo desde moleque, as 50 flâmulas, o jogo de botão, posters e o álbum de figurinhas.
Estou atrasado, onde está a chave do carro? Meu filho do meio, devidamente trajado, tem o chaveiro com o distintivo em mãos. Vambora!
No caminho ao estádio, ouço os programas esportivos no rádio, uma legião de narradores, comentaristas, repórteres.
Ouço que o técnico adversário chamou um pai de santo para um servicinho….
Perto do estádio, aparecem os flanelinhas, oferecendo aquele lugarzinho pro dotô. Isso também não mudou, ainda sou refém deles… Paciência. Deixo o café adiantado!
No caminho, me sinto na feira livre… Barracas de churrasco, pernil, varais com camisas falsificadas e os cambistas, oferecendo ingressos sem fila.. É a tal da economia informal. Do outro lado, vejo a polícia com seus cavalos, caminhões e até um tanque de guerra.
Compro ingresso mas não escapo do garoto que pede um real para inteirar e assistir também ao jogo. Vamos lá, o jogo está pra começar.
Sento no meu lugar, e como abelha no mel, chegam os vendedores de sorvete, refrigerante, esfiha, pipoca, água. Até pastel de Belém….
Olho o gramado, uma legião de pessoas corre de um lado ao outro, repórteres, cinegrafistas, procurando os jogadores, técnicos, juízes e assistentes.
Meu filho pergunta o porque de tanta gente de branco: médicos, psicólogos, fisiologistas, fisioterapeutas, ortopedistas, quiropratas, massagistas, todo mundo no campo.
Ao redor do gramado, uma infinidade de placas, anunciando produtos e serviços, empresas de grande e pequeno porte presentes no palco de espetáculo.
O jogo começa e num piscar de olhos termina. Enquanto o exército de limpeza e conservação entra no gramado, rápido para casa para assistir as mesas redondas.
Peço para minha mulher escolher a pizza porque das seis a uma da manhã, o controle remoto é meu aliado, não posso perder nada. Quero ver se o juiz errou, se a bola entrou…
O empresário de jogador sendo entrevistado por uma modelo? Ex-jogador comentando futebol?… antigamente não era assim
E os merchans? é um tal de fios e cabos elétricos pra cá, cantina italiana pra lá. Vou ligar para o despachante, tirar aquela multa da carteira.
2a feira, antes de trabalhar, passo na banca e compro todos os jornais para conferir a classificação do meu time. Isso se contar, as revistas mensais que já sou assinante desde moleque.
Na hora do almoço, vou com os meninos do escritório (de camisa e boné do NOSSO time) ao bar do Mané. não podemos perder os programas esportivos na tevê.
E chego em casa cedo, para acompanhar as últimas novidades nas mesas redondas de 2a feira.
Uhm, meu time vai jogar na Argentina. Já sei, vejo o jogo em Buenos Aires e levo a patroa pra fazer compras lá … Como chama a agência de turismo especializada em pacotes de futebol?
Ah! Se meus filhos forem tão bem na escola como nosso time vai no campeonato, dezembro vamos todos pro Japão.
O artigo acima analisa o grande impacto do futebol na economia, gerando emprego e renda.
Hoje, um clube bem estruturado pode empregar diretamente 500 pessoas, ou seja, similar a uma empresa de médio ou grande porte
Diversos segmentos são impactados diretamente pelo futebol: profissionais liberais, prestadores de serviços, agências, mídia, indústria de artigos esportivos, governo, economia informal.
Isso sem falar no imensurável, a emoção envolvida, a paixão gerada.
E se o futebol fosse bem organizado e levado a sério pelos nossos dirigentes? Quanto seria gerado? Quantos empregos extras? Temos saída? Qual a solução?
Posso participar também das seleções dos times imaginários?
Meu time imaginário se chama "Piada F. C.".
O uniforme oficial nº 01 do meu time é camisa amarela, calção azul e meiões brancos ou azuis.
A fundação é 27 de fevereiro de 1914.
Mascote: um canarinho.
Características: Este time já foi um dos mais respeitados do mundo, mas agora tornou-se motivo de chacota para a grande parte dele, principalmente pela forma como é tratado pelos seus dirigentes. Em outras épocas, com outro nome, já conquistou o mundo 5 vezes. Mas hoje não se espera muito dele, embora seja capaz de às vezes surpreender a todos, com resultados simplesmente inimagináveis, como recentemente aconteceu contra um de seus mais tradicionais adversários. Nem assim, entretanto, o time parece empolgar, mas torna-se motivo de piada ainda maior, justificando aí o título que "ostenta"(?).
O time também é conhecido, em alguns meios como a seleção dos empresários, mas... Há controvérsias.
Seu treinador é um ex-jogador que tinha como principal característica a força e a marcação, mas que nos últimos tempos vinha se destacando pela criatividade... Não no campo, com nós táticos, estratégias e esquemas de jogo eficientes, mas no seu estilo retrô com requintes de vanguarda de se vestir (o que acabava por desviar as atenções um pouco da equipe dentro de campo... e era até bom). Dizem, entretanto, as más línguas que a culpa era da filha.
No último jogo, apesar da vitória, o treinador mostrava ao mundo todo o seu estilo sisudo, combinando bem um modelito inspirado nas Forças Armadas Brasileiras (vide foto abaixo)
(Embedded image moved to file: pic14181.jpg)
O Piada F. C. é assim mesmo: sempre causa certa perplexidade.
E não é diferente quando é convocado ou escalado. Quase sempre a equipe traz alguma piada de muito mal gosto, como, por exemplo, um volante que se chama... Fernando. Imagine!
Mas há boas piadas também, como um atacante por nome de... Afonso (que só de lembrar me dá uma crise... HAHAHAHAHAHA!!!).
A equipe hoje se prepara para... Hã? O quê?
Peraí, um minuto, Torero.
(...)
???
Desculpe, Torero. É que eu fui informado aqui, agora há pouco, que meu time imaginário... Já existe? É isto mesmo?
(O texto deste "Sempre aos domingos" foi escrito por Fabio Nicolau Ferreira)
Foi há algum tempo, no meado dos anos 70. Tudo corria bem. A Transamazônica e a crise do petróleo iam de vento em popa. Tínhamos o Garibaldo, nada menos que dois reis, Eliana Pittman e seu carimbó, e nossos presidentes usavam óculos enormes. A felicidade imperava.
Acontece que ainda existia gente avessa ao progresso. Acuadas, estas pessoas fugiam para regiões inóspitas onde não pudessem ser atingidas pela alegria contagiante, e lá viviam isoladas do mundo exterior.
Dentre estes ascetas estava um velho amigo meu dos tempos de colégio, o Pinduca. Nesses tempos de solidão, o Pinduca, que odiava o apelido, encontrou uma forma de mudar de nome. Nada como a subversão para substituir um trauma de infância por outro um pouco mais adulto. Pinduca precisava de um codinome e não demorou muito a encontrar seu preferido: Leônidas.
Flamenguista doente, Pinduca escolheu o nome de seu maior ídolo. Quando criança, éramos obrigados a escutá-lo contar os feitos do craque como se tivesse idade o suficiente para tê-los presenciado. "Diamante Negro!", gritava. Ou: "Sem as duas chuteiras!!" O rosto branquelo do Pinduca se avermelhava, e sua voz se alterava para tornar mais grandioso e dramático todos os feitos de Leônidas. Se é que havia feito mesmo.
Mas os tempos já eram bem menos poéticos, e foi o nosso Leônidas viver como eremita no interior do Brasil. Mais precisamente entre Pelotas e Marabá. De tempos em tempos eu me perguntava como ele viveria sem futebol. Na solidão a gente dá um jeito, mas e o Flamengo, como anda? Devia torturar o pobre do Pinduca.
Já fazia seis ou sete anos que tinha sumido quando ele reapareceu. Num domingo de manhã, magricela e sujo, o Pinduca bate à minha porta.
- Pindu...
- Fala baixo, fala baixo, estão por toda a parte - disse ele, tapando minha boca e me empurrando pra dentro.
Eu estava curioso para saber o que fez ele se arriscar a voltar para o Rio. Nem perguntei, ele foi logo explicando.
- Zico.
- O quê?
- Zico. O Zico, o Zico e o Zico.
- Tá, o que tem o Zico? Você veio só por causa do Flamengo? Eu sabia que não ia durar muito essa história de exílio. Cê sabe que o mar não tá pra peixe né?
- Sei. Pelo tanto de vezes que ouvi Dom e Ravel no rádio. Uma tortura.
- Ao menos deu pra matar a saudade do futebol.
- Eu até tava resistindo bem naquele fim de mundo. Esse bendito rádio me salvou. Tô sabendo de tudo. O Fio Maravilha, a Copa do Mundo. Que final hein? E o chute do meio de campo do Pelé? Caramba, como passou perto. E a defesa do Banks? Antológica!
- Mas era rádio Pinduca. Como é que você sabe?
- Mas dá pra saber. Só que é por isso mesmo que voltei. Como você sabe, eu nem tinha nascido no tempo do Leônidas. Era muito pequeno e não vi Zizinho. Nem o Evaristo, o Joel, o Almir, o Dida, ninguém. Nunca fui ao Maracanã. Ópio do povo sabe, pega mal. E agora tem essa coisa.
- Que coisa Pinduca?
- Esse Zico. Já viu como ele bate falta? Um gênio!
- Já vi sim.
- Pois eu não! Você não entende? Eu posso morrer sem ter visto um único grande craque do meu time. Eu tenho que ver esse cara. Vai que não aparece outro. Por isso procurei você.
- Por que eu?
- É que você mora aqui, do lado do Maraca. Fico escondido aqui até a hora do jogo, vejo o Zico, e volto rápido. Amanhã já tô de viagem de novo. Só tem mais uma coisa, eu não tenho grana pro ingresso.
Enfiei a mão no bolso e tirei o que tinha.
- Pra geral deve dar. Você tem mais algum? Pro amendoim, sabe.
Tudo pela velha amizade.
Trancados em casa, foi só esperar pelo jogo. O Pinduca nem dormiu, e não se cansava de contar as jogadas de Zico. Até que o vi, elétrico, se preparar para ir ao estádio. Quando já estava na porta, comentei:
- O Zico é mesmo melhor que o irmão.
- Que irmão?
- O Edu, do América, é irmão dele. Você não sabia?
- Mas como pode? - disse isso com os olhos esbugalhados, e foi saindo com tanta pressa, que nem tive tempo de perguntar o motivo de tanta surpresa.
Fiquei em casa escutando o jogo. Era Flamengo e Vasco, e meu cardiologista tinha me proibido de ir ao Maracanã. Só que se sofre o mesmo, ou ainda mais, pelo rádio. Mesmo sendo vascaíno, até tentei torcer para o Flamengo, para alegrar o Pinduca. Mas não deu. Quando Zico fez o gol da vitória, amaldiçoei o Galinho. Terminada a partida, fui tomar um ar, andar um pouco. Quando voltei, ele já estava em casa. Estava preparado para a gozação. Sabia que seria grande, afinal, o Pinduca vinha segurando isso por anos. Não dava para alugar ninguém no meio do nada.
Para minha surpresa ele estava cabisbaixo. Nunca o tinha visto daquele jeito num dia de vitória do Flamengo. Aconteceu alguma coisa. Vai ver o descobriram!
- Que foi Pinduca? O Flamengo ganhou cara.
- Mas o Zico...
- Ele acabou com o jogo, você não viu?
- O Zico cara. O Zico. Por que ninguém me disse? - quase chorando.
- Que tem o Zico, Pinduca! - eu não agüentava mais ouvir falar aquele nome.
- O Zico cara... ninguém me falou...
- Ninguém te falou o quê, deus do céu!?
- Por que ninguém me falou que o Zico é branco caramba!?
(O texto deste "Sempre aos domingos" foi enviado por Carlos Pizzatto)
- Que bela briga, hein?
- A do James Dean Pereira, no boxe?
- Não, não. No quadro de medalhas. Briga entre Brasil e Cuba. Tête-a-tête. Corpo a corpo.
- Pois é. Está pau a pau.
- Mas, tem uma coisa eu não entendo...
- O quê?
- Quantos habitantes Cuba tem?
- Tem 11 milhões.
- E o Brasil?
- 180.
- Milhões!?
- É.
- Ué, como pode Cuba, com 11 milhões de pessoas, ter mais medalhas de ouro do que o Brasil, que tem 180 milhões?
- Simples. O Brasil é um país pobre, de terceiro mundo. Já Cuba é um país riquíssimo. Economia muito forte, sem pobreza. País capitalizado, de primeiro mundo. Quanto mais riqueza, mais medalhas de ouro, entende?
(o bom texto de hoje do nosso "Sempre aos domingos" foi enviado por Evandro Siqueira)
A vitória está em seu pé esquerdo. Aos 47 do segundo tempo, basta Neneco converter o pênalti e a festa estará garantida. Tarefa aparentemente simples para um centroavante frio e eficiente como ele. Em toda sua vida, jamais desperdiçou uma penalidade máxima. Não entende como um cobrador, a onze metros da glória, com um pobre e solitário ser de braços abertos à sua frente, é capaz de mandar a bola para outro lugar que não seja o fundo da rede. Tem a receita na ponta da chuteira: tiro forte, seco, rasteiro, no canto, sem olhar - de jeito nenhum - nos olhos do goleiro.
"Batedor de pênalti é como um assassino profissional: se olhar nos olhos da vítima, pode ficar com pena e não puxar o gatilho, ou melhor, não fazer o gol", filosofou Neneco, recentemente, a um repórter de campo. A torcida conhece a fama do matador. E está certa de que, após a cobrança, inundará o estádio com o grito de gol. Ainda mais porque, sobre a linha fatal, está Tarrafa, o goleiro mais vazado do campeonato - que, naquela tarde, continuava acidentalmente invicto.
Neneco caminha em direção à marca, agacha-se e ajeita cuidadosamente a bola. Ergue o corpo e, como sempre, dá quatro passos para trás. Beija a medalhinha de Nossa Senhora pendurada no peito não uma vez, como de costume, mas três. Ele transpira incessantemente. Faz o sinal da cruz. Esfrega as mãos no rosto. Sua frio. Estranha. Há algo errado. Desconcentra-se. Involuntariamente, desvia o olhar da rede. E dá de cara com Tarrafa, o amigo de infância.
- Meu Deus, o que eu fiz?, murmura Neneco.
À sua cabeça, vêm imediatamente aquelas noites de sábado, quando ele e Tarrafa passavam horas no Bar do Tonhão, tomando cerveja e trocando lamentações. Lembrou do dia, talvez o pior de sua vida, em que foram derrotados na repescagem da Supercopa Varzeana. Um fiasco. Neneco marcou cinco naquele jogo decisivo, mas o amigo tirou a bola da rede sete vezes. Tarrafa foi chutado do time. Não agüentou a pressão dos peladeiros e mudou até de bairro. Foi a última vez que jogaram, perderam e beberam juntos.
De longe, rompendo o silêncio da torcida, Neneco ouve o apito do árbitro. É hora de fazer o que dele se espera. A torcida se cala, para não atrapalhar o artilheiro. Mas seus olhos estão fixos nos de Tarrafa. A cabeça está lá, naquele sábado, no Bar do Tonhão. Na fatídica noite, Tarrafa contou a Neneco seu histórico de fracassos futebolísticos. Era impressionante! Desde a infância, não havia nada digno de orgulho em sua carreira de goleiro. Até dos jogos com bola de meia, no pátio da escola, Tarrafa tinha algo triste para contar. Mas ele nunca desistiu. E, naquela noite, tentou explicar a Neneco o porquê.
- Sabe, Neneco, sinto um certo prazer quando vejo a alegria no rosto de tantos atacantes e torcedores.
Neneco engasga com a cerveja, mas continua quieto, ouvindo o desabafo.
- Futebol é feito de gols, não é, Neneco? E eu, quando não defendo um chute, uma cabeceada, estou ajudando a manter o futebol vivo, alegre. Concorda?
Neneco permanece em silêncio.
- Não que eu faça isso de propóstio. Diria que isso, ao longo dos anos, virou um instinto. Como uma mãe que ama um filho, eu amo o gol. Pena que nunca levei jeito para atacante... Se todos os goleiros fizessem como eu, imagine como seria lindo o futebol. Placares de 11 a 10, 15 a 12, 20 a 20... Até os perdedores sairiam do estádio com sorriso no rosto. Não haveria mais pancadaria na porta dos estádios. Afinal, futebol é feito de gols, não de vitórias. Né mesmo, Neneco?.
O atacante segue perplexo.
- Às vezes, viu Neneco, goleiro é um ser egoísta, meio estraga prazer. Eu reconheço isso.
O som do apito invade novamente o ouvido de Neneco. A torcida permanece estática, calada. Seus pés parecem enraizados no gramado. Ele parte em direção à bola. Bate forte, seco, rasteiro, no canto, como sempre. Ela explode no pé da trave e sai. O estádio fica boquiaberto, perplexo. Tarrafa, parado no meio do gol, também. Neneco, idem. Nem o juiz, que se preparava para apontar para o meio de campo, acredita no que vê.
Neneco volta o olhar para Tarrafa, que faz aquela cara de "não tive culpa". Mais um apito. Acaba o jogo. Goleiro e centroavante saem de campo cabisbaixos, igualmente frustrados pelo mais egoísta dos resultados: o zero a zero.
{O texto deste "Sempre aos domingos" [mais uma vez publicado na segunda (pelo jeito terei que trocar o título da seção)] é de João Luís Prudente do Amaral}
Sua vida era comentar jogos na TV. Amava discutir lances, jogadas, estratégias. Era paixão mesmo. Na juventude, a impulsividade havia trazido percalços à sua carreira, quando costumava dizer poucas e boas a quem fosse. O tempo e os cabelos brancos deram-lhe maturidade. Aquela chama, no entanto, ainda estava acesa. Apenas a controlava. Só té o dia em que seu time de coração perdeu o título numa final vergonhosa.
Oito a zero para o adversário – fora o baile! Ele, na cabine da emissora para a qual trabalhava, nó da gravata frouxo, permanecia descrente no que acabara de ver. Ao apito final, recolocou o fone. Tinha trabalho a cumprir. Respirou fundo e, após uma breve pausa, emendou:
“Amigos, existem fatos no futebol que eu não entendo. Quantas regras sem sentido, negociatas e absurdos. Um exemplo? Tiro de meta. Eu pergunto: por que raios o goleiro, depois de sofrer um ataque perigosíssimo, ajeita a bola com cuidado, fecha os olhos e dá uma bica na coitada, sem qualquer direção? Por acaso existe um campeonato paralelo com prêmio especial no final do temporada para quem chutar mais longe? Não tem o menor sentido. E vou além: ninguém avisa o cara para tocar para um lateral melhorzinho, um volante que saia jogando? Os técnicos não se incomodam? É dado como certo o chutão, então bola pra frente? – se me permitem o trocadilho.
Nós comentaristas discutimos futebol todos os dias, mas ninguém critica essa jogada? Repetimos lances em câmera lenta, usamos computação gráfica para medir a velocidade da bola, a cor da cueca do segundo cara da barreira, mas não mencionamos um lance desses? Não dá para acreditar!
Outro exemplo? Impedimento. Dizem que mulheres não fazem idéia do que seja isso. Pois elas fazem MUITO BEM! Impedimento só serve para justificar a presença dos auxiliares em campo. Mais nada! Já que estão lá, que façam alguma coisa! Só que, quando fazem, todos discordam. Dá para entender? Posição irregular por dois centímetros? Que dêem uma luneta para o cara, não uma bandeira!
Não é mais fácil abolir essa praga? Os “entendidos” alegam que o jogo perderia a graça. E desde quando é engraçado perder a partida num lance em que o auxiliar lia a lista do mercado feita pela esposa e não viu que o atacante estava adiantado? Ah, mas na banheira os centroavantes farão mais gols. Sério? E não é isso o que queremos no futebol? Gols? Os técnicos que se virem para anular as jogadas. Ganham bem demais para isso. Mas é muito chato você assistir a um jogo e, na única oportunidade de gol, o titio da bandeira resolve fazer uso do objeto. MAS IA SER GOL, CACETA!
Sugestão? Excluam o impedimento e incluam um segundo árbitro em campo. Metade do gramado para cada um. Os rechonchudos agradeceriam para o resto da vida a nova oportunidade de emprego. Afinal, correr só meio campo é bom negócio. Ou não é?
Isso sem citar a tecnologia. É celular cada vez menor, nanotecnologia, GPS no carro. E o futebol lá, como se jogava há cem anos. Telões de plasma nos estádios mostram cada jogada em detalhe, mas não podem ser usados para saber se a bola entrou no gol ou não. Por quê? Vai perder a emoção? Mas que emoção tem um esporte que não permite que os REAIS vencedores vençam? Quem ganha com isso? Não é o torcedor, que vê seu time perder um campeonato numa jogada irregular. Não é a Inglaterra que tem sua seleção desclassificada da Copa pelas “mãos de Deus” do maior jogador argentino de todos os tempos. E isso não tem a menor lógica. Nem graça.
E as transferências de atletas DURANTE o torneio? Sim, porque o calendário do Brasil é diferente do resto do mundo. Temos um time até julho, outro a partir de agosto. Como pode? Pior, virou mania um time atravessar a negociação do outro. Se você negocia o lateral e busca outro atleta, entram em ação os empresários oferecendo jogadores como o japonês da feira oferece tomates: vale o preço. Você até encontra um bom jogador, por uma grana razoável. Mas quando vai assinar contrato, o cara é contatado por um cartola do rival, oferecendo um monte de dinheiro para levá-lo. Só que esse time já tem outros sete laterais. Pouco importa se é um investimento válido. Importa apenas atrapalhar a vida do adversário. Pagam uma fortuna para um jogador ficar dois anos encostado só para atrapalhar? Não montam um esquadrão competitivo por pura birra? Valha-me Deus!
Pois que paguem essa grana para mim! Eu faria de tudo para atrapalhar a vida do rival. Misturaria purgante no amendoim a “dois Real” da torcida adversária. Entraria na freqüência de rádio do auxiliar técnico deles e contaria piadas de papagaio. Trocaria as camisas dos caras por modelos de plástico, para não secar o suor de jeito nenhum. Furaria todas as garrafas de água. Colocaria pulgas treinadas nos shorts deles. A bola chega perto, mordem. O atacante pula para cabecear, mordem. E trocaria a lista do mercado no bolso do bandeirinha. O cara ia pirar de preocupação em chegar em casa sem o amido de milho.
Confesso que, apesar dos pesares, sou um apaixonado pelo esporte bretão. É por isso que fico indignado. Portanto, amigos, brigar para quê? Hein? Vamos torcer sem quebrar tudo quando perdermos – e principalmente quando ganharmos! É esporte. Só isso. Uma pena, mas é verdade.
Um grande abraço a todos e muito obrigado por tudo!”.
Terminado o desabafo, sentiu-se profundamente aliviado. Percebeu que toda a equipe técnica estava em silêncio. Alguns torcedores que ouviram aquelas palavras passaram a aplaudi-lo. A equipe acompanhou. Com os olhos rasos d’água, apertou a mão de cada um de seus companheiros e saiu.
Aposentou-se. Comprou um sítio, onde descansa e de onde acompanha os campeonatos. Prometeu que jamais falaria sobre aquele dia. Recusava entrevistas e passou a escrever um livro sobre sua vida.
Atualmente, torce para que sua obra seja publicada e seu time volte a ser campeão. O livro, tem certeza de que dará certo. Já o time...
O "Sempre aos domingos" de hoje é um tanto diferente. E por dois motivos. O primeiro é que hoje é segunda-feira, o segundo é que não colocarei aqui um texto, mas sim uma obra do artista plástico Paulo Consentino, que fez uma bela reinterpretação da Vila Belmiro.