Blog do Torero

30/05/2008

Toreroteca

E eis que nossa Toreroteca está de volta. Sinto que esta semana teremos um vencedor. Finalmente mandarei meus "Vermes" para alguém (essa frase saiu meio estranha, não?).

Vamos aos Jogos Juninos.

O primeiro é Santos x São Paulo. O Santos está sem técnico, o São Paulo sem Adriano. Ou seja, os dois estão sem cabeça. O pior é que em Santos chove (pelo menos nesta manhã), e o campo pode estar pesado. Pela situação estranha dos times e pelo campo pesado, fico com o empate (se bem que Márcio Fernandes fez boas modificações no time em seus primeiros treinos).

Náutico x Botafogo é nosso segundo jogo. O Botafogo está acéfalo, sem cuca (ah, o trocadilhos...), e isso deve pesar. O Náutico, de técnico novo, é um time razoável, e terá a volta do bom Ruy Cabeção, aquele lateral do Botafogo e do Cruzeiro que pintou como grande jogador mas não deu tão certo quanto se esperava. Aposto no Time dos Aflitos. Ops, como o jogo é contra o Botafogo, é melhor especificar: Náutico.

Coritiba x Cruzeiro: O Coritiba, por enquanto, é um time que não perde em casa e não ganha fora. E neste domingo terá dois problemas: a ausência de Keirrison (belo nome, não?) e a presença de Rubens Cardoso (ah, que maldade, o cara até foi bem na última partida...). Já o líder do campeonato só jogou uma vez fora de casa, contra o Vitória, e venceu por 2 a 0. Voto pelo empate.

Palmeiras x Atlético-PR: Acho que os palestrinos serão mais objetivos depois da bronca recebida pelas firulas no jogo contra a Portuguesa. Automobilisticamente falando, o Atlético possui um técnico que ainda está em "teste draive" (Roberto Fernandes, ex-Náutico) e um centroavante retificado, Marcelo Ramos, o que não gera muita confiança. Coluna 1. 

Fluminense x Flamengo: O Fluminense deve entrar com o freio de mão puxado por conta da Libertadores. O Flamengo vem com o turbo ligado. Vou de Flamengo.

Atlético-MG x Portuguesa: O Galo joga em casa mas está com salários atrasados. A Portuguesa não está brilhando mas tem o bom Diogo. Com estas compensações, voto em mais um empate (se bem que a Portuguesa seria uma boa zebra).

Enfim, mande seu voto-comentário. Vamos ver se há por aí alguém com vocação para Zé Cabala.

Por Torero às 07h22

29/05/2008

1986 – Minhoca na cabeça!

Para a Copa de 1986, no México, Telê Santana foi confirmado no cargo de técnico, o que eu, o Brasil e o mundo achamos muito justo. Mais que depressa, ele tratou de ir acertando a seleção nos pontos que tinham sido falhos em 1982.

No gol entrou o calmo Carlos, que há muito vinha merecendo a chance. Na defesa, o armário Júlio César entrou no lugar de Luisinho para impor respeito. Protegendo a zaga, dois volantes muito menos brilhantes que Cerezo e Falcão, mas, por outro lado, mais pegadores: Elzo e Alemão.

No fim, a escalação da estréia ficou sendo a seguinte: Carlos; Édson, Júlio César, Edinho e Branco; Elzo, Alemão, Júnior (que foi da lateral para o meio) e Sócrates; Careca e Casagrande. Além deles, havia no banco feras como Leão, Falcão, Josimar, Oscar, Silas, Müller e Zico, que estava contundido e foi se recuperando durante a competição.

Eu tinha poupado dinheiro durante os quatro anos anteriores e juntei o bastante para acompanhar a seleção sem problemas. Era então um quase-ginecologista de boa aparência e no auge da disposição.

Cheguei a Guadalajara um dia antes da estréia e escolhi um hotelzinho barato chamado Miel. A dona, por coincidência, era brasileira e estava no México desde 1970.

Eu conversava com ela entre um pão de queijo e outro quando apareceu por ali uma hóspede espanhola e pediu a chave de seu quarto. Como nosso primeiro jogo era contra a Espanha, não pensei duas vezes e pedi para ficar no quarto ao lado de Carmencita. Ela tinha uns sessenta anos, era viúva e estava fazendo uma viagem para se recuperar da perda do marido, o que, posso assegurar, conseguiu sem muita dificuldade.

Dever cumprido, peguei um ônibus e fui saborear a segunda vitória do dia. A partida foi realizada no lendário estádio Jalisco, que dezesseis anos antes havia visto a arte de Clodoaldo, Jairzinho, Pelé, Tostão, Gérson e Rivelino. Ninguém, em sã consciência, imaginava que aquelas cenas iriam se repetir, mas um bom futebol já servia como consolo.

Não foi o que aconteceu. O Brasil jogou uma partida lenta, sem inspiração e, para dizer a verdade, precisou da ajuda do juiz (ele não deu um gol legítimo de Michel, bola que bateu no travessão e caiu um ônibus e meio atrás da linha fatal). No fim ganhamos de 1 a 0, gol de cabeça de Sócrates.

Nosso segundo adversário foi a Argélia, e mais uma vez levei o Brasil à vitória. Não foi nada fácil encontrar uma argelina, mas passando os olhos pelo jornal vi um anúncio que dizia: — Mil e uma noites de prazer com Kalena, a encantadora de serpentes mais famosa de Argel.

Telefonei, marquei horário, cheguei lá e pim-pam-pum. Gastei um bom dinheiro, mas valeu a pena. A noite foi tão cansativa que a chamei de A Batalha de Argel.

No dia seguinte esperava que o Brasil também goleasse, mas mais uma vez o time não deslanchou. O primeiro tempo ficou no 0 a 0 e, no segundo, só depois de muito sufoco é que o Careca mandou pro fundo.

No final daquele jogo já comecei a pensar onde iria encontrar uma irlandesa. O acaso mais uma vez me ajudou: ao meu lado estava uma jornalista do Londonderry Tribune, uma ruiva sardenta meio derrubada, com uma verruga na testa que mais parecia um segundo nariz e um hálito de uísque.

Quase morri de tanto prender o fôlego. Mas compensou. O Brasil ganhou bem: 3 a 0, e começou a mostrar um futebol que empolgava a torcida. Careca meteu dois e Josimar, que entrara no lugar do contundido Édson, acertou um lindo chute no ângulo de Pat Jennings.

Passamos então para as oitavas-de-final. Dali para a frente todo jogo era eliminatório e eu sabia que precisaria dar tudo de mim pelo país. Já me considerava uma espécie de escolhido, alguém que tinha uma missão e teria de fazer qualquer coisa para cumpri-la. Até encarar Agnieska, uma polonesa manca, vesga e surda de um ouvido que estava participando de um torneio de xadrez em Guadalajara.

Agnieska revelou-se uma rainha sob os lençóis. Me fez suar como um peão, saltar como um cavalo e praticar outras coisas que fariam corar um bispo.

No dia seguinte acordei com dores, arranhões, hematomas e uma suspeita de fratura do perônio. Mesmo assim fui ver Brasil e Polônia. A seleção deu um show. Lindos 4 a 0, com Sócrates, de pênalti, abrindo a contagem, outro golaço de Josimar, uma bela arrancada de Edinho e mais um gol de pênalti, dessa vez convertido pelo infalível Careca.

Com quatro vitórias em quatro jogos, o Brasil foi para as quartas-de-final. Seu adversário seguinte seria a França, que também vinha vencendo todo mundo e tinha um quadrado que jogava o fino: Fernandez, Giresse, Tigana e Platini.

Como eu não podia fazer feio, resolvi cortar o cabelo. Queria ficar mais apresentável, a fim de conquistar com mais facilidade uma moça das terras de Joana D'arc, De Gaulle e Asterix. Nem precisei sair do salão. A cabeleireira disse que tinha nascido em Victoire de la Conquiste, e, por isso, se chamava Victoire.

   

Na mesma hora convidei-a para sair.

Nós andamos de mão dadas, fomos ao cinema, corremos em câmera lenta pelo bosque, jantamos à luz de velas e choramos numa apresentação do Trio los Panchos quando eles cantaram Besame mucho.

Aí, aconteceu o inesperado: me apaixonei!

Exatamente, me apaixonei. Victoire era alta, tinha o rosto bem demarcado e grandes maçãs no rosto. Os olhos eram puxadinhos, o cabelo escorria em madeixas sedosas e a boca, carnuda, tinha um desenho simplesmente tentador.

Como namorados puros e inocentes, evitamos o sexo nos primeiros encontros, mas enfim chegou o dia do jogo e eu tinha que servir ao meu país. Fomos a um hotelzinho barato e achei que estava tudo correndo bem quando ela, ao terminar de desenrolar a meia, olhou-me fixamente nos olhos e disse:

— Minhoquinha, tenho uma coisa para te contar.

— Fale, querida — eu disse, enquanto tirava a cueca.

— Às vezes as coisas não são como a gente pensa.

— Se você é virgem, eu não me importo.

— Não, não é bem isso.

— Você gostaria de esperar pelo nosso casamento?

— Não, Minhoca, por mim a gente fazia tudo agora, mas tenho que te dizer que...

— Que o quê, querida? — perguntei, passando a mão pelo seu rosto.

— Que nós temos tudo em comum.

— Sim, eu sei.

— Não, eu quero dizer tudo mesmo.

— Como assim, chérie querida?

— Eu sou homem, Minhoca.

Homem?! Mas como homem? Eu olhava para ela, quer dizer, ele; quer dizer, eu olhava para Victoire... ou Victor. Bom, o que importa? Eu só olhava mesmo, não conseguia falar nada.

— Suponho que isso é o fim de tudo — ela disse, ou melhor, ele disse; bem, os dois disseram. Ao sair, deixou sobre o aparador um cartão de visitas cor-de-rosa.

Fiquei ali uma, duas, três horas olhando para aquele pedaço de papel. Não sabia o que fazer. Devia ir atrás dela? Devia voltar lá no salão e xingá-la de tudo quanto é nome? Devia fingir que nada tinha acontecido? No meio de tantas dúvidas, lembrei que estava quase na hora do jogo. Vesti-me, entrei num ônibus e fui para o Jalisco.

Brasil e França foi um dos jogos mais bonitos que já vi. Não um drama épico como aquele Brasil x Itália de 1982, mas um duelo elegante, bem jogado, com belas trocas de passes, ataques lá e cá e muito, muito equilíbrio.

 Platini beijou a bola,...

Logo abrimos a contagem com um vistoso chute de Careca, mas eles conseguiram o empate na hora certa, no finzinho do primeiro tempo, numa bola que resvalou na nossa zaga, saiu do alcance de Carlos e sobrou limpinha para Platini empurrar para dentro.

O segundo tempo foi uma verdadeira aula de futebol. A França apertou e o Brasil perdeu um gol feito com Sócrates. Mas o lance mais terrível aconteceu quando Branco foi derrubado na área por Bats e a vitória pareceu sorrir para nós. Zico tinha entrado em campo naquele momento. Ele era o cobrador oficial da seleção e já tinha feito incontáveis gols de pênalti pelo Flamengo. Ninguém pensou que ele poderia falhar. Bem, o resto todo mundo sabe: Zico bateu, Bats defendeu e o jogo terminou 1 a 1.

Na prorrogação nada aconteceu e fomos para os pênaltis.

Ali eu estive à beira do enfarte. Sócrates começou errando, mas Zico, Branco e Alemão fizeram. A França ia em vantagem até que Platini mandou a bola por cima do travessão. A série seria decidida por Júlio César, pelo Brasil, e Fernandez, pela França.

Nosso zagueiro chutou com força, sem chance para o goleiro, mas acabou acertando a trave.

Fernandez bateu com calma e fez. Foi o fim.

Apesar do belo futebol apresentado contra nós, a França caiu nas semifinais diante da Alemanha. Na outra partida, a Argentina derrotou a Bélgica.

A final foi uma partida sem grande brilho técnico, mas de muitas reviravoltas. No fim, prevaleceu a Argentina, que com gols de Brown, Valdano e Burruchaga, bateu por 3 a 2 uma Alemanha forte, mas sem imaginação.

 ...mas Maradona beijou a taça.

Imaginação que sobrava, não exatamente no time argentino, mas no jogador que, vamos admitir, ganhou aquela Copa sozinho: Diego Maradona. Foram jogadas memoráveis, passes geniais e cinco gols que o mundo nunca vai esquecer, principalmente os dois marcados contra a Inglaterra: um que não deveria ter valido, com a mão, e outro que valeu por dois, com o pibe de oro driblando meio time inglês e tocando para o gol vazio (clique aqui para ver este gol com uma apaixonada narração portenha).

Depois de assistir à final pela televisão do hotel, desliguei o aparelho e fiquei me perguntando se eu era mesmo o culpado por mais aquela derrota do Brasil. Depois de muito refletir, concluí que não, que aquela história era só coincidência e que um homem inteligente não deve ter nem superstição nem preconceito. E a palavra preconceito me fez pensar em Victoire.

Peguei de novo o cartão cor-de-rosa e fiquei a olhar para ele. De repente, fui tomado por uma enorme saudade. Lembrei do sorriso, dos olhos e dos cabelos de Victoire... Fiquei assim por umas duas horas até que não agüentei mais, peguei o telefone e, pá, liguei.

Tivemos uma noite inesquecível!

Não foi fácil, acredite, mas por fim decidi que aquele homem era a mulher da minha vida! Ficamos ainda uma semana em Cancun, nossa lua-de-mel, e depois fomos para Vitória da Conquista, onde Victoire abriu um salão de beleza.

Até hoje vivemos como num conto de fadas. Victoire é delicada como uma dama e gosta de futebol como um homem. Acho que não há no mundo um marido mais feliz do que eu.

Por Torero às 01h13

Que bela noite!

Três jogos enfartivos nesta noite!

A Copa do Brasil, que poderia ter uma final carioca, terá uma final entre Pernambuco e São Paulo.

O Fluminense, porém, salvou a honra da cidade, com um difícil empate contra o Boca pela Libertadores. Mas não se pode comemorar por antecipação. O Boca tem jogado melhor fora de casa.

Voltando à Copa do Brasil, será uma final muito curiosa: Nelsinho x Corinthians. Os dois que no ano passado caíram para a Série B. Se o Sport de Nelsinho vencer, ficará a sensação de que o clube é que estava mal. Se o Corinthians se sagrar campeão, parecerá que a culpa do rebaixamento foi de Nelsinho. De qualquer forma, será uma falsa impressão. Como disse o grande comentarista futebolístico Gregório de Matos, "o todo sem a parte não é todo".

O Sport fez um caminho brilhante até aqui. Passou pelos favoritos Palmeiras e Inter, e agora venceu uma emocionante disputa de pênaltis contra o Vasco. Ser torcedor do Sport esta noite deve ser maravilhoso.

E o Corinthians deu a volta por cima. Depois de cair para a Série B, está a um passo da Libertadores em 2009. Pode até não vencer, mas, de qualquer forma, ficará a imagem de um time que rapidamente levantou-se de sua maior queda.

Os heróis da noite acabaram sendo Carlinhos Bala e Felipe. Dois heróis que farão um belo duelo na final.

Por Torero às 01h01

28/05/2008

Favorito no Brasileirão

E na pesquisa do blog, depois de 1987 votos, o favorito a conquistar o Campeonato Brasileiro é o... Coritiba.

Nada de São Paulo, Palmeiras, Cruzeiro, Internacional ou Flamengo. O Coxa é quem ficou na frente, com 20,89% dos sufrágios.

Podem dizer que houve manipulação, que os coxas fizeram listas na internet ou algo assim. Pode até ser, mas mobilização também vale.

Em último lugar ficou o Figueirense, com 0,50%. Outro péssimo resultado foi o do Vasco: 1,46%. Pelo jeito, ninguém bota muita fé no time de Eurico Miranda (aliás, como é feio falar "time de Eurico Miranda". Mas, se os vascaínos não conseguem tirá-lo de lá, é assim que vai ser por um bom tempo. Isto é, por um mau tempo.)

 

Por Torero às 16h19

27/05/2008

Empates vitoriosos e derrotosos

Para ler o texto de hoje, clique no xis: "x"

(Só para assinantes do UOl e da Folha)

Por Torero às 08h28

26/05/2008

Mineiros, paulistas e nordestinos

Dizem que os mineiros são ponderados e que detestam extremos. Mas isso não é verdade. Pelo menos, não no Brasileiro de 2008, onde os mineiros ocupam os dois extremos da tabela.

Lá embaixo, na vigésima e última posição, está o Ipatinga. Nestes três primeiros jogos, o ex-campeão mineiro (e recentemente rebaixado no campeonato estadual) marcou apenas um gol e fez um ponto. As duas marcas vieram neste domingo, no empate em 1 a 1 com o Goiás. Mas há que lembrar que o Goiás estava com dois jogadores a menos (Julio Cesar e Paulo Henrique haviam sido expulsos), e só aí cedeu o empate.

Na outra ponta da tabela vem o Cruzeiro, o último 100% do Campeonato. São 9 pontos em 3 jogos. Além disso, tem o melhor ataque e não tomou nenhum gol, o que o deixa, obviamente, com a melhor defesa. De quebra, Guilherme é um dos artilheiros do Brasileiro, com três gols (ao lado de Kléber Pereira, do Santos, e Diogo, da Portuguesa).

Se não for santista, veja os gols do Cruzeiro

Mas, para que não digam que a moderação morreu em Minas, resta o Atlético-MG, que empatou todos os seus jogos até aqui. Ontem, com o Atlético Paranaense em Curitiba. Na semana passada, com o Goiás. E, na estréia, com os reservas do Fluminense, em casa.

Se bem que podemos dizer que o Atlético-MG na verdade não é um moderado, mas sim um empatador radical.

Já os paulistas cultivam a reputação de eficientes. Mas não é o que se vê neste começo de campeonato.

O melhor dos quatro paulistas, o Palmeiras, está numa modesta décima posição, depois de um empate, uma vitória e uma derrota. E, pior, dos quatro times que ocupam a zona de rebaixamento, dois, Portuguesa e São Paulo, são do estado mais rico do país.

 Olhem para os dedos dele. Borges já sabia o placar da partida.

Pelo jeito, “São Paulo que amanhece trabalhando, São Paulo que não pode adormecer”, não trabalhou direito e dormiu no ponto neste começo de campeonato.

Quanto aos nordestinos, a quem impingiram fama de malemolentes, vêm trabalhando duro e conquistando boas posições.

O pior deles, o Sport, está em décimo-primeiro lugar, e hoje estaria classificado para a sul-americana. E, na Copa do Brasil, já passou por gaúchos (Internacional), paulistas (Palmeiras), e venceu a primeira partida contra o carioca Vasco da Gama (2 a 0 na primeira partida, em Recife). 

 Magrão defendeu um pênalti de Dodô no último minuto e garantiu a vitória.

O Vitória, que goleou os catarinenses do Figueirense por 4 a 0 neste fim de semana, vem em sexto lugar. O campeão baiano começou perdendo para o Cruzeiro, depois empatou com Sport e agora venceu. Pela matemática, vem em ascensão.

E o Náutico perdeu para o Grêmio fora de casa, mas ainda está na zona da Libertadores.

Ou seja, neste começo de campeonato, os mineiros são radicais, os paulistas são incompetentes e os nordestinos não sofrem uma seca de pontos.
 

Por Torero às 06h08

25/05/2008

Resultado da Toreroteca

Ninguém acertou os seis resultados.

O Goiás derrubou muitos leitores. Poucos esperavam que o lanterna Ipatinga conseguisse arrancar um empate fora de casa.

Outro jogo que derrubou muitos torcedores foi o empate do São Paulo. A maioria cravou no tricolor. Mas parece que Adriano fará muita falta. 

Bruno tasca, de Salvador, acertou cinco palpites, mas errou no jogo entre Botafogo e Vasco.

Não é fácil ser um Zé Cabala eficiente.

Tentaremos de novo na próxima semana. 

Por Torero às 21h57

Sempre aos domingos

Sempre aos domingos

Pequenas equipes, grandes espetáculos

Por MAURÍCIO FERNANDES

O futebol não depende de milhões de euros ou belos estádios. Essa paixão ludopédica nem mesmo precisa de grama ou trave. Prova disso são peladas inesquecíveis nas praias em que as traves são feitas com chinelos. O esporte mais popular do mundo tem a essência na paixão de seus seguidores, no sentimento verdadeiro que iguala pais e filhos.

É um esporte ingrato, pois basta olhar os torcedores num estádio para perceber que eles não se divertem. A comemoração de um gol é mais parecida com raiva e desabafo do que com alegria. Alegria só nas goleadas. O jogo é para sofrer. Nada se compara ao sentimento do gol na vitória por 1 a 0.

O time de cada um é, por muitas vezes, o que mais se preza na vida. Vale a velha frase: “homem que é homem muda até de sexo, mas não de time”. Pois vá perguntar a um torcedor do Juventus se o Real Madrid é mais importante que a tradicional equipe que veste grená. E, de fato, há que se respeitar o cenário que serviu para Pelé, segundo ele mesmo, fazer seu gol mais bonito da carreira. Os espanhóis, mesmo com o manto imaculado, todo branco, não alcançam as mesmas histórias que só as entranhas da Rua Javari podem guardar.

Se o futebol é dramático por DNA, os clubes menores são verdadeiros Gardéis cantando o tango de chuteiras. O esquema novo do esporte e as más administrações de grande parte das equipes decidiram assim: os pequenos tradicionais correm perigo de extinção qual as velhas e simpáticas farmácias de bairro. Apesar das dificuldades, o exército de fanáticos, composto por eternas crianças, não pára.

O time do bairro pode não ter garantia de futuro com êxito, mas é certeza que seguirá vivo no coração e na mente de sua gente. As pelejas da rua explicam os grandes clássicos europeus. O objetivo é o mesmo, a conquista dos três pontos, como dizem os milionários futebolistas em discurso ensaiado.

Histórias desses clubes não faltam. Podemos contar outra do Rei, que quase teve sua carreira encerrada por causa do Jabaquara, durante um torneio municipal com jovens jogadores. Pelé perdeu um pênalti que resultou na derrota do Santos Futebol Clube. O menino ficou tão abalado que, acreditem, já estava de malas prontas para voltar a Bauru quando foi convencido a ficar.

Há também histórias de feitos grandiosos. Pelos arredores do Brinco de Ouro da Princesa, os amantes do Guarani não esquecem o título brasileiro de 1978. Aquele campeonato ficará na memória com as lembranças da época que a princesa, dona dos brincos, namorava Careca e Zenon.

Que a bola (ou qualquer objeto que sirva para impulsionar uma pelada) entre no gol (ou qualquer lugar com essa função) e os amantes do esporte mereçam comemorações lúdicas e verdadeiras, seja em qualquer parte do planeta redondo.

Por Torero às 21h41

23/05/2008

Toreroteca

E lá vamos nós de novo.

Desta vez, os seis jogos são:

Sport x Fluminense: O Sport, em casa, anda praticamente imbatível. E o Flu pode ir à meia força. Vou de coluna 1. 

Goiás x Ipatinga: Dois times que andam penando. Para piorar, acho que dará empate.

Cruzeiro x Santos: O Cruzeiro joga em casa e o Santos deve estar em depressão pela desclassificação na Libertadores. Objetivamente eu deveria votar no Cruzeiro, mas não consigo e marco empate.

São Paulo x Coritiba: O São Paulo vem de uma ressaca. O Coritiba perdeu do Figueirense. Acho que o São Paulo se recupera e vence.

Botafogo x Vasco: Os dois estão na Copa do Brasil e não devem entrar a 100%. Vou de empate.

Atlético Paranaense x Atlético-MG: Neste duelo de Atléticos, nenhum parece ser candidato ao título. Acho que deve prevalecer o time da casa. 

Mande aí seu voto. O primeiro a acertar os seis resultados ganha um livro deste que vos escreve (o que é mais punição que prêmio). 

 

Por Torero às 10h55

22/05/2008

1982 - Minhoca na cabeça

Sexo e futebol são a mesma coisa. Nos dois há defesa, ataque, torcida, intervalo, troca de camisas, jogadas pelas pontas, avanços pelo meio, triangulações, penetração e, claro, gols!

Mas as coincidências não param por aí. Acredito mesmo que haja uma espécie de ligação mágica entre ambos, e minha história é sobre isso.

Para começar, tenho que volver aos dezessete anos, quando passei no vestibular para medicina. Meu sonho era ser ginecologista.

Papai, todo orgulhoso, chamou-me num canto, bem longe de mamãe, e disse:

— Minhoca, meu filho, você merece um prêmio!

— Porque serei médico e ajudarei as pessoas na luta contra as doenças?

— Sim, isso também, mas principalmente por me dar motivo para contar vantagem nas reuniões de família.

— E qual será o meu prêmio?

— Vou lhe dar três opções: um carro, uma noite no melhor bordel da cidade e uma passagem para ver a Copa da Espanha.

Não foi fácil escolher. Naquele tempo, como todo adolescente, eu era um monte de hormônios cercado de espinhas por todos os lados. E tinha três amores: carros, futebol e mulheres. Assim meus ídolos eram Bruna Lombardi e Emerson Fittipaldi, Xuxa e Pelé, Brunet e Piquet, Magda Cotrofe e Serginho Chulapa.


Decisões difíceis pedem métodos científicos. Fiz u-ni-du-ni-tê, sa-la-mê-min-guê etc..., e venceu o futebol.

Chegando a Sevilha, meu sorriso ia duma orelha a outra. A cidade, os monumentos e as sevilhanas me deixavam babando. Mas nada, nada me animava tanto quanto a idéia de ver o Brasil ganhar aquela Copa. Também pudera: aquele time do Telê Santana empolgava até defunto!

No gol, tínhamos o Valdir Perez, conhecido também como São Valdir, um goleiro daqueles que fazem milagres e passam confiança ao time. À frente dele, o excelente Leandro, o seguro Oscar, o clássico Luisinho e o mestre Júnior. Bela defesa, todos em ótima fase!

No ataque, para jogar de pivô e fazer gols, o matador Serginho. Na esquerda, o canhão de Éder no melhor momento da carreira.

Mas era o quadrado mágico do meio-campo que enchia os olhos. Protegendo a zaga e jogando o fino, tanto na marcação como no ataque, Cerezo. Ao lado dele, a habilidade, a classe, o ritmo e a inteligência de Falcão. Finalmente, os meias: dois craques de primeiríssima linha, dois semideuses do futebol: Zico e Sócrates.

No banco, Carlos, Edinho, Batista, Paulo Isidoro, Dirceu, Careca e Roberto Dinamite. Era ou não era para sonhar?

No dia da primeira partida contra a União Soviética eu andava tanto de um lado para outro que parecia que estava com pulgas. Para você ter uma idéia, acordei às duas da madrugada e fui vestir meu uniforme de torcedor. Apesar de já tê-lo colocado umas cem vezes, queria ver o efeito que dava com as luzes do banheiro. Eu usava uma camisa da seleção — número 10 — combinando com uma calça verde-limão berrante. Na cabeça e nos pulsos amarrava umas fitinhas verde-amarelas, do tipo daquelas do Senhor do Bonfim, e meus tênis eram de cores diferentes: um azul e outro branco.

Pela manhã resolvi dar uma volta no parque. Levei meu radinho de pilha para escutar programas esportivos. Coloquei-o bem perto do ouvido e ia atravessando a rua distraído quando... Pou!, um carro me atropelou! Foi só um arranhão no joelho, mas a motorista fez questão que eu fosse até a casa dela para cuidar do machucado.

Lá fiquei sabendo que ela se chamava Ekaterina, tinha fugido de Moscou e trabalhava como mecânica de automóveis. Foi então que, esparadrapo pra cá, mertiolate pra lá, acabou acontecendo. Ela já passara dos quarenta anos, tinha braços de lenhador e não era uma princesa, mas, como já disse, eu estava naquela idade em que a gente tem mais hormônios que neurônios. Depois, coloquei minhas roupas e fui para o estádio.

A partida foi bastante tensa. O Brasil mostrou-se muito superior tecnicamente, mas alguns problemas já se faziam notar: Luisinho, que no Atlético era só classe e categoria, estava uma pilha de nervos e cometeu dois pênaltis que o simpático juiz espanhol ignorou. Serginho, inibido, também não era o mesmo do São Paulo.

Ainda no primeiro tempo, numa descida besta dos soviéticos, um tal de Bal arriscou da entrada da área e babau. Valdir Perez, desligado, deixou a bola escapar pelo lado. Aquilo foi mais que um frango, foi um peru!

 

O Brasil então martelou, martelou, martelou, mas só conseguiu furar a retranca aos trinta minutos do segundo tempo. Sócrates acertou um tiro da entrada da área e estufou as redes. Em seguida, num lance genial, Falcão deixou a bola rolar por baixo das pernas e ela sobrou para Éder, que vinha desmarcado pelo meio e, bum!, despachou o míssil. Até hoje me lembro da cara do goleiro Dasaev.

No outro dia, saí para comprar umas ataduras para o joelho. Talvez por causa de meu charme, talvez por minha roupa estravagante, a balconista da farmácia puxou conversa. Você pode não acreditar, mas ela era escocesa e chamava-se Molly.

Molly não era exatamente uma miss: tinha dentes como os do Fio Maravilha, um rosto que lembrava o Rosemiro, pernas que pareciam as do Garrincha e o buço tinha um quê de Rivelino. Mas ela possuía uma grande beleza no interior. No interior do sutiã. Comecei então a elogiá-la de tudo quanto é jeito. Disse que ela era simpática, inteligente e até bonita. Deu certo. Não demorou e, pimba!, estávamos no meu quarto.

 O Osmar Santos chamava o Rosemiro de: "O namoradinho da Raquel Welch".

À noite aconteceu o jogo entre Brasil e Escócia. Vencemos por 4 a 1, com um show de Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. E o Éder ainda fez um golaço, tocando por cobertura do bico da grande área. O goleiro Rough, que esperava um petardo, ficou no meio do caminho, pasmo, petrificado.

Chegando ao hotel, comecei a pensar sobre aquelas coincidências: no dia de Ekaterina, ganhamos da União Soviética. No dia de Molly, vencemos a Escócia... Era claro que havia algum tipo de ligação entre as minhas conquistas e as do Brasil. Ou, dizendo de outro jeito, a performance da seleção dependia da minha.

O adversário seguinte foi a Nova Zelândia. Tudo bem, a Nova Zelândia era um time fraquinho e tudo, porém eu estava com aquele negócio na cabeça: achava que se eu não cumprisse com a minha obrigação o Brasil perderia.

Mas onde é que eu ia arrumar uma neozelandesa?

Sei que é difícil de acreditar, mas fui até o consulado e comecei a cantar a recepcionista. Ela se chamava Eleanor e era... digamos, rechonchudinha. Na verdade, era redonda feito uma bola de boliche. De boliche não, de basquete, que é maior. Levei flores e disse que a observava há um ano. Falei que ela era exatamente o meu tipo, porque eu achava que, em matéria de mulher, quanto mais, melhor. Ela adorou a história e me levou para passear no campo. Infelizmente o seu carro era uma Romisetta, e isso deixou-me com as costas doendo. Mas valeu a pena.


O jogo foi um passeio e nós fizemos um gordo placar de 4 a 0, com dois belíssimos gols de Zico. Falcão e Serginho completaram.

Nessa Copa, depois da primeira fase, os times foram divididos em grupos de três. O Brasil foi para Barcelona, na chave em que estavam a Argentina, campeã do mundo, e a Itália, que se classificara com três suados empates.

O primeiro jogo seria contra o time de Maradona e, na noite anterior, fui jantar num restaurante argentino. Decidi investir numa garçonete que nascera em Rosário. Ela era vesga e mais magra que uma vara de pescar. De qualquer forma, depois de uns falsos olhares, uns falsos elogios e um falso rubi, Pilar aceitou deitar-se comigo.

 O que não fazemos para vencer Maradona...

Aquele jogo era tudo ou nada para os platinos. Na primeira rodada eles tinham perdido para a Itália por 2 a 1 e o clima, que sempre costuma ser quente entre Brasil e Argentina, estava fervendo.

Logo aos onze minutos, depois de uma falta em que Éder mandou a bola no travessão, Zico apareceu rápido e empurrou para o gol. Aí eles vieram para cima, mas o Valdir Perez resolveu mostrar serviço.

No segundo tempo, Serginho, de cabeça, ampliou e Júnior fez um golaço, dando um toquinho matreiro na saída de Fillol. O Brasil jogou tão bem que Diego Maradona descontrolou-se e deu uma entrada feia em Batista, sendo expulso em seguida. Ramón Díaz ainda descontou, mas já era tarde. Brasil 3 a 1.

Veio então o 5 de julho de 1982, dia da decisão do grupo entre Brasil e Itália. Fui até o porteiro e perguntei:

— Salvador, onde é que posso encontrar umas italianas? Mas quero umas italianas divinas, se é que você me entende.

Salvador piscou o olho e disse: — Entendo perfeitamente, senhor.

Tomei nota do endereço e, animadíssimo, peguei um táxi.

Fui deixado em frente a uma casa que ficava na saída da cidade e era cercada por muros gigantescos. Pensei: essas italianas devem ser caríssimas, mas tudo bem, a classificação vale o sacrifício.

Toquei a campainha e, quando a enorme porta se abriu, dei de cara com uma mulher vestida de freira. Pensei: esse lugar deve ser bom mesmo. Aposto que lá dentro vou encontrar uma com roupa de estudante, outra com roupa de Mulher-Gato...

Entrei, apresentei-me e, com um sorrisinho picante, disse que tinha vindo por intermédio do Salvador.

— Todos vêm aqui por intermédio dele.

— Grande Salvador!

— Amém, meu filho.

— Como você se chama, boneca?

— Sóror Madalena.

— Eu sou o Minhoca.

— E o senhor Minhoca veio aqui em busca de quê?

— Do mesmo que todo mundo.

— Gozo celeste?

— Grande Madalena!

— Venha comigo.

Ela me tomou pela mão e me conduziu por um corredor úmido e escuro. Só o que se ouvia era o som de nossos sapatos e, ao fundo, umas músicas e uns murmúrios. No fim, chegamos a uma capela onde dezenas de freiras rezavam ajoelhadas. Só então entendi que aquela grande casa não era um bordel de luxo, mas um convento: o convento das Irmãs de Santa Chiara.

Rezei um pouco para não ficar chato, dei umas moedas a sóror Madalena e depois saí correndo para o estádio Sarriá.

Para não me sentir culpado, no caminho procurei me convencer de que aquela história toda era apenas uma superstição idiota. Pois bem, mal começou o jogo e aconteceu uma pane na nossa defesa. Depois de um cruzamento da esquerda, Paolo Rossi apareceu livre entre Luisinho e Júnior e cabeceou forte, para baixo, sem chance para Valdir Perez.


O Brasil foi à luta, pressionou e empatou depois de uma tabela entre Zico e Sócrates, que terminou com um toque genial do Doutor no contrapé de Zoff. Pensei que íamos deslanchar, mas a Itália possuía jogadores habilidosos, inteligentes e entrosados, como Gentile, Cabrini, Antonioni, Tardelli e Conti. Não ia ser fácil.

Aos 25 minutos, o lance que até hoje dói na alma. Cerezo, saindo pela direita, resolveu dar um passe para Luisinho, no miolo da defesa. A bola passou rasteirinha pelas costas de Oscar e ficou dividida entre Luisinho e Paolo Rossi. O italiano foi mais esperto, roubou a bola, avançou e tchum: 2 a 1.


Por que Cerezo não deu um bico para a frente? Por que Luisinho não derrubou Rossi? Por que Valdir Perez não fez um milagre? Por que o gol não diminuiu de tamanho? São perguntas que me faço até hoje.

No primeiro segundo do segundo tempo, o Brasil já estava lá, martelando, mas quando Scirea e Colovatti não afastavam o perigo, Zoff evitava o gol. De tanto insistir, conseguimos o empate: tirambaço de Falcão depois de uma bela jogada sem bola de Cerezo. Foi um gol tão bonito, tão sofrido, que eu achei que nada mais de ruim poderia acontecer.

Mas aconteceu. Depois de um escanteio houve um bate-rebate e Paolo Rossi, sozinho na linha da pequena área, fulminou Valdir Perez.

Faltavam quinze minutos e fomos com os dez para cima da Itália. Foi uma pressão terrível, mas eles agüentaram bem e, quando tinham a bola nos pés, sabiam o que fazer. No último minuto, Oscar acertou uma cabeçada que parecia ser mortal, mas Zoff resolveu fazer um milagre. Era o fim.

Depois daquela tarde inesquecível de Paolo Rossi, a Azzurra pegou embalo e, já na semifinal, liquidou a Polônia com outros dois gols dele. Na decisão, nem mesmo a forte Alemanha de Breitner e Rummenigge foi páreo. Vitória bonita, por incontestáveis 3 a 1: Rossi de novo, Tardelli e Altobelli.

Vendo a final pela tevê, fiquei com os olhos vermelhos como no dia em que saí do Sarriá. A Itália era uma digna campeã, mas nós éramos melhores e poderíamos ter erguido a taça. Aquela seleção jogava bonito, encantava, mas, por minha culpa, perdeu.

Entre lágrimas e suspiros, prometi a mim mesmo: em 86 não vou falhar.

Por Torero às 07h38

20/05/2008

Zé cabala e o Príncipe

Para ler a entrevista que fiz com um príncipe, via Zé Cabala, na Folha de hoje, assinantes do UOL e da Folha podem clicar aqui no xis: "x".

Por Torero às 07h18

19/05/2008

Sempre aos domingos na segunda

Sempre aos domingos na segunda

(A seção "Sempre aos domingos" será publicada excepcionalmente nesta segunda porque ontem, depois de participar de uma corrida de 10 km em Santos, não consegui ter coordenação motora para colocá-la no ar.)  

 

Os gramados do nosso futebol: soluções (e tristes risadas).

por MÁRCIO R. CASTRO

Ao término do primeiro match disputado em terras brasileiras, os poucos curiosos que acompanharam a peleja correram em bloco em direção à estrela da tarde, Charles Miller, um rapazote de 20 anos. Diversos aspectos do jogo foram explorados até que Mr. Miller desse ênfase a um em particular: “o prélio foi mesmo empolgante, mas as condições do terreno...”.

Mais de cem anos se passaram, muita coisa mudou. Não as condições dos gramados pelo Brasil. Continuam lastimáveis, por todos os cantos do país.

Apesar do cenário ser usado demagogicamente por dirigentes, técnicos e jogadores, na tentativa de atenuar maus resultados, não há como negar a situação crítica em que nos encontramos. Apenas recentemente alguns clubes vêm se prontificando a reformar os gramados de seus estádios. Novas arenas e alguns campos administrados pelo poder público também escapam dessa conta, mas o resultado continua deprimente.

Parte da responsabilidade é dos próprios clubes, geralmente administrados de forma amadora, controlados ad infinitum por clãs políticos e usados por seus dirigentes para interesses pessoais. Porém, devemos lembrar que a maioria dos clubes apenas luta para se manter, muito distante das possibilidades de arrecadação das grandes equipes (ainda que os “grandes” não as aproveitem tão bem). Portanto, existe também componente econômico nessa equação.

Desse modo, sendo a má qualidade dos gramados brasileiros um problema generalizado, com os clubes vivendo em constante dificuldade financeira e numa cultura auto-destrutiva, não caberia uma participação ativa da CBF em busca de melhorias?

Sem dúvida que sim. E qual é o plano dos nossos cartolas? Pois é, nem adianta tentar se lembrar. Em tese, CBF e Federações deveriam ser as primeiras a se preocupar com a boa saúde do esporte, com melhores condições para os atletas, com o respeito aos torcedores. Eu sei, eu sei, também posso ouvir as risadas.

E o pior é que mesmo havendo possibilidade de vantagens comerciais (único momento em que os olhinhos de nossos dirigentes brilham de verdade), nada acontece. Afinal, gramados em boas condições potencializam o espetáculo, o que atrai torcedores e investimento. Mas essa me parece ser uma perspectiva muito longínqua para causar sequer um bocejo na cartolagem.

Não fosse o total desinteresse, uma ação efetiva não seria nada utópica. Sob a liderança da CBF, cada federação criaria uma “Comissão de Gramados”, força-tarefa formada por engenheiros agrônomos, técnicos em equipamentos e outros profissionais especializados. Essa equipe elaboraria um manual de cuidados básicos, com orientações quanto à irrigação, corte, manutenção pós-jogo etc. O manual seria disponibilizado a todos os clubes, mesmo os amadores.

Periodicamente, a comissão realizaria visitas técnicas a todos os estádios que abrigam jogos das principais divisões estaduais. A partir dos diagnósticos, os reparos seriam iniciados, primeiramente com a comissão trabalhando diretamente no local e na seqüência pelos funcionários responsáveis pelos gramados, devidamente orientados.

Por se tratar de um projeto universalista, as reformas não contariam com intervenções mais dispendiosas, como sistema de irrigação eletrônica. Nesse momento, a preocupação é dar boas condições a um número elevado de campos, não alcançar excelência em poucos gramados.

Em dois anos, no máximo, a comissão faria uma avaliação final dos campos reformados. No caso de algum gramado não apresentar as condições esperadas, jogos profissionais seriam vetados nessas praças até a finalização dos ajustes. Depois desse primeiro período, caberia aos clubes e proprietários a manutenção dos gramados. No meio e no fim de cada temporada, novas inspeções seriam realizadas, não se permitindo retrocessos.

Os investimentos do projeto seriam divididos entre clubes, federações e CBF, mas as entidades dirigentes arcariam com parte destacada dos custos. Por se tratar de uma proposta bastante abrangente, é de se esperar que os valores envolvidos não sejam baixos. De onde viria a verba necessária?

Principalmente da CBF, que mantém várias fontes de recursos. A entidade tem despesas, obviamente, mas a relação custo/receita é muito positiva, o que não é o caso dos clubes. Em menor escala, as Federações também têm receitas suficientes para custear parte do projeto. Além disso, o programa pode ser dividido em etapas, estabelecendo-se prioridades. Definitivamente, falta de recursos não inviabilizaria a idéia.

É praticamente impossível que transcorra sem percalços um projeto dessa magnitude, revisões de cronograma e adaptações devem mesmo ocorrer. O essencial é não se perder de vista o resultado esperado: gramados em condições adequadas por todo o Brasil, reduzindo drasticamente um problema que assola nosso futebol desde sempre. Só depende de alguma organização, competência e, primordialmente, boa vontade por parte dos nossos cartolas. Eu sei, eu sei, também posso ouvir as risadas.

Por Torero às 22h24

Boa entrevista

Para ler a entrevista de José Miguel Wisnick sobre seu livro Veneno Remédio, que fala de futebol, assinates do UOl e da Folha podem clicar aqui.

Por Torero às 21h42

Náutico larga na frente

E, quem diria?, depois de duas rodadas o líder do campeonato não é o Palmeiras de Luxemburgo, o São Paulo de Adriano, o Flamengo do Maracanã ou o Inter de Fernandão, mas o Náutico. O Náutico de Geraldo.

 Geraldo, o líder do líder.

É bem verdade que na primeira rodada ele ganhou do Goiás por um placar apertado, e em casa. E na segunda enfrentou os reservas do Fluminense. Mas tão incontestável quanto isso é o fato de que o Timbu é o líder do Brasileirão 2008. Contra os números não há argumentos.

Falando em números, dos mais de mil votos dos leitores do blog, o Náutico recebeu menos de 1% de indicações para ser o campeão.

Boa parte da liderança do alvirrubro deve-se ao (por aqui) desconhecido Geraldo. O meia já tem 34 anos e começou no Vasco (não o do Rio, o de Sergipe). Andou pelo nordeste, pela Arábia e por Portugal. Voltou e foi o artilheiro do campeonato Pernambucano deste ano, com 13 gols. Em 2007, muitas vezes era ele quem deixava Acosta na cara do gol.

Mas os números mais curiosos do Brasileiro pertencem à Portuguesa. Ela tem o segundo melhor ataque e a pior defesa do campeonato. É um time de extremos. E principalmente por conta daquele raríssimo 5 a 5 contra o Figueirense.

Aliás, o campeão catarinense começou com o pé direito. Na primeira rodada arrancou um empate fora de casa e na segunda ganhou do Coritiba, que por sua vez havia vencido o rico Palmeiras. Seu time tem muitos jogadores vindos das equipes de base e alguns veteranos, como César Prates (33), que já esteve no Vasco, no Corinthians, no Galatasaray e no italiano Chievo, e Rodrigo Fabri, uma promessa que já tem 32 anos.

Mas o Figuerense perdeu duas peças importantes esta semana. O bom zagueiro Felipe Santana, que marcou dois gols na estréia contra a Portuguesa, vai para o Borussia Dortmund. E o técnico Gallo deve ir para o Galo. 

Outro time que deve perder um jogador é o vice-líder Cruzeiro. O artilheiro boliviano Marcelo Moreno deve ir para o Roma ou para o Shakhtar Donetsk. Nem bem o campeonato começou e os times já perdem seus melhores jogadores.

O campeonato está embolado. É claro que só temos duas rodadas, mas mesmo assim só há três times 100%: os líderes Náutico e Cruzeiro e o lanterna Ipatinga (no caso, 100% de pontos perdidos, mas o time não é tão ruim).

Esta emaranhada tabela de classificação poderia indicar que teremos um campeonato equilibradíssimo, mas não. Alguns bons times estão mais empenhados em outros campeonatos e a temporada de caça aos jogadores brasileiros está aberta. Ou seja, os times que vemos hoje não serão os times que veremos daqui a algumas rodadas.

Por isso, só nos resta viver o presente, e o presente diz que o Náutico é líder do Brasileirão.

Por Torero às 09h07

18/05/2008

Toreroteca

E novamente ficamos sem vencedores na Toreroteca. O Náutico, líder do campeonato, acabou derrubando muita gente. E os três empates derrubaram os outros poucos que ficaram de pé. Para consolo do leitor, acertei apenas dois votos.

Por Torero às 21h07

16/05/2008

Toreroteca

Vamos aos seis jogos da Toreroteca desta semana. O primeiro hexacertador ganha, como castigo, um exemplar de "Os vermes".

Escolhi só jogos que acontecem no domingo, pois assim pode-se votar no sábado.

O primeiro jogo é entre Grêmio e Flamengo, que deve ser bem interessante. 

Depois, o jogo de dois vices estaduais que andam meio em baixa: Goiás e Atlético-MG  

Figueirense e Coritiba farão um belo clássico sulino.

Palmeiras e Internacional travam um duelo de favoritos.

Fluminense e Náutico é o quinto jogo.

E o sexto fica para Atlético Paranaense e São Paulo, que já fizeram belos duelos.  

Meu palpite: Grêmio, Goiás, Coritiba, Palmeiras, Fluminense e empate.

Por Torero às 12h27

Bidecepção

  

Começo com uma confissão: um de meus muitos defeitos é gostar de histórias de super-heróis. Quando pequeno lia tudo da Marvel e da DC, e mesmo hoje em dia gasto um certo dinheiro em gibis.

Sendo assim, decidi ver Homem de Ferro e Speed Racer, que não era em história em quadrinhos, mas era um dos heróis do meu tempo. Pensei que teria uma super diversão, mas fiquei superdecepcionado.

Speed Racer é um filme belo, mas a história é confusa. Meu sobrinho Lelê até dormiu. Uma judiação com crianças. E olhe que fui ver a versão dublada (fui mesmo com três crianças, de 7, 9 e 12 anos, e só a última entendeu algo. Mesmo eu boiei em relação a algumas coisas). Enfim, saí aborrecido.

No dia seguinte tentei me livrar do gosto amargo assistindo ao Homem de Ferro, mas acabei ficando bidecepcionado. Para começar, sempre que olhava o Robert Downey Jr. com aquela barbicha, pensava que ele estava parecido com o Clóvis Bornay. E, para aumentar a parecência, a fantasia do Home de Ferro é cheia de ouros e vermelhos. Um luxo (pronuncia-se "luquiço")!

Mas, além disso, o filme é meio desagradável na parte ideológica. Tony Stark, um fabricante de armas, só se comove quando suas armas são utilizadas para matar soldados americanos. Ou seja, para matar afegãos, tudo bem. É um pacifista de um lado só. O que, aliás, é uma atitude tão  norte-americana quanto o cheeseburger.

Juntando esta mensagem pouco simpática, o excesso de violência e o cavanhaque pouco inspirador, saí mais chateado do segundo filme que do primeiro.

Entre os recentes filmes de super-heróis, Homem-Aranha 1 ganha disparado.

É uma pena que, agora que temos tecnologia para fazer este tipo de filmes com realismo, não tenhamos roteiros à altura das grandes histórias em  quadrinhos dos anos 70 e 80. O "Cavaleiro das Trevas" e "Ronin", de Frank Miller, dão de dez a zero nas histórias dos filmes de hoje.

Minha esperança era Watchmen, baseado no clássico de Alan Moore (uma leitura imperdível). Mas vi uma entrevista do diretor no youtube e fiquei com o pé atrás. Depois que Alan Moore disse que não verá o filme, fiquei com os dois pés atrás.

Roliúde tem o toque de Midas, que tansformava tudo que tocava em ouro. Mas também o de seu irmão gêmeo Mirdas. Aquele que transformava tudo em lixo.

Por Torero às 07h43

15/05/2008

1978 – Tinha um peru no meio do caminho

1978 – Tinha um peru no meio do caminho

A Copa de 1978 foi na Argentina. Estava havendo lá uns atentados, seqüestros e coisa e tal. Por causa disso a Copa quase teve que mudar de lugar na última hora, mas os guerrilheiros fizeram um pacto com o governo, jurando que não aprontariam nada durante os jogos.

Novamente a delegação teve que ter uns seguranças e novamente lá estava eu. Logo que cheguei, recebi uma visita inesperada na concentração. Foi uma alegria só.

— Brutus!

Eu não via o meu amigo desde 1975. No quartel disseram-me que ele andava fazendo palestras pela América do Sul.

— Cândido, seu estúpido! — disse ele, mas esse “estúpido”, eu creio, era no sentido positivo da palavra.

— Você não estava no Chile? — perguntei.

— Fiquei lá um tempo, mas me convidaram para vir aqui dar um curso de “Estratégias de convencimento e persuasão”.

— O que que é isso?

— Você não ia entender, deixa pra lá.

— E está trabalhando muito?

— Feito um animal. A Argentina é um excelente campo para os profissionais do meu ramo.

 O Brutus disse que a Casa Rosada era branca, mas ficou rosada por causa do sangue dos vermelhos. Até hoje não entendi a piada. 

Começamos então a falar de futebol. Eu expliquei a ele que depois do trauma de 1974 começou um debate maluco em todo o país. Uns falavam que era preciso dar mais valor à estratégia, outros diziam que o jogador brasileiro era um artista que nunca se adaptaria aos rigores da tática européia.

Um dos principais defensores das novas idéias era o técnico Cláudio Coutinho. Ele chocava a imprensa com expressões do tipo overlaping e ponto futuro, e fazia experiências esquisitas para a época, como jogar com dois volantes. Invencionices à parte, a equipe impunha respeito: Leão; Toninho, Oscar, Amaral e Edinho; Batista, Toninho Cerezo, Zico e Rivelino; Gil e Reinaldo.

Ainda assim, o desgramado do Brutus, sempre com aquela desconfiança, achou que não era time suficiente para ser campeão: — Essa Copa já tem dono, cândido. Os argentinos vão ganhar para o povo ficar sossegado por uns tempos.

Nossa estréia aconteceu em Mar del Plata, contra a Suécia, num jogo que lembrou os da Copa de 74. Edinho não se acertava na lateral, Cerezo errava a maioria dos passes, e Zico e Reinaldo estavam tímidos que nem menina da roça. Lá pelas tantas, para ajudar, Rivelino se machucou.

Mas como desgraça pouca é bobagem, no segundo tempo o Coutinho deu um jeito de o ruim ficar pior: tirou Gil e colocou Nelinho, formando um ataque esdrúxulo com dois laterais. Ficamos no 1 a 1, golzinho sem graça de Reinaldo.

Nesse jogo, porém, no último minuto, houve um lance inacreditável: era escanteio para nós. A bola veio e o Zico, de cabeça, mandou para o fundo do gol, mas o juiz, um galês chamado Clive Thomas, disse que tinha encerrado a partida enquanto a bola estava no ar. Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas. 

 Este é o Clive Thomas. Enganos acontecem, coitado.

Quatro dias depois, contra a Espanha, o Brasil conseguiu o que parecia impossível: fez a gente sentir saudade do jogo contra a Suécia. Coutinho insistia nas excentricidades e o time não rendia. Aliás, nós só não perdemos para a Espanha porque aconteceu um milagre: o lateral deles fez um cruzamento para o atacante Santillana, e Leão saiu mal para cortar o cruzamento. Santillana chegou primeiro, tocou para Juanito e este avançou para o gol. Só o zagueiro Amaral, em cima da linha, podia evitar o desastre. Quando Juanito estava a três passos do gol, arriscou o chute.

Vou ser sincero: não tive coragem de olhar. Baixei a cabeça, fechei os olhos e fiquei ali, durinho, esperando o pior. Mas aí, em vez de eu escutar um “goooooool”, ouvi um “uuuuuh”. Então abri o olho esquerdo, olhei pro Brutus e vi ele beijando uma medalhinha de Nossa Senhora Aparecida:

— O Amaral tirou, Cândido! Pra frente, Brasil!

Depois desse jogo, a delegação entrou em crise. A imprensa descia o pau, todo mundo dava palpite. Até o Brutus, quando foi visitar a concentração, deu o seu. Ele chegou meio bêbado para o almirante Heleno Nunes e disse: — Esse time só tem uma solução: dinamite! — O almirante acabou chamando o Coutinho para uma reunião secreta. Não sei o que eles falaram lá, mas foram anunciadas algumas mudanças.


Na lateral-esquerda saía o Edinho (que na verdade era quarto-zagueiro) e entrava o simples e competente Rodrigues Neto.

Na meia-direita saía o Zico e entrava o Jorge Mendonça.

No ataque, atendendo ao pedido do Brutus, entrava o Roberto Dinamite no lugar do Reinaldo.

Foi um alívio. O Brasil finalmente achou um padrão de jogo e mostrou a sua força. Vencemos a Áustria por 1 a 0 e o gol, marcado justamente pelo Roberto Dinamite, fez o país inteiro explodir de alegria.

E lá fomos para a fase seguinte. Pegamos um grupo com Peru, Argentina e Polônia. Vá lá, eram jogos difíceis, mas eu estava esperançoso.

Logo na primeira partida, em Mendoza, a seleção brasileira confirmou o que eu pensava: estava pegando ritmo. Enfiamos 3 a 0 goela abaixo dos peruanos e jogamos bonito. Nessa partida o finado Dirceu comeu a bola: emplacou dois gols e foi o maestro do meio-campo. Cheio de personalidade. O terceiro quem fez foi o Zico, de pênalti.

Fomos então para o duelo contra os argentinos. Eu e Brutus pegamos o ônibus para Rosário e ficamos lá, quietinhos no meio dos hinchas. O Brutus estava de óculos, nariz e bigode falsos.

Cara estranho o Brutus.

Ninguém duvidava que dali sairia o finalista do grupo, por isso o jogo foi um nervosismo só! Na defesa, o Brasil fez tudo certo: prevendo que o pau ia comer, o Coutinho tirou o Toninho Cerezo e colocou o Chicão.

— Esse cara é o meu ídolo! — disse o Brutus.

O volante do São Paulo jogou como um xerife à frente da área e devolveu todas as botinadas que o pessoal da frente levou. Porém, faltou sorte no ataque, até na trave mandamos. Como a Argentina não se arriscou, no final o placar não saiu do 0 a 0.

Depois da Batalha de Rosário, a decisão ficou para a última rodada. O Brasil enfrentaria a Polônia e a Argentina o Peru.

Brasil e Polônia jogaram algumas horas antes de Argentina e Peru. O Brutus falou que isso era mutreta, porque os argentinos entrariam em campo sabendo quantos gols tinham que fazer. O meu amigo tinha cada idéia...

A Polônia era praticamente o mesmo time de 74, e ainda trazia novas estrelas como Lubanski e Boniek. Jogamos bem e vencemos por 3 a 1. Nelinho finalmente acertou um daqueles seus chutes tortos e Roberto Dinamite fez dois gols. Melhor ainda que a gente abriu um bom saldo. A Argentina só seria a finalista se ganhasse do Peru por quatro gols de diferença.

 Boniek era o Zico deles.

Eu e Brutus vimos essa partida na casa dele. Tinha uns objetos meio estranhos lá, mas o mais de todos era uma cadeira que parecia uma daquelas de barbeiro, só que com umas correias e uns fios. Ele chamava aquela poltrona de “cadeira do dragão”. Assisti ao jogo dali.

Reparei que na parede havia um quadro de cortiça com várias fotos.

— Seus amigos, Brutus?

— Mais ou menos.

— Tem um aqui com nome engraçado: Jiló!

— Esse eu conheci no Araguaia.

— Pescaria?

— Caça.

Então o Brutus fez pipoca e pôs um lacinho verde-amarelo na antena da tevê. Aos poucos, porém, a gente foi ficando verde de raiva e amarelo de tristeza.

Os jogadores peruanos, coitados, tiveram uma noite muito ruim: não se posicionaram direito, perderam bolas bobas, erraram passes e deixaram buracos na defesa. O goleiro deles, Quiroga — um argentino naturalizado peruano — vinha jogando muito bem, mas dessa vez levou gols fáceis. Acontece.

Quando a partida terminou, a decepção: 6 a 0. Brutus chamou Quiroga, Duarte, Rojas, Manzo, Chumpitaz, Quesada, Cueto, Cubillas, Muñante, Velásques e Oblitas de traidores. Houve até uma conversa de que cada um deles tinha ganhado cinqüenta mil dólares para facilitar a vitória argentina. Mas eu disse para o Brutus que nada tinha sido apurado e que não se devia acusar as pessoas sem provas. Ele não se conformou e disse:

— Se um dia eu for trabalhar no Peru, essa turma vai ver o que é bom pra tosse!

Fora das finais, o Brasil despediu-se diante de quase setenta mil pessoas no Monumental de Nuñez, contra a Itália. Vencemos bem, 2 a 1: Dirceu de novo, de fora da área, e Nelinho, com um gol de cinema, um chute que fez duas lindas curvas no ar e surpreendeu Dino Zoff.

Nelinho tinha um canhão no pé.

Saímos da Copa invictos mas em terceiro lugar. Coutinho, que adorava inventar expressões, disse que nós éramos os “campeões morais”. O Brutus, ainda chateado com aquele jogo contra o Peru, falou:

— Prefiro ser um campeão imoral de verdade do que um campeão moral de mentira.

A decisão foi disputada no dia seguinte, no mesmo Monumental de Nuñez, entre Argentina e Holanda. A Argentina marcou primeiro — Kempes —, e parecia que ia ganhar fácil, mas Naninnga, de cabeça, empatou aos 37 minutos do segundo tempo. No último minuto tivemos uma prova de que Deus pode até não ser brasileiro, mas seguramente não é holandês. Resenbrink foi lançado na ponta, adiantou-se aos zagueiros e tocou de leve na saída de Fillol: a bola pingou no chão e bateu na trave.

 Kempes, o herói da decisão.

No primeiro tempo da prorrogação, a profecia de Brutus se confirmou: Kempes trombou com Jongbloed e a bola ficou saltitando à frente do gol. Os holandeses correram para afastá-la, mas Kempes deu uma solada e empurrou a bola para as redes. O juiz ignorou os protestos. No segundo tempo, numa trama pelo meio da zaga, Bertoni marcou o terceiro e consolidou a vitória.

Acabado o jogo, o Brutus virou-se para mim:

— Viu? Eu não disse que a Argentina ganhava de qualquer jeito?

Eu respondi que eles venceram porque tinham um bom time, afinal não é todo dia que você junta Fillol, Passarella, Ardiles, Gallego, Luque e Kempes.

— Tá, mas você não achou umas coisas meio estranhas? — perguntou o Brutus.

— Como o quê?

— Por exemplo, se você pegar o mapa e fizer as contas, vai ver que, para jogar as sete partidas, o Brasil teve que viajar 4.659 quilômetros.

— E daí? A Argentina é um país muito grande.

— Mas a seleção deles só teve que percorrer 618 quilômetros.

— Caramba, que sorte! — eu disse. Não sei por quê, mas o Brutus ficou meio vermelho. Depois continuou:

— E não é só isso. Andei ouvindo que eles contrataram um cara só para fazer xixi, porque estavam tomando tanta anfetamina que nunca iam passar no exame antidoping.

— Imagina! Eles são profissionais, nunca iam fazer isso. Deve ser invenção da imprensa.

Ele ficou ainda mais vermelho e falou:

— E aquele jogo contra o Peru?

Eu, bem calmo, respondi:

— O Quiroga não estava inspirado.

Não sei se eu estou com impressão errada, mas acho que ele ficou ainda com mais raiva, tanto que do vermelho foi para o roxo. Aí falou assim, meio entre os dentes:

— Às vezes você é muito cândido, Cândido!

Naquela noite, enquanto toda a Argentina comemorava, Brutus preparou o jantar. Fiquei lendo umas revistas do Mickey e, quando ele me chamou para comer, vi que, bem no meio da mesa, havia um enorme peru assado. Nós nos sentamos e começamos a comer. Ele dava cada mordida que metia medo! Devia estar com uma fome tremenda. No corpo do bicho havia umas marcas meio esquisitas, como se fossem uns queimados.

— O que é isso, Brutus?

— Isso o quê?

— Essas marcas no peru...

— Essas seis, mesmo número de gols que levou a seleção do Peru e que parecem ter sido feitas com algum aparelho de eletrochoque de 100 volts e corrente de 10 ampères chamado “pimentinha”, muito usado por torturadores?

— É.

— Não sei, nem tinha reparado.

Cara estranho o Brutus. Nunca mais o vi depois daquela noite. Parece que morreu numa explosão, anos depois, no Rio de Janeiro. Uma coisa assim. Era um 1o de maio e ele estava num Puma, se não me engano. Teve quem dissesse que o carro explodiu por causa de uma bomba, mas deve ser mentira. O que o Brutus ia estar fazendo com uma bomba? Explodi-la no Riocentro e matar um monte de gente? Que bobagem! É a mesma coisa que dizer que teve tortura no Brasil.

Por Torero às 10h01

Sonho de Cassandra

Vi ontem o filme “Sonho de Cassandra”, de Wooddy Allen. Não dei nenhuma risada. E achei o filme bom à beça!

É tenso, possui boas cenas de suspense, a psicologia dos personagens é esférica (ao contrário dos personagens planos da maioria dos filmes roliudianos) e a trama é ótima (e eu economizo um bocado o adjetivo “ótima”).

Ela foge daquela curva padrão dos roteiros, onde se faz um primeiro plot point na página 30 e o segundo, na 60. Tem mais curvas, mais vaivéns e surpresas. Acho que até pisquei pouco durante o filme.

Me pergunto como Wooddy Allen consegue passar da comédia para algo tão sério, mantendo a qualidade? E como faz um filme por ano, sendo que vários deles são muito bons?

Ah, se inveja matasse, eu não estaria escrevendo este post.

Por Torero às 05h26

14/05/2008

10 perguntas

Depois do Santos e do Corinthians, chegou a vez do Palmeiras. Mande suas perguntas para o presidente Afonso Della Monica.

Por Torero às 06h06

13/05/2008

Ressacas

Boêmia leitora, alcoólatra leitor, as ressacas podem ser terríveis. Aposto que vocês sabem disso. Quem nunca teve uma ressaca que atire o primeiro Engov!

 

Os sintomas variam, mas em geral a cabeça dói tanto que a gente pensa que os neurônios se revoltaram, pegaram martelos e estão quebrando tudo por lá. A boca fica tão seca que não há Amazonas que cure sua sede. Há uma grande dificuldade de concentração (por exemplo, se você está de ressaca, já deve ter lido esta linha três vezes). E, como esta Folha pode estar sendo lida no café da manhã, nem vou falar em dores de estômago, náuseas e vômitos.

 

Para ler o resto do texto de hoje na Folha de S.Paulo, uolistas e folhistas podem clicar aqui.

Por Torero às 06h14

12/05/2008

Quem será o campeão Brasileiro?

vote aqui no lado esquerdo.

Por Torero às 17h11

Icebergs e pedras de gelo

Áuspice leitor, auspiciosa leitora, eu vos pergunto: Os resultados da primeira rodada do Brasileiro permitem alguma previsão sobre o que virá pela frente?

E eu vos respondo: Sim e não.

Alguns resultados são como pontas de iceberg: por eles já podemos vislumbrar um pouco do que o time irá fazer no resto do campeonato. Mas outros são apenas pedrinhas de gelo boiando no mar da incerteza.

Por exemplo, o Palmeiras perdeu. Isso significa que o projeto está no fim, ainda mais com a partida quase certa de Valdívia daqui a alguns meses? Não, claro que não. O time ainda sente a ressaca da vitória, mas até que não jogou mal. Na próxima rodada já deve estar nos trinques e, mesmo que perca Valdívia, continuará com um dos melhores times do país.

Outra pedra de gelo foi a derrota santista. O time estava tão ausente quanto a torcida no Maracanã. Jogando apenas com reservas, a vitória flamenguista foi praticamente um walkover (nome completo do famoso W.O.). Ou seja, nenhum santista precisa roer as unhas pelo começo infeliz.

Pontas de iceberg podem ter sido os resultados de Goiás, Atlético-MG e Ipatinga. Os dois primeiros perderam suas decisões estaduais de modo um tanto vexatório e não inspiram confiança. Mas o caso do Ipatinga parece ser mais sério. O time foi muito mal no estadual e perdeu em casa nesta primeira rodada. É um candidato ao rebaixamento.

Já os tricolores são um mistério. São Paulo e Fluminense ainda não conseguiram se firmar neste ano. Ambos têm boas equipes e bons técnicos, mas ficaram pelo caminho nos estaduais e, pior, não se mostraram muito estáveis.

Neste fim de semana, os dois jogaram com o freio de mão puxado, pois na quarta se enfrentam pela Libertadores. Mas os cariocas se saíram melhor. Com apenas um titular, empataram fora de casa. Já os paulistas, com alguns titulares, perderam no Morumbi. E para o Grêmio, que vem de um fracasso no estadual.

Talvez o time que se classifique na competição continental consiga se firmar e deslanchar.

Enfim, estas são as primeiras impressões desta primeira rodada. Podem não valer nada, mas, como diz o filósofo Zé Cabala: "Você nunca terá uma segunda chance para causar uma boa primeira impressão".

Por Torero às 08h12

11/05/2008

Toreroteca - resultado

Novamente, ninguém acertou os seis resultados. Alguns acertaram cinco. Eu fiquei nos três, derrubado pelo Coritiba (como a maioria dos leitores), pelo Santos, que jogou com o time reserva (o que esqueci que iria acontecer) e pelo empate sem gols entre Atlético-MG e Flu. 

Por Torero às 21h11

09/05/2008

Toreroteca

Até agora ninguém fez os seis pontos na Toreroteca, ninguém ganhou o troféu Zé Cabala. Pois vamos tentar de novo nesta rodada de abertura do Brasileiro. Ao vencedor, "Os Vermes" (o livro, não os próprios).

Selecionei apenas jogos de domingo. A saber:

Coritiba x Palmeiras

Internacional x Vasco

Flamengo x Santos

Atlético-MG x Fluminense

Botafogo x Sport

Ipatinga x Atlético Paranaense.

Vale apenas um voto por email.

O meu é: Empate, Inter, empate, Fluminense, Botafogo e Atlético.  

 

PS: Em caso de empate, ganha quem votou primeiro.

Por Torero às 12h13

08/05/2008

1974 – Uma copa torturante

1974 – Uma copa torturante

Nas Olimpíadas de Munique, em 1972, tinham acontecido atos de terrorismo contra a delegação de Israel. Então, na Copa de 74, que também seria na Alemanha, acharam melhor incluir uns seguranças na delegação brasileira.

Eu tinha vinte e poucos anos e acabara de entrar para o Exército, mas, como minha mãe era tia da cunhada do irmão do genro da sobrinha da nora do primo de um coronel, consegui uma vaga como segundo segurança do massagista.

O primeiro segurança, meu superior, era um cara que tinha um apelido engraçado: Brutus. Ele trabalhava num setor especial do Exército, um tal de SNI, Serviço Nacional de Informação. Ele me disse que era um “agente de captação de dados através de métodos heterodoxos”, o que não faço a menor idéia do que seja. Nunca perguntei, mas acho que o Brutus tinha esse apelido porque gostava muito dos desenhos do Popeye.

Antes que me esqueça, meu nome é Cândido. Cabo Cândido.

Logo que chegamos a Frankfurt, eu e Brutus descobrimos que tínhamos uma coisa em comum: gostávamos de jogar mau-mau; ficávamos horas nas cartas. Como eu sempre perdia, uma vez falei:

— Brutus, jogar mau-mau com você é uma tortura.

E ele respondeu com voz cavernosa: — Essa é a minha especialidade — e riu tanto que quase caiu da cadeira.

Bem, vamos ao que interessa.

O Brasil era o campeão do mundo, mas contusões e aposentadorias nos tiraram Pelé, Tostão, Gérson, Carlos Alberto, Brito e Clodoaldo.

No gol, Leão ganhou a vaga. A defesa era respeitável: Nelinho, Luís Pereira, Marinho Peres e Marinho Chagas. O meio-campo também era forte: Piazza, Rivelino e Paulo César. E o ataque era pelo menos razoável: Valdomiro, Leivinha e Jairzinho.

Eu achava que era time de sobra para o tetra. O Brutus não. Ele dizia que nome não ganha jogo e que o esquema do Zagallo era retranqueiro. Como eu era teimoso e ele era turrão, essa discussão começava logo de manhã no palitinho, continuava à tarde no dominó e só terminava à noite no mau-mau.

Campeão mundial, o Brasil fez a partida de abertura contra a Iugoslávia no Wald Stadion. Eu não duvidava da vitória. E por goleada!

 A iugoslávia era assim.

— Esses branquelos têm que comer muito mocotó para ganhar da gente!

— Não sei — disse o Brutus. — Comunista é duro na queda.

Ele estava certo. Foi um jogo lá e cá. Atrás nos agüentamos, mas do meio-campo para a frente, tirando Rivelino e Jairzinho, só tristeza. Paulo César — que tinha sido vendido antes da Copa para o Olympique de Marseille — parecia um pouco desmotivado; Leivinha não desencantava e Valdomiro ia bem, mas errava passes, chutes e cruzamentos. No fim, 0 a 0. Brutus tinha a sua explicação para o empate:

— Contra comunista tem que jogar duro, não adianta enfeitar!

Paciência. Lá fomos nós pegar a Escócia. Bebemos meia garrafa de uísque para comemorar por antecipação e Brutus foi para o estádio dizendo que não podíamos perder para um time que usava saias.

 A seleção escocesa entrando em campo.

Não podíamos, mas quase perdemos. O Brasil até que atacou, mas esbarrou na retaguarda dos escoceses. Os jogadores que tinham ido mal na primeira partida continuaram não indo bem. O Brutus não se conformou com aquele segundo 0 a 0:

— Assim não dá! O Leivinha tá apanhando mais que estudante em passeata, o Paulo César joga mais escondido que guerrilheiro e o Valdomiro tá mais isolado que o Partidão!

Nunca entendi muito bem as coisas que o Brutus falava. No dia seguinte, por exemplo, ele chegou para mim e cochichou: — Cândido, acho que esse Zagallo deve ter sido torturador no passado.

— Por quê, Brutus?

— Porque ele domina as técnicas da profissão. O time está tão mal escalado que dói, mas ele fica ali, impassível, só vendo a gente sofrer. E tem mais: numa boa tortura, o torturado não pode perder a esperança de vez, entende? Senão ele não se importa com mais nada. E é isso o que acontece com o Brasil. Esses empates mantêm o time vivo, mas a gente não pára de sofrer. Coisa de profissional.

O certo é que com aqueles dois empates estávamos mesmo numa sinuca de bico. Tudo se decidiria em Gelsenkirchen — eh, nominho! — no jogo contra o Zaire. Eles tinham tomado de 9 a 0 da Iugoslávia e de 2 a 0 da Escócia. O Brasil precisava então ganhar pelo menos por três gols de diferença.

Era isso ou o vôo de volta.

Nem dá para imaginar o estado de nervos em que o Brutus ficou. Ele dizia que até o time dos pracinhas da FEB, treinando direitinho, ganharia do Zaire, mas que aquela seleção...

E veio o jogo. Bola daqui, bola dali, o Brasil em cima e lhufas. Pensei que a gente ia virar o primeiro tempo já com uns quatro gols na frente. Que nada! O placar foi unzinho a zero, gol de Jairzinho. Veio o segundo tempo e continuou a lengalenga. O Brasil superior, mas sem rapidez, sem entrosamento, sem trama de jogadas.

— Parece o pessoal da esquerda — disse o Brutus.

Resultado: faltando quinze minutos, estávamos caindo fora da Copa.

Aí, para dar uma esperancinha, veio o segundo gol. A zaga deles rebateu mal e a bola caiu nos pés de Rivelino, que mandou o canhão para as redes. Mas aquele resultado ainda não bastava. Com o 2 a 0, os escoceses ficavam com a vaga.

E toca a roer unha!

Mas então, quando o juiz já ia apitar o toque de recolher, passaram a bola para o Valdomiro e ele resolveu mandar para o gol. Não era o mais recomendado: ele estava sem equilíbrio, não tinha ângulo e, para piorar, pegou esquisito na bola. Não me pergunte como, mas ela entrou. O goleiro Kazadi engoliu um dos maiores frangos da história das copas e, graças a ele, passamos para a fase seguinte.

 Valdomiro, o salvador.

E quem vinha pela frente? A Argentina, a Holanda e a Alemanha Oriental.

Aí o Zagallo resolveu mudar o time. Nelinho deu lugar a Zé Maria, saiu Piazza e entrou Paulo César Carpegianni, e Leivinha, contundido, foi substituído por Dirceu. Com isso o time passou do 4-3-3 para o 4-4-2.

Os progressos apareceram no jogo contra a Alemanha Oriental. Como naquela Copa tudo foi sofrido, o gol só saiu numa cobrança de falta. Jairzinho ficou no meio da barreira adversária e se abaixou na hora do chute. O Rivelino mandou o tiro bem naquele buraco e a bola estufou o canto direito do goleiro Croy. Inacreditável! O Brutus vibrou muito com aquele gol e ficou pulando de alegria.

— Isso é que é tática! Infiltra um espião no meio dos comunas e depois manda a bomba!

Ele era um cara meio estranho.

Bom, e lá vieram os argentinos. Era o primeiro Brasil x Argentina numa Copa. Rivelino, sempre ele, fez 1 a 0, batendo de fora da área, mas Brindisi empatou. Saímos do sufoco no segundo tempo, depois de uma roubada de bola do Zé Maria, que entrou pela área e cruzou para o Jairzinho. Belo gol!

 Zé Maria era uma figura (clique no Super Zé para ver os gols daquele jogo)

A decisão de quem iria à final seria contra os holandeses, que vinham de um 2 a 0 sobre os alemães orientais e de um 4 a 0 contra os argentinos. Eles podiam até empatar. Vi esse jogo pela televisão, ao lado do Brutus, ele ali dizendo que o Brasil tinha que se cuidar, que o futebol deles era moderno, coisa e tal.

Eu respondi meio bravo: — Quê! Isso é jogo de peladeiro!

Sinceramente era o que eu achava. Os laterais avançavam como se fossem pontas; o tal de Krol, que era zagueiro, se mandava para o ataque quando bem entendia; o pelé deles, o Cruyff, jogava em todos os lugares do campo; e eles não tinham centroavante, porque os dois da frente — Rep e Resenbrink — zanzavam pelo ataque para confundir a marcação. Tinha lá um Haan, habilidoso, e o tal de Neeskens, que entendia do riscado. Mas era só.

No primeiro tempo a partida foi equilibrada: eles mais rápidos, claro, e nós pesadões, tocando a bola, esperando a hora do bote. Mas no segundo tempo, num piscar de olhos, eles definiram o jogo. O primeiro gol foi de Neeskens, num chute dividido com Luís Pereira, que encobriu Leão. O segundo numa escapada rápida que acabou com um toque de chapa de Cruyff.

 (clique na imagem para ver os gols daquela triste partida)

Restou-nos decidir o terceiro lugar. Perdemos para a Polônia: 1 a 0, gol do carequinha Lato, artilheiro do mundial com sete gols.

Meu amigo ficou enfurecido com o resultado desse jogo: — Odeio perder para vermelhos! — Para espairecer, decidimos ir a uma cervejaria e escolhemos uma chamada Der Röte, que, por acaso, quer dizer “O vermelhão”.

O dono era um sujeito com bochechas rosadas, casado com uma mulata brasileira que tinha uns trezentos dentes muito brancos. Curiosamente, todos os garçons usavam ternos amarelos como uniforme.

Quando soube que éramos brasileiros, o dono do Der Röte veio até nossa mesa e apresentou-se:

— Minha nome ser Dieter Bonn, mas toda munda chama eu de Dito Bombom. Depois fez com que experimentássemos uns vinte tipos de cerveja, das mais variadas cores, texturas e gostos.

Os neurônios de Brutus ficaram tão bêbados que ele começou a comparar as seleções com modelos econômicos. Disse que o Brasil lembrava um capitalismo de Estado, com algum espaço para a livre-iniciativa, mas amarrado por um sistema rígido e um tanto ultrapassado. A Holanda era o anarquismo, com cada um fazendo o que bem entendia, mas tudo de uma forma orgânica; a Polônia era socialista, organizada, forte na defesa mas sem muita mobilidade; e a Alemanha era o capitalismo dos países ricos, poderoso, eficiente, sempre jogando duro e entrando para ganhar nas divididas.

No dia seguinte fomos assistir à final da Copa entre a Holanda e a dona da casa, a Alemanha Ocidental. Todo mundo esperava a vitória da Laranja Mecânica, que começou na frente com um gol de Neeskens cobrando pênalti. Mas a Alemanha empatou com Breitner, também de pênalti, e passou à frente numa girada de Gerd Müller aos 43 minutos do primeiro tempo. Depois, a Holanda não teve forças para reagir e entregou os pontos.

Voltamos ao bar do senhor Bombom para tomar a última cerveja em Munique. Eu, que tinha torcido para a Holanda, estava inconformado:

— Os peladeiros tinham um jogo mais bonito, mais criativo, com mais liberdade. Não foi justo...

Então o Brutus fincou o garfo numa batata, ergueu o braço e exclamou: — Ao vencedor, as batatas!

E Bombom, erguendo um copo, emendou: — E o cerveja!

Por Torero às 06h48

06/05/2008

O dia em que Cid Moreira foi Brizola

Na semana passada participei do júri de longas-metragens do CinePe, festival de cinema em Pernambuco. Lá, propus (mas fui voto vencido) um prêmio especial para o filme "Brizola - tempos de luta", por sua pesquisa iconográfica e iconoclasta, principalmente pelo resgate da cena que, acredito, foi a melhor do festival: o momento em que Cid Moreira lê, no Jornal Nacional, uma carta de Leonel Brizola. Poucas vezes ri tanto no cinema.

A cena tem três minutos e está no Youtube. Para vê-la, clique aqui.   

Por Torero às 07h01

Texto da Folha

Para ler o texto de hoje sobre "O sujeito mais chato do mundo", folhistas e uolistas devem clicar aqui.

Por Torero às 06h38

05/05/2008

Os últimos duelos

Acabaram. Sim, acabaram-se os duelos. Em cada lugar sobrou apenas um caubói, e ele salta alegremente com seu cavalo sobre os corpos de seus inimigos espalhados pelo chão. Os vencedores colocaram uma estrela dourada sobre o coração e até a próxima disputa serão os xerifes de suas terras.

Neste fim de semana de duelos cruéis, ninguém foi mais mortal que James Colorado. Ele havia perdido a primeira luta para o bravo Young Boy por um tiro a zero. Mas vingou-se. E oito vezes. Oito! Só seu revólver Fernandão acertou três tiros no adversário. E não pensem que Young Boy estava sem seu cavalo ou teve alguma arma expulsa. Não, nada disso. Ele estava completo. Pelo menos, antes do duelo, pois agora seu corpo tem mais furos que uma cueca velha. E seu sangue deixa a camisa de James Colorado ainda mais vermelha.

Outro que ganhou bem foi Big Green. Suas pistolas verdes acertaram não um, nem dois, nem três, nem quatro, mas cinco tiros no pobre Black Bridge. Foi uma vitória imponente, daquelas que nem dão chance ao rival. Depois de doze anos, Big voltou a ser big. E é um dos favoritos para os duelos em Brasileirão City.

No Maracanã Saloon, Black Red venceu, mais uma vez, Set Fire, o caubói azarado. Set até acertou o primeiro tiro e no intervalo do duelo tomou seu uísque cheio de esperanças. Mas o uísque devia ser paraguaio, porque Set voltou mal e levou três tiros de Black Red, dois deles saídos do Colt Obina, o revólver preferido dos fãs de Black Red. Foi a trigésima estrela do mais amado dos caubóis.

 O sempre imponente Maracanã Saloon

Will Uai podia perder de muito para Rob Gallo. Mas ganhou. De pouco, mas ganhou. Nos dois duelos contra Gallo, Will não deixou que sua camisa celeste fosse manchada com o vermelho de seu sangue. Foram seis tiros acertados e nenhum recebido. Uma vitória incontestável.

Phil Gueira e Chris Ciúma fizeram um duelo mais que emocionante, enfartante. No primeiro encontro, Phil havia vencido. No segundo, venceu Chris. Os dois foram então para a prorrogação. A vantagem era de Chris, já que a luta era em seu saloon, mas no 119º. minuto da luta, o urubu de estimação de Phil Gueira começou a lamber os beiços (ou, no caso, o bico). É que neste instante Phil acertou o tiro decisivo, o tiro vitorioso, o tiro que lhe deu sua décima-quinta estrela. O urubu de Phil Gueira está cada dia mais gordo.

Coxa Cox perdeu mas venceu. Ele foi derrotado no Arena Saloon por seu arquiinimigo Harry Hurricane, mas, no saldo de tiros, acabou levando a melhor. Seu chapéu, da marca Dorival Junior, vem mostrando que aguenta bem as ventanias.

Victoria Salvador, a cauguel mulata que enlouqueceu Di Cavalcanti e Sargentelli, acabou vencendo a decisão mais doida e emocionante do domingo. Esquivando-se das balas inimigas com passos de axé, ela venceu seu inimigo por cinco tiros a um, e acabou superando Buck Bahia por ter a melhor pontaria. Buck e Victoria empataram em pontos, vitórias e saldo de tiros, mas Victoria acertou 16 balas, contra 11 de Buck. Foi um campeonato vencido por um triz.

 A boa velha garrucha Basilio

Mas a grande surpresa ficou por conta de Will Tumbiara. Ele venceu o favorito John Esmeraldine mesmo lutando em Gold Mountain, território inimigo. Will havia vencido o primeiro duelo com um tiro certeiro, mas todos esperavam que Esmeraldine se vingasse com sobras. Porém, aconteceu o contrário. Will Tumbiara venceu o poderoso Esmeraldine com três tiros certeiros, e sem levar nenhum. O destaque foi sua velha garrucha da marca Basílio, que acertou uma bala no primeiro duelo e mais duas no duelo de ontem. Will, que tem trinta e oito anos de vida, ganhou sua primeira estrela.

Sim, caros fãs do bangue-bangue, acabaram-se os duelos. Mas por pouco tempo. Logo as balas estarão cruzando as ruas de Brasileirão City como moscas num dia de verão. Até lá.

Aiô, Silver!

 

Por Torero às 09h42

Toreroteca

Ninguém fez os seis pontos na Toreroteca. Mas alguns acertaram cinco. Entre eles, eu (só errei o jogo de Minas, no qual cravei empate). Como o critério de desempate é quem palpita primeiro, e eu fui o primeiro a palpitar, o resultado é que o grande vencedor desta Toreroteca fui eu. Amanhã vou colocar um exemplar de "Os vermes" no correio para mim mesmo. O pior é que já li o livro. 

Por Torero às 01h29

03/05/2008

Toreroteca

Vamos à Toreroteca. Os seis jogos da semana são:

Atlético x Coritiba

Criciúma x Figueirense

Internacional x Juventude

Palmeiras x Ponte Preta

Botafogo x Flamengo

Cruzeiro x Galo

Eu cravo coluna 1 nos quatro primeiros, coluna 2 no Maracanã e um empate no Mineirão.

Mande aí seu voto sextuplo. Na semana passada, ninguém chegou lá. Vamos ver se agora alguém leva o troféu Zé Cabala. 

 

Por Torero às 00h52

01/05/2008

1970 – Ganhamos, ai, ai, ai!

1970 – Ganhamos, ai, ai, ai!

                  

Lembro como se fosse hoje. Era o nosso terceiro aniversário de casamento. Eu peguei uma taça de vinho, ergui e disse: — Luz dos meus olhos, ar que eu respiro, milho da minha pamonha, hoje completamos três anos de plena felicidade. Isso não é maravilhoso?!

Pensei que fosse ganhar um beijo, mas ele, sem mesmo se virar, resmungou: — Hoje é o aniversário da grande revolução albanesa e você vem me falar em casamento, essa bobagem burguesa!

O Jiló tinha entrado para um grupo de esquerda. Colocou um pôster do Marx na sala, um do Che no quarto e outro do Mao no banheiro. Tive prisão de ventre por duas semanas. No começo estranhei tudo, mas amava tanto aquele cruzeirense que nem pestanejei: fiz minha ficha na organização.

 Esse é o Marx novinho. O Jiló era a cara dele.

Naquela época fiquei com um visual um pouco diferente: parei de depilar as axilas, deixei crescer o cabelo, vestia jeans e usava boina. Mas por dentro continuava a mesminha: sempre que dava fugia das reuniões, me enfiava no banheiro, ligava o radinho e escutava os jogos do Atlético e da seleção. Um dia, depois do Brasil meter 6 a 0 na Venezuela pelas eliminatórias, fiquei emocionada e perguntei ao Jiló o que ele achava de a gente ir assistir à Copa no México. Perguntinha besta, coisinha de nada, mas não é que ele me vira um bicho e começa a dizer um monte na minha orelha?

— Como você me fala uma besteira dessas! O futebol é o ópio do povo, camarada Mel! Ir ao México? Nem morto!

— Mas Jilozinho, quer dizer, camarada Jiló, o técnico da seleção é do Partido Comunista.

— É verdade, o João Saldanha está no partidão...

Vendo que ele tinha ficado meio assim, aproveitei a chance e disse:

— Aqui ó, Jiló, escuta: a Copa vai ser transmitida ao vivo, sabe o que é isso? Ela vai ser vista pelo mundo todo. Meu plano é que a gente vá aos jogos, fique num lugar bem em frente às câmeras e aí abra uma faixa “Viva a revolução!” Entendeu aonde eu quero chegar?

O Jiló fez cara feia a princípio, mas depois achou o negócio interessante e, no fim aceitou, com a condição de que, depois da Copa, a gente desse uma passadinha em Cuba. Naquela hora tive vontade de cantar “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção...”, mas como isso iria estragar tudo assobiei o hino da Internacional Socialista. O Jiló sorriu e me beijou.

Aquela Copa tinha que ser nossa. A seleção juntou um monte de craques, tantos que cinco deles (Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivelino e Pelé) jogavam com a camisa dez nos seus times. Uns meses antes da competição, o general Médici, como bom ditador, cismou que o Saldanha tinha que escalar o centroavante Dario. O João Sem Medo respondeu que o presidente escalava o ministério e ele escalava o time. No dia seguinte o Zagallo assumiu.

Eu acho que eram tantos craques que nem de técnico precisava. O time-base era Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Pelé; Jairzinho e Tostão. No banco, feras como Leão, Zé Maria, Marco Antônio, Paulo César e Edu. Sem falar nos que não foram convocados. Dava para formar outra seleção: Manga; Eurico, Luís Pereira, Djalma Dias e Rildo; Zé Carlos, Dirceu Lopes e Ademir da Guia; Paulo Borges, Toninho Guerreiro e Lula.

Bom, nós viajamos, coisa e tal, e no dia 3 de junho de 1970 chegamos cedo ao estádio Jalisco, em Guadalajara. Colocamos a faixa em um lugar bem visível. Para falar a verdade, eu nem ligava para a faixa; estava mesmo é apreensiva com a estréia. No grupo, só pedreira: Tchecoslováquia, Inglaterra e Romênia.

Logo de cara pegamos os tchecos. O começo foi meio equilibrado, com pinta de 0 a 0, até que, numa escapada pela esquerda, Petras colocou no canto oposto de Félix. Jiló vibrou: — Viva o socialismo!

Mas quando Petras se ajoelhou e fez o sinal da cruz ele se sentou e esbravejou: — Carola traidor!

Logo depois, porém, falta para nós na entrada da área: Rivelino mandou uma bomba e empatou. Eu não agüentei e berrei: — Gol!

E o Jiló, impassível, disse: — Camarada Mel, com esse grito você está sendo conivente com a situação política do Brasil. Eu fechei a boca e a cara.

 Quem manjava mesmo de esquerda era o Rivelino

Ainda no primeiro tempo, esses olhos que a terra há de comer viram um dos lances mágicos de Pelé naquela Copa. Ele recebeu uma bola antes do meio-campo e, vendo Viktor adiantado, resolveu tentar o gol. O estádio inteiro viajou com aquela bola e soltou um “ohhh” de decepção quando ela passou a um metro da trave. No segundo tempo voltamos mais soltos e liquidamos a fatura com um gol de Pelé e dois de Jairzinho, um deles bonito demais, dando chapéu no goleiro, matando a bola no peito e soltando a bicanca.

Nesse dia, na saída do estádio, vi dois torcedores brasileiros brigando de um jeito muito esquisito: um só dava cabeçadas e o outro pontapés. Deve ser o efeito da tequila mexicana.

O segundo jogo foi contra os ingleses, os campeões do mundo, que tinham Banks, Hurst e os bobbies Moore e Charlton. Esse jogo foi realmente pau a pau, com os dois times perdendo chances de gol. Numa delas, Pelé acertou uma cabeçada mortal de cima para baixo, mas Banks voou e, com um tapa, conseguiu jogar a bola sobre o travessão. Aí foi a vez de Tostão. Ele recebeu uma bola na esquerda e foi fazendo fileira com os ingleses: fintou um, pôs a bola no meio das pernas de outro, fez que ia e não foi, girou o corpo e deu um centro milimétrico, pondo a bola nos pés de Pelé. O Rei dominou, atraiu os zagueiros e rolou para Jairzinho. Aí, meu filho, nem Banks.

 O Pelé estava dizendo: "I'm sorry, Bobby."

Depois dessa partida o Jiló começou a ficar desconfiado: — Será que estamos mesmo divulgando a revolução?

— Claro, camarada Ji, nós estamos ligando a revolução ao esporte, a guerrilha ao futebol, a luta aos gols.

Ele ficou coçando a barba por cinco longos minutos. Depois disse: — Então tá.

Com a classificação certa, o time poupou titulares e energias contra a Romênia. Entraram Fontana, Marco Antônio, Paulo César e Edu. Foi um jogo sem graça, meio lá e cá, e o Félix deu uma saída esquisita num dos gols deles. Ainda assim fizemos o suficiente para vencer por 3 a 2, dois gols de Pelé e um de Jairzinho.

Nas quartas-de-final pegamos o Peru, que tinha desclassificado a Argentina nas eliminatórias e era dirigido pelo nosso Didi. Quando a bola começou a rolar, deu pra perceber que seria carne de pescoço: eles marcavam o Pelé em cima e tinham uma espinha dorsal eficiente, com Chumpitaz, Mifflin, Baylon e Cubillas. Sorte nossa é que o goleiro deles era o Rubiños e não o Banks. Pelé foi muito bem marcado, mas Tostão assumiu a batuta e fez dois gols. Os outros foram de Jairzinho e de Rivelino, num chute de três dedos que fez uma curva inacreditável. No final das contas, 4 a 2.

A cada jogo eu ia ficando mais contente. E o Jiló mais desconfiado.

— Camarada Amélia, e se nós fôssemos direto para Cuba? Acho que a gente ainda consegue chegar no final da colheita do tabaco.

 O Jiló queria vir para cá.

Eu me imaginei com um lenço encardido na cabeça, debaixo de um sol de meio-dia, suando feito uma porca e sendo comida pelos mosquitos. Tive vontade de dizer: — Você está louco, Jiló?! Nem morta eu vou perder o próximo jogo do Brasil!

Mas o que eu falei foi: — Eu adoraria colocar um alvo lenço sobre meus cabelos, receber o calor do sol, suar pela revolução e doar meu sangue aos mosquitos cubanos, mas ainda não cumprimos nossa missão aqui no México. Temos que espalhar nossa mensagem pelos quatro cantos do mundo.

Quando olhei para o Jiló, ele estava com os olhos rasos d’água. Aí enxugou-os e disse: — Então tá.

O jogo seguinte já era a semifinal contra o Uruguai. Era nosso primeiro encontro com eles em Copa do Mundo desde a tragédia de 1950. Foi um jogo muito aguardado e disputado debaixo de grande tensão. Logo de cara, a Celeste abriu a contagem com um chute despretensioso de Cubilla: a bola passou pererecando na frente do Félix e depois bateu num morrinho e entrou. Era tudo que a gente não precisava. Os uruguaios se fecharam na defesa e começaram a descer o sarrafo, a catimbar, aquele joguinho enervante que eles sempre fazem.

Mas o que não faltava naquela seleção era opção de jogada. Tostão começou a cair para a lateral do campo, assim como quem não quer nada, e foi puxando os marcadores. Uma hora, ele percebeu um vazio na esquerda da área e fez um lançamento perfeitinho, perfeitinho. Os uruguaios estavam concentrados em Jairzinho, Pelé e Rivelino; mas, de repente, Clodoaldo apareceu na cara de Mazurkiewicz e mandou o tijolo. Foi o gol certo na hora certa! No segundo tempo o Brasil voltou tranqüilo e aí veio o baile: fizemos 3 a 1 com Jairzinho, num drible em que ele quase quebrou a espinha do zagueiro, e com Rivelino disparando o míssil de sempre e girando os braços feito doido.

Foi nesse jogo também que vi um daqueles momentos que deixam a gente com a respiração presa e os olhos umedecidos. Pelé foi lançado e o goleiro Mazurkiewicz saiu do gol. Ele fez que ia dar um drible pela esquerda, mas deu um meneio de corpo saindo pelo outro lado. Mazurkiewicz, desesperado, abriu os dois braços, um para pegar Pelé, outro para pegar a bola. Não pegou nada. Pelé girou e bateu de primeira. O zagueiro que vinha correndo para o gol se estatelou no chão. A bola passou a centímetros da trave. Deu um dó que só...

A final da Copa reuniu os dois bicampeões até então: o Brasil, campeão de 1958 e 1962, e a Itália, campeã de 1934 e 1938, que vinha de uma semifinal terrível contra a Alemanha, um 4 a 3 decidido na prorrogação. Seria mais que uma final, seria um desempate, o vencedor levaria definitivamente para casa a taça Jules Rimet.

Eu tinha acabado de passar batom quando o Jiló saiu do banheiro com uma camisa verde, uma calça branca e sapato vermelho. Nunca fui chata com essas coisas, mas naquela hora não me contive: — Uai, você vai assim?

E ele: — Claro, nós vamos torcer pela Itália.

Aquela frase foi como um coice. Ele nem ligou e continuou falando: — A Itália pode não ser uma experiência social perfeita, mas é muito superior ao nosso regime.

— Jiló de Deus, eu também detesto a ditadura, acho que militar tem mais é que ficar no quartel, mas aqui é diferente, é um jogo de futebol!...

— Não, tudo está interligado, cada mínima atitude nossa tem que ter lógica e coerência. Se o Brasil ganhar, os milicos vão se aproveitar; por isso nós vamos torcer pela Itália.

Vocês já sabem que pelo Jiló eu fazia qualquer coisa. Então lá fui eu, com a minha faixa “Viva a revolução!” assistir à final.

O Brasil começou bem, tocando a bola e esperando a hora do bote. A Itália, meio cansada, só assustava nas pontadas de Gigi Riva. De repente, o nosso gol: Rivelino cruzou no segundo pau e Pelé testou firme e colocado no canto de Albertosi. Foi o nosso centésimo gol em copas. Eu fiquei com o grito entalado na garganta. Vigiada pelo Jiló, só disse: — Dá vontade de chorar...

 Olha Ele comorando o gol.

Minutos depois a defesa brasileira entrou em pane. Clodoaldo quis fazer uma gracinha e perdeu a bola; os zagueiros ficaram apavorados e Félix saiu mal do gol. Resultado: Boninsegna dominou, girou e empatou. Jiló vibrou muito e me abraçou forte como nos tempos de namoro.

O segundo tempo começou naquela agonia: o Brasil superior, a Itália trancada, até que Gérson desistiu dos lançamentos, tabelas e jogadas ensaiadas. Aí driblou um, driblou outro e bateu de canhota. A bola passou por um monte de gente e foi parar no canto de Albertosi. Eu, com a mão direita em forma de soco, gritei: — Gol...eiro maldito! — E o Jiló só me olhando.

Aquele gol arrebentou a Itália. Eles teriam que sair, expor-se ao nosso ataque, e isso era morte certa. Logo depois, Gérson fez um daqueles lançamentos compridões e colocou a bola na pequena área, na cabeça de Pelé. O Rei, que enxergava tudo, deu um toquinho para o outro lado, onde Jairzinho vinha correndo em disparada. Até hoje não sei como o Furacão da Copa fez aquele gol: se foi com a cintura, com a coxa, com o joelho, com a barriga, com o umbigo... O que sei é que eu fiquei em pé e comecei a sapatear que nem o Tony Tornado. O Jiló, meio assustado, perguntou: — Que foi?

E eu disse: — É que a defesa está de salto alto; assim vamos perder, sô!

Quando chegamos nos minutos finais, o jogo entrou em clima de baile. Uma hora o Clodoaldo abusou e começou a tirar os italianos para dançar: driblou um, dois, três, quatro, e passou, na ponta, para Rivelino. O Garoto do Parque deu um esticão para Jairzinho e este passou para Pelé. Ele, de novo dando uma de garçom, rolou a bola mansinha, mansinha para Carlos Alberto, que não perdoou: mandou uma bomba rente à grama, fazendo a bola estufar as redes. Menino, aquele gol me deixou tão descontrolada, mas tão descontrolada que os meus olhos se encheram de lágrimas e o meu queixo começou a tremer. O Jiló, ao ver o meu estado, falou: — Eu também estou com raiva. Vamos embora.

Sabe o que eu fiz? Peguei a faixa e enfiei na boca do Jiló. Só ficou o “Viva” do lado de fora.

Aí o juiz apitou e, quando vi, estava no meio do campo com um sombrero na cabeça e correndo feito uma doida. Tentei tirar a chuteira do Tostão, dei um tapinha nas costas do Clodoaldo, fiquei gritando na frente do Rivelino, chutei a bunda do Carlos Alberto, abracei o Pelé, dei um beijo na careca do Gérson, carreguei o Félix nos ombros, dancei uma valsa com o Piazza, peguei a meia do Everaldo, dei um banho de água no Brito, sambei com o Jairzinho e, por fim, atravessei o campo de joelhos fazendo o sinal da cruz.

Aquele foi o dia mais feliz da minha vida.

 Eu estou em algum lugar nessa foto. É só procurar.

A conquista da Copa do México foi a mais linda de todos os tempos! O Brasil ganhou os seis jogos, fez dezenove gols e deixou na memória do esporte lances antológicos, coisas que a gente não se cansa de rever, como os gols que Pelé não fez, sem falar nas jogadas magníficas e no toque suave, bola de pé para pé, nas gingas e nas combinações inacreditáveis. Nunca uma seleção ganhou uma Copa do Mundo dando tanto destaque à beleza do futebol como aquela de 70. Nem antes nem depois. Meus olhos foram felizes por terem visto aqueles jogos. Aliás, jogos não! Aquelas aulas de história da arte.

O Jiló? Nunca mais vi nem quero ver.

Uma mulher faz tudo por um homem, menos torcer contra a seleção.

Por Torero às 00h55

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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