Blog do Torero

29/04/2008

Como dizia o rei Roberto...

Para ler o texto de hoje na Folha de S.Paulo, clique aqui.

Por Torero às 07h59

28/04/2008

O penúltimo capítulo

Os duelos estão chegando ao fim. Os caubóis gastam seus últimos cartuchos em busca das estrelas de ouro. São os bangs derradeiros. Logo os vencedores empinarão seus cavalos e sairão em disparada em direção ao pôr-do-sol.

Will Uai, o caubói celeste, é quem está mais perto da glória. Ele fuzilou, trucidou, destruiu, esmagou Rob Gallo. Foram cinco tiros certeiros e nenhum recebido. Uma vitória fantástica, nunca vista pelas 50 mil pessoas que estavam em Big Boy From Minas. Agora, Will só perde a estrela dourada se for derrotado por seis balas de diferença, uma coisa impossível. Ou, vá lá, quase.

Outro Will, o jovem Will Tumbiara, venceu o tradicional John Esmeraldine disparando uma única bala certeira. Esmeraldine é o bambambã de Upland Central e já ganhou 21 estrelas. Will Tumbiara nunca ganhou umazinha sequer, mas agora, usando várias armas novas e algumas antigas (ele possui exemplares que já saíram de linha, como os rifles Caíco e Basílio, que deu o tiro fatal), ele pode perder esta desagradável virgindade. Mas para isso há que empatar o próximo duelo em Gold Mountain, o que não será nada fácil.

Coxa Cox também se saiu bem e passou por Harry Hurricane com dois tiros a zero. Novamente, seu revólver Keirrison deixou sua marca. Ele é, disparado, a melhor arma do torneio de Paraná Falls. É bem verdade que Harry Hurricane conta com sua velha garrucha da marca Marcelo Ramos, uma arma que muitas vezes enguiça, mas noutras dá rajadas certeiras. E ela precisará estar num desses dias para reverter o resultado do primeiro duelo.

Em January River, Black Red venceu o primeiro duelo contra Set Fire, o caubói gauche. E foi com um tiro já no final da luta. Black Red esteve melhor na maior parte do confronto e mereceu vencer. Porém, para o segundo duelo terá um sério problema. Antes de voltar ao Maracanã Saloon, ele terá que ir até o México, fazer um difícil e importante duelo. E isso pode atrapalhar um bocado. Talvez Set Fire não esteja tão azarado assim.

A vitória mais dramática do final de semana talvez tenha sido de Young Boy. Ele venceu James Colorado com sua última bala, no último segundo do duelo. É claro que James fará a próxima luta em seu saloon, mas vale lembrar que Young Boy anda duelando melhor fora de casa, e assim foi com Sancho Pampa, o caubói tricolor, e com James Colorado Jr., quando perdeu em seu saloon, mas ganhou no do adversário.

Uma bela surpresa foi a vitória de Victória Salvador, a mulata cauguel que usa tererê nos cabelos e búzios no chapéu. Na semana passada ela havia sido fulminada por Buck Bahia por quatro tiros a um. Mas agora devolveu a derrota por três tiros a zero. Curiosamente, cada um venceu no saloon do outro. Não há favoritos em Felicity Land.

E em Paulistão City tivemos um belo duelo entre Black Bridge e Big Green. Bridge estava sem quatro de suas melhores armas, e isso fez falta. Mesmo assim, o caubói que anda com o cinto atravessado no peito foi rápido durante todo o duelo. Rápido, mas sem muita pontaria. Green realmente se mostrou superior. E não só porque deu tiro certeiro, mas, mais ainda, porque se defendeu muito bem.

Na semana que vem, teremos os duelos derradeiros. Rob Gallo conseguirá o milagre de alvejar Will Uai seis vezes ou sofrerá novo massacre? Will Tumbiara ganhará sua primeira estrela? O revólver Keirrison de Coxa Cox dará o tiro decisivo em Harry Hurricane? Set Fire continuará azarado? James Colorado mostrará que ele é quem manda em Big River of South? Victoria comemorará seu campeonato dando tiros para o alto e dançando axé? Black Bridge será o vice-xerife pela quinta vez? Daqui a alguns dias e muitas balas teremos todas as respostas.

Por Torero às 07h27

27/04/2008

Toreroteca

Ninguém fez os seis pontos na Toreroteca. A arte do palpite é mais difícil do que parece.

Por Torero às 18h19

26/04/2008

Era o destino...

No último dia 28, Debrecen (de camisas brancas) e Fehervar (de azul) se enfrentavam no jogo de volta pelas quartas-de-final da Copa da Hungria.

O placar apontava vitória parcial do Debrecen por 2 a 1, resultado que levaria a decisão da vaga para os pênaltis, já que o Fehervar havia vencido o primeiro confronto em casa também por 2 a 1.

No entanto, aos 41 minutos do segundo tempo, o árbitro apontou penalidade máxima para o Debrecen. Aí então... Bom, vejam com seus próprios olhos...

 

Por Torero às 21h22

25/04/2008

Toreroteca

Como o Juca não dará palpites para os jogos de fim de semana, dou-lhos eu.

Flamengo x Botafogo: Empate.

Coritiba x Atlético: Coritiba

Bahia x Vitória: Bahia.

Juventude X Inter: Inter.

Ponte Preta x Palmeiras: Palmeiras.

Cruzeiro x Atlético: Cruzeiro.

Mande os seus e vamos ver se alguém faz os seis pontos na Toreroteca.

Por Torero às 11h49

24/04/2008

1966 - Perdemos, ié, ié, ié!

1966 - Perdemos, ié, ié, ié!

Sejamos francas, tudo que nós, mulheres, fazemos, fazemos para impressionar os homens. Pintar o rosto, usar minissaia, bater bolos, emagrecer, engordar, dar salto mortal segurando cálices de cristal, tudo é para impressionar os homens. No meu caso, para impressionar o Jiló.

Me apaixonei por ele num jogo Cruzeiro x Atlético. Lembro como se fosse hoje. Ele estava usando um enorme colar com o símbolo da paz, uma fita laranja na cabeça, calça roxa de boca larga e sapatos plataforma. Seus olhos azuis combinavam com sua camisa do Cruzeiro. Meu coração disparou feito boiada assustada. Quase troco de time.

O jogo terminou 4 a 0 para o Cruzeiro, mas dessa vez eu nem chorei. Só fui até ele e disse:

— Aqui ó, meu nome é Amélia, mas pode me chamar de Mel.

— Prazer, Jiló.

— Jiló, seu time mereceu a vitória. Como perdedora, quero te pagar um pão de queijo e um caldo de cana.

Ele respondeu: — Vamos lá, broto — e aquela frase entrou no meu ouvido como se fosse uma doce melodia, o que prova que, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a música está nos ouvidos de quem ouve. Bom, pão rima com mão, queijo rima com beijo e cana quase rima com cama, de modo que, de rima em rima, uma coisa puxou a outra e assim começou o nosso romance.

 Meu carrinho era lindo demais da conta

Dois meses depois, quando estávamos sentados no meu Simca na rua do Amendoim, tomei coragem e pedi a mão dele em casamento. O Jiló me respondeu que antes de aceitar precisava de uma prova de amor. Eu achava mesmo que ele ia dizer aquilo, tanto que tinha posto a minha melhor roupa de baixo:

— Faço o que você quiser, Jiló.

Aí o danado abriu um sorriso e disse:

— Tá bom, então quero um autógrafo dos Beatles.

— Mas eles são ingleses! Por que você não me pede um autógrafo da Wanderléa ou do Erasmo?

— Beatles, Beatles, Beatles! Se você me ama, me traz um autógrafo dos Beatles! — Ele pegou sua bolsa de couro e saiu do carro batendo a porta com força.

Como eu amava o Jiló demais da conta, três dias depois peguei um avião da Panair para a Inglaterra. Pelo menos eu tinha um consolo: veria a Copa do Mundo de 1966. Para minha sorte, o grupo do Brasil jogava justamente em Liverpool.

Gente, eu achava que a gente iria conquistar o tri com um pé nas costas. Mais que isso: com as mãos amarradas e uma venda nos olhos. Nós tínhamos Pelé, Zito, Gérson, Amarildo e, ainda, o velho Garrincha. Quem poderia vencer esse time? Infelizmente essa pergunta tinha uma resposta: os cartolas.

 A seleção meteu os pés pelas mãos

Depois do bicampeonato, em 1958 e 1962, o futebol virou negócio de Estado no Brasil, e a CBD foi ficando cada vez mais parecida com o Congresso Nacional, de tanto político que aparecia por lá. O técnico Vicente Feola, o mesmo da Copa da Suécia, não tinha pulso firme e ia aceitando as pressões.

A coisa ficou tão absurda que foram chamados 44 jogadores e formaram-se quatro seleções para o período de testes. Até convocação por engano teve. Alguém falou que na lista tinha que ter um jogador do Corinthians, e indicaram o Ditão, aquele zagueiro; só que a datilógrafa da CBD não sabia o nome completo dele e foi se informar com um jornalista. O rapaz, por engano, deu a ela o nome de outro Ditão, o do Flamengo.

Chegando à Inglaterra, peguei o trem para Liverpool. Lá, me hospedei num hotel de segunda categoria. Talvez de terceira. Ou quarta.

 Não parece a Rita Lee?

Mal ajeitei os trens, saí e fui comprar um LP chamado Revolver. Depois fui fazer vigília na frente dos estúdios, esperando a chegada de John, Paul, George e Ringo. Para meu azar, começou a chover. Esperei, esperei e nada. O dia seguinte foi igual ao primeiro, e o terceiro bastante parecido com o segundo.

Fiquei uma semana naquela vida, até que resolvi me dar uma folga e ver a estréia do Brasil. O jogo aconteceu numa tarde fria, contra a Bulgária, um time violento, sem graça e cheio de caras com o nome terminando em “ov”. Se o Jiló fosse búlgaro, ia se chamar Jilov.

O Brasil precisou de dois gols de falta para ganhar: um de Pelé e outro de Garrincha. Tabelinha, jogada mesmo, nadica de nada.

O outro jogo foi dali a três dias, contra a Hungria, que já tinha tomado de três de Portugal. Eu pensei: isso vai ser mais mole que curau.

O time estava bem desfalcado, sem Pelé e Zito. No primeiro tempo a coisa foi parelha, mas nós fizemos um gol. Quem marcou foi meu conterrâneo Tostão. Aí, quando veio o segundo tempo... Menino, que tristeza! Os húngaros corriam muito mais, trocavam passes rápidos, desarmavam com uma facilidade que dava dó. Perdemos de 3 a 1 e ficamos com saldo zero.

 Euzinha. Ai que saudade daquela tonta...

No dia seguinte, às cinco da manhã eu já estava na porta do estúdio. Para não ser surpreendida novamente pela chuva, dessa vez peguei de um, um tudo. Fui com duas calças, galochas, uma blusa de lã, um casaco de couro, um sobretudo, uma capa, um chapéu e um guarda-chuva. Pois não é que fez um sol de rachar! E eles, é claro, não deram as caras mais uma vez.

Aí veio o jogo contra Portugal, que tinha vencido suas duas partidas e estava classificado. Surgiu então o boato de que eles iam facilitar as coisas para nós. Bom, é difícil provar essas coisas, mas posso dizer que no começo eles estavam jogando em ritmo de treino; só um deles, um tal de Morais, destoava. Gente, esse aí desceu a lenha no Pelé! Se o boato era verdadeiro, tinham esquecido de avisar o Morais. E também os atacantes deles, porque o jogo terminou 3 a 1. Um vexame: nós, os bicampeões do mundo, não tínhamos nem passado da primeira fase!

 Eusébio foi bem bom naquela Copa.

Como o Brasil voltou para casa, resolvi torcer para os nossos irmãos portugueses, que iam continuar jogando em Liverpool. O primeiro adversário deles foi a seleção da Coréia do Norte, que tinha despachado a Itália. Achei que o resultado tinha sido só uma zebra, mas mal o juiz apitou o começo do jogo e os coreanos vieram para cima numa correria danada. Quando olhei para o placar, tive que arregalar os olhos: 3 a 0, gols de Pak-Seung-Jin, Li-Don-Woon e Yang-Sung-Hook. Se o Jiló fosse coreano, ia se chamar de Ji-Loh-Zim.

Se eles continuassem a jogar daquele jeito, acho que ganhariam de 100 a 0, mas os lusos conseguiram um golo, como eles dizem, e aí os orientais amarelaram. Foi então a vez dos portugueses passarem a correr feito doidos e, no fim, viraram o jogo para 5 a 3, com quatro gols de Eusébio. Foi um jogo de arrebentar coração; na minha opinião, o melhor daquela Copa.

Eu continuava indo aos estúdios. Um dia, perguntei ao porteiro se havia alguém gravando. Ele respondeu que sim, que lá estavam quatro rapazes e o conjunto se chamava Be... alguma coisa.

Passei a noite dormindo em frente à porta. Quando foi de manhãzinha, um dos quatro rapazes tropeçou em mim. Mais que depressa me levantei e perguntei:

— Você é o Paul?

— Não.

— John?

— Não.

— George?

— Não.

— Então é aquele... como é o nome mesmo... Bingo?

— Você quer dizer Ringo?

— Isso, Ringo!

— Também não.

— Uai, quem é você?

— Sou Joseph. Ele é Saul, este é Geoffrey e aquele é Django.

Então eles colocaram chapéus com orelhas de cachorro, deram-se as mãos e falaram ao mesmo tempo: — Nós somos os Beagles!

Como consolo, ganhei um chapéu daqueles. Pode uma coisa dessas?

Para esquecer Beagles e Beatles, fui para o hotel e assisti ao videoteipe da semifinal entre Portugal e Inglaterra. Era a primeira vez que se usava videoteipe numa copa, e eu achei demais da conta. O time inglês, além jogar em casa, era bom que só. Tinha Banks, Alan Ball, Hunt, o matador Hurst, Bobby Moore e Bobby Charlton. Se o Jiló fosse inglês, ia se chamar Bobby Jilorton. No fim, vitória suada da Inglaterra por 2 a 1, os dois gols de Bobby Charlton. Na final eles enfrentariam os alemães ocidentais, que tinham vencido a União Soviética também por 2 a 1.

 O Hurst não tinha um jeito de Beatle?

Já fazia três dias que eu estava na porta do estúdio, quando um sujeito chamado Pete Best me disse que os Beatles não gravavam ali fazia muito tempo e, que se eu quisesse encontrar um deles, teria que ir a Londres. Ele tentou me convencer que já tinha sido um beatle e até insistiu em me dar um autógrafo. Eu ri na cara dele e saí andando. Quando olhei para trás, o pobre homem estava abraçado a um poste e chorava com uma tristeza de dar dó.

Peguei então o trem para Londres. Para não perder a viagem, comprei um ingresso para a grande final.

Eu era uma das 95 mil pessoas que estavam no estádio de Wembley naquele dia. Como a torcida inglesa não é das mais comportadas, tratei de me sentar no meio de uns padres barbados que estavam por ali.

O jogo foi parelhinho da silva, mas como era diferente do nosso futebol! Não tinha aquele toque estilento, aqueles passes trivelados, aquelas tabelas manhudas, aqueles vai-que-vai-mas-não-vai... Era um estilo vigoroso, cheio de encontrões, com passes retos e muitos cruzamentos na área.

A Inglaterra era um bocadinho melhor e vencia por 2 a 1 até os 44 minutos do segundo tempo, quando, depois de um bate-rebate na pequena área, Weber empatou. Nessa hora, um sujeito de terno amarelo que estava sentado atrás de mim ficou de pé, começou a dançar e cantou com um sotaque estranho: — Olê, olá, o Alemanha está botanda pra quebrar!

A partida foi para a prorrogação e aí aconteceu aquele lance que até hoje dá o que falar. Hurst chutou a bola, que bateu na trave e depois caiu sobre a risca do gol. O estádio inteiro explodiu de alegria e os padres ao meu lado pularam tanto que pareciam macacos. Eu disse para o de óculos redondo: — Não foi gol! Bateu na linha! — Ele só respondeu: — Imagine!

 Não entrou, mas valeu.

Já o homem de terno amarelo atrás de mim chorava e gritava — Seus bandidas, suas safados!

Com aquele lance, os jogadores alemães se descontrolaram. No final, a Inglaterra ainda fez mais um gol, Hurst de novo, e levou a taça.

Aí foi uma festa só. Todos abraçavam todos, e os padres, menino!, pulavam que nem pipoca. Foi então que a barba de um deles caiu.

— Uai, gente, mas esse é o Paul! — eu disse a mim mesma, de forma que ninguém escutou. E se aquele padre era o Paul, logo o de óculos só podia ser o John, o narigudo era o Ringo e o de turbante era o George. Eles perceberam que eu os tinha reconhecido e pediram que eu ficasse quieta. Respondi que tudo bem, desde que eles autografassem o meu ingresso.

 Os autógrafos dos meninos

Quando cheguei a Belo Horizonte e dei os autógrafos para o Jiló, ele olhou para aquilo meio assim, sem interesse, e guardou o ingresso na gaveta. Eu não entendi nada.

— Uai, mas você não queria os autógrafos dos Beatles?!

— Sabe, Mel, os Beatles são legais, mas meio alienados. A gente tem que dar valor ao que é nosso.

E pôs na vitrola um disco do Geraldo Vandré.

Depois de tanto sofrimento, aquela desfeita... Fiquei possessa! Saí batendo a porta e fui dar um giro na Afonso Pena para espairecer. Na volta, mais calma, dei uma bofetada no Jiló e o pedi em casamento. Dessa vez ele aceitou; só exigiu que nosso primeiro filho se chamasse Fidel.

Eu achei que aquele seria o dia mais feliz de toda a minha vida. Mas não, foi o segundo.

 


(Para ler o especial do UOL sobre a Copa de 1966, clique aqui)

(Na semana que vem, a Copa de 70 e o último capítulo da história de Mel)

Por Torero às 07h08

23/04/2008

Dez respostas de Andrés Sanchez

(Eis aqui as respostas do presidente do Corinthians Andrés Sanchez. As perguntas foram enviadas por leitores e selecionadas por mim)

 

1-) Andrés, o que vc acha mais importante termos em 2010, ano do centerário do Corinthians: Um estádio ou uma equipe competitiva para conquista de títulos (no plural mesmo)? Grande abraço!
Carlos Patricio | carlospsjunior@bol.com.br | SBC - SP

AS: Se for possível, quero os dois para o Timão em 2010. Infelizmente, ter o estádio será difícil, já que ele não deve estar pronto até esse prazo. Caso dê tudo certo dentro do que estamos negociando, este deve ser finalizado em 2011 ou 2012. Estamos trabalhando aqui para ter, então, um time competitivo e que lute para a conquista de muitos títulos. 

 
2-) Se o Kia Jorabichian, uma pessoa que se diz seu amigo, voltasse ao Brasil com uma nova proposta de parceria você aceitaria?
Marcelo | marceloarone@terra.com.br

AS: Por tudo o que foi questionado no Ministério Público e na Polícia Federal, é impossível aceitar uma proposta dessas.

 
3-) Prezado Andrés, muitos são os boatos, as histórias contadas sobre um estádio para o Timão. Sem rodeios, o que há de concreto nesse assunto? Em que ponto REALMENTE estamos? Um abraço, Joao Luis Amaral.
Joao Luis Amaral | joao_luis_amaral@terra.com.br | SP

AS: Fizemos uma carta de intenções com duas empresas: a Engesa e a Seebla. Fizemos alguns questionamentos e eles nos darão no próximo dia 30 de abril a resposta sobre a continuidade ou não do projeto. Tudo dependerá da obtenção de alvará, compra do terreno e outras pendências.

 

4-) O senhor declarou que a parceria coma MSI era um mal necessário e era muito próximo de Kia Joorabchian. A parceria com a MSI foi a grande culpada pelo rebaixamento do Corinthians?
David | davidhepner@uol.com.br | Corinthians |

AS: A parceria não foi a grande culpada pelos problemas enfrentados pelo Corinthians em 2007. O rebaixamento foi a última conseqüência de uma série de fatores desencadeados no clube desde 2004. Cada parte envolvida teve sua parcela de culpa, mas a maior culpada foi a diretoria, que não soube administrar o clube.

 

5-) O senhor é favorável a reuniões entre torcedores e jogadores, torcedores e dirigentes, e possíveis encontros entre torcedores e o senhor mesmo?
Rafael Molina Pacheco | rafaelmpacheco@globo.com | São Bernardo do Campo, SP |

AS: Sou favorável desde que esses encontros sejam saudáveis e com conversas amigáveis entre as partes. Isso faz parte da existência do Corinthians e o clube tem em sua essência os torcedores. Eles, juntamente com os nossos sócios, são o maior patrimônio que temos.


 
6-) Presidente Andres, se levarmos em conta a situação deplorável do nosso Corinthians no fim do ano passado, de onde vem o dinheiro para as contratações? Se já existia o dinheiro em caixa, porque não foram feitas no ano passado, pois duvido muito que com esse time, teríamos sido rebaixados.
Gustavo Esquive | gesquive@terra.com.br | São José do Rio Preto, SP |

AS: Dos 17 jogadores contratados para essa temporada, 12 aceitaram vir ao Corinthians a troco de salário. O William veio para compensar uma dívida que tínhamos com o Grêmio. Outros atletas, como o André Santos, o Acosta e o Douglas, chegaram ao Timão com valores pagos em parcelas. E para o clube obter dinheiro, foi necessário fechar as torneiras, contendo custos. As ações de marketing também têm nos ajudado na obtenção de recursos.

 

7-) Quanto que o Corinthians recebe por cada camisa "Eu nunca vou te abandonar"?
Gabriel C. Santo | gabriel_santo@ig.com.br | São Paulo - SP

AS: O Corinthians recebe R$7 por cada camisa da campanha vendida na loja localizada no clube (Poderoso Timão) e R$5 de cada camisa comercializada em outras lojas. Esse valor já livre de impostos.

 

8-) Por que a diretoria adotou a postura de fazer vista grossa sobre as contas de Dualib e Nesi Curi, contradizendo o discurso de campanha?
Victor Farinelli | vfarinelli@hotmail.com | Viña del Mar – Chile

AS: Nós não fizemos vista grossa para os problemas de Dualib e Nesi Curi. O caso foi entregue ao Ministério Público e, a partir disso, só a polícia é que pode tratar do assunto.

 

9-) Presidente, por que nas eleições do ano passado o senhor não aceitou uma chapa única a favor de Paulo Garcia para presidente, num momento em que o Corinthians disputava para não cair para a segunda divisão e precisava de união política?
David | davidhepner@uol.com.br

AS: Em primeiro lugar, a proposta de chapa única não tinha Paulo Garcia como candidato. Outras pessoas formariam essa possível chapa. Quanto à minha candidatura, esta foi uma decisão do Grupo Renovação e Transparência, do qual eu fazia parte. Nós fomos o grupo que brigou pelas saídas de Dualib e Nesi e todos votaram para um possível candidato. Eu fui o escolhido por eles e assumi a responsabilidade de tentar a presidência.

 

10-) Presidente, no futebol atual, quem anda de Mercedes e quem anda de Fusca?
Ton | ewbueno@bol.com.br | SP

AS: No futebol atual, Palmeiras e Fluminense andam de Mercedes. Os dois clubes têm o respaldo de grupos de investidores e, com isso, conseguem fazer investimentos maiores no futebol. O restante dos clubes do Brasil anda de Fusca.

 

Por Torero às 08h09

22/04/2008

Um papo com Gardenal

Para ler uma conversa (fictícia, aviso) com o sujeito que jogou pimenta no vestiário do São Paulo, assinantes da Folha e do Uol podem clicar aqui.

Por Torero às 07h22

21/04/2008

O antepenúltimo capítulo

Foi um fim de semana cheio de duelos no velho oeste. E nos velhos sul, norte e leste também.

Set Fire, o mais imprevisível dos caubóis, ganhou de Louis Laranjeira quando estava com uma arma a menos. E Louis errou um tiro à queima-roupa (parece que a maré de azar está mudando de lado). O aristocrático Louis Laranjeira tem revólveres de primeira, mas não consegue usar todos ao mesmo tempo. Agora, Set Fire fará o duelo da vingança contra Black Red, seu arquiinimigo. Serão dois duelos espetaculares, de encher o Maracanã Saloon.

James Colorado passou por Duke Caxias e vai enfrentar Young Boy na final. Ele entra como franco favorito para conquistar sua trigésima-oitava estrela de xerife. Já Young quer repetir o feito de dez anos atrás, quando foi campeão invicto, e enfrentando o mesmo James Colorado nas duas partidas finais. Será um duelo entre os dois melhores rifles do estado. O Colt Mendes, de Young, já acertou 13 tiros. O Alex & Weston, de Colorado, 12.

 (Big Green, desenhado por Leo Yoshida)

Buck Bahia enfrentou a bela cauguel Victoria Salvador no Big Barrade E venceu. Fácil. Foram quatro tiros contra um. Agora Buck é o líder isolado do quadrangular final. Mas na semana que vem tem revanche. Victoria treinará sua pontaria durante toda a semana. Ela quer fazer a dança do créu para Buck Bahia. No mau sentido.

Semana que vem haverá também o primeiro dos dois duelos entre Will Uai e Rob Gallo. Será nas colinas de Big Boy from Minas. Os dois times suaram mas passaram por seus inimigos. Rob conseguiu duas vitórias por diferença mínima contra o índio Tupi (os índios sempre perdem no bangue-bangue) e Will empatou o primeiro duelo (com quatro balaços para cada lado) e começou perdendo o segundo. Mas virou e está na final.

Harry Hurricane perdeu para o simpático caubói Toledão. Mas por apenas um tiro. Como também havia vencido o duelo anterior por uma bala de diferença, vai à luta final por ter a melhor campanha durante todo o tiroteio. Hurricane enfrentará Coxa Cox, que venceu Blue Reed. Para variar, com dois tiros de seu certeiro revólver Keirrison. É o mais tradicional duelo de Paraná Falls.

E em Paulistão City a coisa pegou fogo. Ou, pelo menos, houve fumaça. Muita fumaça. E no vestiário do Saloon Antartica. Sim, os vagabundos continuam rondando Paulistão City.

Mesmo assim foi um bom duelo. Não brilhante, mas bom. Equilibrado e duro, com tiros raspando os adversários. A primeira bala certa veio do rifle L&L cano duplo de Big Green. Foi um belo tiro, de muito longe, mas não teria ferido Jack Tricolor se seu colete (da marca Roger Ceni) não estivesse furado.

A partir daí, Jack se arriscou mais, mas suas armas não estavam bem engraxadas e suas mãos tremiam, de modo que os tiros saiam tortos. Ademais, quando alvejavam Big Green, o colete (da marca Saint Marcos, e sem furos) parava as balas adversárias.

No final do duelo, ao cair do sol e da energia elétrica, Big ainda acertou um tiro final em Jack.

Agora, o caubói alviverde terá pela frente o velho e simpático Black Bridge, que nunca usou a estrela de xerife, mas já esteve perto disso algumas vezes. Não perca, na próxima semana, o penúltimo capítulo de Paulistão City.

Por Torero às 11h24

19/04/2008

Nem São Paulo, nem Palmeiras

Hoje à tarde temos vários duelos importantes:

Você pode começar às 15h50 com Atlético-MG e Tupi, em Juiz de Fora. Uma simples vitória classifica o Tupi para a final. O Tupi começou o campeonato muito bem, ganhando seus quatro primeiros jogos. Depois, perdeu o técnico (que foi rebaixado no Ipatinga) e caiu um pouco. Mas só um pouco. Voto no Atlético. 2 a 1.

Dez minutos depois começa Barueri e Ituano por uma vaga na final do Campeão do Interior. Na primeira partida, 2 a 2 em Itu. No Ituano retornam vários jogadores, mas o Barueri é um bom mandante. Chuto novo empate. 

E às 18h10, o Guaratinguetá, que teria ganho o Paulista caso ele fosse de pontos corridos, enfrenta a Ponte Preta, um dos times mais antigos do Brasil e que nunca foi campeão estadual. Deve ser uma partida equilibrada, disputada, daquelas tão iguais que ficam quase chatas. Ponte e Guará são dois times sem estrelas mas certinhos. O técnico Sérgio Guedes, da Ponte, parece interessante. Tem conseguido levar seus times sempre um pouco além do que era esperado. Meu palpite: 0 a 0.

Caso eu acerte os três, espero que cada leitor me envie um livro de prêmio. Caso eu erre todos, prometo que da próxima vez chamo Zé Cabala para fazer futurismos.

Por Torero às 11h12

17/04/2008

1962 – Chulé no Chile

1962 – Chulé no Chile

 

Para os religiosos, a parte mais nobre do ser humano é a alma; para os poetas, o coração. Estão todos errados. A parte mais importante do nosso corpo é o pé. Sem pés, as intenções da alma não seriam realizadas e os poemas do coração nunca chegariam às musas.

E digo mais: assim como as ciganas adivinham o futuro de um homem pela palma da mão, afirmo que é possível conhecer a personalidade, a capacidade profissional e o equilíbrio psicológico de um indivíduo por seus membros inferiores. “Mostra-me teus pés e te direi quem és”, eis o resumo da minha doutrina, que intitulei Podosofia.

 Grupo de podosofistas africanos.

Em maio de 1962, eu explicava os fundamentos desse meu sistema para o doutor Paulo Machado de Carvalho. Ele tinha ido à minha sapataria buscar um par de calçados feito especialmente para acomodar seus enormes calos.

 Nem exclavil dava jeito nos calos do Dr. Paulo.

Alguns dias depois, numa manhã escura e chuvosa, ele voltou. Estava encharcado mas alegre:

— Chulé, você é um gênio! Com estes sapatos eu posso até dançar!

Então, para tornar realidade suas palavras, ele começou a chapinhar nas poças d’água da calçada como se fosse Gene Kelly. E cantava: — I’m singing in the rain...

Esperei até que ele terminasse e bati discretas palmas. Quando pensei que ele iria embora, fui fulminado por uma pergunta:

— Que acha do Chile, Chulé?

Enxugando o rosto, respondi: — É um país comprido, senhor.

— Não, meu caro, não é isso. Quis saber o que você achava do Chile porque pretendo convidá-lo para integrar a comissão técnica que vai à Copa. Você vai cuidar das chuteiras dos jogadores.

Engoli em seco, fiquei em posição de sentido e bradei: — Se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação, digo ao senhor que vou.

Uma semana depois eu embarcava. Meu irmão mais velho, Frieira, que recentemente tinha perdido tudo no jogo, ficou cuidando da sapataria.

No avião coube-me sentar ao lado de um tipo muito baixo que usava um vistoso chapéu. Apresentei-me:

— Sou Chulé.

— Piolho, às suas ordens.

— Sou podósofo.

— E eu cabeçólogo.

Enquanto cruzávamos as nuvens, começamos um interessante debate. Eu disse que o pé dava rumo ao homem, ele falou que a cabeça estava acima de tudo. Eu disse que pelos calos e joanetes se pode conhecer o caráter de um sujeito, ele falou que pelo crânio e pela caspa podia-se conhecer a alma de um homem.

Não chegamos a nenhum acordo e, quando o avião pousou, despedimo-nos com um frouxo aperto de mão.

Chegando à concentração, comecei a trabalhar com afinco nas chuteiras dos jogadores, deixando cada uma o mais perfeitamente possível amoldada a seu dono. Garrincha me deu muito trabalho, porque até seus pés eram tortos. Fiz uma chuteira mais macia para os passes macios de Didi e, na ponta da chuteira de Vavá, coloquei um revestimento especial, pois ele gostava de dar um bico de vez em quando.

Já Piolho era o barbeiro da seleção e passava o dia aparando o cabelo dos jogadores.

Aimoré Moreira, o novo técnico, foi conservador e manteve a base do esquadrão de 1958. Lá estavam os pés-quentes Gilmar, Djalma Santos, Nílton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo. A única mudança foi feita no miolo de zaga, que passou a ser formado por Mauro e Zózimo.

 A turma de 62.

Nossa primeira partida aconteceu no estádio Sausalito, contra o México. Os supersticiosos ficaram tensos, porque em 1950 e em 1954 havíamos estreado contra os mexicanos e aquelas não foram grandes copas para nós.

De fato, começado o jogo, nosso ataque esbarrou na parede mexicana (um dos beques, aliás, se chamava Del Muro). Garrincha e Pelé simplesmente não conseguiam se mexer e lá se foi o primeiro tempo sem gols. Nossa agonia durou até os onze minutos da etapa final, quando Zagallo abriu a contagem. Depois, já mais tranqüilos, fizemos 2 a 0 com Pelé.

No segundo jogo, contra os tchecos, o Brasil sofreu muito e não saiu do 0 a 0. Alguém poderia pensar que foi um placar injusto, com o Brasil sufocando um adversário covarde e retranqueiro. Nada disso. A Tchecoslováquia não só se defendeu bem como trocou passes com inteligência e levou perigo ao gol de Gilmar. Mas isso só foi metade do sofrimento.

A outra metade foi ver Pelé, depois de um chute, levar a mão à coxa e fazer cara de dor. Era uma distensão na virilha. Ele estava fora da Copa.

Nos dias que se seguiram, o preocupado Aimoré Moreira andava de um lado para o outro na concentração. Tinha dúvidas sobre quem seria o substituto do Rei. Vendo que eu e Piolho estávamos por ali à toa, perguntou-nos quem deveria entrar no time.

— Sob a luz da Podosofia, senhor, não há dúvida de que quem deve jogar é Jair da Costa. Seus dedos têm um excelente formato parabólico, o que resulta em precisos arremates e primorosos passes.

Piolho, ajeitando o boné, pigarreou e disse: — Permita-me discordar do nobre colega, mas pelos princípios da Cabeçologia é óbvio que a melhor opção é Mengálvio. Seu crânio oblongo permite que tenha um amplo campo de visão, além de ser ideal para o cabeceio.

Aimoré Moreira sorriu: — Obrigado, vocês acabaram com as minhas dúvidas.

No jogo seguinte, ele escalou Amarildo.

 Amarildo olha para mim enquanto amarro suas chuteiras.

A Espanha tinha um timaço e era liderada por dois grandes jogadores, por sinal não-espanhóis: o argentino Di Stefano e o húngaro Puskas. Eles começaram melhor e logo fizeram um gol: Adelardo. A virada parecia impossível, mas no segundo tempo, em dois belos lances de Garrincha, Amarildo fez dois gols. Gols bonitos, em jogadas de velocidade e chutes precisos. Depois do segundo gol, eu disse para Piolho:

— Jair teria feito três.

— E Mengálvio, quatro.

Foi uma vitória dramática, mas serviu para que o Brasil começasse a crescer. Deu-nos aquele alívio de quando tiramos um sapato apertado.

No jogo das quartas-de-final, em Viña del Mar, tivemos pela frente uma medíocre Inglaterra. Foi o jogo mais fácil de toda a Copa. Vencemos por 3 a 1 em outra tarde inspirada de Garrincha. Ele jogou na ponta-direita, caiu pela esquerda e ziguezagueou pelo meio. Fez um gol de cabeça, um de folha-seca e ainda cobrou uma falta com tanta violência que o goleiro precisou rebater e a bola sobrou para Vavá fazer o terceiro.

Mais difícil que os ingleses foram os cachorros. Duas vezes o juiz teve que parar a partida para tirá-los de campo. Na primeira, o inglês Greaves ficou de quatro e foi se aproximando devagarinho até pegá-lo. Com o segundo não teve jeito. Como Garrincha, o cão driblou todos os seus marcadores e depois sumiu por baixo do alambrado.

— Eles nunca pegariam um cachorro com uma cabeça tão oviforme — disse Piolho, que naquele dia usava um chapéu de caubói.

— Pois ele podia ter duas cabeças, que não escaparia se não fossem as quatro patas.

— Humpf!

— Blergh...

Como podem perceber, a Podosofia e a Cabeçologia eram sistemas de pensamento rivais na busca da verdade. E a disputa entre as duas filosofias evoluiu a tal ponto que eu e o senhor Piolho mal nos cumprimentávamos.

A semifinal, contra o Chile, foi realizada no Estádio Nacional de Santiago e vista por setenta mil pessoas, a maior audiência do mundial.

Naquele dia, meu cabeçudo inimigo usava uma cocar de penas. Ele explicou que aquilo era uma relíquia tupinambá feita para dar sorte aos guerreiros. Tirei um pé de coelho do bolso e disse:

— Isso é que dá sorte!

— Não deu para o coelho.

Sem encontrar resposta, cruzei os braços, franzi o cenho e voltei a acompanhar a partida.

Dois chilenos marcavam a perna direita de Garrincha. Por isso ele fez o primeiro gol com a esquerda, logo aos nove minutos. Nessa hora não me contive e exclamei: — Ah, os pés...

Porém, aos 32 minutos, o mesmo Garrincha fez o segundo, para meu azar, de cabeça. Quase pulei no pescoço de Piolho ao ouvi-lo murmurar: — Ah, a cabeça...

 Aqui, Garrincha está dizendo para Pelé: "Com essas chuteiras do Chulé, eu vou jogar tão bem que o pessoal nem vai sentir sua falta."  

Os donos da casa então vieram com toda a fúria para cima de nós e Toro diminuiu no finzinho do primeiro tempo, enlouquecendo o estádio.

Fúria, porém, não basta para ganhar um jogo. Além disso é preciso ser pé-quente, não meter os pés pelas mãos e não tropeçar nas adversidades.

No segundo tempo, o Brasil manteve os pés no chão e Vavá, logo aos três minutos, completou um cruzamento de Garrincha, marcando 3 a 1. Leonel Sanchez, de pênalti, fez a torcida pensar que ainda dava pé, mas Vavá estufou as redes mais uma vez e chutou para longe as esperanças chilenas.

Nossa alegria só não foi total porque Garrincha, cansado de levar pontapés, confundiu as nádegas do zagueiro Rojas com a bola e foi expulso. Sabíamos que a seleção podia vencer sem Pelé, mas sem Pelé e Garrincha...

Por sorte, ou por causa de um bom trabalho de bastidores, o Tribunal da Fifa não puniu o nosso ponta. Por azar, ou por causa de um vírus, Garrincha pegou uma gripe.

Nosso adversário na final foi a velha Tchecoslováquia, que havia vencido os iugoslavos por 3 a 1. Não era um time fabuloso, mas fazia tudo certinho e, como bem se lembram, era o único adversário que o Brasil não havia conseguido vencer até então.

Naquela altura do campeonato, o clima entre mim e Piolho era de total animosidade, tanto que nos dispusemos a fazer um duelo, não com revólveres, e sim com nossas filosofias. Se o Brasil fizesse mais gols com o pé, ele beijaria meus sapatos e gritaria “Viva a Podosofia!” três vezes.

Caso saíssem mais gols de cabeça, eu usaria a meia de Garrincha como chapéu e sairia gritando pelo campo: “A Cabeçologia é supimpa!”

Enfim, um duelo de sábios.

Como na Copa anterior, o inimigo começou vencendo. Masoput abriu a contagem logo aos catorze minutos. Porém, a estrela de Amarildo brilhou novamente e o empate veio, com os pés, aos dezesseis minutos. Dei um pulo tão grande no banco que bati a cabeça no teto.

Garrincha, com 39 graus de febre, não fazia muita coisa. Mesmo assim, por via das dúvidas, era triplamente marcado, o que ajudava os outros jogadores do ataque a encontrar espaços.

No segundo tempo, Amarildo recebeu a bola na esquerda, driblou o seu marcador e cruzou para Zito, que vinha correndo na direção do segundo pau. Para alegria de Piolho, a testa do nosso volante teve a precisão de um pé e a bola foi parar no fundo das redes.

Um gol de pé e outro de cabeça. Nosso duelo estava empatado.

Então, aos 33 minutos, Djalma Santos fez um cruzamento despretensioso e o goleiro Schroif preparou-se para defender; o sol, porém, atrapalhou sua visão e ele acabou soltando a bola nos pés de Vavá, que usou o bico da chuteira que eu preparara especialmente para ele: 3 a 1.

Éramos bicampeões! E mais: a Podosofia vencera!

 Martha Rocha era o apelido de Mauro, o nosso elegante capitão.

Com um sorriso triunfante nos lábios, caminhei até meu antípoda, que estava sentado num canto do gramado, triste e cabisbaixo. Não resistindo à tentação, coloquei meu pé em seu joelho, lustrei a ponta do sapato e disse: — Beije o seu novo mestre.

Ele tirou a cartola lentamente e, quando pensei que fosse receber o seu ósculo, levei uma violenta testada nos testículos. Respondi a covarde agressão com um certeiro pé-de-ouvido. E assim, enquanto os jogadores comemoravam e se abraçavam, nós continuamos nossa luta, ele com cabeçadas, eu com chutes.

Acabamos os dois despedidos. A injustiça sempre perseguiu os filósofos. Foi assim com Sócrates, não seria diferente conosco.

As idéias são como os pés, e os tempos, como os sapatos. Quando elas são maiores que eles, forma-se o calo da injustiça. Um dia, “Mostra-me teus pés e te direi quem és” será uma frase tão famosa quanto “Penso, logo existo” ou “Em time que está ganhando não se mexe”.

 

(Para ler mais sobre a Copa de 1962, clique aqui.)

Por Torero às 08h54

Quem foi o sujeito mais feliz desta noite de quarta?

Tripodi, que até agora não tinha acertado nem lateral, mas fez o golaço que classificou o Santos para a próxima fase da Libertadores.

Paulo Baier, que deve estar sorrindo mais que ator de comercial de pasta de dente, pois fez dois contra o Corinthians e deixou o Goiás com boa vantagem para o jogo de volta.

Edmundo, que entrou no segundo tempo e fez o gol da vitória sobre o Criciúma (novamente de pênalti, e sem tomar muita distância que cansa).

Ou Nelsinho Baptista, que, depois de ser rebaixado com o Corinthians, foi campeão pelo Sport.

Por Torero às 00h37

16/04/2008

Clássicos em cordel

    

A editora Nova Alexandria lançou uma coleção simpática chamada Clássicos em Cordel. A idéia, como já diz o nome, é pegar clássicos da literatura e transformá-los em livros de cordel. Os dois primeiros volumes partem de duas obras de Vitor Hugo: "O Corcunda de Notre-Dame", recontado por João Gomes de Sá, e "Os Miseráveis", adaptado por Klévisson Viana. 

Obviamente as obras não recontam as histórias completamente, mas reconhece-se a trama básica. A versão do Corcunda tem um ingrediente a mais, pois João Gomes de Sá adaptou a história para o Nordeste. E a própria história do corcunda, mais peripeciosa, parece se adaptar melhor ao cordel. Mas ambas as versões são interessantes, com alguns versos surpreendentes. A coleção pode ser uma boa porta de entrada para púberes, adolescentes e curiosos que queiram conhecer este formato de poesia tão brasileiro.   

Por Torero às 11h59

15/04/2008

Ainda sobre a mão de Adriano

Para ler o texto de hoje na Folha, clique aqui.

Por Torero às 07h32

14/04/2008

Em cada colina, um duelo de morte

Que domingo! De norte a sul se podia ouvir o som tiros, se podia ver a fumaça dos revólveres, se podia sentir o cheiro de sangue. Nem o rancho mais distante ficou alheio aos duelos decisivos ontem.

Talvez o mais impressionante tenha sido o de Victoria Salvador, a negra e sexy caubóia que tem o chapéu enfeitado com contas baianas. Ela lutou contra outra Victoria, Victoria of Conquest, e cada uma acertou cinco balas na outra. Cinco! Foi um duelo com dez tiros certeiros! Victoria Salvador é a líder do campeonato, mas Buck Bahia está em seu encalço. O melhor é que os dois se enfrentam no próximo domingo. Big Barrade vai pegar fogo!

Um duelo sensacional foi o que aconteceu entre o índio Tupi (primo distante do Guarani) e Rob Gallo. O encontro foi nas colinas de Big Boy from Minas, e o índio, logo aos cinco minutos de luta, cravou uma flecha em Gallo. Mas Rob não fraquejou. Levantou-se e, antes de fazer um intervalo para tomar uma dose de uísque, acertou duas balas no pele vermelha. Porém, o uísque lhe fez mal e Tupi, que bebera apenas guaraná no intervalo, voltou com tudo e empatou a lide. Felizmente, Rob se recuperou do torpor etílico e acertou um terceiro e decisivo tiro em Tupi. Agora os dois se encontrarão em Outside Judge para a decisão derradeira e definitiva.

Coxa Cox usou seu revólver Keirrison mais uma vez, e assim venceu Blue Reed, o caubói que toca músicas de Lou Reed. O próximo duelo será no saloon de Reed, e nada está decidido. Um dia antes, Harry Hurricane venceu, também em casa e também com um tiro simples, a Toledão, o simplório e simpático caubói do interior que usa uma garrucha dourada. Em Paraná Falls, tudo pode acontecer.

James Colorado teve um difícil duelo contra Duke Caxias. Mesmo lutando no saloon do inimigo e com uma arma a menos desde o primeiro quarto do combate, James se aguentou e, no último minuto, no último segundo, no último suspiro, acertou um balaço em Duke. Agora, é só empatar em Happy Harbour (“só”, não, porque seu arquiinimigo Sancho Pampa também só precisava empatar com Young Boy e...).

Em Rio Hills, Seth Fire, o caubói gauche, humilhou Black Red, o caubói das multidões. Foram três tiros certeiros e um domínio tranquilo durante todo o duelo. Red, que já está garantido na final, jogou de saltos altos em vez de botas, e isso atrapalhou sua pontaria.

E houve ainda o grande duelo entre Jack Tricolor e Big Green. Jack, sabendo-se mais fraco, começou se escondendo atrás de barris. E, aliás, escondia-se muito bem. Então num lance polêmico, o caubói tricolor acertou um tiro em Green com seu Colt Imperator. Um tiro que teve uma mãozinha de sorte. Paul Cesar Olive, o judge do combate, disse que não há problemas em usar golpes de vôlei nos duelos e validou o tiro.

Depois, Green passou a dominar a luta, mas o calibre 44 duplo do Colt Imperator funcionou de novo. Green aind acertou um tiro em Jack, mas a vantagem para o duelo final (graças a Olive) é do caubói tricolor, que precisa apenas empatar. Apenas? Não, nem isso será fácil, e muito sangue ainda vai escorrer pelas ruas de Paulistão City. 
 

Leo Yoshida

Por Torero às 09h31

Aniversário alvinegro

(Republico aqui um texto de que fiz dez anos atrás para o aniversário do Santos)

 

Um aniversário divino

Recebi por esses dias um e-mail que me deixou bastante intrigado. O remetente mandava que eu colocasse o texto em minha coluna, o que obviamente achei absurdo e prontamente decidi não fazer. Porém quando olhei o endereço da caixa postal: deus@ceu.com. achei melhor, por via das dúvidas, ceder gentilmente meu espaço. Portanto, aí vai o texto. E "ipsis literis', que com certas coisas não se brinca.

"Caro colunista. Ordeno que você publique essa carta na próxima terça-feira, dia 14 de abril. O motivo é muito simples: é o dia do aniversário de 86 anos do Meu time de coração, o Santos Futebol Clube.

"Essa é a primeira vez que Me manifesto a esse respeito e espero não estar magoando torcedores de outros times, principalmente os do São Paulo, São José, Santo André ou -meu filho, Me perdoe- do Santa Cruz. Acontece que o Santos é uma síntese de todas essas santidades, e, assim, é lógico que seja o meu preferido. Além disso, seu uniforme é todo branco, e, como vocês sabem, essa é a cor preferida por aqui.

"O Santos foi fundado no mesmo dia em que o Titanic afundou. Sei que esse naufrágio foi uma grande desgraça para vocês aí embaixo, mas eu os compensei com a criação de um time divino. É como vocês dizem: quando Eu fecho uma porta, abro uma janela. Afundei um navio, mas criei o Peixe; acabei com o Titanic, mas inventei um time de titãs.

"São 86 anos de arte, vitórias e gols, desde os primeiros de Geraule, Arnaldo Silveira e Anacleto Ferramenta, passando pelo mortal cabeceador Ari Patuska, até chegar à inesquecível dupla, Araken e Feitiço, que nos deu o primeiro título em 1935, em cima do Corinthians, o inimigo que nós mais gostamos de vencer.

"E como me esquecer de Odair, Antoninho, Formiga, Del Vecchio, Vasconcelos, Pagão e Tite, autores de jogadas divinas, dribles celestiais e gols tão lindos que às vezes até Eu duvido?

"Mas o melhor de tudo foram os anos 60, com Gilmar, Mauro, Zito e o ataque que encantou o mundo: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Eu do céu, essa escalação é tão musical quanto um acorde de harpa! Aliás, por que vocês acham que Pelé foi jogar no Santos, hem? Bem, de vez em quando a gente tem que dar uma mãozinha.

"Depois vieram Toninho Guerreiro, Carlos Alberto, Clodoaldo, Edu, Rodolfo Rodrigues, Pita, João Paulo, Serginho Chulapa -se bem que esse rapaz às vezes parecia seguir mais o Outro do que Eu-, Giovanni e agora Muller, que só o teimoso do Zagallo não convoca para a seleção. Mas tudo bem, o Juízo Final está aí.

"São 86 anos, 4.619 partidas, 2.419 vitórias, um dilúvio de 10.48 gols, um rosário de títulos e o melhor: um futebol sempre jogado de forma bonita e ofensiva. Tudo bem que, de vez em quando, a fase fique mais com cara de purgatório do que de céu, mas se Eu quiser -e Eu quero!-, logo logo as coisas vão entrar nos eixos. Confiem em Mim, não demora e o Santos vai ser campeão novamente.

"Que Eu vos acompanhe e guarde. Amém.

"O altíssimo."

Por Torero às 09h28

12/04/2008

Troféu Zé Cabala

Faço cá aos leitores uma proposta: O primeiro a adivinhar o placar da final (incluindo os finalistas) ganha um livro. Se ninguém acertar, ganha o que chegar mais próximo. Palpites serão aceitos até as 15h59 deste domingo.

Por Torero às 12h06

10/04/2008

1958 – Jesus é brasileiro!

1958 – Jesus é brasileiro!

Nasci em Aparecida, meus pais conheceram-se numa missa e vim ao mundo num 25 de dezembro, mesmo dia do nascimento de Nosso Senhor. Diante de tais coincidências não é de admirar que me tenham batizado com o nome de Jesus.

Cresci num ambiente religioso e, quando fiz quinze anos, não tive alternativa: entrei para o seminário. Depois de professar votos, fui designado para uma igreja no bairro do Paraíso, em São Paulo.

Certa vez, no remoto ano de 1958, quando era ainda um jovem padre, fiz um sermão tão inspirado que, não fosse eu modesto, teria arrancado lágrimas dos meus próprios olhos.

Acabada a missa, resolvi andar por entre os fiéis para ver se estavam comentando minha pregação. Porém, chegando perto de um grupo, notei que não davam a mínima para o sermão. Seu assunto era outro: uma tal Copa da Suécia. Aquilo deixou-me tão contrariado que, aos berros, comecei a censurá-los:

— Raça de pecadores! Em vez de debater as santas palavras, formam uma roda para comentar assuntos mundanos!

Todos baixaram a cabeça e ficaram calados feito vacas de presépio. Só um deles, um senhor elegante e educado, ousou falar. Seu nome era Paulo Machado de Carvalho e, de vez em quando, ele ia ouvir minhas prédicas e pedir a Deus que curasse seus calos.

 Paulo Machado de Carvalho, um homem de ferro.

— Calma, padre, não fizemos por mal. Eu é que puxei o assunto. Acontece que sou o chefe da delegação brasileira de futebol e estava comentando as boas novas da seleção com estes cavalheiros.

Ainda irado, perguntei: — E que boas novas podem ser mais interessantes que as do evangelho?

Ele estava tão animado com seu projeto que realmente começou a explicá-lo:

— Até agora as delegações brasileiras têm sido muito amadoras. Estou planejando levar para a Copa uma equipe que tenha comissão técnica, chefe, supervisor, médico, dentista e até um psicólogo!

De pronto, perguntei:

— Pois tantos cuidados e ninguém para levar a palavra de Deus? Médico, dentista, psicólogo e nem mesmo um coroinha para levantar a fé dos jogadores? O senhor pensa que um atleta é apenas corpo? Pensa que eles não têm alma?

Já estava a caminho de um novo sermão quando ele me interrompeu para dizer que concordava comigo, o que é a pior forma de nos brecar a língua.

— E digo mais: o senhor está tão certo que eu o convido a vir conosco! Com as suas palavras, a taça do mundo é nossa! Com Jesus não há quem possa!

Aquilo me pegou desprevenido e, como não sabia o que responder, falei que teria de conversar com o bispo.

Foi o que fiz no dia seguinte. Era o meu primeiro encontro com aquele santo homem e, por isso, entrei tímido e reverente em seu escritório. Os móveis eram de madeira escura, havia um gigantesco crucifixo atrás de sua cadeira e ao longe podia-se escutar o canto gregoriano entoado pelos frades.

Aproximei-me e, de joelhos, contei a dúvida que me trazia à sua presença.

Ele olhou para o teto por alguns longos segundos e então me respondeu:

— Meu filho, a resposta a todas as perguntas está nas santas palavras. Lembra-te de Corinthians 2, versículos 7 e 8.

Puxei pela memória e citei o trecho da carta de Paulo aos coríntios: — Falamos a sabedoria de Deus, à qual Deus ordenou para nossa glória.

— Eu não disse coríntios, disse Corinthians! Vê o que diz a segunda estrofe, versos 7 e 8: Tu és o orgulho / dos desportistas do Brasil!

Então ele levantou a batina e me mostrou que usava uma camisa daquele time, autografada por um certo Baltazar, que não devia ser o rei mago. E o mais surpreendente é que continuou a cantar o hino enquanto dava rodopios pela santa sala: — Corinthians grande, sempre altaneiro, és do Brasil, o clube mais brasileiro.

Quando finalmente acabou seu número, pôs as mãos em meus ombros, olhou-me nos olhos e disse: — Jesus, se tu perderes essa chance, eu te crucifico!

Três semanas depois eu estava em Uddevalla, na Suécia.

Meu trabalho ali não era dos mais difíceis. Devia apenas dizer algumas palavras aos atletas antes das contendas e dar-lhes a bênção. Para minha surpresa, os jogadores tinham bastante fé e consideravam aquilo muito importante. Quase tanto quanto os filmes de Abbott e Costello, Charles Chaplin e Bob Hope que Carvalhais, o psicólogo, passava para nós.

 Garrincha adorava imitar o jeito de andar do Carlitos.

Quando veio o primeiro jogo, inspirei-me numa passagem do livro do profeta Daniel e disse: — Vençamos esses austríacos como Daniel venceu os leões, pois Deus está do nosso lado e não há inimigo que possa enfrentá-Lo.

Eu nunca tinha visto uma partida de futebol ao vivo e confesso que aquilo me deixou embasbacado. Os homens correndo pela grama verde, a bola descrevendo parábolas formidáveis, que divino! E, coincidentemente, onze jogadores para cada lado, o mesmo número de apóstolos de Nosso Senhor (não considerando Judas Iscariotes, é claro).

Os brasileiros venceram com certa facilidade: 3 a 0, dois gols de Mazzola e um de Nílton Santos, que desarmou um inimigo e se mandou para o ataque, enquanto o técnico Feola, ao mesmo tempo que comia um sanduíche, gritava: “Volta, volta!”. Ele não voltou e fez um golaço.

Para o segundo jogo, em Gotemburgo, contra a Inglaterra, reuni os jogadores e contei-lhes a história de Sansão, que vencera os infiéis com a força de seus longos cabelos. Garrincha, um ponta-direita torto feito as linhas em que Deus escreve, contestou-me: — Então vamos perder, porque o cabelo de todo mundo aqui é curtinho...

Aquela piada deixou o pessoal cabisbaixo e, não sei se por isso ou por causa da boa defesa inglesa, o fato é que aquele foi o primeiro 0 a 0 de todas as copas. Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nílton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazzola, Vavá e Zagallo voltaram para o hotel muito chateados. O técnico Feola estava tão abatido que só comeu quatro pratos no jantar.

No dia seguinte, logo que o treino acabou, alguns jogadores vieram ter comigo. Bellini, Nílton Santos e Didi queriam que eu falasse com o técnico para que fossem feitas três mudanças no time. Nos lugares de Dino Sani, Joel e Mazzola, queriam Zito, um volante sério e compenetrado, Garrincha, com suas pernas tortas como bananas, e Pelé, um quase desconhecido rapaz de dezessete anos.

— Por que eu? — perguntei.

Eles me explicaram que o Feola era tão teimoso quanto religioso, e assim só um padre o faria mudar de idéia.

Vesti minha melhor batina e fui até ele. Quando cheguei, disse que tivera uma visão. Feola arregalou os olhos e pôs seu pernil de lado. Continuei falando e disse que vira Pelé, Garrincha e Zito montados em três cavalos alados e brandindo espadas flamejantes, com as quais derrotaram um dragão vermelho. Primeiro ele ficou paralisado, depois o queixo começou a cair e a boca ficou tão aberta que quase tive medo de ser engolido. Então, depois de um pequeno arroto, ele disse: — Padre Jesus, não vou desprezar esse sinal.

 Feola, o maior técnico que o Brasil já teve.

No jogo seguinte, em Gotemburgo, a seleção entrou em campo com as três alterações.

Brasil e URSS tinham o mesmo retrospecto: haviam derrotado a Áustria e empatado com a Inglaterra. Quem vencesse seria o primeiro do grupo, quem perdesse poderia até ser desclassificado. A URSS era a campeã olímpica e havia desenvolvido um futebol científico. Eu falava com meus botões (o que não era fácil, pois os botões da batina ficam nas costas): — Se os soviéticos mandaram o Sputinik para o espaço, para onde mandarão nossa seleção?

Na preleção, lembrei como Davi havia derrubado Golias, que os gigantes nem sempre vencem, que os pequenos às vezes superam os grandes etc. Dessa vez Garrincha comentou: — Está para mim, eu sou o mais baixinho aqui.

 Olhando as pernas de Garrincha a gente entende que Deus escreve certos por linhas tortas.

Logo vi que ele estava com a razão. Mal começou a partida, Garrincha recebeu a bola e avançou em direção ao seu marcador, Kuznetsov. Ele fez que ia correr para a linha de fundo, mas parou, enquanto o ludibriado Kuznetsov saiu em disparada e depois teve que voltar, envergonhado. Veio então um novo drible e um cruzamento que quase resultou em gol.

Segundos depois, Garrincha ataca novamente. Krijevski estava atrás de Kuznetsov, caso ele fosse driblado. Garrincha driblou um, driblou o outro e disparou contra a trave de Yashin.

Na terceira bola para Garrincha, lá estavam o pobre Kuznetsov, Krijevski e agora Voinov. Garrincha passou pelos três e cruzou para Didi, que ajeitou para Vavá disparar um foguete contra as redes e fazer 1 a 0.

Depois disso, os ateus soviéticos perderam a fé na recuperação. Nosso time passeou em campo e Vavá ainda ampliou. Era outra seleção. No final do jogo, Feola olhou para mim e discretamente fez o sinal da cruz.

 Garrincha entortava até as câmeras dos fotógrafos.

Veio então o País de Gales, um time especialista em empates e cuja defesa era considerada inexpugnável. Na preleção, lembrei como os israelitas haviam derrubado as muralhas de Jericó tocando suas trombetas. Dessa vez, Garrincha disse: — Não tenho trombeta, serve uma gaitinha?

Como se esperava, foi um jogo bem difícil. A área inimiga estava congestionada e o goleiro Kelsey pegava tudo. Até o final do jogo — eu contei no meu rosário — foram 67 ataques brasileiros e só três galeses. A retaguarda deles parecia mais resistente que as muralhas bíblicas.

Foi então que, aos 26 minutos do segundo tempo, aconteceu o lance que foi a nossa trombeta, o lance que anunciou ao mundo um novo gênio. O menino Pelé recebeu na área, livrou-se do marcador e bateu colocado no cantinho de Kelsey. Aleluia! Estava decretada a vitória! O País de Gales sabia se defender, mas não tinha a menor idéia do que fazer na hora de atacar.

 Pelé deixou de ser menino na Suécia. E em vários sentidos.

No dia seguinte fui até uma igreja agradecer por aquela sofrida vitória. Enquanto orava para uma estátua do meu homônimo, uma freira, que percebeu que eu falava em português, aproximou-se e perguntou:

— O senhor é brasileiro?

— Feito feijão e farinha.

— Então conhece meus pais?

— Como?

— Feijão e Farinha! Bom, deixe para lá, é uma história muito comprida.

— Qual o seu nome?

— Madalena. E o seu?

— Sou Jesus.

Ela arregalou os olhos, recuou um passo e estava pronta para se atirar aos meus pés quando completei: — Jesus de Souza, não de Nazaré.

Depois de um suspiro de alívio, começamos a conversar e Madalena contou sua história. Era da irmandade de Santa Chiara e fazia parte de uma missão em Estocolmo. Apesar de não conhecer a terra de seus pais, ela simpatizava com o Brasil e confessou que adorava futebol.

Convidei-a para ver a semifinal. Ela lamentou muito não poder ir, disse que tinha de fazer uma distribuição de lanches em Sandviken. Pensei tê-la ouvido dizer “Malditos pobres!”, mas deve ter sido o vento.

O jogo contra a França aconteceu no dia 24 de junho, uma fria terça-feira, já no estádio Raasunda, em Estocolmo. Aquele seria um jogo muito difícil e eu caprichei na parábola da preleção. Lembrei como Moisés abriu o Mar Vermelho com seu cajado e disse que a defesa francesa também se abriria se tivéssemos fé. Garrincha respondeu que, se o problema era cajado, deixassem com ele.

 Os onze apóstolos do futebol fazem pose para a foto antes do jogo contra a França.

Na primeira etapa, Vavá, logo aos dois minutos, fez 1 a 0. Mas nossa alegria durou pouco porque Fontaine, seis minutos depois, já empatava. O juiz, um tal Mr. Griffiths, do País de Gales, anulou um gol legítimo de Zagallo, e Feola quis ir para cima dele. Mas eu o acalmei dizendo que Deus era justo e que nem uma folha caía se não fosse por sua vontade. Por uma divina coincidência, o desempate veio numa folha-seca de Didi aos 39 minutos, um chute celestial!

Mal começou o segundo tempo e Pelé fez um lindo gol. Depois outro aos 19 minutos e mais um aos 31. Três gols! Três golaços de um menino que não tinha idade para ver os filmes de Brigitte Bardot!

 

Fiquei emocionado com aquela goleada e percebi que estava me apaixonando pelo futebol. Já pensava se poderia continuar sendo um religioso pondo o esporte em tão destacado lugar no altar das minhas preferências. Tudo isso me torturava e fui conversar com irmã Madalena.

Ela aconselhou-me com um jogo de palavras muito ao gosto dos escolásticos: — Pense nos sentimentos do seu coração e sinta as razões do seu cérebro.

Aquilo me deixou confuso. Depois de coçar o queixo por alguns instantes, falei: — E então, quer ver a final da Copa? Sei que isso nada tinha a ver com o assunto, mas, como disse Santo Ernulfo, “Se não tens uma resposta, faze uma pergunta”.

 Ela rapidamente esqueceu o meu problema, deu uns pulinhos, bateu palmas e gritou: — Claro!, claro! — Ficou ainda mais eufórica quando eu lhe disse que poderia acompanhar minha preleção no vestiário. Se não fossem nossos hábitos, creio que teria me beijado.

A final seria disputada contra a Suécia. Os escandinavos fizeram uma belíssima campanha e também surpreenderam na semifinal, derrotando os campeões do mundo, os alemães ocidentais, por 3 a 1.

O treinador deles, um inglês chamado George Raynor, estava otimista e dizia que, se chovesse e o campo ficasse pesado, os suecos seriam os favoritos. E o pior aconteceu: naquele dia choveu a cântaros.

Outro acaso nos deixou ainda mais preocupados. Como a Suécia e o Brasil usavam uniformes amarelos, a administração da seleção teve que improvisar novas camisas. Comprou umas azuis, pintou os números em branco e costurou nelas o distintivo da CBD.

Essa troca de última hora deixou alguns jogadores desconfiados, achando que aquilo poderia ser um sinal de azar. Eu quis animá-los, mas, por mais que pensasse, não consegui encontrar nenhuma passagem bíblica que fizesse referência a uma troca de camisas.

Foi então que, supreendendo a todos, a irmã Madalena subiu num banquinho e fez um sinal pedindo silêncio:

— Vejam como Deus está do nosso lado — ela disse. — Ele faz com que joguemos com camisas que têm a mesma cor do manto da Virgem Maria. É um sinal! Não podemos perder! E vocês serão os apóstolos que levarão a boa nova, a boa nova de que o futebol é uma arte. Pelé é jovem como São João; Zito, forte como São Pedro; Didi, um organizador como São Tiago; Garrincha... Bem, Garrincha é Garrincha...

Ela ainda ia continuar, pois estava inspirada, mas então Paulo Machado de Carvalho lembrou que tínhamos que entrar em campo.

A seleção do Brasil começou o jogo um pouco tensa. Para piorar, a Suécia abriu a contagem logo aos quatro minutos, com um chute bem colocado de Liedholm.

Mas a ressurreição não demorou. Aos oito minutos, Garrincha driblou seu marcador e cruzou rasteiro para a área, onde Vavá, bem colocado, empatou. Nesse momento, irmã Madalena estava rezando e não viu o lance. Ela lastimou muito não ter visto o gol, e parece que Deus ouviu seus lamentos, porque alguns minutos depois Garrincha novamente foi à linha de fundo e cruzou para Vavá fazer 2 a 1. Igualzinho ao anterior!

 Vavá, o homem do gol-replay.

Mas foi no segundo tempo que vimos que os céus estavam do nosso lado. Aos onze minutos, Pelé recebeu um longo lançamento de Didi, matou a bola no peito, deu um chapéu no zagueiro e, antes de a bola tocar o chão, arrematou para o gol. Zagallo marcou o quarto do Brasil e Simonsson fez o segundo da Suécia, mas Pelé ainda não tinha esgotado seu repertório. Novo cruzamento na área, ele fugiu do seu marcador e cabeceou para o alto, colocando a bola no canto esquerdo do perplexo Svensson.

Logo depois o juiz apitou o fim do jogo e todos pulamos de alegria. Mário Américo, o massagista, correu para o campo e roubou a bola do juiz, driblando policiais suecos e dirigentes da Fifa.

Em verdade vos digo que não me contive quando o bem-aventurado Bellini ergueu o troféu. Sim, chorei. A taça do mundo era nossa!

Naquele momento virei-me para irmã Madalena, peguei suas mãos e, com os olhos pregados no chão, falei:

— Madalena, acho que estou amando...

— Eu também!

— ... o futebol.

— Ah, o futebol?... Eu também.

Quando voltei a São Paulo, larguei a batina e comecei a jogar como goleiro. Chamavam-me de Jesus, o milagroso. Tinha algum talento e cheguei até a atuar em times como São Bento, São José, Santo André e Santa Cruz.

Encerrei a carreira num time amador do Espírito Santo.

 

(Para ler mais sobre a Copa de 58, clique aqui.) 

Por Torero às 07h35

09/04/2008

Dica

Para quem (como eu) gosta de jogos que ninguém vê (por exemplo, Poços de Caldas x Itaúna), um bom site é o Jogos Perdidos. Os doidos (no bom sentido) do site andam pelos cafundós e fazem fotos exclusivas, levando um jogo da décima-segunda divisão tão a sério quanto um Fla-Flu. 

Por Torero às 07h42

08/04/2008

Texto da Folha

Pare ler o texto de hoje na Folha, em que Tico e Teco contam como inventaram certas regras dos campeonatos carioca e paulista, assinantes da folha e do Uol podem clicar aqui.

Por Torero às 08h30

07/04/2008

Paulistão City e a panela de pipoca

Ah, que fim de semana! Foram dez duelos simultâneos! O povo de paulistão City nem sabia para onde olhar, pois em cada canto havia caubóis trocando balas. Eram tantos os tiros que a cidade mais parecia uma panela de pipoca no fogo.

Na luta dos desesperados, o índio Guarani venceu Black River. Com uma flechada certeira logo no começo do combate e outra quase no final, o silvícola não será mais expulso de Paulistão City. Pelo menos, não desta vez. Mas se não tomar jeito...

Frei Guará, o sanguinário caubói que se benze após enviar seus adversários para o inferno, ganhou o duelo contra Big Bigger. E fora de casa, como ele gosta. Frei Guará detesta ver o chão de seu saloon manchado de sangue. Se Paulistão City fosse uma cidade de justiças e razões, Frei Guará teria recebido ontem a estrela de xerife.

Billy Santos e Black Bridge fizeram um duelo de muito suor e pouca arte. Billy, mesmo usando quase que apenas armas reservas, conseguiu empatar com Black, que tinha que vencer. A sorte do veterano caubói, que usa seu cinturão de balas atravessado no peito, foi que Kid Norusca estava num ótimo dia e venceu Tim Timão.

Aliás, os fãs de Tim Timão, o caubói alvinegro (agora, alvinegrovioláceo), tiveram sentimentos variados no fim de semana. Quando Kid Norusca acertou a primeira bala em Tim, tudo parecia perdido. Porém, quando Tim, no finzinho da primeira parte do duelo, acertou um belo tiro em Kid, a esperança voltou. Voltou e virou certeza quando Tim alvejou uma segunda bala em Kid com sua velha garrucha Finazzi. Faltavam apenas quinze minutos de duelo e a glória parecia certa. Mas Kid, mesmo ferido, empatou a luta dois minutos depois, transformando a esperança em medo. E, no finzinho, ainda transformou o medo em desolação com mais um disparo certeiro. Foi um duelo com virada e revirada. Não, a vida não será fácil para Tim Timão este ano.

Jack Tricolor precisava ganhar e ganhou. Mas no início do duelo parecia que seria derrotado por Jesse Juventus. Porém, seu revólver Colt Imperator funcionou mais uma vez e Jack, depois de 40 minutos de luta, acertou seu oponente. Depois disso, com Jesse Juventus ferido, foi só manter o duelo sob controle e acertar mais uns tiros. Agora, o poderoso Jack terá que enfrentar o temível...

... Big Green, que venceu o nobre caubói Barão Ery, furando-lhe a cartola três vezes. Big e Jack farão dois grandes duelos. O primeiro já foi ótimo. Os próximos dois têm tudo para ser ainda melhores, com ares de vingança e vingança da vingança. Os dois caubóis têm as melhores armas de Paulistão City. O Colt Imperator de Jack é especialista em acertar tiros nos momentos decisivos, e o rifle Vaw Dee Via de Big Green consegue até dar tiros em curva, provocando muitas lágrimas nos adversários.

O resumo do fim de semana é que Myra Sun, a loira cauguel, Barão Ery com sua cartola, Kid Norusca e Big Bigger foram classificados para disputar o troféu Champion of Hinterland.

Big Green e Jack Tricolor, Black Bridge e Frei Guará vão disputar a estrela dourada de Paulistão City.

E os irmãos Black e Clear River, mais os simpáticos Sir Tom Zinho e Jesse Juventus, foram expulsos da cidade.

As ruas de Paulistão City ainda serão regadas com mais sangue e lágrimas. Muitas de tristeza, algumas de alegria.

Por Torero às 08h51

04/04/2008

Dez perguntas para o presidente

Agora é a vez de Andres Sanchez.

Mande aí suas perguntas para o presidente do Corinthians.

Por Torero às 08h27

03/04/2008

1954 – O azar da sorte

1954 – O azar da sorte

Eu estava animado para ver a Copa da Suíça, ainda mais depois da campanha do Brasil, que pela primeira vez disputara a fase eliminatória. Foram quatro jogos e quatro vitórias contra Paraguai e Chile. Baltazar, nosso centroavante, fez gol em todos os jogos.

E havia outra novidade: por causa do fracasso de 1950, a seleção decidiu trocar as tradicionais camisas brancas por amarelas. Foi feito um grande concurso com trezentos participantes e o vencedor foi o gaúcho Aldyr Garcia Schlee, que ganhou como prêmio uma cadeira cativa no Maracanã.

 Fiz um casaco amarelão para combinar com a "amarelinha".

Para combinar, pedi ao Feijão, meu alfaiate, que me fizesse um terno amarelo para a viagem. Ele era resistente, bem cortado e de uma lã tão grossa que me deixava parecido com um urso. Por causa disso, eu vivia esbarrando nas pessoas enquanto andava, e a palavra que mais disse na Suíça foi pardon.

O técnico da seleção, Zezé Moreira, escalou: Castilho; Pinheiro e Nílton Santos; Djalma Santos, Brandãozinho e Bauer; Julinho, Didi, Baltazar, Pinga e Rodrigues para o primeiro jogo. Era uma boa equipe, mas a Copa já tinha uma grande favorita: a Hungria de Puskas, que jogava como uma máquina e estava invicta há 32 jogos.

 Puskas marcou 1176 ou 766 gols, dependendo de quem conta.

Nossa estréia aconteceu em Genebra, contra o México. Ganhamos fácil: 5 a 0. Gols de Baltazar, Didi, Julinho e dois de Pinga.

Na saída do estádio, contente, decidi entrar num café e beber alguma coisa para comemorar. Como de costume, esbarrei sem querer num sujeito e derramei minha champanhe em sua camisa. Sem perder tempo, soltei meu bordão “Pardon, monsieur” e segui em frente. Mas ele me agarrou pela gola e disse numa voz alta e potente:

— Pardon o puta que o parriu!

Olhei para trás e não acreditei. Era o Bombom.

Nós nos abraçamos e ele riu por não conseguir fazer com que suas mãos se juntassem nas minhas costas, tamanho era o volume do meu terno.

Ficamos horas lembrando os velhos tempos e depois, meio timidamente, ele contou que havia perdido todo o seu dinheiro num negócio de importação de cachaça. Estava em Genebra tentando alguns empréstimos, porque na Alemanha já não tinha crédito nenhum. Como eu andava com os bolsos cheios, perguntei o que ele achava de assistir aos jogos do Brasil comigo:

— Mas é clarro que eu aceita, meu amiga!

Fomos então a Lausanne, onde nosso adversário era a Iugoslávia. Foi um duelo sem vencedor, que terminou em 1 a 1, gol de Didi. O empate bastava para que as duas equipes passassem para a fase seguinte, mas ninguém na comissão técnica sabia disso. Vi jogadores iugoslavos, como o velho Mitic, tentando acalmar os brasileiros, mas eles não paravam de correr em busca da vitória.

Meu plano era ver apenas as partidas do Brasil, mas, atendendo a um pedido especial de Bombom, fomos a Basiléia assistir a Hungria x Alemanha Ocidental. Nunca vi meu ex-sócio tão arrasado. A Hungria simplesmente fez 8 a 3, com um baile de Toth, Kocsis, Hidegkuti, Puskas e Czibor. Dias depois, porém, chegava a minha vez de ficar triste: o sorteio indicara a Hungria como o próximo adversário do Brasil. E pior: quem perdesse cairia fora.

 Puskas e cia.

Antes do jogo dei um jeito de ir visitar a concentração brasileira em Macolin. Lá, prestando atenção nas conversas de corredor, pude perceber muito claramente que um sentimento unia os nossos guerreiros: medo. Dos húngaros. Para animá-los, disse que os tinha visto jogar contra a Alemanha e jurei que dois gols tinham sido feitos em impedimento, um outro de pênalti que não houve, três com a mão, um contra e o último pelo próprio juiz. Uma grande mentira, mas fiz minha parte.

Os dirigentes, por outro lado, em vez de acalmar os jogadores, berravam: — Vocês têm que ser machos! Se perderem, terão que enfrentar a multidão enfurecida no Brasil!

No dia do confronto, as piores previsões tornaram-se realidade. Os jogadores estavam nervosos e não conseguiam se achar em campo. Em sete minutos já perdíamos por 2 a 0. Os húngaros, mesmo sem Puskas, diga-se, nos dominavam com facilidade. A goleada se anunciava, porém um pênalti marcado a favor do Brasil e bem cobrado por Djalma Santos trouxe-nos esperança.

Vã esperança. A Hungria não dava trégua e, aos dezesseis minutos do segundo tempo, também de pênalti, Lantos ampliou. Julinho ainda diminuiu com um chute da entrada da área que acertou o ângulo de Grosics, mas a Hungria era mesmo mais time e Kocsis sacramentou a vitória com 4 a 2.

 Kocsis, o Cabeça de Ouro, foi o artilheiro daquela Copa.

Neste segundo tempo, irritados com a arbitragem, os brasileiros perderam a compostura. Nílton Santos, que era um gentleman, bancou o boxeur e trocou sopapos com Boszik: os dois foram para o chuveiro. Humberto deu um chute sem bola em Buzansky e também foi expulso.

 Naquele dia, até o Lorde perdeu as estribeiras.

Depois do apito final, nossos jogadores, tensos e descontrolados, partiram para a pancadaria. Garrafadas, rasteiras, cuspes, socos, voadoras, tapas e cadeiradas marcaram nossa despedida da Copa. Bombom comentou:

— A Brasil levou um surra com as pés e devolveu com os mãos.

Ao sair desse jogo, fomos a um bar, pensando que um ou dois cálices de vinho tirariam o sabor da derrota de nossa boca. Ali encontramos um suíço que, de tão bêbado, mal conseguia ficar sentado.

— Meus amigos — ele falou olhando para a nossa bandeira brasileira —, as bebidas lembram muito o futebol: os empates, por exemplo, são como a cerveja, comuns e rotineiras mas têm lá a sua graça; já as vitórias nos aquecem a alma e nos deixam bêbados de felicidade como o conhaque; e as derrotas, como a que vocês sofreram hoje, lembram o licor de fios de ovos, que nos deixa com tanta dor de cabeça que nos faz sonhar com a guilhotina!

Eu e Bombom trocamos um olhar admirado e, balançando a cabeça, mostramos que concordávamos com sua filosofia. Eu ia até pagar-lhe uma dose de gim, mas ele se levantou, sabe Deus como, e, depois de um soluço, disse: — Se me dão licença, preciso voltar para os braços da minha pequena Coco.

No dia seguinte à tragédia pensei em embarcar de volta, mas meu amigo tanto insistiu que fiquei com ele para ver o jogo decisivo. A taça ficaria ou com a favorita Hungria, que vencera o Uruguai, ou com a Alemanha Ocidental, que, contra todos os prognósticos, havia batido a Áustria por 6 a 1.

 Fritz Walter e cia.

Bombom estava duplamente feliz: a seleção tedesca estava na final e ele havia conseguido um empréstimo de mil francos suíços, o que resolvia metade de seus problemas. Pensando em ajudá-lo, propus que revivêssemos as apostas da Copa de 1950 e apostássemos aqueles mil francos.

— Você louca, Friêrra! Nem morta eu aposta contra o Hungria!

— Tudo bem, meu amigo, eu apostarei na Alemanha.

— Sérria?

— Sérria, digo, sério.

Eu tinha certeza que perderia, mas esse era meu objetivo: ajudar um velho amigo em dificuldades.

Chegamos ao estádio Wankdorf um pouco em cima da hora e, para nossa surpresa, ninguém estava sentado nos nossos lugares; ninguém também gritava nem se excedia nas comemorações. Mas, se o público parecia frio, o jogo fervia.

 O palco da final.

Logo aos quatro minutos, Puskas abriu a contagem. Bombom ainda estava dançando quando Czibor, aos oito, ampliou. Aí ele começou a pular. Aos dez, quando Morlock diminuiu, Bombom sentou. Aos dezessete, com o gol de empate marcado por Rahn, enfiou o rosto entre as mãos e disse que não queria ver mais nada.

Ficou assim até os 39 minutos do segundo tempo, quando Rahn, de novo, fez 3 a 2. Aí sim ele se levantou e começou a gritar feito doido:

— Vamos acabar com o Alemanha! Vamos honrar os corres do camisa do Hungria! Corre Puskas, sua gorda! Rahn, sua desgraçada, que tinha que fazer a gol!

Quando o árbitro inglês Walter Ling apontou o centro do campo, Bombom, o campeão do mundo, deitou-se na arquibancada e começou a chorar. E eu, Frieira, mesmo tendo ganho, sentia-me um perdedor. Voltava a ser o velho azarado, o velho caipora, o velho pé-frio.

No dia do embarque, nos despedimos no porto com um apertado abraço. Como não precisaria mais do terno amarelo, dei-o de presente ao meu amigo. No bolso escondi o dinheiro e um bilhete que dizia:

“Que são dois mil francos para dois francos amigos?”

Semanas depois, recebi uma carta:

“Obrigada pelo ajuda, minha amigo. O Claudete quase esticou os canelas quando encontrou a dinheirra na bolso. Que irronia: dessa vez eu foi Friêrra e você foi Bombom. As nomes não ser nada”.

 

(Na próxima semana, A Copa de 58 contada por Jesus)

Por Torero às 09h29

02/04/2008

O outro melhor livro do ano passado

Na última quarta escrevi aqui que um dos dois melhores livros que li no ano passado foi "Um homem comum", de Philip Roth. Hoje coloco o outro, que é "O Cavaleiro Inexistente", de Italo Calvino.

Ele é um bom resumo das qualidades que Calvino apreciava nos livros: leveza, rapidez, visibilidade, exatidão, multiplicidade e consistência. mas acho que o principal é a leveza. O livro é um suflê de plumas.

Não que não tenha uma trama densa, com lutas e mistérios, mas é tão bem escrito (e traduzido) que nossos olhos escorrem pelas linhas. A história é saborosa, os personagens são curiosos e a escrita tem ritmo e música. Lembro que acabei o livro bem rápido, porque o levava para tudo quanto é lugar e torcia para que o dentista atrasasse, só para ler mais um pouco. O único defeito do livro é que é muito fininho. Tanto que, no final, a cada folha que eu virava, você pensava: "Droga, uma página a menos. Droga, uma página a menos...".

Mal resumindo, o livro conta a história de um cavaleiro que não existe, a história de uma armadura vazia. Mas é bem mais que isso. Acho que uma possível definição para "O Cavaleiro Inexistente" seria "superfábula". 

A superfábula seria uma história imaginosa, um tanto descolada da realidade, como as de Calvino ou de Saramago (como "Ensaio sobre a Cegueira", onde todos ficam cegos, ou "Jangada de Pedra", quando a península ibérica se descola da Europa), mas feita com recursos de alta literatura (seja lá isso o que for).

A superfábula é uma categoria bem interessante da literatura atual, mas que tem origem antiga, talvez em em Jonathan Swift ("Viagens de Gulliver") ou, mais longe ainda, em Rabelais ("Pantagruel" e "Gargântua"). 

Mas vamos parar com isso que não sou teórico de literatura e vou acabar me complicando. O melhor mesmo é parar numa livraria, dar uma olhada no livro, e ver se vocês se dão bem.

Por Torero às 08h58

01/04/2008

Paulistão City

Esta semana decidi colocar o Paulistão City na coluna da Folha de S.Paulo. Para ler o texto, assinantes da Folha e do Uol podem clicar aqui.

Por Torero às 09h43

© 1996-2009 UOL - O melhor conteúdo. Todos os direitos reservados.