Blog do Torero

30/04/2010

Supertoreroteca

Eis aí a chance de o leitor ganhar o lindo e espetacular livro Pelé 70.

O felizardo será aquele que primeiro acertar quem e quando fará o gol número cem do Santos na temporada (ou o 102, se considerarmos os gols dos amistosos contra Red Bull e seleção da África do Sul).

Até agora o time tem 98 gols. Domingo, contra o Santo André, deve sair o centésimo.

Mande aí seu palpite. O meu é Neymar aos 43' do primeiro tempo.

 

(Obs.: Se o gol cem não sair neste jogo ou se ninguém ganhar, faço nova toreroteca na partida contra o Atlético MIneiro)

Por Torero às 00h06

29/04/2010

Dez notas sobre a quarta nota dez

Um: Mesmo com um jogador a mais durante a maior parte do jogo, o Corinthians não conseguiu evitar a derrota para o Flamengo. E por um gol de diferença. Dá para reverter em São Paulo, mas há que jogar um pouco melhor. Um pouco, não. Um muito.

Dois: Números de gols de diferença entre Internacional e Bansfield. O time argentino venceu por 3 a 1 e complicou muito a vida dos gaúchos. A partida estava empatada até que o lateral esquerdo Kleber foi expulso, no começo do segundo tempo.  O Colorado deve sofrer dois duros golpes nos próximos dias: a perda do estadual e a desclassificação da Libertadores.

Três: Foi o número de gols que o Santos levou do Atlético-MG. Mas fez dois e isso diminui o prejuízo. No próximo meio de semana devemos ter outro jogão. O curioso é que o comentarista de arbitragem foi Márcio Rezende de Freitas, persona non grata em Santos. E dessa vez ele viu que o gol do adversário santista foi feito em impedimento. Dessa vez.

Quatro: De maio. É o dia do jogo de volta entre São Paulo e Universitário do Peru. A partida de ontem foi chata, enfadonha. O melhor lance foi quando Richarlyson e Espinoza deram carrinhos um no outro e nem acertaram a bola. O São Paulo deve vencer a segunda partida sem problemas. 

Cinco: Número de gols na soma das duas partidas entre Barcelona e a Internazionale. Infelizmente, só dois foram para o Barca. Ontem o time milanês deu uma aula de como se defender. É para os técnicos gravarem e mostrarem às suas equipes.

Seis: Número de jogadores que participaram do jogo Vitória x Vasco e que têm o nome terminado em “on”. Pelo Vitória: Vilson, Vanderson, Uellinton e Elkeson. Pelo Vasco, a dupla caipiria Niltone Elton. A importância disso? Nenhuma. O que conta é que o Vitória ganhou por dois gols de diferença e tem boas chances de avançar na Copa do Brasil.

Sete: Número de gols que Tardelli fez no Campeonato Mineiro e pela Copa do Brasil. 

Oito: Minutos que faltavam para acabar o jogo quando Edu Dracena marcou o segundo gol santista.

Nove: Centenas de jogos que Rogério Ceni já fez pelo São Paulo. Um número espetacular. E, para comemorar, ele quase nem trabalhou nesta superquarta.

Dez: Camisa de Adriano, que voltou a fazer gol depois de um mês de jejum. Pode ser o gol do começo de mais uma recuperação. Pode ser.

Por Torero às 09h04

28/04/2010

Outra Copa do Brasil

 
 

Outra Copa do Brasil

(Como hoje teremos uma bela rodada da Copa do Brasil, aproveito para colocar uma proposta de campeonato, enviado por Eduardo Batista)

Por Eduardo Batista de Souza

Como todos sabem, a Copa do Brasil foi um torneio criado pelo Eurico Miranda, a CBF e o SBT para continuar o apadrinhamento dos pequenos clubes espalhados pelo interior do Brasil em 1989. Ou puramente um torneio caça-níquel como muitos disseram na época. O único ponto relevante em disputá-la era o fato da copa dar ao campeão o direito de disputar a CopaLibertadores da América, e justamente no período em que os times brasileiros voltariam a dar valor no campeonato continental.

A idéia era dar a chance de equipes do que fizeram boas campanhas pelos estaduais (ou convidadas pelos dirigentes) pudessem jogar contra os grandes clubes do Brasil, ou até mesmo disputar uma taça internacional oficial. A idéia foi brilhante, pena que foi utilizada apenas para manter os afilhados quietos e felizes pelo país afora, enquanto o que realmente interessava, que era o campeonato brasileiro, pegava fogo.

Depois de muitas fórmulas e vários conceitos, a Copa do Brasil tornou-se o que é hoje: o segundo torneio mais importante do país, e o caminho mais curto para quem quer disputar uma Libertadores da América. Graças à Copa do Brasil, passamos a tomar conhecimento de times como ASA, Ivinhema, Mallutron, Naviraiense, Paulista, XV de Campo Bom, entre tantos outros. Graças a Copa do Brasil, times como Criciúma, Juventude, Santo André e novamente o Paulista puderam disputar uma Libertadores. Ou seja, para um torneio que foi criado para ser apenas um caça-níquel, o resultado foi muito bom. Ótimo, para falar a verdade.

Hoje, times tradicionais do nosso futebol disputam a Copa com vontade vencer. Porém nem tudo é perfeito, e se a Copa do Brasil é boa, poderia ser muito melhor.

O maior defeito do atual modelo é o fato de que o seu campeão não poder defender o seu título no ano seguinte, coisa que não ocorre em nenhum outro torneio do mundo. Tudo porque as equipes que estão disputando a Libertadores não podem disputar a Copa do Brasil. Uma maneira (já utilizada em algumas edições) de acertar isso é fazendo com que os times brasileiros da Libertadores entrassem na disputa da Copa do Brasil só em fases mais avançadas, como nas oitavas ou quartas de final.

O período em que a Copa do Brasil é disputado, no primeiro semestre, é muito curto. A Copa poderia muito bem se estender pelo ano todo, sem atrapalhar a disputa da Libertadores ou dos estaduais.

Outro ponto problemático da Copa do Brasil é a quantidade de participantes, que hoje está em 64 times. Mas considerando as dimensões continentais do Brasil, e da existência de clubes profissionais de futebol até no meio da floresta amazônica, esse número poderia ser bem maior.

Com base nesses problemas e com idéias coletadas aqui e ali, cheguei a fórmula de como seria uma Copa do Brasil perfeita, pelo menos na minha humilde opinião:

· Participantes: 144 times
· Período: de Fevereiro a Novembro
· Datas: 16 datas no decorrer de 10 meses (1,6 datas por mês)
· Fases: 8 sendo 4 fases preliminares e 4 fases finais (oitavas, quartas, semi e final); nas 4 primeiras fases os times que vencerem o jogo
de ida na casa do adversário com diferença de 2 ou mais gols eliminam o jogo de volta.
· Campeão fará no máximo 16 jogos e no mínimo 9 jogos, menos que o mínimo de hoje, onde o campeão joga pelo menos 10 vezes

Os 144 participantes serão escolhidos da seguinte forma:

· 16 melhores times da série A do campeonato brasileiro do ano anterior (esses entrando na disputa a partir da 4º fase);
· 4 times rebaixados para a série B no ano anterior;
· 20 times da série B no ano anterior;
· 20 times da serie C no ano anterior;
· 81 times por indicação técnica das 27 federações estaduais, sendo 3 em cada estado;
· 3 times “convidados” pela CBF, sendo 1 o campeão da Copa do Brasil do ano anterior, desde que o mesmo esteja fora das distribuições anteriores
(hipotética situação em que o campeão da Copa do Brasil do ano anterior não esteja disputando nenhuma das 3 primeiras divisões do campeonato brasileiro e nem tenha indicação técnica de alguma das 27 federações).

A primeira fase teria 128 times divididos em 64 chaves. Essas chaves seriam agrupadas, preferencialmente, de maneira regional, evitando assim
que haja grandes deslocamentos. Os 64 vencedores, em jogos de ida e volta, passariam para a segunda fase. As duas datas para essa fase se daria no mês de fevereiro.

A segunda fase teria 64 times divididos em 32 chaves. Havendo possibilidade, essas chaves também seriam agrupadas regionalmente. Os 32 vencedores passariam à terceira fase. A duas datas da segunda fase seriam disputadas em março.

A terceira fase teria 32 times divididos em 16 chaves. Os 16 vencedores passariam para a quarta fase. As duas datas seriam em abril.

A quarta fase teria os 16 times vencedores da terceira fase jogando contra os 16 melhores times do campeonato brasileiro do ano anterior, em
16 chaves. Os vencedores passariam para as oitavas-de-final. Os jogos dessa fase ocorreriam durante os meses de maio e junho, conforme houvesse espaço nas datas dos times que disputam a Copa Libertadores.

As oitavas-de-final ocorreriam durante o mês de agosto, após o término da Libertadores.

As quartas-de-final ocorreriam em setembro.

As semifinais ocorreriam em outubro e a grande final da Copa do Brasil ocorreria em novembro.

Para não atrapalhar o calendário do segundo semestre, onde é disputada a Copa Sul-americana, os jogos poderiam ocorrer nas datas FIFA, onde os campeonatos param para os jogos da Seleção brasileira.

Isso não seria problema, pois conforme históricos recentes, a Seleção não costuma convocar jogadores que atuam no futebol brasileiro.

Essa é a minha idéia. Espero que as pessoas leiam e discutam onde pode ser melhorada. Ou se a consideram perda de tempo, deixemos a Copa do Brasil do jeito que está, que assim já está muito bom.

 

Por Torero às 08h38

27/04/2010

Dois convites

O primeiro é este aqui embaixo:

O segundo é para uma exibição de curtas, hoje (na verdade, daqui a pouco), às 17h30, no Sesc Consolação. São curtas excelentes. Depois vou conversar com os presentes, se houver algum, sobre os filmes.

Por Torero às 15h51

Brasis 5 x 4 Alemanhas

Abaixo, três links de jogos entre Brasil e Alemanha enviados por Sylvio Ferrer.

BRASIL 2x1 ALEMANHA - Amistoso em 1963, com Gilmar, Lima, Zito, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe.
http://www.youtube.com/watch?v=9L7ogb_r5BA

BRASIL 1x2 ALEMANHA - Amistoso em 1968, com Tostão Gérson, Jairzinho e cia.
http://www.youtube.com/watch?v=sAlpnh7ooyE

(Master) BRASIL 2X1 ALEMANHA - Copa Zico em 1990.
http://www.youtube.com/watch?v=gL6NfUHwyGI

 

Por Torero às 09h12

26/04/2010

Vendo pelo rádio

O jogo, para mim, foi assim:

Começou às 15h10, quando cheguei à cabine da Rádio Globo, onde me convidaram para dar uns pitacos durante a transmissão.

O narrador Oscar Ulisses e o comentarista Zé Elias já estavam lá. Como Oscar participava de um chat, puxo conversa com Zé Elias. E descubro que o cara é um lorde. Seu estilo de jogo era, digamos, um tanto rude, mas, no trato, o cara é um gentleman: inteligente, ponderado e tranqüilo. E, ainda por cima, faz uma ótima imitação do Luxemburgo.

Depois ensinaram-me a mexer nos botões do microfone e do volume. Não é difícil. São apenas dois. Mas mesmo assim eu cometeria alguns erros no meio da transmissão.

Oscar me pergunta se estou nervoso e eu respondo que não. E era verdade. Eu estava confiante na vitória santista. Achava que seria fácil. O Santos havia vencido por 2 a 1 lá em Santo André. No Pacaembu, pela lógica, teria que ser de mais.

Quando o time entra em campo, não me emociono. Talvez por estar ali na cabine, numa função profissional, não senti aquele frio na barriga que o torcedor sente ao ver sua equipe entrar em campo para uma decisão. Uma surpresa.

Começa o jogo. Há muito tempo eu não escutava uma partida inteira pelo rádio. Talvez a última tenha sido lá pelos meus dez anos, no rádio do carro do meu pai, que por coincidência estava sem bateria na manhã seguinte.

Logo de cara, o Santos tem uma boa chance com Wesley e me inclino para trás, quase caindo da cadeira. A frieza profissional começa a ir embora.

Quem estava frio era o Santos. Nos seis minutos seguintes, três chutes do Santo André. Penso que os times entraram de camisas trocadas. A equipe do ABC é que está esperta, trocando passes rápidos e pensando em marcar gols, características do Santos durante o campeonato.

Nos longos minutos seguintes, o Santos continua irreconhecível e é dominado pelo Santo André, que perde várias chances. Marquinhos está apático e Robinho tem um raciocínio lento. Tão lento que aos 26’, impedido, bloqueia um chute de Ganso.

Aos 35’, numa cobrança de falta, vem o castigo merecido: 1 a 0 para o Santo André. Vocês não imaginam como foi triste escutar aquele longo gooooooooooooool ali no meu ouvido. Não acabava nunca! Ah, que vontade de desligar o microfone do Oscar...

O Santo André ainda perde mais algumas chances e vamos para o intervalo.

Oscar me pergunta o que achei do primeiro tempo e ouço minha boca respondendo uma tese estranha, algo como: “Sair perdendo de 1 a 0 foi a melhor coisa que poderia acontecer com o Santos, porque assim ele vai ter que correr, vai ter que lutar, vai ser um time com mais adrenalina. O Santos é uma fera que precisava ser sangrada, ferida. Estava tudo muito calmo, muito tranqüilo.”

Para minha surpresa, eu estava certo.

No segundo tempo, em sete minutos, o Santos já tinha dado quatro chutes.

E aos 13’ sai o gol de empate. Eu consigo me conter e não grito, mas fico de pé e levanto os braços. Penso em abraçar Zé Elias e Oscar, ou, pelo menos, o operador de som, mas me controlo, sento e volto a acompanhar o jogo.

Aos 17´, quando sai o gol da virada, consigo só levantar um braço. Mas minha vontade era roubar o microfone do Oscar e cantar o hino do Santos.
 
Quando sai o 3 a 1, vibro de novo, mas mais comedidamente.

Curiosamente, depois da expulsão do zagueiro Toninho, do Santo André, o Santos troca a adrenalina pela endorfina. Em vez de matar o jogo, se acalma. O time do ABC é que se enche de brios e consegue diminuir para 3 a 2.

Quando termina a partida e Oscar me pergunta o que achei do jogo, creio que respondo que foi uma partida dominada pelo ódio. Quem teve mais raiva, mais gana, se sobressaiu. O Santo André entrou com raiva por ser desprezado durante a semana e se impôs no primeiro tempo. O Santos teve raiva por ser desafiado e se impôs por trinta minutos do segundo tempo. E o Santo André, com raiva pela expulsão de Toninho, conseguiu dominar os minutos finais e fez seu segundo gol.

Depois, enquanto repórteres falam, tenho uma boa conversa sobre futuro do jornalismo e literatura com Oscar (para minha surpresa, ele leu três dos meus romances. Só perde para minha mãe, que leu os quatro).

Volto andando para casa e penso que ver um jogo do seu time da cabine de rádio é meio estranho. É como se houvesse uma neblina entre você e o campo. Enxerga-se tudo, mas as cores são meio desbotadas e o som, um pouco mais abafado. Ao lado dos outros torcedores, o drible é mais humilhante, o grosso é mais grosso, o juiz é mais ladrão.

Na semana que vem, assistirei ao jogo da arquibancada.
 

 

Por Torero às 09h44

25/04/2010

Sempre aos domingos: A última

 
 

Sempre aos domingos: A última

Caro Torero,

Há cerca de 3 anos, havia abandonado a 'trouxida'. Mas, vendo esse time do Santos jogar, resolvi tentar mais uma vez ir ao estádio de futebol, a despeito dos recentes relatos de outros 'trouxedores' em seu blog. Assim, comprei 2 entradas para a numera coberta do Pacaembu, ao custo de R$ 360,00. Hoje, minha esposa e eu saímos de casa, próxima da Henrique Shaumann com a Rebouças, por volta das 14h30.

Resolvemos deixar o carro em casa, vacinados que estamos em relação às mazelas enfrentadas para se estacionar nos arredores de um estádio de futebol. Contudo, não esperávamos tanta dificuldade em conseguir que um táxi parasse para nós... Talvez porque trajássemos camisas do Santos. Lamentável a postura dos taxistas que, em outros eventos de grande porte, também se dão ao luxo de escolher corridas.

Após caminharmos até o estádio, nossa segunda surpresa: a incapacidade da Polícia Militar de oferecer segurança aos cidadãos que pagam impostos nos obrigou a dar toda a volta no estádio para que pudéssemos ingressar no setor das numeradas cobertas, sob a espúria justificativa de que a torcida do Santo André entraria justamente pela rua que seria o acesso mais curto (e mais lógico) para se tomar em direção ao referido setor.

Explico-me: descemos pela rua do cemitério do Araçá e, em vez de tomarmos a esquerda em direção às numeradas cobertas, tivemos que ir até a praça Charles Miller, para depois subirmos em direção ao setor. Obviamente que nenhum comunicado prévio foi feito através da imprensa, o que nos impediu de planejar uma chegada menos penosa. Aos poucos, nossa paciência ia sendo minada.

Ao entrarmos na numerada coberta, por volta das 15h00, novas surpresas. A lanchonete ainda não havia recebido lanches (sic). Quem sabe na final de 2011 eles cheguem! Em seguida, descobrimos que, embora o setor se chame 'numerada', a marcação dos as sentos não estava sendo respeitada. Segundo agentes da Federação Paulista de Futebol (FPF), os assentos eram 'aleatórios'. Bem, após acharmos dois lugares livres, dirigimo-nos aos mesmos e sentamo-nos. Rapidamente, um dos brutamontes com braçadeira da FPF nos avisou que não poderíamos nos sentar ali, pois aquele pedaço na numerada coberta estava 'reservado' para o patrocinador do Santos. Na numerada coberta.

Ou seja, os assentos que deveriam ser numerados eram aleatórios, mas não para todos. Dentro do mesmo setor, havia privilégios para uns, descaso para outros. Realmente, é para se rasgar a enésima Constituição deste país. A falta de assentos disponíveis logo me fez lembrar o dia em que minha mulher e eu fomos assistir a um jogo da WNBA no Madison Square Garden. Quando perguntei ao bilheteiro quanto tempo antes do início da partida deveríamos chegar para podermos nos sentar, ele me olhou com cara de 'onde você estacionou seu disco-voador?' e me respondeu: 'cinco minutos'. Sim, porque lá, todos os assentos são marcados e o país, até hoje, teve apenas uma Constituição.

Bem, após acharmos dois assentos livres, próximos da separação com a numera descoberta, com os focinhos encostados no acrílico mal-instalado da divisão dos dois setores, quase tivemos nossas pernas amputadas por outro agente da FPF, que ferozmente comandava um portão que dava acesso aos ambulantes de um setor para o outro.

Eram 15h35. Olhamo-nos e, sem pestanejar, decidimos sair do estádio. Após nova volta no estádio e alguma dificuldade para conseguirmos que um táxi parasse para nós, chegamos em casa, a tempo de assistir ao início do jogo. Curtimos a televisão de 42 polegadas, a pipoca e o banheiro limpo de nossa casa. Curtimos o respeito as leis, que eu e minha esposa prezamos. E ficamos felizes de ter deixado no estádio os R$ 360,00 de nossas entradas. Felizes, sim, porque foi a última vez que nos tungaram.

A última.

Flavio Eduardo Prisco
'O trouxedor-mor'

Por Torero às 19h31

Quatro filmes

Tentando tirar o atraso (cinematográfico), vi quatro filmes neste fim de semana. 

Para animar, comecei com uma animação: Mary and Max. Ia ver algum outro filme, mas gostei da sinopse deste (que li durante a fila) e mudei de ideia. Ao contrário do que geralmente acontece, desta vez não me arrependi. Na verdade, foi uma grande surpresa.

O filme tem uma narração em off com um texto muito bom e piadas de um humor negro, ou cinza chumbo, muito interessante. Os personagens foram ficando cada vez mais problemáticos e simpáticos, os cenários eram belos e a história (uma troca de cartas entre uma menina e um cara mais velho) mostrou-se simples, cativante, inteligente.

Nem conto nada para que, caso você vá assistir ao filme, tenha a mesma virgindade que eu. Só digo que é boa e rara animação para adultos.

Sou dos que acham que os filmes de Wooddy Allen podem ser bons ou ótimos. Os últimos foram bons. “Tudo pode dar certo” é dos ótimos. Fiquei com vontade de não sair da sala e ver o filme de novo, só para pegar todas as piadas. Mas já tinha comprado ingresso para ver Alice, logo na seqüência.

Não vou perder o seu tempo e o meu contando a história. Ela tem inversões, ritmo e surpresas, mas o mais importante são os diálogos brilhantes, as piadas, as neuroses dos personagens e as eternas preocupações de Wooddy Allen (morte, amor, sorte, etc...). Vi todos os filmes dele, e acho que este está na turma de cima, no lado A do disco.

Depois vi Alice, de Tim Burton, em 3D. O filme é belo, muito belo, mas confesso que bocejei algumas vezes. A história não prende. A personagem principal não deseja alguma coisa, nem procura desvendar um grande mistério. O filme depende mais dos delírios visuais do que do enredo, e isso, depois de um tempo, já não surte tanto efeito. É como namorar uma bela mulher que não fala coisas muito interessantes. No começo é divertido, mas depois fica meio cansativo. A Incrível fábrica de chocolate, filme anterior de Tim Burton, é melhor.

Acho que o grande teste para saber se um filme é bom ou não é prestar atenção ao seu sentimento quando sai da sala. Se está alegre, pensativo ou sonolento (este método pode ser atrapalhado pelo excessivo consumo de pipoca).

Eu não saí contente de Alice. Não me emocionei, não tive medo, não ri.

Por fim, vi o documentário Utopia e Barbárie. Fui com certa desconfiança, afinal era um documentário, era brasileiro (sim, ainda desconfio dos brasileiros) e tinha duas horas de duração. Mas errei. E mereço dez chibatadas por ter desconfiado de Silvio Tendler. Ele já fez o ótimo “Jango”, um dos poucos filmes que vi ser aplaudido numa sala comercial, e “O Mundo Mágico dos Trapalhões”, que fez quase dois milhões de espectadores.

O filme é ágil, tem entrevistados surpreendentes, de várias partes do mundo, e conta a história dos sonhos coletivos feitos e desfeitos depois da Segunda Guerra Mundial.

Logo que entrei na sala, pensei comigo: vou olhar o relógio para ver em quanto tempo me canso do filme. Pois só fiz isso lá no finzinho, quando há uma seqüência um pouco longa sobre Israel.

Confesso que derramei uma ou duas lágrimas quando o filme passou pela manifestação das Diretas Já. Talvez por lembrar da derrota, talvez por perceber que eu estava velho, pois presenciei um momento que já está num documentário.

É um filmão. Ainda bem que venci meu preconceito e fui assisti-lo.

Em resumo, saí levemente arrependido de Alice, feliz de Wooddy Allen, surpreso de Mary e Max, e emocionado de Utopia e Barbárie.

 

Por Torero às 09h24

24/04/2010

7 + 3 = 10. Dez Horas de Fila!

(Um santista conta a saga de um torcedor comum para comprar ingresso para a final do Paulista)
Por Felipe Goulart

Quarta-feira. Feriado. Não estou fazendo nada mesmo... vou lá no Pacaembu garantir meu ingresso pra final.

Cheguei 11h30 e a fila já estava quilométrica. Até aí tudo bem, afinal, espetáculos como esse parece só acontecer a cada 40, 50 anos!

O que tira a gente do sério não é o tamanho da fila, mas o descaso com quem está lá de pé, num sol de rachar. Um estádio do tamanho do Pacaembu, com tanta bilheteria espalhada no entorno, abrir só três ou quatro guichês, é brincadeira.

Um lugar onde fizeram o Museu do Futebol, belíssimo, com tecnologia de primeira, visando turistas de todo mundo, não está nem aí para o torcedor brasileiro, aquele que está lá toda semana, faça chuva ou faça sol.

Ao invés de facilitarem a vida de todo mundo (quem está trabalhando e quem está comprando), resolvem complicar, ao que parece, a troco de nada. Sim, porque inventaram que pra vender os ingressos, eu teria que portar CPF, RG, cadastrar meu nome completo no sistema, cadastrar a numeração do documento, uma demora inacreditável. Tudo isso supostamente para evitar os cambistas né? Claro que não adiantou absolutamente nada. Quando cheguei, de manhã, já tinha cara vendendo ingresso de arquibancada (de estudante) por R$ 120,00. Na cara dura. Na porta do estádio. Na frente da fila. Na manhã do primeiro dia em que os ingressos estavam sendo vendidos.

E eu, trouxa, que só queria um ingresso pra mim e pro meu irmão, tive que informar praticamente até meu tipo sanguíneo. E ainda assim não consegui comprar nem meia entrada, nem para o setor que eu queria, por “falta de documentação suficiente”. Afinal, durante as sete horas que fiquei na fila, 90% dos ingressos se esgotaram.

Não satisfeito, resolvi ir no dia seguinte ao Ginásio do Ibirapuera. Sim, realmente eu não tinha o que fazer! Fiquei mais 3 horas. A palhaçada se repetiu. Fila imensa, lentidão em cada um dos três guichês, cadastra toda tua vida no computador e... adivinha se não tinha cambista na porta? Claro que tinha. Um não, vários.

E para coroar essas 10 horas de fila, uma situação surreal. Na minha vez, uma senhora aposentada, sexagenária, foi furar a fila se valendo do seu direito de aposentada. Eu segui direto para o guichê e começou uma gritaria na fila. Achei que era comigo, mas não. Era com a velha! O pessoal que estava lá, já tinha ficado outras tantas horas na fila no dia anterior, e perceberam a tática dela. Muito da safada, ela usava do seu direito para ficar furando a fila o tempo todo e comprar um monte de ingresso. Ela já tinha feito isso no dia anterior e estava fazendo novamente, na quinta-feira. Quando a galera se revoltou chamando a atenção do fiscal, um garoto gritou na filha: - “Minha Senhora, aqui ninguém é otário não!”. E sabe o que ela fez? Partiu para bater no rapaz, dizendo que ele tinha lhe xingado. Claro que todo mundo da fila foi segurar a espertalhona e proteger o garoto.

Isso é o que acontece com quem é honesto e enfrenta horas de fila para garantir seu ingresso.

Que venha agora o primeiro de muitos títulos para essa geração Santástica!

 

Por Torero às 09h12

22/04/2010

Uma carta para Dunga

(O texto de hoje veio de uma sugestão do leitor Guilherme Vallejo)

 

Dunga, meu amigo, antes de mais nada, confesso que sou seu fã. E desde os tempos em que você jogava de volante. Aliás, no tempo em que eu praticava futebol, tinha um estilo parecido com o seu: duro, firme, decidido. Nada de firulinhas. Futebol é coisa séria.

O que quero é fablar que você tem toda a razão. Toda! É como diz o ditado: ‘Não se mexe em equipo que está ganhando’. E o Brasil venceu tudo até aqui. Ganhou a Copa América, se classificou com tranquilidade nas eliminatórias para a Copa do Mundo e ganhou a Copa das Confederações. O que mais se pode querer?

Agora, com razão, você diz que já fez seus testes, que não vai chamar mais ninguém, que não haverá surpresas na convocação. E está muy certo. Que importa se alguns jogadores pioraram nos últimos meses? Que importa se outros melhoraram? Que importa se Alex está bem no Fenerbahce, se Ganso e Neymar parecem um presente dos deuses? Que importa se Adriano não anda acertando nem pênalti. Jogador é como sapato, tem que experimentar antes. Se você não pôde testá-los, paciência. Eles que esperem a próxima Copa. Cada coisa a seu tempo.

Na verdade, acho ótima a sua ideia de levar um monte de volantes. Mostra que a seleção tem direção. Volantes e direção, entendeu a piada? Rá, rá! Hoje estou chistoso.

Pela sua última convocação, creio que você vai levar pelo menos seis deles: Gilberto Silva, Josué, Kléberson e Felipe Melo como volantes, e Elano e Ramires como meias. Sete, se lembrarmos que Júlio Baptista também jogou, e muito bem, como volante. Algumas pessoas podem dizer que, como você jogou nesta posição, está supervalorizando os volantes. Não dê bola para eles. Leve os sete! Volante é como camisinha, sempre é bom ter algumas de reserva.

Nem dê bola para aqueles que dizem que a seleção não tem um meia legítimo, como Ganso e Alex? São uns boludos. Uma Copa não se ganha com meias, mas com botas!

E nada de tirar Adriano só porque ele está com uns probleminhas pessoais e parou de jogar. Nestas horas é que ele precisa de confiança, de amigos.

Se alguém disser que Nilmar é que deveria ser o reserva de Luís Fabiano, e Neymar, o de Robinho, não ligue. Deixe esse Neymar no Brasil! O garoto tem apenas 18 anos. O que pode fazer um garoto de 18 anos?

E, se sugerirem que Alex ou Ganso poderiam ir no lugar de Josué ou Kléberson, não escute. Minha intuição diz que o Brasil ganhará graças a uma bola salva em cima da linha por um destes dois.

Quanto a Ronaldinho Gaúcho, já teve muitas chances. Nem falemos nele.

Também aconselho a não ver as finais do Campeonato Paulista. O que vale um campeonatinho estadual perto de um italiano, de um espanhol? Se Neymar, Ganso e Hernanes (um volante muito criativo para o meu gosto, esqueça-o) fossem realmente bons, estariam lá na Europa.

Não, caro Dunga, chega de novidades. Não precisa levar mais ninguém, principalmente o tal de Neymar.

Por dios, no!

um abraço de seu fã aqui de Buenos Aires, 

Guillermo Vallejo

 

PS: Espero que a tradução tenha ficado boa. Desculpe se passou algum erro, mas é que há tempos não pego um sol em lá em Canasvieiras.

Por Torero às 08h58

21/04/2010

Quatro convites

1-) Neste domingo vou comentar o jogo entre Santo André e Santos pela Rádio Globo (1.100 khz). Conseguirei não gritar gol caso o Santos marque? Conseguirei não tossir? Conseguirei não gagaguejar? Respostas neste domingo, a partir das 15h00.

 

2-) Marcus Batista escreveu uma carta a Dunga. Clique aqui para ler.

 

3-) Fabrício Carpinejar tem uma boa tese sobre Neymar. Clique aqui.

 

4-) Neste sábado, a partir das 10h00, no Museu do Futebol, o tema do ciclo de palestras “O Brasil nas Copas do Mundo” será A Era Telê (1982/1986). Quem vai falar sobre o mestre? André Fontenelle e Marcelo Unti. O primeiro é jornalista (lembro bem dos seus tempos de Placar) e co-autor do livro "Todos os Jogos do Brasil". O segundo é advogado e um colecionador um tanto insano, com mais de 1.300 revistas e 500 livros sobre futebol. A entrada é gratuita.

 

Por Torero às 08h25

20/04/2010

O reencontro

(Torero, me chamo Luiz Felipe, tenho catorze anos e pretendo tornar-me jornalista (que Deus me abençoe!). Sou do interior do interior do interior de Goiás, e, humildemente, criei um Paulistão City à respeito do jogo de 18/04/2010.)

 

Por Luiz Felipe Resende Leão

Escondido num beco, Jack Tricolor sangrava.

Sabia que deveria atacar o poderoso Billy, the Fish, ou morreria ali mesmo. Chegara a hora.

O vento soprou mais forte quando Jack encaminhou-se ao Belmiro Saloon, onde o cruel adversário o esperava.

Ambos pareciam temerosos, cautelosos. Até Billy começar a atirar.

Jack se esquivava e se escondia atrás das mesas, sem saber o que fazer. Ao puxar o gatilho de suas armas, nada saía.

"Não se esconda, Jack! Venha para a luta", dizia Billy.

Tricolor respondia: "Preciso de uma parada para um uísque."

Sentaram-se à mesa e tomaram sua bebida calmamente.

Às escondidas, Jack tirou da bainha seu Colt Washington e tentou atirar em Billy, The Fish Flash. Mas novamente a bala não saiu.

A ira de Billy foi despertada, e com o cano de sua Neymar Gun, acertou a cabeça do inimigo, que rastejou, com sangue agora em seu tático cérebro, para trás da mesa.

Billy atirava enquanto Jack morria aos poucos, abaixado, sem ter o que fazer. Mesmo assim, Tricolor levantou-se e se esquivou de um tiro que não veio onde ele esperava, e sim, para onde tinha ido, acertando sua perna.

Vendo o adversário pálido e agora imóvel, Billy subiu em uma cadeira e começou a sambar.

Jack sabia que chegara sua hora.

O poderoso, o incrível, o espetacular The Fish, para não correr riscos, desferiu o golpe fatal com Colt Goose, atingindo o peito do outrora melhor do mundo.

Jack Tricolor estava vencido. Agora a missão de Billy era outra. Corriam boatos pelas ruas de Paulistão City de que um simples fazendeiro vindo de Saint Andrew o desafiara. Seria Possível algo desse tipo?

Billy, The Fish, iria conferir.

O sino tocava. Eram seis horas. Jack jazia no chão.

 

Por Torero às 07h57

19/04/2010

A virgem insaciável e o jornalista sem calça

Ontem, botei meu uniforme e fui para Vila Belmiro. O tal uniforme consiste num par de havaianas, um short qualquer e uma velha camisa do Santos.

No caminho, escuto no rádio do carro que Dorival havia tirado André para a entrada de Pará. E que Washington não começaria jogando. Achei que Ricardo Gomes errou. Deveria ter entrado com três atacantes. E que o Santos acertou. Não havia a necessidade de três homens na frente, mas sim de uma marcação mais firme em Hernanes.

Pois bem, quando chego ao estádio, o porteiro que fica na entrada dos jornalistas olha para meus trajes e diz que daquele jeito eu não poderia entrar.

“Não poderei ver o jogo?”

“Com essa roupa, não.”

Pensei em entrar nu, mas a autocrítica me impediu. Por sorte, um amigo meu estava passando ali perto, com uma camiseta comum, sem o emblema do Santos, e trocamos de camisa.

Tentei entrar novamente, mas não teve jeito. A bermuda estava proibida. Minhas eróticas canelas não poderiam entrar descobertas. Minha saída foi mendigar. Fui até uma das simpáticas casas que ficam ao redor do estádio e falei com seu morador, de uns 60 anos, que alugava sua garagem para motos. Ele achou o meu pedido estranho, mas acabou me emprestando uma calça de seu filho.

A camiseta e a calça eram azuis. Fiquei realmente elegante. Mesmo assim o porteiro da Federação até tentou evitar minha entrada por conta dos chinelos, mas a assessora de imprensa da FPF disse que tudo bem, não havia especificação sobre calçados.

Acabei entrando quando o jogo já tinha começado há dois ou três minutos. Sentei numa das poucas cadeiras vazias e perguntei à mulher ao lado se já tinha acontecido alguma coisa. Ela disse que não, só uma falta para cada time, mas nenhum chute a gol.

O nome dela era Susana. Tinha 58 anos e estava um bocado tensa. Era a primeira vez que via um jogo de futebol ao vivo.

“Primeira?”

“Primeira!”

Susana diz que está achando tudo lindo, mas que o jogo dá um nervoso danado. Quando a torcida canta, ela entra no coro. Pergunto: “Se é a primeira vez que você vem, como é que sabe todas as músicas?”

“É que eu cheguei às duas e meia da tarde. Aí deu para aprender todas. Elas são facinhas, né?”

Susana (com “s”, porque é filha de espanhóis) aproveitou o intervalo e foi comprar uma água. Na volta, disse que o Santos não estava bem. Argumentei que o empate era ótimo para o time, mas ela não me deu bola. Disse que não era assim que o Santos jogava, não estava bonito, e que gostaria de ver pelo menos um golzinho.

Quando vê Madson chegando para sentar no banco de reservas, ela diz: “Adoro aquele baixinho!”. E depois me conta que seu marido e seus dois filhos eram são-paulinos. Susana não era só uma virgem, era uma virgem rebelde.

Começa o segundo tempo e aos 10’, sai Cléber Santana e entra Washington. O Santos passa a ganhar o meio de campo e logo depois, aos 14’, marca o primeiro gol. Susana pula muito e nos abraçamos.

O jogo melhora. Susana diz que "agora sim, o jogo está bom". Felipe faz boas defesas. Uma delas, numa cabeçada de Jorge Wágner, é sensacional: no chão, um gol quase certo. A torcida grita o nome do goleiro e penso que Fábio Costa não tem mais como ser titular deste time.

Lá pelos 35’, a torcida grita outro nome: “Pará, Pará!”. Ele é o grosso da equipe, mas realmente vive uma tarde perfeita. Não perdeu um lance, está veloz e inteligente. Nunca pensei que, num time com tantos bons jogadores, a torcida fosse gritar seu nome, mas olho para o lado e vejo Susana engrossando o coro. 

Depois, vendo que o Santos teve várias chances nos contra-ataques, a virgem insaciável reclama: “Podia ter mais outro gol, né?”

E logo depois Neymar cai na área e o juiz marca pênalti. A torcida grita pedindo “Paradinha, paradinha!”. Neymar obedece e é 2 a 0.
 
Eu digo para Susana que aquilo é ótimo, que ela vai poder tirar sarro do seu filho. Ela responde que não, que aquilo é para ela. Não entendo muito bem se o “aquilo” é o gol, a vitória ou estar no campo, mas entendo que ela está feliz.
 
Neymar é substituído e, como todo o estádio, Susana é grita “Ão, ão, ão, Neymar é seleção.”

Madson, o baixinho de Susana, entra em campo, faz uma bela jogada pela esquerda e Ganso marca. Ela comemora mais ainda. “Poxa, esse eu nem esperava!”

Quando o juiz apita o fim do jogo, ninguém sai do estádio. Todos ficam para ver os garotos indo de um lado para o outro do gramado, cumprimentando a torcida. Percebo que Susana vai ficar até que o último jogador saia de campo. Ela quer aproveitar cada segundo dessa sua primeira vez. Nos abraçamos e pergunto se ela vai ver outros jogos.

“É claro!”, responde a virgem insaciável, que é mais ou menos como este Santos, um time ainda virgem de títulos, mas com uma fome insaciável de gols e vitórias.

 

PS: Na saída, tentei comprar a calça azul, dizendo que ela tinha dado sorte, mas o senhor que a emprestou pensou que era piada. Não era.

 

 

Por Torero às 09h43

18/04/2010

Um domingo de velório

 
 

Um domingo de velório

texto de  Marcus Vinicius Batista

A menina de sete anos presenciava o ritual pela primeira vez. Havia feito um pedido para que o pai a levasse lá. Queria testemunhar de perto tudo o que vira pela TV. Entrou no velório com ansiedade. Estava fascinada. Tinha polícia, bastante gente. Depois, fiquei sabendo que eram 616 presentes. Até vendiam água e pipoca. Sabia que o pai não recusaria o pedido de pipoca. Se o passeio ficasse chato, pegava emprestado o bloquinho e a caneta do pai. Ela poderia desenhar caso estivesse cansada da cerimônia.  

O público estava desconfiado, ligeiramente tenso. O cheiro de esperança prevalecia, o que indicava a espera por um milagre. Quem sabe o caminho da ressurreição? Mas havia a dependência de outros endereços, de outras pessoas. Quando não é possível depender apenas de si, ainda que floresça o esforço único, aguarda-se pelo sobrenatural, apela-se para superstição, acendem-se velas de todas as cores.

A menina torce para o Santos, mas entendeu que tinha que emprestar a voz para a Portuguesa Santista. Berrou algumas vezes. Parou quando viu que não dava resultado. A Portuguesa Santista precisava vencer o Força, em casa, e rezar para derrotas de dois dos três concorrentes diretos: Itapirense, Batatais e Barueri. Nomes que jamais figuraram na história da Briosa, mas a tradição não era pré-requisito para o domingo passado. O fundo do poço não escolhe camisa. As manchas nascem para todos que insistem nos pecados.

O tempo nublado e a timidez dos torcedores eram sinais claros de um ar de velório, ao lado da Santa Casa de Santos. Não havia choro ou defunto à mostra. Somente lamentações diante de pior fase de uma vida. O rebaixamento para a quarta divisão do Campeonato Paulista soava nítido como os tambores e os gritos de uma parte pequena dos torcedores, sonhadores por dias melhores e pela aproximação de um passado de destaque. Qualquer curandeiro notaria a combinação dos sintomas. O sonho era a manifestação mais aguda de uma doença chamada utopia.

A partida elevava a dor e cultivava a humilhação. Cada chutão sem consciência testava o amor pela Briosa. A bola era a maior uma vítima do nervosismo, do medo, do gosto do fracasso e da qualidade mínima. A bola, coitada, parecia viajar mais tempo no ar do que permanecer grudada nos pés dos coadjuvantes. Protagonista não era um papel necessário. Quem assumiria a responsabilidade de alterar um destino desenhado há cinco anos e cumprido à risca até o momento?

Os goleiros, por exemplo, deveriam ser cobrados em R$ 10. O preço do ingresso, sem direito à meia-entrada. Mal sujaram o uniforme e assistiam passivos ao choque de pernas na intermediária do campo. Os atacantes da Portuguesa apanharam como se tivessem feito algo errado. Talvez punidos pela baixa produtividade ao longo do campeonato.

Nas arquibancadas, torcedores permaneciam sentados. Calados. Resignados. Ex-jogadores também estavam lá. Eles desmentiam os místicos e os historiadores. Nenhum deles poderia influenciar naquele ritual sofrido. Nem o capitão do time que subiu à Primeira Divisão, que permanecia discreto, quase no anonimato.

A Portuguesa Santista venceu por 1 a 0. Gol de pênalti. Talvez a maneira menos emocionante e óbvia de marcar. O otimista poderia dizer que o time cumpriu a obrigação. O pessimista também, com uma dose sutil de sarcasmo.

A Briosa morreu abraçada com o Força. Depois do jogo, uma combinação de suor, lama e alguma choradeira. Não me comovi. A bravura me pareceu reação de quem andava rumo à forca. Não senti alma que negasse a  falta de planejamento e de qualidade de uma equipe composta – quase na totalidade – por andarilhos. Jogadores que pulam de estádio em estádio e seguem a vida melancólica das partidas sem glamour. Não tiveram o que havia no nome do adversário.

Ao lado do estádio, um circo, chamado O Mundo de Fantasia de Beto Pinheiro, ironizava o enterro simbólico. O nome do circo é genérico mesmo, assim como o futebol daquela manhã de domingo. A diferença é que o circo pode aguçar a fantasia e aliviar os males da alma, nem que seja por instantes. No estádio Ulrico Mursa, a tristeza de uma história atirada ao lixo, como um palhaço que perde o picadeiro, o prazer de rir e a própria identidade.

A menina de sete anos ainda cultiva a ingenuidade do universo infantil. Adorou o jogo! À tarde, a mãe perguntou se a menina assistiria a Santos e São Paulo pela TV. A resposta foi direta:

- Não vejo mais jogo pela televisão. É chato.

O mundo da imaginação, estampado nos desenhos do bloquinho, aliviou o tédio e alimentou o amor pelo futebol. A menina ficará adulta e poderá escolher melhor as companhias e os lugares para se divertir. Fico feliz que ela sequer notou que estava em uma cerimônia fúnebre.  Não sou estraga-prazeres.

 

Por Torero às 08h16

17/04/2010

Avesso do Avesso

 
 

Avesso do Avesso

Torero inverteu os resultados das finais das Copas. Nacionalistas descarados, nós as subvertemos. O tempo parece nos ensinar quão salutares nos foram certas derrotas...

por Cláudio e Lino Porto

1930: Na primeira Copa, sabedor de seu favoritismo, o Brasil dá-se ao luxo de enviar uma seleção apenas de jogadores cariocas. Nada adiantou os paulistas torcerem contra. O primeiro título veio com um 4 x 2 sobre os donos da casa, os uruguaios.

1934: O fascismo caboclo de Getúlio dá uma lição no fascismo branco de olhos azuis de Mussolini. O Brasil é bi em cima da Itália.

1938: Fácil repetição da conquista anterior. Leônidas traz a primeira Jules Rimet em definitivo para o Brasil.

 Barbosa o herói de 50.

1950: A Segunda Guerra impede mais duas conquistas brazucas. Mas em casa o tetra foi fácil, apesar de o Uruguai ter dado algum trabalho na final, obrigando Barbosa a grandes defesas. 2 x 1, de virada.

1954: Depois de tirar a favorita Hungria na batalha de Berna, o Brasil de Julinho vence a Alemanha por 3 x 2 e se consagra pentacampeão mundial.

1958: O hexa viria fácil, mas a soberba levou a CBD a cometer erros primários, como escalar o Rei Édson, de apenas 17 anos, e o imprevisível Manoel, ponta-direita do Botafogo, famoso por seus dribles necessários. Na final, a Suécia nos impôs um sonoro 5 x 2. Foi a nossa primeira derrota em Copas do Mundo.

 Édson chora e tem que ser carregado para fora do campo depois da derrota de 58.

1962: A lição não foi aprendida. O Príncipe Édson machucou-se. Manoel até fez boas partidas, mas na final, a Tchecoslováquia nos dá outra dura lição: 3 x 1.

1966: Disposta a recuperar o prestígio abalado, a CBD organiza nossa melhor seleção de todas as copas, com 44 craques. Apesar de tropeços contra Hungria e Portugal, na final superamos os ingleses, donos da casa, que até hoje reclamam que em nosso terceiro gol a bola não teria entrado. 4 x 2. Duque Édson e Manoel, ambos na reserva, aplaudem a conquista da segunda Jules Rimet, que seria derretida anos depois.

 Aqui, Édson perde mais um gol na Copa de 70.

1970: Jamais uma seleção canarinho saiu tão confiante do país, mas na decisão o Brasil acaba levando uma surra da Itália, 4 x 1. Durante o certame, o Conde Édson, por puro preciosismo, perde gols incríveis, os quais ficariam marcados para sempre em sua irregular carreira.

1974: Depois de frear a boa seleção holandesa, o Brasil despacha os alemães de virada, 2 x 1. Zagallo solta pela primeira vez a frase “vocês vão ter que me engolir”. Um justo desabafo contra a imprensa paulista, que tentou forçar, sem sucesso, a convocação do Barão Édson, já em final de carreira no Santos.

1978: Os argentinos até hoje alegam que o Brasil teria “comprado” os peruanos para endurecerem o jogo contra eles. Um golzinho na goleada que sofreram da Argentina foi suficiente para colocar os brasileiros na final contra a Holanda, derrotada por 3 x 1. Chicão, melhor jogador do mundial, acabaria contratado pelo futebol italiano, onde se tornaria Rei de Roma. Menotti declara: “A Argentina foi campeã moral”.

 Campeões imorais?

1982: Depois de um sofrido empate contra a Itália, em que o treinador Telê Santana jogou com o regulamento na mão, colocando Batista somente para quebrar Paolo Rossi, o Brasil vence a Alemanha por 3 x 1 e tornou-se eneacampeão mundial. Serginho Chulapa é eleito o jogador da Copa e Valdir Peres ganha da FIFA o título de maior goleiro da história.

1986: Novamente a freguesa Alemanha é derrotada na final pelo Brasil. 3 x 2, gol decisivo de Josimar (eleito o maior lateral direito da história), após passe de Elzo (o maior jogador daquela copa).

1990: A Alemanha perde novamente, agora vítima de um pênalti duvidoso, convertido por Alemão (?), craque daquela copa ao lado de Dunga. Pela clareza de seu esquema tático, Lazaroni é eleito o maior treinador de todos os tempos.

1994: O Brasil caminhava para o seu 12º título, mas na disputa por pênaltis o mediano Romário perde o seu e a Itália fatura o bi.

 Romário chora mais uma vez ao lembrar do pênalti perdido em 94.

1998: Mesmo sonolento, Ronaldo faz 3 na final contra a França e garante mais um título para o Brasil, pouco comemorado por aqui, já que o grande carnaval daquele ano fora reservado para Rubens Barrichello, primeiro brasileiro campeão mundial de Fórmula Um. Rubão repetiria a façanha outras seis vezes.

2002: A Alemanha finalmente se vinga. Com duas falhas gritantes do goleiro Marcos, a família Scolari contenta-se com o vice. Anos depois, Marcos encerraria melancolicamente a sua carreira na reserva do São Bento de Sorocaba.

2006: Parreira dá-se ao luxo de pouco treinar a equipe e levar jogadores velhos e fora de forma. Mesmo pesado e dando uma barrigada em Materazzi, Ronaldo garante a 13º Copa do Mundo para o Brasil. Zágallo diz que “13 é tudo” e decide encerrar sua carreira de altos e baixos. Roberto Carlos destaca que o título só foi possível devido à humildade do grupo.

2010: Favorito absoluto, a CBF decide escalar um técnico sem experiência, o qual se dá ao luxo de não convocar vários craques, sabedor de que mais título virá naturalmente nos gramados africanos.

2014: A CBF confirma que o Brasil só usará seus titulares no jogo final. E caso se confirme mais uma conquista, promete atender ao pedido da UEFA para que equipes européias disputem a segunda divisão do campeonato brasileiro...

 

Por Torero às 09h20

16/04/2010

Redesconvite

 

 

Só para lembrar, este convite abaixo não vale mais. O lançamento foi adiado (certamente por influência de forças demoníacas, que estão me impedindo de levar a palavra barrabista aos homens de boa vontade). Aviso quando for o novo lançamento (não, os espíritos malignos não nos deterão!).

Por Torero às 09h13

Link legal

Quem gosta de novidades tecnológicas revolucionárias, clique aqui.

Por Torero às 03h46

15/04/2010

ABC do meio de semana

Alienígena: Ontem Ganso deu alguns passes perfeitos, e sem nem ver onde estavam seus companheiros. No jogo contra o São Paulo, Neymar também deu um perfeito passe cego, sem saber onde Léo estava. E Marquinhos também faz alguns assim. É como se eles tivessem olhos na nuca. Terão mesmo? Serão alienígenas? Isso explicaria muita coisa. Inclusive seus cortes de cabelo. 

 

  Ganso, Neymar e Marquinhos têm ótima visão periférica.

 

Bolinhas: Achei acertada a posição da CBF em dar a Taça de Bolinhas para o São Paulo. Creio que em 1987, como diz o Clube dos 13, realmente tivemos dois campeões brasileiros, Sport e Flamengo. Mas a CBF, como organizadora, não poderia aceitar o Flamengo como campeão, já que ele não se dispôs a fazer o quadrangular final. Pena que a decisão da CBF não pareça ter vindo do senso de justiça, mas de uma vingança a favor de Kleber Leite e contra Patrícia Amorim, que votou em Fábio Koff.
 

Cãimbra: O bem-humorado Cicinho disse torcer para Robinho ter uma câimbra neste domingo.

 

Dentinho: Vem melhorando muito. Já voltou ao mesmo nível do ano passado. Falta o Dentão fazer o mesmo.

 

Elias: É outro que se recuperou. Nunca esteve mal, mas agora voltou a jogar tão bem como quando estava ao lado de Christian.

 

Fred: Marcou um belo gol e deu uma grande vantagem ao Fluminense sobre a Lusa, neste confronto de gauches.

 Fred comemora seu belo gol no Canindé.

 

Genro: Fabiano, genro de Luxemburgo, vem marcando muitos gols. Talvez seja a fase mais artilheira de sua carreira, melhor ainda do que nos tempos em que estava no Sport. Aliás, o Sport perdeu para o Galo por apenas um a zero e pode reverter em casa. Copa do Brasil é sua especialidade.

 

Hoje: Os dois ex-Palestra Itália fazem jogos importantes. O Palmeiras tem o Atlético Paranaense pela Copa do Brasil, num jogo que pode aprofundar a crise ou ser um lenitivo. Já o Cruzeiro pode confirmar sua classificação à próxima fase da Libertadores se vencer o Colo Colo no Chile, o que não é muito fácil.

 

Internacional: Bobeou frente ao fraco Emelec, um time que não tinha conseguido nem um pontinho até agora.
 

Juiz: O trio de arbitragem prejudicou o Avaí no confronto contra o Grêmio. Errou num lance de escanteio que gerou um gol. Depois, um atleta do time de Santa Catarina protestou demais e foi expulso. É claro que ele não deveria ter reclamado tanto, mas é mais claro ainda que não havia sido escanteio, mas tiro de meta.

 

Leite: Kléber Leite se aproveitou da decisão sobre a Taça de Bolinhas para atacar Patrícia Amorim. Baixo, baixo... Ricardo Teixeira levantou e ele cortou. Uma jogada manjada.

 

Morumbi: É a solução mais lógica para a abertura da Copa. São Paulo é a cidade mais populosa do país e este é o estádio mais próximo das condições necessárias. Construir um outro seria desperdício de dinheiro público, mesmo que o governo entrasse apenas com o terreno, que, afinal, também vale dinheiro. Mas deixo claro que apoio o Morumbi desde que não haja dinheiro público. Acho que dinheiro público é para estádio público, e dinheiro privado para estádio privado. Ou seja, sou contra dinheiro governamental para o Morumbi ou para o Fielzão (seja dinheiro vivo ou terreno). Se é para gastar dinheiro público, que seja no Pacaembu. É claro que ele não pode receber o jogo de abertura, mas e daí? Se é assim, que a abertura seja no Mineirão. 

  "Parabéns a você..."

 

Noventa e oito: No aniversário do Santos, os torcedores puderam ver velhos ídolos batendo uma bolinha na Vila. Estavam lá Marcelo Passos, Serginho Chulapa, Edu, Jamelli, etc...

 

Oito: Número de gols que o Santos fez ontem. E cinco foram de Neymar.

 

Psicólogo: O Palmeiras decidiu contratar um, ou uma, para seus jogadores. Ela poderia estender seus serviços a alguns membros da turma do amendoim.

 Sigmund é a nova esperança palmeirense.
 

Quem?: Róbston. Ele fez os dois gols da virada do Atlético-GO sobre o Santa Cruz, ontem, em Recife. Há dois anos fez certo sucesso no Botafogo e agora parece que estará com o Dragão nas quartas-de-final da Copa do Brasil.

 

Roberto Carlos e Jucilei: Estão acabando com as saudades de André Santos e Christian.

 

São Paulo: Parece ensaiar três mudanças para o jogo de domingo. Richarlyson entraria no lugar de Júnior César, que é fraco defensivamente; Cicinho entraria no de Jean, na lateral direita, e Jean tomaria o lugar de Rodrigo Souto no meio de campo. Acho três boas mudanças. Com Richarlyson, de vez em quando o São Paulo poderia jogar com três zagueiros, o que pode ser um bom caminho para segurar o ataque santista.

 

Torpedo: Léo Gago acertou um contra o Corinthians-PR, e agora o Vasco só precisa empatar em casa pela Copa do Brasil.

 

Universidad Católica: É um time muito fraco, mas mesmo assim venceu o anêmico Flamengo. Agora o time carioca tem que golear o Caracas e torcer pelo tropeço dos adversários.

 

Valdívia: Seria uma boa contratação para a diretoria palmeirense fazer as pazes com sua torcida.

 

X-píritos: A camisa número 200 de Robinho será leiloada e a renda irá para o Lar Espírita Mensageiro da Luz, que faz um trabalho excelente em Santos.

 

 

Ziguezagueante: É um bom termo para definir o ataque santista. Ontem, mais uma vez, os garotos estiveram endiabrados e deixaram os zagueiros adversários tontos, bêbados, sem saber se deviam ir ou vir, voltar ou seguir.

 

Por Torero às 09h25

14/04/2010

Aniversário santista

(Como hoje é aniversário do Santos, republico aqui dois textos que fiz sobre a data, um de 1998, quando o time não ganhava nada há um tempão, e outro de 2002, poucos meses antes da conquista do Brasileiro)

 

 

Um aniversário divino

14/4/1998

Recebi por esses dias um e-mail que me deixou bastante intrigado. O remetente mandava que eu colocasse o texto em minha coluna, o que obviamente achei absurdo e prontamente decidi não fazer. Porém quando olhei o endereço da caixa postal: deus@ceu.com. achei melhor, por via das dúvidas, ceder gentilmente meu espaço. Portanto, aí vai o texto. E "ipsis literis', que com certas coisas não se brinca.

"Caro colunista. Ordeno que você publique essa carta na próxima terça-feira, dia 14 de abril. O motivo é muito simples: é o dia do aniversário de 86 anos do Meu time de coração, o Santos Futebol Clube.

"Essa é a primeira vez que Me manifesto a esse respeito e espero não estar magoando torcedores de outros times, principalmente os do São Paulo, São José, Santo André ou -meu filho, Me perdoe- do Santa Cruz. Acontece que o Santos é uma síntese de todas essas santidades, e, assim, é lógico que seja o meu preferido. Além disso, seu uniforme é todo branco, e, como vocês sabem, essa é a cor preferida por aqui.

"O Santos foi fundado no mesmo dia em que o Titanic afundou. Sei que esse naufrágio foi uma grande desgraça para vocês aí embaixo, mas eu os compensei com a criação de um time divino. É como vocês dizem: quando Eu fecho uma porta, abro uma janela. Afundei um navio, mas criei o Peixe; acabei com o Titanic, mas inventei um time de titãs.

"São 86 anos de arte, vitórias e gols, desde os primeiros de Geraule, Arnaldo Silveira e Anacleto Ferramenta, passando pelo mortal cabeceador Ari Patuska, até chegar à inesquecível dupla, Araken e Feitiço, que nos deu o primeiro título em 1935, em cima do Corinthians, o inimigo que nós mais gostamos de vencer.

"E como me esquecer de Odair, Antoninho, Formiga, Del Vecchio, Vasconcelos, Pagão e Tite, autores de jogadas divinas, dribles celestiais e gols tão lindos que às vezes até Eu duvido?

"Mas o melhor de tudo foram os anos 60, com Gilmar, Mauro, Zito e o ataque que encantou o mundo: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Eu do céu, essa escalação é tão musical quanto um acorde de harpa! Aliás, por que vocês acham que Pelé foi jogar no Santos, hem? Bem, de vez em quando a gente tem que dar uma mãozinha.

"Depois vieram Toninho Guerreiro, Carlos Alberto, Clodoaldo, Edu, Rodolfo Rodrigues, Pita, João Paulo, Serginho Chulapa -se bem que esse rapaz às vezes parecia seguir mais o Outro do que Eu-, Giovanni e agora Muller, que só o teimoso do Zagallo não convoca para a seleção. Mas tudo bem, o Juízo Final está aí.

"São 86 anos, 4.619 partidas, 2.419 vitórias, um dilúvio de 10.48 gols, um rosário de títulos e o melhor: um futebol sempre jogado de forma bonita e ofensiva. Tudo bem que, de vez em quando, a fase fique mais com cara de purgatório do que de céu, mas seu Eu quiser -e Eu quero!-, logo logo as coisas vão entrar nos eixos. Confiem em Mim, não demora e o Santos vai ser campeão novamente.

"Que Eu vos acompanhe e guarde. Amém.

"O altíssimo."

 

Um aniversário infernal

12/4/2002

Recebi por esses dias um misterioso e-mail escrito em letras vermelhas. O remetente pedia que eu colocasse seu texto nesta coluna. Num primeiro momento decidi não atendê-lo, mas, quando li seu endereço virtual, julguei ser mais prudente ceder meu espaço. Eis o texto:

"Caro colunista, gostaria muito que o senhor publicasse esta carta. E nem pense em negar-me este pedido. Pelo que você tem feito aí em cima, sei que vamos nos encontrar mais cedo ou mais tarde aqui em meus domínios, e você não gostaria de me ver de mau humor. Quando estou bravo, solto fogo pelo nariz. E isso não é uma metáfora.

"O melhor seria que minha carta saísse no domingo, dia 14, mas como sei que sua coluna só sai às terças e sextas, fiquemos com a sexta, mais próxima do aniversário do meu time, o Santos.

"Imagino que, ao ler a linha acima, você deve ter dito: "Mas como pode o demônio gostar de um time chamado Santos?".

"E eu respondo ao previsível amigo: 'Ora, não é porque sou um anjo caído que deixo de ser um anjo e, na condição de anjo, não poderia torcer para outro time'.

"É bem verdade que aí em cima me associam ao América carioca. Realmente admito que tenho simpatia por esse time, mas, torcer por ele, convenhamos, já é comer o pão que eu amassei.

"Aliás, é muito lógico que eu torça para o Santos. Não houve time que mais tenha infernizado as defesas rivais. Você não imagina como eu ficava envaidecido ao ouvir os adversários dizerem: 'Esse Santos é um time do capeta!'.

"Poucos sabem, mas eu, o Anhangá, o Beiçudo, o Cão Tinhoso, o Jurupari, o Maligno, o Rabão, o Sapucaio, o Tisnado, estive atrás de muitos daqueles gols endiabrados, de muitas daquelas jogadas demoníacas, de muitas vitórias diabólicas dos anos 60.

"E aproveito a ocasião para contar-lhe um segredo sobre aquela época de glórias. Certa vez, em 1954, eu estava sossegado tomando uma sauna seca quando fui chamado por um dirigente santista -não adianta, não revelarei nomes. Esse sujeito não aguentava mais ser roubado pelas arbitragens e perder dos times da capital em condições suspeitas e me propôs trocar sua alma por uns campeonatos. Eu cocei meu cavanhaque com o rabo e disse: 'Acho que posso fazer alguma coisa'.

"E fiz! Ou você acha que foi coincidência o Pelé jogar justo no Santos. Isso sem falar no resto da legião: Coutinho, Pagão, Pepe, Dorval, Zito, Toninho Guerreiro, Lima, Gilmar...

"Aquele esquadrão que brilhou por exatos 20 anos e fez o mundo se curvar ante o seu poder. Porém, como, por princípio ético e convicção moral, nunca faço nada de graça, que o diga o doutor Fausto. O Santos está tendo que passar por um período de relativa amargura. Sou um admirador do time, mas também sou um profissional e não posso deixar de cobrar meus devedores. Isso pode parecer triste para alguns de vocês, mas explica muita coisa, não é?

"Mas não quero terminar essa carta sem uma boa notícia de aniversário. Sendo assim, aviso-lhe faltam poucas prestações para que o Santos resgate sua dívida e volte ser um vencedor. Aí, com mil eus!, voltarei a ser mais um torcedor aqui das profundezas, um torcedor que, como você e como tantos outros, quer apenas ver o Santos sendo campeão.

"É tudo. Aceite, por favor, um caloroso abraço deste seu futuro anfitrião, Lúcifer".

Por Torero às 16h23

Gordinha gostosa

Está nas bancas a Placar de aniversário de 40 anos. Está bem gorda, cheia de páginas que lembram seus melhores momentos, e traz na capa, mais uma vez, Pelé, assim como em seu primeiro número. Mas, para refrescar, colocaram Neymar ao seu lado. Os quarentões que, como eu, cresceram lendo a revista, terão boas recordações com esta edição.

 

Por Torero às 00h35

12/04/2010

A última bala é a que mata

 

[O texto de hoje, além das ilustrações de André Bernardino, pode ter uma trilha sonora (ideia do leitor Antonio Carlos). Para isso, clique aqui e carregue o tema de Enio Morricone. Se você ler com certa rapidez, música e texto acabarão ao mesmo tempo.]

 


Eram quatro horas da tarde.

O sino da igreja batia e crianças olhavam pelas frestas das janelas.

Eram quatro horas da tarde.

O vendedor de caixões esfregava as mãos com impaciência, o padre lustrava suas cruzes e lagartos se escondiam entre as patas dos cavalos.

Eram quatro horas da tarde.

Nas esquinas, grupos ansiosos se formavam. Homens apostavam, mulheres se abanavam.

Eram quatro horas da tarde quando os dois surgiram na rua principal de Paulistão City.

De um lado, Jack Tricolor, o implacável, o ressurgido das cinzas. Aquele que por três vezes já foi o maior do mundo.

Do outro, Billy, the Fish, o cruel, aquele que descarrega toda a munição em suas vítimas, deixando-as tão cheias de chumbo que mal se consegue carregar seus caixões.

O duelo entre estes dois assassinos era certeza de pólvora no ar e sangue no chão.

No começo, ambos estavam um pouco nervosos. Jack até arriscou uns tiros de longe, mas eles não levaram perigo a Billy.

Mas, pouco a pouco, Billy foi dominando o duelo e se aproximando de Jack.

Então aconteceu algo raro. A arma de Jack (uma Cezar Jr., boa para o ataque mas nem tanto para a defesa), estourou em suas própria mão, ferindo-o gravemente.

Billy comemorou com alegria, e só não fez uma de suas danças porque o tiro foi dado pelo próprio adversário.

Logo depois, o caubói tricolor perderia seu revólver Marlos. As nuvens estavam ficando cinzentas para Jack. E em breve ficariam pretas, porque Billy, the Fish, the Flash, the Fish Flash, acertou-lhe um belo tiro. Um tiro que passou por brechas e desvãos.

Para comemorar, o caubói alvinegro subiu num barril e sapateou.

Parecia que Jack Tricolor, o imbatível, ficaria abatido e seria batido.

Mas não foi o que aconteceu. Ele tomou um uísque e voltou para a luta.

Voltou como um leão ferido, que sabe que sua única chance é lutar com mais fúria.

Já Billy, estranhamente, recuava. Ele, que fora sanguinário contra os pequenos, teve certo receio e, em vez de partir para cima e trucidar Jack, ficou se defendendo.

O castigo veio rápido e certeiro. Jack acertou-lhe não um, mas dois tiros.

O duelo, que parecia decidido, estava empatado.

Só então Billy acordou. Então trocou algumas armas e voltou ao ataque.

O duelo ficou franco, com balas zunindo nas quatro orelhas dos combatentes. Mas nada acontecia. Era tal qual se os canos dos revólveres de Jack e Billy tivessem sido entortados como num desenho animado.

Foi então que o caubói da praia sacou uma arma inesperada, seu Colt Durvall 45, um revólver que ele nunca havia usado.

E o Durvall 45 disparou um tiro que passou por um buraco do colete RC de Jack Tricolor.

Era a bala da vitória. A bala que pode ter decidido a sorte de Paulistão City.

No próximo domingo, eles se encontrarão mais uma vez.

Às quatro horas da tarde.

E, às seis, os sinos dobrarão por um deles.

 

Por Torero às 10h01

11/04/2010

Nada a temer

Todo mundo tem umas fases, umas modas. Há quem só vista camiseta preta, há os viciados em sanduíche de ovo frito e os que assistem ao House toda noite. Também tenho umas fases. Por exemplo, às vezes descubro um escritor e só fico lendo o sujeito.

Acho que a primeira vez que isso aconteceu foi lá pelos meus catorze anos, com Agatha Christie. Um amigo tinha a coleção inteira. Eu lia um livro por dia. Devolvia o lido e pegava outro.

Depois, ali pelos 15 ou 16 anos, tive a fase Millôr Fernandes. Lendo na livraria, gostei de um tal de “O Livro Vermelho dos Pensamentos do Millôr”. Comprei-o e depois fui adquirindo os outros. Fiquei com uma bela coleção do guru do Méier.

Logo depois veio a fase Luis Fernando Veríssimo, que ainda não passou.

No fim do colegial tive a fase Machado de Assis, que entrou pela faculdade de Letras. Li até as suas crônicas de jornal. Houve a fase Orígenes Lessa, a fase Manuel Bandeira, a fase Leon Eliachar, a fase Saramago, a fase Kurt Vonnegut e, atualmente, estou na fase Julian Barnes.

Trata-se de um inglês de 64 anos. Foi crítico, mas logo passou para o outro lado da mesa. Cheguei a ele por um pequeno artigo que falava de seu livro “Um Toque de Limão”, que seria um livro de contos sobre velhos. Comprei, li e gostei. Então fui atrás de um romance, “O papagaio de Flaubert”. Também gostei. Menos que o livro de contos, mas gostei. E então parti para livro que acabei por estes dias: “Nada a temer”. É um livro de não-ficção (se é que há algum livro de não-ficção).

Geralmente não gosto de livros de não-ficção. Eles tentam contar uma grande verdade ou uma grande ideia. Mas não é o caso. Julian Barnes é um cara muito honesto. Explicita suas dúvidas, contesta as próprias ideias. Não é um sujeito que busca mostrar sua tese inabalável. Ele apenas mostra o que pensa sobre o assunto, no caso, a morte.

 A capa não é especialmente bela e o projeto gráfico é bem tradicional, sem nem um charminho. Mas é um livro com beleza interior.

Este “Nada a Temer” é o livro dele que mais gostei. Primeiro porque é sobre o assunto sobre o qual eu mais penso. Não, primeiro, não. Isso vem em segundo lugar. Em primeiro vem o fato de que é bem escrito. As ideias são claras e inteligentes, as ligações entre um texto e outro são sutis, não forçadas, há um grande poder de observação, por vezes ele cita seu jeito de escrever ou experências literárias, mistura vidas de escritores com as de seus pais, mistura crítica literária e biografias pessoais.

E tudo isso vem embalado num humor sutil, o tal do humor inglês. Isso pode ser visto até no título: nada a temer. Não é que não há nada a temer, mas sim que tememos o nada.

Ele passeia pelos temas sem pressa, mas também não patina, não fica reexplicando o já dito. Não é um livro de autoajuda em que o autor quer impor suas ideias como a melhor saída para um problema. Mesmo assim, é um livro que dá um certo conforto de ler, pois é confortável saber que alguém tem os mesmos medos que você.

Enfim, li e recomendo.

 

Por Torero às 14h01

09/04/2010

Quatro ases sem coringa

Neste sábado para domingo, à uma da manhã, na Bandeirantes, haverá uma edição futebolística do programa Poker das Estrelas. Os quatro jogadores serão Basílio, Vampeta, Milton Neves e Andres Sanchez. Ou seja, só cara esperto. Se eu estivesse nessa mesa, sem dúvida sairia sem um tostão.

 

Por Torero às 07h55

08/04/2010

Convite

Neste sábado, a partir das 10h, haverá a palestra “Nos tempos da ditadura 1974/1978)”, com Valmir Storti e Rafael Casé, lá no Museu do Futebol, no Pacaembu.

Valmir já trabalhou na Agência Estado, na Folha de S. Paulo, na Época, na Veja, na Placar e no Lance!. É co-autor do livro “Todos os Jogos do Brasil".

Rafael Casé é editor-chefe do programa Observatório da Imprensa, da TV Brasil, e autor do livro "Quarentinha – O artilheiro que não sorria”.

Sim, é grátis.

Por Torero às 21h33

Desconvite

Lembram que convidei todos para o lançamento do meu próximo livro, "O Evangelho de Barrabás"?

Pois bem, houve um problema na gráfica e o lançamento foi adiado.

Logo que souber da nova data, aviso aqui no blog.

Por Torero às 21h27

Duas surpresas e nenhuma surpresa na última rodada do Paulistão

Não houve nenhuma surpresa porque as duas vagas em disputa acabaram com os dois times mais prováveis.

As duas surpresas são as ausências de Palmeiras e Corinthians entre os semifinalistas. Mas, pelo que apresentaram no meio do campeonato, isso já era esperado há algumas rodadas.

O caso do Palmeiras é mais grave. O time vinha mal, despediu Muricy e parecia, depois da vitória sobre o Santos, que se reergueria milagrosamente. Mas foi fogo de palha. Ontem perdeu para o Paulista por 3 a 1 e acabou em 11º. lugar. E não jogou com o time reserva. Estavam lá Diego Souza, Robert, Pierre e companhia. Para o Brasileiro é preciso melhorar muito.

Já o Paulista, que tem um time certinho, escapou do rebaixamento num bom jogo da dupla Mazola (emprestado pelo São Paulo) e Felipe Azevedo (que não fez sucesso no Santos). Mazola deu três assistências e Felipe fez dois gols. Se tivesse empatado, o Paulista estaria na segunda divisão do estadual no ano que vem.

O Corinthians foi bem e venceu por 5 a 1, com mais uma boa partida de Roberto Carlos. Finalmente o vazio deixado por André Santos está sendo preenchido. E Ronaldo marcou e deu assistência. Se ele voltar a jogar no nível do ano passado, o Corinthians terá chances de fazer um bom centenário. Se não, talvez fique como um bom time, mas sem aquele algo a mais dos campeões.

Já o goleado Rio Claro fará companhia ao seu irmão hidrográfico, o Rio Branco, na segunda divisão. O time até começou vencendo, e um simples empate o livraria do rebaixamento. Mas o Rio Claro morreu na praia.

O Santos venceu com facilidade. O grená e rebaixado Sertãozinho estava desmotivado.

O Grêmio Prudente, ex-Barueri, ganhou por 1 a 0 do São Caetano e garantiu a terceira vaga. Mérito de Marcos Assunção, que comanda o time, e do salvador Wesley. Este mineiro de Itapagipe, apelidado de Zilei, jogou bastante pelo interior de São Paulo (Barretos, Mirassol e Rio Preto), passou por Goiás (Itumbiara), deu uma voltinha pela Coréia do Sul e ontem fez o gol da classificação.

O Ituano foi o grande vencedor da rodada. Se perdesse da Portuguesa, o que era bem possível, já que a Lusa jogava em casa e precisava vencer, estaria na A-2 em 2011. E isso acontecia até os 33’ do segundo tempo, quando o jogo estava 2 a 1. Mas então o time de Itu marcou duas vezes e virou a partida. Uma boa despedida para Juninho Paulista, craque, capitão e presidente do time. E também para Roque Junior, que fez o terceiro gol do Ituano.

O São Paulo também teve uma grande noite e venceu o Santo André, vice-líder do campeonato, por 3 a 1. O time vem melhorando, engrenando, e fará a tal “final antecipada” contra o Santos.

Aliás, duvido que Ricardo Gomes deixe de escalar todos os seus titulares por conta da Libertadores. Na verdade, o Santos é que será mais prejudicado pela tabela, pois tem jogos da Copa do Brasil nas duas próximas quartas-feiras. Mas todos darão força máxima e serão dois bons jogos.

Por isso, na próxima segunda-feira, não perca mais um capítulo de Paulistão City. Desta vez, um terrível duelo entre Jack Tricolor e Billy, the Fish.

 

Por Torero às 09h16

07/04/2010

Santos, sempre Santos?

 
 

Santos, sempre Santos?

Texto de Ivan Massocato

Torero, estava lendo hoje as notícias e deparei-me com uma declaração do diretor de marketing (argh!) do Santos na Folha: "Precisamos aproveitar este momento e fazer o Santos crescer, mesmo após o fim dessa geração dos meninos da Vila". Que triste. Mesmo sacado do contexto, acho que está fácil compreender que vem por aí o tal "desmanche", que todos prevêem para depois da Copa do Mundo.

É óbvio que quando Neymar, André ou Ganso deixarem o Santos, será por uma montanha de dinheiro, que "estará fora da realidade brasileira" tentar mantê-los no elenco, etc, etc et coetera. Mesmo sabendo que esta montanha de dinheiro virá da lavanderia da máfia russa, de poços de petróleo "de família" sem fundo social de investimentos e sem eleições, ou das operações de salvamento do Real Madrid feitas pelo governo espanhol e outras canalhices do gênero, que lá como cá, como nos ensinou Oliver Seitz, o futebol é mais notícia do que negócio, e a parte que é negócio não é mais limpinha do que o Lelê nos dias em que chove no campinho.

Sei que você é um sujeito decente e que não fica se imiscuindo no dia-a-dia do Santos (não estou dizendo que o Santos seja indecente, você me entendeu, né?) , mas -puta que pariu!- alguém precisa dizer para os meninos de onde virá o dinheiro que vai pagá-los. Precisa dizer pro Neymar que os meninos que pedem histéricos autógrafos a ele hoje, não moram em Londres ou Milão, só falam Português e vão ficar órfãos quando ele se for. E que por uma estranha hipérbole, ele ficará órfão deles, que vai ficar velho e ter banzo aos 23 anos e sentirá falta do sol e dos rachas no final da tarde. De alguma forma ele precisa saber, antes de sentir, que vai ficar triste e vai sentir saudade dos dias alegres de hoje. Ele sabe que é feliz, mas não sabe o quão desgraçada é a tristeza, não importa quantas casas ele possa comprar para a Dona Nadine ou quantos andares de hotel possa alugar num final de semana.

O time do Santos é um bálsamo para o futebol brasileiro. Robinho à parte, apesar do talento (sim, acho que ele ganha demais, nenhnum time deveria pagar tanto para um jogador), o time do Santos mostra que é possível fazer futebol sem fazer transações estapafúrdias. E de quebra tem o treinador: lúcido, ele atribui ao time e não a si próprio os méritos do futebol que mostra; humilde de verdade, por força do caráter e não do marketing, não fica tentando articular frases com palavras que não sabe usar para tentar demonstrar um saber que não possui; sóbrio, não inventa esquisitices táticas para tentar trazer para si o bando de repórteres que deve ficar mesmo é com os jogadores. Não sei o quanto ganha. Não deve ser pouco, porque ninguém vai do Cruzeiro ao Santos, passando por Coritiba e Vasco com brilhante campanha, ganhando mal. Mas deve estar bem longe dos 450 mil por mês que meu pobre palestra pagava ao Muricy.

O Time do Santos não pode se acabar. Não pode ter "desmanche". O time do Santos é a vergonha de todos os cartolas e medalhões-chinelinhos do futebol brasileiro. É a redenção da torcida, do apaixonado. É a vingança dos torcedores desorganizados contra o conluio de cartolas e torcedores profissionais que tomou conta dos clubes e estádios do Brasil nas últimas décadas. E particularmente para mim, o time do Santos é minha pessoal e intransferível esperança. Que todos sejam obrigados a jogar igual.

 

Por Torero às 00h09

06/04/2010

desfalcado

 
 

desfalcado

Armandão se foi
ficamos todos
armandinhos

 

Por Al-Chaer

Por Torero às 20h34

05/04/2010

Hulk, Edmundo, Jesus e Chapadão

Um das diversões dos jornalistas é criar manchetes enganosas. Na internet, isso vem se tornando um sério vício. Para conquistar o clique do leitor, omite-se, exagera-se e engana-se. Assim sendo, não é nada impossível que você leia uma chamada com a frase “Baleia engole Macaca” e, quando for ler o texto, em vez de encontrar a história de um cetáceo louco que saltou sobre uma ilha e engoliu uma primata, encontre apenas o resultado de um jogo entre Santos e Ponte Preta.

Pois bem, lendo notícias recentes, decidi fazer um exercício e bolar algumas manchetes enganosas:



Ônibus que levava Hulk pega fogo

Antes de mais nada, explico que o Hulk em questão não é o alter ego de Bruce Banner, mas o Murici Futebol Clube, time que lidera o campeonato alagoano, à frente de ASA e CRB, e que já garantiu vaga na Copa do Brasil de 2011. O Murici, que nunca ganhou um campeonato estadual, é alviverde e tem como mascote ninguém menos que o incrível Hulk.

Há alguns dias, quando o time voltava de Penedo, onde tinha vencido o Penedense por 2 a 1, um motociclista caiu e o ônibus do clube passou por cima da moto. Os dois automóveis pegaram fogo e os jogadores do Murici tiveram que quebrar as janelas e pular para fora do ônibus.

Ninguém ficou ferido, mas os uniformes do time acabaram tostados.

 

Edmundo faz sucesso no Botafogo

Para começo de conversa, este Botafogo não é o do Rio de Janeiro, mas de João Pessoa. E este Edmundo não é aquele que jogou por Vasco e Palmeiras. Este é Raimundo Clementino da Silva, apelidado de Edmundo. Com 16 gols e 40 anos, ele é o artilheiro isolado do campeonato paraibano.

No ano passado, ele acabou como o terceiro artilheiro do país (o primeiro foi Diego Tardelli), mesmo jogando apenas parte da Série B do Brasileiro (pelo Campinense)

Edmundo, ou Raimundo, nasceu em Itaporanga, sertão da Paraíba. Jogou em times da região e foi para o Vila Nova, de Minas Gerais, onde ficou cinco anos. Teve sua grande chance quando ficou dois anos no Cruzeiro. Mas não vingou. Depois disso, tornou-se um cigano. Passou por Bahia, Paraná Clube, Juventude-RS, Internacional de Limeira-SP, América-MG, Ipatinga-MG, ABC de Natal, Democrata-MG, Ypiranga-PE, Sampaio-MA, Icasa-CE, Santa Cruz-PE e foi parar na Líbia.

Em 2006 tentou voltar para a Paraíba, mas o Botafogo (este mesmo que o contratou agora) disse que ele estava muito velho. Pois no ano seguinte ele era artilheiro e campeão paraibano pelo Nacional. No ano passado também foi artilheiro e campeão paraibano, mas jogando pelo Sousa. E, este ano, o artilheiro quarentão, o cara que mais balançou redes no país até agora, espera ser tri.

 

Jesus é superado por Pretinho

Não, não falo da chegada de um novo messias, de um jovem negro que teria vindo substituir Jesus nos altares das igrejas. É que Cristiano Jesus, atacante do Picos do Piauí, perdeu a artilharia do campeonato para Pretinho, do 4 de julho. Aliás, mesmo com a ajuda de Jesus, o Picos está fora da decisão do primeiro turno do Piauiense. Já o time de Pretinho está entre os quatro semifinalistas. Os outros sâo Parnahyba, Barras e Comercial.

 

Chapadão ataca no Madrugão

E aqui não se trata de um viciado em drogas ilícitas que atacou alguém durante as primeiras horas do dia, mas sim que o time do Chapadão, vice-líder do grupo B do campeonato estadual sul-matogrossense, venceu o Misto jogando no estádio do adversário, o Madrugadão.

 

Enfim, não se deve acreditar em manchetes. Muitas servem apenas para enganar o leitor. Como a deste post, por exemplo.  

 

Por Torero às 09h23

03/04/2010

Sempre aos domingos: Depois daquele jogo

 
 

Sempre aos domingos: Depois daquele jogo


Texto de José Henrique Calazans de Souza

Não conseguiu dormir. Como repousar a cabeça no travesseiro quando o impensável, o inexplicável, o impossível se torna real? Como suportar que, no dia seguinte, todas as músicas de incentivo que ele cantou até ficar rouco fossem transformadas em canções de escárnio, reinventadas pela crueldade das torcidas adversárias? Não sabia como teve forças pra sair do estádio, muito menos como conseguiu voltar pra casa. Todo o seu ânimo havia desaparecido e ele se sentia sem rumo, como se estivesse perdido num sonho estranho e precisasse desesperadamente acordar. Uma tristeza enorme invadia seu coração e, junto com ela, a certeza de que a cidade ia amanhecer mais triste. Ou melhor: parte da cidade ia amanhecer mais triste. Se fosse uma derrota da seleção, haveria uma certa solidariedade na tristeza, um entendimento mútuo entre olhares cabisbaixos, uma dor compartilhada que faria todos se tornarem mais próximos e um desejo universal de afogar as mágoas. Mas não, era uma derrota do seu time, e a infelicidade que oprimia o peito de tantos outros como ele serviria de gozo para todos os adversários, o que doía muito mais. Sabia que no dia seguinte ia acordar sem vontade de levantar da cama, ia trabalhar de mal-humor e passar o caminho de ida e volta ao batente se perguntando como aquilo era possível, tentando descobrir um porquê, buscando em seus pensamentos algo que explicasse a derrota que seus olhos e seu coração se recusavam a aceitar. Como os jogadores podiam causar tanta decepção à uma torcida tão apaixonada? Tinha raiva, uma raiva alucinada, vontade de invadir o campo e sacudir um por um. Não honravam a camisa que vestiam! Enquanto gente como ele encarava as horas na fila pra comprar o ingresso, os preços absurdos, os banheiros sujos, a bagunça generalizada e o medo da violência pra apoiar o time até o fim, aqueles traidores seguiam só no bem-bom, como se o problema não fosse deles, enquanto a torcida sofria com a derrota. Deviam ser todos mandados embora: jogadores, técnico, auxiliares, dirigentes, e começar tudo do zero, com sangue novo, com raça e amor à camisa. Só assim pra apagar aquela vergonha da história do clube. Um clube com uma história tão linda, uma torcida tão linda... Mas sabia que, por mais raiva que tivesse, perder a cabeça só ia piorar a situação. Os jogadores que ele agora condenava não eram os mesmos que, há pouco tempo atrás, ele celebrava como heróis que regressavam de uma batalha? Não eram os mesmos que, há pouco tempo, tinham dado aos torcedores tantas alegrias? Não eram os mesmos cujo nome e posição ele sabia de cor e salteado, acompanhando cada notícia nos jornais, sentido quase como se eles fossem parte da sua família? Como explicar uma coisa dessas? Aquilo não podia ser verdade, era um pesadelo, uma alucinação! Aquela derrota jamais aconteceu e, quando acordasse no dia seguinte, veria que tudo não passava de um grande mal-entendido. Então, em sua imaginação, a canelada virou um belo drible, o frangaço uma defesa monumental, a bola que quicou em cima da linha arrastou-se matreira até a rede, o gol contra virou gol de placa, o choro transformou-se em festa. E ele foi dormir feliz, extasiado pela vitória, dando-se ao direito de um último momento de ilusão antes do massacre do dia seguinte.

Por Torero às 15h03

02/04/2010

Sempre aos domingos: O Anti-Herói

 
 

Sempre aos domingos: O Anti-Herói

Texto de Angelo Renato Tibério

Maradona driblou meia dúzia antes de meter um golaço nos ingleses. Dodô já fez cinco num jogo. Robinho e sua molecada endiabrada; dez. Garrincha quase fez chover. Pelé nem se fala. Romário? Esse fala muito e já nos deu uma Copa. Até Tupãzinho, Mineiro e Adriano Gabiru, se nunca foram craques, já tiveram o seu dia de glória.

Mas eu gosto mesmo é dos vilões.

Torço para o time mais fraco. Porque sem o amargo da vitória suada, o doce não é tão doce. Se pintar na tela um Naviraiense x Real Madrid, torço para os heróis de Mato Grosso do Sul. Faroeste? Escolho o bigodudo malvado. E nem me mostre um pernilongo na teia. Faço figas para que ele escape e engula a aranha.

Don Vito Corleone é rei. Hanibal, um gênio. Lampião mereceria uma placa e aquela malvada da novela das 8 é uma graça. O que seria de Chico Buarque sem a ditadura? E de Tom e Jerry sem o pega pra capar entre ambos? O que seria da rosa sem o espinho?

Sem os malvados, os bonzinhos não são nada.

Por mais que eles não queiram ser tão maus.

Sem o chutaço de Baggio para as nuvens na Copa de 94, o grito de Tetra talvez nunca existisse. Sem o pênalti perdido por Marcelinho Carioca, São Marcos talvez não fosse tão santo. Se a cabeçada de Zidane não tivesse acontecido, quiçá a França não tivesse estragado a festa dos ragazzos de azul?

E sem a cabeçada contra o próprio gol de Alex Silva, o Corinthians não teria espantado a crise e jogado a bucha para o rival.

Ah, porque em um mundo que precisa de heróis,esses heróis andam tão preguiçosos,sempre precisando da ajudinha dos vilões.

(Angelo Renato Tiberio é um são-paulino que acredita no tetra da Libertadores, com um gol do zagueiraço Alex Silva. E sem quatro volantes no meio de campo, né Ricardo?)

 

 

Por Torero às 18h07

01/04/2010

Cerveja e futebol

O Tiago Pulzatto fez um blog sobre latas de cerveja de clubes de futebol, duas coisas que, imagino, um ou outro leitor apreciem.

O link é este: http://latasfc.wordpress.com

 

Por Torero às 21h54

Entrevistando o mestre

Quando cheguei à casa de Zé Cabala, que fica no movimentado cruzamento da Rua da Vida com a Avenida da Morte, ele já estava me esperando. Curiosamente, dobrava uma folha de papel, dando-lhe a forma de um aviãozinho.

“Já sei com que você quer falar hoje”, disse o guru.

“Pois é...”, eu murmurei. “Tenho que falar com ele.”

“Você demorou. Pensei que viria logo no começo da semana.”

“Acho que no fundo eu não queria fazer esta entrevista. Adiei o quanto pude.”

“Coragem nunca foi seu forte, caro foliculário. Vamos lá?”

“Fazer o quê...”

Então Zé Cabala atirou um aviãozinho de papel no ar e ele ficou dando voltas pela sala. Depois tirou uma gaita de seu turbante e pôs-se a tocar uma música triste. Quando o avião pousou mansamente no tapete, ele disse:

“Há quanto tempo, meu rapaz!”

“Mestre?”

“Não nos vemos desde que você esteve lá em casa, fazendo uma entrevista para um programa do Fantástico. Quando foi aquilo? 2002?”

“Isso. Lembro que tinha muitos aviões na sua casa.”

“Ah, como eu gostava de voar...”

“E antes disso fizemos uma palestra juntos numa feira do livro em Belo Horizonte.”

“Sim, claro.”

“O senhor deu um show!”

“Alguém tinha que falar naquela mesa. Bem, o que você quer saber?”

“Acho que não tenho nada para perguntar. Já contaram sua vida esta semana de todos os jeitos.”

“Falaram dos meus dez livros sobre esporte?”

“Claro.”

“Que estive em todas as Copas de 1950 a 2002?”

“Sim.”

“Que presenciei o atentado ao Carlos Lacerda na rua Toneleros?”

“Também. E disseram que foi a primeira vez no jornalismo brasileiro que se fez uma reportagem na primeira pessoa.”

“Que bom.”

“Citaram muitas frases suas, como aquela sobre o Nilton Santos.”

“Tu, em campo, parecias tantos, e no entanto, que encanto! Eras um só, Nílton Santos.”

“Essa. E lembraram que o senhor implantou um alto padrão de jornalismo na Globo e que, por causa da edição daquele jornal Nacional de 89, quando a emissora claramente favoreceu o Collor, o senhor acabou saindo da emissora.”

“Bem...”

“E o Trajano disse que por sua causa os jornalistas esportivos tiveram que escrever melhor.”

“Esse Trajano...”

“Sabe que o Botafogo fez quatro gols no dia da sua morte?”

“Deus fecha uma porta mas abre uma janela.”

“E o Marcelo Cordeiro, que marcou um golaço por cobertura, lhe dedicou o gol.”

“Que honra! E o velório? Tinha muitas mulheres bonitas chorando?”

“Claro.”

“Bom, bom.”

“Teve gente que comparou o senhor ao Nelson Rodrigues.”

“Comparam todos que escrevem sobre futebol com um texto mais literário.”

“É verdade. Já disseram até que eu copiava o senhor, sabia?”

“Uma vez alguém disse: ‘Copiar o bom é melhor que inventar o ruim’.”

“Essa frase não é sua mesmo?”

“É?”

“Acho que é. Mas não concordo com ela. Tem que ser muito bom para imitar seu estilo, senão fica doce demais.”

“Doçura não faz mal a ninguém.”

“Mas pode gerar um Bial.”

“Não seja malvado. Mas diga lá, por que você demorou tantos dias para vir falar comigo?”

“Não sei...”

“Não mesmo? Será que não foi porque pensar na morte de um cronista esportivo que tinha veleidades literárias seja pensar um pouco na própria morte.”

“É, pode ser...”

“Que bobagem. Não adianta ter medo. O apito final sopra para todo mundo. O importante é jogar bem durante os noventa minutos.”

Então ele começou a tocar sua gaita e eu saí de fininho, pensando no que posso fazer neste segundo tempo já começou.
 

Por Torero às 09h49

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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