Blog do Torero

31/03/2008

Dez perguntas para o presidente

Abaixo, as perguntas e respostas para Marcelo Teixeira, presidente do Santos. Elogie, xingue, comente.

 

1-) Qual é seu plano logo após deixar a presidência do Santos?
Thiago, Hortolândia.

Thiago, primeiro desejo cumprir nossos programas e objetivos traçados de modernização e adaptação do clube ao novo milênio, para após concluí-los continuar minhas atividades profissionais no Complexo Educacional Santa Cecília e me dedicar à minha família.

2-) Ampliação da Vila e estádio de Diadema. O que há de concreto a esse respeito?
Allan Maciel.

Allan, estamos aguardando posições da prefeitura de Diadema e do grupo alemão, existem pendências que devem ser solucionadas por eles, pois o Santos apresentou os seus deveres. Já a ampliação da Vila, o projeto está tramitando na Prefeitura e acredito que logo teremos novidades mais concretas.

3-) É verdade que o senhor, após reassumir o cargo em 2000, detectou uma crise financeira, e injetou dinheiro próprio no clube? Se sim, quais foram os valores? O senhor já recebeu o empréstimo? Houve juros?
Bruno Fernandes.

Esse assunto é de conhecimento público, pois foi refletido nos diversos balanços financeiros do clube. Diante da crise que existia quando assumimos emprestamos recursos ao Santos para iniciármos nossos projetos. Os valores são conhecidos em balanço e já foram ressarcidos sem cobranças de juros.

4-) Por que o Santos costuma ter diferentes planejamentos, já que às vezes investe pesado na contratação de 'medalhões' e, em um espaço curto de tempo, aposta muito na divisão de base??
Luciano Pacheco, São Luís.

O planejamento é único destes últimos anos, de muito sucesso, tanto no aspecto dos investimentos, quanto nos resultados de nossas equipes de competições, com o clube ocupando sempre as primeiras colocações e disputando títulos. Devemos priorizar nossas revelações da base e mesclar com atletas mais experientes na formação de nossos grupos.

5-) O que fazer para segurar nossos melhores jogadores aqui no Brasil?
José, Brasília.

Caro José, o problema é a legislação esportiva brasileira. Para isso, o Ministério do Esporte, inteligentemente, está propondo alterações através do projeto de lei 5186 que está tramitando na Câmara Federal. Temos que proteger o clube formador e arrumar maneiras de impedir a saída precoce dos melhores jogadores do Brasil.

6) Qual a maior alegria e a maior decepção de suas gestões?
Mauricio Soares, Campinas-SP.

As maiores alegrias foram o resgate da dignidade de ser torcedor do Santos FC, a conquista dos títulos, a modernização administrativa e a ampliação de nosso patrimônio, dentre muitas outras tão relevantes. As decepções são inerentes ao próprio convívio humano, de nossas vidas. 

7-) O Santos arrecadou, apenas com a venda de um jogador, R$ 90 milhões; como se explica que, quase 03 anos depois, o Santos precise da ajuda de uma rede de supermercados para contratar um obscuro jogador da segunda divisão equatoriana?
Ministro Veiga, Salvador.

Caro Ministro, o mais importante foram os investimentos, todo o crescimento e avanços com os recursos das vendas de atletas. Parcerias são interessantes neste momento, desde que resguardados os planejamentos do clube. A contratação de jogadores através de parceiros foi uma oportunidade surgida através de um empresário torcedor do Santos FC que não envolveu recursos do clube. Uma excelente oportunidade de reforçar nosso elenco com jogadores de qualidade. No futebol deve ter cuidados, você poderá ter surpresas, mesmo sendo atleta estrangeiro de divisões inferiores, esta é uma das alternativas de momento do mercado do futebol

8-) Não é antidemocrático um estatuto que prevê que para eleição dos diretores, conselheiros, etc..., a eleição da chapa é total, não sendo proporcional, mesmo que a diferença seja de 1%?
Rafael.

Rafael, sua pergunta é interessante e serve até para responder ao meu amigo jornalista Torero que na época das eleições escreveu que o nosso grupo acabou com a proporcionalidade do Conselho. Isso não é verdade. Nunca no Santos FC existiu eleição proporcional para o Conselho. O estatuto não é antidemocrático, aliás, muito pelo contrário, pois raros são os clubes no Brasil que possibilitam, como o Santos FC eleições diretas para presidente, quando todos os associados têm direito a voto, todos se dirigem às urnas, democraticamente, decidem o futuro do clube. Nossos estatutos são os mais atualizados com a Legislação vigente no País. Se houverem necessidades de novas adaptações ou revisões, esclareço que esta prerrogativa pertence aos conselheiros do Santos FC e não ao presidente ou a diretoria executiva.

9-) Sr.Presidente, por que não há participação do Pelé nas estratégias de marketing?
Claudio Silva.

Cláudio, Pelé e Santos FC são duas marcas fortes e, em determinados instantes,  atuam juntas. O Rei tem colaborado conosco em nossas ações de marketing, negociações com parceiros. Temos,  na medida do possível, unido as duas marcas nessas ações. Prova disso foi todo o envolvimento do Pelé e do Santos FC com a Bombril em 2007. Estamos juntos prospectando novos negócios lucrativos para o clube e para o Pelé, sempre com visão profissional, apesar da paixão do Pelé pelo clube e de nosso orgulho e respeito em tê-lo muito próximo.

10-) Quantos anos o sr. pretende permanecer no poder?
Gabriel C. Santo, São Paulo.

Gabriel, enquanto for da vontade do associado do Santos FC e enquanto eu tiver tempo e saúde para colaborar com o clube estarei a disposição dos associados e da torcida. A cada eleição, temos tido maior aprovação de nossos trabalhos, alcançando a vitória em todas as urnas, em um total de dez, com uma margem expressiva de 70% de votos, o que ratifica a aprovação de nosso trabalho.   Enquanto a comunidade alvinegra e nosso grupo entenderem a necessidade de nossa liderança a frente dos planejamentos para cumprirmos nossos objetivos, estarei a disposição. Que Deus nos abençoe e guarde, iluminando nossa árdua, mas honrada e orgulhosa caminhada.

 


 

Por Torero às 08h41

O penúltimo capítulo da novela

Antes desta rodada do Paulista, 19 times ainda lutavam, fosse para ficar entre os quatro semifinalistas, fosse para escapar do rebaixamento. Apenas o Ituano estava tranqüilo (e tranqüilo em termos, pois ainda há a disputa pela vaga no Troféu Campeão do Interior).

Mas agora, 48 horas depois, a coisa está bem mais diferente. Já temos dois classificados, Guaratinguetá e Palmeiras, e um rebaixado, o Rio Claro. Além disso, já temos mais sete clubes a fazer companhia para o Ituano na zona da tranqüilidade.

Lá em cima, a briga por duas vagas está entre quatro: São Paulo, Ponte Preta, Corinthians e Barueri.

O São Paulo pegará o Juventus no Morumbi. Não será um jogo fácil, pois o Juventus está á beira do precipício e não ganhou a alcunha de Moleque Travesso à toa. Mas, se o Tricolor não ganhar do Juventus em casa, não merece mesmo passar à próxima fase.

A Ponte Preta pega o Santos na Vila. E eis aí uma situação interessante. O Santos facilitará o jogo para prejudicar o rival Corinthians?

Ninguém dirá que sim. Mas ponha-se no lugar do técnico: O Corinthians lhe deve dinheiro e, ainda por cima, alguns dias depois do jogo contra a Ponte Preta você terá que ir até o México. Você colocaria seu time titular para jogar?

E ponha-se no lugar dos jogadores: O Santos já está desclassificado e o jogo não vale nada. Você vai correr até quase arrebentar os pulmões? Vai entrar em todas as divididas? Duvido. Por isso acho que o Santos entrará com muitos reservas e, ainda por cima, burocrático. Há que ver se a irregular Ponte Preta terá competência para se aproveitar da inapetência santista.

O Corinthians tem que ganhar do Noroeste em Bauru, o que não será moleza, pois eles têm um time certinho e ainda lutam pela vaga no troféu Campeão do Interior.  

E o Barueri, além de torcer contra os adversário, terá que vencer o Palmeiras em casa.

Consultei Zé Cabala e ele disse que São Paulo e Ponte se classificam.

Lá embaixo, quatro lutam para escapar das três vagas para a Série A-2 (A-2 não é um nome muito burro?).

O melhor jogo será entre Guarani e Rio Preto. Nenhuma outra terá tanto desespero e drama, pois um dos dois certamente cairá. Não é impossível que os dois. 

O Juventus terá a ingrata missão de enfrentar o São Paulo, e na casa do adversário. O pior é que será um São Paulo com fome de vitória. Ou seja, o Juventus e seus canolis estão com um pé na segundona.

Por fim, o Sertãozinho, em casa, terá que vencer a Portuguesa. Isso é bem provável. Mas não basta. Há que torcer contra os outros três adversários, sendo que Rio Preto e Guarani têm que empatar. Há que ter muita fé para vencer tanta matemática.

O palpite de Zé Cabala é que o Guarani será o time que vai escapar do rebaixamento.

Pois é, caros amigos, no próximo domingo, das 16h00 às 18h00, há que se ter um radinho em cada orelha, um olho na tevê e outro na internet.

Por Torero às 08h14

29/03/2008

Dia D

Faltando duas rodadas para o fim da primeira fase do Paulista, só um clube, o Ituano está tranquilo. Ele é o único que nem tem chances de se classificar para a próxima fase, nem corre risco de rebaixamento. 

Os jogadores do Ituano são os únicos que estão de vida mansa. Agora, na concentração para o jogo contra o Mirassol, devem estar jogando bilhar ou fazendo palavras cruzadas. Devem estar soltando longos bocejos e pensando nos amigos dos outros clubes, que terão que escutar preleções nervosas, gritos de "É agora ou nunca!", "Vamos lá, pessoal", "Esse é o jogo da vida de vocês!", etc... 

Já os outros 19 times ainda têm esperanças de alcançar o céu ou escapar do inferno. Pelo menos por mais algumas horas, porque  neste fim de semana alguns pacientes terminais terão suas tomadas desligadas.

Na verdade, podemos até mesmo ter a definição dos quatro rebaixados ou dos quatro classificados. Será uma rodada em que todos os jogos serão importantes. Teremos que ver um jogo pela tevê e ouvir outro no radinho.

 

Por Torero às 09h19

Série D

Gostei da criação da Série D para o Brasileiro. A Série C será valorizada, com apenas 20 times, e haverá, ao que parece, maior ajuda para este grupo.

Infelizmente os 64 clubes da Série D devem ter pouca ajuda da CBF, uma entidade rica mas que todo ano fecha as contas no vermelho.

Por Torero às 09h03

27/03/2008

Uma boa e uma má notícia

Não sei se os leitores lembram, mas há algumas semanas fiz uma coluna na Folha sobre Raimundo, o sorveteiro que trabalha no campo do Nacional. 

Pois bem, a má notícia é que dificilmente os torcedores do Nacional poderão dispor de seus refrescantes serviços.

A boa é que ele foi contratado pelo Pão de Açúcar e começa a trabalhar segunda-feira. O melhor é que Raimundo fará parte da equipe da empresa, tendo direito a uniforme de corrida, inscrições em provas, treinos fora de São Paulo, nutricionista, treinador etc...

 

Por Torero às 17h25

Santos x Politeama

 

Clique aqui para ir para o blog do músico Fernando Salem, onde ele conta a história de um jogo entre os veteranos do Santos e o Politeama do Chico Buarque (pelo qual atuei, e mal, na lateral-esquerda).

 

Por Torero às 17h13

1950 - A sorte do azar

1950 - A sorte do azar



Chamam-me Frieira. Na verdade, meu nome é Ismael, mas desde pequeno todos me conhecem apenas como Frieira. O motivo é simples: nunca ganhei uma aposta e nem há loteria ou carteado em que me dê bem. Mesmo no palitinho sou um fracasso. Pior: até no par ou ímpar. Para mim, todos os jogos são de azar. Enfim, sou pé-frio, e de pé-frio para Frieira foi um pulo. Tudo são nomes.

Na infância, meu sonho era ser um Friedenreich ou um Heleno de Freitas, mas era eu entrar em campo e o adversário começava a jogar melhor. Um dia, depois de fazer um gol contra no último minuto, deixei o esporte bretão. Na volta para casa choveu durante todo o caminho.

Quando cresci, pensei em ser marinheiro, porém, com minha sina, tive medo de que o navio afundasse; depois cogitei ser bombeiro, mas não queria pôr fogo no Rio de Janeiro e desisti; finalmente decidi abrir um botequim. Meu raciocínio era o seguinte: as pessoas sempre têm fome e sede e, sendo assim, enquanto houver gente no mundo, botequins serão sempre um investimento seguro. Propus sociedade a um alemão chamado Dieter Bonn, que, como eu, morava na Glória.

Tudo são nomes e com Dieter não foi diferente. À medida em que ia ficando mais brasileiro, seu nome ia mudando; ou melhor, iam mudando seu nome. Primeiro atacaram o prenome e começaram a chamá-lo de Dito; depois, mais íntimos, alteraram também o sobrenome, que passou a ser Bom. No fim de alguns meses, como ele fosse redondo e generoso, todos o chamavam de Dito Bombom, e ele, alma bondosa, atendia.

Mas Bombom não era bobo: sabia lidar com dinheiro e namorava uma mulata alta e forte chamada Claudete, passista da Mangueira. Além disso, adorava desafios. Tricolor fanático, a cada jogo do Fluminense propunha algum tipo de aposta: — Vamos, Friêrra!, dizia. — Um cerveja como a Flu ganha!

Eu não apostava. Não só porque sabia que ia perder, mas também porque, como comerciante, achava que não podia ser contra ou a favor de algum time. Eu era Flamengo, Fluminense, São Cristóvão, Bangu, Canto do Rio, Vasco, América ou Botafogo conforme o gosto do freguês. Só pela seleção eu tinha um amor devotado e sincero.

Já que falamos em seleção, devo lembrar que estávamos em 1950, o ano da Copa no Brasil. O país respirava um clima de festa e comigo não era diferente: dormia e acordava pensando em futebol.

Havia motivos para otimismo. Flávio Costa dispunha de material de sobra para formar uma bela seleção. Só para o ataque podia-se chamar Jair da Rosa Pinto, Tesourinha, Ademir, Zizinho, Baltazar, Friaça e Cláudio Christovam Pinho. Linhas médias, então, tínhamos duas: Eli, Danilo e Bigode, do Vasco, e Bauer, Rui e Noronha, do São Paulo. Dizia-se que se o Brasil formasse duas seleções, seria campeão e vice.

A festa tinha tudo para ser inesquecível e, como toda festa precisa de um grande salão, o Brasil construiu o Maracanã. Infelizmente, porém, nem todos os convidados puderam vir. A Europa ainda se ressentia da Segunda Grande Guerra e diversos países, mesmo classificados, não mandaram delegações. Como em 1930, o torneio teve apenas treze representantes.

 A maquete do maior do mundo.

As equipes foram então acomodadas em quatro chaves, numa divisão um tanto esdrúxula: dois grupos de quatro seleções, um de três e um só com duas. Torci muito para cairmos neste último, mas o sorteio nos colocou num dos grandes. Os adversários? México, Suíça e Iugoslávia.

À medida que ia se aproximando o momento da abertura, fui sendo tomado por uma enorme empolgação. Na véspera do primeiro jogo, contra o México, mandei enfeitar o bar com fitas verdes e amarelas, comprei um rádio novo e, depois de beber um pouco além da conta, até fiz um desafio ao Bombom:

— Aposto cem cruzeiros no Brasil.

— E a empate de quem é?

— Sua, quer dizer, seu.

— Negócia fechada.

 Apostamos cinco dessas.

No dia da estréia confesso que fiquei assustado ao ouvir a escalação pelo rádio. Maneca, Ademir, Baltazar, Jair e Friaça era uma linha de ataque totalmente diferente da que vinha treinando em Araxá. Dos cinco, só Jair estava na sua posição. Para meu azar, mal começou a partida e houve uma sobrecarga de energia no bairro. A voz do locutor sumiu, deixando em seu lugar um cheiro de queimado. Corri feito doido até a sapataria de meu irmão Chulé. Para meu azar, ele não estava. Fui então à casa do Bombom. No caminho tropecei e me estatelei no chão. Não é à toa que me chamam de Frieira.

Ao lado do meu amigo, com os joelhos esfolados e o nariz sangrando, ouvi o resto do jogo: 4 a 0 para o Brasil. Pela primeira vez eu ganhava uma aposta na vida. Mal havia recebido os cem cruzeiros e já apostava duzentos no match seguinte.

Esse jogo foi no Pacaembu, contra a Suíça. Para agradar os paulistas, Flávio Costa mudou a linha defensiva: em vez da do Vasco, que tinha feito o jogo de estréia, colocou a do São Paulo. No ataque, mais reviravoltas: Alfredo II, Maneca, Baltazar, Ademir e Friaça. Não deu outra: desentrosado, o time esbarrou na retranca helvécia e, sob vaias, não passou de um 2 a 2. Lá se foram duzentos cruzeiros. Para me recuperar do prejuízo, apostei quatrocentos no jogo seguinte.

Esse decepcionante empate ao menos serviu para que Flávio Costa acertasse o ataque, que foi escalado com Maneca, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Finalmente jogadores certos nas posições certas.

A prova de fogo veio contra a Iugoslávia, que tinha o craque Mitic e uma dupla que jogava por música: Tchaikovski I e Tchaikovski II.

 Tchaikovski, o grande jogador da seleção iugoslava.

De fato, foi emocionante. Os iugoslavos tinham um timão, mas o nosso era um timãozaço, se é que existe tal palavra. Vencemos por 2 a 0 e mostramos um futebol superlativo. Para o país, a vitória trouxe a impressão de que nosso time nascera para ser campeão. Para mim, trouxe quatrocentos cruzeiros.

Os classificados para a fase final foram Brasil, Uruguai, Suécia e Espanha. O sistema era todos contra todos, quem fizesse mais pontos seria o campeão.

O primeiro duelo foi contra a Suécia. Eu e Bombom chegamos ao Maracanã três horas antes da partida. O sol estava escaldante:

— Eu estar derretenda como um pedra de gela.

Enquanto me abanava com oito notas de cem, falei: — Estou apostando meu leque.

— Pois eu aceita!

Foi o dinheiro mais fácil que já ganhei. Com suas camisas brancas, a seleção mais parecia uma horda de anjos a voar pelo gramado. No final do jogo, o placar mostrava 7 a 1. 7 a 1! Ademir fez quatro, Chico dois e Maneca um. Eu ria sem parar: dos gols, da cara dos suecos e do desespero do Bombom.

 As camisas brancas. Ainda bem que foram aposentadas.

Mas isso ainda foi pouco perto do jogo contra a Espanha.

Acho que o Rio de Janeiro inteiro estava no Maracanã. Para todo o lado que eu olhava, via aquele imenso mar de cabeças e ouvia os gritos de “Brasil! Brasil!”

Contaminado pela euforia, apostei mil e seiscentos cruzeiros na vitória. Bombom, suando frio, aceitou.

De Barbosa a Chico, a seleção jogou como nunca naquela tarde. O trio Zizinho, Ademir e Jair estava um primor! Se na outra partida os jogadores lembraram anjos, nessa pareciam demônios. O resultado? 6 a 1. 6 a 1! 6 a 1 fora o baile, fora as tabelas maravilhosas, fora os incríveis gols perdidos. Bandeiras se agitavam, fogos estouravam, balões verdes e amarelos misturavam-se ao azul e branco do céu! Um deslumbramento! Quando Chico marcou o quarto gol, o estádio inteiro começou a cantar Touradas em Madrid. Eu, que mal tinha ouvido aquela marchinha antes, no final sabia a música de cor:

Eu fui às touradas de Madrid,

Parará-tim-bum, bum-bum...

Um dia conheci uma espanhola

Natural da Catalunha.

Dizia que tocava castanhola

E pegava touro à unha...

A festa na cidade só acabou ao nascer do sol. Era um carnaval em julho. Músicos apareceram com seus bandolins, flamenguistas abraçavam vascaínos, tricolores dançavam com botafoguenses. Todos estavam felizes, menos o Bombom, que não aguentava mais tanto prejuízo. Já perdera dois mil e setecentos cruzeiros. Desconsolado, ele disse uma frase que eu nunca escutara antes:

— Friêrra, você ser uma homem de muito sorte.

A decisão ficou para o dia 16 de julho, contra o Uruguai, que vinha de um sofrido 3 a 2 sobre a Suécia e de um empate em 2 a 2 com a Espanha. Seus destaques eram os atacantes Ghiggia e Schiaffino, responsáveis por onze dos treze gols da equipe. No Brasil, a única alteração era a entrada de Friaça no lugar do contundido Maneca. Nada de mais: era trocar seis por meia dúzia.

Eu estava tão alucinado que falei para Bombom:

— Vamos apostar tudo! Se o Brasil ganhar, o bar é meu. Se perder, é seu e ainda lhe devolvo o dinheiro.

— Você está louca, Friêrra?

— E mais: o empate é seu.

— A empate é minha?

— Claro. O Brasil vai esmagar esse timeco!

Ele coçou a cabeça por tanto tempo e com tanta força que pensei que fosse ficar careca. Então tomou um gole de cachaça e sussurrou: — Negócia fechada.

Naquele dia fomos cedo para o Maracanã, dispostos a conseguir um bom lugar. No entanto, quando chegamos, já havia milhares de pessoas. Era exatamente a hora da abertura dos portões e eu, erguendo o braço que segurava o ingresso, juntei-me ao grupo que avançava. Bombom entrou rápido e eu fui atrás dele, mas quando cheguei diante do homem da catraca, ele me fuzilou com os olhos. Só então vi que algum gatuno havia roubado meu bilhete. Era muito azar...

Tentei argumentar, mas ele me chamou de ímprobo e fez sinal para dois policiais virem me prender. Foi quando as pessoas que estavam atrás de mim, impacientes com a demora, começaram a forçar passagem. No começo, tentei resistir, mas logo percebi que aquela era a minha salvação: deixei-me levar pelos empurrões e desapareci no meio da multidão.

Lá dentro, nós, os torcedores, estávamos rindo à toa. Parecia mais uma convenção de protéticos, tantos eram os dentes que mostrávamos uns para os outros. O empate nos dava o título. Era só esperar noventa minutos para começar a festa.

 Estou ali, no canto direito da arquibancada. Sou o de chapéu palheta.

Eu enlouquecia só de olhar para o gramado, ver a classe de Zizinho, o toque bonito de Bauer, a ginga de Jair e as disparadas de Friaça e Chico. Todo o estádio esperava pelo primeiro gol.

Esperava, mas ele não vinha.

O problema era Tejera, Gambeta e Andrade, que não descuidavam dos nossos goleadores. E quando algum atacante conseguia vantagem, Gonzalez vinha na sobra e afastava o perigo. Danilo e Bauer tentavam variações, mas Obdulio Varela, à frente da zaga, catimbava, fazia faltas, cadenciava o jogo e irritava o estádio inteiro. Depois dos 7 a 1 na Suécia e dos 6 a 1 na Espanha, achávamos que venceríamos pelo menos por 5 a 1. Doce ilusão...

 Obdulio, el negro jefe.

Veio então a segunda etapa e, logo no início, o alívio. Zizinho lançou Friaça e ele, quando chegou a três passos do bico da pequena área, bateu cruzado. A bola estufou a rede e sacudiu o Maracanã. Todos se abraçaram. Tentei me aproximar de umas moças que vestiam blusas brancas com as iniciais B-R-A-S-I-L — principalmente da letra S —, mas havia tanta gente que não consegui sair do lugar.

Infelizmente, minha alegria e a tristeza de Bombom duraram pouco. Dez minutos depois, Obdulio Varela lançou Ghiggia, este passou por Bigode e cruzou rasteiro. A bola caiu nos pés de Schiaffino, que bateu de primeira, sem chance para Barbosa.

 Schiaffino jogava o fino.

Esse gol deixou nosso time atordoado. Os jogadores não conseguiam se entender sobre se era melhor buscar a vitória ou tocar a bola para segurar o empate. Enquanto isso, o Uruguai crescia.

O tempo é uma coisa estranha. Nos momentos felizes voa como um corcel alado, nos tristes arrasta-se como uma tartaruga manca. Depois do gol, ele parecia ser, para mim, uma lesma preguiçosa. Os segundos duravam minutos, os minutos duravam horas.

Veio, então, o momento fatal, a cena que não me sai da memória. Ghiggia recebeu um lançamento e só tinha Bigode pela frente. O uruguaio estava a alguns passos da entrada da grande área e ficou ameaçando o drible. Bigode resolveu esperar, não querendo fazer a falta. Ghiggia então fintou-o, avançou para a linha de fundo e arriscou o chute. A bola passou por um vão mínimo entre o corpo de Barbosa e a trave.

 O gol mais triste da nossa história.

Naquele instante, um silêncio sombrio baixou sobre o Maracanã.

Os jogadores correram em busca do empate, esforçaram-se, mas nada surtiu efeito. O tempo disparou e, quando o juiz George Rider apitou o fim da partida, ficamos lá, parados e mudos, sem saber o que fazer. Era um velório. Depois, fomos saindo do estádio como quem acompanha um enterro.

Muitos foram apontados como responsáveis por aquela derrota, mas eu sabia que o culpado era apenas um: eu, Frieira, o pé-frio.

Cheguei à Glória arrasado e, quando vi a rua toda enfeitada, cheia de fitas e bandeirolas, chorei feito criança. A vizinhança tinha arrumado mesas e cadeiras para fazer uma grande festa, mas tudo estava quieto. Só puseram uns lençóis em cima da comida e deixaram tudo lá. Dei uma última olhada para aquele que havia sido o meu botequim e fui para casa me embebedar.

No dia seguinte procurei o Bombom para honrar minha palavra. Ele me recebeu de terno e gravata, e quando eu disse “Vamos para o cartório” ele completou: — Antes eu ter que dar um passadinha no casa do Claudete, que ela vai com o gente. Então pensei: Não basta ter vencido, ainda leva a namorada para me humilhar.

Chegando ao cartório, dei um suspiro e exclamei: — Bem, adeus meu bar querido...

Ele, porém, começou a rir e disse: — Friêrra não entender nada. Friêrra continua com a botequim! Eu não querrer seu parte!

Fiquei um pouco atordoado ao ouvir aquilo e perguntei que diabo estávamos fazendo no cartório se não íamos desfazer a sociedade. Bombom respondeu:

— Eu vem casar com o Claudete — e então abraçou-se a ela, que sorriu mostrando seus trezentos dentes brancos. — Friêrra é a meu padrinha!

E assim foi que, ao contrário do que eu esperava, Bombom me vendeu a sua parte do bar e voltou para a Alemanha. Confesso que fiquei contente com aquele desfecho, pois amava o meu negócio e sofrer duas perdas talvez tivesse sido demais para o meu coração.

Curiosamente, a partir daquele momento as coisas começaram a dar certo para mim. O bar da esquina foi à falência e herdei sua freguesia, ganhei algumas vezes no bicho, tive ótimas noites no Cassino da Urca e, em 1954, fui sorteado pela revista O Cruzeiro. O prêmio era ir à próxima Copa com todas as despesas pagas.

Foram anos de tanta sorte que alguns até começaram a me chamar de Pé-de-Coelho. Tudo são nomes.

 

Por Torero às 10h20

Santos 2 x 1 Corinthians

Santos e Corinthians fizeram o melhor jogo que vi neste Paulista. Disputado, brigado, e rápido. Muito rápido. Parecia Playstation. A bola ia de um lado para outro com rapidez, e sempre havia alguém atacando, sem aquela enrolação de trocar bola no meio campo, de avançar lentamente, etc...

A técnica não foi grande coisa, mas aí já é querer demais.

Quanto às decisões do juiz, acho que o gol corintiano foi corretamente anulado, que Kléber Pereira fez falta e que Herrera deveria ter sido expulso junto com Betão.

Veja os gols do jogo:

 

 

SANTOS 2 x 1 CORINTHIANS

Por Torero às 09h35

26/03/2008

Um homem comum

Fiquei em dúvida sobre qual livro mais gostei no ano passado. Um dos dois é este aí em cima, "Um homem comum", de Philip Roth. É um grande pequeno romance.

Não adianta muito contar o enredo aqui. A história é o de menos. É a história de um homem comum. Não há mistérios insolúveis ou peripécias verbais. O melhor é o tom de Philip Roth, a veracidade do personagem, as emoções e pensamentos que saem do personagem, um homem amou, errou, tentou, se conformou, se arrependeu, enfim, viveu. E morreu.

E não indico sozinho. O Juca também gostou à beça.

Por Torero às 10h20

Fusão ou não, eis a questão

(um leitor fez um longo e bom artigo em resposta à minha proposta de fusões de clubes. Ei-lo:)

 

Caro Torero,

Com algumas coisas, não se brinca. Imagine ler a seguinte notícia:

21/4/2012. Após cair da série B do Brasileirão para a C, em 2009, disputar a terceirona por 2 anos consecutivos e ser eliminado sempre na 1ª fase, o Sport Club Corinthians Paulista não disputará o Campeonato Brasileiro deste ano. Próximo de completar 102 anos de existência, o clube anunciou oficialmente na tarde de ontem o encerramento das atividades do seu departamento de futebol. A decisão foi divulgada um dia após o rebaixamento da equipe ao campeonato paulista da série A3.

Através de nota divulgada à imprensa, a diretoria corintiana justificou a medida alegando que o rombo nas contas no clube, causado por dívidas trabalhistas e sentenças judiciais (como a que confiscou 75% do patrimônio, dos direitos federativos e de imagem do clube no caso da lavagem de dinheiro e "compra" do Brasileirão 05 pela MSI ), inviabiliza a manutenção do futebol profissional.

Em entrevista à Rádio Deus e Futebol 1000 AM, o ex-jogador, ídolo e atual presidente do clube, Neto, declarou que o Corinthians "deixa os gramados de cabeça erguida". "Conquistamos 25 campeonatos paulista, 3 brasileiros e 1 mini-mundialito reconhecido pela FIFA. Títulos que os milhões de corintianos jamais esquecerão". "Estou triste, todo corintiano está. Mas todo corintiano concorda comigo que não dava mais. Por isso, tomamos a decisão certa", disse o ex-craque.

O dirigente também afirmou que deve procurar os líderes da chamada "resistência santista" ainda nesta semana. "Vamos conversar com eles [santistas] e tentar chegar num acordo que seja bom para os dois lados". Neto acha que os problemas enfrentados pelo clube da Baixada podem aproximar corintianos e santistas.

"Os santistas enfrentam a maior barra desde que descobriram o 'esquema' do Marcelo [Teixeira], muito pior que o da MSI, e a FIFA eliminou o Santos do quadro de clubes. Ter que fundar um novo clube, um novo estatuto jurídico e começar praticamente do zero não é fácil". Neto se refere ao movimento liderado por torcedores do Santos Futebol Clube, revoltados com a extinção do clube praiano imposta pela FIFA.

Vigente desde 14 de abril de 2010, a punição ocorreu após ser revelado o envolvimento do ex-presidente Marcelo Teixeira com a máfia chinesa e ser comprovada a utilização do Santos como fachada para crimes de evasão de divisas, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e tráfico de armas. Atualmente o grupo de torcedores, mais conhecido como "resistência santista", tenta obter na justiça os direitos da marca Santos Futebol Clube e assim rebatizar a União Santista Futebol Clube, agremiação surgida da fusão entre Portuguesa Santista, Jabaquara e torcedores do Santos.

A União Santista disputa a série B do Brasileirão e acaba de ser promovida à série A2 do Paulista. Com prisão decretada pela justiça desde 25 de dezembro de 2009, o ex-presidente Marcelo Teixeira permanece foragido.

Procurado pela Folha, o assessor de imprensa da “resistência santista”, José Roberto Torero, não quis adiantar se há interesse do grupo na fusão com os corintianos. Torero disse apenas que os santistas irão “aguardar o contato dele [Neto]” e que qualquer proposta “não pode ser descartada de véspera, sem a devida análise”.

Neto se negou a sugerir um nome para o novo clube, caso se concretize a fusão entre corintianos e santistas. “Uma coisa é certa, será alvinegro”, brincou, encerrando a entrevista.

E aí, Torero, como deveria se chamar esse "novo clube" reunindo santistas e corintianos? Anchieta Futebol Clube ou Sport Club Imigrantes Paulista?

Tá vendo? Ficção é isso, comporta qualquer absurdo.

O problema se dá quando tais absurdos não parecem tão surreais como na improvável união entre corintianos e santistas narrada acima. Quando encontra amparo na realidade, a ficção perde a graça, vira coisa séria.

Esse é o caso da “fusão” entre RIO PRETO ESPORTE CLUBE e América Futebol Clube, imaginada por você na Folha.

Talvez para sua surpresa, tal “fusão” tem forte apelo entre os riopretenses (isto é, entre os habitantes de Rio Preto e não entre os torcedores do RIO PRETO EC; estes são tratados por “esmeraldinos”). Aliás, não há surpresa nenhuma, basta ler a mensagem deixada por Gustavo Oliveira ("natural de São José do Rio Preto") em seu blog, no post do texto da Folha, para se ter certeza disso.

A questão é saber se a “fusão” vale a pena ou não. Publiquei minha resposta sincera a esta pergunta no blog da TORCIDA VIRTUAL FORÇA “GLORINHA” (F”G”!), do qual sou editor; espero que leia.

Torero, o que você quer já tem. Times de cidades médias capazes de enfrentar os grandes, não é isso? Então veja a tabela do Paulistão com outros olhos meu caro.

O líder Guaratinguetá tem exercido muito bem esse papel, não acha? E o Barueri, o Norusca? Até o Mirassol (Myra Sun ficou muito bom) tem dado trabalho: empatou com Corinthians e Palmeiras, e deu sufoco no São Paulo e no Santos; até dias desses o São Caetano aterrorizava os grandes, etc.

Já sei... Sua preocupação é com Ribeirão e Rio Preto (você se esqueceu de Limeira e Sorocaba). Pois fique tranqüilo. Riopretenses e ribeirãopretanos não têm do que reclamar. Ambos possuem bons estádios, capazes de abrigar até “clássicos”.

Somente este ano, Rio Preto já teve Palmeiras, Santos e Corinthians jogando na cidade, e o São Paulo na vizinha Mirassol (12 km de Rio Preto).

O estádio do Botafogo de Ribeirão foi palco de Sertãozinho X Corinthians, Palmeiras X Juventus, Portuguesa X São Paulo e Palmeiras X São Paulo. Também teve Sertãozinho X Santos a 15 km de Ribeirão.

Convenhamos, haja dinheiro para tanto ingresso.

Portanto, fique tranqüilo. Tudo está sob controle.

Com todo respeito, até porque acompanho e admiro seu trabalho, acho que você está vendo filmes demais; típico de quem anda longe das arquibancadas. Se cuida.

Abraços fraternos,

Clayton Romano

Por Torero às 10h18

25/03/2008

Zé Cabala e o vapt-vupt

(Em homenagem aos 100 anos do Atlético-MG, republico esta entrevista feita através do mestre Zé Cabala)

 

Logo que Gulliver abriu a porta, perguntei-lhe:

- Posso falar com o mestre?

- Ele está na vizinha, disse o anão (ou deficiente vertical, como ele prefere ser chamado).

- Na vizinha? Ele está fazendo um atendimento espiritual a domicílio?, perguntei.

Depois que parou de rir, Gulliver respirou fundo e falou:

- É, é mais ou menos isso. E ele me disse que não quer ser interrompido por nada deste mundo.

Cinco minutos e R$ 200 depois, estava diante do guru dos gurus.

- Mestre, desculpe interrompê-lo, mas é que eu gostaria de conversar alguns minutos com aquele que foi o maior goleiro da história do Atlético-MG.

O maharishi dos maharishis começou então a dar saltos, a fazer pontes e a quicar bolas imaginárias contra o chão para depois chutá-las para o alto. No fim, suado, veio até perto de mim, estendeu a mão e disse:

- E aí, tudo barra-limpa? Kafunga ao seu dispor. Você sabe que comigo não tem corê-corê. Vamos lá trocar uma idéia, mas, olha, tem que ser vapt-vupt, viu?

- Tudo bem. Primeiro, queria saber o seu nome verdadeiro.

- Olavo Leite Bastos. Sem graça, né? Qualquer um poderia ter sido um Olavo Leite Bastos, mas só eu fui Kafunga.

- O senhor era mineiro?

- Mineiro de Niterói. Fui contratado depois de um jogo da seleção mineira contra a carioca, isso lá em 1933.

- E o senhor se deu bem em Belo Horizonte?

- Muito! Passei 50 anos lá. Fui comentarista esportivo e até vereador, mas morri sem aprender a falar uai.

- É verdade que o senhor declarou que tinha entrado na política para se arranjar?

- Falei o que muitos pensam, mas não têm coragem de falar. Felizmente hoje o povo evoluiu, ficou mais instruído e não votaria num candidato só porque ele foi ídolo de um time de futebol.

- Na sua fase de comentarista, o senhor inventou um monte de expressões, não foi?

- Eu era um comentarista barra-limpa, falava vapt-vupt, já que comigo não tinha corê-corê.

- E no Atlético o senhor foi titular por duas décadas?

- É, meu rapaz, foram tantos jogos que eu até perdi a conta. Estreei numa derrota para o Vila Nova daqui de Nova Lima, mas evitei o pior e não saí mais. Fui muito feliz debaixo daquelas traves. Depois vieram o Renato, o João Leite, o Velloso, mas até hoje a torcida do Galo me elege como o maior goleiro de todos os tempos.

- Eu li que o senhor sofreu cinco derrames antes de passar para o andar de cima.

- Até nessa hora eu quis fazer milagre, mas não adianta: até o melhor dos goleiros acaba tomando o gol final.

Logo depois, Zé Cabala fez umas caretas, emitiu uns grunhidos engraçados e voltou a ser o supremo carteiro dos espíritos. Pensei em beber um pouco mais de sua incomparável sabedoria, mas, naquele mesmo instante, a tal vizinha apareceu na janela com um decote cavado e gritou:

- Cabalinha, seu espírito de porco, vamos ou não vamos acabar a nossa sessão?

Então, ele ajeitou o turbante e cochichou em meu ouvido:

- Acho que vou ter que fazer um negocinho vapt-vupt, senão vai ter corê-corê.

A mim não restou outra coisa a fazer, a não ser erguer meu polegar e dizer:

- Barra-limpa!

Por Torero às 09h13

Texto da Folha

Uolistas e folhistas que quiserem ler o texto de hoje na Folha de S.Paulo, é só clicar aqui.  

Por Torero às 09h10

24/03/2008

Nove vitórias suadas e um empate sangrento em Paulistão City

Foi um fim de semana de muitos tiros e mortes. O cheiro de fumaça ainda está pelas ruas de paulistão City.

Na sexta-feira, a bela e loira Myra Sun venceu o temível Kid Norusca. Mas Myra não apenas venceu, como venceu fora de casa. E não apenas venceu fora de casa como lutou com menos balas desde os 42´ da primeira parte do duelo. Myra acertou seu tiro (há um singelo laço de fita amarelo no cano de seu revólver) logo aos 7´. E depois tratou de se esquivar das balas de Kid Norusca. Agora os dois estão empatados com 26 pontos. O próximo oponente da cauguel é o temível Frei Guará, líder do campeonato.

No sábado, Big Green, cada vez mais big, acertou dois balaços em Paul East. Big Green pinta como o novo xerife de Paulistão City, cargo que ele não ocupa há muito tempo. Até já mandou lavar seu colete verde-limão para colocar a estrela de ouro.

Sir Tom Zinho, o simpático caubói de sotaque carregado, foi superado em seus próprios domínios por dois tiros a zero por Black Bridge. O placar sugere que tenha sido uma vitória tranqüila de Black. Nada disso. Só nos últimos minutos é que o caubói que usa seu cinto de balas atravessado ao peito conseguiu alvejar Sir Tom, que continua entre os quatro últimos. Black Bridge, por sua vez, se mantém em terceiro lugar e na quarta-feira terá um paradoxal duelo com Clear River.

Falando em Clear River, nesta rodada ele foi vencido por Tim Timão, que acertou-lhe um único tiro. Tim venceu mas não convenceu. O caubói alvinegro se esquiva bem, mas, quando ataca, é raro que suas balas encontrem o corpo do adversário. Ele está melhor do que no ano passado, mas há que melhorar a pontaria.

Jack Tricolor também venceu com apenas uma bala certeira. Desta vez a vítima foi o índio Guarani, que está com boas chances de ser mandado de volta para a periferia de Paulistão City. Jack, que terminou o ano como o bambambã entre todos os caubóis, ainda não se acertou em 2008. E, se quiser ter chances de usar a estrela dourada de xerife, não pode demorar muito.

Debaixo de uma chuva inacreditável, a bela Kelly Inguiça, a cauguel de Bragança Paulista, voltou a ganhar, e desta vez de Jesse Juventus, o caubói que só se veste de bordô. Foi um duelo emocionante. Kelly vencia por dois tiros a um até quando faltavam quatro minutos para o fim do duelo. Então, Jesse empatou a lide. Só que, para comemorar, resolveu relaxar e comer um canolis. Esta distração lhe foi fatal. Kelly, mesmo mancando, aproveitou-se da distração de Jesse e, dois minutos depois, acertou a bala decisiva. A guerreira cauguel, que usa um chapéu de marca Marcelo Veiga sobre suas morenas madeixas, praticamente não corre mais perigo de ficar entre os últimos quatro pistoleiros de Paulistão City. Já o alegre Jesse Juventus está por um fio.

Black River e Joe Joaquim fizeram o duelo mais movimentado do domingo. Acertaram três tiros um no outro. O último foi dado por Black River, que, com seu revólver Johnny, acertou o caubói luso no minuto derradeiro. O empate foi ruim para os dois. Black River continua sendo o penúltimo lugar. Joe Joaquim foi parar no meio da tabela, em décimo.

Por fim, Billy Santos, depois de muito insistir, conseguiu acertar um tiro mortal em Frei Guará. Foram 85 minutos de um duelo feio e sem arte, mas com muito sangue, suor e lama. Frei Guará lutou com um revólver a menos desde o fim da primeira parte do duelo, mas se agüentou bem. Billy só acertou o religioso caubói no finzinho, com um milagroso tiro saído do torto cano de seu rifle Little Mark Warrior.

Nada está definido em Paulistão City. Nem os últimos, nem os primeiros. E faltam apenas três duelos para cada caubói. Afundemos nossos chapéus na cabeça e nos escondamos atrás de algum barril para ver os embates decisivos. Muitas balas ainda voarão pelas ruas empoeiradas desta cidade. 

Por Torero às 11h08

23/03/2008

O outro lado (por Joao Luis Amaral)

O outro lado (por Joao Luis Amaral)

Belo domingo de setembro.
Bela manhã em que o Sol chegou forte.
Belo café José Carlos Pereira toma.
É dia de jogo, precisa estar bem alimentado.
É clássico, vai ter de correr muito.
Nada que uma boa cota de carboidrato não dê conta.

Enquanto brinca com Tobias, seu labrador, dá uma passada rápida pelas notas esportivas do jornal.
Futebol é sua grande paixão.
Respira o esporte. Sua o esporte.
Acompanha cada lance. No Brasil ou no exterior.
Sabe as escalações dos times, qualquer um deles, do goleiro ao ponta-esquerda.
Inclusive os reservas.

Hoje o dia será de grandes emoções.
O dia mais esperado, dentre todos da semana.
O dia em que ele deixa de ser coadjuvante, apenas mais um na multidão, para ter holofotes mirando-o pelos quatro cantos do campo.

Na semana anterior, a partida fora espetacular.
Recebera calorosos elogios de colegas e, o que mais o surpreendera, a mídia havia amplamente elogiado sua atuação.
Lances estupendos, de grande dificuldade.

E tais elogios foram suficientes para fazê-lo treinar ainda mais arduamente no decorrer da semana.
Ao contrário de todos os outros, quanto mais era elogiado, mais trabalhava, mais buscava aprimorar-se.
Queria estar “tinindo” para o clássico.
Sem dúvidas seria importante para sua carreira no futebol decolar definitivamente.
Uma atuação perfeita num clássico.
Era o passo que precisava para ir à Copa do Mundo.

Um beijo na esposa, um carinho nos dois filhos, uma corrida atrás de Tobias.
Pega a mochila, confere o equipamento, certifica-se de não ter esquecido o protetor solar.
E sai. Junta-se aos colegas para ir ao estádio.
Precisam chegar cedo.
Por que sabem como é, não é?
Aquecimento e alongamento precisam de atenção.
Principalmente antes de um jogos desses.

Chegam ao estádio e vão direto ao vestiário.
Não podem perder tempo ou parar para dar entrevistas.
Aquecem, alongam, ouvem instruções acaloradas enquanto amarram as chuteiras.
Um último gole de água antes do início da partida.
Uma oração, pedindo proteção e que ninguém se machuque.
Partem para as escadarias.
Ele e seus colegas, de mãos dadas.

Entram em campo. Primeiro, o pé direito, para dar sorte.
O sinal da cruz, típico dos amantes do futebol.
Arquibancadas lotadas.
Uma parte da torcida os aplaude.
A outra não perdoa e vaia.
Estão acostumados, não se deixam abater.
Foi sempre assim, durante anos, em todos os jogos.

Uma corrida rápida, “sente”a bola.
Algumas embaixadinhas.
Tudo pronto. O espetáculo vai começar.

Sente um frio na barriga.
É o grande momento.
Concentrado, não ouve mais o barulho da torcida.
Olha para os lados, para ver se todos estão em suas posições.

É agora.

Na cabine de uma rádio, o narrador anuncia:

- Apita, José Carlos Pereira! Bola rolando para o grande clássico deste domingo!

 


(PS: Na seção "Sempre aos domingos", publico textos enviados por leitores. Mande o seu para blogdotorero@uol.com.br)

Por Torero às 10h36

21/03/2008

1938 – O Feijão e o coq au vin

1938 – O Feijão e o coq au vin

Minha vida com Coco foi feliz naqueles anos. Morávamos nos arredores de Paris, onde eu trabalhava como pintor de paredes. Ganhava pouco, mas me divertia muito e ia sempre aos estádios ver os jogos do Saint-Germain.

Quase caí de costas ao saber que a próxima Copa seria justamente na França. Porém, quando vi o preço dos ingressos, aí caí mesmo. Era muito mais do que os meus modestos ganhos permitiam e, para piorar, Coco não era exatamente econômica.

Só me restava uma opção: tentar fazer parte da comitiva brasileira. Logo que ela chegou, fui ao Pavillon Henri IV, em Saint-Germain-des-Prés, e falei com o doutor Castelo Branco, chefe da delegação, mas ele disse que infelizmente não precisavam de mais ninguém.

Foi então que escutei uma voz às minhas costas. Uma voz não, um grito:

— Me arrumem um ajudante de verdade para a cozinha! Aquele sujeitinho que vocês arranjaram só sabe fazer essas frescuras francesas. Os jogadores querem é feijão!

Virei-me, abaixei a cabeça e me apresentei:

— Feijão ao seu dispor.

Esperava ouvir muitas palavras em resposta ao que eu disse, menos as que escutei: — Feijão, seu cachorro! Era aqui que tu estavas!

Quando ergui a cabeça, vi que a cozinheira era Noemi. Sim, Noemi, aquela moça do Méier com quem eu deveria ter me casado duas copas atrás.

Lembrando-me da desculpa que tinha lhe dado em 1930, expliquei que havia sido ferido numa região muito particular durante o golpe de Getúlio Vargas, e que o único médico que poderia fazer o reimplante vivia em Paris.

— E a operação deu certo?

— Por que você acha que eu não voltei? Colocaram o cano no revólver, mas ele já não atira mais..., respondi cabisbaixo.

Noemi tentou segurar ao mesmo tempo lágrimas e risadas. Por fim, respirou fundo e me contratou.

Aos poucos fui me inteirando do estado da seleção: dessa vez contávamos com um scratch forte. A CBD e a FBF haviam se unido e não houve brigas entre paulistas e cariocas. Estavam lá Leônidas e Patesko, remanescentes de 34, e ainda alguns novatos: o zagueiro Domingos da Guia, de estilo tão elegante que podia jogar de terno, e dianteiros talentosos como Tim, Hércules e Romeu Pellicciari. Fiquei sabendo que dessa vez tinha havido até preparação, com a equipe ficando um mês em Caxambu. Tudo parecia bem melhor que em 34 e enchi-me de esperanças.

 Domingos da Guia: Do Bangu para o mundo.

A estréia aconteceu contra a Polônia no Stade de la Meinau, em Estrasburgo. Como os polacos também usavam camisas brancas, pela primeira vez a seleção entrou em campo com um segundo uniforme: camisas azuis e calções pretos. Mas os dois times acabaram ficando marrons, pois choveu tanto naquele dia que o campo transformou-se num lamaçal.

Por pouco não morri nesse jogo. Viramos o primeiro tempo vencendo por 3 a 1, com o que pensei que seria uma partida fácil. Porém, 45 minutos depois, olhei para o placar e o que vi foi um 4 a 4. Um tal de Willimoski tinha feito nada menos que três gols.

Veio a prorrogação: Willimoski fez mais um gol e achei que estava tudo acabado. Mas havia Leônidas. Ele virou o jogo e deixou o público boquiaberto. Até gol de pé descalço ele marcou. É que sua chuteira havia se soltado, mas o Diamante Negro continuou jogando e fez um golaço.

 Com Leônidas em campo, não perdemos nenhum jogo naquela Copa.

Depois viajamos mil quilômetros de trem até Bordeaux para enfrentar a Tchecoslováquia. Pensei que Coco fosse reclamar dessa minha segunda viagem. Mas eu estava enganado. Em três tempos ela fez minha mala e disse: — Adieu, mon Fejon.

Contra os tchecos, nova agonia. O Brasil largou na frente com Leônidas, mas Domingos da Guia fez um pênalti em Simunek. Nejedly botou a bola no cantinho de Válter e igualou: 1 a 1. Depois disso o jogo ficou equilibrado, inclusive na pancadaria. O Brasil teve Zezé Procópio e Machado expulsos; da Tchecoslováquia, Riha foi para fora.

Em toda guerra há um herói e nessa não foi diferente: o goleiro Planicka, depois de um choque com Perácio, deslocou a clavícula. Naquele tempo não se podia fazer substituições, e ele teve que jogar a prorrogação com um braço só. E o pior é que, mesmo assim, continuou fechando o gol. Ficou tudo para o jogo extra.

Quando a seleção entrou em campo dois dias depois, meus olhos arregalaram-se tanto que quase caíram da órbita: com exceção de Leônidas e Válter, o técnico Ademar Pimenta havia escalado o time reserva. Achei aquilo uma tolice sem tamanho e, ao final do primeiro tempo, quando os tchecos venciam por 1 a 0, estava doido de raiva e mordia meu panamá com ódio.

No segundo tempo, porém, a equipe reagiu e lamentei ter estragado meu único chapéu.

Tim foi o maestro da equipe, ditando o ritmo do jogo, dominando o meio-campo e lançando bolas certeiras. Leônidas — sempre ele! — empatou, e Roberto confirmou a vitória brasileira. Pela primeira vez na história, participaríamos de uma semifinal.

Essa honra, porém, exigiu grandes sacrifícios. A partida — contra a poderosa Itália — fora marcada para dali a dois dias na distante Marselha. Mais uma viagem! Para piorar, Leônidas estava sem condições de jogo por causa de duas partidas seguidas enfrentado as botinadas dos zagueiros tchecos.

O Brasil entrou em campo com Válter; Domingos da Guia e Machado; Zezé Procópio, Martim e Afonsinho; Lopes, Luisinho, Romeu, Perácio e Patesko.

Fiquei surpreso com a ausência de Tim e dessa vez não me contive. Fui até Ademar Pimenta e disse:

— O senhor tinha que pôr o Romeu na direita, tabelando com o Lopes, não no meio. E, na esquerda, Tim e Hércules, que estão em melhor fase que o Perácio e o Patesko. Ele olhou-me com desprezo e disse:

— Lugar de Feijão é na cozinha.

— De Pimenta também! — respondi.

Noemi, que estava ali ao lado, riu e falou: — Tu continuas um pícaro!

Mal o juiz apitou o início da partida e os italianos vieram para cima com uma tremenda fome de gol. O massacre era terrível, daqueles em que a única coisa que um torcedor pode fazer é rezar (o que eu, aliás, fazia com fervor). Meazza e Piola estavam impossíveis e Válter teve que fazer defesas históricas para segurar o 0 a 0.

Aqui Piola segura a bola do gol número 300. Mas ele ainda faria mais 105.


Porém, do mesmo jeito que eu rezava pelo empate, algum italiano devia estar rogando por um gol. E como Deus ouviu minhas preces no primeiro tempo, quis ser imparcial e atendeu o italiano no segundo, fazendo com que Colaussi abrisse a contagem.

Pensei que levaríamos uma goleada histórica, porém o Brasil se acalmou e começou a frequentar a área italiana. Parecia um novo jogo e criávamos boas chances para empatar. Mas aí aconteceu aquele lance que entrou para a história do futebol: a bola estava no ataque brasileiro quando Piola, pela milésima vez no jogo, começou a provocar Domingos da Guia. Empurra daqui, xinga dali, Piola deu um chute em Domingos e este, irado, passou-lhe uma rasteira dentro da área. O juiz, um suíço chamado Wuthrich, viu o lance de longe e marcou pênalti.

Os brasileiros ficaram doidos: reclamaram que a bola estava do outro lado, que nunca tinham visto uma coisa daquelas, mas o juiz, até porque não entendia português, permaneceu duro como uma pedra. Meazza bateu e fez 2 a 0.

Depois do gol, nosso time ficou atordoado. Só no final, aos 41 minutos, é que conseguimos chegar com mais força à área inimiga. Romeu marcou, mas era tarde. Aquele jogo ficou mesmo atravessado na nossa garganta como o jogo do “se”: se Leônidas tivesse jogado..., se o juiz não tivesse marcado o pênalti..., se o time tivesse sido mais bem escalado...

Para espantar um pouco a tristeza, eu e Noemi fizemos uma feijoada no dia seguinte. Não por acaso, deixei cair uma boa dose de pimenta no prato do Pimenta. Ele bebeu três copos de água depois da primeira garfada.

Alguns dias depois, em Bordeaux, conquistamos o terceiro lugar vencendo a Suécia por 4 a 2. Nesse jogo Leônidas fez mais dois gols, o que lhe valeu a honra de ser o artilheiro da Copa.

Só então tornamos a Paris e fui para minha casa. Quando abri o portão, esperava que Coco viesse correndo de braços abertos ao meu encontro. Mas ela não veio. Descobri o motivo quando cheguei à porta e vi um bilhete:

“Fejon, as coisas vão e vêm, e chegou a minha hora de ir. Apaixonei-me por um reserva da seleção suíça e fui com ele para Lausanne. Mando-lhe um relógio cuco de lá. Um beijo da sua, quer dizer, da que um dia foi sua, Coco”.

Rasguei aquele papel em mil pedaços e depois ainda queimei cada um deles. Para me consolar, convidei Noemi para assistirmos à final da Copa entre Itália e Hungria.

Cinqüenta e oito mil pessoas lotavam o estádio Colombes e quase todas torciam para a Hungria. Mas a Itália venceu de novo: 4 a 2, com mais uma grande exibição do maldito Piola, autor de dois gols.

Noemi percebeu que caíam lágrimas dos meus olhos e comentou: — Não sabia que gostavas tanto da Hungria.

— Não é isso, é que estou com saudades do passado...

Pensando que eu me referia a ela, Noemi tomou meu rosto em suas mão e deu-me um longo beijo. Não preciso dizer aos senhores, nem às senhoras, que esse tipo de carinho provoca reações fisiológicas abaixo do nosso equador. Percebendo isso, Noemi exclamou: — Feijão do céu, acho que alguma coisa se moveu!

Olhei para baixo e disse: — É um milagre! Só mesmo o teu toque divino poderia ressuscitar este Lázaro. Em seguida ajoelhei-me e perguntei: — Ainda queres casar comigo?

Ela aceitou.

Voltamos para o Brasil na manhã seguinte.

E foi assim que, depois de ver três copas em três países diferentes, voltei para meu antigo emprego, para a Noemi e para o Méier, como se nunca de lá tivesse saído.

  Noemi e eu, já de volta ao Rio. Ah, o mundo dá voltas... E sempre volta ao mesmo lugar.

Por Torero às 08h30

18/03/2008

Meu querido inimigo

Sabe aquela cena em dois caubóis inimigos são jogados num poço, e, para escapar, têm que se ajudar, ficando um de costas para o outro, a fim de escalar as paredes? Esse é mais ou menos o tema do texto de hoje na Folha. Uolistas ou folhistas podem clicar aqui.

Por Torero às 10h41

17/03/2008

ABC do fim de semana

Adriano: O imperador das manchetes jogou bem. Sendo assim, no meio de semana deve fazer alguma trapalhada.

Bahia: Só empatou com o Itabuna, mas ainda é líder do campeonato, dois pontos à frente do Vitória (não o de Salvador, o de Vitória da Conquista).

Corinthians: Terá um monte de desfalques no jogo contra o Fortaleza. Dos 31 atletas, 15 podem estar fora de jogo.

Dérbi: 4 a 2 para a Ponte Preta. A Macaca voltou ao G-4 e o Bugre ao G de quatro. Os times de Campinas vivem momentos muito diferentes. Um pensa em reformar o estádio. O outro, em vendê-lo.

Emerson Leão: Tenta falar difícil, mas de vez em quando esquece uns esses.

Flávio: O juiz Flávio Rodrigues Guerra marcou três contra o São Paulo. E acertou as três vezes. Coisa rara.

Guará: Podem olhar na banca de jornais: as capas de todos os jornais mostram o Palmeiras festejando. Mas o líder do campeonato é o Guará, que ganhou do Bragantino por 1 a 0, mesmo tendo um jogador a menos desde os 34’.

Henrique: Eu não lembro do cara, mas ontem ele fez dois gols para Bordeux, o vice-líder do campeonato Francês. O mais triste deste êxodo dos jogadores brasileiros é que há alguns que a gente nem sabe que foram embora.

Ipatinga: O time venceu o Atlético e afastou-se do rebaixamento. Há algumas semanas, o Ipatinga roubou o técnico Moacir Júnior do Tupi e começou sua recuperação. Moacir Júnior deixou o Tupi como líder do campeonato e tirou o Ipatinga das últimas posições. Olho nele!

Júnior: O lateral do São Paulo foi o protagonista do lance decisivo do clássico paulista. Ao fazer o pênalti em Valdívia, quando o São Paulo jogava melhor e tinha mais probabilidade de fazer o 2 a 1, mudou a história do jogo.

Kléber: O atacante santista fez seu décimo gol no campeonato. E dessa vez foi de, digamos, cabeça. O importante é que o Santos se afastou do rebaixamento e até sonha em ficar entre os quatro. Mas pensar em chegar entre os oito é mais realista.

Linhares: Nasceu há dez anos como escolinha de futebol e é o líder do Campeonato Capixaba.

Moleque Travesso: O Juventus voltou a merecer o apelido. Estragou o fim de semana corintiano e conseguiu respirar um pouco. Mas ainda corre perigo.

Nakajima: Kazuki honra o sobrenome.

Olímpica: Fabíola Molina conseguiu o índice para as Olimpíadas nos 100m nado costas. Agora são onze os nadadores brasileiros com índice. Nove eles e duas elas.

Pedrão: É o atual artilheiro do Campeonato Paulista. Ele fez os dois gols que em 2006 levaram o Barueri à Série B do Brasileiro. Está no time há quatro anos e já jogou por Jaboticabal, Botafogo-SP, São Raimundo, Taquaritinga, Sertãozinho e Portuguesa. Fará trinta anos no próximo dia 5, mas só agora ganhou alguma fama.

Quiñones: Por que foi contratado pelo Santos?

Ramalho: Muricy ficará de mau humor por um bom tempo por conta da goleada de ontem. Mas a verdade é que, antes do segundo gol palmeirense, o time vinha bem.

São Marcos: É tão bom que mesmo não-palmeirenses torcem por ele. E, em boa forma, realmente é melhor do que Diego Cavalieri.

Tupi: Nem Atlético, nem Cruzeiro. Mesmo perdendo seu técnico (ver Ipatinga), o Tupi venceu mais uma vez (2 a 1 no Democrata-SL) é o líder do Campeonato Mineiro, com 18 pontos, dois a mais que Cruzeiro.

Umbigo: É um absurdo que as semifinais do Paulista sejam jogadas apenas em São Paulo. A Ponte Preta não poderia jogar em Campinas? O Guaratinguetá não teria direito de jogar em seu campo? A cidade de São Paulo não é o umbigo do mundo. Mas é o da Federação Paulista.

V: De vingança e de vitória. O Botafogo ganhou de 3 a 2 do Flamengo e vingou-se, um tanto, da derrota na final da Taça Guanabara. Mas a sede ainda não foi satisfeita. A verdadeira vingança só vem se vencer o velho rival na decisão do campeonato.

Work: Um time com nome estranho, o Toledo Colônia Work, vem se dando bem no Campeonato Paranaense. No ano passado, ganhou a segunda divisão estadual. Este ano, na primeira fase, ficou em terceiro lugar, atrás apenas de Coritiba e Atlético. Agora, na segunda, está na vice-liderança de seu grupo (ontem ganhou do Adap com um gol aos 46’do segundo tempo) e parece que chegará às semifinais. O curioso nome vem de uma junção estranha: o time é de Toledo e foi criado por duas empresas, a Cervejaria Colônia e as Organizações Work.

Xuxa: O meia do Mirassol participou do primeiro gol e fez o segundo na vitória por 3 a 1 sobre o Rio Claro. O terceiro foi de Luciano Sorriso. Aliás, note leitor, os cândidos nomes que aparecem neste item: Xuxa, Sorriso, Rio Claro e Mirassol. Fosse eu um poeta e faria uma quadrinha suspirosa.

Yazid: É nome do meio de...

Zinedine Yazid Zidane: Zizou esteve no Brasil lançando seu livro. Foi simpático, sorriu, deu entrevistas, abraçou criancinhas e até vestiu o agasalho verde-amarelo. Mas não adianta, depois daquela cabeçada em Materazzi, e principalmente por conta da final de 98, não há como gostar do cara. Podem dizer que é ressentimento de derrotado. Mas é mesmo.  


 

Por Torero às 10h02

14/03/2008

Perguntas para o presidente

POr sugestão dos leitores, vou fazer aqui no blog, pelo menos uma vez por mês, uma sessão chamada "Dez perguntas para o presidente", na qual os torcedores mandarão as questões que gostariam de fazer aos comandantes de seus clubes.

Eu selecionarei dez destas perguntas e vou levá-las ao presidente. Depois, é claro, publicarei as respostas aqui.

Para começar, mandem aí as dez perguntas que vocês gostariam de fazer para Marcelo Teixeira, presidente do Santos.

Por Torero às 08h25

13/03/2008

1934 - O Feijão e a pizza

1934 - O Feijão e a pizza

Depois da Copa de 30, eu e Federica mudamos para os arredores de Roma, onde eu trabalhava como motorneiro de bonde. Ganhava pouco, mas me divertia muito e ia sempre ver os jogos do Lazio com Luigi, meu vizinho.

Depois do Uruguai aprendi a gostar de futebol e até estourei fogos quando soube que a próxima Copa do Mundo aconteceria justamente no país em que eu morava.

Naquele tempo, a Itália vivia sob o regime fascista. O Duce Benito Mussolini acalentava o sonho de reviver o Império Romano e, como os velhos césares, via no esporte uma valiosa arma para aumentar sua popularidade. O treinador Vitório Pozzo, como queria manter sua cabeça sobre o pescoço, não se fez de rogado e recorreu a vários filhos de italianos que jogavam na América do Sul, como os argentinos Orsi e Guaita, e o brasileiro Filó. O assédio aos oriundi era tão grande que o Palestra Itália, de São Paulo, chegou a esconder três de seus jogadores numa fazenda em Araras para que eles não recebessem as propostas italianas.

 Esse era o Filó.

A seleção brasileira, segundo as cartas do meu velho amigo Farinha, não ia muito bem. As brigas continuavam, mas agora não entre cariocas e paulistas, e sim entre a CBD, que defendia o amadorismo, e a Federação Brasileira de Futebol, que congregava os times profissionais. Um ano antes o futebol brasileiro havia se profissionalizado e as principais equipes paulistas e cariocas estavam do lado da Federação. A Fifa, porém, reconhecia apenas a CBD, que, entre os seus integrantes, só contava com um time importante: o Botafogo, que acabou cedendo oito jogadores.

Novamente não iríamos contar com nossos principais talentos, apesar de Carlito Rocha, o presidente do Botafogo, ter prometido uma nota preta para quem fosse para a CBD. Oferecer dinheiro para um jogador voltar ao amadorismo pode parecer uma coisa sem muita lógica, mas lógica e futebol não combinam muito, ainda mais no Brasil.

Fiquei aborrecido com essa história toda e um dia, almoçando com Federica e Luigi, disse que iria torcer para a Itália. Porém, como a raiva do torcedor é breve e a paixão, eterna, peguei um trem para Gênova e lá fui eu assistir ao primeiro jogo do Brasil. Nosso adversário, a Espanha, era uma das mais fortes seleções daquele tempo. Para piorar, a Copa foi disputada no sistema que hoje chamam de mata-mata. Perdeu, cai fora.

Quando vi aquelas camisas brancas entrando em campo, não contive a emoção e chorei (mas, entre as lágrimas, notei que elas não estavam tão bem lavadas, passadas e alinhadas como no meu tempo).

 A camisa de 34.

Mal começou o jogo e me dei conta de que nossa equipe sairia mais surrada que o uniforme. O team até que não era mau. Além de Leônidas da Silva, havia o bom goleiro Roberto Gomes Pedrosa e atacantes como Valdemar de Brito e Patesko. Mas se a nossa seleção não era má, a deles era muito boa. Quincoces, Lafuente e Langara eram craques e o goleiro Zamora parecia uma mistura de sapo com polvo.

 Para ler a biografia de Zamora, El Divino, clique aqui.

Já no final do primeiro tempo, eles venciam por 2 a 0. Depois Leônidas diminuiu, mas Langara fez 3 a 1 e jogou a última pá de cal sobre as nossas esperanças. Então novas lágrimas rolaram pelos meus olhos. Quase encharquei os sapatos.

Antes de voltar para casa, no entanto, fui andar um pouco para conhecer Gênova e, quando fiquei cansado, entrei numa doceria de nome Il Dulce. Ali acabei conhecendo Cosette, uma francesa cujo apelido era Coco e que logo começou a me chamar de Mon Fejon. Ela era garçonete e também estava desolada por causa da eliminação da sua França, batida pela Áustria.

A doce Coco foi uma excelente guia e, se não conheci tão bem as belezas de Gênova, é porque me ocupava com as da França.

Naquela noite, enquanto estávamos abraçados, ela propôs que fôssemos até Verona, cidade de Romeu e Julieta, para vermos a lua dos amantes. Fiz uma contraproposta: "E se fôssemos a Roma, cidade do Lazio, para ver a final da Copa?"

Acho que Coco me amava, pois aceitou sem titubear.

A euforia por causa da seleção italiana era enorme. Logo de cara, um bombardeio sobre os Estados Unidos: 7 a 1, devidamente dedicados a Mussolini.

 O exército italiano entra em campo para bombardear os Estados Unidos.

Depois, uma peleja emocionante contra os espanhóis; tão emocionante que os jornais disseram que o jogo deveria ter sido disputado num campo de batalha, e não de futebol. Como até a prorrogação terminou empatada e não havia disputa de pênaltis naquele tempo, os dois times tiveram que fazer outro match 24 horas depois.

No combate anterior, o time espanhol havia sido tão castigado pelos italianos que entrou sem sete titulares, entre eles Zamora e Langara. Mesmo assim a Espanha jogou com bravura e só foi derrotada porque o juiz não viu Meazza ajeitar a bola com a mão antes de fazer o gol da vitória. As copas nem sempre são ganhas só com futebol.

Nesses dias, eu e minha nova namorada vivíamos trancados num quarto de pensão feito um casal em lua-de-mel. Eu, é claro, não lhe contei que era casado. Às vezes batia-me um certo remorso e pensava em voltar para casa, mas então ficaria com remorso por ter deixado minha cherrizinha. Ora, já que sentiria remorso de qualquer jeito, preferi senti-lo ao lado de Coco.

Pelo rádio acompanhamos Itália x Áustria. Esse match foi considerado por muitos como uma final antecipada da Copa. Depois de muita luta, a defesa austríaca finalmente foi invadida. Quem conseguiu tal façanha foi o soldado Guaita.

Para a final contra a Tchecoslováquia, nos apertamos entre milhares de pessoas no estádio do Partido Nacional Facista. Mas isso não foi problema, pois quanto mais perto estivesse de Coco, melhor.

Esse combate não foi menos dramático que os dois anteriores. No primeiro tempo, as tropas de defesa levaram a melhor sobre as forças de ataque. Porém, no período final, as trincheiras caíram: primeiro a do Duce, que levou um gol de Puc; depois a tcheca, traspassada por uma bomba do artilheiro Orsi. 1 a 1. Tudo seria decidido na prorrogação.

 Orsi, o italiano da Argentina.

Então o exército italiano foi para cima dos inimigos e aos cinco minutos Schiavo fez o gol que decidiu a Copa. Terminado o jogo, todos se abraçavam e os casais trocavam beijos de amor.

No meio daquela festa toda, no entanto, reparei que Luigi, meu vizinho, também estava nas arquibancadas e beijava uma senhorita, ou melhor, senhora, pois a tal era ninguém menos que a minha, ou sua, Federica.

Nossos olhares se encontraram, andamos uns na direção dos outros e ficamos frente a frente.

Então Federica esbofeteou-me por eu a estar traindo com Coco.

Coco esbofeteou-me por eu não haver dito que era casado.

Eu esbofeteei Luigi por ele estar saindo com a minha mulher.

Luigi esbofeteou-me porque ainda não tinha batido em ninguém.

Federica esbofeteou Luigi por ele ter estapeado seu marido.

Coco esbofeteou Luigi por ele ter batido em seu amante.

Eu esbofeteei as duas por baterem em meu amigo.

E os três me esbofetearam porque em mulher não se bate.

Continuamos assim por um bom tempo, até que, com as bochechas vermelhas, resolvemos ir a uma cantina.

Depois de ter a razão iluminada por algumas canecas de vinho, ponderamos que o melhor seria que cada nova dupla seguisse seu destino: Luigi e Federica ficariam em Roma e eu e Coco partiríamos com destino a Paris. No final da noite, com as bochechas rosadas, até já brindávamos àquele feliz arranjo. Só uma coisa me deixava triste: separar-me da minha querida filha Madalena. Mas até isso se resolveu quando Federica sussurrou ao meu ouvido:

— Não seja por isso. Ela é filha do Farinha, Feijão.

 

Por Torero às 08h48

11/03/2008

Texto da Folha

Para ler sobre o sorveteiro da terceira divisão, assinantes do Uol e da Folha podem clicar aqui.

Por Torero às 08h20

10/03/2008

Novos caubóis em Paulistão City

Neste domingo, depois de muito tempo, voltei a Paulistão City. Pouca coisa mudou. O sangue ainda mancha as portas dos saloons e há buracos de balas pelas paredes. Mas há alguns novos caubóis. Um deles é Sir Tom Zinho, o caubói que fala com erre tão carregado que não se sabe se é do interior de São Paulo ou da Inglaterra.

Ontem, Sir Tom Zinho duelou com Caetano Bill. E logo aos oito minutos alvejou o adversário. Depois, outras balas ainda rasparam o surrado chapéu do caubói do ABC, mas nenhuma o feriu. Então, como diz aquele ditado do velho oeste, “quem não baleia é baleado”, Sir Tom Zinho levou um tiro que deixou o duelo em 1 a 1. Sir Tom ainda teve a chance de decidir o combate no último minuto do primeiro tempo, com um disparo à queima roupa, vulgo pênalti. Mas atirou mal e perdeu a chance. Caetano Bill e Sir Tom Zinho terminaram empatados, o que não foi bom para ninguém.

Outra novidade nas ruas de Paulistão City é a bela e loira Myra Sun, uma simpática cauguél que ontem venceu o índio Guarani. Ela começou acertando dois tiros no inimigo e, depois de um breve intervalo para recarregarem seus rifles e revólveres, Myra acertou uma terceira bala, praticamente acabando com o duelo. O índio Guarani ainda cravou-lhe uma flecha, mas já era tarde para reagir. A charmosa Myra Sun foi para 20 pontos, ficando em sétimo lugar. Já o simpático bugre é o último dos duelistas de Paulistão City. Não vence ninguém há oito contendas e, pelo jeito, será mandado embora da cidade. Triste, triste...

Myra Sun não é a única nova cauguél em Paulistão City. Há também a encrenqueira Kelly Inguiça, vinda de Bragança Paulista. Especialista em linguiças apimentadas e trocadilhos maliciosos, Kelly começou vencendo Big Green. Com trinta minutos de duelo, ela ganhava por dois a zero e ainda tinha uma bala a mais que o inimigo. Porém, antes do fim do primeiro tempo, Big Green empatou e Inguiça perdeu duas balas.

Por conta da pouca munição de Kelly, o segundo tempo foi um passeio para Big Green, com direito a mais um erro do Paul Cesar Judge, que apitou equivocadamente um pênalti para Big Green. No final, Kelly Inguiça perdeu por 2 a 5. E seus fãs xingarão Paul Cesar Judge por anos e anos.

Outro estreante é Frei Guará, um ex-religioso que trocou a cruz pela espada, digo, pelo revólver. Frei Guará, que se benze depois de cada assassinato, vem sendo o caubói mais eficiente de Paulistão City. Já matou nove oponentes. Mas ontem não foi bem assim. Enfrentando Tim Timão no Morumbi, Frei Guará perdeu por dois a zero.

O religioso caubói levou o primeiro tiro logo aos três minutos. Até conseguiu revidar, mas o judge José Henrique de Carvalho anulou erradamente seu gol. Para compensar, o judge deu dois amarelos para Magal, um dos coroinhas de Frei Guará, e não o expulsou. Quem acabou indo mais cedo para o estábulo foi Bóvio, de Tim Timão. Mesmo assim, o caubói do povo resistiu bem e ainda acertou outro tiro em Frei Guará. Agora, Tim está em quarto lugar, passando Kid Norusca, que foi para a oitava posição depois de ser vencido por Billy Santos.

Billy acertou seu primeiro tiro logo aos 3 minutos, com seu imprevisível revólver da marca Betãobauer. Aos 20, com seu Colt Kléber, fez dois a zero, e ele poderia ter feito um terceiro. Mas as vitórias fáceis não existem para Billy Santos e ele acabou levando um tiro de Kid Norusca antes do fim do primeiro tempo do duelo. Para piorar, o empate viria no começo do segundo tempo.

Logo depois aconteceria uma tremenda confusão no Belmiro Saloon: é que o judge Guilherme Cereta não marcou um pênalti, mas os asseclas de Billy Santos pressionaram, ele consultou seu bedel e então deu o pênalti. Um tiro certeiro de Colt Kléber deu os números finais ao duelo: 3 a 2. Billy Santos se afasta dos quatro últimos e Kid Norusca se afasta dos quatro líderes.

Finalmente chegamos à fase dos duelos mais decisivos. Agora é matar ou morrer.

Por Torero às 08h10

08/03/2008

O mais nobre dos esportes

O mais nobre dos esportes

O homem mais rico do mundo queria saber qual era o mais nobre dos esportes e, para isso, chamou três sábios: um da Chi¬na, porque a China é o berço da sabedoria; outro da França, porque a França é o berço da ciência; e outro dos Estados Unidos, que não são o berço de coisa nenhuma mas ganham muitas medalhas nas Olimpíadas.

Logo que os três sábios chegaram à casa do magno magnata, este lhes perguntou: “Senhores, qual o mais nobre dos esportes? Aquele que me convencer receberá um pote de ouro.”

Então o chinês disse: “Honorável senhor, em todos os esportes há nobreza, mas em nenhum outro há mais do que no xadrez. Ele é um jogo de estratégias e inteligên¬cias, onde mais conta o cérebro do que qualquer outra coisa. O xadrez é o esporte do intelecto.” Depois, satisfeito com suas próprias palavras, sentou e tomou seu chá.

Então o francês falou: “Monsieur, nenhum esporte se compara à esgrima. Na esgrima treinamos pontaria e rapidez, defesa e ataque, reflexos e precisão. É um esporte onde todo o corpo é chamado a agir, e por isso é o esporte da habilidade física.” Depois, satisfeito com suas palavras, sentou e tomou seu vinho.

Então o norte-americano rosnou: “Mister, o xadrez e a esgrima são okeis, mas o mais nobre mesmo é o pôquer, que exige dissimulação e farsa, psicologia e trama. Ele não é jogado apenas com o corpo e o cérebro, mas também com a alma. É o esporte do controle emocional.” Depois, satisfeito, sentou e tomou sua Diet Coke.

O homem mais rico do mundo disse que precisava de algum tempo para pensar sobre aqueles profundos arrazoamentos, e, como pensar dá fome, pediu uma pizza pelo ¬telefone.

Quando o entregador chegou com a pizza, o homem mais rico do mundo, só por brincadeira, resolveu lhe perguntar qual era o esporte mais nobre: o xadrez, a esgrima ou o pôquer. O entregador não se fez de rogado e disse: “Esses três esportes são importantes, mas o mais nobre de todos é o futebol de botão.”

Os três sábios caíram na gargalhada, mas o entregador permaneceu imperturbável.

“Vejam, o futebol de botão é uma síntese do conhecimento humano. Ele necessita de movimentos estratégicos como o xadrez; pede pontaria, reflexos e precisão como a esgrima — e requer autodomínio como o pôquer. O futebol de botão, senhores, é o único esporte onde são necessários intelecto, habilidade física e controle emocional. Tudo ao mesmo tempo e em igual proporção.”

Todos ficaram boquiabertos com tais idéias e as aplaudiram com entusiasmo.

O entregador então fez uma partida de botão com cada um dos presentes para celebrar a mais nobre das artes. Ele venceu o chinês por 8 a 0, goleou o francês por 9 a 0 e deu de 10 a 0 no norte-americano. Estranhamente, porém, perdeu de 1 a 0 para o anfitrião; e com um gol contra.

O homem mais rico do mundo ficou tão feliz com a inesperada vitória que não deu apenas um pote de ouro ao entregador de pizza, mas também a mão de sua linda filha e única herdeira.

E a moral dessa fábula esportiva, se é que há alguma, é que é bom ser sábio, mas melhor ainda ser sabido.

*Do livro "Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso".

Por Torero às 16h59

07/03/2008

Novos personagens em Paulistão City

Segunda-feira teremos mais um capítulo de Paulistão City, o faroeste. Mas há alguns times ainda sem nome (e outros que podem melhorar). Peço ajuda dos leitores para encontrar uma alcunha para os seguintes times.

Guaratinguetá,

Grêmio Barueri,

Ponte Preta,

Bragantino,

Mirassol,

Ituano,

Paulista,

Sertãozinho,

Rio Preto e Rio Claro.

Por Torero às 17h21

06/03/2008

Novidade aqui no blog

Caro leitor, caríssima leitora, hoje começo uma nova seção aqui no blog. Ela se chama "Estórias das Copas", assim mesmo, sem agá, como nos tempos de antanho se usava para diferenciar as "estórias" inventadas das "histórias" reais (hoje em dia se usa apenas história com agá, mas na verdade são todas mentirosas).

Estas "Estórias" vão contar a história das Copas, mas sempre do ponto de vista de um torcedor brasileiro que teria estado presente à disputa. A primeira, por exemplo, é contada por Feijão, o roupeiro, que contará também a Copa da Itália. Às vezes os personagens contam algumas Copas, às vezes aparecem em apenas uma.

A história dessas Estórias é a seguinte: antes da Copa da França, eu e Marcus Aurelius Pimenta escrevemos alguns fascículos para a revista Placar contando as Copas numa mistura de ficção e realidade. Depois, mexemos bastante no texto, matamos alguns personages, parimos outros, e fizemos o livro "Futebol é bom pra cachorro" (editora Panda, esgotado), e depois parte deste livro virou uma minissérie na Globo, dentro do Fantástico, estrelada por Denise Fraga, que fazia o papel de Mel, uma mulher que tinha feito o Brasil vencer suas quatro Copas (por uma grande coincidência, e graças a Mel, naquele ano o Brasil ganhou o penta).

Agora, mexi de novo no texto e vou colocá-lo no blog às quintas-feiras, como sugeriram alguns leitores.

O primeiro capítulo está aqui embaixo. Espero que vocês gostem.    

Por Torero às 08h04

1930 - O Feijão e o Sonho

1930 - O Feijão e o Sonho


Há dois tipos de sonho.

O primeiro é feito com uma massa de farinha e ovos, tem cobertura de açúcar e recheio de creme. O segundo não é feito de nada, se bem que também tenha o seu tanto de açúcar. Naquele dia, na Confeitaria Colombo, provei dos dois.

Estava ao lado do meu amigo Farinha. Enquanto eu cravava os dentes no doce, ele me disse de supetão:

— Feijão, já arranjei tudo! Vamos para o Uruguai na semana que vem.

Como estava de boca cheia, minha única reação foi levantar as sobrancelhas, como que dizendo:

— Fazer o quê no Uruguai? Não sabes que estou de noivado marcado com a Noemi?

Ele entendeu os meus supercílios e respondeu:

— É o seguinte, Feijão: vão fazer lá no Uruguai uma tal de Copa com as seleções de futebol de tudo quanto é país. A do Brasil também vai e eu dei um jeito para a gente ir com o pessoal. A coisa toda dura umas duas semanas. Eu vou de massagista, tu serás o roupeiro.

Minhas sobrancelhas agora mudaram de posição e tentaram encostar uma na outra, como que dizendo: “Eu?, roupeiro?”

Farinha, vendo a pergunta em minha face, respondeu:

— Que que tem? Se eu, que não encosto dedo em homem, vou como massagista, por que tu não podes cuidar dos uniformes?

De fato, naquele tempo eu trabalhava como ajudante de alfaiate e entendia um pouco de botões, agulhas e aviamentos; mas mesmo assim a coisa me parecia aventurosa demais. Percebendo isso, Farinha passou a falar das maravilhas da viagem, da beleza das uruguaias e até da neve. Como eu nunca tinha posto os pés fora do Méier, jamais tinha visto neve nem tocado uma uruguaia, a idéia começou a me fazer cócegas.

Quando saí da Colombo, carregava dois sonhos, um no estômago e outro na cabeça.

Fui então me despedir de Noemi. Contei a ela que ia juntar-me às tropas de Getúlio Vargas e que só voltaria ao Rio quando acabássemos com a ditadura dos malditos cafeicultores paulistas. Ela não entendeu bem aquela febre política, mas chorou muito e jurou que iria me esperar à porta do Catete.

Dias depois me apresentei à tal seleção. Não entendia de futebol, mas o Farinha era fanático e ia me explicando tudo. A primeira coisa que me disse foi que aquela seleção era, na verdade, uma seleção carioca. Isso aconteceu porque a Confederação Brasileira de Desportos só tinha convidado dirigentes do Rio de Janeiro para a comissão técnica, e os paulistas, de birra, proibiram seus jogadores de ir. Só Araken Patuska, que na época estava sem time, juntou-se à equipe.

Farinha contou-me que, por causa dessa briguinha de engravatados, o scratch ficara sem grandes jogadores, como o goleiro Athié, o atacante Feitiço, que driblava como poucos e chutava como ninguém, e principalmente sem Friedenreich, que meu amigo dizia ser o melhor jogador do mundo.

 Com Fried, a história teria sido outra. Ah, os dirigentes...

Um dos chefes da delegação era o doutor Píndaro de Carvalho. Um dia este senhor pediu minha opinião sobre o uniforme da seleção: camisa branca, calções azuis e meias brancas. Eu disse que era bonito, mas que faltavam as cores principais da nossa bandeira: o verde e o amarelo. Ele explicou que eram muito chamativas e que o futebol era um jogo de classe.

 Eis o uniforme da Copa de trinta. Não era muito colorido, mas estava sempre bem passado.

A ausência dos paulistas, do verde e do amarelo não foram os únicos problemas da seleção. Faltava também um técnico. O time jogava ao deus-dará e todo mundo arriscava palpites sobre a forma de jogo. Treinos mesmo, o time fez apenas dois. Eu era só um aprendiz de costuras, mas sabia que, sem uma boa tática que alinhavasse tudo, de nada adiantariam pontas agudos como alfinetes e defensores elegantes como seda. Como dizem os alfaiates: “sem um bom molde não há trapo que vire fato”.

Uma semana depois seguimos para Montevidéu, a bordo de um navio italiano chamado Conte Verde, que trazia entre seus passageiros ninguém menos que Jules Rimet. O homem não largava sua taça por nada. No convés, passeava com ela debaixo do braço e, durante as refeições, ficava a admirá-la como se fosse a própria Greta Garbo.

 Tirei esta foto da delegação dentro do navio. 

Como disse, eu jamais havia saído do Méier, portanto nunca tinha posto os pés num navio, nem sabia que eles sacudiam tanto em suas viagens. Enjoei muito e não vomitei menos. Pensei em desembarcar em Santos, quando parássemos para pegar Araken Patuska, mas a enfermeira de bordo, uma italiana chamada Federica, atendeu-me com tanto carinho que levantou meu ânimo.

Finalmente chegamos ao Uruguai e confesso que achei bom deitar numa cama que não balançasse, pois sempre pensei que elas devem chacoalhar pela vontade dos ocupantes e não pela de Netuno.

Falando nisso, naqueles dias, ou noites, os movimentos de meu leito embalaram-me de tal modo que, quando reparei, minha boca dizia a Federica: — Queres casar-te comigo? — Ela respondeu que não podia, pois tinha que voltar para a Itália. Choramos como crianças. Depois fomos tomar sorvete.

Mas voltemos à Copa. Em vez dos dezesseis participantes esperados, o torneio de 1930 teve apenas treze, o que obrigou a uma divisão complicada dos times em quatro grupos. Nós ficamos num grupo de três, no qual também estavam Iugoslávia e Bolívia. Só um time de cada chave passaria para as semifinais.

Era engraçado andar por Montevidéu e ver aqueles jogadores vindos de lugares tão diferentes. Por ser a primeira vez que se fazia uma competição daquelas, tudo era novidade e diversão. Pelo menos até o primeiro jogo.

Nossa estréia foi contra os iugoslavos. Os brasileiros entraram em campo muito galantes, em uniformes lavados e passados com o esmero de um artista. Deixando a modéstia de lado, devo dizer que, se elegância ganhasse jogo, teríamos saído invictos daquele campeonato.

 A seleção estava na maior estica.

Infelizmente as coisas não foram bem assim e, de chofre, enfrentamos um problema terrível: o frio. A temperatura era de um grau e, para se esquentarem, nossos jogadores ficavam sacudindo-se em campo. Quem olhasse de longe pensaria que eles estavam tendo um ataque epilético ou ensaiando passos de mambo. Os pobres homens soltavam fumaça pela boca, pelo nariz e por pouco não a soltavam pelos ouvidos.

Quando o jogo começou, surpresa: os beques estavam firmes, no meio Fausto fazia boas jogadas e, na frente, Preguinho martelava a defesa adversária. Mas, num descuido, nossas esperanças naufragaram: Tirnanic mergulhou e, de cabeça, fez 1 a 0. Mal nos refizemos do susto e Beck ampliou.

Pensei que sofreríamos uma goleada, porém, no segundo tempo, o Brasil cresceu, empurrou os iugoslavos para dentro da área e conseguiu o seu gol: Preguinho. Ficamos o resto do jogo atacando, mas o goleiro Yakovic fechou a meta iugoslava com cadeado. Não deu, perdemos de 2 a 1. Para esquecer a derrota, bebi sozinho uma garrafa de vinho.

Três dias depois, os iugoslavos meteram 4 a 0 nos bolivianos, destruindo nossas esperanças de classificação.

Mas restava o jogo contra a Bolívia e queríamos voltar para casa com, pelo menos, uma vitória. Nesse dia, com Russinho, Carvalho Leite e Moderato no ataque, jogamos mais soltos e chegamos com facilidade aos 4 a 0: dois gols de Moderato, dois de Preguinho. Esse Preguinho, aliás, era filho do escritor Coelho Neto e herdou do pai a capacidade de fazer firulas, só que com a perna em vez da pena. Para comemorar a vitória, bebi duas garrafas de vinho.

Passaram para as semifinais a Iugoslávia, que enfrentaria o Uruguai, e a Argentina, que pegaria os Estados Unidos. Eu e Farinha preferimos assistir a este segundo jogo. Nessa partida aconteceu um lance curioso: o juiz, um belga de nome Langenus, apitou uma falta contra os estadunidenses e o médico entrou em campo para reclamar. Na confusão, todos os seus vidros caíram no chão, inclusive o de clorofórmio, que quebrou e fez desmaiar um dos jogadores americanos. Cutuquei meu amigo e observei:

— Falta feijão para esse pessoal, Farinha.

— E farinha, Feijão.

Faltavam mesmo: a partida acabou 6 a 1 para os argentinos.

Toda a delegação brasileira embarcou de volta para o Rio no dia seguinte. Aliás, toda não, porque eu decidi me casar com Federica e seguir com ela para a Itália. Despedi-me do Farinha com lágrimas e logo que o navio sumiu no horizonte fui correndo comprar meu ingresso para a final, um duelo de sair faísca entre Uruguai e Argentina.

Nunca me esquecerei daquele dia. Os uruguaios estavam confiantes, mas os argentinos atravessaram o Prata em hordas e invadiram a cidade gritando “Victoria o muerte!” Muitas armas de fogo foram apreendidas na alfândega e houve várias brigas entre as torcidas pelas praças de Montevidéu. O clima era tão pouco civilizado que o juiz, de novo o belga Langenus, só aceitou apitar o jogo se lhe fizessem um seguro de vida.

Quando entrei no Centenário, meu queixo quase caiu. Nunca tinha visto um estádio daquele tamanho. Havia bem umas oitenta mil pessoas espremidas ali. Na verdade, era menos um estádio que uma arena, e mesmo antes do princípio do jogo já começaram os problemas: os argentinos queriam a bola argentina, os uruguaios só aceitavam a uruguaia. Langenus teve que decidir a questão na moedinha. Venceu a bola argentina.

 Tinha quase cem mil no Centenário.

A partida começou equilibrada, mas aos poucos o futebol de toques curtos e rasantes dos argentinos se impôs, e eles terminaram o primeiro tempo vencendo por 2 a 1.

Na etapa final, porém, os uruguaios voltaram enlouquecidos. Eram como leões mordendo cristãos. Ou pulgas mordendo cães. Logo aos doze minutos igualaram a partida com um gol de Cea. E, aos vinte e três, num chute de fora da área, o grande Iriarte desempatou. Então os papéis se inverteram e foi a vez dos argentinos atacarem. Seguiu-se uma terrível pressão: chuva de cruzamentos, tiros batendo nos beques, bolas salvas em cima da linha e o guardião Ballesteros fazendo milagres.

 Manco Castro deu o golpe fatal.

O empate parecia questão de tempo até que, num contra-ataque já nos derradeiros minutos da partida, Dorado fez o centro e Manco Castro deu uma cabeçada certeira que decretou o placar final: 4 a 2. Os argentinos alegaram toque de mão, mas como Manco era maneta, o juiz não lhes deu ouvidos.

Eu e Federica comemoramos muito a vitória uruguaia, tanto que, nove meses depois, já na Itália, nascia nossa filha Madalena. Mas isso é outra história.


 

Por Torero às 07h32

04/03/2008

Texto da Folha

Para ler o texto de hoje na Folha, sobre os micos-leões-dourados do futebol, assinantes do UOL e da Folha de S.Paulo podem clicar aqui.

Por Torero às 07h06

03/03/2008

Ser mediano é meio caminho andado

O Flamengo conseguiu uma bela virada, o Santos está novamente perto do rebaixamento, o São Paulo passou pelo Mirassol e segue perto do G-4, o Sport ganhou o primeiro turno pernambucano, o Inter marcou seis gols, o Remo venceu o arquiinimigo Paysandu, o Palmeiras triunfou no clássico contra o Corinthians, o Real Madrid ganhou com dois gols de Robinho e a Inter de Milão perdeu uma invencibilidade de 25 jogos. Logo, hoje é dia de falar do... Guará.

Sim, do Guará, o líder do campeonato Paulista. E com quatro pontos de vantagem. O rico Palmeiras, o bicampeão paulista Santos, o reformulado Corinthians e o campeão brasileiro São Paulo estão vários pontos atrás.

E o que há de especial no Guará? Nada. Ou quase nada.

Não há, pelo menos, nenhum grande craque repatriado, nenhum jovem talento que está sendo sondado pelo Manchester, nenhum técnico badalado.

Mas é um time bem armado. Um daqueles times “certinhos” que às vezes aparecem pelo Brasil, principalmente no Campeonato Paulista.

O Guará é um time que ataca com afã, que sabe jogar atrás quando é necessário, que explora bem os contra-ataques, que tem volantes pegadores, zagueiros firmes, um eficiente cobrador de faltas, bom preparo físico, etc...

E, com estas qualidades comuns, vai deixando todos para trás.

O seu técnico é Guilherme Macuglia, que fez a maior parte da carreira em times médios do sul do país.

E dificilmente você terá ouvido falar de um de seus jogadores:

O goleirão Fábio, por exemplo, de 29 anos e dois metros, já andou por São José, Osasco, Inter de Limeira, Mogi Mirim, Goiás e Marítimo de Portugal. Você já o viu numa foto de capa de um Caderno de Esportes? Nem eu. 

Nelsinho, o lateral-direito, já tem 32 anos e passou a carreira em clubes modestos como Portuguesa Santista, Grêmio Maringá e Santo André.

Carlinhos, o zagueiro central de 33 anos, é um cigano bem rodado: Guarani, Juventus, Juventude (RS), o desconhecido Waldhof Mannhein da Alemanha, Figueirense, Bahia e Santa Cruz.

O volante Alê, 29, jogou no Penapolense, no Guapira (SP), no Flamengo (o de Guarulhos, não o do Rio), no Roma (do Paraná, não da Itália), no Osasco, no Juventus, nos XVs de Jaú e de Piracicaba, no São Bento, etc...

Magal (que não é o Sidnei), já vestiu as camisas de Taquaritinga, Sertãozinho, Portuguesa Santista, Juventude (RS), São Bento e América (RN).

Jackson (que não é o Michael) tem em seu currículo: Brasil de Pelotas, Mogi Mirim e CRAC (GO).

O meia Michael (que não é Jackson mas é Jefferson), artilheiro da equipe, está com 26 anos e passou por Barueri, Avaí (SC), Fortaleza, CRAC (GO) e Ponte Preta.

O craque da equipe, Nenê, que aos 33 anos já não é um nenê, marcou dois gols de falta nos dois últimos jogos, vencidos por 1 a 0. Ele já passou por (prepare o fôlego): Santo André, Ituano, Will (Suíça), Marília, São Bento, Remo, Ceará, Atlético de Sorocaba, Figueirense, Ceilândia, Paulista e São Raimundo.

Provavelmente você não ouviu falar da maioria destes jogadores. Talvez, de um ou dois. Não é impossível que de nenhum.

A grande esperteza do Guará foi saber encontrar estes bons atletas que estavam espalhados por aí, fazer uma organização tática simples e eficiente, e dar conjunto ao time.

A liderança do Guará é a prova de que hoje em dia, no futebol brasileiro, não é preciso ser brilhante ou milionário, mas ter entrosamento e 11 jogadores dispostos a suar.

Para se destacar em meio à mediocridade, ser mediano é meio caminho andado.

Por Torero às 10h09

O dia em que o céu parou

Era um jogo divino. O céu estava abarrotado de serafins, querubins, fadas, duendes, leprechauns, elfos, valquírias, nibelungos e mesmo espíritos malignos que se apertavam nas arquibancadas das nuvens, enquanto vendedores ambulantes faziam a festa com seus saquinhos de maná, ambrosia e néctar.

Jogava uma seleção de deuses gregos contra outra equipe, esta formada por deuses do resto do mundo.

Júpiter era o destaque dos gregos. Ele desferia chutes potentes, verdadeiros raios, de modo que volta e meia se ouviam agudinhos "ohs!" de Hera, Afrodite, Juno e um monte de outras deusas que juravam serem suas mulheres exclusivas.

Mas havia também Hércules, um zagueiro parrudo e com cara de poucos amigos.

Marte, um médio-volante irascível, e Plutão, um ponta-esquerda que jogava meio distante de seus companheiros.

Apesar disso, foi dele o passe para o primeiro gol: um lançamento preciso para Mercúrio, que entrou pela ponta tão rápido que parecia ter asas nos pés e cruzou para Netuno.

Este mergulhou e, de peixinho, fez 1 a 0.

Mas o time adversário não estava lá para sparring. Como já disse, era uma seleção formada pelo resto dos deuses.

Lá estavam Krishna, o goleiro de muitos braços.

Osires, um beque de postura majestosa e que jogava de braços cruzados.

Exu, um lateral-esquerdo que fazia faltas maldosas.

Odin e Thor, um meio-de-campo com entrosamento de pai e filho, e, principalmente, Tupã, a quem a torcida chamava de Tupãzinho e que era famoso por entrar durante as partidas e ajudar o time a reverter resultados negativos.

Acreditem ou não, foi o que aconteceu.

Logo depois de ter entrado, Tupãzinho lançou de longe, e Buda, de barriga, decretou o empate.

Os gregos protestaram -alegaram impedimento-, mas Deus, Jeová, o Juiz Supremo, disse que se era verdade que a barriga de Buda estava um metro adiante do último zagueiro, não era menos verdade que o centro de seu corpo encontrava-se na mesma linha.

E assim terminou o primeiro tempo.

A segunda etapa começou, e relâmpagos podiam ser vistos saindo do estádio das nuvens.

Ninguém queria perder aquela partida, pois os derrotados seriam chamados de semideuses e outros nomes feios.

As entradas mais duras se sucediam.

Era um jogo lá e cá, disputado com lances viris e jogadas que faziam o coração dos torcedores virem à boca.

Contudo, o placar não se movia: continuava no 1 a 1.

Faltavam 20 minutos para o final da partida quando um sujeito acanhado entrou pelas portas do estádio, sentou-se a um canto e começou a comer amendoim num saquinho cor-de-rosa.

Ficou ali assistindo ao jogo discretamente, tentando não chamar a atenção.

Porém, Deus, que tudo vê, logo percebeu de quem se tratava e parou de apitar.

Em segundos a multidão murmurava: "É ele! É ele!"

Os jogadores, envergonhados, não conseguiam realizar nem os lances mais fáceis.

E foi então que o Juiz Supremo e os dois capitães, Júpiter e Thor, se dirigiram humildemente até ele. Deus tomou a palavra:

"Senhor, os jogadores estão embaraçados com a sua presença e não conseguem pensar em mais nada. Gostaria de perguntar, em nome de todos os que aqui estão, se o senhor se dignaria a descer até o campo e jogar dez minutos para cada lado. Seria uma grande honra para todos nós."

O homem disse que não, mas o estádio inteiro começou a gritar: "Entra!, Entra!"

E ele, sem jeito, entrou.

Controlou a bola com maestria, deu dribles inesquecíveis e fez com que, naqueles 20 minutos, o céu ficasse em silêncio, como que hipnotizado pela grandeza da sua arte.

Foi assim a estréia de Domingos da Guia no céu.

 

(publicado na Folha de S.Paulo em 19/5/2000)

Por Torero às 10h07

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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