Blog do Torero

28/01/2010

Carta aberta de amor despudorado

Por que você não volta para mim? Por que você não volta para nós? Eu sei que você está infeliz nesta sua nova vida. Volta. Eu vou lhe receber de braços abertos.

Sim, você me abandonou, me trocou por outro mais rico, mais bonito, mas eu não tenho mágoa. O verdadeiro amor perdoa. O verdadeiro amor não tem orgulho. O verdadeiro amor não tem honra, decência nem pudor. O verdadeiro amor se ajoelha, agarra joelhos, chora e implora. Eu não quero dignidade, só quero você de volta. Só quero que você me faça chorar de vez em quando. De alegria ou de tristeza, tanto faz, desde que você esteja aqui. O que adianta você ficar aí na sua mansão, com seu carro importado, se você está triste? O que adianta ficar longe de mim se você não faz o que gosta, se não faz mais o que eu gostaria que você fizesse? Deixa de bobagem e volta para casa.

E daí que eu não sou rico? Aqui tem mar, aí não tem. Aqui você é amado, aí não é. Aqui eu e todos ficamos à sua volta, aí nem ligam para você. É melhor o meu copo de requeijão do que as taças de cristais daí. É melhor o meu fusca do que o Mercedes dele. É melhor o nosso sambinha em caixa de fósforo do que qualquer dessas sinfônicas que tem por essas bandas. Eu sei que você seria mais feliz do meu lado, do nosso lado.

Deixa de bobagem e volta para cá. Nas fotos que saem nos jornais, eu não vejo mais você sorrindo. E você sabia rir tão bem... Lembra de quantas risadas você dava aqui? Aposto que lembra. E também por se lembrar delas é que você é infeliz aí. Fala a verdade: você já teve momentos felizes aí como teve aqui? Fala! Diz para mim! Aposto que não. E a gente ainda pode ter muitos momentos como os que já tivemos. Muitos! Mas aí, com esse outro...

Duvido! Aí vai ser só cenho franzido e siso. Aqui é só gargalhada e riso. Pense bem: para que perder a sua juventude longe de mim? E depois eu vou lembrar de quê? Você vai se lembrar de quê? Eu sonhava com uma velhice em que nós dois lembraríamos os momentos maravilhosos que passamos juntos. Mas agora não teremos mais esses momentos. Você está jogando fora nosso futuro. Volta, antes que seja tarde.

Muita gente cochicha em seu ouvido que o certo é ficar longe de mim, porque eu sou pobre e moro numa cidadezinha à beira-mar. Mas essa gente não vai lembrar de você para sempre. Eu vou.

Deixa de ser bobo e volta, Róbson. Volta a ser Robinho.

Deixe esse Real Madrid e venha para o Santos, para os santistas, para os brasileiros. Sim, eu sei, você vai ter que se contentar com um salário menor, mas dá para viver com R$ 500 mil (eu imagino). É claro que nas europas você ganha mais que o dobro, mas e daí? Você nunca vai conseguir gastar tudo mesmo.

Lembra da torcida gritando seu nome quando você ainda estava no vestiário? Eu sei que lembra. Quando eu o entrevistei na Copa, seus olhos brilharam quando você me contou isso. Lembra dos dribles em cima do Rogério? Das vitórias sobre o Corinthians?

Aqui você foi campeão, foi levantado nos ombros da torcida, enrolou-se na bandeira do time, foi um deus. Aí, foi reserva. Um deus não pode se sentar no banco de reserva, mesmo que ele seja coberto com couro de antílope e forrado com penas de ganso. O seu lugar é correndo pelo gramado.

Você vai ter mais uns dez anos de carreira. E vai lembrar desses dez anos por toda a vida. E lembrarão, ou esquecerão, de você por conta destes dez anos. É a sua eternidade que está em jogo. Você foi para Madri porque queria ser o melhor do mundo. Aqui o pessoal já acha você o melhor do universo. Volta Róbson, volta a ser Robinho!

(Por conta da volta de Robinho, republiquei aqui este texto escrito na Folha de S.Paulo em 15/2/2007)

Por Torero às 16h30

26/01/2010

Lula, o filme e a Brahma

Finalmente fui ver o filme "Lula, o filho do Brasil".

Não é um bom filme.

Há muitas cenas curtinhas para contar a vida do personagem principal, e elas acabam não causando um envolvimento do espectador. Além disso começa falando de Lindu, a mãe de Lula,  e depois a abandona para centrar-se em Lula.

Ou seja, o filme não decide qual o seu personagem principal. Ou Lindu deveria continuar aparecendo durante a ascensão de Lula, ou Lula deveria aparecer mais fortemente desde o começo.

Outro problema é que há muitas frases feitas e lugares comuns nos diálogos, e poucos traços do bom humor de Lula.

Ainda quanto aos diálogos, houve uma fala inesquecível: Foi quando o presidente pelego do sindicato entrou num bar e disse: "Aqui só tem brahmeiro".  Que mau gosto! Que burrice! O termo "brahmeiro" é novo, e colocá-lo no filme desmancha a autenticidade da cena, sem falar que é um merchandising tão explícito (e dito por um personagem calhorda) que conta ponto contra a marca de cerveja. Prejudica o filme e o patrocinador. A Brahma, que já tinha errado ao fazer Ronaldo dizer que era brahmeiro, erra outra vez com sua sutileza de orangotango.

Enfim, se o PSDB estava preocupado por pensar que o filme poderia servir de cabo eleitoral, estava enganado. Não que "Lula, o filho do Brasil" seja horrível, mas está longe de ser bom.

Por Torero às 07h38

Vermelho para o juiz amarelão

Depois dos 10 km, eu e o biltre Marcelo Lyra, também santista, fomos ver a final entre São Paulo e Santos.

Vimos o Santos abrir o placar com Rwenan Mota, vimos o Santos se encolher, vimos um vergonhoso cai-cai, em que os santistas desabavam no chão a cada falta e pediam a maca, e vimos o juiz Thiago Peixoto ficar acovardado frente ao São Paulo e dar apenas um cartão amarelo para o goleiro Richard, que claramente merecia vermelho. 

Depois, vimos o belo gol de empate do São Paulo e Richard defender três pênaltis para ganhar o título.

Sim, o São Paulo jogou melhor. Mas se o juiz não tivesse amarelado, as coisas seriam diferentes. 

Por Torero às 07h18

25/01/2010

Direito de resposta

(O insigne Marcelo Lyra pediu um espaço para explicar a prova ao seu modo. Como sou um sujeito democrático, ainda mais com perdedores, coloco aqui o texto que ele fez em resposta ao meu, que está logo abaixo) 

 

Um dia de Cão

Perdão, leitora e leitor do Blog Do Torero. Prometi tentar vencer para fazê-lo voltar a trabalhar, mas não deu. Como sou competitivo, daqueles que não gosta de perder nem para entrar em escada rolante quando abre a porta do metrô, perder uma corrida que demandou treinos e uma taxa de R$ 50,00 equivale ao que senti na derrota para o Corinthians na final do Paulistão do ano passado. Pior é que havia 8 mil corredores inscritos e devo ter deixado mais de seis mil para trás. Mas o que valia mesmo era nossa disputa. Não me incomodaria em chegar em 7999, desde que ele fosse o 8000.

Admito que foi a corrida mais difícil da minha vida. Logo na largada ele disparou e me fez fazer força para acompanhá-lo. Era o que eu sempre fazia. Dava certo largar forte e fazer com que ele se cansasse ao tentar me alcançar. O esforço foi intenso, passamos o terceiro quilômetro com um tempo de cerca de 14 minutos, um recorde para ambos. Mas para mim era um mau sinal, pois depois de anos de competição, sei que ele tem um bom sprint final. Se estamos emparelhados no quilômetro final, ele sempre consegue uma arrancada.

Assim, lá pelo quilômetro 5, tentei o velho truque de mandar uns trocadilhos para faze-lo rir ou retrucar com outros e se cansar. Nossos duelos de trocadilhos costumam ser tão longos quanto infames. Por sorte havia, incrivelmente, um cachorro correndo, tão perdido quanto em dia de mudança. Tentava acompanhar seu dono ou apenas não ser pisoteado? Não sei, mas esfreguei as mãos como o velho Dick Vigarista e mandei trocadilhos caninos. Frio e concentrado como um Lanjal, Torero não só ignorou como começou a abrir uma pequena distância, cerca de um metro. Acho que o tiro saiu pela culatra: os trocadilhos devem ter sido tão ruins que ele fugiu para não ouvir mais e quem se cansou falando fui eu. Ele manteve essa distância, equivalente a três trocadilhos, até o km 7. Esforcei-me para emparelhar, mas senti que já estava mesmo como o nosso colega vira lata: com a língua de fora. Quase o acompanhei quando ele parou para molhar um poste. E o meu adversário, cão dos infernos, estava inteirinho. Percebi que hoje ele seria o cãopeão.

No quilômetro 8 eu não estava aguentando mais e o Torero ia em frente. Parecia que eu é que pesava 20 quilos a mais. Nunca havia parado nestes anos todos que competimos, é a humilhação suprema para qualquer corredor, mas não houve jeito. O calor e o esforço inicial apresentaram sua conta.

Não parei totalmente. Segui andando rápido. Lá adiante, Torero parecia voar como a bola chutada por Ronaldo para encobrir Fábio Costa. Mas aos poucos senti que as forças voltaram. Tornei a correr, mas não havia mais sinal do rival. No final, os tempos aparentemente nem foram tão distantes, ele fez em 50 minutos e seis segundos, eu fiz em 52 minutos e 45 segundos. Dois minutos e quarenta. Mas, em distância, isso significa cerca de meio quilômetro. Tenho que admitir (grrrr!) que foi uma goleada, mesmo descontando uns 30 segundos com a queda da chave. Há pouco disse que detestava perder. Mas sou bom perdedor. Parabéns, Torero. O placar geral está 5x4 para ele. Me aguarde na próxima (e não será depois da linha de chegada).

 

 

Por Torero às 23h35

Um texto não escrito

Pois bem, por conta de minha modéstia não contarei como foi a prova.

Não contarei que larguei melhor, mas lá pelos 500 metros meu algoz me ultrapassou e foi embora. Apesar da multidão, fizemos os primeiros dois quilômetros em nove minutos. O biltre, é claro, disparou. Complexo de Bip-Bip. Logo já estava uns cinquenta metros à minha frente.

Quando havia uma descida, eu diminuía um pouco a diferença. Quando havia uma subida, ele se afastava. A explicação é simples: peso vinte quilos a mais que meu adversário. Assim, na descida vou na banguela, feito um caminhão, e sou mais rápido. Mas na subida os vinte quilos a mais pesam uns duzentos e fico para trás.

Com 4 km de prova a diferença já estava em 75 metros. Eu mal conseguia ver meu rival. Mas eis que aos 4,5 km, por obra de um bolso mal costurado, sua chave caiu no chão e ele teve que parar para pegá-la. Louvado seja o boliviano que costurou seu short Nike falsificado!

Então o alcancei e ficamos lado a lado. Cruzamos o sexto quilômetro em 29'20", um tempo bem decente. Então, no sétimo quilômetro, passamos por um cachorro e meu arquinimigo começou a fazer trocadilhos infames. Para poupar os leitores, citarei apenas três exemplos:

"Esse corredor tem raça."

"Taí um cara que corre com garra."

e "Se ele ganhar de mim, vai ser por puro rabo."

O problema é que, falando estas pérolas, meu concorrente ficou cansado para cachorro. 

Ao perceber que ele estava arfante feito um chiuaua, aproveitei uma descida e apertei o passo. Ele perseguiu-me feito um perdigueiro por um quilômetro. Mas, no oitavo, ficou com a língua de fora. E isso não é metáfora. O cara passou mal mesmo e teve que andar por uns dois minutos.

O que fiz eu? Parei em solidariedade? Claro que não! Ri de felicidade e acelerei. Confesso que até torci por seu enfarte, mas não tive tanta sorte.

Vendo que ele estava longe, diminuí o ritmo e cruzei a linha de chegada em 50m09'. O biltre chegou dois minutos e meio depois.

Era isso que eu contaria. Mas isso seria uma imodéstia, por isso não escreverei este texto. 

Por Torero às 20h03

22/01/2010

Duelo ao nascer do sol

Na segunda-feira pela manhã enfrentarei meu arquinimigo Marcelo Lyra na prova de 10 km que comemora o aniversário de São Paulo.

Caso eu perca, contarei aqui como foi. Caso eu o vença, manterei um modesto silêncio (ou vice-versa). 

Por Torero às 13h33

18/01/2010

Quebrei minha abstinência

Não aguentei. Sim, fui fraco e cedi aos meus impulsos mais primitivos.

Ontem, depois de 17 dias sem futebol, voltei a ver um jogo. Aliás, um, não. Três!

Já que era para botar o pé na jaca, coloquei os dois, e a cabeça. Vi o Santos na Copinha, a estréia do Corinthians e, depois, fui ao Pacaembu ver Rio Branco x Santos. E não me arrependi. Vi quatro belos gols, um time animado, e a volta do Messias, que deu o passe para o gol de seu discípulo. Ou "um passe de pai para filho", como comentou alguém no estádio.

Não vou escrever mais sobre o jogo porque aí seria trabalhar e estou de férias. Mas queria lhes fazer esta confissão (com um pouco de vergonha e muito de satisfação).

Por Torero às 07h59

09/01/2010

O que vocês fazem nas férias sem futebol?

Sim, por favor, contem para mim o que vocês fazem? Como enganam o tempo sem o velho esporte? Tevê? Cônjuges? Livros? Comendo feito um glutão?

Confesso que agora já começo sentir uma certa saudade de ler uma escalção, daquela tensão pré-jogo, de xingar os pernas de pau do meu time, etc... 

Por Torero às 09h14

08/01/2010

Pechinchas

Ao dar uma olhada nos meus textos antigos, topei com este aqui abaixo. Então dei uma fuçada no site e acabei comprando um monte de livros.

Para quem tem cabeça aberta mas mão fechada

 

Como bem podem ler os alfabetizados, a capa acima é do livro "Barão de Itararé - Herói de três séculos", do insigne (insigne que dizer louvável, e não insignificante) jornalista Mouzar Benedito.

É uma curta e simpática biografia daquele que talvez seja o pai do humorismo jornalístico brasileiro, ou seja, é uma espécie de pai do Pasquim e avô do Planeta Diário. Conta desde o seu nascimento numa carroça quebrada até o seu fim entre as baratas.

A biografia traz ainda um apêndice com vários textos, piadas e frases do Barão (vulgo Aparício Torelly), que servem como uma amostra grátis, ou quase, do seu humor (falando em amostra grátis, vai aí uma frase do Barão: "O homem é um animal que pensa, a mulher é um animal que pensa o contrário").

E o preço do livro é um absurdo: apenas R$ 3. Vou até escrever por extenso: três reais. Este, aliás, é o preço de cada um dos doze livros desta coleção, intitulada "Viva o povo brasileiro". 

Quem quiser conhecer a coleção, clique aqui.

 

Por Torero às 08h55

Pedido de palpites

Estou relendo meus antigos textos para ver se monto um livrinho. Aceito sugestões.

Por Torero às 08h51

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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