Blog do Torero

30/06/2008

Uma frase sobre a rodada do Brasileiro

O Goiás, que parecia ter se redimido da má campanha após golear o Santos na Vila, tomou três do

Vitória (agora em quinto lugar) e continua na zona de rebaixamento, onde tem a companhia do

Ipatinga, sério candidato à Série B, que esta semana perdeu do

Vasco, que já não é mais o time de Eurico Miranda, para a tristeza dos flamenguistas, que por sinal devem estar alegres com o gol nos acréscimos de Obina, que colocou o

Flamengo na ponta da tabela, logo à frente do

Grêmio, que apenas empatou no Olímpico com o

Inter, que era um dos favoritos ao campeonato mas está numa modesta décima-quarta colocação, um ponto atrás do

Figueirense, que começou vencendo o jogo mas cedeu o empate ao

Atlético-MG, que viu Petkovic marcar numa bela cobrança de falta, o que pode ser muito útil no jogo da próxima semana contra o

Palmeiras, que venceu o Timbu por 2 a 0 e finalmente entrou no G-4, fazendo o

Náutico cair para a sexta posição, queda que pode ser ainda mais profunda porque os próximos jogos do time são contra dois favoritos, Flamengo e

São Paulo, que está há sete jogos invicto e ontem empatou com o

Cruzeiro, que tem um dos dois artilheiros da competição, Guilherme, com seis gols, ao lado de Alex Mineiro, que fez sucesso no

Atlético Paranaense, que ontem, em plena Arena da Baixada, ficou no empate com o

Coritiba num jogo emocionante, pelo menos nos últimos minutos, pois o Atlético abriu o placar quando faltavam menos de dez minutos para o fim da partida, mas cinco minutos Marcos Tamandaré empatou o jogo, deixando o Coxa na décima posição, com dez pontos, dois a mais que o

Sport, que ainda está de rassaca pela conquista da Copa do Brasil, e o

Botafogo, 16º. colocado, que segue mal e não passou de um empate com os reservas do

Fluminense, o lanterna do campeonato com apenas três pontos, única equipe que ainda não venceu no Brasileiro e que fez apenas quatro gols, o mesmo que tanto que, sozinho, marcou Diogo, o bom jogador da 

Portuguesa, que vem num bom oitavo lugar e neste sábado empatou com o

Santos, que dispensou Rodrigo Tabata, que ontem jogava futevôlei na Ponta da Praia e talvez volte para o

Goiás

Por Torero às 08h51

Dez perguntas para o presidente do Palmeiras (respondidas pelos leitores)

Como o presidente do Palmeiras não respondeu as questões enviadas pelos leitores, publico aqui as respostas enviadas pelos próprios (bem mais divertidas e, talvez, esclarecedoras).  


1-) Caro Presidente, precisando de um estádio maior para sediar mais confortavelmente os jogos do Verdão, o senhor confirma o início das reformas no estádio para início de agosto e término em 2010? Qual será a capacidade oficial?

R.: A capacidade do estádio será de 45.678 lugares, mas com os privilégios das organizadas, dos diretores, políticos, amigos, amigos dos amigos, amigos dos amigos dos amigos e etc, estimamos nossa venda de ingressos ao público, principalmente em grandes jogos, em 678 lugares espremidos. 


2-) Presidente, o que o senhor acha de um espetáculo que começa às 21h50min, cujo espectador fica sob risco de frio e chuva e ainda põe o traseiro no cimento; que ainda por cima teve seu preço mínimo majorado para R$ 40,00, e concorre com atrações como cinema, teatro (que são em lugares abrigados, mais baratos e tem assentos muito mais confortáveis) e mesmo TV pagas (que transmitem o mesmo espetáculo)?

R: Bem lembrado. Há que propor à TV passar os jogos para as 4:00 da manhã. Quero ver se vai ter cineminha e teatrinho concorrendo nessa hora. E, quanto ao frio, leve seu casaquinho, oras.


3-) É mesmo vantajoso fazer um acordo desses com a Traffic? De montar um time que serve de vitrine para negociações. Não é melhor começar a pensar os grandes clubes brasileiros como fim e não como meio de se chegar ao topo da pirâmide do futebol.

R.: É claro que é vantajoso. Assim a diretoria pode se dedicar somente à macarronada e não precisa se preocupar em montar um time de futebol.  


4-) A maior vergonha do Palmeiras foi ser rebaixado para a Série B. A segunda maior, foi não ter participado do Mundial da FIFA 2000, lugar que tinha direito. Pergunta: Qual o verdadeiro motivo desta exclusão?

R.: O telex estava quebrado e não conseguimos confirmar a presença com a secretária da FIFA, do na Matilde.


5-) Presidente, o Marcos vai receber um busto no Palestra Itália?

R.: Sim. O próprio médico do clube fará o implante de silicone.

6-) Quando o Palmeiras vai viabilizar para que o morador fora do estado de São Paulo torne-se sócio sem depender de um endereço no Estado?

R: Jamais. O único jeito é comprar um imóvel aqui em SP e se mudar para cá. Aqui mesmo na Turiassú, em frente ao clube, há vários disponíveis.


7-) Caro Presidente, gostaria de saber como o Palmeiras passou a tratar suas categorias de base, após o acordo com a Traffic? O que notamos é que novos jogadores chegam e nenhum comentário sobre os nossos jovens é visto, aliado ao antigo problema do Vanderlei Luxemburgo de não trabalhar com jogadores de categoria de base. Hoje temos a Traffic, mas será que o futuro do futebol não está nas categorias de base e devemos ter sempre um olho voltado para elas? Saudações Palestrinas!

R.: É simples: depois que os juvenis crescerem e ficarem famosos em outros times, a Traffic os comprará de volta. 


8-) Presidente, sou do interior de São Paulo, e como estava com muita coisa pra fazer na semana do segundo jogo da final, não pude ir à São Paulo passar horas na fila pra comprar o ingresso. Quando soube da possibilidade de comprar pela internet (espaço VISA), já era tarde. Para minha surpresa, a Mancha de Rio Claro anunciava em sua página no Orkut a venda de ingressos, inclusive para não sócios. Fui imediatamente para lá, onde me ofereceram ingresso por R$ 130,00 (o de R$ 40,00). Minhas perguntas são: Como pode o Palmeiras privilegiar as organizadas na distribuição de ingressos? O Palmeiras prefere esse tipo de torcedor (violento) em seus estádios? O Palmeiras tem conhecimento que as uniformizadas agem como cambistas? O Palmeiras tem medo desses bandidos? Porque não se possibilita a venda de ingressos (todos) pela internet? É pressão das organizadas?

R.: Mancha em Rio Claro? Deve ser vazamento de petróleo. Isso é assunto para ecologista.


9-) Quando o Serdan, da Mancha, agrediu o técnico que barrou seu filho no time infantil, foi dado um prazo de 90 dias para uma sindicância interna. Esses 90 dias já se esgotaram. Qual foi a conclusão da sindicância e as providências tomadas?

R.: A sindicância constatou que o técnico deu várias caradas na mão do Serdan.


10-) Quando afinal vocês conseguirão acabar com as torcidas organizadas para que pessoas de bem consigam voltar aos estádios, pois eu sou do tempo em que se podia ir ao estádio e voltar inteiro para casa

R.: Nunca. Somente com organização é que a sociedade se desenvolve. Vide o exemplo do crime organizado.

 

Por Torero às 08h47

Toreroteca

Não houve vencedores. E o mais doloroso é que dois competentes palpiteiros perderam apenas por causa do gol de Obina nos acréscimos.

Por Torero às 08h42

29/06/2008

Sempre aos domingos

Sempre aos domingos

Muitos leitores reclamaram do fim precoce da série "Estórias das Copas". Mas três deles resolveram o problema por conta própria. Carlos Eduardo Massarico, Max Fischer e Thomas Pacheco botaram a mão na massa, dio, no teclado, e criaram um texto que mistura Winning Eleven com a Copa de 2002. O texto é longo, mas vale a pena.

 

2002 - Para conquistar o mundo é preciso atravessá-lo

Sempre tive duas grandes paixões na vida: Winning Eleven e Mangás. Tinha dezoito anos e no bolso minha vaga para Publicidade no Mackenzie. Logo na primeira semana de aulas fiz duas amizades daquelas de levar para sempre. Seriam os meus companheiros de bares e tardes vazias nos quatro anos mágicos que viriam. Cadu e Thomas eram dois fanáticos por futebol. Antes que eu me esqueça, meu nome é Daniel, a maioria me chama de Del, mas meus grandes amigos me chamam apenas por Deolino.

Estava montado então o circo. Não demorou muito para criarmos uma liga universitária de WE. Cadu, sempre com espírito de perfeccionismo, queria tudo ao seu modo, então nunca deixou que eu ou Thomas fossem os organizadores dos torneios. Era o presidente e anfitrião, disponibilizava sua casa para os encontros. Thomas era seu tesoureiro e eu, entre um jogo e outro, comprava uns salgados na padaria da esquina com os trocos da faculdade.

Numa daquelas tardes de futebol no ar e nas discussões apaixonadas, descobrimos que haveria uma Copa do Mundo de Winning Eleven, disputada no Japão, na mesma época da verdadeira Copa do Mundo, nosso assunto mais discutido entre uma partida e outra. Sem pestanejar, nos inscrevemos. Sequer tinhamos pretenções mais animadoras. Nas eliminatórias brasileiras, ficamos surpresos com Cadu e Thomas, que conseguiram ficar entre os primeiros e garantiram a vaga no individual, enquanto eu e Alan, um dos participantes de nossos torneios modestos, vencemos nas duplas, ao ganhar de dois japoneses que faziam Cinema na USP. Eles haviam aniquilado os adversários, mas desde quando Nakata era melhor que o Rivaldo?

Com as passagens garantidas, nos deparamos com um problema dos grandes: não poderíamos faltar por quase um mês na faculdade sem correr o risco de sermos jubilados logo no primeiro semestre. Quis o destino ou os deuses do futebol, que o Mackenzie entrasse em greve logo naquela semana, a mesma de nosso maior triunfo como atletas, virtuais, mas mesmo assim atletas. Meu companheiro de duplas não teve a mesma sorte. Alan já fazia estágio, não estava disposto a perder seu emprego. Thomas faria dupla comigo.

Naquele ano a Copa do Mundo prometia ser histórica. Não devido a nossa crença na seleção brasileira, que vinha capengando desde 98, quando foi arrasada no St. Denis pela França de Zinedine. Pela primeira vez a Copa ocorreria fora do eixo América-Europa e além disso, era uma Copa dividida entre dois países de grande rivalidade política: o Japão e a Coréia do Sul. Nos mesmos países ocorreria a nossa Copa do Mundo.

No banco tínhamos Felipão, que deixava de fora o baixinho Romário para dar seu lugar a Luizão. Mesmo com os pedidos do povo e do próprio dono da CBF. Mas o técnico gaúcho era duro na queda, pagou pra ver. Marcos, Lúcio, Edmilson, Roque Júnior, Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Esse era nosso selecionado.

Chegamos ao extremo oriente alguns dias antes do jogo do Brasil contra a Turquia. No aeroporto vimos a vitória surpreendente de Senegal sobre a França. Foi o suficiente para Cadu mandar mais uma de suas pérolas. Adorava usar da ironia para nunca estar errado: se acertasse, era sério, se errasse, era só mais uma brincadeira inocente e despretenciosa.

- Vai ser o ano das zebras. Que Ronaldo, que Rivaldo, o craque mesmo vai ser o Luizão. Ele pôs o Brasil na Copa. – profetizou Cadu, ao mesmo tempo em que carregávamos as malas para o centro de convenções do torneio.

- Acidente de percurso. A França tem um grande time e vai se classificar sem problemas. – retruquei enquanto tentava decifrar um mapa horroroso, mal desenhado do aeroporto, até que desisti e fui usar o instinto brasileiro.

Depois de termos nos perdido, é claro e quase sermos desclassificados do torneio por não chegarmos ao hotel a tempo, fomos encaminhados para os sorteios dos grupos, pois cada competidor jogaria com uma única seleção o torneio todo. Thomas acabou caindo com a Alemanha e adorou a notícia, era uma seleção de força, Cadu ficou com o Uruguai, tudo o que mais queria, afinal jogava mais com raça do que com habilidade, não tinha jogo perdido pra ele. Já nas duplas, Thomas ficou triste, eu fiquei muito contente. Nas duplas teríamos nas mãos, nada mais, nada menos, que o Brasil.

Meu jogo só aconteceria na manhã seguinte, véspera da estréia da real seleção brasileira. Mesmo assim, na competição virtual o festival das zebras se iniciou. Veio a queda da França, perdendo seus dois jogos, eliminada sem fazer um golzinho sequer. Japão e Coréia do Sul, grandes azarões, levaram a diante seus elencos. Cadu não conseguiu sua classificação, mesmo após uma vitória épica, e como ele mesmo diria “de puro coração”, sobre a Argentina, em um 3 a 2 que entraria para a história. Depois, veio a derrota de goleada para a Nigéria, um 5 a 1 esmagador. Pra variar, ele deu espetáculo: quebrou o controle depois de uma pancada com gosto no chão e um chororô danado.

- Vocês viram aquele pênalti claro que o juiz não deu no Zalayeta? Poxa, ele é gênio da bola, não ia se jogar frente-a-frente com o goleiro! E os gols de impedimento dos nigerianos? Dois foram claríssimos. Foi roubo, foi roubo. – ele chorou depois da desclassificação.

- Ah, Cadu, relaxa, vamos ver se seu Uruguai classifica na Copa mesmo, agora é o que resta, você pegou sentimento demais por nossos rivais! – alertou Thomas, que ainda jogaria naquele mesmo dia.

Quis o destino que ele também fosse desclassificado. Caiu horas depois de nosso amigo “uruguaio”. Contra a seleção do Senegal, comandada por um irlandês pé-de-cana. Depois o empate contra a Inglaterra, por mais que tenha sido um jogaço em 0 a 0, foi só o jogo de despedida do Thomas. Tristes, fomos conhecer a cidade, onde acabamos num bar de um Dekassegui gente boa.

Brasileiro, neto de japoneses, o senhor nos recebeu muito bem. Com os meus dois amigos ainda inconsoláveis, resolvemos chorar nossas mágoas. Era triste ser eliminado na primeira fase. Mas saquê vai, saquê vem, começamos a nos animar. Foi quando conhecemos um velho simpático chamado Feijão e seu cachorro Marcos Roberto.

- É o único cachorro que entende de futebol. – explicou Feijão, depois de beber uma dose de saquê.

- Duvido. – eu disse.

- Não acredito. – revelou Thomas.

- Pago pra ver. – apostou Cadu.

- Irei provar então. – disse Feijão, jogando uma pequena bola em direção ao cachorro, que ao invés de morder a bola, a dominou com a cabeça. Não era ainda o bastante: começou a fazer embaixadinhas. – Viram?

Rimos. Nos despedimos de Feijão e marcamos um novo encontro no dia seguinte, para combinarmos de ver juntos o jogo inicial do Brasil. Acordamos mais cedo no dia seguinte e fomos ao centro de convenções. A arena já estava montada. O adversário seria uma dupla de turcos que tiveram a sorte de pegar a seleção de seu país.

O jogo começou tenso. Não que os turcos jogassem alguma coisa, mas Thomas ainda não parecia ter engolido a derrota no dia anterior e não acertava os passes curtos. No final, com um pouco da ajuda da sorte, vencemos o nosso primeiro desafio. Como Cadu havia dito, Luizão era o gênio da bola. Fomos ao bar comemorar e lá estava Feijão, com uma agradável surpresa: passagens e ingressos para o jogo inicial.

- Ia com alguns amigos, mas acho que me desencontrei deles. Melhor dar os ingressos a vocês do que ter algum lugar vazio no estádio, né?

Embarcamos para a Coréia, onde o Brasil enfrentaria a Turquia. O jogo começou parecido com o virtual. O escrete canarinho parecia estar em estado de choque ou algo do gênero. Conseguimos terminar o primeiro tempo atrás e só viramos com um gol de canela do Ronaldo – mas é gol, argumentaria Feijão – e com um pênalti forjado dele: Luizão. Cadu foi à loucura, se achava vidente.

O próximo adversário do Brasil era a China. Não é que a China acabou sendo a minha próxima rival no torneio? Com Thomas um pouco mais tranqüilo e com a tarde inspirada de Marcos no gol e Romário – sim, ele mesmo, a pedido de seu grande fã, Cadu, convocado – no ataque, vencemos por 3 a 0. Tínhamos a vaga e com uns dias de folga, aproveitamos para pegarmos um avião até Seogwipo, para assistir o confronto verdadeiro do Brasil com a China. Regalias concedidas pela vitória no torneio. Uma maravilha.

Mais calmo, o Brasil fez 3 a 0 só no primeiro tempo e esperou o tempo passar no segundo. Ainda fez mais um com o Fenômeno. Com uma bolinha até que razoável a nação verde-amarela estava nas oitavas-de-final.

(continua no post abaixo)

Por Torero às 08h30

(continuação)

(continuação)

Enquanto eu e Thomas passávamos os dias treinando para as oitavas contra a Argentina, carrasca no saldo de gols contra nosso amigo Cadu, ele próprio havia encontrado um rival a altura quando o assunto era discutir a história do futebol: ele mesmo, Feijão. Podia ter seus cento e tantos anos, mas não havia história do futebol que ele se esquecesse.

Ainda tínhamos tempo até a próxima partida, então resolvemos pegar um trem-bala e ver a seleção contra a Costa Rica. No trem, continuamos os treinos no Winning Eleven, enquanto Cadu e Feijão discutiam o posicionamento defensivo do time nos últimos jogos.

- Com esse posicionamento ridículo, não sei não. Essa zaga vai falhar, cruzamento na área é meio gol! É amigo, haja coração! – afirmou Cadu, usando um jargão de mais um de seus ídolos da narração.

- Está bem, rapaz! Vamos ver quem tem razão no jogo contra a Costa Rica! – encerrou a conversa Feijão, enquanto tomava um coquetel de remédios para o coração, vivido de tantas Copas.

Não deu outra. Vencemos por 4 a 2 da Costa Rica, mas adivinhem de qual maneira saiu o segundo gol da equipe da Concacaf? O sinal de alerta estava dado pelo “hermano uruguaio”.

Nas oitavas, o Brasil teria a Bélgica pela frente, em Kobe. No hotel, um telegrama informou que nossa próxima rodada nas duplas também seria em Kobe. Para nossa tristeza, seria no mesmo dia e horário do jogo do Brasil. Foi o jogo mais fácil do campeonato para nós, Thomas vestia a camisa inglesa e fez o papel de inibir os argentinos. A goleada só não foi mais sonora porque ficamos atentos a qualquer detalhe do jogo do verdadeiro Brasil.

Contra a Bélgica, contamos com a sorte, mas com um poderoso chute de Rivaldo, inspirado na Copa, e com um leve desvio de Ronaldo, renascido na Copa, que o goleiro Geert quase defendeu. Nas quartas, viria a Inglaterra. Só viríamos os melhores momentos no quarto do hotel, enquanto comemorávamos nossa passagem às quartas. Segundo Cadu, não seria exagero em falar que a Bélgica poderia ter ganho aquele jogo, mas o Brasil tinha a sorte do campeão. Começara desacreditado na Copa, mas já estava entre os oito melhores.

Infelizmente, as agendas não bateram dessa vez. Enquanto o Brasil jogaria em Shizuoka contra os ingleses, a próxima rodada do torneio seria em Osaka. Nos despedimos de Feijão e seu cachorro bom-de-bola e pegamos um trem-bala em direção a Osaka, enquanto Feijão viajaria de avião. Nosso jogo, de novo seria no mesmo horário da partida do Brasil. Um sufoco.

Entrei no estádio suando frio, pois até ali não parecia acreditar que eu poderia ter chego às quartas da minha Copa do Mundo. Cadu ficou com um rádio ligado, ouvindo o jogo em japonês, mas atento ao nome dos jogadores. Se fossem os de ataque, o grito de gol era um momento feliz, se fossem os de defesa, o grito de gol seria um martírio.

Nosso jogo começou brigado. Os adversários eram dois mexicanos que comandavam a Irlanda guiada por Robbie Keane. Numa falha grotesca de Lúcio, que era controlado pelo meu controle, eles abriram o placar. Thomas até ameaçou uma reclamação, mas alguns minutos depois, tudo mudaria. Sofri uma falta no meio de campo, despretenciosa. Pensei num botão, apertei outro. Na hora da cobrança, mandei chutar, mas de repente o Ronaldinho cruzou.

- Mas não era o bola que chutava? – perguntei em voz alta.

Encobri o goleiro deles. Um gol que ninguém tinha visto ainda. No intervalo de nosso jogo, Cadu veio com a notícia de que o Brasil estava empatando em 1 a 1 com a Inglaterra, que Lúcio tinha falhado e que Rivaldo havia empatado. Depois da primeira notícia nos assustamos. Tinha sido igual ao jogo! Mas o gol do Rivaldo nos aliviou, não estava sendo igual.

Voltamos no jogo e conseguimos a virada justamente com Rivaldo, em uma bela assistência de Ronaldinho, comandado pelo Thomas. Viramos na base da raça e do coração, nos melhores ensinamentos do Cadu.

- Quando não dá na técnica, vai na raça!

Terminado nosso jogo, respiramos aliviados. Estávamos nas semifinais. Quase nos esquecemos das quartas do Brasil visto por milhões. Cadu, que estava com os olhos no nosso jogo e os ouvidos no rádio, preferiu não dizer como foi o gol da vitória do Brasil. Disse que não entendeu o que o japonês disse. Realmente foi uma boa desculpa.

Nosso torneio estava acabando, mas teríamos pelo menos mais dois jogos, na pior das hipóteses a disputa de terceiro lugar. Em Saitama, o Brasil teria pela frente a Turquia, carrasca do Japão e de Senegal, sem contar na vitória contra os franceses na estréia. No jogo, teríamos a Espanha.

- Se o jogo for como a vida, vocês estão nas finais! Me digam, quando é que a Espanha vai vingar em mata-mata? Nem em jogo de botão ela ganha. – revelou Cadu, sempre profetizando. Depois de nove erros, ele até que acertava uma de vez enquando.

Nosso jogo seria em Yokohama, assim como o outro restante. Dessa vez, enfim uma partida em que os horários não se cruzariam com os da Copa. Já estava na hora de assistirmos um pouco os jogos de fato, essa vida de ficar jogando só às vezes cansa. Mas só às vezes também.

Não deu outra. Cadu enfim acertou uma, depois de sua desilusão com a história de que Luizão seria o “número 9” que daria efeito, desacreditado da recuperação do Ronaldo. Os russos vieram comandando a Espanha, mas sem dúvidas o jogo foi bem fácil para nós. Armamos um 4-3-3 que assustou os russos, que só jogavam bem contra as retrancas que o pessoal adora de armar nos jogos de Winning Eleven. 3 a 0, um do Ronaldo, um do Ronaldinho e um do Rivaldo. O trio de erres funcionou muito bem naquela Copa.

Cadu saiu logo após o terceiro gol, guardaria lugar no bar para que então comemorássemos nossa classificação para as finais. Veríamos o jogo ao lado de quem? Feijão e seu cachorro. Parecia perseguição. Nossa ou deles?

- A Turquia vai acabar com o Brasil. Era pra ter sido 1 a 0 contra o Brasil naquele jogo, não fosse a sorte. – afirmou Cadu, com cara de desconfiado.

- Esse rapaz só fica secando o Brasil, mas tá dando sorte, continua! – pediu Feijão dando risada, já na nossa mesa.

Mesmo secando, o Brasil sofreu, mas passou. Foi um 1 a 0 com a marca do Ronaldo – e do biquinho da chuteira também. Rustu pegou até vento, mas o goleiro turco não contava com a astúcia do Fenômeno. Nem parecia um jogo de semifinal. Era incrível, mas o Brasil já era finalista. De mansinho chegou.

Thomas não estava ainda tão feliz assim. Tinha pego carinho pela equipe que defendeu na Copa de Winning Eleven: a Alemanha, seleção que um dia antes havia carimbado vaga na final. Por incrível que pareça, ele estava dividido. Ao menos Cadu não sofreu o mesmo, viu seu Uruguai ser eliminado depois de empatar com a França e Senegal. Uma judiação.

Pensei que isso fosse abalar nossas estruturas no torneio virtual. Dessa vez, nossa final seria antes do jogo da seleção: glória a Deus. Além de tudo, estaríamos em Yokohama, cidade da final. O campeão ganharia ingressos para o jogo. Sem dúvidas esses ingressos seriam disputados a tapa se fosse preciso. Cadu já havia garantido o seu, o único que comprou, mesmo sem saber que o Brasil estaria na final. Restava os nossos, o meu e o de Thomas.

Contra a Nigéria, outra carrasca de Cadu, o jogo prometia ser difícil. Era pura correria o jogo dos africanos e pior, a Nigéria só tinha perdido para a já eliminada Argentina. De resto, só goleadas. Seria difícil parar o Okocha e os dois japoneses que comandavam a seleção. Sabiam todos os mínimos detalhes do jogo, mas confiávamos na categoria de nossos jogadores.

Entramos no centro de convenções mais uma vez, daquela vez seria a última delas. Em uma cerimônia bem bonita, as duas duplas foram recepcionadas com aplausos e passaram diante do cobiçado prêmio: o troféu e os ingressos. Sentamos nas nossas cadeiras e tivemos a sensação de que seria nosso o troféu – e o mais importante, os ingressos.

Foi duro. Em menos de 15 minutos de jogo, a Nigéria havia feito dois gols. Nos matamos para manter o placar, os japoneses eram duros na queda. Nas estatísticas do intervalo, tínhamos só três chutes, nenhum no gol, contra uma dezena deles contra a meta de nosso sofrido Marcos, o homem do jogo na primeira etapa da peleja.

- Gente, na final de 58 foi assim, o Brasil tomou uma chapuletada logo no começo, em Estocolmo contra a Suécia. Será que é coincidência ou o jogo no Japão contra os japoneses será igualzinho? – motivou Cadu, que além de torcer para nós, estava com fome de vingança da equipe nigeriana.

Deu certo. Não foi o 5 a 2 da seleção mágica de 58, mas o 3 a 2 suado nos bastou. Tudo na base da sorte. Supersticiosos, os japoneses começaram a suar frio quando o Shorunmu, goleiro deles, tomou um frango homérico. Daí em diante, foi só dominar o jogo, usando um 4-2-4 bem à moda antiga, usando o Ronaldinho e o Roberto Carlos como pontas. Até que a invenção deu certo. Era a prova de que existem coisas que só o Winning Eleven pode comprovar.

No último minuto, a pressão foi grande, mas nos seguramos e juntos, os três, comemoramos. Depois daquilo, vencer da Alemanha seria tarefa fácil. Embora discurso de quem já era campeão, era também uma grande torcida. Se a vida copiasse o jogo ao menos mais uma vez, Kahn poderia falhar igualzinho o Shorunmu. Seria quase um milagre.

Corremos para o estádio, depois da enrolação da entrega do troféu e dos ingressos. Detalhe: quase esquecemos o troféu. No fim, ele seria o menos importante, acabamos perdendo ele no aeroporto mesmo. Queríamos é estar no estádio para a final da Copa do Mundo. Sabia que o Feijão estaria em um bar a torcer pelo Brasil, aquela nossa conquista tinha também uma parcela dele e de seu cachorro? Brasil bem no jogo, Brasil bem em campo, era como ele brincava ao saber de nossos feitos.

Emocionante final. Perdemos o começo do jogo, mas enfim, não dava pra ser tudo perfeito. Ou até dava, porque no primeiro tempo o Brasil tomou pressão da Alemanha. Não tomou os dois gols que sofreu no Winning Eleven, mas era até para ter sofrido. São Marcos impediu. Nosso herói só podia ter sido ele mesmo: Ronaldo. Em menos de 15 minutos, lavou a alma de 98, colocou os dois gols do placar de 2 a 0 que não seria mais alterado.

Comemoramos no estádio. Que momento incrível. 170 milhões em ação, era o povo brasileiro que encontrava pela quinta vez o sentimento máximo de chegar ao topo do mundo. Quanto a nós três, fizemos parte daquele momento histórico e nunca mais deixaríamos de ser amigos. Uma Copa em que o Brasil foi campeão duas vezes. Era a prova e a contra-prova de que nosso futebol é mesmo o maior do mundo, de que com o Brasil ninguém pode, de que vivemos a felicidade máximo do brasileiro: um título em uma Copa do Mundo.

 

Por Torero às 08h23

27/06/2008

Toreroteca

E vamos à última Toreroteca (última, pelo menos, por um mês, por motivos que explicarei na segunda-feira):

Os jogos selecionados foram:

Espanha x Alemanha;

Sport x Flamengo;

Cruzeiro x São Paulo;

Fluminense x Botafogo;

Grêmio x Internacional;

Palmeiras x Náutico.

Fico com Alemanha, empate, empate, Botafogo, Grêmio, Palmeiras.

Por Torero às 15h08

1958, o ano que não terminou

Para os torcedores-historiadores, aqueles que gostam de antigas façanhos futebolísticas, o sábado perfeito começa com uma ida ao cinema para ver "1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil", documentário que está em cartaz em São Paulo, na sessão das 18 no HSBC.

É um documentário tradicional. Traz todos os jogos do Brasil naquela Copa, entrevistas com jogadores e uma edição clássica, com lances intercalados com depoimentos. Mas há algumas novidades interessante. Por exemplo, há muitos depoimentos de inimigos. Vários suecos falam do jogo final, ingleses comentam o duro empate do segundo jogo e o trio francês, Kopa, Fontaine e Piantoni, dá uma nova versão daquele célebre 5 a 2.

As entrevistas dos brasileiros também são boas. Djalma Santos fala muito bem, Nilton Santos é um Buda carioca e há Dino sani, que raras vezes é ouvido. Aliás, os reservas das Copas bem que merecem um documentários seu, pois são aqueles que chega da glória máxima, chegam às portas do Olimpo, mas esuqeceram a chave.

Outra coisa agradável é ver os gols, que já vimos centenas de vezes, desde o começo do lance, o que é raro de ser mostrado. O filme tem pouco mais de 1h20. Ou seja, dá para voltar para casa e ver, às 21h, na ESPN Brasil, o especial "A Copa do Mundo é nossa".

Vários entrevistados estão nos dois documentários, como Paulo Planet Buarque, Zagallo e Luiz Carlos Barreto, mas o programa de tevê foi até Poços de Caldas, onde a seleção se preparou para a Copa, e assim conseguiu alguns depoimentos diferentes, pouco usuais.

Há, por exemplo, várias pessoas que conviveram com a seleção naqueles dias, como o homem que viu a chegada de Pelé com sua malinha de papelão. Estas entrevistas inesperadas, estas novas histórias de bastidores, dão uma graça especial ao programa, que tem ainda uma boa edição, mais ágil e menos reverencial que a do filme. 

Enfim, dois bons programas para torcedores-historiadores.

Por Torero às 13h50

Blog do antípoda

O insigne Al-Chaer, meu antípoda na Toreroteca e torcedor do Goiás (quatro vezes argh!), está com um blog próprio. Para ir para lá, clique .  

Por Torero às 13h39

26/06/2008

Entrevista dos pesadelos

Lembram da Copa dos Pesadelos? Pois bem, teremos agora a Entrevista dos Pesadelos.

É que há um mês enviei as perguntas dos leitores ao presidente do Palmeiras, mas ele não se dignou a respondê-las. Daí, como é coisa feia que perguntas fiquem sem respostas, acho que o melhor é que nós mesmos as respondamos. Assim, vou colocar aqui as perguntas que foram enviadas ao supremo mandatário alviverde e vocês colocam as respostas (uma, duas ou dez, tanto faz). Para a segunda-feira faço uma seleção das melhores e teremos uma bela entrevista publicada aqui no blog.

Eis as questões dellamonicas: 

1-) Caro Presidente, bom dia. Precisando de um estádio maior para sediar mais confortavelmente os jogos do Verdão, o Senhor confirma o início das reformas no estádio para início de agosto e término em 2010? Qual será a capacidade oficial? Obrigado
[Marco Clerris] [São Paulo, SP, Brasil]

2-) Presidente, o que o senhor acha de um espetáculo que começa às 21h50min, cujo espectador fica sob risco de frio e chuva e ainda põe o traseiro no cimento; que ainda por cima teve seu preço mínimo majorado para R$ 40,00, e concorre com atrações como cinema, teatro (que são em lugares abrigados, mais baratos e tem assentos muito mais confortáveis) e mesmo TV pagas (que transmitem o mesmo espetáculo)?
Paulo R. Filomeno] [Campinas, SP]

3-) É mesmo vantajoso fazer um acordo desses com a Traffic? De montar um time que serve de vitrine para negociações. Não é melhor começar a pensar os grandes clubes brasileiros como fim e não como meio de se chegar ao topo da pirâmide do futebol.
[Felipe Bandeira]

4-) Presidente, parabéns pela sua administração. A maior vergonha do Palmeiras foi ser rebaixado para a Série B. A segunda maior, foi não ter participado do Mundial da FIFA 2000, lugar que tinha direito. Pergunta: Qual o verdadeiro motivo desta exclusão? Não seria possível de investigação, neste tema, a gestão de Mustafá?
[Marco Aurelio] [campo grande, ms, brasil]

5-) Presidente, o Marcos vai receber um busto no Palestra Itália, ao lado do Ademir da Guia, Waldemar Fiume e Junqueira? (Já ouvi que não poderia ocorrer, uma vez que ele já jogou em outro time, no começo da carreira. Mas, até aí, o Ademir jogou no Bangu).
[Paulo Domenico Rizzo]

6-) Presidente: Primeiramente, parabéns pelo título paulista. Em segundo lugar, gostaria de saber quando o Palmeiras vai viabilizar para que o morador fora do estado de São Paulo torne-se sócio sem depender de um endereço no Estado para que se faça a cobrança, podendo, inclusive, o boleto ser impresso no site oficial do clube?
[Valdemagno Silva Torres] [Recife/PE/Brasil]

7-) Caro Presidente, gostaria de saber como o Palmeiras passou a tratar suas categorias de base, após o acordo com a Traffic? O que notamos é que novos jogadores chegam e nenhum comentário sobre os nossos jovens é visto, aliado ao antigo problema do Vanderlei Luxemburgo de não trabalhar com jogadores de categoria de base. Hoje temos a Traffic, mas será que o futuro do futebol não está nas categorias de base e devemos ter sempre um olho voltado para elas? Saudações Palestrinas!
[Raphael] [São Paulo - SP]

8-) Presidente, primeiro gostaria de relatar um episódio depois complementar com uma pergunta. Sou do interior de São Paulo, e como estava com muita coisa pra fazer na semana do segundo jogo da final, não pude ir à São Paulo passar horas na fila pra comprar o ingresso. Quando soube da possibilidade de comprar pela internet (espaço VISA), já era tarde. Pra minha surpresa, a Mancha de Rio Claro anunciava em sua página no Orkut a venda de ingressos, inclusive para não sócios. Fui imediatamente para lá, onde me ofereceram ingresso por R$ 130,00 (o de R$ 40,00). Minhas perguntas são: Como pode o Palmeiras privilegiar as organizadas na distribuição de ingressos? O Palmeiras prefere esse tipo de torcedor (violento) em seus estádios? O Palmeiras tem conhecimento que as uniformizadas agem como cambistas? O Palmeiras tem medo desses bandidos? Porque não se possibilita a venda de ingressos (todos) pela internet? É pressão das organizadas?
[Marcelo] [Rio Claro - SP]

9-) Quando o Serdan, da Mancha, agrediu o técnico que barrou seu filho no time infantil, foi dado um prazo de 90 dias para uma sindicância interna. Esses 90 dias já se esgotaram. Qual foi a conclusão da sindicância e as providências tomadas?
[Walter Camargo] [Santana de Parnaiba, SP, Brasil]

10-) Quando afinal vocês conseguirão acabar com as torcidas organizadas para que pessoas de bem consigam voltar aos estádios, pois eu sou do tempo em que se podia ir ao estádio e voltar inteiro para casa
[Ivaldo] [são paulo-sp-brasil]

Por Torero às 07h56

Hoje tem jogão

Eu confesso: sou um homem de pequenices. E de bairrices. Prefiro uma paçoca a um creme brulê, sou mais um caldinho de feijão do que uma lagosta à termidor, e sempre preferi um ASA de Arapiraca x Atlético de Alagoinhas a qualquer jogo do tipo Chelsea x Manchester United.

Mas essa Eurocopa está de lamber os beiços. Vocês viram Espanha x Itália? Um jogão. Portugal e Alemanha? Jogão. França e Holanda? Jogão. Turquia e Croácia? Jogão. Holanda e Rússia? Jogaço! O melhor de todos para mim. A velocidade era tanta que parecia que eu estava vendo um jogo de Winning Eleven.

Pois bem, hoje teremos novo jogão: Rússia e Espanha. Os desempregados que não trabalharão esta tarde são homens de sorte.   

Por Torero às 07h50

25/06/2008

Manifesto Eternista

Mustafá ficou doze anos no poder?

Dualib ficou catorze?

Pois vamos ultrapassar todos eles!

Sim, meus caros, este é o lançamento da campanha Marcelo Eterno!

Para o bem de todos e felicidade geral da nação santista, ele deve dizer ao povo que fica. Que fica e não sai!

Afinal, para quê eleições? Vamos acabar de vez com essa burocracia.

Se eleições fossem coisas boas e justas, Jesus não teria sido derrotado por Barrabás no plebiscito de Jerusalém.

Os que falam que deve haver rotatividade no poder são vis inimigos que não enxergam a Sua grandiosidade.

Que nossos rivais tremam diante de nossa revolução! Que nosso mandatário jamais levante suas nobres ancas da cadeira presidencial. Santistas de todo o mundo, uni-vos! Uni-vos em torno da permanência sempiterna de nosso líder!

Marcelo já!

Marcelo sempre!

Marcelo Eterno!

 

PS: Hoje, à meia-noite e dois minutos, este manifesto foi lançado conjuntamente por este Blog e pelo Futepoca. Deixe aqui seu apoio registrado e faça parte você também deste nobre movimento ficadista. 

Por Torero às 00h02

24/06/2008

Zé Cabala e o centroavante coronel

Para ler, clique aqui (só para assinantes do UOL e da Folha).

Por Torero às 08h18

23/06/2008

Chumbo grosso em Brasileirão City

Neste domingo o céu estava plúmbeo em Brasileirão City. Mas havia mais chumbo nas ruas que nas nuvens. Sim, meus caros, houve gotas de chuva e chuva de balas na tarde de ontem.

 Big Green segue em sua perseguição aos líderes.

Tudo começou com uma bela vitória de Big Green. Mesmo jogando no San January Saloon, Big Green se impôs e fez Joaquim Wayne cair por terra. Até então, Joaquim não havia perdido em seus domínios. E ele até estava melhor nos primeiros minutos. Mas, aos poucos, Big foi equilibrando as coisas e, usando a cabeça, acertou um belo tiro no caubói de vastos bigodes. Na segunda parte da luta, Joaquim começou dominando e parecia questão de tempo que uma de suas balas alvejasse o peito de Big. Mas quem muito ataca pouco defende, e o caubói alviverde, que curiosamente monta um porco gigante em vez de cavalo, fazia contra-ataques perigosos, e assim mandou o tiro fatal em Joaquim. Aliás, Joaquim deve mudar de gerente por estes dias. Até que enfim!

Na primeira rodada de Brasileirão City, Jim Capibaribe venceu e ficou entre os líderes. Muitos disseram que isso duraria pouco, mas eis que, passado quase um quarto do torneio, o caubói alvirrubro ainda está entre os quatro melhores. Desta vez, sua vítima foi Rob Gallo. E olhem que Jim jogou no saloon do inimigo, o Arruda, de Sam T. Cruz. Com este sucesso, Jim Capibaribe já está há quatro rodadas sem saber o que é derrota.

Black Red, o caubói que cavalga com um urubu nos ombros, é um dos líderes de Brasileirão City. Ontem ele venceu, e bem, ao jovem Wyatt Earp Tinga. Black Red vem duelando bem, como há muito tempo não fazia. E, empurrado por seus ardorosos fãs, é um dos candidatos a ganhar a estrela de xerife de Brasileirão City.

 John Esmeraldine queria vingança. E conseguiu.

No último fim de semana, John Esmeraldine, o caubói do cerrado, levou cinco tiros de Harry Hurricane. Na verdade, nem chegou a ser um duelo. Foi mais um fuzilamento. No meio de semana, John enfrentou, em seu saloon, a Sancho Pampa. E levou mais três tiros. Estas duas derrotas faziam pensar que ele levaria mais umas tantas balas de Billy, the Fish. Mas qual o quê? John duelou com hombridade e meteu quatro tiros em seu adversário. E em pleno Saloon Villa Belmiro.

Com isso, John ganhou fôlego para as próximas rodadas. Já Billy, the Fish, entrou em crise. Deu vexame e agora é sério candidato a ser mandado passar uns tempos em Série B Village, como aconteceu no ano passado com Tim Timão e, antes, com Big Green.

Victoria Salvador, mulata de longas tranças, cintura fina, coxas grossas e tiro certeiro, venceu James Colorado, o caubói que usa bombachas. Colorado era tido como um dos candidatos à estrela dourada, mas está se complicando neste início de torneio, tanto que ainda não conseguiu vencer longe de Beira-River. Victoria, por sua vez, passou à sétima posição e está apenas a três pontos dos Great Four, os chamados G-4.

Por fim, houve o terceiro triunfo seguido de Sancho Pampa, desta vez sobre Harry Hurricane. Foram três tiros à queima-roupa. E três tiros dados com seu revólver da marca Roy Rogers. Com isso, Sancho Pampa, ao lado de Black Red e Will Uai, está na liderança do campeonato.

Curiosamente, os cinco melhores caubóis do campeonato falam com sotaques diferentes. Essa é graça de Brasileirão City.

Por Torero às 10h40

Resultado da Toreroteca

Ninguém fez os seis pontos desta vez. E principalmente por causa da (argh!) derrota do Santos. Dos 120 votos, apenas 4 apostaram no Goiás. Provavelmente os quatro torcedores que estavam na Vila Belmiro

Por Torero às 07h41

20/06/2008

Toreroteca

E vamos aos seis jogos escolhidos para esta loteria blogueiral:

Espanha x Itália: Logo de cara, um jogo internacional. Para facilitar, aqui não há coluna do meio. Basta acertar quem passa à próxima fase. Eu vou de Itália, mas com remorso.

Vitória x Internacional: Um empate parece de bom tamanho.

Vasco x Palmeiras: Como sempre torço contra o Eurico Miranda, aposto com gosto no Palmeiras.

Santos x Goiás: O jogo contra o time de meu antípoda Al-Chaer traz dois times na zona rebaixamento. Acho que o Santos ganha.

Grêmio x Atlético-PR: O lógico seria apostar no Grêmio, mas o instinto (esse tolo que mora dentro de nós) manda-me apostar no empate.

Náutico x Atlético-MG: Ainda não confio no Atlético. Vou de Náutico.

Dê seus palpites. O primeiro a acertar ganha meus "Vermes". 

Por Torero às 12h13

19/06/2008

1998 – Futebol é bom pra cachorro!

1998 – Futebol é bom pra cachorro!

Eis um belo lugar para se viver, pensei quando desembarcamos em Paris.

Acho que ele concordava comigo, mas, talvez por causa de sua idade, trocou uma palavra da frase e disse: — Eis um belo lugar para se morrer.

O seu nome era Feijão. Dividíamos há dez anos um quarto no Méier e cada um conhecia a fundo as manias e rotinas do outro. Ele era o meu melhor amigo. Por ser um pouco mais jovem, cabia a mim acordá-lo, incentivá-lo a caminhar e agüentar suas crises de mau humor:

— Ah, Marcos Roberto — ele dizia. — O que seria de mim sem você?

Eu apenas inclinava a cabeça, assim como quem diz: — Ora, deixe pra lá... — Nunca soube reagir a elogios.

Feijão tinha já cem anos e não contava mais com sua companheira Noemi. Mas estava recuperado. Tanto que logo que chegamos a Paris ele procurou saber o destino de Coco, uma antiga namorada. Descobriu que ela agora morava em Sevilha, onde estava casada com um barbeiro chamado Piolho. Meu amigo pôs o telefone no gancho e suspirou com tristeza. Ele nunca soube viver sem mulheres.

Mas, afinal, ele não estava ali para tratar de amores, e sim para ver o Brasil pentacampeão. Uma das poucas pessoas ainda vivas a ter acompanhado o time na Copa de 1930, ele não queria abotoar o paletó de madeira antes de comemorar um título mundial. Por isso, vinha economizando cada centavo há muito tempo. Eu, que não gostava de futebol, achava aquilo um exagero. Bem, é como diz o ditado, cada cachorro sabe por que balança o rabo.

Quando ainda estávamos no Brasil, Feijão vivia dizendo aos amigos que a seleção tinha tudo para conseguir o título. Lá estavam os tetras Taffarel, Aldair, Dunga, Leonardo e Bebeto, além de Cafu, Roberto Carlos, César Sampaio, Rivaldo e, principalmente, o fenômeno Ronaldo. Na defesa havia um tal de Júnior Baiano, de quem Feijão não gostava muito, mas, como ele mesmo fazia questão de lembrar, nenhum time é perfeito.

No dia do jogo de abertura, contra a Escócia, saímos do hotel bem penteados e cheirosos, como se fôssemos a uma festa.

— Prepare-se, Marcos Roberto — ele disse. — Hoje você vai ver o primeiro passo de uma grande caminhada.

Não respondi nada, apenas olhei-o nos olhos assim como quem está com a pulga atrás da orelha.

Pegamos o metrô e seguimos na direção do campo. Apesar de ter deixado Paris há sessenta anos, meu amigo ainda conhecia bem a cidade e se movimentava com desenvoltura.

Chegando à entrada do Stade de France, encontramos uma multidão tão grande que, por um minuto, ficamos paralisados. Depois de respirar um fundo e tomar um vaso-compressor, um bronco-dilatador, um antialérgico, um antiartrítico, um calmante, um excitante e um bocado de gim, Feijão resolveu abrir caminho a bengaladas. Mas eu, mais baixo e sem armas, não consegui acompanhá-lo. Então deu-se o que eu mais temia: nos perdemos. Fiquei desesperado. Como não sabia emitir um mísero som em francês, fiz a única coisa que podia fazer naquele momento: sentei na calçada e chorei.

Pensei que ia ficar ali, esquecido para sempre, quando ouvi uma voz aguda dizer em português:

— Jesus amado!

Era uma mulher baixa e de cabelos grisalhos. O homem ao seu lado comentou: — Também te amo, Madalena.

— Não, Jesus, não estou falando com você. Olhe esse pobre cãozinho. O coitado deve ter se perdido do dono.

A boa senhora apanhou-me então com seus braços magros, apertou-me contra o peito e levou-me para dentro do estádio. Os carinhos dela consolaram-me um pouco, mas volta e meia eu erguia o focinho tentando sentir o cheiro de Feijão.

Quanto ao jogo, se me permitem o trocadilho, a Escócia foi um osso duro de roer. O Brasil fez 1 a 0 com César Sampaio, no que deve ter sido o primeiro gol de ombro de todas as copas, mas, logo depois, o mesmo Sampaio empurrou Durie na área e o juiz marcou pênalti. Collins igualou.

A vitória veio, enfim, na segunda etapa, depois de um longo lançamento de Dunga. Cafu, que vinha entrando em diagonal, chutou para a defesa de Leighton, mas, no rebote, o infeliz Boyd acabou colocando a bola dentro das próprias redes. Nesse momento, a boa senhora atirou-me para o alto.

Os humanos são imprevisíveis. Ainda mais Madalena. Ela havia sido freira por muitos anos no convento de Santa Chiara e estava numa missão religiosa em El Salvador quando reencontrou Jesus, que era o treinador de goleiros do Club Deportivo Dragón. Madalena abandonou a cruz, ele, as traves, e os dois abriram um restaurante católico no bairro de Pigalle, em Paris.

Na saída, ia eu no colo de Jesus quando uma senhora passou a mão em minha cabeça e falou:

— Que trem bonito demais da conta!

Jesus e Madalena trocaram um olhar de espanto e perguntaram ao mesmo tempo: — A senhorita é mineira?

— Sou, uai.

— Parece que ele gostou de você — disse Jesus, enquanto eu lambia a mão da mulher, na qual havia uns restos de pipoca.

— Igualzim um que eu tinha lá em Guadalajara.

Aquela mulher contou então que seu nome era Amélia e o apelido, Mel. Tinha acabado de chegar do México, onde dirigiu um hotel por quase trinta anos, até perder tudo num terremoto. Sentindo-se íntima dos dois, revelou que tinha ido à França para ver a seleção ser campeã como em 70. Depois pretendia voltar para o Brasil e terminar seus dias numa casinha no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte.

Meus donos ficaram tão comovidos com a história que a convidaram para ficar em seu pequeno apartamento.

Eles se abraçaram e eu gani, emocionado.

Nós quatro fomos, dias depois, assistir ao jogo contra Marrocos. O escrete brasileiro venceu por 3 a 0 com uma pancada de Ronaldo e dois gols do tipo até-eu-faria, marcados por Rivaldo e Bebeto. Mais fácil que correr atrás de um gato manco!

Para ser sincero, eu continuava não ligando muito para aquela história de Copa, mas, em respeito aos sentimentos deles, fazia o mínimo barulho possível durante os jogos. Até mesmo quando estouravam os rojões — vocês não imaginam o efeito daquilo nos nossos tímpanos — eu procurava me manter calado.

Em seu colar, Mel carregava uma foto do ex-marido, um tal de Jiló, de quem às vezes sentia saudades. Madalena perguntou se ela não tinha encontrado outros homens na vida e ela respondeu: — Fui solteira a vida toda, mas não estou matando cachorro a grito.

Não entendi bem o que ela quis dizer, de qualquer forma, fiquei aliviado.

Dois ou três dias depois do segundo jogo, nós passeávamos pela região de Les Halles quando ouvimos um sujeito berrar em francês: — Fora! Fora! Nunca mais me apareçam aqui, seus caiporas duma figa!

Ele parecia ser dono de hotel e gritava para dois sujeitos que vestiam camisas da seleção brasileira. Penalizada, Mel quis saber do que se tratava:

— Madame — disse o dono do hotel — desde que estes indivíduos se hospedaram aqui, o elevador quebrou, a calefação pifou, meu telefone ficou sem linha e apareceu uma rachadura na caixa d’água.

— Monsieur, o senhor está exageran... — ia contestar um dos sujeitos quando uma titica de pombo espatifou-se nos seus óculos.

— Puxa, que azar! — disse Mel. — Como é o seu nome?

— Frieira — disse Frieira limpando-se com um lenço. — E este é meu irmão, o Chulé.

Generosos como eles só, Jesus e Madalena convidaram os dois de boa fé para ficar alguns dias em seu apertado apartamento. Completando as boas vindas, Mel propôs que todos fossem juntos a Marseille ver o próximo jogo contra a Noruega:

— Aposto como o Brasil ganha desses comedores de bacalhau — brincou Jesus.

— Eu prefiro não apostar — emendou Frieira.

Nós seis embarcamos horas depois para ver a tal partida. Como o Brasil já estava na fase seguinte, entrou em campo meio desinteressado. Fizemos um gol, com Bebeto, mas os noruegueses viraram com Flo e Rekdal. Mel comentou: — Tem dia que o poste mija no cachorro.

Nem quero imaginar uma coisa dessas.

Apesar do aperto, dos esbarrões e das dificuldades (viviam pisando no meu rabo), o ambiente no apartamento ia de bom a melhor. Mel era uma filha para Jesus e Madalena, e os três riam dos azares de Frieira e das excentricidades de Chulé. Éramos quase uma família.

Chegou então a fase das oitavas-de-final e coube ao Brasil enfrentar o Chile, que vinha de três empates. Todos tinham um certo medo desse jogo, mas isso só durou até os onze minutos,  quando Dunga cobrou uma falta perto da área e César Sampaio, de cabeça, abriu o placar. Aos 27 minutos, numa confusão na área, ele mesmo ampliou. E, um pouco antes de acabar o primeiro tempo, Ronaldo, cobrando pênalti, fez 3 a 0.

Na etapa final, o Brasil desperdiçou um monte de gols e um baixinho de nome Salas diminuiu. Mas aí Ronaldo marcou mais um e acabou com o jogo.

Saindo do Parc de Princes, fomos a um café beber alguma coisa. Chulé, Frieira, Mel e Madalena pediram Kir Royale e Jesus, é claro, tomou vinho. Eu fiquei na água mesmo. Na mesa ao lado havia um casal que comia silenciosamente. Depois de um tempo, o homem começou a olhar para Mel e levou uma cotovelada da esposa.

— Calma, querida, acho que reconheci alguém. — Então virou-se para Mel e perguntou: — Por acaso a senhora não era dona de um hotel em Guadalajara?

Logo o casal se juntou ao grupo. Ele era um sujeito grisalho chamado Minhoca e sua maquiada mulher tinha o nome de Victoire. Aliás, não sei se mulher é a palavra certa. Nós, cachorros, temos o hábito de cheirar as partes íntimas dos humanos e, bem, não é que eu queira meter o nariz na vida alheia, mas Victoire estava mais para Victor.

Os dois vinham da casa da mãe do Minhoca, onde tinha acabado de haver uma discussão.

— Mas por quê, gente? — perguntou Mel.

— Minha sogra é um pouco preconceituosa — respondeu Victoire sem entrar em detalhes.

Não é difícil imaginar o que aconteceu em seguida, difícil é imaginar como as pessoas se arranjaram na hora de dormir. Os donos da casa continuaram dividindo a cama de casal do único quarto, enquanto Minhoca e Victoire foram dormir na sala, Mel ficou no corredorzinho de entrada e os irmãos Frieira e Chulé ajeitaram seus colchonetes na cozinha. Quanto a mim, tive que me contentar com a área de serviço.

Foram dias felizes. Todos conversavam, jogavam cartas e riam sem parar. Eram gentis comigo e não havia hora em que alguém não estivesse me afagando. Apesar disso, eu não ficava um minuto sem pensar em Feijão, meu velho amigo. Onde estaria ele?

Depois de prepararmos lanches e sucos, os oito fomos a Nantes ver a partida das quartas-de-final contra a Dinamarca.

Foi um jogo terrível! Mal começou e Brian Laudrup cruzou para Jorgensen, que fez 1 a 0.

(Ops! Exagerei nas fotos e o espaço acabou. Continua no post abaixo) 

Por Torero às 07h54

(continuação)

(continuação)

Quando parecia que tudo estava perdido, veio o empate, com Ronaldo deixando Bebeto na cara do gol.

Quando tudo era indefinição, Ronaldo deu outro presente, dessa vez para Rivaldo, que definiu com perfeição: 2 a 1.

Quando parecia que tudo estava tranqüilo, Brian empatou.

Quando parecia que eles iam virar, Rivaldo marcou 3 a 2.

Quando parecia que tudo estava resolvido, estava mesmo, porque o nosso travessão defendeu uma bola no último minuto.

Confesso que acompanhei essa partida com mais atenção do que as anteriores e deixava cair as orelhas sobre os olhos quando o time de camisas escuras (nós vemos as coisas em preto e branco) fazia a seleção recuar para dentro da área.

Na saída do estádio vi uma grande estátua da taça Jules Rimet. Não me contive e fiz xixi no seu pé. Para meu espanto, a estátua disse: “Fora, cão!”. A estátua era um brasileiro de uns cinquenta anos chamado Cândido, que ganhava a vida fazendo aquele número. Todos se apresentaram e ficaram ali conversando por um tempo, até que, ao ver o colarzinho de Mel, Cândido apontou para a fotografia do ex-marido e disse:

— Ele foi um grande amigo do meu amigo Brutus.

— O Jiló? Jura? — perguntou Mel.

— Juro. O Brutus tinha até uma foto dele pendurada num quadro.

Com os olhos úmidos, Mel perguntou a Jesus e Madalena se ele também poderia ficar no apartamento.

Cândido passou a dormir na banheira.

Alguns dias depois, nós nove fomos assistir à semifinal entre Brasil e Holanda. Na outra, jogavam a dona da casa e uma seleção que vinha surpreendendo a todos, a Croácia.

Nessa altura, de tanto ouvir conversas sobre o assunto, entendia o meu bocado de futebol. Já sabia, por exemplo, que há dois tipos de jogos: os tranqüilos e os outros, aqueles em que se sofre, se ri, se fica nervoso, se dá pulos e se tem vontade de morder o próprio rabo. Brasil x Holanda foi um desses. O bom time holandês tocava a bola com inteligência, não desperdiçava passes e exibia craques como Frank de Boer, Davids e Bergkamp. Felizmente o esperto Overmars, contudido, não jogou. Mais felizmente ainda, Kluivert jogou.

 Kluivert urra depois de perder um gol

Acho que isso pede uma explicação: É que, já no primeiro tempo, Kluivert perdeu duas boas chances; e no segundo desperdiçou outras duas, uma deles incrível, livre diante de Taffarel.

Ronaldo fez nosso gol aos vinte segundos do segundo tempo, depois de uma boa enfiada de Rivaldo. Quando faltavam quatro minutos para o fim do jogo, pensei que não corríamos mais perigo e já me preparava para abanar o rabo de felicidade. Mas aí Kluivert resolveu acertar uma cabeçada. 1 a 1.

 Kluivert urra depois de fazer um gol

Na prorrogação, a Holanda, com a língua de fora, fechou-se lá atrás e nós tivemos nosso melhor momento em toda a Copa. A pressão foi constante e tivemos pelo menos quatro chances perdidas.

Vieram então os pênaltis e nessa hora valeu o treinamento: Ronaldo, Rivaldo, o capitão Dunga e até o reserva Émerson bateram com firmeza. Do outro lado, são Taffarel defendeu as cobranças de Cocu e Ronald de Boer.

Depois dessa classificação sofrida, os brasileiros fizeram um minicarnaval na Champs Elysées. Foi quando Cândido, parando diante de um pequeno palco improvisado, reconheceu dois amigos fazendo evoluções no meio de algumas passistas de escola de samba.

— Aqueles sujeitos já trabalharam no meu circo!

Um se chamava Gulliver e teria pouco mais que a minha altura, caso eu andasse em duas patas. O outro, magricela e com um turbante verde-amarelo, atendia pelo nome de Zé Cabala.

— E então, amigos, que fazem por aqui? — perguntou Cândido.

Zé Cabala falou: — As leis brasileiras não compreendem nosso ramo de atuação empresarial.

E Gulliver traduziu: — Estamos sendo procurados por curandeirismo e charlatanice.

Jesus e Madalena, sempre solícitos, perguntaram: — E onde vocês estão hospedados?

Gulliver e Zé Cabala foram dormir na área de serviço. Pior para mim, que tive de ser transferido para a pia da cozinha.

Às vezes a vida de cachorro é uma vida de cachorro.

Com dez humanos e um cão esbarrando-se a toda hora, era natural que todos preferissem passar a maior parte do tempo fora do apartamento. Nosso ponto de convivência passou a ser um bar em La Chapelle. Ali travamos longas discussões sobre futebol, regadas pelo bom vinho da casa. Mais curioso é que cada uma daquelas pessoas tinha uma história de Copa para contar. Eram histórias mirabolantes, espantosas e, digamos, incríveis.

Apesar do aperto, dos roncos, dos chutes, da falta de lençóis e de haver só um banheiro na casa, tudo se acalmava ao apagar das luzes. Nisso somos iguais: basta fechar os olhos e nossa imaginação nos leva para o melhor dos mundos. Naquela noite, com certeza, um mundo em que havia uma taça e faixas de campeão.

Jesus; Madalena e Mel; Frieira, Chulé e Minhoca; Victoire, Cândido, Gulliver, Zé Cabala e eu, Marcos Roberto. Esse foi o time que assistiu à final entre Brasil e França roendo unhas, limpando o suor do rosto e dizendo um bocado de palavrões cabeludos.

Como é do conhecimento geral, perdemos feio. A França deu um banho de disciplina, vontade e estratégia em nossa confusa seleção.

Esse jogo, aliás, foi precedido de muita tensão e histórias que só com o tempo serão explicadas. Primeiro divulgou-se uma escalação do time sem Ronaldo, depois outra com Ronaldo e depois o time não subiu ao gramado para fazer o aquecimento de rotina.

Por fim, Ronaldo jogou; quer dizer, entrou em campo.

Pela direita, Cafu estava emparedado por Petit e Lisarazu. Do outro lado, Rivaldo e Roberto Carlos nada conseguiam diante de Thuram e Deschamps. Sozinho no meio, Bebeto era presa fácil para Desailly e Le Boeuf.

Lá atrás, para piorar, Júnior Baiano dava calafrios na torcida e nosso capitão não mostrava a personalidade das partidas anteriores. Em vez do Dunga brigão e líder, mais parecia o dócil e mudo Dunga da Branca de Neve.

Mas o pior foi terminar o primeiro tempo já perdendo por 2 a 0, dois gols de Zinedine Zidane, de cabeça, após cobranças de escanteio em que Leonardo falhou na marcação.

Na segunda etapa, com Denílson e Edmundo, o Brasil tentou soltar os cachorros, mas o posicionamento dos franceses continuou perfeito. Desailly ainda foi expulso, porém, na maior parte do tempo, parecia que nós é que estávamos com dez. No fim, num contra-ataque veloz, o grande Petit selou o 3 a 0.

Saímos todos cabisbaixos do Stad de France e fomos afogar as mágoas num café do Quartier Latin.

O que aconteceu com Ronaldo? Por que ele jogou se não estava em condições? Por que Edmundo não começou como titular? Por que o time esteve tão apático? Eram perguntas que todos se faziam e que continuavam sem resposta.

De repente, senti um cheiro conhecido. Estiquei o pescoço, levantei as orelhas e olhei para a rua.

Sim, era Feijão! Ele vinha do estádio e andava sozinho, resmungando palavrões. Ao reconhecer meu latido, ele se virou, abriu um sorriso que até hoje não me sai da cabeça e disse:

— Marcos Roberto, onde você estava, seu cachorro?

— Au! — eu respondi.

— Procurei você por toda a cidade!

— Au! — eu comentei.

— Não faz mal — ele concluiu. — O importante é que estamos juntos de novo.

Feijão enturmou-se rapidamente com o grupo e, no momento em que reconheceu Madalena, sua quase-filha, ficou quase tão contente quanto ao me ver.

Já voltávamos para casa quando resolvemos dar uma parada no meio da Ponte Neuf, onde abrimos uma garrafa de vinho e fizemos uma espécie de brinde dos derrotados. Lá estavam um centenário senhor, dois ex-religiosos que encontraram o amor quando não mais esperavam, uma adorável senhora solitária, dois irmãos azarados e estranhos, um amoroso e diferente casal, um sujeito mais bondoso que inteligente e uma dupla de simpáticos picaretas, todos falando de vitórias, empates e derrotas, mas, na verdade, celebrando a alegria de terem se conhecido.

Nessa hora, o vento empurrou uma latinha de cerveja até os pés de Feijão. Ele a chutou na direção de Cândido, que passou para Victoire, que deu de chaleira para Chulé, que tocou para Mel, que fez duas embaixadas e mandou-a para Gulliver, que de cabeça passou para Frieira, que tropeçou na latinha. Não demorou muito e a brincadeira se transformou num jogo, com todos dando passes, dribles, chutes e risadas.

Se não fosse pela seleção e pelas copas, aquele curioso grupo nunca teria se encontrado, o que seria uma pena. Naquele momento pensei que, se é verdade que uma meia dúzia de tolos briga por causa do futebol, muito maior é o número dos que se tornam amigos por causa dele.

Foi então que, enquanto eles continuavam naquela festa, subi na mureta da Pont Neuf e, na minha língua particular, que vocês entendem como ganidos, latidos e rosnados, bradei para as estrelas:

— Futebol é bom pra cachorro!

Por Torero às 07h52

Sucinto comentário, mas nem por isso menos esclarecedor, sobre o monótono jogo entre Brasil e Argentina pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010

Zzzzzzz...

Por Torero às 07h49

18/06/2008

O cinema-carrossel de Robert Altman

Sabe a Laranja Mecânica? Não, não o filme do Kubrick, mas aquela seleção da Holanda de 1974, dirigida pelo Rinus Michels, em que ninguém guardava posição fixa? Pois bem, essa seleção foi uma coisa espetacular. Ver aqueles caras de camisa laranja correndo para lá e para cá; às vezes no ataque, às vezes na defesa; às vezes na direita, às vezes na esquerda, era sensacional.

Robert Altman fez a mesma coisa com o cinema. Em 1974, enquanto Rinus Michels dirigia a Laranja Mecânica de Cruyff, Neskeens, Haan e companhia, Altman dirigia Nashville, com uma seleção de atores em que estavam Karen Black, Keith Carradine, Geraldine Chaplin, Shelley Duvall, Lily Tomlin, Elliott Gould, etc...

Neste filme, Altman criou um novo jeito de contar histórias. Ele não contava apenas mais a vida de um personagem ou de um casal. Ele contava a história de vários personagens ao mesmo tempo, e, para deleite do espectador, estas histórias ainda se cruzavam várias vezes. Como na seleção holandesa, não havia um esquema rígido e visível. Os personagens não guardavam posições. Ora eram coadjuvantes, ora eram protagonistas (mais ou menos como na vida).

Mesmo em “Cerimônia de Casamento” (de 1978, com os zooms típicos da época), onde teoricamente há dois claros personagens principais, Altman conseguir desenhar seu mosaico, conseguiu traçar sua história em forma de rede de aranha.

Acho que em “Short Cuts” (1993) este esquema de alternância de linhas narrativas chegou ao seu ápice. A bola (digo, a história) ia de um jogador (digo, personagem) para outro de uma forma imprevisível, e desta vez as narrativas nem tinham um tema em comum como a música em “Nashville”. Mesmo assim, há uma tal coesão de tom que elas parecem se completar. Lembro que peguei este filme em vídeo e fiquei fazendo bolinhas e flechinhas numa folha de papel para entender todas as relações entre os personagens. No final, a folha ficou parecendo um quadro abstrato de pintor com delirius tremens.

No ano seguinte, em “Prêt-a-porter”, havia ainda mais histórias, e agora elas voltavam a estar unidas por um tema, o mundo da moda, que aqui é visto com o humor ácido que é uma das características mais saborosas de Altman, o mesmo humor que se vê em “Mash” e em “O Jogador”, dois dos cinco filmes em que Altman foi indicado ao Oscar de diretor (e nunca ganhou, erro que foi compensado por um Oscar especial pelo conjunto da obra).

Mesmo em Gosford Park (outro filme em que ele foi indicado ao Oscar de melhor diretor), onde temos uma história central (um assassinato), há um equilíbrio entre vários personagens.

Mas voltemos ao futebol. Em 1974, Rinus Michels, um professor de educação física que começou sua carreira comandando um time de crianças surdas, inventou o futebol total, o carrossel holandês. Era uma nova forma de jogar futebol.

Pena que, tirando uma ou outra cópia tímida, outros times não passaram a jogar assim.

Em 1975, Robert Altman, um ex-piloto de avião da segunda guerra mundial e, curiosamente, formado em matemática, criou o cinema total, o carrossel cinematográfico.

Pena que, tirando uma ou outra cópia tímida, outros diretores não passaram a filmar assim.

Por isso, não perca esta mostra no CCBB de São Paulo. Será o melhor jogo do ano.


18 de junho - quarta-feira

14h30 - O.C. & Stiggs (105')
17h - Dr. T and the Women (122')
19h30 - Kansas City (115')


19 de junho - quinta-feira

15h30 - Cookie's Fortune (118')
17h30 - 3 Women (119')
19h30 - Debate


20 de junho - sexta-feira

14h30 - Health (105')
17h - Fool for Love (103')
19h30 - Images (101')


21 de junho - sábado

13h - MASH (111')
14h30 - Secret Honor (90')
16h30 - California Split (106')
19h - Thieves Like Us (118')


22 de junho - domingo

13h - Secret Honor (90')
14h30 - Images (101')
16h30 - California Split (106')
19h - MASH (111')

Por Torero às 08h55

17/06/2008

Onde as cãs se encontram

Para ler o texto de hoje na Folha, sobre um jogo da quarta divisão e cabelos brancos, clique aqui.

Por Torero às 08h55

3 perguntas

Uma das formas de suborno branco que se faz em relação aos juízes é promover grandes congressos da classe. Assim, um banco pode ser o patrocinador de um grande congresso sobre direito civil, levando cinquenta juízes para um fim de semana num resort na Bahia. É claro que isso não é ilegal, mas obviamente os juízes verão as causas em que o banco está envolvido com olhos mais simpáticos ao banco.

Mudando de assunto, mas não muito, o presidente do TCU, Tribunal de Contas da União, Marcos Vinicios Vilaça foi o chefeda delegação brasileira no Paraguai. Agora, caros leitores, eu vos pergunto:

1-) Mesmo já tendo sido presidente do Náutico, o que um presidente do TCU faz chefiando uma delegação de futebol?

2-) A partir de agora, qual a moral do TCU para fiscalizar os gastos da Copa 2014? 

3-) O que significa probidade?

Por Torero às 08h48

16/06/2008

O principal evento esportivo do fim de semana

Foi um fim de semana bem agitado em termos esportivos:

-A seleção feminina de basquete venceu, dramaticamente, a seleção de Cuba, e conseguiu sua vaga para as Olimpíadas.

-O Lakers conseguiu vencer o Celtics por 103 a 98 e adiou a decisão da NBA.

-Na Eurocopa tivemos uma sensacional virada da Turquia sobre a República Tcheca.

-E o Brasil -ah, o Brasil...- perdeu para o Paraguai.

Mas o evento mais importante do fim de semana não foi nenhum destes. Pelo menos, não para os quatrocentos competidores que estavam no ginásio do Sesc, em Santos.

Para estes, entre eles, eu, o evento mais importante foi a Quinta Copa Virtua Games.

Eram quatrocentos sujeitos (não havia sequer uma mulher inscrita) de 7 a 53 anos, de dedos ágeis e abdômenes avantajados, dispostos a jogar Winning Eleven.
 
É a maior competição do Brasil em número de participantes. E é beneficente. O preço da inscrição é 3 kg de alimentos, o que significa a arrecadação de mais de uma tonelada.

Enquanto o Sesc não abria, conversei com o senhor Guilherme Cruz Dutra, de sete anos. Ele joga há dois anos, mas um decreto materno restringiu sua prática a duas horas diárias. Se bem que nos fins de semana ele consegue jogar a tarde inteira. Era o primeiro campeonato dele.

 O simpático Guilherme, momentos antes de entrar no gramado virtual.

Guilherme não sabia, mas dali a algumas horas, na repescagem, ele enfrentaria Pedro Henrique Serra, também de sete anos. Pedro Henrique ainda não sabe se será torcedor do Santos ou do São Paulo, mas no Winning Eleven (WE) joga com o São Paulo, o que dá uma boa pista sobre qual time ele vai escolher.

 Pedro, que foi trazido pelo pai. Ou vice-versa.

Pedro foi trazido pelo pai, Wilson, que também vai competir. Mas Wilson vem sem muitas esperanças de vitória. “Eu perco até dele”, diz Wilson apontando para Pedro.

Guilherme, Pedro e Wilson vêm para brincar. Mas há outros que chegam com uma ponta de esperança.

É o caso dos irmãos Jesse e Augusto, de 20 e 16 anos anos, corintiano e santista. Jesse joga há dez anos, desde o PlayStation 1. Para o campeonato, treinou duas horas por dia. Augusto, que geralmente ganha do irmão, já jogou de 4 a 5 horas por dia no seu período de febre winning-elevística. E acabou bombando a sexta série. Mas esclarece que foi um problema com um professor.

O campeonato é jogado só com seleções. E a cada rodada o jogador deve usar uma equipe diferente. Isso cria situações curiosas. Se você for um bom jogador, pode começar jogando com equipes ruins e guardar as boas para o final. Se for um jogador ruim, é melhor gastar logo as boas seleções, assim tem chance de ir um pouco mais longe. Eu, por exemplo, decidi começar com a Argentina.

 A arena de combate

Antes dos primeiros jogos, o coordenador do evento Francisco José Simões, 46, dá uma longa preleção sobre como o pessoal deve se portar. Nada de gritar no ouvido dos outros, não esquecer de assinar as súmulas, em caso de dúvidas consultar os fiscais, etc... Simões é um veterano em eventos desse tipo. Ele tem todos os aparelhos de jogos eletrônicos caseiros, desde o saudoso TeleJogo, e até já teve um programa sobre games na tevê.

 Os primeiros confrontos foram entre os petizes

À minha volta, enquanto espero ser chamado, vejo que os jogadores vestem muitas camisas de clubes. Sem esforço, vi uniformes de Portugal, França, Brasil, Inglaterra, Argentina, Santos, Palmeiras, Corinthians, São Paulo Barcelona, Milan, Chelsea e Manchester United.

 Cristiano Lucas Ronaldo

A camisa vermelha do Manchester é usada por Lucas Soeiro da Silva, 19. É o primeiro campeonato dele, que joga há cerca de 10 anos e ficava quatro horas em frente à tela nos seus tempos de febre. Hoje, mais comedido, joga apenas 1 hora duas vezes por semana. Lucas é um monoteísta. Só joga WE no PlayStation. E acha que o sucesso do jogo vem da qualidade gráfica, da jogabilidade e do realismo do jogo.

 O campeão do ano passado. Aqui, ainda com esperança pelo bi.

Por ali também está Diego Lima, 21, o campeão do ano passado. Ele joga há oito anos e nos seus tempos de febre chegou a praticar 6 horas por dia. Hoje em dia trabalha e joga só no final de semana. Os amigos em volta dele falam que ele teve sorte. Diego diz que teve mesmo. Empatou a final por 2 a 2 e acabou ganhando nos pênaltis.

Para este ano, o favorito é José Olivério, 21, o Capello. O apelido veio por conta do técnico italiano Fabio Capello. É que certa vez teve que preencher uma ficha com um nome fictício e escolhe este. O novo nome acabou pegando e Olivério virou Capello.
Ele é um profissional do WE. Joga há 8 anos. Há 6, joga a sério.

 Capello, o matador.

Capello já ganhou mais de cinquenta competições. Até largou o emprego numa loja de shopping para virar jogador profissional. Seu salário era de R$ 700. Hoje em dia tira uns 3 mil por mês com os prêmios. Para isso, participa de campeonatos em todos os finais de semana.

Ele está cursando a faculdade de administração e vem pagando seu carro, um Uno, com o dinheiro que ganha com o WE. Os amigos dizem que, no Brasil, só o Cavaco, mítico campeão que joga numa cadeira de rodas, é melhor do que ele.

Peço algumas dicas de última hora a Capello. Ele diz que tem que ser frio. E vibrar quando se faz um gol é bom para tirar a concentração do adversário. Mas avisa que no Virtua Games isso não pega bem. Esse é um campeonato mais familiar.

 Lélio, o rival do primeiro match.

Finalmente sou chamado para meu primeiro jogo. Nas primeiras rodadas tenta-se montar jogos com jogadores mais ou menos da mesma idade. Assim pego Lélio de Azevedo, 42. Ele começou jogando com os filhos há um ano e meio. Eles pararam. Ele, não. Para treinar para este campeonato, Lélio passou a jogar duas horas por dia. Na verdade, é um apaixonado por futebol. E em qualquer linguagem. Na infância, jogava botão. E praticava o esporte bretão com afinco até machucar os dois joelhos. Sobrou o Winning Eleven.

Nosso jogo é bem parelho, mas, num tosco chuveirinho, Crespo faz 1 a 0 para a minha Argentina. No sábado, os jogos são de apenas 5 minutos. Então, tal qual um Milton Buzzeto, eu começo a cozinhar o jogo, a jogar na defesa. E bato bem. Tanto que tenho um jogador expulso. No último segundo, ele cabeceia uma bola rente à trave, mas acabo vencendo. Ele vai para a repescagem, eu passo para a segunda fase. Joguei pior, confesso, mas, como disse Lao Tsé (não o filósofo, mas o cozinheiro chinês do restaurante perto de casa): “O placar nunca mente.”

 Bezerra, o veterano.

Enquanto espero pelo próximo jogo, conheço Bezerra da Silva. Não aquele, mas outro: João Bezerra da Silva, 53, motorista de ônibus, o jogador mais velho do torneio. Ele veio lá de Cubatão com dois filhos e dois sobrinhos. Bezerra já ganhou algumas competições em seu bairro e certa vez jogou 18 horas seguidas com uns amigos. Mas levou o campeonato. Sua mulher de vez em quando reclama de seu excesso de empenho no WE, mas ele argumenta que não bebe e não fuma, e que o jogo descansa a mente.

Bezerra passou para o segundo dia. Já eu perdi meu segundo jogo e fui para a repescagem da segunda fase. Agora, quem perde cai fora.

Meu adversário é justamente um amigo dos tempos de colegial: Pedro Venchiarutti.

Eu e ele fazíamos uma bela dupla no futebol-com-bola-de-papel  jogado nos intervalos das aulas. Modéstia à parte, éramos quase imbatíveis. Nossa dupla tinha até nome: “Torpedro”. Já naquele tempo eu fazia trocadilhos infames. 

Pedro vem treinando muito para o campeonato. Fora as 3 horas por dia, às quartas-feiras junta alguns amigos, três televisores (uma para ver o jogo do Brasileiro), e eles jogam das 19h até o começo da madrugada. Na última quarta, até às 6h. A mulher também reclama. Pedro argumenta dizendo que “É melhor jogar em casa que fora de casa.”

Ele vai com a Espanha, eu, com a Inglaterra. Quanto ao jogo, não vou descrevê-lo aqui. Fiquemos com a análise fria e exata dos números: Espanha, um chute a gol. Inglaterra: onze. Onze! Porém, no placar, 1 a 0 para a Espanha. Como disse Lao Tsé: “O placar nunca mente”. Mas, cá entre nós, raramente diz a verdade.

Bem, o pequeno Guilherme perdeu para o pequeno Pedro, mas Pedro não pôde voltar para o jogo seguinte porque tinha uma festinha.

O veterano Bezerra passou para o segundo dia, mas foi eliminado logo na primeira partida.

Diego Lima, o campeão do ano passado, encontrou alguém com mais sorte e levou uma goleada de sete gols. Mas saiu de bom humor e reconheceu que o adversário era melhor.

Capello, o favorito, tropeçou nas quartas-de-finais. Ele pegou pela frente um amador chamado Thiago Graça, que vestia uma camisa argentina do Messi. Tomou um gol no começo, foi para cima em busca do empate e levou o segundo gol. Sim, o Winning Eleven também é uma caixinha de surpresas.

Thiago Graça, o-homem-que-venceu-Capello, chegou até a final, onde enfrentou Djalma Ferreira, um adolescente meio gordinho, com cabelo estranho (meio moicano, mas nem tanto).

Como Thiago já havia gasto seus melhores times, teve que jogar com a seleção de Camarões. Djalma, economizou e na final pode usar a Holanda. Não demorou muito para fazer um a zero e aí soube cozinhar Thiago até o fim.

Djalma, 16, é um futuro profissional do WE. Já havia sido quatro vezes vice de Capello e este foi seu primeiro campeonato.

Na comemoração, os amigos tiram sarro dele, dizendo “Esse joga o dia todo, nem tem namorada!”

Djalma diz que é isso mesmo: “O Winning Eleven é a minha vida. Minha mulher é Cristiano Ronaldo.” 

Por Torero às 14h37

Uma frase sobre a rodada do Brasileiro

O Fluminense continuou só pensando na Libertadores e empatou em casa com o...

Santos, que parece estar começando a se reerguer, mas ainda está na zona de rebaixamento, em 17º. Lugar, logo à frente do...

Ipatinga, que tem o pior ataque do Campeonato e perdeu para o...

Atlético-MG por 4 a 2, o que fez o alvinegro mineiro pular para a sétima colocação na tabela, situação que pode melhorar ainda mais se o Galo vencer na próxima rodada o...

Náutico, que se manteve no grupo que classifica para a Libertadores apesar de, em casa, só ter empatado com o...

Vasco, time que tem duas vitórias, dois empates e duas derrotas assim como o...

Vitória, que no sábado ficou num chocho 0x0 contra o...

Coritiba, time do técnico Dorival Júnior, sobrinho de Dudu, grande ídolo do...

Palmeiras, que passou a ter status de favorito ao golear o...

Cruzeiro por 5 a 2, acabando com a invencibilidade do time mineiro, que era um dos últimos invictos, ao lado do...

Flamengo, que perdeu por 4 a 2, em pleno Maracanã, para o...

São Paulo, que pulou para a sexta posição e na próxima semana enfrenta o...

Sport, que sofreu o efeito endorfina depois da conquista da Copa do Brasil, deu uma compreensível relaxada, e perdeu por 3 a 1 para o...

Figueirense, time que possui a pior defesa do campeonato, sendo seguido pela...

Portuguesa, que superou, com um gol no primeiro minuto de jogo, ao...

Atlético Paranaense, que, mesmo com a derrota está em oitavo lugar, mas a tabela ficou tão embolada nesta parte que ele está apenas um ponto à frente do 14º. colocado, o...

Internacional, que, agora dirigido por Tite, voltou a vencer, marcando 2 a 1 no...

Botafogo, em Porto Alegre, cidade também do...

Grêmio, que agora tem o mesmo número de pontos dos líderes da competição por vencer por 3 a 0 ao...

Goiás, que não perdia para os gaúchos há doze anos no Serra Dourada, e que com este resultado foi para a vice-lanterna do campeonato, à frente apenas do...

Fluminense.

Por Torero às 09h49

13/06/2008

Toreroteca

E hoje teremos uma Toreroteca internacional.

Conforme as sugestões dos leitores, os jogos desta semana serão da Eurocopa (mais o do Brasil, é claro).

Vamos às partidas:

Paraguai x Brasil

Portugal x Suíça

Turquia x Rep. Tcheca

Áustria x Alemanha

França x Itália

Grécia x Espanha.

Eu fico com Brasil, Portugal, empate, Alemanha, Itália e Espanha.

Por Torero às 10h15

12/06/2008

Cliff Reciff x Tim Timão: o duelo final

Foi um belo duelo. O Saloon Lost Island estava cheio. Homens de negro e vermelho lotavam as cadeiras.

Cliff Reciff e Tim Timão iriam decidir quem era o melhor. Um autêntico mata-mata. Um dos dois sairia empapado em suor e lágrimas de alegria. O outro, em sangue e lágrimas de tristeza.

O começo do duelo foi muito rápido. Os dois saltavam de um lado para o outro do saloon com incrível rapidez, como se estivessem num disco de 78 rotações.

Mas ninguém acertava tiros no adversário. Nem de raspão. Então Cliff Reciff teve coragem de jogar fora uma de suas armas, pegou uma ainda mais velha, um colt Enílton (Cliff Reciff tem uma bela coleção de armas antigas, ou melhor, experientes), e as coisas mudaram.

Uma Bala Carlinhos acertou Tim Timão logo depois. Tim ficou ferido e, antes que conseguisse se levantar, levou o segundo tiro. Um tiro estranho, daquele que ricocheteia, passa por vãos inesperados e só vai parar na carne do inimigo.

Era tudo o que Cliff Reciff precisava.

Daí em diante, Tim até deu mais tiros que Cliff, mas naquela noite apenas o sangue do herói alvinegro iria manchar as madeiras carcomidas do piso do saloon.

Assim foi até o final. Tim até tentou, mas não tinha cabeça e armas para reagir. E quando o judge apitou o fim do duelo, Cliff ergueu os braços e comemorou esta sua segunda vitória nacional, 21 anos depois da primeira.

Os velhos revólveres de Cliff, soltando fumaça pelos canos, mostraram que ainda têm muita bala para gastar.

 

 

Por Torero às 07h23

1994 - Espíritos esportivos

 

Não foi muito fácil o começo de nossa vida na América.

Na verdade, foi bem difícil.

O primeiro emprego que conseguimos foi com a máfia hondurenha. Tentamos fazer o papel de pistoleiros, mas os devedores, em vez de ficarem com medo, riam ao ver um anão e um magricela fazendo-lhes ameaças. Como não conseguimos matar ninguém de rir, fomos despedidos.

Depois entramos pelo cano. E literalmente, pois viramos encanadores. Mas isso só durou até o dia em que, mexendo no encanamento de um aquário, mandamos todos os peixes pela tubulação.

Tentamos também ser entregadores de pizza (logo descobriram que comíamos as azeitonas) e, por um breve tempo, trabalhamos como profissionais ligados ao, digamos, entretenimento adulto para senhoras solitárias. Achávamos que nossos tipos físicos poderiam ser uma interessante atração. Não ficamos ricos, mas conseguimos juntar algum dinheiro para comprar um carrinho de cachorro-quente.

Para chamar a atenção dos fregueses, Zé Cabala continuava usando seu turbante verde-amarelo. Nosso slogan era “A salsicha é comprida como um e o preço é baixo como o outro”.

Fazíamos um razoável sucesso na cidade em que vivíamos, Los Gatos, e éramos conhecidos como “Tall & Small”. Num dos lados do carrinho havia o desenho de um pastor alemão. No outro, o de um pequinês.

Foi uma surpresa saber que a Copa de 94 seria disputada nos Estados Unidos. Ainda mais quando descobrimos que a delegação brasileira ficaria hospedada justamente na nossa cidade. Achávamos que aquilo iria trazer muitos turistas e que Tall & Small venderiam muitos cachorros-quentes.

A seleção que desembarcou em Los Gatos era formada por figurinhas carimbadas: Taffarel; Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Leonardo; Mauro Silva, Dunga, Raí e Zinho; Bebeto e Romário. No banco, um treinador um tanto cauteloso: Carlos Alberto Parreira.

Como queríamos ver os jogos, eu e Zé Cabala fomos vender cachorro-quente na entrada do Stanford Stadium. Conseguimos unir o lucro ao agradável.

O Brasil deu a largada numa partida contra a Rússia, uma seleção sem valores individuais, sem força de conjunto e sem sorte. Jogamos pouco, mas o suficiente para fazer 2 a 0 com Romário e Raí, de pênalti.

Nesse jogo interessou-se por minhas salsichas uma robusta russa de nome Ekaterina. Ela era mecânica e me convidou para conhecer sua oficina. Depois, já no chuveiro, enquanto eu ensaboava suas pernas, Ekaterina me contou que o primeiro homem de sua vida havia sido um brasileiro chamado Minhoca.

Ao nos despedirmos, ela falou: — Adeus, meu gigante.

Ao que respondi: — Até um dia, minha pequena.

No jogo seguinte, contra Camarões, lá estávamos com nossos rotidóguis. Os leões não formavam um mau time, mas os principais jogadores já estavam um tanto passados e lembravam mais o velho leão desdentado do Circo Grushenko. Passeamos em campo e fizemos 3 a 0 com Romário, Márcio Santos e Bebeto.

 Romário, o pequeno grande atacante

Por coincidência, no intervalo da partida vendemos sanduíches para um casal brasileiro: ela, uma loira esplêndida, chamava-se Victoire, e ele Minhoca.

— Então o senhor é o Minhoca? — perguntei.

— Doutor Minhoca, ginecologista.

— Foi o senhor que namorou com uma russa chamada Ekaterina?

— A mecânica? Não.

Nessa hora sua mulher fuzilou-o com os olhos e começou a gritar, com seu pomo-de-adão subindo e descendo nervosamente: — Minhoca, seu verme, que russa é essa? Homem é tudo igual mesmo!

Depois de dizer isso ela deu-lhe tantas e tão potentes bofetadas que o pobre não teve escolha a não ser sair correndo pelas arquibancadas.

Para ver o jogo seguinte, contra a Suécia, pedimos emprestado o Lada de Ekaterina e fomos para Detroit.

 Já houve carro melhor que o Lada? Sim, muitos. Na verdade, quase todos.

Ao rever minha robusta russa, fiquei pensando se eu poderia ser um homem à sua altura. Aquilo preocupava-me de tal maneira que durante a viagem perguntei a Zé Cabala:

— Será que vai dar certo?

— Não sei não... — ele respondeu.

— Você acha que falta entrosamento?

— Não, entrosamento até que tem.

— Então falta o quê?

— Penetração.

— Como você ficou sabendo?

— Tá na cara.

Virei o retrovisor e fiquei olhando meu rosto. Como não vi nada que me denunciasse, insisti: — Como assim, tá na cara?

— É só olhar e ver. O Jorginho está sem arranque para o apoio, o Raí anda sentindo o peso da camisa e o Zinho só toca para o lado.

Suspirei aliviado e achei melhor ficar em silêncio até chegarmos ao Silverdrome.

A Suécia era mais ou menos o mesmo time de 1990, se bem que com mais experiência. Ainda não tinham habilidade, mas a disciplina tática e o sistema de marcação eram quase perfeitos. Meio sem querer, o gigante Anderson abriu a contagem dando um toque por cima de Taffarel. O Brasil empatou, mas só depois de muito insistir e numa jogada individual de Romário.

Esse empate deixou todo mundo preocupado. Uma das coisas que se pedia era a saída de Mauro Silva. Afinal, Dunga segurava as pontas na marcação e alguém como Mazinho daria maior qualidade à saída de bola.

Parreira atendeu a torcida, mas em parte. Mazinho entrou no time, só que no lugar de Raí. Com isso ficamos com três volantes. Mazinho sentiu-se perdido na meia-direita e chegou a errar jogadas incríveis por falta de traquejo. Já o Zinho, que não vinha bem, ganhou a responsabilidade de armar sozinho as jogadas de ataque.

 Bebeto, cara de garoto chorão mas futebol, de gente grande.

De volta a Los Gatos, vendíamos nossos cachorros-quentes quando um sujeito magro e com cara de garoto chorão aproximou-se do carrinho. Ele ficou nos observando por algum tempo sem dizer nada até que, de repente, abriu um sorriso:

— Lembrei, é o professor Zé Cabala!

— Ao seu dispor — respondeu meu amigo. — Mostarda e quetichúpi?

— Eu sou o Bebeto, o senhor esqueceu?

— Bebeto! Como vai?

— Bem, obrigado. E você é o... Como é mesmo...? King Kong? Adamastor? Ultra Seven?

— Gulliver — esclareci.

— Isso, eu sabia que era o nome de um gigante. Mas diz aí, o mestre ainda dá aqueles conselhos do outro mundo?

Aquelas palavras deram-me uma inspirada idéia. Antes que meu amigo dissesse qualquer coisa, adiantei-me e respondi por ele: — Os conselhos do outro mundo agora são realmente do outro mundo.

— Como assim?

— É que o grande sábio agora recebe espíritos de grandes craques do passado.

Quando parou de rir, Bebeto falou: — Preciso ver esse negócio.

— Só que nós cobramos uma taxa.

Então finalmente o guru dos gurus entendeu meu plano e emendou: — É o Imposto sobre Circulação de Almas, o ICA.

— São fífiti dólares — completei.

Bebeto pagou, recuou um passo e ficou à espera da incorporação.

Então Zé Cabala colocou o dinheiro sob o turbante e disse: — Afastem-se, preciso de espaço.

Aí fechou os olhos, estendeu as mãos para a frente, sacudiu a cabeça como se estivesse levando choques e começou a emitir uns sons esquisitos: Ew... Pzzz... Bliu-bliu... Nhóóó... Por fim, falou com uma voz engrolada: — Salve!

— Quem é você, espírito? — perguntou Bebeto.

— Sou o Pagão.

— Péssimo nome para um espírito — comentei.

— Aquele centroavante do Santos? — perguntou Bebeto.

— Esse mesmo. E quero lhe dar um conselho.

— Dar não, que eu estou pagando.

Zé Cabala fez que não ouviu o gracejo e continuou: — Sua perna é um taco de bilhar. Não se afobe e você conseguirá pôr a bola na caçapa.

Bebeto saiu dali contente, talvez por ter achado aquilo divertido, talvez por ter achado um bom sinal.

 O conselheiro de Bebeto

Quando o atacante já estava longe, perguntei ao meu sócio que conversa era aquela de taco de bilhar. Ele respondeu: — Foi o jeito que eu arranjei de chamar o Bebeto de perna-de-pau.

Rimos muito e, no dia seguinte, estávamos no estádio para vender nossos rotidóguis durante o jogo entre Brasil e EUA.

Por uma grande coincidência, o Brasil ganhou com um gol de Bebeto. Romário recuou para o meio, dominou a bola, driblou os americanos e lançou. Bebeto adiantou-se a Lalas e deu um toque de precisão cirúrgica, com a bola passando no único vãozinho possível entre o braço do goleiro Meola e as redes.

— Uma tacada de bilhar — eu disse.

— Um golpe de sorte — Zé Cabala rebateu.

O jogo seguinte seria uma pedreira: a Holanda. Não era nem de longe a Laranja Mecânica de 1974, mas ainda assim um time respeitável com Koemann, Rijkaard, Overmars e Bergkamp.

Como Bebeto havia comentado sobre a previsão de Zé Cabala com os outros jogadores, um dia antes da partida o lateral esquerdo Branco veio até nós: — Gostaria de falar com o mestre.

 Branco.

— Agora ele está em meditação — respondi com ar de enfado.

Branco olhou por cima do meu ombro, o que não é difícil, e viu o que o grande vidente estava fazendo:

— Ele medita vendo as salsichas cozinharem?

— A água fervendo representa a mudança do estado líquido para o estado gasoso, do estado material para o estado imaterial.

— E as salsichas?

— Meditar dá muita fome.

Depois que Branco pagou o ICA, que então já estava em duzentos dólares, Zé Cabala deu uns giros e fez uns grunhidos como “Bum, bucabum, bumbum!”

 O mentor de Branco.

Fiz as honras da casa: — Seja bem-vinda, alma do além, qual era o seu nome nos tempos em que andava entre os vivos?

— Perácio era como me chamavam.

Branco mostrou seus conhecimentos: — Sei, aquele meia do Botafogo nos anos trinta, um que tinha um chute violentíssimo.

— Exatamente, meu rapaz. E, para amanhã, este é o conselho que lhe dou: use a força dessa sua canhota. Quando tiver chance: bum, bucabum, bumbum! Dê uma paulada na bola que eu a guiarei até o gol.

Branco saiu dali agradecido, mas não a ponto de comprar um cachorro-quente.

No dia seguinte ganhamos de 3 a 2. Saímos na frente com Bebeto e Romário, mas sofremos o empate em duas bobeadas da zaga. Porém, no final, Branco bateu uma falta. A bola descreveu uma curva inacreditável e, bum, bucabum, bumbum, morreu no canto direito do goleiro.

Estávamos na semifinal, a dois passos do tetra, e o inimigo agora era a Suécia, o único time que ainda não havíamos vencido.

No dia do jogo, uma Mercedes parou em frente ao nosso carrinho e dali saiu um sujeito pouco maior que eu, moreno e que falava com língua presa:

— Aí, qual de vocês é o Sé Cabala?

— Sé não, Zé! — corrigi.

— Então, que que eu falei, pô? Sé Cabala!

Zé se adiantou e disse: — Eu sou o Sé, meu amigo. Em que posso ajudá-lo?

— Seguinte, ó: tá rolando uma conversa na concentração: que o senhor faz aí... tipo bruxaria, tá ligado? Então eu queria... Pô, manda uma pra mim aí, valeu? Ré-ré.

— O mestre terá prazer em atendê-lo, senhor Romário, mas a incorporação custa quatrocentos dólares.

— Beleza, ré-ré, eu trouxe uns trocados.

 O guia de Romário

Então Zé Cabala começou a fazer seus salamaleques: sacudiu muito a cabeça, deu-se uns tapas, puxou as orelhas e afundou o turbante até os olhos. Depois disse com voz grave:

— Romário, aqui quem fala é Baltazar, o Cabecinha de Ouro.

— Apelidão maneiro, ó. Ré-ré.

— Vim aqui para te dizer uma coisa...

— E eu para escutar, mané. Empatou, ré-ré.

— As girafas são altas, mas são os pequenos pássaros que alcançam as nuvens.

— Aí, não entendi nada, ó.

— Quis dizer que os zagueiros suecos são grandalhões, mas você pode pular mais que eles.

— Ah, é isso? Por que não falou antes, pô?

No jogo, o Brasil parecia que não ia conseguir nada até os 35 minutos do segundo tempo, quando Romário, com seus imponentes 1,68 metros, marcou de cabeça, subindo mais que os corpulentos zagueiros vikings.

Aí chegamos à final. O adversário não foi nem a Argentina nem a Alemanha, e sim a Itália do grande Roberto Baggio.

Zé Cabala e eu conversávamos o tempo todo sobre qual jogador nos procuraria dessa vez. Ele achava que seria Zinho e eu que seria o Raí. Mas, para nossa surpresa, quem apareceu foi o goleiro Taffarel. Ele foi logo perguntando quanto custaria para Zé Cabala incorporar um jogador que lhe desse conselhos. Para minha surpresa, o sanduicheiro vidente respondeu:

— Nada, meu caro. Fazemos isso por amor à seleção e não por dinheiro.

Fiquei boquiaberto, sem entender nada.

Então Zé Cabala, o perseguidor da verdade, o iluminador de trevas, o telefonista das almas, deu muitos giros, duas cambalhotas, três estrelas, parou repentinamente e disse:

— Cheguei e baixei!

— Quem é você? — perguntou Taffarel.

 O conselheiro de Taffarel

— Sou o Castilho do Fluminense — disse Zé Cabala com uma voz rouca.

— Aquele goleiro que num só jogo levou cinco bolas nas traves?

— Justamente.

— Aquele que defendeu seis pênaltis num só ano?

— Exato.

— Aquele que...

— Chega, meu jovem, vamos ao que interessa.

— Certo, certo... Diga-me: qual o segredo para que eu seja campeão amanhã?

— Sorte.

— Só isso?

— Não. Você também precisa ter agilidade, bons reflexos, senso de colocação, elasticidade e velocidade. Mas um pouco de sorte nunca é demais.

— E o que faço para ter essa sorte?

— Doe seiscentos e sessenta e seis dólares a esses dois senhores.

— 666? É um número cabalístico?

— Não, é o que falta para eles comprarem duas passagens para o Brasil.

Taffarel achou aquilo estranho, mas preferiu não arriscar e deu-nos o dinheiro.

No dia seguinte fomos os primeiros a chegar ao Rose Bowl. A Itália até tentou sair para o jogo, mas sempre com muito cuidado e extrema atenção com Bebeto e Romário. De resto, o Brasil sempre foi melhor: no preparo físico e na qualidade técnica. Só faltou pontaria.

Tarde, muito tarde, no segundo tempo da prorrogação, Parreira colocou Raí e Viola em campo. O time cresceu, sufocou a Itália e criou oportunidades; porém, o gol não saiu. Pela primeira vez uma decisão de mundial terminava em 0 a 0.

Antes de começar a decisão por pênaltis, vi que meu amigo roía as unhas.

— Quem você acha que vai ganhar, Zé?

— Quem sou eu para adivinhar o futuro...

— Você é Zé Cabala.

— E daí? Você se chama Gulliver e é anão.

Então vieram as cobranças:

Baresi mandou por cima, Pagliuca pegou o chute de Márcio Santos: 0 a 0.

Albertini marcou para a Itália, Romário igualou: 1 a 1.

Evani e Branco fizeram os deles: 2 a 2.

Aí foi a vez de Massaro: ele bateu à meia altura no canto direito, mas Taffarel voou e espalmou para o lado. O capitão Dunga não perdoou: 3 a 2 para o Brasil.

 Era dele e ele foi.

Faltava um chute para cada lado. A Itália precisava fazer o seu para empatar, mas, para a sorte de Taffarel e do Brasil, o craque Roberto Baggio pegou forte demais, fazendo a bola passar por cima do travessão. Bebeto nem precisou bater o último pênalti.

Comemoramos muito e no dia seguinte vendemos nosso carrinho de cachorro-quente, nossa mobília e nossos pôsteres da Dolly Parton.

Com lágrimas me despedi de Ekaterina, e seu último abraço quase me trincou uma costela. Não ia dar certo mesmo...

Compramos as passagens para o Brasil e fizemos uma excelente viagem. Tudo teria sido perfeito se não tivéssemos sido parados na alfândega. Enquanto jogadores e dirigentes passaram sem declarar nada, nós fomos presos. Os cachorros da polícia federal pularam em nossas malas e as fizeram em pedacinhos. Mas não tínhamos nenhuma droga na bagagem. Só umas salsichas.

Por Torero às 07h20

11/06/2008

Coelho escapa da extinção

Há coisa de três meses escrevi um texto sobre os micos-leões-dourados do futebol, ou seja, clubes que pareciam estar em perigo de extinção. E incluí o América-MG. Havia algumas razões para isso. O time havia sido  último colocado no Campeonato Mineiro de 2007 e estava apenas na quarta posição do Módulo II. Mas eis que o Coelho reagiu e acabou vencendo com sobras o Mineiro-B. E alguns leitores americanos me escreveram a fim de me lembrar disso.

POis bem, assim como o próprio mico-leão-dourado, parece que realmente o América saiu da zona de perigo de extinção. Para isso mesclou jogadores experientes como Euller (37 anos) e o bom goleiro Flávio (38), com jovens promissores, tais como Douglas e Thiago Silva (quantos Thiagos e Tiagos haverá hoje no futebol?).

O técnico foi Alemão, aquele volante da seleção, do Napoli e do Botafogo (em 2006 ele também participou da campanha de acesso do Tupi, mas como gerente de futebol).

Tomara que a caminhada americana não tenha outros tropeços.

Vida longa ao América!

PS: Clique aqui para ver um curioso pênalti batido por Euller pelo América.

Por Torero às 14h48

Euromania

Para quem esta acompanhando a Eurocopa, um blog simpático é o Euromania, de dois estudantes do quarto ano de Jornalismo da ECA-USP, o santista Charles Nisz e o tricolor Renato Sanchez.

Por Torero às 07h53

10/06/2008

O Saci dá pé

Para ler o texto de hoje, sobre o Saci e a Copa do Mundo de 2014, clique aqui.

E diga se apóia, não, ou tem outra sugestão de mascote. 

Por Torero às 08h00

09/06/2008

Quinze minutos

Você já deve ter ouvido a expressão: “Me deu uns cinco minutos e aí...”

A frase pode ser completada de várias maneiras, como: “e aí eu pedi demissão”, “e aí eu apostei todo o fundo de garantia no Burro”, ou “e aí eu botei o vagabundo para fora de casa”.

No futebol também acontecem esses cinco minutos. Mas em geral são quinze. E eles podem vir para o bem ou para o mal.

Há times que inexplicavelmente se perdem durante quinze minutos de jogo e aí tomam gols que decidem a partida. Pode ser desatenção de começo de jogo, cansaço de fim de partida, preguiça repentina, soberba após a marcação de um gol, etc... Mas o fato é que às vezes nossos times têm um branco. E então as coisas ficam pretas.

O contrário também acontece. Você já deve ter visto isso. De repente, é como se seu time tivesse ligado o turbo. Ou o Nitro. O time parece que corre mais, troca passes com tanta rapidez e inteligência que nem parece o mesmo, e marca gols com a naturalidade de quem cutuca um bicho-de-pé.

O Flamengo, por exemplo, teve estes quinze minutos no final do primeiro tempo contra o Figueirense. Ele já estava ganhando por um a zero, mas aí, aos 36’, 39’ e 44’ do primeiro tempo, fez os três gols que sacramentaram a vitória e acabariam por colocar o rubronegro na liderança do campeonato. E foram 15 minutos especiais para Marcinho, que participou dos três lances.

O São Paulo também teve seus quinze minutos de glória e perfeição. E logo no começo do jogo contra o Atlético-MG. Na verdade, no caso do Tricolor, os quinze minutos nem foram quinze, mas sete.

Aos 8’ Hernanes acertou um daqueles chutes em que só resta ao goleiro rezar para que a bola não entre. Mas seu pedido não foi aceito e o São Paulo desvirginou o placar. E aos 12’ e aos 15’ Borges deixou dois companheiros na cara do gol (Joílson e André Dias), encerrando a partida. É claro que ainda restavam 75 minutos, mas depois deste começo o torcedor só precisava comer amendoins e degustar a vitória.

A Portuguesa quase sempre tem os quinze minutos de azar, quando acontecem gols contra, desatenções, falhas de juiz, etc... Mas ontem teve quinze minutos de gala, e virou o jogo sobre o poderoso Internacional.

No caso, os quinze minutos foram vinte e se deram logo depois do intervalo (como se vê, os quinze minutos não têm momento certo para acontecer). O técnico Wagner Benazzi e seus jogadores foram para os vestiários ouvindo palavrões com sotaque lusitano, mas logo no primeiro minuto do segundo tempo empataram a partida. Dez minutos depois viria a virada e com mais nove a pá de cal sobre os colorados.

Outro que teve seus quinze minutos de céu foi o Atlético Paranaense, que não vencia há três rodadas. Ou, no caso, talvez tenha sido o Goiás que teve seus quinze minutos de inferno.

Aconteceu no meio do segundo tempo. A bem da verdade, a partida já estava decidida, mas não era ainda uma goleada daquelas que quem leva e quem faz nem consegue dormir de noite. Porém, aos 19, aos 31 e aos 35, o Goiás, que parecia estar tirando uma soneca, levou três gols. Um deles foi bisonho. O volante Amaral pensou que o jogo estava parado e meteu a mão na bola dentro da área. Durante uns quinze dias Amaral ouvirá gozações dos amigos e dos inimigos por esse lance.

Estes quinze minutos são raros e decisivos. Mas eles não existem só nos gramados. Também na vida comum acontecem os quinze minutos em que se perde a cabeça ou se faz algo que parecia impossível. Aliás, muita gente nasceu assim.


Por Torero às 09h15

Resultado da Toreroteca

Como não tivemos nenhum empate entre os seis jogos da Toreroteca, e, principalmente, como o Palmeiras perdeu, ninguém acertou todos os jogos desta vez.

A maioria dos leitores, e eu também, apostou no campeão paulista contra os reservas do Sport, mas a Ilha do Retiro é mais forte do que se pensa. É a Ilha de Lost para os visitantes. Lá, parece que todo adversário fica meio perdido, sem se achar em campo, ninguém sabe onde está. E há quem diga que há forças sobrenaturais por lá. Já ouvi dizer que a grama agarra as chuteiras dos adversários. O Corinthians que se cuide.

Por Torero às 09h13

08/06/2008

Sempre aos domingos

Sempre aos domingos

Para não esquecer, conte até oito (Por MARCIO R. CASTRO)

A taça da bolinhas ainda não encontrou o seu destino, em mais uma polêmica do futebol brasileiro. Afinal, qual é o primeiro clube a ser 5 vezes campeão brasileiro de futebol, Flamengo ou São Paulo?

Pois é, nenhum dos dois. Polêmica por polêmica, vamos resgatar uma que valha a pena, quase cinqüentenária, numa boa idade para ser levada a sério. Afinal, porque considerar como título brasileiro apenas as conquistas de 1971 em diante, se já existia, de fato, uma competição nacional desde 1959, criada justamente para dar tal representatividade ao campeão?

A Taça Brasil (1959 a 1968) e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1967 a 1970) foram campeonatos equivalentes ao Brasileirão. Não “embriões” ou “laboratórios”, mas disputas de mesmo peso e valor. Muitos torcem o nariz para a idéia. Desconfio que o motivo principal para essa rejeição seja a falta de conhecimento geral quanto às duas competições.

E isso se deve graças à CBF, a própria criadora e organizadora dos torneios. É algo de um absurdo inalcançável que a entidade que deveria salvaguardar as tradições do futebol brasileiro simplesmente tenha se esquecido dos dois campeonatos. Um mistério. E repito: foram competições criadas, estimuladas e organizadas pela própria CBF, ainda como CBD, com o fim específico de eleger um campeão brasileiro de futebol. Talvez seja o exemplo esportivo mais emblemático da propagada falta de memória (e respeito, e justiça, e história...) de nosso país. É vergonhoso.

Essa inexplicável amnésia também acomete a mídia esportiva, que não faz o que era de se esperar de “especialistas” do assunto: informar, relembrar, não nos deixar esquecer. Se o órgão oficial é inepto e não preza pela memória do esporte, que tal se posicionar de forma independente sobre o assunto? São jornalistas ou assessores de imprensa?

É a falta de familiaridade com a história do nosso futebol que faz com que o torcedor desconfie de quem insiste em lembrar da existência do que de fato existiu. É como se quisessem “roubar”, ganhar no tapetão. Ironicamente, o que acontece é o exato oposto disso, só que os roubados somos todos nós.

Se a CBF nunca se pronunciou sobre os motivos do esquecimento, pelo menos alguns desprezam a Taça Brasil e o Robertão baseados em argumentos. Vamos a eles, e aos devidos contrapontos.

A CBF não os oficializa como tal, então não são títulos de campeão brasileiro, ponto final. Essa posição é defendida por muitos jornalistas. São os “oficialistas”. Eu os entendo perfeitamente: com tantas competições disputadas, extintas e ressuscitadas, com tantas interpretações diferentes do que deve “valer”, caberia às entidades que dirigem o esporte definir esses parâmetros de forma criteriosa. Trariam ordem ao caos. Infelizmente, não é o que acontece, os cartolas gostam mesmo é de uma boa confusão. Aí está a questão, a chancela oficial não pode estar acima de tudo. Quer dizer que não importa se os dirigentes estão prestando maus serviços, agindo com interesses escusos ou são completos aparvalhados, só o que vale é o selo oficial?

Oficial não é o mesmo que legítimo. Todos nós esperamos uma conduta adequada das instituições e das pessoas que as comandam, mas nem sempre é o que acontece (no caso do futebol, quase nunca). Devemos questionar e ser questionados. O exemplo é esportivo, mas o tópico acaba se referindo à nossa cidadania de forma geral. Não se trata aqui de achar que tudo que reivindicamos esteja adequado, tudo que acreditamos seja o melhor. Basta que as entidades apresentem suas razões, suas convicções e motivos, de forma transparente, que tudo funcionaria a contento. Oficial e legítimo caminhariam juntos.

Mas a CBF nunca explicou, e nem vai, a contradição de que foi a própria entidade que formulou as competições, com o intuito já mencionado de coroar um campeão nacional de futebol. Federações e Confederações não são infalíveis, ao contrário. Quantas e quantas vezes já nos deparamos com decisões estapafúrdias dessas entidades?

Recentemente, FIFA sentenciou que só existiram quatro mundiais de clubes (2000; 2005 a 2007). Porém, pouco antes do torneio de 2005, a FIFA publicava em seu site, para o mundo inteiro ver “oficialmente”, a lista de campeões mundiais com os títulos da Copa Intercontinental incorporados, se reconciliando com a história. Um breve período se passou, e a entidade voltou atrás silenciosamente, sem alardes, colocando as disputas que ocorreram a partir 1961 numa seção a parte.

A questão voltou à tona com a discussão sobre a Copa Rio 1951. A FIFA tomou sua decisão de forma inequívoca, oficializou o título do Palmeiras como mundial de clubes, não deixando qualquer dúvida na mensagem de seu Secretário-Geral. Todos imaginavam que a questão havia sido discutida por algum tipo de conselho, pesquisando-se a questão a fundo. Parece que não foi assim. O presidente da entidade veio a público desmentir a decisão “oficial”, dizendo que o texto queria dizer outra coisa, tratando a todos como idiotas analfabetos. Essa é a FIFA, a mesma que defende que o primeiro mundial de clubes (depois que se lembrou de tê-lo organizado) é o de 2000, no qual o representante sul-americano foi o vencedor continental de 1998, enquanto os outros campeões continentais, naturalmente, eram de 1999.

Quantas idas e vindas, quantas decisões oficiais. Dá para aceitá-las totalmente, em busca do tal selo oficial? Quem acha que os clubes vencedores da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa não devem ser considerados campeões brasileiros também acha que Santos, Flamengo, Grêmio, Boca, River, Peñarol, Juventus, Real Madrid e Liverpool não são campeões mundiais? O carimbo da cartolagem não deve ter peso absoluto sobre a questão, a não ser que alguém ache adequado nos submetermos a tantas pataquadas.

A fórmula de disputa da Taça Brasil é outro argumento dos que consideram a competição menos importante. Afinal, as equipes paulistas e cariocas só entravam na disputa nas semifinais, precisando fazer apenas quatro jogos para se sagrarem campeãs. É verdade que, fora do contexto de sua época, tal regulamento não faria sentido. Porém, regulamentos pouco razoáveis se proliferam na história de nosso futebol. De 1980 a 1985, o Campeonato Brasileiro era jogado com uma fórmula que unia 1ª e 2ª divisões num mesmo certame. Eram as famigeradas Taça de Ouro e Taça de Prata. Para piorar, a classificação para o campeonato se dava através de vagas conquistadas nos campeonatos estaduais. Brilhante, não?

Alguns campeonatos brasileiros conseguiram a proeza de juntar 3 divisões (módulos verde, amarelo e branco) num torneio comum, outros reuniram quase cem clubes. Até mesmo a Copa União, apesar da boa intenção de emancipação, cometeu o pecado de renegar o vice-campeão nacional do ano anterior. São incontáveis despautérios, mas não vejo ninguém concluir que esses títulos devam ser apagados da história.

O Mundial Interclubes era decidido somente por duas equipes (a bem da verdade, ainda o é). Na Libertadores, em seus primeiros anos, o atual campeão entrava na disputa direto nas semifinais. É razoável apagar da história títulos continentais de Santos e Independiente, e conquistas mundiais de São Paulo e Milan? Obviamente, não.

Portanto, ressalvas quanto à fórmula de disputa da Taça do Brasil, e também do Robertão, não são motivos para não considerarmos os clubes vencedores como campeões brasileiros. Ainda mais porque, se paulistas e cariocas entravam nas semifinais, Bahia e Cruzeiro ganharam a Taça Brasil disputando-a de ponta a ponta.

Outro ponto sempre mencionado: por dois anos, 1967 e 1968, ambas as competições foram realizadas. Nesses anos, então, duas equipes foram campeãs brasileiras? Claro que sim. Do mesmo modo que dois clubes foram campeões mundiais em 2000 (Corinthians e Boca Juniors). São períodos de transição, em que um campeonato vai se tornando mais representativo do que outro, em que uma Liga se torna soberana enquanto a outra desaparece, como no futebol paulista dos anos 20 e 30 (de 1926 a 1929 e em 1935 e 1936, mais de uma equipe foi campeã paulista, em cada ano, por conta de ligas paralelas).

Como acontece nos casos mencionados acima, devemos reconhecer os títulos dos vitoriosos, nada mais. Além disso, mesmo fora desses períodos de transição, atualmente existe em diversos países mais de um campeonato nacional por ano. É o caso da Argentina, Colômbia e Chile, que podem consagrar dois campeões nacionais anualmente, com os torneios Apertura e Clausura.

Isso mostra que ao longo da história, devido a transformações que ocorrem naturalmente no esporte, mais de um clube conquistou títulos com igual representatividade num mesmo ano.

A falta de continuidade também é apontada por muitos “contrários” à Taça Brasil e ao Robertão. Comparo novamente com a disputa do mundial de clubes para dissipar essa desconfiança. Como foi dito a pouco, os torneios crescem, se transformam, evoluem ou involuem, mas isso não invalida o que foi conquistado em campo. Campeões mundiais são campeões mundiais, hoje ou na década de 60.

Aliás, de acordo com os critérios de quem alega uma separação entre o Robertão e o Brasileirão, o Campeonato Brasileiro disputado desde 1971 também não mantém continuidade, sequer em sua denominação. Em sua alegada edição inicial, foi batizado de “Campeonato Nacional de Clubes”. A partir de 1975, recebeu a alcunha de “Copa Brasil”, até se tornar a já citada “Taça de Ouro”. Todos completamente distintos entre si, na fórmula de disputa, regulamento, nº de participantes, rebaixamento etc.

Além disso, não são só as mudanças de nome ou a salada de formatos que demonstram descontinuidade: a Copa União (1987 e 1988) e a Copa João Havelange (2000), além de nomes e regulamentos diferentes, foram cisões tão ou mais marcantes do que a transição que ocorreu com o fim do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

Os vencedores da Copa União e da Copa João Havelange são campeões brasileiros de futebol, assim como os ganhadores da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. A tal falta de continuidade é apenas organizacional, não esportiva, e não deve servir para tirar a representatividade de conquista nenhuma.

Outro equívoco recorrente é classificar a Taça Brasil como equivalente a uma copa nacional, não a um campeonato brasileiro. É o que faz, por exemplo, a revista Placar, merecidamente reconhecida por muitos como o mais importante veículo esportivo do país. Ao contrário da maior parte da imprensa especializada, a Placar tem memória e posição. Mas também se engana.

Primeiramente, a diferenciação entre campeonato (liga) e copa que fazemos hoje é muito recente. O Campeonato Brasileiro é jogado em pontos corridos há somente seis anos, antes disso era decidido no famoso mata-mata, exatamente o que caracteriza o que classificamos de copa agora.

Além disso, quando a Taça Brasil foi criada, não existia um campeonato nacional vigente. Foi justamente a competição que veio preencher essa lacuna. A Taça Brasil consagrava o campeão brasileiro de futebol.

Já a Copa do Brasil, atual copa nacional brasileira, foi instituída como segundo torneio, pois a “liga” já existia. Portanto, a Taça Brasil, grande competição nacional de sua época, não pode ser equiparada à Copa do Brasil. Talvez o engano se dê pelo fato da Copa do Brasil ter sido inspirada na Taça Brasil, mas, de qualquer modo, os dois torneios nunca tiveram o mesmo significado.

Por tudo isso, creditar à Taça Brasil e ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa o mesmo status do atual Campeonato Brasileiro seria o mais correto, o que resgataria inclusive parte da história do nosso futebol. A diferenciação entre as competições existe de acordo com o contexto e época de cada uma delas, mas são conquistas equivalentes. Sendo assim, e como desfecho, proponho a seguinte maneira de classificarmos os campeões brasileiros. E até a próxima polêmica.

Palmeiras: 8 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros; 2 Torneios Roberto Gomes Pedrosa; 2 Taças Brasil).

Santos: 8 vezes campeão brasileiro (2 Campeonatos Brasileiros; 1 Torneio Roberto Gomes Pedrosa; 5 Taças Brasil).

Flamengo: 5 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros; 1 Copa União).

São Paulo: 5 vezes campeão brasileiro (5 Campeonatos Brasileiros).

Vasco: 4 vezes campeão brasileiro (3 Campeonatos Brasileiros; 1 Copa João Havelange).

Corinthians: 4 vezes campeão brasileiro (4 Campeonatos Brasileiros).

Internacional: 3 vezes campeão brasileiro (3 Campeonatos Brasileiros).

Fluminense: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Torneio Roberto Gomes Pedrosa).

Bahia: 2 vezes campeão brasileiro (1 Copa União; 1 Taça Brasil).

Botagogo: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Taça Brasil).

Grêmio: 2 vezes campeão brasileiro (2 Campeonatos Brasileiros).

Cruzeiro: 2 vezes campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro; 1 Taça Brasil).

Atlético: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).

Guarani: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).

Coritiba: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).

Atlético Paranaense: 1 vez campeão brasileiro (1 Campeonato Brasileiro).

(A seção "Sempre aos domingos" é destinada a textos enviados por leitores) 

Por Torero às 11h57

06/06/2008

Toreroteca

A Toreroteca foi desvirginada pelo leitor Everton Wessler na semana passada, ou seja, com um pouco de sorte ou talentos zecabalísticos é possível acertar os seus palpites.

Os jogos desta semana são:

Grêmio x Fluminense. Acho que o Fluminense, depois de vencer o Boca, estará mergulhado em endorfina e deve perder o jogo.

Atlético-PR x Goiás. Os dois times andam decepcionando, mas o Goiás (do meu leitor antípoda Al-Chaer) mais ainda. Ele ainda está inderrocto, ou seja, não conseguiu derrotar ninguém. Aposto no Atlético-PR.

Sport x Palmeiras. O Sport só deve estar pensando no Corinthians. E o Palmeiras deve aproveitar a chance para se vingar da derrota na Copa do Brasil. Coluna 2.

Botafogo x Coritiba. O Coritiba empatou as duas últimas partidas e acho que empatará a terceira.   

Vitória x Santos. O jogo do próprio time é sempre o pior de se votar, não é? O coração tem vontade de cravar o voto nele, mas o cérebro diz, "Deixe de ser tolo, rapaz...". Que se dane o cérebro. Santos na cabeça.

Cruzeiro x Vasco. O Cruzeiro é o melhor time deste começo de campeonato e joga em casa. Eurico Miranda tumultua o clube tentando impedir novas eleições. Acredito no Cruzeiro e na nova eleição. 

Mande seu voto. Esta semana, o vencedor poderá escolher entre "Os Vermes" e "Uma história de futebol". Ganha o primeiro a acertar os seis jogos.

Por Torero às 09h42

05/06/2008

1990 – Assim falou Zé Cabala

    

Sou um anão.

Um anão trapezista.

Meu nome é Gulliver. Trabalhei a vida toda num circo, o Grande Circo Grushenko. Apesar do nome, ele não era russo nem grande. Era um circo tão pobre que sua mulher barbada só tinha buço.

Em maio de 1990 fazíamos apresentações de fim-de-semana em Paracambi. Raramente nosso público passava de uma dúzia de pessoas.

Meu melhor amigo era o homem-bala, um cara alto, magro e que adorava livros de auto-ajuda. Seu olhar era meio perdido e um pouco revirado, talvez em conseqüência das muitas cabeçadas que dava. Chamava-se Zeca Bala e, por causa de suas aterrisagens infelizes, tinha sempre a cabeça cheia de ataduras.

Certo dia eu estava fazendo um curativo em meu cotovelo (os anões têm certa dificuldade para alcançar a barra do trapézio), quando levei um susto: limusines chegavam uma atrás da outra e paravam na entrada do circo. Assim que a poeira assentou, saiu de dentro de uma delas um sujeito de terno e óculos escuros que me olhou de baixo a baixo e disse:

— Queremos alugar essa espelunca para uma reunião da CBF.

Fui correndo falar com o dono do circo, o seu Cândido, um ex-militar que tinha trocado a caserna pelo picadeiro. Ele, mais do que depressa, acertou-se com o chefe dos engravatados. Com aquele dinheiro nossos salários foram postos em dia e todos ficamos muito felizes. Os palhaços chegaram a chorar.

Como fui o garçom da reunião, pude ouvir a conversa. Os dirigentes diziam que a Copa da Itália deveria ser a redenção do nosso futebol, que em 1982 e em 1986 havia jogado bem mas perdera. O homem encarregado de promover o retorno aos caminhos da glória era Sebastião Lazaroni, um treinador que gostava de invenções táticas e de um palavreado pernóstico.

Na hora em que eu recolhia os copos, os dirigentes falavam que seria bom para a seleção ter um conselheiro, alguém que fosse uma mistura de psicólogo, neurolingüista e feiticeiro. Um queria que fosse sua mulher, outro queria que fosse sua amante, um queria que fosse seu filho, outro queria que fosse seu namorado e assim por diante. Furioso, o técnico Lazaroni deu um soco na mesa: — Chega! Agora eu não quero um conselheiro nem que ele caia do céu!

Por uma grande coincidência, nesse exato momento Zeca Bala caiu do céu, furando a lona do circo e aterrisando de cabeça bem no meio dos engravatados.

Mas isso não foi obra de magia. Há uma explicação perfeitamente plausível: é que, longe dali, Zeca treinava seu número com o disparador de canhão, e este, aproveitando o inesperado pagamento, tinha bebido um pouco além da conta. Assim, o disparador exagerou na pólvora e meu amigo voou mais longe do que imaginava.

Ao ver aquele homem de ataduras na cabeça caído ali no centro do picadeiro, os dirigentes cercaram-no e trocaram olhares de perplexidade. Por fim, um deles ousou perguntar: — Quem é o senhor?

Zeca, ainda meio tonto, tirou o capacete e leu ali o seu nome. Porém, como ele havia rachado, em vez de Zeca Bala parecia que estava escrito Zé Cabala:

— Acho que me chamo Zé Cabala. De propósito ou não, meu amigo havia rebatizado a si mesmo.

Os engravatados apertaram a rodinha em volta dele e começaram a debater:

— Se ele se chama Zé Cabala, obviamente deve ser um profeta!

— Um mestre das ciências ocultas!

— Um vidente!

Os homens ainda estavam atônitos quando um outro perguntou: — Se o senhor é mesmo adivinho, diga: nós podemos ganhar a Copa do Mundo?

Meu amigo nem ouviu a pergunta, pois olhava para o buraco na lona por onde caíra e falava consigo mesmo: — Tudo o que sobe, cai; mas nem tudo o que cai, sobe.

Os dirigentes, em coro, deixaram escapar um longo “ohhh” de admiração.

E ele não parou por aí. Acho que estava meio zuretado por causa do tombo e continuou a falar frases como:

— Inútil o barco quando a jornada é terrestre...

— Numa pequena ilha, não há homem que vá muito longe...

— Se cortarmos as patas do cavalo, teremos que ir a pé...

— Dois não é mais que um, mas também não é menos que três.

Aquelas frases impressionaram tanto os dirigentes que eles começaram a aplaudir meu amigo. Ele, porém, ergueu a mão esquerda e todos pararam repentinamente. Aí disse: — Aquele que tem apenas uma mão não pode bater palmas.

Depois de um segundo de silêncio os engravatados começaram a aplaudi-lo ainda mais fortemente e a gritar: — É um sábio! Um grande sábio!

O resultado disso foi que, algumas semanas depois, desembarcávamos em Turim. Eu como assistente de Zé Cabala. Ele, como conselheiro da seleção.

Aliás, falando em seleção, devo dizer que a nossa não era nem ótima nem péssima. O goleiro era o jovem e promissor Taffarel. Os alas eram os competentes Jorginho e Branco. No miolo da zaga, a novidade: três zagueiros. Ricardo Gomes, Mauro Galvão e Mozer, com Mauro Galvão incumbido de bancar o líbero sem nunca ter jogado dessa maneira antes. Para proteger os três zagueiros, dois volantes: Dunga e Alemão. Para proteger os volantes, um armandinho: Valdo. E para proteger o armandinho: Müller e Careca. Nosso grupo na primeira fase tinha Suécia, Costa Rica e Escócia. Previam-se três vitórias fáceis.

Meu amigo continuava falando coisas sem sentido, mas, a cada vez que abria a boca, era mais reverenciado pelos membros da comissão técnica. E eu, é claro, não contei nada para ninguém.

No dia do primeiro jogo, Lazaroni foi à nossa procura. Ele abriu uma pasta e, consultando um monte de papéis, nos revelou que os suecos tinham um bom goleiro, Ravelli, e um quase craque, Brolin. Os outros eram robôs. Mesmo de posse de todas essas informações, queria ouvir as palavras do sábio:

— Longo é o caminho que leva ao lugar distante — disse Zé Cabala.

Lazaroni repetiu a frase em voz baixa, bateu o indicador no queixo e saiu dali intrigado, mas agradecido.

 O Ministério da Saúde adverte: Lazaroni é prejudicial à saúde (do torcedor).

No jogo, logo de cara nossa seleção sofreu um gol: belo lance de Brolin no meio dos nossos zagueiros. Por sorte empatamos com Careca e, de novo com ele, viramos no segundo tempo. Mas não foi uma virada redentora, com gols perdidos e olé. Foi um 2 a 1 suado e eles tiveram chance de empatar.

Depois daquilo, o trabalho de todos na comissão técnica foi posto sob suspeita. Quer dizer, de todos menos o de Zé Cabala. Ele continuava a gozar de prestígio e suas frases corriam de boca em boca. Antes do jogo contra Costa Rica, chamaram-no novamente e, novamente, ele deu seu conselho:

— Não se pode entrar numa casa sem portas.

De fato, a defesa costa-riquenha parecia uma casa sem portas. E sem janelas. O Brasil, lento e sem imaginação, não tinha uma britadeira para abrir os buracos. Quando a bola chegava aos pés dos nossos atacantes, eles já tinham um marcador em cima, outro na sobra e um terceiro para fazer a falta. É duro dizer, mas ganhamos por acaso. Müller deu um voleio dentro da área e a bola desviou num beque para azar do goleiro Conejo. Foi isso e só.

Desesperado, Lazaroni recorreu de novo a Zé Cabala, perguntando-lhe o que devia fazer para melhorar o time. Meu senhor ajeitou o turbante verde-amarelo e falou pausadamente: — Só quando se chega ao fundo do poço é que se começa a subir.

Lazaroni disse: — Sei, sei... — e saiu coçando a cabeça.

Contra a Escócia, mais uma vez ganhamos com um gol esquisito: Careca ficou cara a cara com o goleiro e chutou; a bola espirrou e ia saindo pela linha de fundo quando Müller a alcançou e deu um toquinho para as redes. Quase deu remorso de comemorar. De qualquer forma, passamos para as oitavas-de-final.

No Brasil, ninguém agüentava mais aquele futebol de resultados. Nossa equipe fazia reunião atrás de reunião para encontrar uma saída para aquela chochice, até porque o adversário seguinte seria ninguém menos que a Argentina, campeã mundial. A coisa chegou a tal ponto que uma noite, lembro-me bem, a delegação se reuniu num anfiteatro e chamou meu amigo para uma palestra.

Perguntaram: — Mestre, quando vamos parar de jogar tão mal?

E ele respondeu: — As circunstâncias não duram para sempre.

Perguntaram: — Como se explicam esses jogos sem graça?

E ele respondeu: — Antes de ser árvore, a árvore foi semente.

Perguntaram: — Que devemos fazer para melhorar o desempenho?

E ele respondeu: — Se tiveres carro, não use o cavalo; se tiveres cavalo, não use os pés; se não tiveres pés, use o carro.

Perguntaram: — Devemos insistir no esquema com líbero?

E ele respondeu: — Não há soluções se não houver problemas.

Perguntaram: — Que falta para que mostremos nosso verdadeiro futebol?

E ele respondeu: — A ave não nada no mar, o peixe não corre pelos campos, a corça não voa pelos céus.

A cada sentença de meu amigo, eu pensava: agora seremos descobertos, vão perceber que o cara está biruta... Mas os dirigentes e os jogadores apenas sacudiam a cabeça, admirados. Ninguém desconfiava de Zé Cabala. Mais ou menos como acontece com os economistas.

 Armínio Fraga, Amigo da Onça

Tudo corria bem até que o volante Dunga perguntou o que deveria ser feito para que ganhássemos a Copa e o Brasil voltasse a ser o país do futebol. Zé Cabala já ia responder quando aconteceu o desastre: eu tinha ficado ali pelos bastidores e, como estivesse um tanto enfadado com aquelas frases, comecei a fazer embaixadas com uma bola. Foi então que a deixei escapar e ela foi bater no controle de um daqueles contrapesos que se usa no teatro. O saco de areia soltou-se e, é claro, caiu bem na cabeça de Zé Cabala. Ele desmaiou na hora. Todos o cercaram, mas, depois de alguns instantes, acordou e disse que estava bem, muito bem mesmo, como há muito tempo não se sentia.

As pessoas voltaram a seus lugares e Dunga repetiu a pergunta.

O grande mestre limpou a garganta e, em vez de dizer uma daquelas coisas sem sentido, falou:

— É simples: para começar, deveríamos reduzir a comissão técnica pela metade, parar com essa retranqueira e deixar o time jogar mais solto. E mais: Deveríamos escalar o Renato Gaúcho e deveríamos ter trazido o Neto e também o João Paulo, do Guarani. E mais: deveríamos valorizar as categorias de base, organizar um calendário decente, conter o excesso de torneios e respeitar acesso e descenso. E mais: temos que mandar os dirigentes corruptos para a cadeia e fazer uma devassa nas contas dos cartolas.

Fomos demitidos na hora.

Naquela noite dormimos embaixo de uma ponte.Durara pouco nossa vida de glórias. Em compensação, meu amigo voltara ao normal e já não falava apenas máximas medíocres.

Na manhã seguinte resolvemos que não iríamos nos entregar, porque um homem de verdade nunca deve desistir de seus objetivos: decidimos pedir esmolas. Graças ao turbante de Zé Cabala, que o deixava com cara de louco, conseguimos juntar umas moedas e matar a fome.

Na hora do jogo entre Brasil e Argentina, ficamos em frente a uma loja de eletrodomésticos para ver a partida. A seleção jogou melhor, mas no futebol não ganha quem joga melhor, e sim quem faz gols. Num lance genial, Maradona saiu driblando nossa inexpugnável defesa: passou por Alemão, Dunga, Branco, atraiu os três zagueiros e tocou para o meio, onde Cannigia vinha livre, leve, solto, desembaraçado, tranqüilo, despreocupado e feliz.

Com calma ele driblou Taffarel e chutou para o gol vazio.

                                                Cannigia e Maradona, uma dupla que se entendia muito bem.

Ainda pressionamos e criamos chances, mas nossos homens de frente, talvez desacostumados das situações de gol, acabaram errando bolas fáceis.

A partir daquele jogo, a Argentina tornou-se a sensação da Copa. Com muito esforço e pouco brilho, eles foram eliminando fortes seleções. A primeira vítima foi a Iugoslávia; a segunda, a dona da casa, a Itália de Totó Schillaci.

Mas o mais incrível é que eles derrotaram essas equipes sem vencê-las. Esses dois jogos foram decididos na cobrança de pênaltis, e nas duas vezes brilhou a estrela de Goycochea. Ele, que nunca foi um goleiro extraordinário (aliás, era reserva e só foi escalado porque Pumpido se machucou), acabou fazendo defesas inacreditáveis e classificou o time para a decisão contra a Alemanha, um repeteco da final de 1986.

A decisão foi truncada, feia, com muitas faltas e poucas jogadas que valessem a pena ser vistas. Quase no fim, Klinsmann se enroscou nos zagueiros e o juiz apontou a marca de cal. Brehme bateu rente à trave, sem chances para Goycochea. Era o tri dos germânicos.

Quanto a Zé Cabala e eu, decidimos conhecer o mundo: fomos faxineiros na Torre Eiffel (como dava trabalho lustrar todo aquele ferro!), desarmadores de minas em Benguela, camareiros de um motel em Mikonos, sorveteiros em Jerusalém, cozinheiros no MacDonald’s de Moscou, varredores de rua em Bangladesh, mecânicos de bicicleta em Pequim e estivadores em Sydney. Aí conseguimos ser aceitos como grumetes num navio que ia para o México, onde fomos babás de chiuauas por dois anos, e de lá seguimos, num comboio ilegal, para a Califórnia.

Se Zé Cabala tivesse que contar o que nos aconteceu depois disso, ele diria: — Quem dá a volta ao mundo, ao seu mundo volta.

Foi o que aconteceu conosco. Mas isso é outro capítulo.

 

Por Torero às 07h40

03/06/2008

As chuteiras são a pátria da seleção

A frase acima é o título do texto de hoje na Folha. Quase foi "O canarinho morreu". Para ler, clique aqui.

Por Torero às 08h43

02/06/2008

Lar, doce lar

Caseiro leitor, caseira leitora (ver significados de caseira no Houaiss), foi uma rodada mais caseira do que broa de milho. Do que bolinho de chuva feito por avó.

Nenhum dos times que jogou em casa perdeu.

Houve, é bem verdade, um ou outro empate, mas foram minoria. E algum chato de plantão poderia dizer que no Rio de Janeiro o mando era do Fluminense. Mas o Maracanã é também a casa do Flamengo, ainda mais neste domingo, em que os tricolores devem ter economizado seus trocados para ver o jogo do meio de semana pela Libertadores.

E, neste futebol nivelado (por baixo) de hoje em dia, jogar em casa faz muita diferença.

Quereis exemplos? Dou-vos.

Comecemos por baixo: o Ipatinga, que era o lanterna do campeonato, finalmente venceu. Onde? No Ipatingão.

O Náutico ganhou nos Aflitos, onde ele manda prender e soltar, e isso não é metáfora, mas fato, porque as cenas dos policiais militares tirando o jogador André Luís pelo meio da torcida e ameaçando jogadores do Botafogo foi a coisa mais lamentável da rodada. Ou melhor, do campeonato. É claro que André Luís mereceu o vermelho e errou feio ao fazer gestos obscenos para a torcida, mas espera-se que a PM esteja acima do nível de André Luís. Quem é responsável pela segurança tem o dever profissional de ter cabeça fria e autocontrole.

O Santos não venceu o São Paulo na Vila Belmiro, mas jogou razoavelmente bem e até dominou a maior parte do jogo (se bem que as melhores chances foram do São Paulo).

O Palmeiras ganhou por um gol no Parque Antártica, mas o placar poderia ter sido mais generoso. O gol que Diego Souza desperdiçou, chutando a bola na cabeça do goleiro, vai para o topo da lista dos gols perdidos em 2008.

O Galo de Gallo, mesmo tendo um modesto público de 9,5 mil pessoas (segundo números oficiais), o que pouco em relação à sua grande torcida, manteve sua invencibilidade no Campeonato e venceu a Portuguesa.

O Vasco ganhou em São Januário, e Internacional e Figueirense não perderem em seus estádios.

Acabando a rodada por cima, falemos do líder Cruzeiro, que fora de casa não conseguiu passar pelo Coritiba. Aliás, o time paranaense até poderia ter vencido se não tivesse um gol mal anulado.

Resumindo, ninguém perdeu em casa, em casa o lanterna venceu, e fora de casa o líder não conseguiu a vitória.

Com a pasteurização do futebol, a torcida e o conhecimento do campo passam a fazer ainda mais diferença.

Lar, doce lar.

Por Torero às 08h16

01/06/2008

Toreroteca: Finalmente um vencedor!

Eu, pela segunda vez, fiquei nos cinco pontos (não confiei no Atlético-MG; ou confiei demais na Portuguesa).

Mas o mais importante é que temos um vencedor: Everton Wessler, de Criciúma, acertou os seus seis palpites.

"Vermes" para ele! 

Por Torero às 22h15

Sempre aos domingos

Sempre aos domingos

Hoje, no "Sempre aos Domingos" (seção reservada para textos enviados por leitores), um polêmico texto sobre o Rei. Leia e opine.

Que bom seria outro Pelé!

POR CARLOS EDUARDO S. SOUZA

Imagine você poder ir aos estádios e rever lances geniais, mais que apoteóticos, poéticos!

Imagine você não podendo imaginar como seria a próxima jogada!

Você vê a bola chegar quadrada e sair redonda...

Elíptica...

Parabólica...

Hiberbólica!

Hiper bola!

Ah, como faria bem aos nossos olhos, já tão calejados, ultrajados, marejados, outro rei tão belo!

Por certo, nós, provincianos de novo, nos curvaríamos, por prazer, reverentes ante o retorno daquele imperialismo, lúdico e bucólico, sobre a bola, do qual nos vemos emancipados há tanto tempo.

Pois hoje, havendo se ido o rei, pela democracia, acabamos por eleger representantes do povo, e, embora duros e grossos, com eles nos acostumamos.

Nem sequer nos lembramos mais de como era bom ter um rei.

Quando Pelé pendurou suas chuteiras mágicas, em 1977, a coroa do futebol caiu.

Depois dele, outros até chegavam a se destacar, mas nenhum trazia sobre si o mesmo manto carmesim, ou nas mãos o mesmo cetro de genialidade, ou na cabeça o mesmo diadema real.

O brilho do seu tesouro não fora lá tão puro.

Nosso dano foi grande, sem dúvida.

Mas hoje vemos, sobretudo, que ninguém sofre mais com a ausência de um rei como Pelé nos gramados, como ele próprio, Pelé.

Ele não tem vocação plebéia.

Sabia bem o que fazer sobre o seu trono mudo, de bola nos pés.

Mas não tem a mínima idéia do que fazer fora dele.

Pelé sabe que foi rei, mas não sabe que não chegou a ser deus.

E age como se o fosse ou houvera sido.

Cinco vezes Atleta do Século, Atleta do Milênio, membro do Hall da Fama, ganhador do prêmio “Athlete Who Changed the Game” e o Oscar do Esporte. Foi nomeado Cavaleiro Honorário do Império Britânico, Cidadão do Mundo na ONU, Embaixador para a Educação, Ciência, Cultura e da Boa Vontade pela UNESCO, Embaixador da Ecologia e do Meio Ambiente pela ONU, Ministro dos Esportes do Governo Brasileiro e Embaixador dos Esportes no Fórum Econômico Mundial em Davos, em 2006. Pelé alcançou a condição de mito (Fonte: Bola Solidária)

Entretanto, como gente comum, sem seu trono, sem seu campo, sem a bola, Pelé é um perna-de-pau, um zagueirão tosco e indisciplinado. Um mau exemplo, afinal.

Fala com a propriedade de um rei, mas não tem propriedade sequer sobre sua família mais.

Seus herdeiros diretos e indiretos são conhecidos pela orfandade.

Um de seus filhos teve problemas com drogas e com a polícia, e disse ter sentido muita falta da presença de um pai. Do seu pai, obviamente.

Outra precisou da ajuda da justiça para ser reconhecida como filha, mas mesmo assim viveu e morreu, coitada, jamais sendo.

Dois de seus netos só o viram de longe, e pior, cercado de perto por outras crianças, que, apesar disto, nunca lhe foram tão próximas quanto eles.

Aqueles seus netinhos provavelmente nunca foram carregados pelo famoso braço direito do avô que socava o ar na hora do gol.

Aliás, falando acerca deles em entrevista a uma emissora de TV, Pelé chamou-os de “esses meninos”, e a mãe deles de “a mãe deles”, somente.

“Não, Pelé... Sandra (o nome dela era Sandra, se não sabe) não era só a mãe deles; era a sua filha. E ‘esses meninos’ são seus netos”.

Recentemente, uma separação.

Mas, a propósito, será que Pelé, de fato, já se casou alguma vez?

O que é mais fácil, afinal: ser pai ou ser rei?

Ou ainda, o que é mais nobre: ser rei ou ser pai?

Provavelmente, Pelé não sabe.

Ele só conhece um dos lados.

Dá saudade, sim, um rei do futebol nos gramados.

Mas daria também mais humildade a Pelé.

Sozinho, Pelé se sente único, e ignora os demais.

Outro rei, à sua altura, colocaria Pelé à altura dos outros.

Um novo rei, este mais nobre, faria de Pelé, talvez, mais filho, mais pai, mais avô. Mais gente, eu diria.

E de tabela, ah, como seria bom também para nós, os provincianos do futebol arte!

Mas, sobretudo, que bom seria, para Pelé, um outro Pelé!

Por Torero às 07h34

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

© 1996-2009 UOL - O melhor conteúdo. Todos os direitos reservados.