Para quem quiser ver mais, o link do flickr do Daniel Rabello é este: http://www.flickr.com/photos/danieljordao/
(Coloco hoje a última parte do dossiê de Odir Cunha sobre a Unificação dos títulos brasileiros. Ela fala das formas de disputa, talvez a questão mais comentada pelos leitores.)
Texto de Odir Cunha
Não há qualquer relação entre a importância de uma competição esportiva e sua forma de disputa. Há campeonatos de pontos corridos de baixíssimo nível técnico, que despertam pouco interesse, enquanto há outros disputados em jogos eliminatórios, popularmente chamados “mata-mata”, que são verdadeiros espetáculos e atraem audiências enormes. Na verdade, as principais competições do futebol adotam o sistema de jogos eliminatórios, a saber: Copa do Mundo, Eurocopa, Copa América, Liga dos Campeões da Europa, Libertadores da América, Mundial de Clubes da Fifa...
É importante ressaltar isso porque alguns críticos da Taça Brasil dizem que ela não poderia ser considerada um campeonato nacional porque era jogada no sistema “mata-mata”. Ora, uma coisa não tem nada a ver com a outra. A Taça Brasil adotou o melhor e mais viável sistema para a época.
Não se pode esquecer que a Taça Brasil foi iniciada no final dos anos 1950, em que nem se pensava em ter patrocínio nas camisas dos clubes, as tevês não pagavam direitos de imagem e as placas de publicidade nos estádios rendiam muito pouco. Os clubes viviam das arrecadações, mas mesmo estas não eram tão significativas, já que os ingressos eram bem mais baratos do que hoje.
A CBD era uma entidade de tão poucos recursos que, por absoluta falta de verba, o presidente João Havelange não acompanhou a Seleção à Copa da Suécia, em 1958. Assim, nada mais natural do que, ao idealizar a primeira competição nacional oficial, no ano seguinte, Havelange pensasse em uma fórmula justa, mas ao mesmo tempo economicamente viável.
É verdade que em 1959 alguns países europeus já faziam seus campeonatos nacionais em dois turnos e pontos corridos, mas não há termo de comparação entre as dimensões dos países europeus com o Brasil. Não se pode esquecer que toda a Europa, com exceção da Rússia, cabe no Brasil. É oportuno lembrar, ainda, que os estados brasileiros, em média, são maiores do que os países da Europa, o que faz com que nossos campeonatos estaduais equivalham-se, em logística, aos campeonatos nacionais europeus.
Não havia a mínima possibilidade econômica de que no final dos anos 50 o Brasil tivesse uma competição em turno e returno reunindo clubes de todos os cantos do País. Justamente pela fala de verbas é que a única competição de clubes realizada até ali era o Torneio Rio-São Paulo, viabilizado pela pouca distância entre as duas cidades que contavam com a maior quantidade dos times mais representativos do País.
A solução encontrada pela CBD para uma competição nacional foi torná-la seletiva, apenas com os campeões estaduais; estabelecer jogos eliminatórios em melhor-de-três partidas; dividir o País em duas chaves – Norte-Nordeste e Centro-Sul – e promover a entrada dos campeões de São Paulo e Rio de Janeiro, os centros reconhecidamente mais fortes do futebol nacional, a partir das semifinais.
Dentro das circunstâncias, foi uma decisão democrática e justa, pois não fechava a possibilidade de um time de um centro menor competir pelo título da Taça Brasil e assim conquistar a vaga para representar o País na Libertadores. Não havia divisões, e um campeão estadual do Piauí, por exemplo, poderia ir galgando fase por fase até defrontar-se com os times mais poderosos e afamados do País.
Nada menos do que 16 Estados participaram da primeira edição da Taça, em 1959. Número que foi crescendo gradativamente até que a partir de 1964 todas as unidades da Federação fossem representadas, com exceção de Mato Grosso. Isso dava a muito mais equipes a possibilidade de se chegar ao título nacional do que hoje, por exemplo (o Campeonato Brasileiro de 2009, assim como o de 2008, terá equipes de apenas nove Estados: Bahia, Goiás, Santa Catarina, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo).
Em 1959 os 16 times e Estados participantes foram: CSA (Alagoas), Bahia (Bahia), Ceará (Ceará), Rio Branco (Espírito Santo), Vasco (Guanabara – Estado que oficialmente existiu de 1960 a 1975 e ocupava a área do atual município do Rio de Janeiro), Ferroviário (Maranhão), Atlético (Minas Gerais), Tuna Luso (Pará), Auto Esporte (Paraíba), Atlético (Paraná), Sport (Pernambuco), Manufatura (Rio de Janeiro), ABC (Rio Grande do Norte), Grêmio (Rio Grande do Sul), Hercílio Luz (Santa Catarina) e Santos (São Paulo).
Em suas dez edições, a Taça Brasil teve no mínimo 16 participantes (1959) e no máximo 22 (1964, 65 e 66), com uma média de 20,3 times por competição. Suas regras, claras e bem definidas, jamais foram contestadas. Os participantes não dependiam de convite, sorteio ou qualquer tipo de apadrinhamento para conseguir um lugar na competição. O mérito era unicamente esportivo, pois dependia do título estadual. A obediência ao regulamento era absoluta. Nenhum título ficou sub judice e nunca houve problemas com acesso ou rebaixamento, já que, como já foi dito, a vaga para a Taça Brasil era obtida através do título estadual.
A fórmula, ao mesmo tempo que enxuta, dava a todos os times brasileiros que participavam nas divisões principais de seus Estados, cerca de 200, a oportunidade de alcançar o título nacional. Houve, sem dúvida, uma representatividade bem maior do que nos dias atuais. E tanto foi democrática, que a primeira Taça Brasil não foi erguida por times paulistas ou cariocas, de maior projeção na época, mas por uma equipe do Nordeste, que depois de eliminar CSA, Ceará e Sport, passou pelos poderosos Vasco e Santos em séries melhor-de-três.
O fato de os times de Rio de Janeiro e São Paulo entrarem apenas nas semifinais da competição, e de equipes de Minas Gerais e Rio Grande do Sul também entrarem adiantadas na chave era aceito e justificado pelo maior desenvolvimento do futebol nesses centros. Isso é o que em outras modalidades se chama handicap e é uma forma tão legítima de se elaborar a chave de uma competição, que a Fifa a utiliza no seu Campeonato Mundial de Clubes disputado no Japão.
Desde 2005 o Mundial de Clubes da Fifa segue o seguinte formato: os campeões da Concacaf, Ásia, África e Oceania entram nas quartas-de-final, enquanto o campeão europeu (Liga dos Campeões) e o sul-americano (Taça Libertadores da América) iniciam a competição já nas semifinais.
Assim, para se conseguir o título mais almejado do planeta, um participante do Mundial de Clubes da Fifa terá de fazer, no máximo, três partidas. Na verdade, porém, isso nunca aconteceu, pois as equipes sul-americanas ou européias sempre vencem, o que reduz o número de jogos que um time tenha realizado para vencer a competição em apenas dois.
Já foi ainda mais rápido, pois por 24 anos, de 1980 a 2004, o título foi decidido em apenas uma partida, jogada em campo neutro, no Japão. Isso nunca tirou, entretanto, a importância do evento. Ao contrário. Os times que o venceram costumam destacar a conquista em seus sites oficiais, em letras garrafais no alto de seus estádios e até inserindo estrelas sobre o seu distintivo. Ou seja, uma única partida, de acordo com a importância do evento e dos contendores, pode, sim, valer muito mais do que uma competição longa, com uma infinidade de equipes.
É oportuno lembrar que outros esportes têm fórmulas mais sintéticas para definir seus campeões. No tênis, por exemplo, a Taça Davis, sua competição por equipes mais importante, o campeão de um ano tinha o direito de, na temporada seguinte, entrar apenas no confronto final. Os outros países jogavam entre si e saía um finalista que jogava pelo título com o campeão do ano anterior. Essa fórmula foi utilizada anualmente de 1900 a 1971 (a competição não se realizou apenas durante as duas Guerras Mundiais).
Qualidade X Quantidade
No caso da Taça Brasil, havia uma irrefutável justificativa técnica e histórica para que os campeões carioca e paulista entrassem apenas nas semifinais. Assim como o futebol de América do Sul e Europa dividem entre si todos os 18 títulos de Copa do Mundo já realizados, havia uma hegemonia inquestionável de São Paulo e Rio de Janeiro quando a Taça Brasil foi instituída.
Sem competições nacionais interclubes que servissem de referência, um dos parâmetros mais importantes era o Campeonato Brasileiro de Seleções, que, como o nome diz, vinha a ser disputado entre seleções de cada Estado da Federação. Jogada pela primeira vez em 1923 e mantida, com algumas interrupções, até 1956, a competição tinha sido realizada 24 vezes até 1959, data do início da Taça Brasil, e até ali apresentava o saldo de 13 vitórias cariocas, 10 paulistas e uma da Bahia, em 1934.
Além disso, fatores econômicos e sociais faziam das cidades de Rio de Janeiro e São Paulo os dois maiores pólos de atração do País. Seus clubes de futebol eram os mais ricos, os mais divulgados pela mídia, conseqüentemente os de maior prestígio e apelo popular, e aqueles para os quais normalmente se dirigiam os melhores atletas surgidos em outras regiões da nação. Até 1966 as Seleções Brasileiras se resumiam a convocar jogadores em atividade nessas duas cidades, e até 1959 o único torneio interestadual disputado regularmente – e com grande repercussão – era o Rio-São Paulo, realizado anualmente desde 1950.
De qualquer forma, o sistema da Taça Brasil não impedia equipes de outros centros de chegar ao título, já que reservava aos demais clubes brasileiros no mínimo 50% das vagas nas semifinais da competição – mesma medida, como já foi dito, que a Fifa adota em seu Mundial de Clubes.
Como se adotava o confronto direto em melhor-de-três partidas, o número mínimo de jogos que um clube teria de fazer para chegar ao título era quatro. Pode parecer pouco, mas, além da comparação já feita com o Mundial Interclubes, que em 50% de suas edições foi decidido em apenas um jogo, é interessante lembrar mesmo em Copas do Mundo entre Seleções, o título de futebol mais cobiçado do planeta, o campeão das quatro primeiras edições (1930/34/38/50) só realizou quatro partidas.
Na média de todas as 18 Copas do Mundo realizadas o campeão jogou 5,66 partidas. Em dez edições de Taça Brasil o campeão disputou 5,9 jogos. Portanto, se nas competições mais importantes, aquelas que encabeçam o currículo de todo clube ou seleção nacional, não se precisou jogar uma infinidade de vezes, por que esse critério deve ser relevante para se avaliar a importância de um evento?
Em São Paulo há uma Copa de futebol amador que leva o nome de uma cerveja. No ano passado participaram 208 times, divididos em 52 grupos de quatro times cada um. Jogaram-se 639 jogos para se definir o campeão. Não importa o nome do vencedor, mas fica a pergunta: será que ele, após processo seletivo tão exaustivo, teria adquirido qualidade suficiente para enfrentar Milan ou Boca Juniors, que chegaram à final do Mundial da Fifa com apenas uma partida?
A prova de que o processo de seleção da Taça Brasil era eficiente é que nos oito anos em que seus campeões representaram o País na Taça Libertadores (em 1966 e 69 o Brasil não participou), estes conseguiram dois títulos e dois vice-campeonatos, com 50% de participação em finais da competição sul-americana, índice que só seria superado nos anos 90.
Nos anos de Taça Brasil, o Santos sagrou-se bicampeão da Libertadores em 1962/63 e o Palmeiras foi vice-campeão em 1961 e 68. Nos anos 70, os clubes brasileiros conseguiram apenas um título (Cruzeiro, em 1976) e dois vices (São Paulo, em 1974, e Cruzeiro, em 1977). E nos anos 80, em dez competições, Flamengo (1981) e Grêmio (1983) foram campeões e o Grêmio foi vice em 1984. Portanto, o rendimento dos representantes brasileiros saídos da Taça Brasil foi superior.
Vê-se, portanto, que além de oficial, justa e única forma viável de se organizar uma competição nacional na época em que foi criada, a Taça Brasil adotou uma fórmula de competição democrática e universal, que conseguiu o seu objetivo de eleger um digno campeão brasileiro e classificá-lo para as disputas da Taça Libertadores da América com ótimas condições de bem representar o nosso futebol.
Por Torero às 00h30
((Foram tantos comentários sobre este tema que terei que fazer três textos sobre o assunto. Este é o primeiro)
O primeiro jogo a gente nunca esquece. E a gente também nunca esquece com quem foi a este jogo.
Alguns sortudos vão com a família toda. É como se fosse um grande piquenique, um alegre convescote.
Em 1993, quando tinha sete anos, o Renê Rocha, de Jundiái, foi ver um Palmeiras x Vitória, no Palestra. Ele, seu pai, seu avô, dois primos e uma tia. Todos palmeirenses. Quase uma torcida organizada.
Uns vinte anos antes, o Samir, também com 7 anos, foi ver um jogo na Vila Belmiro. E com a família toda: pai, mãe, irmãos, tias e primos. “Foi inesquecível. Uma festa que, infelizmente, não posso proporcionar a meu filho. Não tenho coragem de ir a um estádio hoje em dia, muito menos de levar o menino comigo.”
Outro que perdeu sua virgindade futebolística na Vila Belmiro foi o Eduardo Batista, de Diadema:
“Minha família resolveu fazer uma passeio dominical e conhecer a Vila Belmiro. Descemos a serra pela manhã com tudo que os farofeiros tinham: caixa de isopor, sanduíche no pão de forma, etc. Chegamos na Vila bem cedo, e meu pai foi comprar os ingressos. Como tínhamos estacionado bem próximos do estádio, meu pai não quis tirar o carro de lá, pois na hora do jogo perderíamos o lugar. Fomos então a pé da Vila até a praia. Pra ir foi até legal, fomos fazendo a maior zona, na volta que eu vi como era longe...
“Entramos na Vila maravilhados. A festa que as torcidas faziam foi demais, nunca tinha visto algo tão bonito. Os times entraram em campo com aquela molecada toda, como é tradicional na Vila, e eu fiquei com inveja, pois queria estar lá também. Minha mãe adorou tudo aquilo, principalmente as músicas e gritos das torcidas, especialmente uma que ela canta até hoje para encher o saco: "Eh, bacalhau! Eh, bacalhau! Senta no meu p** que eu te levo a Portugal!"
“A Portuguesa saiu na frente. E quando o Santos empatou a festa foi maior ainda. O jogo acabou e ficamos com a frustração da falta da vítoria, porém com a alegria imensa de gritar gol.
“Na saída, estávamos morrendo de fome. Meu pai abriu o porta-mala do carro e minha mãe começou a fazer sanduíches para nós. Nisso veio um rapaz com a camisa do Santos amarrada na cintura, com cara de fome, perguntar, "Tia, quanto é o lanche?" Minha mãe respondeu, "Eu não estou vendendo, estou fazendo para os meus filhos". E o cara de pau: "Então eu posso ser um de seus filhos, também?". Minha mãe ficou comovida e fez um especial para ele, o fulano saiu pulando, feliz da vida...
“Isso foi a 14 anos atrás, depois disso eu tive tanto o gosta da vitória quanto o da derrota. Tive alegrias imensas, e tristezas profundas. Porém aquele primeiro jogo que guardo detalhe por detalhe, emoção por emoção. Isso me tornou o torcedor apaixonado com que sou hoje.”
Tias, tios, mãe e ex
O mais comum é que o pai introduza o filho no mundo do futebol, mas nem sempre é assim que acontece. No caso do Denilson Biffi, por exemplo, quem o levou foi sua tia. Era 1984, ele tinha sete anos e o jogo foi no Taquarão, entre o Taquaritinga (time da tia do Denilson) e o Palmeiras (time do Denilson). Para azar da tia, o Palmeiras venceu por 2 a 0.
“Lembro-me nitidamente de uma bola no ataque do CAT em que a bola passou raspando a trave esquerda do goleiro do palmeiras (era o Emerson Leão! Sim! Eu vi o Leão jogar ao vivo!!). Lembro muito da cara de decepção da minha tia neste lance.”
O Igor, de Belo Horizonte, foi levado pelo tio cruzeirense para ver um jogo contra o Galo. Obviamente a intenção do tio era carregar o menino para a torcida azul celeste. Mas o tiro saiu pela culatra.
“Nos ombros do meu tio vi o Galo destruir o Cruzeiro por 3 a 1, no Mineirão. Tinha 7 anos e estávamos na torcida do Cruzeiro. Até aquele momento, não havia escolhido para qual time torceria pelo resto da vida. Depois do terceiro gol, meu tio, um cruzeirense fanático de quase 2 metros de altura, não sabia que naquele momento carregava nos ombros alguém que acabara de se apaixonar pelo Atlético Mineiro.”
Oscar Plessmann teve sorte. Foi levado pelo tio para um jogo histórico. Em 1960, ele tinha 7 anos e veio para São Paulo de férias. “O Tio Pedrão disse que ia me levar na inauguração de um estádio. Eu nem sabia o que era isso. Lá fomos nós e era a inauguração do Morumbi: São Paulo X Sporting de Lisboa. E o tricolor ganhou com um gol de peixinho do Peixinho.”
Obviamente, depois de um começo destes, Oscar virou tricolor.
Já o Alexandre foi levado pela mãe. Seu debut aconteceu no Estádio do Café, em Londrina. E o jogo era daquele time do Luciano do Valle, a seleção de ex-jogadores craques do passado. “Assim, a minha primeira vez foi justamente vendo uma espécie de ‘pout-pouri’ de craques de diferentes gerações: Rivelino, Jairzinho, Edu...”.
Alexandre começou com o pé direito. Mas a Sheila Tonietti, com o esquerdo.
“O primeiro jogo que eu assisti foi Corinthians e Palmeiras, no Morumbi. Sou corintiana e fui com um ex que era palmeirense. Bom, nem preciso te dizer que sentei na torcida do Palmeiras e agradeci meu pai estar morto pra não ter que saber disso. Meu time perdeu e a cada gol do Palmeiras eu tinha que aguentar uma garota que se esgoelava e esfregava um maldito porco de pelúcia na minha cabeça. O que mais me impressionou não foi o jogo, foi a arquibancada. É de tirar o fôlego ver todas aquelas pessoas pulando e gritando juntas, quase formando um corpo só. Na saída do estádio eu estava meio encantada com aquela muvuca toda quando um PM colocou a mão no meu ombro e disse: ‘Menina, some daqui’. Depois fiquei sabendo que teve quebra-quebra ao redor do estádio.”
Pais heróis
Uma coisa bonita de se ver é quando os pais não conseguem fazer com que seus filhos torçam para o mesmo time que eles, mas, mesmo assim, levam os garotos para ver um jogo do inimigo.
Foi o caso do Carlos Câmara e da Débora.
Em 1956, Carlos tinha seis anos e o pai, que era botafoguense, levou-o para ver um jogo do Fluminense contra o Olaria. E o Flu venceu por cinco a zero, com cinco gols de Valdo. A Débora, são-paulina, também foi levada pelo pai à primeira partida. E o doce homem era corintiano.
Porém, às vezes estes pais, que parecem tão democráticos, tem intenções menos nobres. Foi o caso do pai do Marcos Tonelo, de Santo André:
“Um belo dia, chegando da escolinha, a notícia: ‘Pai, virei são-paulino’. Talvez o maior desgosto da vida de meu pai, palmeirense, de pai palmeirense, de família italiana palmeirense... O ano era 91, o tricolor voava em campo. Um time comandado por Telê Santana, com Raí como maestro. Ao ver aquele time em campo, a paixão foi meio que instantânea. Naquela época, creio que ele já pensava como mudar essa situação. 1994: Final da Conmebol, Peñarol x São Paulo. No caderno de esportes, a escalação, um time de juniores, reservas... Até o técnico era reserva, um tal de Muricy Ramalho comandava um tal de expressinho. O Peñarol vinha completo, matador. A mente malévola de meu pai logo somou 2+2: "Levo a criançada para esse jogo, o São Paulo toma um sapeco... E pronto... Voltam a ser palmeirenses."
Mas o plano do senhor Tonelo não deu certo. O São Paulo começou perdendo, mas virou. E goleou. Com direito a gol de bicicleta.
“Já nos sentíamos parte da torcida, inclusive meu pai que, pobre coitado, tinha que cantar o hino em meio a tanta gente... E foi assim, amor à primeira vista, e apesar de tudo indo contra, deu tudo certo. Hoje, aos 23 anos, só torço para o universo não me sacanear e me dar um filho palmeirense... E se der... Ah, mas não levo num jogo... Nem ferrando.”
Porém, na maioria das vezes, pai e filho torcem pelo mesmo time. E aí os sentimentos são outros, como conta o Helio de Moraes:
“O primeiro jogo profissional que eu assisti foi Ferroviária 1 x 2 São Paulo, em Araraquara. Minha família tinha acabado de se mudar para essa cidade e, logo na semana seguinte, o Tricolor jogou pelo campeonato paulista no estádio da Fonte Luminosa. Foi ótimo, vi o Pita, o Muller, o ponta-esquerda Sidnei e um jovem Raí, que marcou o segundo gol. Mas o que mais me lembro é dos olhos do meu pai, que brilhavam a cada passe do Pita. Me lembro claramente dele me erguendo para que eu visse o Pita descendo para o vestiário... Na verdade, ele era mais fã do Pita do que eu, mas era como se, através de mim, ele pudesse ter um momento discreto de fã. É isso, não foi engraçado, mas foi inesquecível.”
Por Torero às 06h58
Para quem quiser ver mais, o link do flickr do Daniel Rabello é este: http://www.flickr.com/photos/danieljordao/
Por Torero às 15h53
(Continuando o debate sobre a unificação, hoje coloco a parte do texto em que se fala como é a situação dos primeiros campeonatos nos outros países. Nao é questão de imitar, mas de ver a experiência alheia e adaptar o que for interessante)
Texto de Odir Cunha
O que fica evidente quando se pesquisa a história dos campeonatos nacionais em outros países com o futebol mais rico e organizado do que a brasileiro, é o acentuado respeito ao passado. Desde que um torneio nacional oficial tenha sido realizado com o intuito de escolher o campeão do ano, não importam quais eram as regras ou a forma de disputa, ele está inserido na história e tem o mesmo peso dos títulos atuais.
É uma questão de respeitar a própria evolução do esporte, de admitir que cada época tem as suas circunstâncias – obviamente mais dificultosas à medida que mais antigas –, mas todas contribuíram para a evolução do futebol.
A Espanha é um grande exemplo disso. Seu primeiro campeonato nacional foi realizado em 1929, mas desde 1902 já era jogada a Copa da Espanha, que por ser a única competição nacional nesse período de 1902 a 1928, dava e ainda dá aos seus vencedores o título de campeão espanhol.
Assim, na lista oficial de campeões de futebol da Espanha, não há qualquer diferenciação de períodos: ela começa com o título de Viscaya Bilbao, em 1902, e segue ano a ano, fazendo a transição da Copa da Espanha para o Campeonato Espanhol sem qualquer distinção. A criação da Liga Espanhola, em 1930, não tirou dos antigos campeões os méritos de suas conquistas.
O mesmo exemplo serve para a França. O Campeonato Francês é disputado desde 1933, mas a lista de campeões da França começa em 1918, quando a única competição nacional era a Copa da França. Assim, do Olympique de Pantin (1918) ao Cannes (1932), todos os vencedores da Copa da França também são considerados campeões nacionais.
O Campeonato Italiano também só é disputado nos moldes atuais a partir de 1930, quando o futebol se tornou profissional no país. Entretanto os títulos de 1896, data da primeira competição, até 1929, o último antes do profissionalismo, têm o mesmo valor dos obtidos posteriormente. Tanto é assim, que no ranking dos campeões italianos o Genoa aparece em quatro lugar, com nove conquistas, todas antes da era profissional (1898, 1899, 1900, 1902, 1903, 1904, 1915, 1923 e 1924).
No site oficial da Federação Italiana de Futebol, ou Federazione Italiana Giuoco Cálcio, comprova-se que mesmo o primeiro campeonato italiano da história, jogado em apenas um dia, próximo ao Torino, deu ao Genoa a primazia de entrar para a história como o primeiro campeão italiano: Il primo campionato della storia si gioca proprio a Torino nel 1898 – tutto in una sola giornata – e lo vince il Genoa che conquista così lo scudetto tricolore (http://www.figc.it/it/12/2051/Storia.shtml).
O primeiro campeonato italiano que englobou todo o País – cuja área é inferior ao do Estado do Maranhão – foi realizado em 1913, com os times divididos em grupos Norte e Sul, cujos campeões se enfrentaram na final, com vitória do Pro Vercelli sobre a Lazio por 6 a 0.
Na lista oficial dos campeões italianos, o Pro Vercelli, hoje na quarta divisão do país, aparece em sétimo lugar, com sete títulos, à frente de clubes tradicionais como Roma (3), Fiorentina (2), Napoli (2) e Sampdoria (1). Todos os títulos do pro Vercelli foram conquistas no período de 1908 a 1922, portanto oito anos da realização da primeirqa Copa do Mundo, em pleno amadorismo. Nem por isso, porém, são renegados pela federação italiana.
Na Argentina, até 1967 o campeonato nacional era disputado apenas por equipes da região metropolitana de Buenos Aires – e por isso chamado de “Campeonato Metropolitano”. No entanto, todos os seus campeões, desde 1891, são considerados oficiais pela AFA – Associação de Futebol Argentino.
Desde 1991 cada turno do Campeoanto Argentino passou a valer como um campeonato, dando origem aos Apertura e Clausura, que se mantem até hoje. Portanto, considerar dois campeões na mesma temporada, como aconteceu no Brasil em 1968 (Santos, campeão do Robertão, e Botafogo, campeão da Taça Brasil) não é novidade.
Na Alemanha, onde o campeonato nacional é um dos mais bem cotados e o que apresenta a maior média de público, a Bundesliga (nome que se dá à primeira divisão do futebol no país) foi fundada na temporada de 1963/64, quando o Colônia foi campeão, mas as competições são consideradas oficiais desde 1903, quando o Leipizig a venceu e o DFC 1892 Praga ficou em segundo lugar.
É de se notar que a competição alemã passou por vários percalços antes da criação da Bundesliga: não foi realizada entre 1915 e 1919 e entre 1945 e 1947 devido às Guerras Mundiais; contou com a participação de times da Áustria, anexada pelo governo nazista, entre 1939 e 1944 (tanto, que o Rapid Viena foi o campeão de 1941); passou a ser jogada apenas por times da Alemanha Ocidental com a divisão do país, em 1948, e só voltou a reunir equipes das duas Alemanhas em 1992, com a queda do Muro de Berlim. Mesmo assim, não discriminou qualquer competição nacional oficial realizada desde 1903, dando a seus vencedores o título de campeão alemão.
Na Inglaterra, cujo campeonato nacional só não é mais antigo do que o da Escócia, que começou em 1881, a lista de campeões começa em 1889, quando o Preston North End ficou com o título, seguido pelo Aston Villa. Desta primeira competição participaram apenas 12 clubes, quatro a menos do que a edição da Taça Brasil que teve o menor número de participantes (16, em 1959).
Desta forma, pelo exemplo de países onde o futebol tem se mostrado mais organizado e próspero do que o brasileiro (tanto que seus clubes fazem dos nossos fornecedores de craques), percebe-se que o respeito ao passado, às origens de seu futebol, faz com que os resultados de suas competições nacionais prevaleçam, quaisquer que sejam as épocas em que tenham sido realizados.
Constatação importante
Após a primeira viagem de um time brasileiro à Europa, em março e abril de 1925, quando o Clube Atlético Paulistano deixou ótima impressão ao perder apenas uma partida em dez jogos e estrear goleando a Seleção da França por 7 a 2, o jornalista Américo R. Netto, enviado especial do jornal O Estado de São Paulo, logo ao desembarcar escreveu um artigo especial em que comparou o estágio do futebol francês com o brasileiro. Lidas hoje, estas linhas causam surpresa, por mostrarem como os franceses estavam atrasados.
Américo Netto disse que os campos franceses tinham dimensões erradas (“muito largos e muito curtos, tendendo mais para o quadradro”) e não conheciam a drenagem, o que os tornava “empedrados ou lamacentos”. Possuíam “pouca ou nenhuma conservação, em contraposição com as boas condições dos brasileiros”.
O jornalista escreveu ainda que os vestiários não tinham água, ou muito pouca, a ponto de não permitirem “banho freqüente e completo”; que os jogadores usavam vestuário pouco apropriado (“usam botinas grossas e pesadas, que lhes retardam os movimentos e tornam pouco precisa a justa ação de passar ou chutar”) e que os jogadores eram inferiores aos brasileiros em habilidade e agilidade:
“Na França, os jogadores são escolhidos por altura e peso. O mais alto e forte é julgado melhor do que o de físico pouco avantajado. Isto por influência do rugby, o esporte dominante em território francês, que exige homens grandes e pesados... São menos rápidos do que os brasileiros. Falta-lhes também a facilidade de improvisar, de arranjar de momento combinações surpreendentes... Treinam menos do que os brasileiros, motivo por que o Paulistano sempre conseguia dominá-los melhor no segundo tempo, quando se mostravam mais cansados”.
Curioso notar que em 1925, apesar de toda a precariedade de seu futebol, com campos quadrados e sem drenagem, jogadores escolhidos pelo porte físico trajando vestuário inadequado, enfim, com todas essas dificuldades, a França já tinha uma competição nacional regular desde 1918, o que o Brasil – que já possuía craques como Friedenreich, Neco e Araken e um futebol campeão sul-americano em 1919, só viria a ter 41 anos depois, com a primeira edição da Taça Brasil.
Reconhecer as primeiras competições nacionais oficiais como de igual valor às que são disputadas hoje é, acima de tudo, uma questão de coerência. Pois se não se pode oficializar competições que não tenham exatamente os mesmos moldes atuais, então todos devemos admitir que a maior parte da história do futebol terá de ser apagada.
É oportuno lembrar, por exemplo, que nas quatro Copas do Mundo iniciais – de 1930 a 1950 – os campeões fizeram apenas quatro partidas e nem precisaram jogar eliminatórias. Em 1950 o Uruguai enfrentou apenas a Bolívia para se classificar para o quadrangular decisivo, com Brasil, Suécia e Espanha. Hoje as seleções campeãs do mundo precisam passar por longas eliminatórias e ainda jogam sete partidas na fase final.
Assim, o mais sensato é que, a exemplo de países como Espanha, Alemanha, Itália e Argentina, todas as competições nacionais, desde que oficiais e disputadas regularmente – como foram os casos da Taça Brasil e do Robertão/Taça de Prata –, tenham o mesmo peso das atuais e deem aos seus vencedores o mesmo status dos campeões posteriores. Afinal de contas, sem esses pioneiros o futebol não teria evoluído.
Por Torero às 08h58
(Fiz alguns cortes no texto de hoje, caso contrário ele não caberia num só post. Ele trata de uma questão fundamental na unificação do título, citado por vários leitores ontem: o nome do campeonato.)
Texto de Odir Cunha
De acordo com o Novo Dicionário Aurélio, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, não há qualquer distinção entre os termos Copa, Taça, Campeonato ou Torneio. Vejamos:
Copa: Torneio desportivo em que se disputa uma copa ou taça.
Taça: Troféu com o feitio desse vaso.
Campeonato: Certame.
Certame: Competição.
Torneio: Competição esportiva; certame.
Por essas definições, percebe-se que campeonato é o mesmo que certame, que por sua vez é o mesmo que copa, que quer dizer o mesmo que taça e significa “torneio desportivo”. Ou seja, todos os termos representam uma competição esportiva que define um vencedor.
Taça, ou copa, designa o feitio do troféu e não sua forma de disputa. O termo vem do inglês cup, que quer dizer “em forma de taça, de xícara” (Dicionário Webster’s). Assim, uma competição de turno e returno, com jogos de ida e volta, que dê ao campeão um troféu em forma de taça, também pode ser batizada de Copa ou Taça.
Uma das Copas ou Taças mais conhecidas é a Davis, a mais importante competição por equipes do tênis. Jogada pela primeira vez em 1900, em um confronto entre norte-americanos e ingleses, leva o nome do estudante norte-americano Dwight Davis, que a idealizou, e é chamada de Copa (ou Taça) porque o troféu era uma saladeira de prata surrupiada por Davis da casa de seus pais.
Então, um campeonato pode ser chamado de taça, e vice-versa? Sim. Um dos grandes exemplos disso é a “The Admiral's Cup”, uma das regatas mais famosas do mundo, que por muitos anos foi chamada de “World Championship of Offshore Racing” – ou seja, de “Campeonato” Mundial passou à “Copa”.
Fica evidente, portanto, que o Campeonato Brasileiro poderia se chamar Taça Brasil, e que a Taça Brasil poderia ter sido batizada como Campeonato Brasileiro, sem que perdessem suas essências, pois as palavras querem dizer a mesma coisa, assim como o objetivo dessas competições, que é eleger um vencedor, um campeão nacional.
Na verdade, o próprio Campeonato Brasileiro só se chamou assim, oficialmente, a partir de 1989. No começo, de 1971 a 74, era denominado de Campeonato Nacional de Clubes; de 1975 a 79, Copa Brasil; de 1980 a 83, Taça de Ouro; em 1984 voltou a ser Copa Brasil; em 1985 voltou a ser Taça de Ouro; em 1986, Copa Brasil de novo e em 1987 e 88 foi Copa União. Mesmo depois de se firmar como “Campeonato Brasileiro”, teve uma recaída em 2000, quando foi denominado Copa João Havelange, cujo título dois disputado pela quantidade recorde de 114 clubes.
Os vários nomes do “Brasileiro”
Ao longo dos seus 37 anos de disputa, o “Campeonato Brasileiro”, como é tratado genericamente pela imprensa, teve os seguintes nomes:
1971 – Campeonato Nacional de Clubes (1ª divisão); Campeonato Nacional de Clubes da Primeira Divisão (2ª divisão).
1972 – Campeonato Nacional de Clubes Primeira Divisão(1ª divisão); Campeonato Nacional de Clubes da Segunda Divisão (2ª divisão).
1973 e 1974 – Campeonato Nacional de Clubes.
1975 a 1979 – Copa Brasil.
1980 – Taça de Ouro (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão).
1981 – Taça de Ouro (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão); Taça de Bronze (3ª divisão).
1982 e 1983 – Taça de Ouro (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão).
1984 – Copa Brasil (1ª divisão); Taça CBF (2ª divisão).
1985 – Taça de Ouro (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão).
1986 – Copa Brasil (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão).
1987 – I Copa União - Módulo Verde e I Copa Brasil - Módulo Amarelo (1ª divisão); Módulo Branco e Módulo Azul (2ª divisão).
1988 – II Copa União (1ª divisão); Divisão Especial (2ª divisão); Divisão de Acesso (3ª divisão).
1989 – Campeonato Brasileiro (1ª divisão); Divisão Especial (2ª divisão).
1990 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Segunda Divisão (2ª divisão); Terceira Divisão (3ª divisão).
1991 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Segunda Divisão (2ª divisão).
1992 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Primeira Divisão (2ª divisão); Série B (3ª divisão).
1993 – Campeonato Brasileiro.
1994 a 1999 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Série B (2ª divisão); Série C (3ª divisão).
2000 – Copa João Havelange - Módulo Azul (1ª divisão); Módulo Amarelo (2ª divisão); Módulo Verde e Módulo Branco (3ª divisão).
2001 – Campeonato Brasileiro (1ª divisão); Segunda Divisão (2ª divisão); Terceira Divisão (3ª divisão).
2002 a 2008 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Série B (2ª divisão); Série C (3ª divisão).
Ranking só dos “Campeonatos Brasileiros”
Se a intenção é considerar campeão brasileiro apenas os times que venceram competições denominadas “Campeonatos Brasileiros”, então a classificação só poderá levar em conta o campeonato nacional a partir de 1989 e ainda pular o ano de 2000, no qual ele foi chamado de Copa União.
Assim, teríamos a seguinte lista considerando apenas os “campeões brasileiros”:
1 – Corinthians, 4 títulos (1990,1998, 1999 e 2005)
São Paulo, 4 títulos (1991, 2006, 2007 e 2008).
3 – Santos, 2 títulos (2002 e 2004).
Palmeiras, 2 títulos (1993 e 1994).
Vasco da Gama, 2 títulos (1989 e 1997).
6 – Flamengo, 1 título (1992).
Grêmio, 1 título (1996).
Botafogo, 1 título (1995).
Cruzeiro, 1 título 2003).
Atlético/PR, 1 título (2001).
O Flamengo, por exemplo, teria três de seus títulos nacionais computados à Taça de Ouro (1980, 1982 e 1983) e mais um à Copa União, dividido com o Sport (1987).
O Internacional ficaria sem nenhum “Campeonato Brasileiro”, pois seus três títulos foram conquistados quando a competição se chamava Copa Brasil: em 1975, 1976 e 1979.
O São Paulo, por sua vez, ficaria sem os títulos da III Copa Brasil (1977) e de outra Copa Brasil, disputada em 1986.
Por aí se vê a bagunça que seria a catalogação dos títulos nacionais se a nomenclatura for levada ao pé da letra. Se o campeão da Copa Brasil ou da Taça de Ouro pode ser considerado campeão brasileiro, por que o vencedor da Taça Brasil ou do Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata não pode?
Porém, se o objetivo da CBF – a exemplo das entidades de países onde o futebol é mais rico e organizado – é considerar todas as competições nacionais oficiais, que deram ao seu vencedor o status de campeão brasileiro, então não há como não reconhecer este período a partir de 1959, quando foi realizada a primeira edição da Taça Brasil.
Conclusão
Não se pode considerar uma divisão entre o Campeonato Nacional antes e depois de 1971, já que a única alteração significativa entre essas fases foi a mudança de nome. O sistema de disputa continuou baseado em jogos eliminatórios e somente a partir de 2003 é que a competição, seguindo o exemplo de muitas outras da Europa, foi realizada em turno e returno, com pontos corridos.
Assim, caso a intenção seja considerar “campeonato” apenas as competições em pontos corridos, o Campeonato Brasileiro só pode ser chamado dessa maneira a partir de 2003, quando este regulamento passou a prevalecer. Parece mais sensato, entretanto, que a história da competição seja contada a partir de 1959, quando a primeira disputa nacional oficial e regular foi organizada e chancelada pela entidade máxima do futebol brasileiro à época, a Confederação Brasileira de Desportos, presidida por João Havelange de 1958 a 1975.
Detalhe: devido a um decreto da Fifa de que todas as entidades nacionais de futebol deveriam se dedicar apenas ao futebol, a CBF foi criada e desmembrou-se da CBD em 24 de setembro de 1979, mas obrigou-se a manter o caráter oficial de todas as competições nacionais realizadas até aquela data. No site oficial da CBF a data de sua fundação não é 1979, e sim 20 de agosto de 1919, portanto a própria CBF assume que ela é a mesma entidade desde o tempo em que era denominada CBD e que organizou a Taça Brasil, o Roberto Gomes Pedrosa, a Taça de Prata, o Campeonato Nacional, a Copa Brasil, a Taça de Ouro, enfim, todas as competições que deram ao seu vencedor o status de campeão brasileiro.
Observação: Na verdade, a CBF não é herdeira apenas da CBD, mas também da pioneira Federação Brasileira de Sports, fundada em 8 de junho de 1914, que em 20 de agosto de 1919 mudou o nome para Confederação Brasileira de Desportos. Ainda no seu site oficial, a CBF assume também as campanhas da Seleção Brasileira nos tempos em que a Federação Brasileira de Sports dirigia o futebol brasileiro. Portanto, entende-se que todas as competições oficiais disputadas desde 8 de junho de 1914 são automaticamente reconhecidas pela CBF.
Assim, nada mais coerente e natural do que esperar que a CBF, que é a mesma CBD, anuncie a Unificação dos títulos nacionais a partir de 1959, quando, a pedido da Fifa, organizou a primeira edição da Taça Brasil com o intuito de definir, ano a ano, um campeão brasileiro.
Por Torero às 09h37
(Muita gente tem argumentado que a Taça do Brasil seria, na verdade, uma antecessora da Copa do Brasil. Coloco aqui os argumentos que Odir Cunha apresentará à CBF sobre este assunto.)
Taça Brasil x Copa do Brasil, uma comparação sem sentido
Texto de Odir Cunha
Um dos exemplos da desinformação sobre a Taça Brasil é a comparação que se faz entre ela e a atual Copa do Brasil. O nome é parecido e a forma de disputa também. Só isso. As semelhanças param por aí. Não há qualquer equivalência entre a importância de uma e outra.
Enquanto a Taça Brasil reunia campeões estaduais e foi, por oito anos consecutivos, a única competição nacional a dar vaga para a Taça Libertadores da América, a Copa do Brasil é um torneio de excluídos, não é prioridade para as grandes forças do futebol nacional, dá como prêmio apenas uma das cinco vagas do Brasil na Libertadores e não empresta ao seu campeão o título de campeão brasileiro da temporada.
Ninguém chama, ou chamará, o vencedor da Copa do Brasil de campeão brasileiro do ano. Este título está reservado ao vencedor da competição nacional, hoje denominada “Campeonato Brasileiro”. O campeão da Copa do Brasil é apenas o campeão da Copa do Brasil, ao contrário do vencedor da Taça do Brasil, que era considerado, divulgado e premiado como o campeão brasileiro da temporada.
Há um farto capítulo neste dossiê que confirma o tratamento de campeão brasileiro que a imprensa nacional destinava ao ganhador da Taça Brasil. Uma competição única no País, aberta aos grandes clubes brasileiros e na qual eram disputadas as únicas vagas reservadas ao Brasil na Taça Libertadores da América, logicamente dava ao seu vencedor o mérito e o status de campeão nacional – o que, repita-se, amplamente comprovado pela cobertura da imprensa na época.
É importante destacar que enquanto durou, a Taça Brasil definiu as únicas vagas brasileiras para o Campeonato Sul-americano de Clubes, ou Libertadores. De 1959 a 1966 apenas o vencedor da Taça Brasil representou o País na Libertadores, e de 1967 a 1969 o direito foi estendido também ao vice-campeão da Taça Brasil.
Ou seja: de 1959 a 1969 nenhum time brasileiro que tenha participado da Libertadores chegou à competição sem ser campeão ou vice da Taça Brasil. A relevância da Copa do Brasil é bem menor. Como já dito antes, ela dá 20% das vagas brasileiras para a Libertadores e seu título é muito menos importante do que o do Campeonato Brasileiro.
Torneio dos excluídos
A Copa Brasil, desde a edição 2001, não permite a participação dos times brasileiros classificados para a Taça Libertadores. Ou seja, os quatro times de mais destaque do País no ano anterior ficam fora da Copa. A tabela de 2009, a propósito, não consta de São Paulo, Grêmio, Cruzeiro e Palmeiras.
Além desses sentidos desfalques – já que teoricamente se tratam dos melhores times do País –, a competição, disputada no primeiro semestre do ano, ainda sofre a concorrência dos estaduais, cujo título é mais valorizado por alguns clubes, que chegam a escalar reservas nos seus compromissos da Copa.
O desinteresse das grandes forças do futebol nacional provocou, em algumas edições da Copa do Brasil, surpresas significativas, como os títulos de Criciúma em 1991, Juventude em 1999, Santo André em 2004 e Paulista de Jundiaí em 2005, sem contar os vice-campeonatos de Ceará em 2004, Brasiliense em 2002 e Figueirense em 2007.
Por outro lado, como essa pesquisa deixa bastante claro, a Taça Brasil as equipes mais poderosas do futebol nacional e só foi vencida por clubes que, de tanto prestígio, depois viriam a fundar o Clube dos Treze. Como prova de sua categoria superior, todos os campeões da Taça Brasil conquistaram também o título do Campeonato Nacional, a saber:
Bahia, campeão da Taça Brasil em 1959, campeão nacional em 1988.
Palmeiras, campeão da Taça Brasil em 1960 e 1967, campeão nacional em 1972, 1973, 1992 e 1994, além de campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa em 1967 e 1969.
Santos, campeão da Taça Brasil em 1961, 1962, 1963, 1964 e 1965, vencedor do campeonato nacional em 2002 e 2004 e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa em 1968.
Cruzeiro, campeão da Taça Brasil em 1966, campeão nacional em 2003.
Botafogo, campeão da Taça Brasil em 1968, campeão nacional em 1995.
Vejamos como duas importantes enciclopédias do futebol brasileiro definem a Taça Brasil:
"Foi criada em 1989 pelo então diretor de futebol da CBF Eurico Miranda. Ele inventou a fórmula para contentar as federações com menos tradição no futebol, cujos times não conseguiam alcançar a Série A do Brasileirão, que havia desinchado a partir de 1987, com a criação das divisões. Inicialmente, a competição era disputada por todos os campeões estaduais mais os vices dos principais estados do País. Essa idéia foi sendo posta de lado e os critérios de classificação começaram também a atender interesses políticos e mercadológicos. Os clubes grandes do país não precisam mais vencer nada para participar da Copa do Brasil. São convidados simplesmente porque atraem público nos estádios e garantem a audiência da televisão. Dessa forma, a Copa Brasil, que nasceu com 32 times, passou a contar com 40 em 1996, 65 em 1999, 69 em 2000 (Nota do autor: Em 2009, assim como em 2008, a Copa terá 64 participantes). Página 363 do segundo volume da Enciclopédia do Futebol Brasileiro, publicada em 2001 pelo jornal Lance!
"Criada pela CBF em 1989, a Copa do Brasil dá ao campeão uma vaga na Copa Libertadores, Sua primeira edição foi disputada por 32 rimes: 22 campeões estaduais de 1988 mais os vice-campeões dos dez estados com as melhores médias de público. Atualmente, jogam a Copa do Brasil 64 times das 27 unidades da federação. Um inchaço que começou em 1995, com a entrada de clubes convidados, sem nenhum critério técnico." Página 292 do Anuário Placar, publicado pela Editora Abril em 2003.
Assim, não há qualquer propósito em comparar a Taça Brasil – que nos seus dez anos de existência aceitou apenas os campeões estatuais, reuniu os grandes esquadrões de uma etapa inigualável do futebol brasileiro e definiu os únicos representantes do País para a Taça Libertadores – com a atual Copa do Brasil, uma competição esvaziada dos melhores times brasileiros, que usa critérios no mínimo elásticos para congregar seus participantes e dá apenas uma das cinco vagas do Brasil na Libertadores.
A Taça Brasil teve finais memoráveis, como a de 1962, entre o Botafogo de Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Quarentinha e Amarildo, contra o Santos de Pelé, Zito, Gylmar, Mauro, Mengálvio e Coutinho – todos bicampeões da Copa do Chile alguns meses antes. Teve ainda a final entre esse mesmo Santos e o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Piazza, Raul e Procópio, decisão que colocou definitivamente não só o Cruzeiro, mas o futebol de Minas Gerais no mapa do futebol brasileiro.
Enfim, comparar a Taça Brasil, primeira competição nacional a reunir as grandes equipes do País, com a atual Copa do Brasil é um acinte à história do nosso futebol e aos grandes astros que a escreveram.
Por Torero às 10h14
Está bem interessante a polêmica pela unificação dos títulos brasileiros.
Os contrários a ela usam dois argumentos: o nome do campeonato e a fórmula de disputa.
Quanto ao nome, lembro que o campeonato brasileiro só é chamado assim desde 1989. Antes foi Taça de Ouro, Campeonato Nacional, Copa João Havelange, outra vez Taça de Ouro, etc...
Quanto ao sistema de disputa, é mais recente ainda. O campeonato de pontos corridos começou em 2003. Antes disso tivemos uma salada de fórmulas preparada por Ticos e Tecos variados.
Enfim, sou a favor da unificação. Muitos vão dizer que é porque sou santista, e talvez, no fim das contas, seja verdade, que não tenho o sonho de ser 100% objetivo e neutro. Mas, de qualquer forma, os argumentos de Odir Cunha, o jornalista que faz a defesa da unificação, me parecem muito bons. Principalmente quanto ao valor dado a estes campeonatos à época (os vencedores eram chamados de campeões brasileiros). Abaixo, algumas manchetes (da Gazeta Esportiva, de O Cruzeiro e dois da própria Folha de S.Paulo) que comprovam isso:
(PS: Amanhã publicarei aqui alguns textos do polêmico dossiê e o leitor poderá julgar por si mesmo, sem que nós, cronistas, atrapalhemos).


Por Torero às 09h06
O primeiro saiu ontem na Folha de S.Paulo, e só pode ser acessado por assinantes do jornal e do UOL (neste caso, clique aqui).
O outro foi escrito pelo meu sobrinho Lelê, que foi ao Pacaembu comigo e conta o jogo do jeito dele. Este tem livre acesso. Para ir para lá, clique cá.
Por Torero às 08h44
Alívio: Faltando apenas quatro jogos para o fim da primeira fase do paulista, os corintianos abrem seis pontos para o quinto colocado e respiram aliviados.
Bruno Ferreira Bonfim: É o nome de Dentinho. O cara é muito reclamão, mas foi o melhor atacante do jogo. No gol da vitória, subiu entre dois zagueiros para marcar. E cabeceou com precisão, mirando e acertando o canto de Fábio Costa. Dentinho está melhor que o Dentão.
Cléber Pereira: É com K, mas ainda não coloquei esta letra no meu alfabeto. Ontem ele foi tão ruim quanto Roni, mas pelo menos ficava impedido de vez em quando.
Desilusão: É uma boa palavra para definir a partida. O que seria um tremendo duelo entre Ronaldo e Neymar, acabou sendo um jogo feio. Menos mal para o Corinthians, que pelo menos ganhou os três pontos.
Espetinho: Fiz uma pesquisa gastronômica ao redor do estádio e o melhor prato me pareceu um espetinho na avenida Pacaembu. Se era gato, devia ser angorá.
Fenômeno: Desta vez enfrentou zagueiros um pouco melhores e não conseguiu vencê-los. Talvez tenha sido sua partida menos empolgante. Baixada a espuma e varridos os confetes, será esse o Ronaldo final? Acho que não. Ele ainda pode melhorar.
Guerra: No primeiro tempo assisti à partida exatamente onde começou a briga entre as torcidas, e não houve problema nenhum. Dei sorte e mudei de lugar alguns minutos antes.
“Horror, horror, horror!”: É o que diria o comentarista esportivo William Shakespeare se tivesse visto um momento ali pelo meio do segundo tempo em que houve vários chutões de lado a lado. Parecia que ninguém queria dominar a bola e que a graça era improvisar um futevôlei, chutando-a para o outro lado..
Inimigos: Os próximos do Corinthians são Ponte Preta (em casa), Guarani (fora), Ituano (em casa) e Mirassol (fora). Ou seja, não há um caminho muito acidentado até a classificação.
Juiz: Rodrigo Martins Cintra foi bem. Errou no final e poderia ter dado cartão amarelo para Felipe, que reclamou tanto quanto Fábio Costa. Mas foi bem.
“Lindo lance!”: Não usei esta expressão nenhuma vez durante o jogo.
Madson: É o melhor jogador do Santos este ano, segundo os votos dos torcedores no site Santista Roxo. Mas começou no banco de reservas. Poderia ter entrado no jogo desde o começo, no lugar de Roni ou Lúcio Flávio.
Neymar: Sentiu o peso do primeiro clássico. Ficou intimidado e não fez grandes jogadas. Quando começava a melhorar, foi sacado do time.
Opção: O Santos jogou num 4-3-3 ou 4-4-2, quando Neymar voltava um pouco. Contra o São Paulo a tática foi um interessante 3-6-1. Mancini poderia ter repetido o esquema com apenas um centroavante, deixando Mádson e Neymar pelas pontas.
Passes: O número de passes errados na partida foi impressionante. Douglas e Lúcio Flávio devem ter feito uma aposta para ver quem erraria mais. O corintiano, porém, redimiu-se ao certar o passe para o gol.
Quando?: Quando você viu dois centroavantes fixos darem certo? Nem com Adriano e Ronaldo. Mas o Santos parece que vai insistir com sua dupla de frente.
Roni: Ruim, ruim, ruim...
Sururu: Assim como no jogo entre São Paulo e Corinthians, novamente o confronto foi entre a Polícia Militar e a torcida visitante. Até agora, esta história de apenas 5% ou 10% de torcedores visitantes está dando 100% errado.
Tabela: Os próximos três jogos do Santos são justamente contra os times que disputam com ele a quarta vaga nas semifinais: Santo André, Portuguesa e Grêmio Barueri.
Um milhão: Foi a renda do jogo. E ainda havia clarões nas arquibancadas verdes e amarelas.
Vips: Dei uma passada no setor VIP do Corinthians e vi Barrichelo e Raul Gil. O hot-dog lá custava R$ 5,00. Nas cadeiras, R$ 4,00, e, na sala de imprensa, apenas R$ 3,00. Pelo jeito, o pessoal das lanchonetes está bem informado sobre o salário dos jornalistas.
Xadrez: É comum que se faça a comparação de um jogo de futebol com o xadrez. Não foi o caso deste Corinthians e Santos. Não houve reis, bispos e torres. Só peões e cavalos (está bem, para não dizer que foram todos iguais, André Santos e Dentinho salvaram-se da mediocridade geral).
Zaragata: Significa estado de desordem, confusão, balbúrdia. Era como estava o círculo central do Pacaembu neste domingo. A bola ia para lá e para cá, sem muito sentido ou intenção. No fim das contas foi um jogo bem ruim. Os corintianos ainda tiveram o doce consolo da vitória, mas os santistas, nem isso (o que explica este ABC meio amargo).
Por Torero às 07h23
E vamos aos resultados da Toreroteca.
O primeiro jogo, como todos sabem, foi uma vitória (argh!) do Corinthians sobre o Santos. Uma partida bem ruinzinha mesmo.
O jogo 2 foi para o vasco, numa partida com cinco expulsões.
No encontro entre tricolores, empate entre Paulista e São Paulo.
Chapecoense e Figueirense ficaram no 2 a 2.
O Central, que no meio de semana passou sobre o Ceará e se classificou para a próxima fase da Copa do Brasil, neste domingo surpreendeu e venceu o Náutico por 3 a 2.
E, no nosso jogo da A-3, o União Mogi perdeu em casa do Grêmio Osasco e seu técnico pediu demissão, dizendo que a diretoria não só não paga os salários, como nem pagou o almoço aos jogadores na partida contra a Francana.
Pois bem, tivemos duas zebras, o empate do São Paulo e a vitória do Central, e assim ninguém fez os seis pontos. Aliás, alguns, como o Cláudio Pedroso e o Rodrigo Felga, conseguiram o difícil feito de não marcar nem um ponto.
Na próxima semana, certamente eles irão melhor. Ou, pelo menos, não vão piorar.
Por Torero às 20h36
Minha primeira vez
Texto de Luís Pires (Osasco/SP)
Quando ouço alguém relembrar sua primeira visita a um estádio de futebol, não consigo esconder minha inveja. Por mais que eu tente, não me recordo qual foi meu primeiro jogo assistido num estádio. Teria sido uma partida do Corinthians, no Pacaembu ? Provavelmente. Mas também pode ter sido no Morumbi, um jogo do São Paulo, time de coração de meu pai e de meu irmão, que costumavam me levar com eles, na esperança de demover-me da idéia de ser corinthiano. Tolinhos. O fato é que não me lembro de minha primeira vez.
Minha primeira lembrança do futebol vem de dentro de um gramado, mais precisamente, do Estádio Nicolau Alayon, sede do Nacional Atlético Clube, time das divisões inferiores da capital paulista. No início dos anos 70, oito entre dez garotos de minha idade (seis/sete anos), sonhavam se tornar jogador de futebol, que não contavam com o prestígio de hoje em dia, principalmente financeiramente falando. Não pensávamos em enriquecer jogando futebol. Simplesmente desejávamos vestir o manto sagrado do clube amado, para podermos ouvir nosso nome ser entoado em côro pela torcida. Isso era tudo que almejávamos.
Na época, um primo disputava o torneio de dente-de-leite, cujos jogos eram realizados no sábado pela manhã, no citado campo. Boa parte da minha família ia vê-lo jogar. Na preliminar do jogo principal, os organizadores do evento preparavam uma brincadeira: cerca de sessenta garotos disputavam uma partida curta – durava apenas dez minutos – marcada pela confusão. Todos corriam para a bola ao mesmo tempo, formava-se uma multidão em torno dela e o que se via não era nem de longe uma partida de futebol. Mas isso servia como chamariz ao público, pois todos queriam ver seus pimpolhos dentro de campo, com a camisa de seu time querido.
Nós morávamos em Osasco e precisávamos tomar duas conduções para chegar até a sede da Rede Tupi – localizada no prédio onde hoje funciona a MTV, no bairro paulistano do Sumaré, onde fui com minha mãe e minha madrinha fazer a inscrição para essa “partida”. Foi uma dos meus primeiros contatos com São Paulo e seus prédios, o burburinho da “cidade grande” que até hoje me fascinam.
No sábado seguinte eu entrava em campo vestindo o uniforme do Corinthians – comprado pelo meu pai, evidentemente, pois os organizadores não forneciam o vestuário – para disputar uma partida de futebol, num campo de tamanho oficial, gramado. Nos vestiários, talvez para diminuir a ansiedade que caracterizam os momentos antes de se realizar um sonho, conversei muito com o goleiro do meu time, a quem prometi um gol. Minutos depois, entrávamos em campo, sob o apupo dos torcedores/familiares, que enchiam as arquibancadas do estádio. Eu olhava ao redor e quase não acreditava que estava ali no centro do gramado, pronto para dar o pontapé inicial da partida. Tudo me parecia irreal.
Após o apito do juiz palhaço – literalmente era um cara vestido de palhaço – para onde a bola ia, corriam todos, formando sempre um “bolo” de gente ao seu redor. Não se podia chamar aquilo de uma partida de futebol, mas nós disputávamos a posse da pelota, no momento, a coisa mais importante de nossas vidas.
Quase ao final da partida (que durava cerca de 15 minutos), como nenhuma das equipes chegava sequer perto do gol, o juiz/palhaço inventou um pênalti a nosso favor – como tantas outras vezes eu viria, tanto a favor, como contra o meu Coringão. Como eu estava próximo a ele, me escolheu para que eu o batesse. Coloquei a bola debaixo do braço, caminhei lentamente para a marca da cal. Olhei atentamente para goleiro parado ao centro daquele gol, que me pareceu enorme. Sem vacilar, chutei com força, para balançar as redes.
- Gooooooooooooolllllllllllllll.
Saí correndo como louco, com o resto do time tentando me alcançar. Enquanto corria, via a torcida vibrar, o coração quase me escapava pela boca. Senti um arrepio me percorrer a minha espinha, algo como um orgasmo – que na época eu nem sabia o que era. Corri ao encontro do nosso goleiro, a quem havia prometido o gol e dei-lhe um forte abraço. Quando reparei, ainda meio atordoado pelas emoções do momento, vi que os dois times se amontoavam ao redor de um pódio, colocado no centro do gramado. A partida havia acabado e – como era de praxe – o autor do gol recebia uma bicicleta de presente. Como eu não estava por perto, decidiram entregar o prêmio a um outro qualquer.
Assim, meu primeiro momento de glória no futebol ficou marcado por uma injustiça. Não ganhei a bicicleta que me era de direito, por ter corrido para abraçar meu amigo goleiro. Florescia então uma das marcas que me acompanham: a importância – às vezes exageradas -- que sempre dei às minhas amizades.
Mas ainda restou-me o consolo de chegar em casa e acompanhar o vídeo-tape da partida pela televisão. A família toda reunida na sala, vendo na telinha o gol mais importante de minha carreira futebolística que, é claro, não passou disso. Foi um momento inesquecível.
Por Torero às 08h13
E a Toreroteca voltou. Para quem esqueceu ou nunca viu, as regras são as seguintes: ganha o primeiro que acertar os seis vencedores dos jogos que vou indicar. O prêmio, se é que pode ser chamado assim, é um livro deste que vos escreve. Vamos aos jogos:
Obviamente, o primeiro é Corinthians x Santos.
O segundo, um bom Vasco x Flamengo.
O terceiro, um jogo tricolor: Paulista x São Paulo.
Para atrapalhar o apostador, um difícil jogo catarinense: Chapecoense x Figueirense.
Agora, uma partida lá de Pernambuco (com cara de empate): Central x Náutico.
E, por fim, para dar um pouco de folclore, um jogo da terceira divisão paulista: União Mogi x Grêmio Osasco, onde estará em campo o veterano Macedo.
Meus palpites são: Corinthians, empate, São Paulo, empate, empate e União (com gol de Macedo, é claro).
Por Torero às 09h25
Os santistas que gostam de acompanhar a trajetória dos jogadores que passaram pelo clube vão encontrar um bom material no site Santista Roxo. Há lá o paradeiro de 334 ex-alvinegros. Você vai saber, por exemplo, que o japonês Kazu continua jogando (na segunda divisão japonsesa), que o Fernando Tubarão é técnico do Cene, que o imortal Macedo está jogando na A-3, pelo União de Mogi das Cruzes, e que o grande centroavante Marcelo Peabiru foi dispensado de um time de Malta. De Malta!
Para ir para lá, clique aqui.
Por Torero às 09h03

1-) Ontem, em Campinas, a noite foi do lateral Edílson. O cara fez de tudo: duas assistências, um gol a favor e até um contra. E isso só no primeiro tempo. No segundo, A ponte fez mais três gols e venceu o Vilhena, de Rondônia, por 6 a 1.
2-) Numa noite de goleiros, o Vitória da Bahia suou para passar pelo ASA-AL. Os dois times empataram em 1 a 1 e foram para os pênaltis. O Vitória marcou todos os seus cinco tentos. O último do ASA foi batido por seu goleiro: Santos. E o outro arqueiro, Viáfara, defendeu.
3-) O São Paulo não foi brilhante mas venceu o Defensor fora de casa. Melhor assim que ao contrário. E desta forma o São Paulo vai avançando na competição preferida pelos seus torcedores.
4-) O goleiro chama-se Flaubert, a dupla de ataque é Rigo e Rubson, e o técnico tem o nome de Baggio. E ainda há Jean Carioca, Domício, Pilão, Josivan, Kélson, Grafite (não é aquele) e Diego Souza (também não é aquele). Time curioso este Moto Clube. Na primeira partida contra o Náutico pela Copa do Brasil houve empate em 1 a 1. Ontem o Náutico marcou primeiro, mas o Moto Clube foi para o ataque e quase empatou. No finzinho, o time pernambucano fez 2 a 0. Ainda não foi desta vez que o jovem Flaubert, que está há três anos no time, passou para a segunda fase da Copa do Brasil.
5-) Tico e Teco, quem diria?, acabaram na Fórmula-1. O novo regulamento, em que o campeão é decidido por uma regra (número de vitórias) e as outras colocações por outra (número de pontos), só pode ter sido bolado pelos dois inventores de regras.
6-) Li por estes dias o livro “Febre de bola”, de Nick Hornby. É muito bom. Conta sua história como torcedor fanático pelo Arsenal, daqueles que não perde um jogo sequer. Em geral não gosto de biografias, mas esta tem boas reflexões e causos divertidos. E o leitor certamente vai se reconhecer em vários momentos. Os fanáticos somos meio parecidos.
7-) A tal da carteirinha do torcedor é uma bobagem. Coisa de burocrata.
8-) Fui ontem à Vila Belmiro assistir a Santos x Rio Branco. Foi a primeira vez que vi Neymar ao vivo, e ele realmente impressiona. Sempre toca na bola de uma maneira surpreendente. Fabão também esteve bem na zaga e Bolaños já parece um jogador de futebol.
9-) O Central conseguiu passar pelo Ceará. Empatou sem gols em casa e em 1 a 1 em Fortaleza. O Ceará perdeu um pênalti no começo do jogo, mas aproveitou outro aos 27’ do segundo tempo. Parecia que tudo estava acabado, mas, nove minutos depois, o goleiro Adilson falhou e Buiú, que já esteve entre os juniores do Corinthians, aproveitou. Agora o time de Caruaru enfrentará o Vasco da Gama.
10-) Anteontem vi o filme Watchmen. Botava a maior fé, mas acabou sendo uma decepção. É belo, mas pouco emocionante. O mesmo diretor acertou bem mais em 300.
11-) O Confiança era considerado zebra, mas passou pelo América-RN. E agora enfrentará outro time surpreendente, o Icasa, que passou pela Portuguesa. Um dos dois estará entre os dezesseis melhores clubes da Copa do Brasil. Isso é que dá uma graça especial a esta competição.
12-) O Cruzeiro, na volta de Sorín, venceu o Universitario de Sucre, em casa, por 2 a 0. Mas não foi fácil. O primeiro gol só veio aos 12’ do segundo tempo, e de pênalti. O segundo aconteceu no último minuto. Os dois foram marcados por Wellington Paulista.
13-) Domingo teremos um duelo interessante: Ressuscitado x Reencarnado. Ou, em outras palavras, Ronaldo x Neymar, que me parece uma reencarnação de Robinho.

Por Torero às 10h13
Caro Jorge Ben Jor, certamente você lembra daquela sua música que começava assim:
“Os Alquimistas
estão chegando.
Estão chegando
os Alquimistas.”
Pois bem, estou pensando em fazer uma nova letra para ela. A primeira estrofe seria esta:
“Os centroavantes
estão voltando.
Estão voltando
os centroavantes.”
Sabe por quê? Por que está acontecendo um fenômeno estranho nos últimos anos. Vários centroavantes que jogavam no exterior estão voltando para o Brasil.

O Washington, por exemplo, voltou do Japão para o Fluminense e agora está no São Paulo. É um ótimo jogador, já passado dos trinta anos, mas que poderia tranquilamente estar fazendo seus gols pelo mundo afora.
Kléber Pereira, hoje no Santos, ficou um tempão no México, mas, desde que retornou ao lado de baixo do Equador, vem estufando as redes dos adversários. E, no mesmo time, há Roni, que veio das terras do oriente, começou jogando mal, mas agora marcou em três partidas seguidas.
Outros bons centroavantes retornados são Kléber, que esteve no Palmeiras e agora derrama seus gotas de suor e sangue pelo Cruzeiro, Nádson, que está no Vitória, Reinaldo, agora no Botafogo, e Marcos Aurélio, que foi repatriado pelo Coritiba (e que, a bem da verdade, não é exatamente um centroavante, mas um atacante).
Estes jogadores parecem um pouco com andorinhas, que voltam para o ninho no verão. Ou, ampliando a comparação penosa, com pombos-correio que sabem o caminho de volta para casa.

É claro que nem sempre os retornos dão certo. Souza, hoje no Corinthians e ontem no Flamengo, veio do Panathinaikos mas ainda não conseguiu se readaptar.
Mesmo assim, caro Jorge, acho que vale a pena fazer a nova letra. Na verdade, em alguns versos a gente nem precisa mexer. É o caso daquele trecho que diz:
“Eles são discretos
e silenciosos.
Moram bem longe dos homens,
escolhem com carinho
a hora e o tempo
do seu precioso trabalho.”
Afinal, muitos deles não dão mesmo muitas entrevistas, moram em condomínios fechados e não treinam em dois turnos.
E a música tem um verso que parece perfeito para o Ronaldo:
“São pacientes, assíduos
e perseverantes.”
Bem, talvez o Ronaldo não seja tão assíduo, já que dificilmente fará todos os jogos do Corinthians, mas que é paciente e perseverante, não há dúvida. E ele é o mais famoso dos centroavantes que estão voltando. Todos querem ver seus dribles e gols. Ele ressurgir pela terceira vez das cinzas parece um milagre. E fazer isso aqui no Brasil tem um gosto especial. É como aquela parábola bíblica em que o filho pródigo volta à casa do pai e é recebido de braços abertos (pensei em fazer uma comparação com os elefantes, que voltam ao local do nascimento para morrer, mas seria uma piada pesada e de gosto duvidoso).
E agora quem voltou foi o Fred, que, na minha opinião, é o centroavante que pode fazer mais sucesso entre todos os retornados. Ele ainda é jovem, joga muito e fez um contrato de cinco anos. Ontem, em sua estréia, marcou dois gols. O chato é que ele provavelmente vai castigar o seu Flamengo; mas é um preço que todos temos que pagar para ter estes centroavantes de volta. Centroavantes que são verdadeiros alquimistas, pois transformam muitos times de, digamos, lata, em ouro.
(para ouvir um pedaço da música, clique aqui)

Por Torero às 09h27
Sempre aos domingos - A paz dos justos
Texto de Thomas Castilho*
Após cada um dos finais de semana do mundo da bola recheados de tragédias somos obrigados a ouvir a velha ladainha de sempre. Talvez um ou outro personagem novo, deslumbrado com a possibilidade de sucesso rápido. Sem o mínimo de conhecimento de causa, pensa em fórmulas mágicas capazes de solucionar um problema crônico de nossa sociedade, manifesto todos os dias de inúmeras formas, inúmeras vezes, em diferentes circunstâncias. Balbuciam números como se ali existisse alguma solução capaz de se fazer entender as complexas relações que envolvem os diferentes personagens do meio esportivo, particularmente do futebol.
Um grande número de jornalistas despeja sua ignorância e seu preconceito por todos os cantos, se alimentando das tragédias como o urubu da carniça. Partem dos dogmas levianos em que fundamentam seus raciocínios limitados para conseguir chegar apenas a conclusões vazias que guerreiam para ver quem tem o adjetivo mais criativo. Uma guerra de adjetivos e qualificações, desprovida de idéias e fundamentos.
Isso cansa. Lamentavelmente, apenas demonstra que os problemas crônicos relacionados à violência e à falta de organização do futebol brasileiro vão bem, obrigado, assim como também indica a falta de vida inteligente buscando soluções perenes, construídas com engajamento e trabalho, sem rótulos baratos. Se não é "inteligente" quem vai aos estádios num dia de clássico, me parecem menos inteligentes aqueles que vivem para adjetivar os "não-inteligentes", sejam eles torcedores, dirigentes ou jogadores.
Sendo assim, vamos falar de paz de gente grande. Vamos falar de uma paz que envolva os diferentes protagonistas do processo, delegando responsabilidades e cobrando respeito, de todas as partes. Não se exige paz numa cultura de violência mas se constrói a paz. Não se faz paz com uma pseudo-imprensa que legitima a ação violenta da polícia, que fica eufórica sempre que pode apontar seus dedos para os torcedores. Não se faz paz com direitos básicos sendo desrespeitados. Não se faz paz sem punição. E, mais importante, não se faz paz sem tentar mudar a mentalidade e os valores da nossa sociedade. Isso exige educação. E educação exige empenho.
Alguns princípios básicos:
- Todo trabalho que venha a ser feito deve ser pensado no longo prazo. Isso quer dizer que mesmo depois de eliminados os episódios que resultam em mortes, ele deve continuar. Não pode ser deixado no meio do caminho como tem sido feito. Contínuo e ininterrupto, reunindo representantes do Estado, dos clubes, e da sociedade civil (torcedores, organizados e não-organizados, marqueteiros, psicólogos, estudiosos da área, jornalistas). Deve ser em nível Nacional e local, com o levantamento de problemas específicos e relevando as diversidades culturais e estruturais nas diferentes regiões do país. Todas as demandas devem ser ouvidas e atendidas dentro das possibilidades.
- o objetivo é fazer a paz para os torcedores que historicamente freqüentam os estádios de futebol, todos eles, respeitando seus valores e sua cultura. Respeitando o seu modo de torcer desenvolvido ao longo de um século. Uma paz inclusive para aqueles torcedores das finadas Gerais, épicas, do Maracanã, do Mineirão, do Beira-Rio ou do Morumbi, que é agora dos torcedores "VISA". Paz, implica respeitar o direito dos que têm e dos que não têm, rejeitando qualquer tipo de paz financeira, que há muito é sugerida por nossa elite. O que importa se a imprensa submissa, que só consegue enxergar a Europa quando busca uma referência, acha bonitinho os bilhetinhos e as cadeirinhas numeradas se o povão que vive o drama gosta de ficar em pé, abraçado, fazendo o "póropópó geral"? Não se trata de gado, e podemos bem decidir o que é melhor para a gente, quer achem feio, quer não.
- assumimos que moramos num país regido por uma Constituição, da qual emana toda e qualquer lei, pouco importando os caprichos daqueles que são contra a existência das torcidas. Não tem relevância. A idéia já começa diferente. Se nós queremos a paz, partimos do seguinte pressuposto: vivemos num estado de direito e todos são inocentes até que se prove ao contrário. As lideranças não devem viver no gueto. Se alguém deve para a lei cabe à Justiça julgar e punir possíveis culpados. Nós não temos nenhum Daniel Dantas como associado e o presidente do Supremo não nos daria Habeas Corpus ou muito menos se oporia ao uso de algemas contra nossos associados. As torcidas não têm nenhuma razão para se omitir em um processo de paz. Se as torcidas são parte do problema, certamente são a única via para uma paz verdadeira, que não seja pautada apenas pela repressão. As lideranças de torcida devem ser reconhecidas como parte fundamental de qualquer processo que mencione a palavra paz. Não sendo julgados sem que tenham alguma pendência com a justiça, como é feito. A paz de verdade não é feita nos blogs, não é feita nos gabinetes e muito menos nas redações. A paz verdadeira é feita nas ruas. Faz paz quem tem disposição para a guerra. E o pressuposto básico é a justiça.
- o outro lado importante desse processo chama-se Polícia Militar. É preciso criar um destacamento especial para lidar somente com estádios de futebol. Pessoas especialmente treinadas para lidar com multidão em praças esportivas, aprendendo a tratar o torcedor com o devido respeito e deixando de enxergá-lo como um inimigo, evitando os atos de punição coletiva, como ocorrido no Morumbi no último clássico. Devidamente equipados e treinados, procurando estreitar ao máximo a cooperação entre as lideranças de torcida e os oficiais. Esse trabalho, que teve início há muitos anos na saudosa gestão do coronel Resende e que teve continuidade com o coronel Marinho, tem momentos de avanços e momentos de retrocessos. Deve ser aprofundado, aumentando a proximidade dos atores envolvidos e acertando a cooperação entre policiais e lideranças sempre que qualquer tipo de conflito venha a ocorrer. Como meta sempre o diálogo antes de ampliar o uso da violência. Respeito recíproco deve ser construído. Temos que mudar um olhar que infere a inimizade para um que permita nos enxergarmos como cooperadores que possuem objetivos comuns.
- outro ponto é o desenvolvimento de uma legislação específica para crimes em praças esportivas e tribunais móveis capazes de julgar e aplicar a pena no momento do evento. As leis devem endurecer nos casos de utilização de armas, de qualquer espécie, em qualquer local, e buscar a construção de penas alternativas para infrações menores, inclusive impossibilitando a presença de transgressores nos estádios nos dias de jogo do seu time. Essas leis devem ser formuladas com a participação de todos os setores da sociedade civil, e não podem ser carentes de eficácia, levando em consideração todos os problemas já existentes em nossa ordem jurídica. O Jecrim (Juizado Especial Criminal) foi uma experiência válida, e tentou algumas vezes atuar na frente dos estádios. Mas aonde anda? Toda ação - Jecrim, Comissão da Paz, Comissão do PROCON - é importante, mas se e somente se for atuante o suficiente para não cair no esquecimento e desuso. Mais do isso devem ser integradas, para que se alimentem e troquem experiências, traçando objetivos de curto e de longo prazo, se renovando e se desenvolvendo.
- as torcidas devem assumir um compromisso de extermínio de toda e qualquer prática de violência premeditada, criar mecanismos eficientes de punição interna, além de banir qualquer tipo de música que faça apologia à violência.
Depois dos princípios básicos serem respeitados, vamos ao caminho:
- mapeamento de todos principais conflitos e problemas do Brasil envolvendo o futebol,e principalmente os que dizem respeito às torcidas. Identificar todos os jogos que envolvem maior rivalidade e risco de episódios trágicos. O aumento da rivalidade entre as torcidas tem raízes históricas, que passam por problemas ocorridos ao longo do tempo. Um incidente ocorrido num jogo lá da década de 80 em uma caravana específica, num momento em que o policiamento ainda não estava presente, e que se iniciou com uma discussão banal entre dois torcedores alcoolizados, pode explicar a origem de um conflito irracional que se arrasta durante anos. Ao mesmo tempo, existem torcidas que demonstram ter afinidades e desenvolvem uma relação de cordialidade. Tudo isso deve ser relevado. Priorizando e prevenindo os principais conflitos podemos pôr um fim nessas diferenças, que são o que alimenta o ciclo. Eles possuem um lado pessoal e um lado impessoal. Ao mesmo tempo em que muitos dos que brigam conhecem os que brigam nas outras torcidas, mostrando um traço de pessoalidade, os conflitos têm o poder de se perpetuar no tempo, envolvendo as gerações futuras, o que o torna também impessoal. Mesmo os que nunca tiveram problemas, nunca pensaram em brigas, e que por ventura se disponham a acompanhar seu time pelo seu estado e pelo Brasil, terão que lidar com uma realidade complexa, da qual a violência já é parte.
- reuniões antes de todos os clássicos e jogos de risco, envolvendo as lideranças das torcidas e o comando do policiamento. Mapeamento de todos os coletivos espalhados pela cidade, identificação dos principais pontos de encontro, acerto de horários e trajetos, identificação dos pontos críticos e envio de destacamentos para locais pré-determinados entre o policiamento e as torcidas. Essas reuniões seriam espalhadas para os bairros, dando responsabilidade aos torcedores e facilitando as investigações de possíveis incidentes. A imprensa tomaria parte nesse ponto, ajudando na divulgação de trajetos e horários e dando voz às lideranças para que orientem seus associados. Ampliando a via de contato com os associados. As torcidas já se submeteram a cadastramentos humilhantes sem que nenhuma de nossas demandas fosse ouvida. Aqui nesse país se cadastra por prevenção, presumindo não a inocência, mas a culpa. Hoje, lemos a notícia que mais uma carteirinha mágica será feita para "acabar com a violência". Seria muito fácil se carteirinhas acabassem com a violência, não? Aliás, para que temos R.G.? Só mais uma burocracia irracional para satisfazer a ânsia por respostas da sociedade. Isso já não tinha sido feito, só com os “vândalos”? Mas os sábios da bola e da política não sabem nem que a maioria dos problemas ocorre não nas redondezas dos estádios, mas nos terminais longínquos dos bairros ou no centro da cidade, e nos trajetos para o estádio. Nesses pontos ninguém mostra carteirinha. Além do mais, leis inconstitucionais costumam ter vida curta. Carecem de vigência. O Capez sabe bem disso.
- uma campanha nacional utilizando todos os meios disponíveis para divulgar mensagens inteligentes para a construção da paz, inclusive com as lideranças participando do processo, empenhando suas imagens e suas palavras num compromisso. Também jogadores, ex-jogadores, personalidades ligadas ao esporte, e todos que possam contribuir.
Pela televisão, pelo rádio, panfletos e jornais. Coisa bem feita, com gente boa. De forma que possamos assim construir um ambiente no qual as pessoas saiam de casa com seus espíritos desarmados, sem disposição para a guerra. Um pouco diferente do que foi feito no último jogo entre Corinthians e São Paulo.
Essa é a paz dos justos. Não é a paz dos que assistem aos jogos das cabines de transmissão, ou do conforto da sua sala, mas a paz dos que vivem a realidade não muito atraente dos estádios de futebol. Dos que convivem com a violência policial, dos que pagam preços abusivos pelos ingressos, dos que esperam pacientemente o horário-do-final-da-novela para o início do jogo, que andam quilômetros até o centrão para pegar o último busão para casa, que enfrentam os banheiros porcos e vêem seus clubes administrados por dirigentes corruptos. A paz dos que vêem seus ídolos trocar de time como trocam de camisa e que observam seus clubes se tornarem palco para atuação de meia dúzia de dirigentes e empresários interessados nos lucros do comércio dos menores boleiros. E que ainda assim pagam 30, 40, 50 ou 70 reais para assistir um jogo de futebol, na chuva ou no sol, na quarta e no domingo. Dos que sofrem a discriminação da imprensa e ainda assim pegam a estrada e rumam para os quatro cantos desse país acompanhando seu time. Dos que têm se acostumado com os escândalos envolvendo árbitros, sem deixar de se submeter às mais constrangedoras situações para extravasar seu grito de gol.
Num mundo regido pela matéria, pelo dinheiro, o não-inteligente não é aquele que não mede esforços para expressar o amor, mas aquele suficientemente racional e burocrático para se dizer inteligente porque tem medo de ir viver o amor. Amor e inteligência só combinam quando a inteligência está no ato de amar, já que depois que amamos, não parece ser inteligente o que nos dispomos a fazer. Todos nós.
O povo organizado incomoda, sempre. O receio maior é pela força que ali se esconde. Sim, muitas vezes mal direcionada, mal administrada. Mas ainda assim poderosa. Vai chegar a hora em que as torcidas entenderão o poder que possuem para transformar a realidade do nosso futebol e, juntas, utilizá-lo para lutar por preços de ingressos justos, por administrações competentes, por estádios que não desabem, por uma polícia humana, por uma imprensa digna, e por um modelo de futebol que seja mais condizente com a realidade do nosso país, que possui milhões de párias espalhados, esquecidos, enquanto o dinheiro e as páginas dos jornais só atingem a vida de meia dúzia de personalidades. A paz dos justos é responsabilidade de idosos, adultos e crianças, de homens e mulheres, de dirigentes, policiais, jornalistas e torcedores, organizados ou não. A paz dos justos é de ricos e pobres, não só dos ricos. A paz dos justos quer não só um futebol diferente, mas um país.
(*Thomas Castilho é ex-conselheiro e ex-diretor da Gaviões).
Por Torero às 19h31
Estava eu passando uns dias de férias numa pousada na bela praia de Muriú, no Rio Grande do Norte, quando, no café da manhã, escuto duas conhecidas vozes na mesa ao lado.
“Quer mais uma água de coco, Tico?”
“Água de coco nunca é demais, Teco.”
Dei uma olhada de soslaio e tive a confirmação. Sim, eram eles, Tico e Teco, os dois mais conhecidos profissionais da área de criação e planejamento de regulamentos de campeonatos de futebol. Mas o que eles estariam fazendo ali?, perguntei-me.
Como se estivesse lendo meus pensamentos, Tico falou:
“Ainda bem que a Federação Norte-Riograndense chamou a gente para bolar o estadual,
não é, Teco?”
“Ainda bem. Esse negócio de turno e returno está acabando com o nosso trabalho.”
“Fiquei até com medo de que a gente tivesse enferrujado.”
“Que nada, Tico, nós fomos ótimos.”
“É verdade, Teco.”
“Aquilo de fazer o primeiro turno com onze rodadas foi brilhante.”
“Coisa de quem entende de física quântica.”
“Fisica o quê?”
“Esquece, Teco.”
“Já esqueci. O importante é que assim alguns times já começarim com vantagem, porque iriam jogar seis vezes em casa, e outros, só cinco. Pena que o São Gonçalo desistiu do campeonato e acabou com a brincadeira.”
“Mas tudo bem, porque mesmo assim eu dei um jeito de o campeonato ficar interessante. Você não achou ótima essa história de um segundo turno com apenas seis times, Teco?”
“Você é um gênio, Tico.”
“Ah..., quem sou para desmentir você, Teco? Me passa mais um queijo coalho?”
“Aqui está, mestre da suprema genialidade.”
“Ora, a sua idéia de deixar os três últimos colocados do primeiro turno disputarem a segunda divisão foi muito boa.”
“Modéstia à parte, bem à parte, foi mesmo. E, como o vencedor da segunda divisão vai subir para a primeira, se um dos três rebaixados ganhar o campeonato, vai descer e subir no mesmo ano.”
“É o campeonato elevador. Você também é um gênio, Teco.”
“Tanto quanto você, Tico?”
“Também não vamos exagerar.”
“Tem razão, você é melhor que eu. Aquela sua sacada de que o sétimo e o oitavo colocados no primeiro turno ficariam no limbo foi demais.”
“He, he... Não vão jogar a segunda divisão, nem o segundo turno.”
“A festa para esses aí acabou bem cedo.”
“Estamos no começo de março e o ano deles já acabou.”
“Coitado do Potiguar de Mossoró...”
“Coitado do Alecrim de Natal...”
“Vão fazer apenas onze jogos e tchau, tchau.”
“O pessoal não reclama que não tem tempo para a pré-temporada? Então, eles vão ter dez meses para se preparar para o ano que vem.”
“Poxa, eles de papo para o ar e nós aqui, trabalhando duro, inventando regulamentos.”
“Ah, que inveja, Teco...”
“Nem me diga, Tico.”
“Me passa mais uma água de coco, Teco?”
“Só se você me passar outro queijo coalho, Tico.”
Por Torero às 07h36
Para um texto que farei em breve, precisarei da ajuda dos leitores.
O texto vai falar da emoção do primeiro jogo que assistimos no estádio.
Você lembra da primeira partida que viu? Com quem você foi? Se seu time ganhou? Lembra do que comeu, do que viu, do sentiu? Escreva aí.
Por Torero às 09h09
(Vários leitores mandaram-me textos com suas experiências frente a derrotas terríveis. O do Adilson Delaim, de Panorama-SP, chegou bem atrasado. Na verdade, foi o último. Mas, como gostei do texto e das ilustrações, vou publicá-lo aqui)
Como poderia deixar de relatar uma das maiores frustrações da adolescência.
O ano era 1982, tinha 13 anos de idade (incrível, depois de todos estes anos você continua somente 5 cinco mais velho que eu).
O bom das copas na Europa é que sempre saímos mais cedo da escola, do trabalho para acompanhar os jogos da seleção brasileira, e nesta ocasião já trabalhava fazendo um expediente vespertino como office-boy numa auto escola da cidade, sendo o jogo em questão (contra a Itália) realizado às 14h00 de Brasília.
Nos jogos da primeira fase, uma passeio sobre União Soviética, Escócia e Nova Zelândia, na segunda fase, uma apresentação de gala sobre a Argentina, o que fez despertar uma única certeza (afinal jogaríamos contra uma Itália cambaleante e com direito ao empate a nosso favor): a trajetória épica rumo ao tetra com os melhores jogadores que já vi atuar até hoje. Nem as seleções de 94 e 2002 com seus títulos, jogaram com mais requinte que a de 1982. Era como se nossos canarinhos usassem mocassins num salão de grama e chamassem seus adversários para os acompanharem ao baile dentro das quatro linhas.
O que dizer duma formação como esta?






E após 75 minutos de jogo o drama, o terceiro "tiro" de Paolo Rossi no mais alegre dos canarinhos que já vi cantar pelos campos deste mundo, a derrota, a eliminação precoce, para a esquadra "azurra" que embalou depois desta vitória e levou o caneco. Eis alguns . . .



Também saí na calçada de casa, e pairava um ar de velório pela rua, e em alguns instantes chega o Valdir (meu vizinho, que não era Peres mas "Venâncio da Silva") também tristonho, mas não tão fanático quanto eu, e para esquecer este desastre e reanimar, me convidou para uma caçada de estilingue, na hora aceitei (ô instinto silvícola).
Peguei meu picuá de pedras e as ferramentas, mas vi que minha puberdade me instigava a algo mais adulto, então (depois de comentar com o Valdir) resolvi voltar e levar a espingardinha de pressão (escondido de todos) além de nem ser de meu pai e sim de um amigo dele.
Após algumas horas pela periferia rural, o saldo era de três pombas abatidas e um jovem sabiá na arapuca, mas como era um novinho resolvemos soltá-lo, já que o ninho estava próximo e não tínhamos nenhum da espécie para ensiná-lo a cantar.
Quando entrávamos pelo perímetro urbano da cidade, fomos surpreendidos por dois senhores que estacionaram seu carro ao nosso lado, pediram informações e até nos elogiaram, admirados por nossa pontaria. Logo em seguida apresentaram-nos suas identidades de policiais militares ambientais, e como o documento era familiar (apesar de não estarem fardados) entregamos todos os objetos - inclusive a espingarda de pressão (a meleca estava completa).
A bronca em casa e a situação constrangedora foi muito pior que se tivesse levado uma bela surra.
Depois de alguns meses, para meu alívio, descobri que meu pai (que também era militar) havia recuperado a espingarda do amigo dele (ufa, menos mal) junto ao batalhão. Nunca mais tive vontade de caçar e capturar pássaros, mas até hoje o saudosismo brada pela melhor esquadra que vi atuar em todas as copas.
E, para quem não está encontrando tais imagens no Santo Google, intrigados por estarem amassadas, riscadas, ou reconhecendo-as acima, fica o registro de um final tristonho para o meu último álbum de figurinhas.
Por Torero às 09h08
A resposta, para assinantes do UOL e da Folha, está aqui.
Por Torero às 06h59
(Abaixo, o email que recebi do juventino Edmílson Neto.)
Olá, caro Torero.
Meu nome é Edmilson, e sou, como poucos, mas bons, torcedor do glorioso Clube Atlético Juventus. Além da torcida, que eu já tinha visto, uma coluna sua me inspirou para ir à Rua Javari pela primeira vez, apesar da falta de tempo. Aos poucos, o tempo foi aparecendo, e já no terceiro jogo que fui, um clássico contra o Nacional (JuveNal) com 9 gols e 4 viradas, que terminou com 5 a 4 para o Juventus, fora de casa, e a diversão virou paixão.
Paixão que, nesse último sábado, estremeceu. Sou torcedor comum, estudante, futuro economista, sento nas arquibancadas cobertas e a minha quota de torcida organizada corresponde à camaradagem de meus já muitos conhecidos do estádio, como um lugar guardado, um canólis. Não faço parte de nenhum grupo de oposição ou situação, nem nada.
Ultimamente, o time que tanto gostamos começou a piorar. Cada vez mais, ao ponto de ser inadmissível crer que aquelas cenas acontecessem. Estamos disputando a série A2 do paulistinha, para a qual caímos ano passado, um pecado. E estamos mal. Perdemos todos os jogos fora de casa até agora, e mais 2 em casa. Acumulamos 8 pontos: 2 vitórias, 2 empates, 6 derrotas.
Mas, sabemos, os jogadores não têm culpa. Eles são ruins mesmo, aliás, pra ruins, precisam tomar muito neston ainda. O técnico Edu Marangon, mooquense e juventino, foi demitido depois da derrota na rodada anterior. A culpa é de quem senta atrás de nós, nas tribunas. O investimento no futebol profissional caiu drasticamente, e a torcida não é burra. Sabemos disso, e protestamos contra o presidente Armando Raucci. Não vou dizer que sou um profundo conhecedor da história dele no clube e os seus feitos: ganhamos 2 títulos (A2 2005, Copa Paulista/FPF 2007), tivemos 2 descensos. O clube, ao contrário, está totalmente reformado e reestruturado, lindo.
Foram 3 os protestos: no empate contra o São José em casa, por 2 a 2. A torcida o esperou na descida das tribunas com palavrões, mas ele não desceu; na humilhante derrota contra o Rio Branco por 4 a 1, em que os protestos foram no intervalo da partida, o presidente estava acompanhado de seguranças e foi embora antes do término do jogo.
Neste sábado, dia 7, logo na chegada estranhamos a presença de 20 brutamontes na torcida, não parecia coisa boa. Pouco antes do término do primeiro tempo, o filho do presidente se dirigiu com palavrões a alguns torcedores, eu inclusive e meus amigos e companheiros de torcida. Ainda um outro diretor e o presidente em si - veja só! Com o que, fomos todos abordados pelos trogloditas - nos impedindo de protestar. Se até aí a coisa já era lamentável, ficou pior: o filho do presidente, de nome Fernando, atirou um copo d'água em direção à torcida, acertando num outro rapaz que nada tinha a ver com a história. Um circo!
O presidente proibiu os protestos, até admitiu em alto e bom som que havia pagado "pra que esse tipo de palhaçada não acontecesse mais" e ainda "que esses moleques deveriam apanhar", e olha que ali naquela arquibancada moleque é a maior licença poética da década... Imagine, no meio da torcida, composta basicamente por famílias e idosos, nada de organizadas.
Algumas coisas foram publicadas sobre o que aconteceu, entre as quais
um comentário do Milton Neves, que seguem:
o áudio do comentário do Milton Neves
http://www.youtube.com/watch?v=E0IibRSG3SE
matéria do site Bola Rolando
http://www.bolarolando.com.br/news.php?id_news=77731
comentário no site do Milton Neves
http://desenvolvimento.miltonneves.com.br/Colunas/Conteudo.aspx?ID=84980
Por Torero às 22h42
Alambrado: Caiu por excesso de alegria ou de peso?
Banco: Novamente a Globo fez os melhores momentos de Ronaldo no banco de reservas. Creio que, já que Ronaldo ainda começará mais duas ou três partidas no banco, poderiam arranjar um comentarista específico para esta situação, de preferência algum jogador que tivesse passado toda a sua carreira no banco, como os reservas de Leão. Aí ele diria coisas como: “Vibrou bem, Ronaldo! E realmente é importante vibrar no banco, dar incentivo aos companheiros”, ou “Olha lá, ele brincou com os companheiros. Realmente está à vontade o artilheiro.”
Cocoricó: O que as duas galinhas mostradas pela tevê estavam fazendo em campo? Os maliciosos dirão que esperavam pelo frango de Felipe. Os maliciosíssimos, que vieram do Pop’s Drinks torcer pelos fregueses.
Drible: O de Sandro Silva, dando um chapéu com a bola partindo chão, paradinha, foi o melhor do jogo.
Esbanjamento: Dizem que o salário de Souza é de 170 mil reais. Me parece um desperdício, um esbanjamento. Dentinho, mesmo sem ter feito a pré-temporada, está melhor que ele.
Felipe: Que falha tosca... Se o Corinthians tivesse perdido o jogo...
GO: Pensei que o “GO” na camisa do Corinthians era a abreviação de GOrdo. Mas errei. Era de GOl.
Haríolo: Aquele que tem o dom de adivinhar. Pelo rádio escutei Mauro Beting dizendo que o jogo seria 1 a 1. Ponto para ele.
Inconvenientes: Sim, Ronaldo marcou e esteve bem na meia hora em que ficou em campo. Mas, como os inconvenientes (e eu também) lembrarão, Bruno e Marcão falharam no lance do gol.
Juiz: No primeiro tempo, houve um lance entre Pierre e Jorge Henrique que foi claramente falta de Pierre, mas o comentarista de arbitragem Arnaldo César Coelho, mesmo revendo as imagens no intervalo, disse que o juiz errou ao marcar a infração, pois teria sido apenas um choque. Depois, no segundo tempo, Ronaldo foi desarmado sem falta, o juiz não deu nada e Arnaldo insistiu que ele havia sido derrubado. E, por fim, criticou o cartão amarelo recebido por Ronaldo pela comemoração do gol, argumentando que o juiz deveria entender o momento do jogador. Ora, se Ronaldo comemorou fora do campo, é amarelo. Lei é lei! Me parece que Arnaldo tem alguma rusga com Cleber Wellington Abade e não conseguiu ser imparcial ao julgar o árbitro.
Keirrison: Deu um belo passe para o gol palmeirense. Mas foi só. Perdeu uma boa chance de gol e acabou sendo prejudicado pelo esquema de Luxemburgo.
Luxemburgo: Tirou Diego Souza quando ele estava bem, trocou o bom Sandro Silva pelo mediano Jumar e sacou o sempre perigoso Keirrison para colocar Marquinhos, que está em má fase. Não deu para entender.
Marcão: Que começo de jogo lamentável...
Números: 1.349.390 reais, 44.479 pagantes, 9 cartões amarelos e 1 vermelho.
Odontologia: Creio que daqui a um mês a dupla de ataque do Corinthians será Dentinho e Dentão. E os adversários vão usar seus dentes para roer as unhas.
Prudente: É o nome da cidade onde aconteceu o clássico e a descrição das duas escalações iniciais. Palmeiras e Corinthians começaram a partida não querendo perder, em vez de querendo ganhar. Mas, no segundo tempo, o Palmeiras começou muito bem, tendo quatro minutos de posse de bola, até sair o gol. E, depois de ficar em desvantagem, o Corinthians teve sede de vingança e o jogo ficou muito bom.
Quartel: O duelo entre os jogadores de nomes bélicos Armero e Escudero terminou com ampla vantagem para o primeiro.
Replay: Houve cinco replays do gol de Ronaldo. Depois de alguns minutos, mais dois. E ele passará mais algumas centenas de vezes hoje.
Shampoo: Quantas vezes Douglas alisa o cabelo durante uma partida? Comecei a contar, mas desisti. É pior que comercial de shampoo. Trata-se de um bom jogador e ele fez o cruzamento para o gol de empate, mas, em jogos importantes, decisivos, sempre me parece um tanto apagado.
Técnico: Mano Menezes foi feliz ao tirar Escudero e colocar Ronaldo. Aliás, o argentino conseguiu cinco cartões amarelos em cinco jogos.
Unir: O Fenômeno consegue um fenômeno interessante, o de unir diferentes torcidas. Acredito que, ontem, a grande maioria dos brasileiros, tirando-se os palmeirenses, é claro, torceram pelo Corinthians.
Vitória: Para o time, foi empate. Para Ronaldo, uma tremenda vitória.
Xabregas: Em Portugal, significa rude, grosseiro. Foi o caso de Chicão, que deu uma cotovelada desleal em Sandro Silva durante a cobrança de um escanteio. Deveriam usar o vídeo para punir o jogador.
Zoilo: Substantivo masculino que, segundo o Houaiss significa: “Crítico que, em sua mordacidade, revela inveja, incompetência ou aversão pessoal injustificada”. Creio que, em breve, todos os que criticaram a ida de Ronaldo para o Corinthians merecerão serem chamados de “zoilos”.
Por Torero às 07h32
Qual é o pé moral do futebol atualmente?
Texto de Leandro Romanini
O Keirrisson comemorou um gol contra o Santos no domingo 08-02 (o segundo do time, de pênalti) e saiu para a lateral onde estava a câmera da TV, supostamente, imitou um "matador". Simulou "tiros" com sua metralhadora 'virtual'.
Pois bem.
E o que tem nisso?
Nada, não fosse a surpresa em deparar com o Lance!, diário esportivo, avisando "boicotar" o tal jogador se ele repetisse a comemoração, "apológica pró-violência".
Mas, ele não é um artilheiro? Ao usar o termo artilheiro, eu devo esquecer que se trata de um goleador e me lembrar de uma artilharia bélica? Não, certo?
E quando um Nelson Rodrigues se torna uma "metralhadora de impropérios", em que ele orgulhosamente assume a 'alcunha' dada por João Saldanha, eu penso num Nélson genocida? Fuzileiro?
O Sílvio Luiz, macadâmio locutor da Bandeirantes, durante os anos 90, a cada gol do Evair, do Viola ou do Luizão, ele bradava: "ééééééé doooo [Palmeiras/Corinthians/Guarani], foi foi foi foi, foi ele, [Evair/Viola/Luizão], o matador".
Até hoje, conversando com o Evair, eu o chamo de "matador". Evair NUNCA reclamou disso. Inclusive me parece sorrir de soslaio a cada vez que ouve isso. Me parece orgulho.
Teria orgulho, Evair, de assassinar alguém?
Alguém minimamente incluído no mundo, pensaria que o artilheiro do futebol, o matador do futebol, ou a metralhadora de adjetivos ultra-substantivados, sejam riscos iminentes à sociedade?
Nem metaforicamente sonhando!
Estão querendo acabar com a metáfora. A metáfora é a graça da vida, é a ironia que o talento sabe ousar, é o argumento que o informado deve ter, é o prazer que a chatice cotidiana quer calar.
Jogador que fala o não-óbvio chega a ser punido, pelo seu clube ou STJD. Curiosamente, as coletivas só chamam atenção se o Muricy for rabugento ou se o Marcos goleiro avisa que defenderia a bola "se tivesse um foguete no rabo" (Sto. André 4 x 4 Palmeiras, 2004).
É mais importante procurar o Ronaldo numa boate que comemorar um gol. Sábado antes (07-02) o Vítor Simões, após fazer um GOLAÇO com todas as letras ante o Bangu, foi pra torcida do Bota comemorar. Recebeu o cartão amarelo.
Pasmei mesmo quando vi a ESPN Brasil repudiando a comemoração do Keirrisson. Justo a ESPN Brasil, a mais progressista das sintonias de UHF, pois o Lance! já está descomprometido com a vida prazerosa há tempos, mas a ESPN Brasil? O local em que quis trabalhar um dia, o canal de esporte que apresenta o que eu penso de esporte.
A FIFA, gerida por recalcados ou frustrados, não tolera comemorações muito efusivas. Afinal, futebol para a FIFA, é uma arquibancada de Campeonato Francês, sentadinhos, ninguém grita, raramente se ouve "golll" das arquibancadas.
O que me surpreende é essa onda moralista. Claro que surpreende em termos, pois, a nossa sociedade desregrada como está, pende ao conservadorismo de certos setores, sobretudo a mídia.
Mas o futebol? Futebol é alegria, é catarse, não combina com falsos moralismos, cognatos ou centrismos. Futebol, principalmente na América Latina, é o esporte dos extremos, é a radicalização do rebusto social. O que me faz ir ao Palestra e tomar um banho celeste pra ver Palmeiras e Santos? A busca por uma alegria que eu mesmo não consigo definir? O despejo de minha semana burocrática? Não sei.
Mas o moralismo que estão tentando imprimir ao futebol está chateando. Está igualando a a mesmice ao tudo-igual. Se isso parte da mídia recente, eu preciso me ater à péssima incursão científica das atuais faculdades de jornalismo e comunicação.
Senão, só posso lamentar e me recordar do grande Geraldo Pereira, do samba: "ninguém tem mais argumento/o bom papo já cessou/só descolam seus momentos/se o futuro não passou."
Outro dia teve um "debate" na TV Educativa sobre a "malandragem", que o futebol (pode isso?) perdendo a malandragem mostra que o malandro é o símbolo de um Brasil atrasado, e a seriedade não cabe na malandragem.
Chico Buarque deve estar com úlcera ao ver isso. Moreira da Silva se vira e revira.
Será que a nossa identidade futebolística para os modernos do Brasil se redunda numa arquibancada francesa?
Espero que a realidade ainda sopre contra essa proposta "moderna". A nossa identidade não está na Europa, Canadá, Japão.
Ela é nossa. Queiram ou não.
Por Torero às 10h47
antes, falemos dos outros jogos da Copa do Brasil.
Podemos começar pelo tropeço do Bahia, que, jogando em Mossoró, apenas empatou com o Potiguar por 2 a 2. Acho difícil que o tricolor perca a vaga, mas, se seu primeiro passo foi assim, sua caminhada não deve ser muito longa.
O Inter classificou-se por um triz. Ou melhor, por dois trizes. É que nos dois lances de gol, a bola bateu nas traves e sobrou para um colorado. Foi muita sorte. Ou azar do União de Rondonópolis.
O Flamengo, time mais popular do país, enfrentou o Ivinhema, talvez o mais desconhecido clube desta Copa do Brasil. Estes encontros são um dos charmes deste campeonato. O Ivinhema-MS, porém, não surpreendeu. Talvez empurrados pelo pagamento dos seus salários de dezembro, os jogadores do time carioca correram muito e antes do intervalo já venciam por 3 a 0. Zé Roberto (ah, que belo nome!) marcou dois.
Quanto a Ronaldo, pela primeira vez vi os melhores momentos de um jogador que não entrou em campo. Ou seja, a Globo fez uma seleção de cenas de Ronaldo no banco de reservas. Como ele sentou, como comemorou o gol, como subiu para o campo, como foi para o vestiário, etc... Mas ainda não é hora de falar dele.
Antes há que falar da Portuguesa. Ah, como sofre o seu torcedor... O time sobe e desce da Série A do Brasileiro, No Paulista ganha partidas difíceis mas tropeça em jogos simples, e, na Copa do Brasil, acabou desclassificado pelo Icasa, de Juazeiro do Norte-CE. Foi uma desclassificação árdua, com dois empates em 1 a 1 e disputa de pênaltis perdida por 4 a 3. Sorte do goleiro Ari, herói do Icasa.
Do Atlético Paranaense nem escrevo nada, que foi uma vitória muito fácil sobre o Tocantis, por 3 a 0 (os três no primeiro tempo), dispensando a partida de volta.
Também não vou falar do Remo, que ganhou a primeira partida contra o Barras do Piauí, em Piauí, por 1 a 0; do simpático ASA de Arapiraca, que empatou em 1 a 1 contra o Vitória e agora terá que fazer milagres em Salvador; do surpreendente Misto-MS, que venceu nos pênaltis o Campinense (que mantém a escrita de nunca ter passado da primeira fase da Copa); e do Fortaleza, que venceu o Desportiva-ES com três gols de Marcelo Nicácio, que eu nunca tinha ouvido falar.
Não, hoje o assunto é só um: Ronaldo.
Mesmo que o Goiás tenha despachado o Atlético-RR já no primeiro jogo, mesmo que o Confiança tenha virado em cima da virada e derrotado o América-RN por 3 a 2, mesmo que o Figueirense tenha passado pelo Sampaio Correa após a demissão do ex-quase-salvador Pintado, mesmo que um sujeito chamado Kempes tenha feito dois gols na vitória do Criciúma por 3 a 0 sobre o Tupi (que tinha vencido a primeira partida por 2 a 0), mesmo que o ousado Águia de Marabá tenha vencido a partida de ida contra o América-MG por 2 a 1.
Não, nada disso interessa. Hoje só se fala de Ronaldo. Ele é o assunto mais importante do país, o homem mais perseguido pelas câmeras, o nome que está em todas as manchetes, em todas as bocas, e não vou me furtar da obrigação de comentar sua reestréia no jogo do ontem.
Ronaldo foi bem.
Por Torero às 09h23
Para ler o texto de hoje na Folha, ainda sobre o clássico entre Santos e São Paulo, assinantes do UOL e da Folha podem clicar aqui.
Por Torero às 07h17
A: Poderia ter sido a nota do jogo se tivéssemos mais gols. Um 2 a 2 seria perfeito. Foi um jogo B+.
Bico: O da chuteira de Rodrigo fez a diferença. O chute de Molina bateu ali, a bola desviou-se alguns centímetros e venceu Rogério Ceni. Se Rodrigo usasse uma chuteira um número menor, a história do jogo seria diferente.
Costa: Sobrenome de Fábio, o goleiro santista. Voltou a treinar com seu antigo preparador, dos tempos de Vitória da Bahia, e parece que está melhor mesmo.
Dagoberto: Teve alguns bons flashes durante o jogo. Ainda não voltou a ser o mesmo dos tempos do Atlético Paranaense, mas quando vem driblando da intermediária impressiona..
Excusas: Entrevistado no fim do primeiro tempo, Rogério Ceni foi rápido em dizer que a culpa do gol não era sua. Falou que a bola desviou (o que é verdade) e que não se pode tomar gol de lateral (o que é um exagero).
Fabão: Provavelmente é um sósia do jogador que estava no Santos há um mês. Meu palpite é que ele tem um irmão gêmeo que fica em seu lugar às vezes, enquanto Fabão faz turismo no Caribe. Agora parece que trocaram de lugar e voltamos a ver o verdadeiro Fabão.
Garra: Os dois times tiveram a tal “determinação-e-garra” no jogo de ontem. No São Paulo, isso já é comum. É um time que marca o tempo todo, e este é seu ponto forte. Já o Santos, pela primeira vez no ano pareceu entrar em campo querendo ganhar uma partida.
Hernanes: Sempre bom. Ah, como faz diferença um jogador que sabe marcar e jogar.
Infecundo: As ausências de Kléber Pereira e Borges fizeram falta ao placar.
Juiz: Nas mesas redondas houve muita dúvida sobre a existência ou não de um pênalti de Fabão em Washington. Creio que houve, mas o atacante enfeitou tanto na queda que acabou desacreditado.
Léo: Salvou um gol em cima da linha. O lateral ainda não se mexe muito, mas mesmo parado já faz diferença.
Molina: Com dois gols em duas partidas, está voltando a jogar bem. Se tivesse um pouco mais de velocidade, seria um grande jogador.
Nocaute: Derrubar Domingos não é coisa fácil, mas ele levou um chute no queixo que o levou à lona. Foi uma cena para entrar nas antologias de boxe. De qualquer forma, ele jogou bem e seus chutões fazem a alegria da torcida e o desespero dos vizinhos do estádio, que sempre podem ter umas telhas quebradas pelas bolas chutadas por Domingos.
Oito e meia: O treino do Santos passou das 10h00 para as 8h30. E os jogadores passaram a comer no clube, supervisionados por uma nutricionista. Parece pouca coisa, mas isso parece ter feito diferença. O novo horário dificulta as baladas e dá um ar mais respeitoso ao treino. E a comida balanceada ajuda certos atletas, como Fábio Costa e Kléber Pereira, a manterem o peso.
Pará: Foi bem na lateral-esquerda, dando a velocidade pedida por Mancini. Pelo jeito, disputará a posição com Léo.
Quórum: Houve menos de 10 mil pagantes no clássico da Vila Belmiro. No Pacaembu, contra o Oeste, haverá pelo menos o dobro. Pela lógica pura e simples, o Santos deveria mandar seus jogos em São Paulo e fazer apenas alguns em Santos. Mas, no futebol, nada é tão simples e puro assim.
Recorde: O São Paulo cruzou nada menos do que 30 bolas na área do Santos, mas apenas 5 acabaram nas cabeças tricolores.
Sete: Era o número de jogos em que o Santos não vencia o São Paulo. Já era um pequeno tabu.
Travessão: André Dias está entre os melhores zagueiros do futebol brasileiro, mas ontem falhou na cabeçada anterior ao passe de Roni e meteu uma bola no próprio travessão. Aliás, fica aqui uma dúvida: o São Paulo precisa de três zagueiros ontem para marcar Roni? Dois não seriam suficientes?
Uh!: Foi o que fez a torcida são-paulina fez na cabeçada de Dagoberto defendida por Fábio Costa. Já a santista fez “ufa...”
Velocípede: O passe de Roni foi chamado de “bicicleta” por alguns. Exagero, não é para tanto.
Xadrez: A partida foi um jogo de xadrez, com defesas bem armadas e difíceis de transpor. E, como nos bons jogos de xadrez, o que fez a diferença foi um detalhe, no caso, o bico da chuteira de Rodrigo. Aos 31, se Dagoberto tivesse passado a bola para Washington, teria conseguido o empate.
Zagueiros: Os dois times entraram com três zagueiros e ocuparam os espaços muito bem. O Tricolor já está acostumado a jogar assim, mas é novidade para o time da Vila. Uma boa novidade. O trio Eller-Fabão-Domingos parece promissor.
Por Torero às 07h42
Coliseu
Texto de Igor Oliveira
Era 1994 e eu tinha 13 anos.
Não gostava muito de futebol e Copa do Mundo, já que o primeiro torneio que acompanhei foi o de 90. Era um nerd com poucos amigos que, assim como eu, trocavam os campos de pelada por uma mesa de quebra-cabeças, nosso passatempo favorito.
A Copa começara há menos de um mês e o Brasil estava na semi-final. De camisas azuis enfrentava os gigantes da Suécia. Me encontrava sentado, com olhar fixo na mesa onde o Coliseu adquiria uma forma estupenda durante a Copa. Havia comprado o quebra-cabeças, de cinco mil peças, um dia antes da abertura do torneio. A promessa era completar o bendito antes da final.
O aparelho de TV, figura decorativa naquela tarde, gritava a todo momento um lance de perigo. A cada nova peça encaixada, um gol era perdido. Os erros se repetiam, em sincronia com o lamento da multidão.
Faltavam dez minutos de peleja e uma peça para o Coliseu se revelar por inteiro. Segurava a derradeira parte do estádio quando Jorginho surgiu na lateral direita do Rose Bowl, no campo de ataque. Seguiu-se um silêncio sepulcral. Por obra do acaso, me desliguei da arena dos gladiadores e meus olhos se voltaram para a linha da pequena área. Como num passe de mágica, o camisa 11 se desvencilhou do inimigo, à medida que a redonda viajava no ar. Me levantei e Romário já havia saído do chão. Perdi o controle nos segundos que sucederam a cabeçada certeira. E, quando já podia entender a seleção em uma final de Copa após 24 anos, parei.
Com a cabeça doída, olhei para o chão. Sobre os tacos escuros da sala de estar, reconheci cada uma delas. As peças revelavam um Coliseu disforme que eu acabara de derrubar.
Mal sabia eu que, dias depois, toda a Itália teria o mesmo destino.
Por Torero às 07h01
Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").