1966 - Perdemos, ié, ié, ié!
Sejamos francas, tudo que nós, mulheres, fazemos, fazemos para impressionar os homens. Pintar o rosto, usar minissaia, bater bolos, emagrecer, engordar, dar salto mortal segurando cálices de cristal, tudo é para impressionar os homens. No meu caso, para impressionar o Jiló.
Me apaixonei por ele num jogo Cruzeiro x Atlético. Lembro como se fosse hoje. Ele estava usando um enorme colar com o símbolo da paz, uma fita laranja na cabeça, calça roxa de boca larga e sapatos plataforma. Seus olhos azuis combinavam com sua camisa do Cruzeiro. Meu coração disparou feito boiada assustada. Quase troco de time.
O jogo terminou 4 a 0 para o Cruzeiro, mas dessa vez eu nem chorei. Só fui até ele e disse:
— Aqui ó, meu nome é Amélia, mas pode me chamar de Mel.
— Prazer, Jiló.
— Jiló, seu time mereceu a vitória. Como perdedora, quero te pagar um pão de queijo e um caldo de cana.
Ele respondeu: — Vamos lá, broto — e aquela frase entrou no meu ouvido como se fosse uma doce melodia, o que prova que, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a música está nos ouvidos de quem ouve. Bom, pão rima com mão, queijo rima com beijo e cana quase rima com cama, de modo que, de rima em rima, uma coisa puxou a outra e assim começou o nosso romance.
Meu carrinho era lindo demais da conta
Dois meses depois, quando estávamos sentados no meu Simca na rua do Amendoim, tomei coragem e pedi a mão dele em casamento. O Jiló me respondeu que antes de aceitar precisava de uma prova de amor. Eu achava mesmo que ele ia dizer aquilo, tanto que tinha posto a minha melhor roupa de baixo:
— Faço o que você quiser, Jiló.
Aí o danado abriu um sorriso e disse:
— Tá bom, então quero um autógrafo dos Beatles.
— Mas eles são ingleses! Por que você não me pede um autógrafo da Wanderléa ou do Erasmo?
— Beatles, Beatles, Beatles! Se você me ama, me traz um autógrafo dos Beatles! — Ele pegou sua bolsa de couro e saiu do carro batendo a porta com força.

Como eu amava o Jiló demais da conta, três dias depois peguei um avião da Panair para a Inglaterra. Pelo menos eu tinha um consolo: veria a Copa do Mundo de 1966. Para minha sorte, o grupo do Brasil jogava justamente em Liverpool.
Gente, eu achava que a gente iria conquistar o tri com um pé nas costas. Mais que isso: com as mãos amarradas e uma venda nos olhos. Nós tínhamos Pelé, Zito, Gérson, Amarildo e, ainda, o velho Garrincha. Quem poderia vencer esse time? Infelizmente essa pergunta tinha uma resposta: os cartolas.
A seleção meteu os pés pelas mãos
Depois do bicampeonato, em 1958 e 1962, o futebol virou negócio de Estado no Brasil, e a CBD foi ficando cada vez mais parecida com o Congresso Nacional, de tanto político que aparecia por lá. O técnico Vicente Feola, o mesmo da Copa da Suécia, não tinha pulso firme e ia aceitando as pressões.
A coisa ficou tão absurda que foram chamados 44 jogadores e formaram-se quatro seleções para o período de testes. Até convocação por engano teve. Alguém falou que na lista tinha que ter um jogador do Corinthians, e indicaram o Ditão, aquele zagueiro; só que a datilógrafa da CBD não sabia o nome completo dele e foi se informar com um jornalista. O rapaz, por engano, deu a ela o nome de outro Ditão, o do Flamengo.
Chegando à Inglaterra, peguei o trem para Liverpool. Lá, me hospedei num hotel de segunda categoria. Talvez de terceira. Ou quarta.
Não parece a Rita Lee?
Mal ajeitei os trens, saí e fui comprar um LP chamado Revolver. Depois fui fazer vigília na frente dos estúdios, esperando a chegada de John, Paul, George e Ringo. Para meu azar, começou a chover. Esperei, esperei e nada. O dia seguinte foi igual ao primeiro, e o terceiro bastante parecido com o segundo.
Fiquei uma semana naquela vida, até que resolvi me dar uma folga e ver a estréia do Brasil. O jogo aconteceu numa tarde fria, contra a Bulgária, um time violento, sem graça e cheio de caras com o nome terminando em “ov”. Se o Jiló fosse búlgaro, ia se chamar Jilov.
O Brasil precisou de dois gols de falta para ganhar: um de Pelé e outro de Garrincha. Tabelinha, jogada mesmo, nadica de nada.
O outro jogo foi dali a três dias, contra a Hungria, que já tinha tomado de três de Portugal. Eu pensei: isso vai ser mais mole que curau.
O time estava bem desfalcado, sem Pelé e Zito. No primeiro tempo a coisa foi parelha, mas nós fizemos um gol. Quem marcou foi meu conterrâneo Tostão. Aí, quando veio o segundo tempo... Menino, que tristeza! Os húngaros corriam muito mais, trocavam passes rápidos, desarmavam com uma facilidade que dava dó. Perdemos de 3 a 1 e ficamos com saldo zero.
Euzinha. Ai que saudade daquela tonta...
No dia seguinte, às cinco da manhã eu já estava na porta do estúdio. Para não ser surpreendida novamente pela chuva, dessa vez peguei de um, um tudo. Fui com duas calças, galochas, uma blusa de lã, um casaco de couro, um sobretudo, uma capa, um chapéu e um guarda-chuva. Pois não é que fez um sol de rachar! E eles, é claro, não deram as caras mais uma vez.
Aí veio o jogo contra Portugal, que tinha vencido suas duas partidas e estava classificado. Surgiu então o boato de que eles iam facilitar as coisas para nós. Bom, é difícil provar essas coisas, mas posso dizer que no começo eles estavam jogando em ritmo de treino; só um deles, um tal de Morais, destoava. Gente, esse aí desceu a lenha no Pelé! Se o boato era verdadeiro, tinham esquecido de avisar o Morais. E também os atacantes deles, porque o jogo terminou 3 a 1. Um vexame: nós, os bicampeões do mundo, não tínhamos nem passado da primeira fase!
Eusébio foi bem bom naquela Copa.
Como o Brasil voltou para casa, resolvi torcer para os nossos irmãos portugueses, que iam continuar jogando em Liverpool. O primeiro adversário deles foi a seleção da Coréia do Norte, que tinha despachado a Itália. Achei que o resultado tinha sido só uma zebra, mas mal o juiz apitou o começo do jogo e os coreanos vieram para cima numa correria danada. Quando olhei para o placar, tive que arregalar os olhos: 3 a 0, gols de Pak-Seung-Jin, Li-Don-Woon e Yang-Sung-Hook. Se o Jiló fosse coreano, ia se chamar de Ji-Loh-Zim.
Se eles continuassem a jogar daquele jeito, acho que ganhariam de 100 a 0, mas os lusos conseguiram um golo, como eles dizem, e aí os orientais amarelaram. Foi então a vez dos portugueses passarem a correr feito doidos e, no fim, viraram o jogo para 5 a 3, com quatro gols de Eusébio. Foi um jogo de arrebentar coração; na minha opinião, o melhor daquela Copa.

Eu continuava indo aos estúdios. Um dia, perguntei ao porteiro se havia alguém gravando. Ele respondeu que sim, que lá estavam quatro rapazes e o conjunto se chamava Be... alguma coisa.
Passei a noite dormindo em frente à porta. Quando foi de manhãzinha, um dos quatro rapazes tropeçou em mim. Mais que depressa me levantei e perguntei:
— Você é o Paul?
— Não.
— John?
— Não.
— George?
— Não.
— Então é aquele... como é o nome mesmo... Bingo?
— Você quer dizer Ringo?
— Isso, Ringo!
— Também não.
— Uai, quem é você?
— Sou Joseph. Ele é Saul, este é Geoffrey e aquele é Django.
Então eles colocaram chapéus com orelhas de cachorro, deram-se as mãos e falaram ao mesmo tempo: — Nós somos os Beagles!
Como consolo, ganhei um chapéu daqueles. Pode uma coisa dessas?
Para esquecer Beagles e Beatles, fui para o hotel e assisti ao videoteipe da semifinal entre Portugal e Inglaterra. Era a primeira vez que se usava videoteipe numa copa, e eu achei demais da conta. O time inglês, além jogar em casa, era bom que só. Tinha Banks, Alan Ball, Hunt, o matador Hurst, Bobby Moore e Bobby Charlton. Se o Jiló fosse inglês, ia se chamar Bobby Jilorton. No fim, vitória suada da Inglaterra por 2 a 1, os dois gols de Bobby Charlton. Na final eles enfrentariam os alemães ocidentais, que tinham vencido a União Soviética também por 2 a 1.
O Hurst não tinha um jeito de Beatle?
Já fazia três dias que eu estava na porta do estúdio, quando um sujeito chamado Pete Best me disse que os Beatles não gravavam ali fazia muito tempo e, que se eu quisesse encontrar um deles, teria que ir a Londres. Ele tentou me convencer que já tinha sido um beatle e até insistiu em me dar um autógrafo. Eu ri na cara dele e saí andando. Quando olhei para trás, o pobre homem estava abraçado a um poste e chorava com uma tristeza de dar dó.
Peguei então o trem para Londres. Para não perder a viagem, comprei um ingresso para a grande final.
Eu era uma das 95 mil pessoas que estavam no estádio de Wembley naquele dia. Como a torcida inglesa não é das mais comportadas, tratei de me sentar no meio de uns padres barbados que estavam por ali.
O jogo foi parelhinho da silva, mas como era diferente do nosso futebol! Não tinha aquele toque estilento, aqueles passes trivelados, aquelas tabelas manhudas, aqueles vai-que-vai-mas-não-vai... Era um estilo vigoroso, cheio de encontrões, com passes retos e muitos cruzamentos na área.
A Inglaterra era um bocadinho melhor e vencia por 2 a 1 até os 44 minutos do segundo tempo, quando, depois de um bate-rebate na pequena área, Weber empatou. Nessa hora, um sujeito de terno amarelo que estava sentado atrás de mim ficou de pé, começou a dançar e cantou com um sotaque estranho: — Olê, olá, o Alemanha está botanda pra quebrar!
A partida foi para a prorrogação e aí aconteceu aquele lance que até hoje dá o que falar. Hurst chutou a bola, que bateu na trave e depois caiu sobre a risca do gol. O estádio inteiro explodiu de alegria e os padres ao meu lado pularam tanto que pareciam macacos. Eu disse para o de óculos redondo: — Não foi gol! Bateu na linha! — Ele só respondeu: — Imagine!
Não entrou, mas valeu.
Já o homem de terno amarelo atrás de mim chorava e gritava — Seus bandidas, suas safados!
Com aquele lance, os jogadores alemães se descontrolaram. No final, a Inglaterra ainda fez mais um gol, Hurst de novo, e levou a taça.
Aí foi uma festa só. Todos abraçavam todos, e os padres, menino!, pulavam que nem pipoca. Foi então que a barba de um deles caiu.
— Uai, gente, mas esse é o Paul! — eu disse a mim mesma, de forma que ninguém escutou. E se aquele padre era o Paul, logo o de óculos só podia ser o John, o narigudo era o Ringo e o de turbante era o George. Eles perceberam que eu os tinha reconhecido e pediram que eu ficasse quieta. Respondi que tudo bem, desde que eles autografassem o meu ingresso.
Os autógrafos dos meninos
Quando cheguei a Belo Horizonte e dei os autógrafos para o Jiló, ele olhou para aquilo meio assim, sem interesse, e guardou o ingresso na gaveta. Eu não entendi nada.
— Uai, mas você não queria os autógrafos dos Beatles?!
— Sabe, Mel, os Beatles são legais, mas meio alienados. A gente tem que dar valor ao que é nosso.
E pôs na vitrola um disco do Geraldo Vandré.
Depois de tanto sofrimento, aquela desfeita... Fiquei possessa! Saí batendo a porta e fui dar um giro na Afonso Pena para espairecer. Na volta, mais calma, dei uma bofetada no Jiló e o pedi em casamento. Dessa vez ele aceitou; só exigiu que nosso primeiro filho se chamasse Fidel.
Eu achei que aquele seria o dia mais feliz de toda a minha vida. Mas não, foi o segundo.
(Para ler o especial do UOL sobre a Copa de 1966, clique aqui)
(Na semana que vem, a Copa de 70 e o último capítulo da história de Mel)





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(Big Green, desenhado por Leo Yoshida)
Grupo de podosofistas africanos.
Nem exclavil dava jeito nos calos do Dr. Paulo.
A turma de 62.
Amarildo olha para mim enquanto amarro suas chuteiras.
Aqui, Garrincha está dizendo para Pelé: "Com essas chuteiras do Chulé, eu vou jogar tão bem que o pessoal nem vai sentir sua falta."
Martha Rocha era o apelido de Mauro, o nosso elegante capitão.




Leo Yoshida
Paulo Machado de Carvalho, um homem de ferro.
Garrincha adorava imitar o jeito de andar do Carlitos.
Feola, o maior técnico que o Brasil já teve.
Olhando as pernas de Garrincha a gente entende que Deus escreve certos por linhas tortas.
Garrincha entortava até as câmeras dos fotógrafos.
Pelé deixou de ser menino na Suécia. E em vários sentidos.
Os onze apóstolos do futebol fazem pose para a foto antes do jogo contra a França.
Vavá, o homem do gol-replay.

Fiz um casaco amarelão para combinar com a "amarelinha".
Puskas marcou 1176 ou 766 gols, dependendo de quem conta.
Puskas e cia.
Kocsis, o Cabeça de Ouro, foi o artilheiro daquela Copa.
Naquele dia, até o Lorde perdeu as estribeiras.
Fritz Walter e cia.
O palco da final.