Blog do Torero

31/05/2009

Sempre aos Domingos: "O gol mais dolorido"

 
 

Sempre aos Domingos: "O gol mais dolorido"

Texto e ilustrações de Adilson Delaim

Logo após sua aposentadoria dos campos de futebol como atleta, o hoje Sr. Luiz que até o presente no exercício de sua profissão (hoje rara) de sapateiro e que por mais de duas décadas serviu nossa agremiação como massagista (tendo inclusive curado muitas chagas e fraturas) nos brindava com suas peripécias, quando íamos até sua oficina levar nossas bolas para a mais perfeita calibragem, sendo esta, a que considero a maior de todas.

Após uma campanha invicta no Campeonato do Oeste, nossos bravos heróis do PIANCÓ ATLÉTICO CLUB haviam galgado a final do ano de 1959 contra a agremiação da comarca de Arabela. Sendo a mais jovem região do Estado e com tantos municípios emancipados naqueles anos, a Federação de Futebol premiaria o campeão com o acesso à 3ª Divisão do Campeonato Estadual como estímulo ao desenvolvimento do desporto na região.

O maior entrave (recorrente até os dias atuais) era justamente o oponente, que simplesmente abrigava em seus domínios a sede da Liga Arabelense de Futebol, detendo além de um grande time, todos os meandros para selecionar árbitros, regras e quiçá resultados (dizem que só entraram na final por terem literalmente forjado resultados na última rodada do octogonal). E por terem campanha inferior, fariam somente um jogo em seus domínios na melhor de três partidas.

Já na primeira partida o PIANCÓ em seu território impôs uma sonora goleada por 4 x 1, com três gols só na primeira etapa do nosso lépido ponteiro direito, nosso herói maior LUIZ, que tivera de ser substituído no intervalo, pois fora caçado como preá rabicó e alvejado em seu ponto fraco, no “joanete” que sempre lhe incomodava.

No retorno uma vitória bastava para decretar o passaporte para o Estadual, sem contar com LUIZ ainda em recuperação, mas já apoiando o pé no chão, vencia pelo placar mínimo e eis que no último minuto nosso defensor, em um salto dentro da área para afastar o perigo de cabeça é deslocado pelo centroavante adversário e tem a bola resvalada em seu punho.

Estava ai instalada a primeira das grandes discussões desta decisão, primeiro dentro das quatro linhas, pois, nenhum argumento fora atendido e ainda no calor dos brados a injusta expulsão da dupla de zaga titular para a partida final, caso nosso grande arqueiro “Mão-de-onça” não evitasse o tento. E o pior aconteceu, bem que “Mão-de-onça” pulou feito um felino no ângulo espalmou para o lado o violento chute, que ricocheteou nas duas traves, e entrou lentamente balizas adentro, (calma este ainda não foi o mais gol mais dolorido).

Durante a semana ares dramáticos tomou conta de nossa região, dois amigos um ourives e outro coletor, disseram ter ouvido a conversa de um conselheiro do Arabela FC, numa selaria da comarca, afirmando ter ajustado com um atleta adversário, sobre uma possível facilidade de emprego na capital caso pudesse dar uma ajudazinha durante o prélio.

Logo o delegado impôs uma ampla diligência fazendo a acareação de todos os fatos, e ficando simplesmente provado que fora uma mera brincadeira do nobre conselheiro com o matuto selador. Certo é que o defensor não participou da grande final por desarranjos intestinais.

Enfim chegou o domingo dia da grande final, a região toda torcendo por nossos heróis, uma cidade recém emancipada, acolhedora e acima de tudo merecedora do título. Nosso artilheiro após duas semanas de muitas ervas, sebo de carneiro, simpatias e até a benção do vigário, já dava os primeiros trotes naquele domingo, com suas ataduras protegendo seu joanete, mas demonstrando um semblante de dor, ao menos já estava prontamente paramentado caso houvesse a necessidade de sua entrada no decorrer da partida.

E praticamente em menos de cinco minutos o drama se instalara no estádio municipal, num contragolpe fulminante a zaga substituta não conseguira parar os fortes atacantes e o placar estava inaugurado em favor do Arabela FC.

Imediatamente a torcida começa os primeiros gritos tímidos do nome do nosso glorioso ponta/atacante LUIZ, LUIZ, LUIZ....

O jogo se desenrola numa disputa desleal de ambas as partes, com três sangrando (um na perna e dois nas testas) e dois enfaixados com suspeitas de fratura, um na clavícula e outro na sic, "cana do braço", mas ninguém quisera abandonar a primeira etapa da batalha final.

Caso o PIANCÓ empatasse a partida se consagraria campeão. Em caso de vitória do Arabela FC, teríamos a prorrogação, e somente ai nosso PIANCÓ teria a vantagem do empate pelo saldo de gols. Retornam então para o que seriam os últimos 45 minutos, deste épico evento, com a substituição de um moribundo de cada lado (eram permitidos a troca de dois jogadores de cada time por motivos eminentemente comprovados de incapacidade de locomoção), e sob os gritos cada vez mais encorpados da torcida pedindo nosso herói, LUIZ, LUIZ, LUIZ....

Mas para infelicidade local volta no banco.

Desenrola-se o prélio num marasmo total, os já combalidos atletas não dispunham de forças para suportar aquela tarde de estiagem em outubro que beirava os 40º, e numa tentativa de tirar com a cabeça aquilo que seria o segundo gol, o lateral direito piancoense afasta com precisão o mais forte chute até então do campeonato e cai desmaiado, com seus oito pontos novamente abertos e desta vez maiores, parecia ter sido atropelado por um jipe, e segue reanimado ao leito do atendimento médico, isso tudo faltando menos de dez minutos para o final.

Neste instante a torcida só vê uma saída, e entusiasmados clamam a entrada do nosso grande atleta, artilheiro e driblador... quem??? LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ... este grito ecoou quilômetros naquela tarde.

Imediatamente amarrou sua “bota”, se aqueceu e dá mais algumas alongadas e lá estava pronto para o que desse e viesse. E assim, na primeira oportunidade que tocara na bola, fez a maior seqüência de dribles até hoje já vistos, desde a intermediária não teve um adversário que não fosse vencido ao menos duas vezes, parecia que nosso serelepe estava possuído por forças cósmicas, sendo somente parado na pequena área pelo arqueiro rival, ferindo-lhe novamente sua recente lesão – o joanete.

A torcida toda sob o alambrado, bradando como nunca o nome do maior jogador de todos os tempos em nossa pequena e pacata PIANCÓ, nunca houvera tamanho furor até então, era somente os berros ao nosso herói... LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ... que levantou-se lentamente.

Bola na marca da cal (nas dezoito jardas), a torcida numa mistura de aflição e devoção pronta para invadir o campo, era um só coro LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ, LUIZ...  nosso batedor oficial tomara tanta distância e quando se vê está próximo do círculo central, partiu à bola como um touro e desferiu um petardo que nem Roberto Carlos (aquele da ajeitadinha na meia na Copa/2006) consegue chegar à metade da força, o goleiro pula em direção à bola, mas o que se vê é o estufar e o tremular da rede, o time todo em direção ao nosso grande herói, comemorando efusivamente, carregando-lhe nos ombros, coincidindo com o apito final.

Uma mistura de alegria com risos e choros, e apreensão, pois todo o time do Arabela corre para o juiz puxado pelo arqueiro que lhe apresenta o capotão encaixada em suas mãos, e aponta dizendo que somente a “câmara de ar” que entrara meta adentro.

De um lado toda a torcida vibrando com o gol salvador no último minuto da partida, do outro o protesto dos inconformados arabelenses, e por fim a dúvida que não estava nas regras, ou seja, nossas autoridades maiores em campo não puderam decidir se o gol seria ou não válido, algo inusitado até então. Fato é que os argumentos de ambas as partes não chegaram a uma conclusão tanto em campo, quanto na Liga Arabelense.

Como tal resultado elevaria uma das equipes ao campeonato Estadual do próximo ano, o caso foi levado ao julgo dos nobres postulantes dos tribunais de recursos da Federação Estadual de Futebol.

Depois de semanas de análises, e também não chegando num consenso resolvem encaminhar à CBD – Confederação Brasileira de Desporto, e após vários estudos, hipótese físicas, quânticas e análises de fotos dos objetos e relatos de todos envolvidos, conta-se que o jovem presidente daquela entidade que atendia pela graça de “João”, levou ao conhecimento da FIFA e até o prezado momento, não se tem o conhecimento do veredicto emitido pela entidade mor do nosso futebol mundial.

Quanta “DOR” dos nossos heróis piancoenses em não ter disputado o Estadual de 60, quanta “DOR” daqueles que se foram e descansam na paz eterna e com esta dúvida que atravessa décadas.

Pra mim, quanta dor na face e no abdômen ao ouvir esta e outras proezas.

 

Por Torero às 08h30

29/05/2009

Toreroteca

E vamos à toreroteca desta semana. Os jogos são estes:

Para começar, um clássico paulista: Santos x Corinthians.

Depois, uma revanche: São Paulo x Cruzeiro.

Um jogo fácil, para todo mundo marcar ponto: Internacional x Avaí.

Um duelo de rubro-negros: Flamengo x Atlético Paranaense.

A partida do líder da Série B: Paraná x Vasco.

E, para finalizar, coloco aqui o jogo final do campeonato de Rondônia: Vilhena x Gênus. Vencerá o time de Kukau, Jessé e Marciano ou o de Perereca, Kennedy, Guará e do artilheiro Marcos Canhoto?

Meus votos são Santos, São Paulo, Internacional, Flamengo, empate e Vilhena, claro.

O primeiro que acertar os seis jogos ganha o livro “A cabeça do futebol”, com textos de vários autores, entre eles Juca Kfouri, Xico Sá, Luiz Zanin e, para vosso azar, eu.

Desta vez, garanto que o livro sai. Se ninguém fizer os seis pontos, invento uma regra e mando o livro para alguém.

Por Torero às 00h30

As poderosas cordas vocais de Gabriel

E eis aqui mais um torcedor mirim cantando um hino para seu clube, no caso, o Santos. Gabriel será um tenor potente. Para vê-lo e ouvi-lo, clique aqui e prepare seus tímpanos.

Channel Icon

Por Torero às 00h28

28/05/2009

Barcelona 0 x 1 Ceará

Ontem vi a final da Champions League entre Manchester United e Barcelona.

Pensei que veria o melhor jogo dos últimos anos. Mas não.

Vi uma boa partida, porém, nada que possa ser chamado de “confronto do século”. Nem mesmo foi um duelo cheio de lances fantásticos e gols inesquecíveis.

O Manchester United começou jogando muito bem. Em oito minutos deu quatro chutes a gol. Mas, aos dez, no primeiro contra ataque do Barcelona, Eto’o (que tem um nome chato de escrever por conta do apóstrofo), deu uma bela arrancada pela direita e fez um a zero.

A partir daí o Manchester ficou nervoso, errou passes e virou um time comum. Para piorar, as estrelas pouco brilhavam. Rooney era ineficaz, Cristiano Ronaldo mostrava-se um tanto fominha (em parte porque estava isolado) e o Park não produzia nada. Aliás, nunca entendi porque este cara está no Manchester. Deve ser para fazer marketing no mundo oriental, pois o Tevez é bem melhor.

A beleza do jogo era mais a troca de passes do time do Barcelona, que era rápida e inteligente. Parecia que eu estava vendo uma partida de Winning Eleven. Mas não aconteciam grandes lances de gol. Neste sentido, gostei mais do jogo entre Ceará e Figueirense pela Série B na terça-feira.

Alguns dirão que esta comparação é uma heresia, mas estes não viram o jogo. Foram muitos, mas muitos lances de gol. A grande maioria do Ceará. Imagino que vários de seus torcedores tenham até ficado calvos de tanto arrancar os cabelos a cada gol perdido. Mas, enfim, só citei este jogo para dizer que no futebol você encontra beleza e emoção tanto com os dois elencos mais caros do mundo como num jogo de segunda divisão. Agora que já o disse, voltemos à final da Champions.

Não, não voltemos, não. Vi aqui na página de caderno em que anotava o que pensava durante o jogo, que escrevi: “Ferdinand x Fabão”. E anotei isso porque Fabão me parece bem melhor que Ferdinand. E Ramires melhor que Carrick, e Elias melhor que Scholes. Ou seja, alguns destes astros internacionais pelo qual muita gente derrama rios de baba, são jogadores medianos, que acabam sendo mais valorizados pela camisa que vestem do que pelo futebol que jogam.

Agora sim, voltemos ao jogo.

Depois do gol, foi a vez Xavi e Iniesta (esses dois são bons mesmo) mostrarem seu valor. Deram passes charmosos, levantadinhas inteligentes e dominaram o meio campo.

No segundo tempo, o Manchester voltou com Tevez no lugar de Anderson. Não me pareceu algo muito inteligente. O time inglês perdeu ainda mais o meio de campo e o inútil Park continuou em campo.

Pensei que o Manchester pelo menos voltaria com aquela ira santa dos que querem virar um jogo, mas nem isso. Tanto que quem perdeu a melhor chance foi o Henry, logo aos três minutos. Aos 25’ o Messi fez dois a zero de cabeça e acabou com o jogo. E quatro minutos depois o Puyol quase transforma o placar em goleada, mas perdeu um gol na cara do Van der Saar.

Queria que o Barça ganhasse, mas confesso que até torci para o Manchester fazer um golzinho e deixar a partida mais emocionante. Mas qual o quê... Tudo parava em Touré e Piqué, os zagueiros do Barcelona. Aliás, esse Piqué jogou muito bem. Não perdeu um lance. Esse sim, é melhor que Fabão.

Enfim, foi uma boa partida (principalmente pelo Barcelona), mas não um show inesquecível. Me diverti mais vendo Ceará e Figueirense. Às vezes a vizinha é mais bonita que a moça da novela.

Por Torero às 10h49

26/05/2009

Gabi e o Atlético

Quem quiser ver a pequena Gabi cantando o hino do Atlético Mineiro, clique aqui

gabi canta o hino do galo 

Por Torero às 08h17

25/05/2009

Abecê do findessê (como diria o Simonal)

Artilheiros: Os Kléberes de Santos e Cruzeiro, que marcaram dois gols cada um neste fim de semana, saltaram na frente na tabela de artilheiros. Furando o domínio kleberístico está Marcelinho Paraíba, que vem fazendo sucesso no Coxa. 

Barrichelo: Mais um segundo lugar. É uma sina.

Campineiros: Enquanto o Guarani segue com 100% de aproveitamento, vencendo suas três partidas, a Ponte tropeçou em casa e perdeu para o Ipatinga. Mas há que se compreender: a Macaca ainda está sob os eflúvios negativos da derrota para o Coritiba.

Dezoito: Foi o número de escanteios que o Barueri teve a seu favor no jogo contra o Corinthians. Se, como em algumas peladas de rua, o escanteio valesse meio gol, teria goleado.

Expulsão: Vuaden, o juiz tido como liberal, foi severo demais ao expulsar Dieguinho, do Fluminense.

Fartura: O Coritiba tem até aqui a defesa mais generosa do Brasileiro. Já tomou oito gols. Já os melhores ataques são de Náutico e Santos, também com oito tentos, só que a favor.

Gangorrismo: A Portuguesa é um time curioso. Subiu para a Série A em 2007, caiu para a B em 2008, e hoje subiria de novo para a A, depois da vitoria sobre o Figueirense. Trata-se de um caso crônico de gangorrismo.

Hesitante: É o Avaí, que esteve perto de vencer seus três jogos, mas acabou apenas com um tríplice empate.

Impenetrável: O Internacional é o único time que ainda não tomou no gol no Campeonato Brasileiro.

Josiel: O Santo André quase marcou o gol da vitória, mas a bola bateu na trave e, no contra ataque, Ibson fez um lançamento e Josiel, um golaço. Em trinta segundos a vitória mudou de mão. Ou de pé.

Lessa: Anderson Lessa, um cabeludo de 19 anos, com cara de cantor de banda de garagem, foi o herói do Náutico na virada sobre o Atlético-PR. Fez o gol de empate e depois o da vitória.

M: É a letra inicial de Molina, Madson e Maracanã. Ou seja, a vitória do Santos tinha mesmo que ficar nessa letra. O Peixe teve boas atuações destes dois jogadores e voltou a vencer no Maracanã, que já foi a segunda casa do time, e onde não vencia há cinco anos.

Nilmar: Mesmo com meio time reserva e jogando fora de casa, o Internacional conseguiu manter seus 100% de aproveitamento. É o favorito ao título neste começo de campeonato. Mas pode ser prejudicado pelas ausências de Nilmar e Kléber, que ficarão um mês com a seleção.

Ocasional: Diz-se daquilo que é casual, raro, eventual. Por exemplo, o gol de Gladstone. Nem parecia um zagueiro chutando, e sim um atacante de classe.

Paredes: Marcos e o jovem Denis foram os principais motivos do zero a zero no clássico paulista. Foram quatro grandes defesas do veterano e duas do novato.

Queixa: Começou a Série C do Brasileiro, mas ninguém falou muito nisso. Só para constar, o time mais interessante da primeira rodada foi o Ituiutaba, semifinalista no Mineiro, que venceu o Guaratinguetá (rebaixado no Paulista) por 3 a 0.

Ramires: Mais um que parte e que pouco vimos jogar. Triste, triste...

Silvar: Som agudo e prolongado, como o do apito dos juízes. O de Rodrigo Braghetto não silvou quando Miranda fez pênalti claro em Diego Souza. 

Tarimbado: Sinônimo de traquejado, experiente, versado. É o caso de Euller, o filho do vento. Com 38 anos, ele ainda está na ativa e marcou o primeiro gol de seu América (onde começou, em 1993) na vitória de 2 a 0 sobre o Gama, pela Série C.

Últimos: São o Atlético Paranaense na A e o ABC na B.

Virgem: O Atlético Paranaense continua virgem de vitórias neste campeonato. Desta vez, em casa, estava ganhando por 2 a 0 e perdeu. Os torcedores do time já podem começar a se preocupar.

Xenofobia: Historicamente, os times gaúchos são os que mais utilizam jogadores estrangeiros. E muitas vezes esta importação dá resultado, como no caso do argentino Maxi Lopez, que deu um belo passe no segundo gol do Grêmio, um passe sutil, inteligente e enganador como um conto de Borges.

Ziguezague: Foi o que fez Éder Luis no belo gol que marcou contra o Sport.

 

PS: Ninguém acertou a Toreroteca. Mas alguns chegaram bem perto, fazendo cinco pontos. Foi o caso do Guilherme, que só errou o jogo do Avaí, do Vítor, que não acreditou no Flamengo (aliás, com certa razão), e do Luís, que duvidou do Santos e por isso merece dez chibatas (como eu).

PS2: O filme sobre Wilson Simonal é ótimo. Boa edição, bom roteiro, bons entrevistados, umas vinhetas simpáticas e cenas de arquivo excelentes. Aliás, eu não sabia que o Simonal era tão bom assim. E nunca tinha entendido aquela história de dedo-durismo. Agora ficou explicado e é surpreendente.

 

Por Torero às 09h22

23/05/2009

*Sempre aos domingos: "Ser José não é para qualquer Mané"

 
 

*Sempre aos domingos: "Ser José não é para qualquer Mané"

Texto de Eduardo Corch

 São José dos Campos, sábado, bar do Zé:

-Zezinho, traz mais uma gelada e aipim, disse José Ricardo, o anfitrião!

-Pra mim, a picanha mal passada e uma caipirinha de frutas vermelhas, rebateu Mazé, de São José do Rio Pardo

-Uma cachaça de Minas, emendou Zé Maria, vindo de São José de Rio Preto

-Traz duas pra mim, disse a saudosista Josefa, de San Jose, Califórnia

Sem nenhum constrangimento, José, de São José dos Pinhais, tomava seu rabo de galo.

Mais uma vez, estava reunida a confraria do Josés.

O papo rolava solto, havia seis meses que não se viam. E, mais uma vez, enalteciam o nome dado pelos pais. A confraria tinha até brasão, um jota dourado acompanhado por um esse vermelho. Em letra maiúscula, fonte desenvolvida exclusivamente para o grupo.

A pauta do encontro era organizar um evento para prestar homenagem ao nome. Afinal, ser José não é para qualquer mané. Depois de muita briga, os homens venceram e decidiu-se organizar a primeira Copa José Youssef Yosef Joseph de Futebol!

Mas a discussão não parou por aí. Todos queriam sediar o campeonato. Ofereceram mundos e fundos para receber as partidas. Era porco no rolete, festas de abertura, coquetel de encerramento, desfile em carro de bombeiro, foto na primeira página do jornal da cidade, jóias, viagens, dinheiro....

Como bons botequeiros, tentaram palitinho, dois ou um, par ou ímpar, porrinha, moeda. A solução foi dada pela Joseana, mulher do Zezinho. Em voz alta, gritou lá da cozinha, enquanto fritava mais coxinhas:

-Chega de confusão no meu bar. Esse ano, o jogo será aqui mesmo, em São José dos Campos! E teremos o time dos políticos contra o combinado gringos e escritores.

O silêncio durou pouco e todos, animados, partiram para organizar o campeonato.  Conseguiram o primeiro patrocinador: Jose Cuervo, bebida oficial da competição.

E chegou o grande dia. São José dos Campos em polvorosa, recebendo o primeiro jogo. Estádio lotado, o circo armado, fogos de artifício, personalidades, prefeito, marias chuteiras, marias gasolinas, marias josés na arquibancada buscando o seu zé.

A confraria obviamente envaidecida com o sucesso do evento. José Ricardo, como membro anfitrião, toma o microfone e faz um longo discurso, explicando a origem do nome José:

-Em hebraico, vem do nome Yoseph, aquele que acrescenta, que sofre com os problemas alheios. E conserva o autocontrole mesmo nas piores situações.

Os times perfilados, ouvem o hino da competição: “Hey Joe, onde é que você vai com essa arma aí na mão”

Zé Carioca, o mascote da competição, incomodado com os gritos da torcida, chamando-o de Loiro José. Porteiro Zé, o outro mascote, visivelmente embriagado, tropeçava na linha lateral e despencava no gramado. A torcida delirava.

José Luis Datena, mestre de cerimônias, anuncia:

-E o time dos políticos vem no 3-5-2, com o vice-presidente José Alencar no gol. A defesa, formada por Trípoli, Serra e Aníbal.

-No meio, os petistas Cardozo, Dirceu, Genoíno, Mentor e Cirilo. E, formando o ataque, uma dupla de peso: Fogaça e Sarney, capitão, técnico, psicólogo, fisiologista e presidente da equipe.

Mas na prática, o esquema não funcionava... Ninguém entendia como jogavam. Sempre pelo meio ou direita...

-Não é possível, até os canhotos jogam pelo meio, dizia José Trajano, o comentarista que cobria a partida.

-Pois é, vejo um clarão no lado esquerdo, uma verdadeira avenida, complementou Datena, agora narrador.

E não parava por aí. Era uma confusão. Tudo era discutido, negociado, barganhado.

-Serra, passa a bola pra mim! Estou livre, dizia o impaciente José Dirceu, sozinho no meio da área.

-Se você passar pro Dirceu, no próximo pênalti quem bate é você, gritou Genoíno.

-E se não tiver pênalti no jogo?, perguntou o sempre nervoso Serra ainda com a bola nos pés.

-Ah, a gente compra um. O juiz está no esquema, responderam em coro vários jogadores.

Josefa, aproveitando seu livre trânsito no mundo das celebridades fez um grande trabalho e montou uma verdadeira constelação.

Trouxe um combinado de gringos e escritores para participar do torneio. Percebia-se que eram diferentes, começando pelo esquema.  Um ousado 3-4-3!!!

Na defesa, os três tenores, ou melhor, os zagueiros: Carreras, Cocker e Satriani. Dava gosto de ver... afinadíssimos, sincronizados, não saíam do tom. Perfeitos!!

No meio, quanta classe. José de Alencar, José Miguel Wisnik, José Lins do Rego e José Roberto Torero. Alternavam passes longos, tabelas curtas, inversões de jogo. Não faziam falta. E não perdiam a chance de usar a caneta, ou melhor, meter a bola embaixo das canetas. No ataque, os brilhantes, temperamentais e letais Stalin, José Mourinho e José Saramago.

E tudo corria bem, o time jogava bonito, encantava, parecia a seleção de oitenta e dois. Mas, em um lance isolado, tudo mudou. Cocker tinha a bola nos pés, nenhum adversário para ameaçá-lo.

-Toca pro José, gritou uma morena alta, ao lado do alambrado

-Mas para qual deles?, retrucou Cocker

-Ah, qualquer um, solta a bola!

E assim fez Cocker, recuando a bola para Jose Maria Aznar, o goleiro. O jogo estava tão fácil que Aznar, encostado na trave, lia tranquilamente os Lusíadas. Assustado, não pegou a bola com os pés e sim camões, ou melhor, com as mãos. Falta em dois lances! Quase tomaram o gol.

Mas era o prenúncio que algo errado iria acontecer. E não deu outra. José de Alencar fez um lançamento de cinquenta metros para Stalin, que avançou pela esquerda, como um raio. E sem perder tempo, cruzou, buscando Saramago.

-Rá rá, rá, impedido, apontou o juiz José Simão, soprando seu apito dourado.

-Ei juiz, tá ficando cego?, berrou Saramago, já na marca do pênalti.

Pânico no estádio... medo que fosse uma epidemia... Gritaria, histeria, desespero

Os gringos voltaram rapidamente a seus países. Os políticos, mandaram buscar seus jatos, Brasília não estava tão longe. Os escritores nem as chuteiras tiraram, saíram em disparada pela Dutra, uns para o Rio de Janeiro, outros para São Paulo.

Fim de jogo!

(*O Sempre aos Domingos é uma seção em que publico textos dos leitores. Nem sempre é aos domingos, como hoje, que é sábado)

Por Torero às 10h30

22/05/2009

Toreroteca

E eis que está de volta nossa velha e boa Toreroteca.

Para quem não conhece, as regras são as seguintes: o primeiro que acertar o resultado dos seis jogos escolhidos ganha um livro (infelizmente, meu). Só para lembrar aos varões, as duas últimas foram vencidas por mulheres. Vamos reagir! 

Bem, para começar o primeiro jogo é o clássico paulista: Palmeiras x São Paulo.

O segundo é Santo André x Flamengo, um jogo difícil de acertar.

O terceiro é Sport x Atlético-MG.

O quarto é Fluminense x Santos.

O quinto é sulino: Avaí x Coritiba.

E, por fim, Grêmio x Botafogo.

Meus palpites são: Empate, empate, Sport, Fluminense, empate e Grêmio.

Por Torero às 07h13

21/05/2009

Os quatro gols do apocalipse

Na semana passada perguntei aos leitores qual o gol mais dolorido que seus times levaram. Vários exemplos foram citados, mas quatro ganharam longe dos outros.

Pensei que, em termos de gols da seleção, o da Copa de 1950 seria muito lembrado. Mas me enganei. Provavelmente porque quem o viu já  embarcou na nau de Caronte. Mas, em compensação, outro gol da seleção ficou em quarto lugar. Dou-lhe o tempo desta frase para pensar em que gol foi esse.

Sim, você acertou, foi o gol de Paolo Rossi naquele fatídico 3 a 2 da Copa de 1982.
 
De minha parte lembro que, quando aconteceu aquele gol, me veio uma sensação de injustiça. Aquela seleção era espetacular. Se vencesse a Copa, talvez viesse a ser mais festejada que a de 70. Mas não, ela perdeu. E um mesmo carrasco fez os três gols. O primeiro me pareceu um mero acaso. O segundo, um raro desastre. O terceiro, uma sina fatídica.

Foi um gol que causou tristezas imensas, como no caso de Grafir, de Salto, que tinha 12 anos na época:

“A vida apenas sorria para mim e eu sorria de volta para ela. Amava e vibrava com aquele time de 82. No meu time de botão, sob a narração de Zé Silvério, aquela escalação era um poema! A minha mente infantil não era capaz de imaginar que sortilégios seriam possíveis para que as coisas dessem errado naquele time de sonhos. Mas deram... E naquele dia aprendi que nem sempre a sorte premia o mérito, nem sempre a justiça premia o talento e nem sempre a vida é bela!!! E uma lágrima, a mais sofrida de toda minha vida esportiva, rolou na minha face naquele dia. Só uma! Silenciosa. Sofrida. Desiludida...”

 Paolo Rossi levanta a taça que deveria ser nossa.

Mauro Chazanas, de São José do Rio Preto, ficou em estado de choque e só deu por si quando já era madrugada. De certa forma, aquela derrota marcou-o para sempre: “Nunca mais consegui torcer pra seleção brasileira de futebol com a mesma paixão.”

E alguns, com André, de São Paulo, ainda tiveram que enfrentar a fina ironia do destino: “O almoço logo depois do jogo foi uma bela macarronada!”


Tristeza tricolor I

O São Paulo, time acostumado a vitórias e conquistas nas últimas duas décadas, também teve momentos de profunda dor, tanto que colocou dois gols entre os quatro mais doloridos. Um foi bem recente. Quem conta é o leitor Cleberson Costa:

“São Paulo x Fluminense, Libertadores de 2008. Como esquecer aquele gol do Washington? Até hoje olho pra ele com a camisa tricolor meio desconfiado. A jogada inteira ainda está na minha retina, estávamos nas cadeiras do Maracanã, apreensivos que o jogo não terminava, quando, aos 47', o Adriano perdeu a bola pro Thiago Silva, contra-ataque do Flu, escanteio, bola na área, o Rogério Ceni não saiu, Alex Silva e mais dois defensores não cortaram, bola no barbante... Daí em diante, lembro de ter chorado, quase esqueci meu amigo no estacionamento (consequentemente no Rio), estava cego. Queria logo pegar a Dutra e retornar a São Paulo, fingir que aquele dia ou aquele gol não existiram. Ainda hoje, quando ameaçam mostrar aquela imagem troco de canal.”

Outro são-paulino que viu aquele gol ao vivo foi Gilmar Gomes. E, como Deus é um sujeito um tanto masoquista, era a sua estréia no estádio carioca: “Como era a primeira vez no Maraca e o jogo estava terminando, liguei para minha mulher e meus filhos (Victor e Marcus, santistas), que ficaram em Sampa, para dizer que eu estava bem e o tricolor iria passar de fase. Quando desliguei o telefone veio a bomba. Washington acabou com minha alegria. Peguei o táxi rumo ao hotel, não dormi. Não acreditava naquilo, queria esquecer o futebol. Quando enfim cheguei em casa com as fotos do Maraca, não segurei as lágrimas. Nem meu filho mais velho quis tirar um sarro.”

Já o Guilherme viu o jogo em casa, mas não foi menos dolorido. Pelo contrário. Houve até um requinte de crueldade: “Minha TV tem atraso na transmissão, então ouvi os gritos no bar perto de casa na hora da cobrança da falta, quase virei a cara pra não ver.”

 O carrasco Washington, que agora está do outro lado.

Porém, quem sofreu mesmo foi o Thiago Esteves Nogueira: “Eu fiquei tão puto que, quando minha namorada me ligou pra me zoar, eu terminei com ela e fui pra balada me divertir e flertar com algumas moças. Na semana seguinte, voltei pedindo desculpas e estou com ela até hoje. Ainda bem que minha namorada não sabe o que eu fiz (as chances dela achar esse comentário são pequenas, né Torero?).”

Depois diga se ela leu a reportagem, Thiago.


Tristeza tricolor II

O gol de Washington foi dolorido. Mas o de Giovani, na decisão da Copa do Brasil de 2000, teve um voto a mais (13 a 12). Ele teve todas as qualidades de um gol trágico: era uma decisão, aconteceu no último minuto e deu-se num lance inesperado.

Se você não lembra, é só ler o depoimento do Fernando Rosas:

“Tínhamos a vantagem do empate e vencíamos por 1 a 0. Na TV, a imagem era da torcida cruzeirense chorando. E eu, em casa, até sentia certa pena. Faltavam menos de 5 minutos, e o Cruzeiro empatou. Já nos acréscimos, em cobrança de falta que passou caprichosamente sob a barreira, o Cruzeiro virou e se sagrou campeão. Primeiro veio o desespero, depois o choro, depois a raiva e a insanidade. Arranquei o papel de parede do meu quarto, joguei coisa pra cima e pra baixo, soquei a parede com muita força e fiquei com a mão doendo durante um bom tempo. Depois disso, continuo fanático, mas aprendi a me controlar melhor!”

O Pedro, porém, não aprendeu: “Até hoje, quando vejo este último gol, eu choro. E odeio qualquer Giovani, Geovani, Geovanni etc.”


O campeão dos não-campeões

Mas o gol mais lembrado, com 16 votos, foi o de Ricardinho, na semifinal do Paulista de 2001. O Santos estava há 17 anos na fila, e um título, qualquer um, seria uma benção sem igual. Para piorar, o adversário era seu arquirrival Corinthians. E, é claro, o gol saiu nos últimos segundos.

Eu, como santista, lembro bem. O jogo ia até os 48 minutos e já passávamos dos 47 e meio. Então Gil, lá na esquerda, deixou o zagueiro André Luiz (sempre estabanado) no chão e cruzou. Marcelinho inteligentemente deixou a bola passar e ela sobrou para Ricardinho, que chutou de primeira e colocou no cantinho.

 Ricardinho acertou o cantinho e o coração de muitos.

Um belo gol, um gol horrível. Um gol que provocou grandes dores. Fernando Gondim, de Fortaleza, ficou meia hora debaixo do chuveiro, sentado no chão frio e revoltado com o acontecimento. “Não pude conter as lágrimas. Dizem que é feio homem chorar, mas acho que também misturei um pouco com a tristeza que eu sentia, pois era dia das mães e eu já estava saudoso, lembrando-me da minha que já não estava conosco.”

E o gol foi tão frustrante que ficou na cabeça dos torcedores santistas por muito tempo. Inclusive em situações inesperadas, como  no caso do Rodrigo:

“Cinco minutos depois que acabou o jogo, tocou o interfone. Era uma moça com quem eu saía e que iria virar minha namorada. Veio me buscar para darmos uma saída ao motel (eu já tinha combinado isso antes do jogo...). E lá fomos nós... Lembro que, durante o tempo que estava com ela, o gol do Ricardinho não saía da minha cabeça.”

Triste, triste...

 

Por Torero às 07h24

20/05/2009

Não é fácil ser bígamo

(Texto publicado ontem na Folha de S.Paulo)


Polígamo leitor, poliândrica leitora, vou lhes dizer algo que vocês já sabem: a bigamia dá trabalho. É o desejo de muitos e a conquista de alguns. Mas é preciso muito preparo físico, gastos dobrados e concentração total.

Mesmo assim, é inevitável que você acabe dividindo sua energia entre seus dois cônjuges e, por conta disso, pode acabar perdendo um deles. Ou ambos. Quer um exemplo? É só olhar para alguns clubes brasileiros.

O Coritiba é um caso típico. No meio de semana, vai disputar as quartas de final da Copa do Brasil contra a Ponte Preta (2 a 2 no primeiro jogo, em Campinas). Por isso, no último sábado, entrou em campo com seis reservas. E acabou perdendo por 4 a 2. Em casa. O Grêmio, que jogou pela Libertadores no meio de semana (venceu o San Martin, passando para as quartas, onde pegará o Caracas), acabou perdendo para o Atlético Mineiro, que, agora, eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória, é um time monogâmico. Só lhe interessa o campeonato nacional.

O Cruzeiro está na Libertadores (enfrentará o São Paulo) e jogou sem seus principais atacantes: Kléber (poupado) e Wagner (no departamento médico). O Náutico está só no Brasileiro. Resultado, Náutico 2 a 0 (e o gol de Carlinhos Bala foi o mais bonito da rodada).

Mas o problema não é só a troca de titulares por reservas. Não é só pela necessidade de poupar jogadores, ou pela facilidade de perdê-los por contusão, que a bigamia ludopédica é um caminho complicado. Às vezes, mesmo que você ponha todos os titulares em campo no Brasileiro, o time está pensando no jogo da outra competição. Os corpos entram em campo. As cabeças, nem tanto.

É o caso do Flamengo, que está disputando as quartas de final da Copa do Brasil contra o Internacional (0 a 0 no primeiro jogo, no Maracanã). O time usou seus titulares, mas entrou pensando no jogo de Porto Alegre e, em casa, apenas empatou com o Avaí. Outro caso: o São Paulo e sua torcida são viciados em Libertadores.

Para os tricolores, as quartas-feiras valem mais que os domingos. Por conta disso, começaram o campeonato com o freio de mão puxado. E ontem o São Paulo empatou em casa com o Atlético Paranaense, que, eliminado da Copa do Brasil, já não disputa nenhuma competição paralela. Fluminense e Corinthians, que devem fazer um grande jogo amanhã pela Copa do Brasil, apenas empataram contra times mais fracos, Barueri e Botafogo (ouço, ao longe, tímidos protestos botafoguenses), que se dedicam exclusivamente ao nacional.

A única exceção nesta rodada foi o Vitória, que está na Copa do Brasil e venceu o monogâmico Sport. Mas não é uma exceção tão marcante. O time pernambucano vem de ressaca: a derrota para o Palmeiras. E o Vitória já está praticamente divorciado da Copa do Brasil, pois, para não deixá-la, terá que vencer o Vasco por uma diferença de cinco gols.

Em resumo, neste fim de semana apenas um time bígamo que enfrentou um time monogâmico venceu. Mesmo assim, aposto que todos os monogâmicos estão com inveja dos bígamos e fariam de tudo para trocar de lugar com eles. No futebol, é claro.

Por Torero às 09h50

18/05/2009

O outro lado dos fatos

(Dois posts abaixo está minha versão de uma prova de 10 km, na qual venci o senhor Marcelo Lyra. Como ele exigiu seu dureito de resposta, coloco aqui como foi a corrida de acordo com suas palavras:)

1km: Dia lindo em meio a um monte de gente animada e ao meu lado, percebo que Torero descuidou do regime. A barriguinha é quase uma garantia de vitória fácil para mim.

2km: Torero ainda está ao meu lado. Vou tentar fazer um trocadilho. Ou ele vai rir ou retrucar com um melhor. Nos dois casos, vai perder fôlego.

3km: Passei o Torero. Agora ele vai ver quantos quilos se afunda uma canoa. Ou quantos quilômetros perde por quilo.

5km: Não consigo abrir muita vantagem, mas ele não respondeu ao segundo trocadilho sobre o fato do meu dinheiro do bolso já estar empapado de suor e que, no final, eu ia pagar um sorvete com o dinheirinho suado. Sinal que nem agüenta falar. Ou que o trocadilho foi muito infame.

6km: Percebo que o Torero, agora ao meu lado, está mais escuro. Acho que o cansaço esta causando escurecimento parcial da minha visão. Só depois de alguns minutos percebo que, na verdade, ele estava indo pela sombra.

7km: Jogaram vários copos de água no meio da pista. Alguns corredores deixaram a educação para trás. Tropeço e quase caio. Nesse rápido instante pensei que uma barriga não seria mal. Um air bag protegeria no tombo. Pior seria ele pensar que fingi tropeçar como desculpa para a derrota.

8km: Chegamos à praia. Começo a ficar para trás. Bem que podia aparecer um padre para me agarrar e eu ter uma desculpa boa para a derrota. Pensei isso porque o Wanderley Cordeiro tinha passado por nós.

9km: Com vergonha de perder para os quinze quilos a mais dele, encontro forças para quase emparelhar.

10km: Perdi por seis segundos! Depois de quase 52 minutos de corrida, perder por seis segundos é como perder o campeonato nos pênaltis depois sair ganhando e ceder o empate nos dois jogos das finais. Finalmente entendi o que é ser botafoguense. Ganhei o troféu Rubens Barrichello.

 

Por Torero às 21h31

ABC da rodada

Artilheiro: Um dos artilheiros da rodada foi um zagueiro, Rafael Santos, do Atlético-PR.

Banco: Está ficando lugar comum dizer que o Inter tem o melhor conjunto de jogadores do Brasil. E parece ser verdade. Contra o Palmeiras, mesmo com vários reservas, ganhou por 2 a 0.

Cruzeiro: Jogou sem Kléber e Wágner, logo, não marcou gols e perdeu por 2 a 0 para o Náutico.

Desforra: Celso Roth, que recentemente saiu do Grêmio e agora dirige o Atlético-MG, venceu o time gaúcho. É claro que o técnico vai dizer que não sentiu o sabor agridoce da vingança, mas que ontem deve ter dormido muito bem, deve.

Erro: O bandeira não viu o impedimento de André Lima, que marcou o gol de empate do São Paulo contra o Atlético Paranaense.

Figueirense: O time tem o artilheiro isolado da Série B, o promissor atacante Rafael Coelho, que fará vinte e um anos esta semana.

Goleiros: Felipe e Renan fizeram boas defesas e foram os principais responsáveis pelo zero a zero entre Botafogo e Corinthians.

Haicai: Forma de poesia japonesa com três versos, de cinco, sete e cinco sílabas. Por exemplo: Hoje o Mengão, cairia para a Bê, como o Timão. 

Implacável: Foi a conquista do campeonato alagoano pelo simpático ASA de Arapiraca. O time venceu os dois turnos e não deu chance para ninguém.

Jejum: O Santos completa hoje um mês sem vitória.

Líderes: Os dois únicos times que venceram seus dois jogos foram Internacional e Vitória. Ontem, o campeão baiano passou pelo Sport, seu inimigo regional.

Mancini: Errou feio ontem. Puxou Pará da lateral para o centro da zaga a fim de montar uma defesa de três zagueiros, mas Pará não é zagueiro (nem pulou no cruzamento do gol de empate). Para o espaço que era ocupado por ele, Mancini descolocou Mádson, até então o melhor jogador do Santos. Mas Mádson não é um ala eficiente na defesa. Resultado: A retranca incompetente permitiu dois gols e o empate do Goiás.

Neto Baiano: Fez o gol da Vitória neste domingo e foi o artilheiro do Campeonato Baiano. Está se destacando e pode não acabar o ano no Vitória.

Opção: O Coritiba optou claramente pela Copa do Brasil. E está pagando o preço. É o único time que não marcou ponto no campeonato. Em compensação, deve passar pela Ponte e chegar às semifinais.

Pezão: Atacante do Araguaia, que disputou ontem a final do Campeonato Mato-Grossense contra o Luverdense. Foram dois jogos e dois empates. A decisão foi para os pênaltis. Pezão e Newman erraram, e o Luverdense ganhou seu primeiro título estadual. 

Quina: Cinco são os artilheiros do Brasileiro até agora. Três atacantes (Marcelinho Paraíba, Carlinhos Bala e Felipe), um zagueiro (Rafael Santos) e um volante (Rodrigo Souto).

Reservas: O Fluminense, mesmo com cinco reservas em campo, conseguiu um empate com o Barueri. Não chega a ser bom, mas está longe de ser mau. Se não fosse o goleiro Renê, o time carioca poderia ter vencido.

Seis: Foi o número de reservas do Coritiba que começou o jogo contra o Santo André. E foi também o número de gols da partida, dois para o time da casa e quatro para o visitante. No duelo entre os Marcelinhos, o Carioca venceu o Paraíba.

Tarimbado. O vice-artilheiro da Série B é o veterano Edivaldo, que já passou por vários clubes cariocas. Com 35 anos, o veterano jogador já fez três gols pelo Duque de Caxias.

Vasco: Começou muito bem o campeonato. Mas ainda é cedo para dizer que pode vencer a Série B com a mesma facilidade que teve o Corinthians no ano passado. Este ano parece haver outros times que se destacam, tanto que cinco equipes conseguiram ganhar suas duas primeiras partidas.

Xampu: Carlinhos Bala deve gastar pouco, já que só tem um tufo de cabelos. Mas não importa. O que vale é que ele fez o gol da rodada.

Zagueiro. Kléber Pereira anda perdendo muitos gols. Mas no jogo de ontem não só perdeu alguns gols como deu uma de zagueiro e evitou um gol do Santos. 

 

Por Torero às 00h03

17/05/2009

Minha barriga na maratona de um milhão de centímetros

Acabei de participar de uma prova de 10km aqui em Santos. Quer dizer, acabei a prova lá pelas 10h00 da manhã, mas só agora recuperei o fôlego.

Foi uma prova bonita e bem organizada. Mas, como em todas as provas há vários sentimentos durante o percurso. Transcrevo abaixo o que senti em cada quilômetro

1km: Ah, como é bom ver tanta gente correndo, quer dizer, andando, pois nesse primeiro quilômetro a gente fica meio embolado e só consegue dar uma trotadinha.

2km: Ah, como é bom correr. O sol brilha e me sinto saudável.

3km: Ops, meu amigo Marcelo passou por mim. Vou acelerar para alcançá-lo.

4km: Estou seguindo o Marcelo de perto. Mas minhas costas começam a doer. E esse sol... Ah, como eu gostaria de um dia nublado...

5km: Pena que a prova não seja de cinco quilômetros... O pior é que o Marcelo não parece cansado. Tanto que faz uma piada quando passamos em frente ao Lar das Moças Cegas. Diz que, como elas não ouvirão o barulho dos carros, vão atravessar a rua e serão atropeladas pelos corredores. Até acrescenta: ‘No ano passado morreram duas aqui’. A piada é boa, mas não rio para não me cansar.

6km: Odeio o sol... Marcelo, que é magro, parece não sentir o calor. Eu corro pela sombra. O cara vai pelo sol.

7km: Estou lado a lado com meu algoz, digo, amigo. Ele quase tropeça e cai, mas se recupera. Droga!

8km: Finalmente chegamos à avenida da praia. É a parte mais bonita da prova. Mas não vou gastar energia olhando para o lado. Cada centímetro custa para ser vencido. E a prova tem um milhão deles. Meu corpo me envia vários sinais. As pernas dizem: “E se a gente virasse para o outro lado e fosse para casa?”. Meus pulmões gritam: “Calma que somos apenas dois!”. E minhas costas sugerem com maldade: “Pega a cadeira de rodas desse cadeirante, pega...”

 Notem o ar preocupado do corredor japonês. Preocupação clínica, é claro, porque o cara é médico. (Foto tirada por Laurinha Castanho, amiga do Lelê)

9km: Ainda estou do lado do maldito, digo, camarada Marcelo. Para os dois passa a ser uma questão de honra chegar na frente do outro. Ele, magricelo, não quer perder de um barrigudinho. Eu, um garoto de 45 anos, não quero perder de um velho de 47.

10km: Hump!, Argh..., Rrrr!, Blarg… Ganhei! Por uma barriga de diferença, mas ganhei! E ainda querem que eu faça regime.

 

Por Torero às 13h36

15/05/2009

Gol, o momento mais dolorido do futebol

Talvez os gols doloridos fiquem mais em nossa memória do que os gols redentores. Pelo menos foi o que senti nas respostas à questão desta semana: “Qual o gol mais dolorido que você já sofreu?”

Em cinco horas chegaram mais de 100 comentários. E foram comentários longos, com lembranças claras e vívidas, assim como aquelas feridas que não conseguem se fechar e parecem que ficarão soltando pus para sempre.

Graças aos depoimentos dos leitores pude identificar vários tipos de gols doloridos.

Um deles é o gol marcado por um ex-jogador. Trata-se de um gol que magoa profundamente, pois se assemelha a uma profunda traição. O torcedor pensa: “Como é que aquele jogador, que dizia amar tanto o meu clube, pôde fazer um gol contra nós? Ele nasceu aqui, beijou o símbolo e agora nos tira essa vitória?”

Há muitos destes casos espalhados pelo Brasil. Sidão, de Campinas, lembrou o célebre gol feito por Careca contra o Guarani em 86, na decisão do título brasileiro. E Nilo Sérgio, torcedor do Flamengo, foi um dos que lembrou do gol de Barriga de Renato, pelo Fluminense: “A pior coisa é um gol de barriga feito por um ex-jogador do seu time, em um cruzamento de um outro ex-jogador do seu time”.


Dores inesperadas

Outro tipo que nos faz sofrer é o gol inesperado. É mais ou menos como quando você vai ao dentista fazer uma reles limpeza e acaba tendo que arrancar o dente do siso. É uma dor que não era para acontecer, seja pela fragilidade do adversário, seja pelo absurdo da jogada.

Os flamenguistas, por exemplo, hão de lembrar dos gols da derrota para o América do México. Pelo menos, o Gabriel Teixeira não consegue esquecê-los: “O primeiro foi um lance bizarro onde a bola bateu nas costas do defensor e encobriu o Bruno. O segundo, minutos depois, foi num contra-ataque absurdo”. E, no terceiro, “o tal do Cabañas disparou e a bola desviou na barreira, o que fez a bola tomar outra direção. Fiquei uns 5 minutos parado sem acreditar.”

Já o santista João Leite não esquece de um gol do Olaria: “O Santos tinha Cejas, Rildo, Carlos Alberto, Clodoaldo, Pelé, Edu, e por aí vai. Campeonato Brasileiro. Jogo enrolado. Aos 38 do segundo tempo, a maior tristeza: cruzam a bola da direita, alguém do Olaria mata no peito, dentro da área e dá a bicicleta. Gol! Golaço! “

Sim, caros leitores, o Santos tomou um gol de bicicleta do Olaria e em plena Vila Belmiro. Ainda bem que este eu não vi.


O doloroso não-gol

Curiosamente, vários corintianos lembraram não de um gol, mas de um não-gol: aquela defesa de Marcos no pênalti batido por Marcelinho na semifinal da Libertadores de 2000.

Aylton Affonso diz que socou a parede de raiva e quase quebrou a mão. Depois foi para a janela e xingou os vizinhos que comemoravam. “Olha que minha esposa é palmeirense... Até ela ficou condoída com meu profundo desespero. Não conseguia dormir depois, foi um sufoco!”

Para Arthur Lobo, que estava no estádio, a defesa de Marcos foi mais dolorida ainda: “Estava com mais uns 5 ou 6 amigos, todos para ver o Marcelinho (o cara quase não perde pênalti) bater o pênalti. Quando o Marcos defendeu, ficamos mudos. Um silêncio de velório por uns 20 minutos. Foi tão traumático que nunca mais voltei num estádio.” 

Dores decisivas

Mas os gols adversários que mais doem são os que acontecem em decisões. São gols que estragam a história do clube, que ficam para sempre na memória, gols que volta e meia nos atormentam em forma de pesadelos ou reportagens especiais.

Vários vascaínos lembraram do golaço de falta de Petkovic em 2001, o corintiano Benjamim citou os gols de Robinho, Elano e Léo na final do Brasileiro de 2002, e Jonara, de Salvador, lembrou do gol do Sport na final da Copa do Brasil de 2008: “Minha televisão tinha quebrado e eu estava escutando o jogo pelo rádio. De uma hora para outra, o locutor gritou: ‘Que frangaço... Gol do Sport!’ As lágrimas vieram aos olhos, pelo desespero do segundo gol, pelo desespero de não estar vendo o jogo para ajudar o meu Timão, pela dor que o Felipe tava sentido no momento.”

Porém, alguns torcedores conseguem extrair profunda filosofia e aguda psicologia destes momentos. Foi o caso do são-paulino Fábio Ferreira, que, sobre o gol sofrido na final da Copa do Brasil de 2000, diz: “Lamento o gol até hoje. Sei que pensei o que sempre penso nessas horas: por que eu tenho que sofrer para que outros sejam felizes? Como diz o Homer: ‘As vezes a única maneira de se sentir bem com você mesmo é fazer alguém se sentir mal. E estou cheio de fazer outras pessoas se sentirem bem com elas mesmas.’”


Dores globais

Mas se levar um gol numa decisão já dói, imagine numa decisão de mundial.

“Eu tinha 15 anos ná época, estudava pela manhã, e no dia da final eu teria uma prova importantíssima no colégio, mas eu não fui para ver o Verdão ser o campeão do mundo. Foi uma dor profunda e indescritível, porque o Verdão foi superior ao Manchester durante o jogo, mas o milionário time inglês acabou ganhando e ficando com o título”, conta Diego, de Salvador.

Jefferson, de Guarulhos, tem uma história parecida para o mesmo jogo: “Eu tirei folga no serviço, vesti a camisa da sorte, pendurei a bandeira na janela e grudei os olhos na TV para ver o meu Verdão ser campeão do mundo. Mas nada disso adiantou quando Giggs passou por Júnior Baiano e cruzou a bola, que caprichosamente passou a milímetros da mão de São Marcos. Se havia alguém que não merecia essa má sorte era ele.”

E o vascaíno Daniel era adolescente quando seu time perdeu o Mundial para o Real Madrid: “Eu não podia acreditar no que via. Tinha dezessete anos e desandei a chorar como um garotinho. Meu pai apenas tentou me consolar lembrando os versos de Gonçalves Dias: ‘Não chores meu filho’.”

A dor maior

Mas o gol mais dolorido mesmo foi o sofrido por André Barbosa, de Santo André:

“Ô, rapaz, o gol mais dolorido que sofri foi na sexta série. A gente tava jogando contra os caras da oitava, aí o sujeito chutou e a bola, aquelas bolinha de salão antigas, sabe, parecia um tijolo redondo, então, a bola bateu em cheio entre as minhas duas virilhas e no rebote o cara fez o gol. Rapaz, doeu demais.”

 

PS: Quatro gols foram tão mais lembrados que os outros que decidi fazer um texto especial para eles na próxima semana.

 

Por Torero às 03h02

O troco

Lembram daquela propaganda que a Nike fez logo depois da conquista do Corinthians? Ela mostrava um peixe embrulhado num jornal em que se lia "Corinthians campeão invicto".

Foi uma piada muito boa. Mas houve protestos de santistas mal-humorados e a Nike tirou a propaganda de seu site.

Porém, agora santistas bem-humorados resolveram dar o troco em charges e fotopiadas, e algumas são bem interessantes. Clique aqui

Por Torero às 01h04

14/05/2009

Qual o gol mais dolorido que você já sofreu?

Caro leitor, adorada leitora, quero fazer cá um texto sobre gols terríveis, sobre aqueles gols que são quase como facadas em nosso peito. Para isso, preciso saber qual o gol mais terrível que você já sofreu? Qual o gol que fez você pensar que suicídio até que não é má idéia? Qual o gol que fez você derramar lágrimas amargas?  

O meu, só para exemplificar, foi o de Ricardinho, pelo Corinthians, nas semifinais do Paulistão de 2001. Aos 47'48'' do segundo tempo, ele fez o gol que tirou o Santos da decisão contra o Botafogo, que, como se viu depois, seria moleza.

O Santos não ganhava um campeonato há dezessete anos. E por doze segundos não chegamos à final.

Eu estava num quarto e meu pai noutro, cada um numa tevê. Só escutei o palavrão vindo de lá.

Depois levantei, passei pelo meu pai, que soltou outro palavrão, e fui andar na praia. Lembro que caía uma garoinha fina, deixando o dia ainda mais triste. E não havia quase ninguém nas ruas. Era como se uma grande peste tivesse se abatido sobre a cidade. Parecia que o Santos era um time em extinção, que sofria de uma doença terminal e estava fadado a uma morte lenta e cruel.  

Mas aí veio 2002 e a geração de Robinho. Só que isso é outra história.

Bem, diga aí qual foi o seu gol mais dolorido. Pode ser de uma decisão, de um jogo comum, de uma partida em que você estava no campo ou viu pela tevê. O que você disse? O que você fez depois? O que sentiu?

Por Torero às 16h56

Dois livros para bolósofos

O primeiro é coletânea "A cabeça do futebol" (Editora Casa das Musas, 2009, R$ 25,00). elaborado por  Gustavo de Castro (professor da UnB), Samarone Lima (jornalista e escritor no Recife), e Carlos Magno Araújo (jornalista em Natal).

A idéia era descrever a emoção, a imaginação e a racionalidade futebolística.

Para isso convidaram alguns craques do jornalismo e da literatura, entre eles: Enrique Vila-Matas, Fabrício Carpinejar, José Roberto Torero, Juca Kfouri, Raimundo Carrero, Juremir Machado da Silva, Daniel Piza, Vladir de Sá Lemos, Luiz Zanin Oricchio, Humberto Werneck, Sérgio Xavier Filho, Moacy Cirne, José Castello e Xico Sá.

São crônicas, poemas, ensaios e contos que justificam a velha máxima: o futebol é uma paixão nacional, seja qual for o ponto de vista.

E o segundo livro é "Futebol Brasileiro: Um Projeto de Calendário", de Luis Filipe Chateaubriand (mestre em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas), que está sendo comercializado em www.publit.com.br por R$38,05.

Tico e Teco não gostaram nada, nada das idéias de Luis Filipe.
 
 

Por Torero às 10h57

12/05/2009

O verdadeiro Menino Maluquinho

(A partida do goleiro Marcos contra o Sport foi tão brilhante que vou republicar aqui, com modificações, um texto que fiz sobre ele para a Folha, no ano passado).

 


Jovial leitora e infantil leitor, vós já lestes "O Menino Maluquinho"? Eu já. E algumas vezes. É um delicioso livro escrito em 1980 pelo Ziraldo, um imenso sucesso que já vendeu quase três milhões de exemplares. Ele conta a história de um garoto alegre e sapeca, que fazia as coisas que tinha vontade.

Agora, eu vos pergunto: em que posição jogava o Menino Maluquinho em suas peladas de futebol? E eu vos respondo: goleiro. Nada menos do que dez páginas do livro são gastas para contar a vida de goleiro do Menino Maluquinho, posição em que ninguém quer jogar quando criança, mas que ele abraçou com gosto e graça.

Pois bem, no fim do livro o menino cresce e não sabemos que profissão ele seguiu. Porém, desconfio seriamente que ele seguiu a carreira de goleiro. E mais ainda: desconfio que ele tornou-se Marcos, do Palmeiras. Os sinais são claros. Em primeiro lugar, Marcos nasceu em 1973, ou seja, tinha sete anos quando foi lançado "O Menino Maluquinho", que provavelmente também tinha esta idade.

Outro sinal é que ambos fazem o que lhes dá na telha. Por exemplo, enquanto a maioria dos jogadores venderia a mãe para jogar no exterior, ele decidiu não ir para o Arsenal em 2003. É bem verdade que Marcos chegou até a viajar à Inglaterra para assinar contrato, mas foi a contragosto, e decidiu ficar por aqui: seu pai estava com problemas cardíacos, e a namorada, grávida.

E ele tem o raro costume de ser sincero. Nas entrevistas, enquanto a grande maioria dos jogadores dá entrevistas óbvias, que parecem ditadas por assessores de imprensa, Marcos fala o que realmente lhe vem à cabeça. Foi assim que disse a frase politicamente incorreta:

"Fumo um ou dois cigarrinhos quando tomo uma cerveja".

E, quando o criticaram por fumar, retrucou:

"Isso deu mais polêmica do que o Giba (do vôlei) ter fumado maconha. Acho que vou mudar para maconha".

O menino de Oriente, cidadezinha de 6.000 habitantes, tem língua afiada mas é ainda melhor com as mãos. Os palmeirenses jamais esquecerão dos pênaltis que ele defendeu contra o Cruzeiro pela Mercosul ou das suas partidas contra o Corinthians na Libertadores, quando Marcos parecia uma parede de tijolos construída entre os três paus. E os brasileiros em geral hão de lembrar de suas defesas contra a Turquia ou daquela logo nos primeiros minutos da final da Copa de 2002, quando um alemão deu um chute espetacular de fora da área, e Marcos, com a pontinha da unha, desviou a bola para a trave.

É claro que ele fez jogos terríveis, como na derrota por 7 a 2 para o Vitória, em pleno Parque Antártica, quando falhou em três gols. Mas, mesmo neste momento, em vez de jogar a culpa na defesa, assumiu seus erros e disse: "Ainda bem que o Vitória não chutou mais a gol depois do 7 a 2. Eu nem ia pular mais nas bolas".

Em 2007, Marcos parecia caminhar para a aposentadoria. Era uma contusão atrás da outra e Diego Cavalieri vinha jogando bem. Mas ele se recuperou, mandou o jovem talentoso para a reserva e voltou a ser um dos melhores goleiros do país. Talvez o melhor. E sem deixar de ser simpático e original, pouco se importando com a imagem. "Se me importasse, fazia a barba todos os dias."

E hoje, dia 12 de maio de 2009, ele fez uma partida espetacular. Durante os noventa minutos, Marcos defendeu pelo menos cinco bolas difíceis. E, na hora dos pênaltis, pegou três dos quatro chutes. Três dos quatro!

Há que ser um bocado menino e um bocado maluquinho para continuar sendo um goleiro tão bom aos 35 anos.

Por Torero às 22h48

Previsível imprevisibilidade

(Texto publicado hoje na Folha de S.Paulo)

Errante leitora, errabundo leitor, se há uma verdade, a verdade é que pelo primeiro passo não se conhece o caminho. Em outras palavras: pelo primeiro beijo não se conhece a namorada, pela primeira página não se adivinha um livro e pela primeira cena não se sabe como terminará o filme.

O que quero dizer com este primeiro parágrafo? Ora, o que estou tentando fazer é florear a óbvia conclusão de que pela primeira rodada não se conhece o campeonato. Ou seja, nada do que vimos neste fim de semana tem muita validade. Foram apenas primeiras impressões, primeiros jogos, nada mais do que isso.

Alguns times ainda estão de ressaca pelos festejos de suas conquistas, muitos ainda não se recuperaram de suas derrotas, e outros estão empenhados em competições diversas, como a Copa do Brasil e a Libertadores. Poucos entraram no Brasileiro sóbrios, firmes e concentrados. A maioria está com a cabeça no passado ou no futuro.

Olhando a tabela, vê-se que o Vitória da Bahia e o Cruzeiro são os líderes do campeonato. Mas isso não quer dizer que eles serão os campeões. Aliás, desde que o Brasileiro passou a ser disputado no sistema de pontos corridos, quem começou na liderança perdeu.

No ano passado, o Flamengo estava à frente de todos depois da primeira rodada, mas terminou na quinta posição. Em 2007, foi a vez de o Atlético Paranaense sair na pole position, mas o time terminou num modesto décimo-segundo lugar. O Grêmio não foi campeão em 2006, o Goiás não levantou a taça em 2004 e o Cruzeiro, que chegou aos 100 pontos em 2003, naquele ano começou com um reles empate em casa contra o São Caetano.

Mas o pior caso foi em 2005. Santos e Atlético-MG eram líderes depois de golearem seus adversários por 4 a 1. Porém, o Peixe acabou no meio da tabela, na décima posição, e o Galo foi pior: terminou rebaixado para a Série B.

Com os jogadores acontece exatamente a mesmo coisa. Não podemos julgá-los por estes primeiros noventa minutos. Por exemplo, Felipe está como o artilheiro do campeonato. Mas com tantos centroavantes famosos, como Ronaldo, Fred e Adriano, acho difícil que o atacante do Goiás chegue à trigésima-oitava rodada como artilheiro do torneio. Sim, eu sei, é possível que eu queime minha língua, mas é difícil.

Na parte de baixo da tabela também há inverdades. O Corinthians começou perdendo em casa, mas o time está bem composto, tem conjunto e venceu o principal torneio estadual do país. Quem duvida que irá se recuperar? O Atlético Paranaense e o Flamengo são os lanternas do Brasileiro, mas os rubro-negros ganharam seus campeonatos estaduais e o mais provável é que, apesar deste primeiro tropeço, caminhem bem na competição.

Enfim, escrevi este previsível texto para dizer que nada é previsível por enquanto, pois julgar um campeonato pela sua primeira rodada é tão absurdo quanto julgar um homem pela primeira palavra que ele diz (se bem que minha primeira palavra foi "babá" e, até hoje, quando vejo uma delas passeando pelo parque, sinto-lhe uma profunda afeição. Uma afeição pura e cândida, é claro.)

Por Torero às 08h37

11/05/2009

ABC da A e da B

Atléticos: O Vitória está especializado em passar por eles. No meio da semana, perdeu mas superou o Mineiro. Ontem venceu o Paranaense fora de casa. E por dois a zero. Está, ao lado do Cruzeiro, na liderança do campeonato.

Botafogo: Perdeu vários gols, colocou bolas na trave e teve um pênalti não marcado contra o Santo André. Mas não foi tão gauche assim e conseguiu um empate no fim (ops, que rima chinfrim).

Campineiros: Os dois times de Campinas começaram bem na Série B. O Guarani venceu o Fortaleza fora de casa por 4 a 2. A Ponte ganhou do ABC por 2 a 0 em casa. Para a cidade seria ótimo se os dois subissem.

(D)efeito: O gol de Pedrão foi o mais estranho do fim de semana. A bola bateu na trave, subiu muito e, depois de bater no chão, foi direto para o gol, como se tivesse sido chutada por um fantasma. Para o Barueri foi um excelente empate. Para o Sport, um tropicão inesperado. Devem estar com a cabeça no jogo contra o Palmeiras.

Escorregões: Avaí e Goiás venciam seus adversários por dois gols de diferença. Mas, no segundo tempo, Atlético Mineiro e Náutico alcançaram o empate. Os times da ilha e do cerrado escorregaram.

Favoritos: É bobagem apontar favoritos neste começo de campeonato. Mas, como sou bobo, vou fazê-lo. Para mim, hoje o favorito é o Internacional. Tem um belo time, fez um campeonato estadual excelente e possui um bom banco de reservas.

Goleador: Um dos quatro goleadores da Série B, com dois gols, é Luiz Carlos, do Fortaleza, de 29 anos. Ele já passou por 14 times e por três países: Paraguai, Espanha e Dinamarca. O sujeito é mais rodado que motorista da Itapemirim.

Herói: O desta rodada foi Fábio, goleiro do Cruzeiro. Fez grandes defesas e ainda defendeu um pênalti. Mas, na verdade, todo o Cruzeiro foi heróico, pois, quando a partida ainda estava em zero a zero, perdeu um jogador. E mesmo assim venceu o Flamengo.

Ingrato: Uma das coisas mais desagradáveis é tomar um gol decisivo de um ex-jogador de seu time. É como se ele tivesse nos traído, como se fosse um ingrato, um mal-agradecido. Imagino que foi isso que sentiu a torcida do Coritiba quando viu Keirrison fazendo o gol da virada para o Palmeiras.

Jato: O Fluminense fez um gol a jato, aos 2 minutos de jogo. E a bola pareceu um foguete.

Líder: O artilheiro isolado da Série A é o gaúcho Felipe, do Goiás. Ele, assim como Pedrão, chegou um tanto tarde ao sucesso. Felipe tem 31 anos e sua melhor fase foi no Náutico, onde jogou de 2006 a 2008.

Matadores: Este promete ser o Brasileiro dos Centroavantes, já que temos vários jogadores interessantes nesta posição, inclusive os três que foram convocados para a última Copa: Ronaldo, Fred e Adriano. E ainda há Keirrison, Felipe, Kléber Pereira, Washington, Kléber, Diego Tardelli, Pedrão, Nilmar etc...

Nilmar: Que gol! O cara driblou meio time (sem exagero) antes de bater para as redes. Se o gol tivesse sido marcado por Ronaldo, seria notícia em todo o mundo.

Overdose: Seis gols teve a partida entre Goiás e Náutico. E alguns muito belos. Foi o jogo que salvou a média de gols da primeira rodada, que chegou a 2,5.

Paulo Roberto: O atleta do Bahia conseguiu a expulsão de dois jogadores do Paraná e ainda fez um gol, que como bom filho dedicou à sua mãe, dona Cristina.

Quase: Dos dez jogos de abertura da Série A do Brasileiro, apenas dois foram vencidos por dois gols de diferença. Os outros terminaram empatados ou foram vencidos por um gol, ou seja, foram quase-empates. Parece que teremos um ano de equilíbrio.

Reservas: O Corinthians escalou reservas demais e acabou pagando o preço. São três pontos que podem fazer falta no final.

Santos: Molina fez um belo gol e salvou o time. Por ironia, pode acabar indo jogar no Grêmio.

Tricolores: No duelo entre o paulista e o carioca, o segundo foi melhor. O São Paulo é um bom time, mas anda meio robótico. Falta o algo mais, a surpresa, a diferença.

Uuuu...”: É o som da torcida vaiando Kléber Pereira, que novamente perdeu gols. Outro que mereceu ser vaiado foi Juan, do Flamengo, que perdeu o gol duas vezes num mesmo lance: cobrou mal o pênalti e desperdiçou o rebote.

Volante: Ramires fez um gol na vitória do Cruzeiro sobre o Flamengo. O cara merece uma convocação há tempos.

Xavier: O Guarani trouxe 17 novos jogadores para este campeonato. Um deles foi o veterano Ricardo Xavier, que começou no Juventus e já esteve em times menores do México e da Rússia. Ele fez o terceiro gol na vitória sobre o Fortaleza.

Zica:A Portuguesa botou três bolas na trave do Vila Nova. Três! É de  fazer inveja ao Botafogo...

Por Torero às 08h00

09/05/2009

Sempre aos domingos*: E o Corinthians vai perder torcida...

 
 

Sempre aos domingos: E o Corinthians vai perder torcida...

Texto de Marcio R. Castro

Dando uma olhada na tabela da série C do Brasileirão, percebi que o J. Malucelli ainda é relacionado como J. Malucelli. Pois é, por questões burocráticas, o time ainda não ganhou seu novo nome, Corinthians Paranaense.

Anunciada há alguns meses com entusiasmo, a “filial” paranaense do Corinthians foi considerada uma grande jogada de Marketing. O diretor corintiano da área, Luis Paulo Rosemberg, chegou a classificar a iniciativa de “grande taça mercadológica”.

O presidente Andres Sanchez também se mostrou empolgado. O Corinthians “autêntico” comemora o acordo, que possibilitará participação na negociação de jogadores, formação e troca de atletas, ações promocionais conjuntas e outras medidas.

Porém, o que mais foi alardeado é o aspecto expansionista da iniciativa. Para os dirigentes corintianos, o acordo fará a torcida crescer ainda mais, se espalhar por novas fronteiras, conquistar novos territórios.

Pois vai acontecer exatamente o contrário. Isso mesmo, o Coringão, ao longo do tempo, vai ver a sua torcida paranaense diminuir.

Hoje, o Corinthians tem a maior torcida do Paraná, a frente de Coritiba e Atlético. Porém, a partir de agora, os corintianos de lá terão uma simpatia especial pelo Corinthians local, passarão a ser torcedores também dessa “nova” agremiação. Um segundo time. Com o passar dos anos, o clube criará raízes, ganhará personalidade, terá vida própria. E poderá ser, no futuro e aos poucos, o time de coração de muitos paranaenses que provavelmente seriam torcedores do clube paulista. A dinâmica se inverterá: o time de coração, Corinthians Paranaense; a simpatia, o segundo time, o Corinthians Paulista.

Parece absurdo? Com mesmo nome, escudo, cores e uniforme, o Botafogo da Paraíba foi fundado por óbvios admiradores do glorioso carioca. O tempo passou, o clube cresceu, as coisas mudaram. Hoje, para quem você acha que um torcedor do Botafogo da Paraíba torce em um jogo contra o Botafogo?

Ou os torcedores do Barcelona de Guayaquil, numa eventual disputa de título mundial com o Barcelona, torceriam por quem? O mecanismo é similar nos três exemplos, apesar de origens históricas diferentes e das particularidades de cada caso (sobretudo porque paraibanos e equatorianos foram espontâneos e apaixonados ao criarem seus times, enquanto que o clube paranaense tem pouco mais do que interesses comerciais em sua formação). Para vislumbrar melhor a tese, só é preciso imaginar algumas décadas se passando, e dar o devido peso a essa ampulheta.

Não sei, posso estar exagerando. Influenciado, talvez, pela rejeição que tenho da proposta, colonialista até ao ridículo de ostentar no escudo do Corinthians Paranaense a bandeira paulista. Mas me parece que, pelo menos quanto à “expansão imperialista” do Corinthians, a grande taça mercadológica pode ser é um grande tiro no pé.

 

*A seção "Sempre aos domingos" publica textos enviados pelos leitores.

Por Torero às 17h54

07/05/2009

O cara mais honesto do futebol brasileiro

Quando cheguei à casa de Zé Cabala, o mestre dos mestres, não pude entrar direto em seu gabinete.

“Agora tem que pagar adiantado”, disse-me Gulliver, seu assistente anão.

“Mas nunca foi assim”, retruquei.

“É que andamos levando uns calotes.”

“Aquele treinador de novo?”

“Sempre ele.”

Entreguei uma nota cem a Gulliver, que olhou-a contra a luz durante alguns segundos e só depois me deixou passar.

Quando finalmente fiquei frente a frente com Zé Cabala, que lustrava sua nova bola de cristal (curiosamente muito parecida com seu lustre), ele me perguntou:

“Com quem o gazeteiro gazetista quer falar hoje?”

“Deixo à sua escolha.”

“Sábia decisão”, disse Zé Cabala enquanto começava a girar pela sala. Depois de algum tempo, parou e fez uma continência, batendo a mão espalmada em seu turbante:

“Almirante Benjamim de Almeida Sodré, às suas ordens.”

“Benjamim, Benjamim...”, repeti tentando me lembrar de algum jogador com este nome.

“Parei há apenas 90 anos e já me esqueceram?”

“O senhor tinha algum apelido?”

“Mimi. Mimi Sodré.”

Desse eu já tinha ouvido falar vagamente. Arrisquei: “O senhor não jogou no Botafogo na década de 10?”

“Comecei no América mas depois fui para o Botafogo e encerrei minha carreira por lá.”

“E não foi considerado o jogador mais honesto da história?”

“É, eu tinha essa fama.”

“Desculpe a minha ignorância, mas por quê?”

“É que, durante um jogo da seleção militar brasileira contra o Chile, sem querer eu fiz um gol com a mão. O juiz não viu e validou o lance. Mas eu fui lá e disse que o gol não valia.”

“Puxa. Isso não é muito comum.”

“É, a honestidade não anda de mãos dadas com o futebol.”

“E o senhor foi um bom jogador?”

“Modéstia à parte, fui um ponta-esquerda bem decente. Ganhei os campeonatos de 1910 e de 1912, e fui recordman de gols em dois certames: o de 1912 e o de 1913.”

“E qual seu tento mais importante?”

“Ah, acho que foi o da inauguração do Estádio de General Severiano, em 1913. Ganhamos de 1 a 0 do Flamengo. Ah, o Flamengo era nosso freguês...”

“As coisas mudaram.”

“Nem tanto. Eu também fui três vezes vice campeão carioca. Em  1913, 1914 e 1916. Não foi seguido, mas foi quase.”

“O senhor era carioca da gema?”

“Nem da gema, nem da clara. Nasci em Messejana, Ceará, em 1892. Mas fui para o Rio ainda jovenzinho. Fiz o secundário por lá e prestei concurso de admissão para a Escola Naval.”

“Passou?”

“Em primeiro lugar.”

“Uau!”

“Pois é, fiz carreira na Marinha. E olhe que quase morri no naufrágio do rebocador Guarani. Mas sobrevivi, acabei chefiando a Comissão Naval Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial e me tornei almirante em 1954.”

“Quer dizer que o senhor era um Velho Lobo do mar?”

“Rá, rá, rá...”

“O que eu disse de engraçado?”

“Estou rindo da coincidência. Meu apelido era Velho Lobo mesmo. Mas eram os escoteiros que me chamavam assim.”

“Escoteiros?”

“Fui escoteiro. E dos bons. Aliás, sou um dos criadores da União dos Escoteiros do Brasil. E em 1925 ainda escrevi o Guia do Escoteiro.”

“Puxa, jogador de futebol, almirante e escoteiro... O senhor teve três vidas.”

“Não, meu filho. Apenas uma. Mas bem vivida.”

 

Por Torero às 00h12

04/05/2009

Eu sei o que vocês fizeram

Ontem foi dia de festa para os corintianos. É claro que eu nem saí à rua, e tudo o que fiz foi pedir uma pizza por telefone (torcendo para o entregador não vir com uma camisa da Gaviões).

Mas, mesmo sem por o nariz para fora da porta, sei o que vocês, corintianos, fizeram.

Muitos, como Pedro Kastelic, ficaram vendo os programas de mesa redonda, “só pra sentir o gostinho de novo”.

Fábio, de Rio Bonito, ficou de olho no pai cardíaco, mas aposto que no fim os dois comemoraram muito. Provavelmente eles foram até a janela ver a carreata que cruzava as ruas da cidade. E entre os motoristas estava Fabio Santos (corintiano apesar do nome), que fazia da buzina uma extensão de sua garganta.

Quem também estava dentro de um carro, mas em São Paulo, era Fernando Mungioli, que ouvia, no máximo volume, o CD com os melhores sambas-enredo da Gaviões, e cantava "Me dê a mããão, me abraça... Viaja comigo pro céu.. Sou gaviããão, levanto a taça.. com muito orgulho pra delírio da fiel!"

Bolaxha e Vanir, de Franca, devem ter passado a noite pintando o símbolo do Timão no chão da rua, com a palavra “Campeão”.

E Alexandre Barbosa aceitou, sem pensar, qualquer coisa que sua esposa tenha lhe proposta: “Dá ultima vez, eu aceitei comprar um cachorro. Ao menos era preto e tão feinho que ela me deixou batizá-lo de Tevez, e devo confessar que hoje ele está bem mais ajeitado que o monstrito que lhe cedeu o nome. Só espero que ela não peça para comprar outro destes”.

Mas havia também os tristes. Os santistas. Esses eu conheço bem. Aqui mesmo, no espelho de casa, tem um. É claro que não sei ao certo o que eles fizeram depois do apito final. Mas sei, pelo menos, o que eles não fizeram.

Victor, de 13 anos, e Marcus Vinícius, de 4, não colocaram as faixas do Santos pela casa. Nádia Costa, de Brasília, não comemorou a vitória com os amigos num boteco frequentado por santistas na Asa Norte.

Maria José, de S. José do Rio Preto, não mandou um email para tirar sarro do Juca Kfouri.

Clayton Werley, santista do Guarujá, não bebeu uma caixa de cerveja (pelo menos, não para comemorar); Renata Oliveira não dançou na Praça independência, Fernando Gondim não viu as mesas redondas da noite, Leo Marques não saiu com a esposa pelas ruas de Atlanta (EUA), buzinando o carro até ser parado por um policial, nem foi a um strip club jogar a camisa alvinegra para a mais bela stripper.

Não, nenhum deles fez nada disso. Ontem os santistas não viram mesas redondas, não ligaram o rádio bem alto, não apertaram buzinas pela sua cidade, nem convidaram o cônjuge para relembrar a lua de mel. Os santistas pediram uma pizza pelo telefone e foram dormir cedo para que o dia acabasse logo.

Em tempo: o cara que veio entregar a pizza não usava uma camisa do Corinthians. Mas um gorro. E ele estava tão contente que nem se importou por ficar sem gorjeta.

 

 

PS: Mais triste que os santistas devem estar os botafoguenses. No primeiro jogo, depois de estar vencendo, o time cedeu o empate. No segundo, depois de estar perdendo por dois a zero, teve uma recuperação miraculosa e empatou o jogo. Mas aí, na disputa de pênaltis, é claro que perdeu. Tornou-se um trivice. E duas das três vezes foi derrotado em disputas de pênaltis. Torcer pelo Botafogo é um exercício de caráter e persistência.

Por Torero às 06h14

Os vices são os últimos

(Dez anos atrás escrevi este texto na Folha. Não sei o porquê, mas achei que era hora de republicá-lo aqui) 

Esse ano foi o ano dos vices. O Brasil foi vice na Copa do Mundo, o Vasco foi vice-campeão mundial, e talvez hoje o Cruzeiro se transforme num trivice, chegando em segundo na Copa do Brasil, no Campeonato Brasileiro e na Mercosul.

Pensando sobre isso, fiz-me uma filosófica pergunta: "Há coisa pior do que ser vice?".

Como não havia ninguém por perto, eu mesmo me respondi: "Não, nada é pior do que vice."

Um racional ortodoxo poderia dizer que ser vice não é assim tão ruim; que ser terceiro, quinto ou 19º é muito pior.

Mas seria raciocínio de economista, não de torcedor.

O torcedor, melhor conhecedor dos labirintos da alma, sabe que o vice é a pior colocação possível.

O terceiro colocado passa sempre por um esforçado de futuro, do quinto se diz que fez um bom trabalho de base, e o décimo nono fez milagres para não cair para a segunda divisão.

Todas as outras colocações recebem algum elogio, menos o vice. O pobre segundo colocado talvez seja o único derrotado nas competições. E, mesmo que não seja o único, certamente é o maior de todos. Ainda mais quando há uma final de campeonato, um duelo decisivo.

Os outros participantes são apenas os outros participantes.

O vice não.

O vice é aquele que perdeu, aquele que foi vencido.

Foi ele que chegou até o último degrau e escorregou, foi que ele que chegou até os portais da glória e esqueceu a chave.

Para o vice não há consolo e, muitas vezes, nem perdão.

Várias imagens passavam pela minha cabeça para simbolizar o que é ser vice.

Deixo duas aqui na tentativa de melhor definir essa tortura, esse suplício, esse flagelo do espírito:

1) Um náufrago está à deriva durante semanas, sem ter o que comer nem beber, apenas apoiado num pequeno pedaço de madeira e castigado pelo sol inclemente. Ele então, como por milagre, vislumbra uma praia paradisíaca. Ela está a menos de cem metros. Daqui a algumas braçadas ele poderá até tocar os pés no chão. Lágrimas salgadas como o mar caem dos seus olhos. Ele está feliz, quase em êxtase. Mas aí aparece um tubarão...

2) O pára-quedista salta. Porém, como que amaldiçoado pelos deuses, seu pára-quedas não abre. Ele vê o chão se aproximando rapidamente e já pode imaginar seu corpo transformado num mórbido quebra- cabeça. É então que ele se lembra do pára-quedas reserva. Ele puxa a alça ao mesmo tempo em que reza um Pai Nosso. Funciona! Em poucos segundos, o pára- quedista está descendo lentamente, embalado por uma leve brisa. Ele encontra até tempo para observar a paisagem. Um sorriso de prazer e alívio está em seu rosto. Porém ele repara que está pousando dentro de um pequeno zoológico. Para seu azar, bem na jaula do leão. E o leão está faminto.

Enfim, ser vice é como ver um belo pôr-do-sol e queimar a retina, é ter a felicidade ao alcance da mão e ser maneta, é viver num harém, mas ser apenas um eunuco.

Pobres dos vices.

Felizes daqueles que ficam entre o décimo e o vigésimo lugar, sentados na cômoda espreguiçadeira da mediocridade

 

Por Torero às 06h13

02/05/2009

Convite sabatino

Na véspera da final do Campeonato Paulista, Santos e Corinthians estarão unidos pelas mãos dos escritores Odir Cunha e Celso Unzelte. Os dois jornalistas lançam, em Santos, a obra O Grande Jogo, que conta a história do clássico entre os dois times.

O evento acontece neste sábado, a partir das 18 horas, na Realejo Livros (Av. Marechal Deodoro, número 2, ao lado da Praça Independência). Junto com eles, craques históricos das duas agremiações estarão na Realejo para falar sobre a final e trocar ideias com os torcedores.

Os dois são torcedores fanáticos: Odir, como todos sabemos, é santista roxo; Celso Unzelte, infelizmente, é corintiano convicto. Isso dá um sabor a mais para a narrativa histórica que a obra traz.

O livro custa R$ 29,90. Quem comprar o livro no evento, concorre no Bolão da Realejo Livros neste sábado. Se acertar o placar da grande final, concorre a um outro livro sobre o Santos.

Por Torero às 03h12

01/05/2009

O dia mais feliz do ano

Hoje é sexta, depois de amanhã é domingo. Não é um domingo qualquer, mas o melhor domingo do ano. Pelo menos para os brasileiros. Não porque seja carnaval ou natal, mas porque teremos várias finais de campeonato espalhadas pelo país. Em nenhum outro dia teremos tantos campeões pelo Brasil. Em nenhum outro dia teremos tanta gente com faixas no peito e sorrisos na cara. É neste domingo que muitos terão sua maior alegria no ano. E chorarão e gritarão e terão enfartes.

Mas há vários jeitos de comemorar o dia mais feliz do ano.

Um dos mais comuns é a incontinência verbal. Tem gente que grita, fala besteira e até xinga o narrador da tevê, como o André Barbosa. Quando seu Santo André ganhou a Copa do Brasil, ele disse que comemorou xingando, “mas xingando MUITO o Galvão Bueno, que estava fazendo uma narração claramente flamenguista. Fiquei xingando e fazendo gestos a la Cristian pra TV, que morreria de vergonha se tivesse alguma!”

O Sérgio, de Mauá, vai pelo mesmo caminho: “No instante imediato após ao apito final, tenho por costume fazer uma ode à todos os rivais, independentemente de quem seja o adversário, obviamente que com um vocabulário que envergonharia até as paredes de uma borracharia de beira de estrada.”

Quem mora em São Paulo sabe que há também uma gritaria entre prédios, ou seja, torcedores se penduram nas janelas e ficam gritando uns com uns outros, sem ir à rua. É o que faz o Luis Carlos Vidal, que de seu 24º. andar grita “É campeão, c#*%*%%!”

Gasolina

Mas essa incontinência verbal pode incomodar os vizinhos. Principalmente os vizinhos do Denilson, de São Paulo: “Depois do 1 a 0 no Liverpool, foi um verdadeiro estardalhaço. Eu mais um sobrinho subimos em cima da laje com camisa e bandeira do tricolor e xingamos tudo que é gambá, porcos e lambaris da vizinhança... O mais inusitado é que uma vizinha já de idade, um pouco incomodada com o vocabulário "fino e de alto padrão moral" que usávamos para elogiar nossos amigos torcedores de outros clubes, ligou a mangueira jogando água nos dois malucos, pedindo pra Jesus queimar nossa boca imunda... Então devia jogar gasolina.”

Outro jeito de extravasar é sair em carreata. Mesmo que seja uma carreata de trêss ou quatro carros. Foi o caso de Nelson Bigeschi Junior: “A minha primeira e inesquecível comemoração foi no início de 1.978. Eu tinha 7 anos quando meu Tricolor venceu o Galo mineiro nos pênaltis (lembro da catimba do Valdir Peres e de meu falecido pai fumando seu cachimbo sem parar e chacoalhando as pernas alucinadamente fazendo o assoalho da casa tremer). Depois da conquista, o maluco do meu pai, juntamente com mais uns 3 ou 4 carros dos poucos são-paulinos da época, saiu em carreata com sua Caravan pela avenida principal (e única) da pequena cidade de Quatá-SP. E eu, devidamente uniformizado e com bandeira na mão, em cima do capô do carro, cantando alegremente: ‘O Galo virou galinha, arruma outro time pra enfrentar a nossa linha...’ Foi sensacional, inesquecível...”

Classe

Há, porém, torcedores que comemoram com uma classe de barão francês (ou de porteiro inglês). Uma seguidora desta linha é a Lígia, que assiste a todas as mesas redondas do dia bebendo “um bom Merlot”.

Ela faria um bom par com o Paulo Costa: “Torero, você se lembra do Didu Morumbi na Jovem Pan? Eu faço como ele fazia: abro uma champagne Veuve Cliquot, meu mordomo traz caviar e patê du fois em pequenas torradas feitas com pão preparado pelo Olivier Anquier, e brindamos todos (tenho quatro filhas e dois filhos, todos são-paulinos - não convido um genro baiano que é torcedor do Bahia e nem o outro que é gaúcho e torce pelo Juventude). Tornou-se um ritual e tem trazido bastante sorte ao nosso tricolor. 6-3-3 para todos os leitores. Tchim! Tchim!”

Sexo

Não foram poucos os leitores que mandaram emails dizendo que comemoram os campeonatos de seus clubes com festivas cópulas:

“Eu faço a dança do acasalamento no meio da sala de casa”, disse o Fernando Rossini, de São Paulo.

“Eu visto a camisa do meu time ao mesmo tempo em que tiro a calcinha. Meu namorado vai ao delírio. Ser campeão dá o maior tesão, é o melhor afrodisíaco do mundo”, contou a Jocasta, que talvez seja namorada do Fernando.

Há uns casos mais românticos, como o do Cesar, que é corintiano mas gostou mesmo foi do título do Flamengo, em 2001. “Eu morava em Uberlândia e tinha uma namorada linda. No dia do dito jogo, ela foi ao meu hotel, para me fazer companhia. Entre umas taças de vinho e muitos beijos, acabamos indo ao terraço do hotel, para aproveitar a noite quente que fazia em Uberlândia. Foi quando vimos uma carreata de torcedores do Flamengo, comemorando um título que haviam acabado de ganhar, passando pelas ruas da cidade. Como disse a "Jocasta" ser campeão dá tesão...e o resultado foi que fizemos amor no terraço do hotel, enquanto assistíamos à comemoração dos torcedores do Flamengo. Nunca esqueço as palavras dela: 'Que futebol, que nada !!' Espero poder comemorar assim, de novo, no domingo!”

Outro que se diz romântico é o Clayton, de São Bernardo, que faz assim: “Depois de muita cerveja, vou pra cima da mina mais feia que tiver! É tanta felicidade (hic) que nessas horas só enxergo o coração.”

Pais discretos

Uma turma interessante de comemoradores é a dos pais recentes. Por causa do bebê em casa, eles não podem gritar, beber ou dançar em cima da mesa.

O Leonardo Pires, de Niterói, que geralmente comemora seus títulos “virando o copo mesmo”, neste domingo, caso seu Flamengo ganhe o estadual, quebrará a tradição etílica:

“Como este ano me chegou uma coleguinha para sua Catarina, acho que vou comemorar em casa, enchendo de beijinhos a nova campeã do pedaço! Campeã que apesar de ter apenas 26 dias de vida, já possui um lindo vestidinho rubro-negro.”

E, por fim, deixo aqui o depoimento do comedido e silencioso Czar, de São Paulo:

“Sou um sujeito discreto. A única comemoração efetiva que me lembro foi quando o Verdão foi campeão da Libertadores em 99. Meu filhote nem tinha completado dois aninhos e já estava em sono profundo quando o tal do Zapata desperdiçou o último pênalti levando ao êxtase a nação alviverde. Saí enlouquecido pulando pelo apartamento gritando a plenos pulmões. Detalhe: consegui fazer tudo isso no mais absoluto silêncio. Eu não queria acordar o pequenino, nem incomodar o vizinho chato do andar de baixo. Deve ter sido a coisa mais patética do universo. Segundo a minha esposa, foi.”

Por Torero às 08h32

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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