Blog do Torero

29/02/2008

Cloverfield

Não sou um fã de filmes de desastres e nunca gostei de filmes de monstros, daqueles que fazem você querer que a sessão acabe logo para se esconder sob seu seguro edredom. Mas gostei de Cloverfield. Principalmente pelo jeito como foi filmado. A idéia de fazer o filme todo do ponto de vista de uma câmera de vídeo, que começa numa festa e acaba percorrendo uma Nova Iorque que está sendo atacada por um grande monstro, faz desse filme algo bem diferente.

Ele ganha, por exemplo, mais realismo, pois não estamos vendo apenas uma história contada por câmeras invisíveis que sempre pegam os personagens em seu melhor ângulo. Estamos vendo toda a história em tempo quase real. E realismo é algo importante num filme de monstros. Se você não acredita no que vê, um filme de terror não funciona.

Mas ainda temos outras vantagens: há uma história de amor, mas ela escapa da pieguice; não se perde tempo em efeitos especiais gigantescos, pois pouco se vê o monstro (o que o deixa mais misterioso e assustador); e há até algumas sutilezas, como na última cena, em que algo cai no mar.

Quando eu estava na faculdade de cinema, era comum que os professores citassem o filme “A Dama do Lago” (estréia na direção do galã Robert Montgomery, que fazia também o papel principal. Disponível nas locadoras). E o motivo disso é que “A Dama do Lago” foi todo filmado do ponto de vista dos olhos do personagem principal (o famoso detetive Philip Marlowe, de Raymond Chandler).

Ou seja, assistimos à história como se fôssemos o próprio Marlowe. Sabemos o que ele sabe, vemos o que ele vê. Um idéia brilhante, mas que não fez muito sucesso na época. Em compensação, “A Dama do Lago” tornou-se um clássico nas escolas de cinema, e alguns professores passam horas e horas falando do filme.

Talvez, daqui a alguns anos, os mesmos professores falem de Cloverfield. Com a vantagem de que, em Cloverfield, você não boceja. Na verdade, às vezes nem respira.

Por Torero às 08h27

28/02/2008

O fim do pesadelo. Ou melhor, da Copa dos Pesadelos

 Ilustração: Regina Wypych

Que jogo, torcida brasileira, que jogo!

Somente os péssimos entre os péssimos estavam em campo! As duas mais vergonhosas seleções brasileiras de todos os tempos finalmente se encontraram para ver qual era a pior.

De um lado, o time de 1990, a seleção dos prêmios fora de hora e dos empresários na concentração, aquela que primou pelo futebol feio e pelo estilo Dunga.

Do outro, o time de 2006, a seleção das vaidades pessoais, com seus gordos atacantes e seu futebol sem personalidade.

Nas arquibancadas, além dos torcedores (que reclamaram do preço do ingresso, pois receberam apenas 100 dólares cada um para assistir ao jogo) estavam as seleções de 74 e 66, que foram convidadas para assistir à final nas tribunas de honra. Um castigo merecido.

O primeiro momento de emoção foi quando tocou o Hino Nacional. O segundo também. A surpresa foi que os jogadores quase não erraram na letra, pois assim que o Hino começou a ser tocado, eles correram para um monitor da Globo na beira do gramado, a fim de seguir a letra que passava nas legendas. Um karaokê canarinho.

Curiosamente, durante a execução do Hino, Roberto Carlos cobriu com a mão o logo da Nike em sua camisa (exigência de seu patrocinador, as meias Lupo).

A partida teve um atraso de quinze  minutos porque Gornaldo pediu para mudar de time, pois o slogan da seleção de 90 era "Papa essa, Brasil!", e papar é com ele mesmo! Infelizmente, depois de consultadas as regras da Copa dos Pesadelos, não permitiram a mudança.

Como em todas as finais das Copas dos Pesadelos, o trio de arbitragem foi formado pelo matemático Armando Marques, pelo artilheiro José de Assis Aragão e pelo bicampeão Márcio Rezende de Freitas.

Antes do jogo começar, uma autêntica demonstração de fairplay: os dois técnicos apertaram as mãos e disseram em uníssono: "Que empate o melhor".

Mas chega de conversa e vamos ao jogo!

01': Na arquibancada, Leão reclama que a partida está muito ruim.

10': Cafu sobe para o ataque.

13': Robinho para Cicinho. Cicinho para Robinho. Robinho devolve no Cicinho. Cicinho retorna para Robinho. Robinho para Cicinho com efeito. Cicinho para Robinho com força. Partida emocionante de tênis de mesa no banco!

15': GOOOOOOOL! Branco cruza na pequena área, a bola bate em Montinho Artilheiro e encobre Dida.  1 a 0 para a seleção de 90. E olheiros do Real Madri pensam em contratar Montinho.

21': Dunga olha para as tribunas e lágrimas rolam de seus olhos quando ele vê seus ídolos dos tempos de carrinho de rolimã: Luiz Chevrolet e Ademir Karmann Guia.

23': Lúcio dribla um. Lúcio chapela o segundo. Lúcio dá uma canetinha no terceiro. Lúcio dá um lençol no quarto. Lúcio encobre o goleiro! Lúcio desliga o Playstation e volta para a partida.

25': Dunga chuta Ronaldo pensando que ele é a bola.

26': Dunga chuta Adriano pensando que ele é a bola.

27': O árbitro dá cartão amarelo para Dunga por ele ter chutado a bola. É que o juiz achou que se tratava de Ronaldo.

29': Falta (de classe) para o Brasil de 90. Branco solta a bomba, a bola vai direto na pança de Ronaldo que estava na barreira e volta com toda força. A bola atravessa todo o campo e entra no ângulo de Taffarel. GOOOOOOOL! 1 a 1.

32': Galvão Bueno termina de pronunciar a frase “Gol de Rrrrrrrrrrrronaldo!”

33': Muller prega em campo. Kaka reza.

34': Roberto Carlos sai de campo para atender o celular. É seu empresário dizendo que as meias Kendall querem cobrir a oferta da Lupo. Ele volta a campo de meia-calça por baixo do uniforme.

43' O árbitro encerra o primeiro tempo. "Pelo bem do espetáculo, dei acréscimo negativo!" A torcida aplaude a atitude do árbitro.

Os jogadores aproveitam o intervalo para tomar alguma coisa: Ronaldinho Gaúcho toma uma Pepsi, Cafu toma o remédio da pressão, Romário toma um preparado para a calvície e Roberto Carlos toma uma meia-de-seda.

46': O segundo tempo começa quente, com Müller provocando Ronaldo: "Eu perco gols, mas você não perde nem peso".

47'01”: Ronaldinho acerta a trave. 47'03”: Ronaldinho acerta a trave. 47'05”: Ronaldinho acerta a trave. 47´07”: Ronaldinho acerta a trave. 47’09” A trave quebra com tanta pancada e o jogo pára para que seja feita a substituição (da trave e de Ronaldinho).

50': Dunga tenta uma bela jogada, mas a bola enrosca em seu suspensório.

53': A seleção de 90 no ataque (de nervos). Dunga dá um carrinho em Ronaldo. Falta (de talento). Dunga sai lesionado. Ronaldo, rebocado.

54': Cafu toca na bola dentro da área, mas o juiz não marca o pênalti, por interpetar "bola-na-bengala" e não "bengala-na-bola".

57': Adriano plantado na área.

58': Um foguete de Rosenery atinge Dida na área. Júlio César protesta do banco de reservas: “Até tu, bruta?”.

59': Um casal de passarinho constrói seu ninho no ombro do Adriano.

62': Robinho dá pedaladas ergométricas em Alemão, ou seja, pedala, pedala e não sai do lugar.

66´: Kaká começa um papo religioso com Muller, e chegam à conclusão de que Silas com a 10 só pode mesmo ser coisa do Demo.

70': O jogo está tão monótono que Parreira decide pintar um quadro de Adriano e Ronaldo fazendo uma tabelinha.

72': Acaba a tinta de Parreira.

75': A torcida tenta deixar o Maracanã, mas é cercada pela polícia.

76': A torcida começa a fazer cordas com canudo de refrigerante para tentar escapar do estádio.

78': Ronaldo come a bola na partida. O gandula pega a bola reserva.

79': Zé Roberto cruza bola na área a meia-altura. Ronaldo se atira de baleia-jubarte, digo, de peixinho para tentar alcançar a bola, mas não consegue. Seu impacto no chão é tão impressionante que um setor da arquibancada desaba. Tremores de terra acontecem no Chile e no México, e um tsunami atinge a Nova Guiné.

80': Zé Roberto toca no ponto futuro para Ronaldo.

82': Ronaldo chega no ponto futuro, que agora já é passado.

83': Rosenery solta outro foguete. Ele dribla Lúcio, chapela Ronaldo, dá um autógrafo para Robinho, mas chuta para fora.

85': Cafu retorna daquela subida que deu aos 10´ da 1ª etapa.

88': Lance de conto de fadas! Dunga dribla os três porquinhos Adriano, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, depois dá um chapeuzinho vermelho em Roberto Carlos e chuta em direção ao gol de Dida, que estava meio adormecido. Quando a bola ia entrando, Branco de Neve salva em cima da linha e manda a bola para um reino muito, muito distante.

89': Lúcio dá uma bicuda que atravessa o campo. Seria uma defesa fácil para Taffarel, mas ele vê duas bolas vindo em sua direção e acaba abraçando Ronaldo enquanto a bola rola mansamente para dentro das redes. É GOOOOOOOOOOL! E da seleção de 2006! 2 a 1 para o time de Parreira.

90': O juiz apita fim de jogo. O time de Lazaroni ganha o título de pior seleção de todos os tempos. E Galvão Bueno encerra a transmissão gritando: “É treta!, é treta!”

Por Torero às 08h06

Considerações finais

Que maratona, caros torcedores, que maratona. Depois de cinco jogos inelembráveis, eis que finalmente terminou a Copa dos Pesadelos II. Ressalvo que ela foi uma idéia dos leitores, teve os times e a fórmula de disputa escolhidos pelos leitores, e a grande maioria dos textos também foi feita a partir de seus comentários.

Para este último texto foram enviados mais de 80 comentários, e alguns foram gigantescos. Eu, que pensava em finalizar um texto de 5 mil toques (os anteriores ficaram entre 3 e 4 mil), acabei fazendo um de seis mil e quinhentos. E muita piada boa ficou de fora. 

Talvez este seja um novo jeito de escrever, no qual o escritor seja mais um organizador de idéias variadas, de pessoas variadas. Coisas da internet.

Ah, e para esta final ganhamos até um símbolo, enviado pela leitora Regina Wypych.

Mas chega de elogios e vamos ao prêmio, que foi ganho por Amanda (uma mulher?!), que teve a idéia do lance do minuto 88, aquele do conto de fadas.

E a seleção de 1990 teve 66% dos 153 votos.

 

Por Torero às 08h04

24/02/2008

A Seleção de 2006 perde mais uma. E vamos à final!

Que jogo, torcida brasileira! Poucas vezes tivemos a chance de assistir a um combate desses. E ainda bem!

Antes de começar a partida, podia-se sentir a vibração das arquibancadas. Mas não é metáfora. É que Ronaldo e Adriano faziam polichinelos para se aquecer.

Enquanto isso, Galvão Bueno, na cabine da Globo, faz gargarejo para conseguir dizer o erres de Gilmarrr, Brrrito, Altairrr, Gérrrson, Garrrrrrincha, Ademirrr; Rrrogééério, Rrroberrrto Carrrlos, Gilberrrto, Zé Rrroberrrto, Rrricarrrdinho, Rrronaldinho, Rrrobinho, Rrronaldo e Parrrrrreira.

Mas vamos ao que interessa: os melhores lances do jogo!

0’: Ronaldo e Adriano ocupam todo o círculo central, impedindo o começo do jogo. Só quando se afastam é que o juiz apita o início da partida.

8’: Robinho e o menino Edu brincam de bolinha de gude atrás do gol do tio Gilmar, que ralha com eles.

12’: O preparador físico de 66 elogia Ronaldo: "ele seria um grande pesado no judô".

16’: Bellini perde a bola e "esfinge" uma contusão (argh!).

21’: Ronaldo corre atrás de Manga.

24’: Dida e Cafu conversam à sombra do travessão. Cafu diz que está cansado de futebol e que anda pensando em entrar no ramo imobiliário. Dida pergunta se o negócio é rentável e Cafu responde que é 100%. Os dois se empolgam e decidem fundar a "Cafú-Dida 100% Imóveis".

27’: Parreira manda Marcelinho Carioca, Gil Baiano e Marcelinho Paraíba se aquecerem. Depois vê que se confundiu e manda Pernambucano, Mineiro e Gaúcho se preparem para entrar.

30’: Mais dificuldade de identificação. Jairzinho olha para Ronaldinho Gaúcho, pensa que se trata de sua irmã, Luciana Mello, e grita: "Manaaaaa!”.

33’: Dida entra num "Gol" e se recusa a sair (lembram do comercial?). Sem alternativa, Parreira põe Ceni em seu lugar.

35’: Ronaldinho tenta um drible de "comercial da Nike". Brito rouba-lhe a bola. Ronaldinho, inconformado, pede para o juiz: "podemos gravar de novo"?

40’: Zito chuta a gol, a bola bate no nariz do Rogério Ceni e sai.

41’: Pelé chuta a gol, a bola bate no ego do Rogério Ceni e sai.

43’: Lance curioso: Garrincha, sempre adepto do fair play, ficou esperando o Roberto Carlos ajeitar o meião para fazer o drible.

45’: Termina o primeiro tempo, tão parado que Ronaldo e Adriano foram os que mais correram.

Intervalo: Na saída para os vestiários, Roberto Carlos diz a uma emissora que há um Rei e um Imperador em campo, mas quem entende de coroa é ele.

46’: Djalma Santos vai apoiar o ataque e não volta mais.

47’: Cafu nem vai.

50’: Tostão dá uma paulistinha em Mineiro, Pernambucano o xinga e Gaúcho quer brigar, mas Paraná acalma a turma e termina a aula de geografia.

54’: GOOOOOOOOL. E em jogada diminutiva: Jairzinho partiu com a bola, mas foi desarmado por Juninho, que tocou para Ronaldinho, que tabelou com Robinho, que enfiou para o Gordinho, que, na saída de Manga, tocou no cantinho.

57’: Ronaldo corre atrás de Lima.

60’: GOOOOOOOL! Garrincha, de bengala, e Pelé, de muletas, tabelam com facilidade pelo meio da defesa de 2006 e empatam a partida.

69’: Tragédia em campo. Manga sai para cortar o cruzamento e acaba virando suco após dividida com Ronaldo e Adriano.

70’: Vendo que a seleção de 2006 não ataca mesmo, Feola faz uma troca frutífera: tira Manga e coloca Lima.

74’: GOOOOOOOL! De Gerson, num chute de folha de tabaco seca que acende a chama da torcida. O Brasil de 66 vira o jogo.

83’: Ronaldo é substituído. Mas arranca uma uva de Parreira antes de ir para o banco.

90’: Termina o jogo. A seleção de 2006 perde mais uma. Como consolo, Ronaldo é convocado para a Copa do Mundo de Sumô. E, como o futebol serve de inspiração para as artes, Tony Belloto vê Bellini trocando de camisa com Cafu e tem a idéia de escrever "Bellini e a Múmia"

Para encerrar, vamos às notas dos jogadores da seleção derrotada:


Dida: Nota 2. Teve atuação bem fu...

Cafú: Nota 3. Performance bem ...dida.

Lúcio: Confundiu matar a jogada com matar o jogador. Mas parece que Pelé vai sobreviver. Nota 4.

Juan: Nota-se que não tem o Dom. 3.

Roberto Carlos: Nota meia. Digo, nota 0,5.

Zé Roberto: Nota 8 pelo belo nome.

Ricardinho, Ronaldinho e Robinho: Unzinho.

Kaká: Uma nota alta (para a Renascer).

Ronaldo: 100. Quilos, não a nota.

Parreira: Ninguém nota.

(Obs.: A Seleção de 2006 foi derrotada com 52,94% dos 221 votos.)

Com este resultado, as seleções de 2006 e 1990 passam a ter seis pontos negativos e não podem ser mais alcançadas pelas seleções de 1966 e 1974. Sendo assim, deixemos de delongas e vamos diretamente à final. Isso mesmo, na quinta-feira teremos a grande, a decisiva, a finalíssima final entre as equipes de 1990 e 2006!

Qual a nossa pior seleção de todos os tempos? E o pior jogador? E o pior técnico?

Vote aqui ao lado e mande seu comentário. Diga o que acontece no aquecimento, quais os principais lances do jogo, o que falam os jogadores na entrevista coletiva.

Enfim, mande suas sugestões.

E, como essa é uma Copa de Pesadelos, o autor de uma das frases utilizadas no texto de quinta ainda vou dar um livro meu.

Mãos à obra. Aproveite que seu chefe não está vendo, pare de trabalhar e mande seu comentário!

Por Torero às 23h11

Dois enganos

Por estes dias fui ver dois filmes. De um esperava muito e saí decepcionado. De outro não esperava nada e saí contente.

O primeiro é "Sangue negro", que conta a história de um explorador de petróleo, Daniel Plainview.

Pensei que veria um épico interessante, com investigação psicológica densa e grandes atores. Realmente vi os grandes atores. Daniel Day-Lewis e Paul Dano estão muito bem. Mas a história não é tão boa quanto eu esperava. A tal densidade psicológica não apareceu. Planos longos, cenas escuras e músicas estranhas são bons truques, mas não garantem que o personagem seja bem construído. Tanto que Daniel Plainview dá um salto para a maldade que não é bem aceito pelo espectador.

Talvez por ter sido adaptado de um livro, que permite uma história menos linear, com mais subtramas e linhas narrativas (ou talvez nós é que estejamos mais acostumados a histórias lineares no cinema), o filme acaba se espalhando em algumas histórias. Há o filho, o pastor, a exploração de petróleo, mas nenhuma destas tramas revela-se como a principal. Talvez, se o conflito fosse centralizado na oposição entre o explorador de petróleo e o pastor, o filme fluísse melhor, pois teríamos onde nos agarrar.

Não é um filme ruim, mas você não sai dos 158 minutos satisfeito. Mal comparando, é como aqueles jogadores que pensam que são melhores do que são. Ou como aquelas refeições gigantescas mas não tão saborosas.

Por outro lado, Juno é como um almoço leve mas saboroso, como um daqueles jogadores que vai para o seu time como contrapeso de alguma transação e acaba sendo essencial para o time.

O tema do filme é a gravidez de uma adolescente, coisa que normalmente não me interessaria em nada. Mas é tratado de um jeito tão inteligente, ágil e sem pieguice, que acabei gostando, e muito, de Juno.

Há outras curiosidades extra-filme, como o fato de a roteirista Diablo Cody ter trabalhado como striper (para ir ao blog dela, clique aqui), mas isso não importa. O que vale é que um bom filme, com o frescor dos melhores independentes.

Por Torero às 06h56

23/02/2008

Incompetência?

A Nike é a nova marca das camisas da seleção francesa de futebol, que pagará à Federação Francesa de Futebol US$ 63,3 milhões (R$ 107,6 milhões) a cada ano. Com isso a França passa a ser a seleção mais bem paga do mundo. No contrato anterior, com a Adidas, a França ganhava US$ 14,8 milhões (R$ 25,2 milhões) anuais. Para aumentar o preço, a Federação Francesa fez uma concorrência entre NIke, Adidas e Airness.

A segunda seleção mais bem paga do mundo é a da Inglaterra, que ganha US$ 44,5 milhões (R$ 75,7 milhões) anuais da Umbro.

O Brasil recebe da Nike R$12 milhões (R$ 20,4 milhões) anuais. Pouco mais que México (Adidas): US$ 11 milhões (R$ 18,7 milhões).

Incompetência?

Por Torero às 06h27

21/02/2008

E a seleção de 90 continua imbatível. Não bate em ninguém.

Que jogo, senhoras e senhores! Que jogo, leitoras e leitores!

Mais uma vez tivemos uma partida cheia de emoções (raiva, frustração, desespero...).

Só o que posso dizer é que a disputa entre as seleções de 74 e 90 vai entrar para os anais dos torcedores brasileiros.

Infelizmente, mais uma vez tivemos atrasos para o início da partida.

Desta vez, o maior problema foi com Lazzaroni, que tentava convencer o árbitro de que ele era o técnico da seleção. Mas o árbitro apenas lhe respondia: "Se você é o técnico da seleção brasileira, eu sou o papa" (lembram do comercial?).

Desfeito o entrevero, chegamos ao nobre momento cívico de cantar o Hino Nacional. Porém, os que tentavam cantar erravam na letra. E os que apenas mexiam a boca erravam na dublagem.

Antes do jogo começar, um momento de confraternização. Dunga dá as mãos para Nelinho, Jorginho, Mazinho, Jairzinho, Leivinha e Mirandinha, e juntos cantam: “Eu vou, eu vou, para a Copa agora eu vou...”

Um momento curioso foi quando Valdomiro (ou Waldomiro) foi assinar a súmula. Na dúvida sobre a grafia correta de seu nome, ele morde a caneta, olha para o céu, pensa e, enfim, assina: VWaldomiro. A Volkswagen imediatamente o contrata para garoto-propaganda,

Quando o jogo está para começar, Zagallo resolve colocar Ademir da Guia para jogar ao lado de Paulo César Caju, pois juntos eles somam 26 letras. Mas vamos ao jogo!

0’: O pontapé inicial pertence à Seleção de 90, que estava sendo observada por empresários do Circo de Soleil. Eles pensavam em contratar alguns jogadores para um número com bolas. Porém, depois de alguns segundos de jogo, perceberam que eles e as bolas não combinavam.

7’: Primeiro lance duro: Luís Pereira, o Chevrolet, sobe em da Guia e recebe uma multa de trânsito.

10’: Branco toma água batizada.

15’: Dunga erra uma jogada e fica Zangado.

22’: Branco toma mais água.

25’: Dunga sofre uma entrada dura e se faz de Dengoso.

28’: Frei Mauro Galvão distribui pílulas de papel aos jogadores. Na verdade eram pedaços das folhas que estavam na prancheta de Lazaroni.

30’: Dunga acerta uma jogada e é chamado de Mestre.

32’: O jogo está tão monótono que Leão e Paulo César Caju conversam sobre tintura para cabelos.

33’: Branco toma mais água.

40’: Dunga espirra e diz: Atchim!

44’: Branco toma mais água. Percebe que está viciado e diz que vai entrar para a AAA, Associação dos Aguólatras Anônimos.

45’: Leão reclama que até agora não teve motivo para reclamar. Zagallo fica chateado e tira Leão, colocando Valdir Peres. Então Leão, aliviado, reclama por ser substituído.

Intervalo: Dunga tira uma Soneca. Enquanto isso, a Volkwagen aproveita a parada para fazer um comercial com VWaldomiro, que deveria falar "O Fusca é forte". Mas VWaldomiro só consegue falar "O Fusca é Ford”, com o que é despedido e se forde.

46’: Branco sobe ao ataque com a bola e toma pontapés de Marinho e Mostarda. Fica todo roxo e diz que nunca mais jogará Detetive com eles.

47’: Branco cobra a falta que sofreu. A bola passe rente à cabeça de Waldir Perez e arranca-lhe uns fios de cabelo, dando origem à careca mais famosa entre os goleiros brasileiros. A bola sai por cima do gol e é escanteio. Na cobrança, Bismarck leva cartão amarelo, pois ficou 5 minutos ajeitando o topete (ele sempre dava um tapa no topete antes de cobrar o tiro de canto).

55’: Dunga dá um carrinho em Chevrolet. O seguro dá perda total e a maca-guincho retira Chevrolet.

64. GOOOOOOOL! Nova falta para a Seleção de 90. Branco bate e lá vem um foguete! Não de Branco, de Rosemeiry. Valdir Perez é atingido. Branco aproveita e marca. 1 a 0 para a Seleção de 90.

67’: GOOOOOOOOL! O empate veio rápido. Jairzinho avançou pela direita e Frei Mauro Galvão Bueno gritou "Vai que é tua, Taffarel!". Taffarel foi e Jairzinho mandou a bola por cima, dando-lhe um Balão Mágico. 1 a 1.

68’: Zagallo tira Ademir e Caju e coloca Leivinha e Dirceu, que dão treze letras.

70’: Falta para a Seleção de 74. Nelinho solta canhão e a bola vai para fora do estádio.

72’: Em nova falta para a Seleção de 74, Rivellino solta a patada atômica e a bola vai para fora do estádio.

77’: Mais uma falta para a Seleção de 74, mas o juiz não marca porque é a última bola.

79’: GOOOOOOOOL! Rivellino depois de passar por toda a defesa (Alemão deixa a marcação para Ricardo Gomes, que deixa para o Rocha, que deixa para o Taffarel) e marca. 2 a 1 para a Seleção de 74.

86’: Branco oferece água batizada para César, que a bebe e pensa que está maluco ao ver Silas com a camisa de Pelé.

89’: Frei Mauro Galvão reza para que Deus opere o milagre do término do jogo.

90’: Para alívio de todos, o juiz apita o fim do jogo. A Seleção de 90 ganha mais três pontos negativos e está na liderança isolada da Copa dos Pesadelos II. Dunga fica Feliz.

Após o término da partida, Zagallo corre desesperado atrás dos jogadores da Seleção de 1990 para a já famosa troca de camisas, pois no futuro quer leiloá-la em Londres.

E, depois de ver a performance dos jogadores da seleção de 90, os empresários do Circo de Soleil resolvem contratá-los para uma apresentação de pernas-de-pau.


PS: A seleção de 90 recebeu 78% dos 142 votos.

Por Torero às 07h06

2006 x 1966

Muito bem, caros leitores-escritores, vamos a mais um jogo desta Copa dos Pesadelos II, a Missão impossível. Agora faltam poucos, muito poucos, muito poucos mesmo.

Desta vez, teremos um confronto separado por 40 anos: a Seleção de 1966, eliminada na primeira fase, enfrentará a de 2006, que caiu frente à França. Quem poderá menos, a seleção confusa de 66 ou a apática de 06?

Vote na pesquisa ao lado, escreva seu comentário, descreva uma jogada, diga o que só você viu (ou melhor, imaginou).

Para facilitar, coloco aqui os jogadores convocados:

1966:
Goleiros: Gilmar (que nesta Copa até foi substituído por Manga) e Manga (que foi um grande goleiro, mas nesta Copa foi um abacaxi).
Laterais: Djalma Santos (um senhor de 37 anos), Rildo (que nesta Copa foi chamado de Horrildo),  e os pouco lembrados Fidélis e Paulo Henrique.
Zagueiros: Bellini (que depois virou detetive), Brito, o britadeira, Altair e Orlando Peçanha.
Meias: Gérson Marlboro, Lima da Pérsia, Denílson (não é aquele) e Zito (é aquele).
Atacantes: Edson (vulgo Pelé), Manoel Francisco (vulgo Garrincha), Eduardo (vulgo Tostão), Jonas, (vulgo Edu), Ademir (vulgo Paraná), Silva (vulgo Silva), Jairzinho (sem Simony e Toby) e Alcindo.
Técnico: Feola


2006:
Goleiros: O calado Dida, o falante Rogério Ceni e Júlio, ave!, César.
Laterais: O vovô Roberto Carlos, o bisavô Cafu, Cicinho e Gilberto.
Zagueiros: Lúcio, Luisão, Juan e Cris Credo.
Meio-campo: Émerson (não é o Fittipaldi), Zé Roberto (belo nome!), Gilberto Silva, Ricardinho, Mineiro (que é gaúcho e jogava no São Paulo), o renascido Kaká, e os estaduais Ronaldinho Gaúcho e Juninho Pernambucano.
Atacantes: Fred (não é o Flintstone), Robinho Pererê, e os pesos-pesados  Ronaldo e Adriano.
Técnico: Parreira.
 
PS: Alguém se aventura a dar nota e fazer comentário para os jogadores?

Por Torero às 07h04

19/02/2008

Eu mais 151

Fui assistir, debaixo de chuva, ao jogo de menor público deste Campeonato Paulista. Uolistas e folhistas podem ler o texto clicndo aqui

Por Torero às 16h38

18/02/2008

Zagallo versus Parreira

Que jogo, torcida brasileira, que jogo!

Ops!, errei a pontuação. Vou começar de novo:

Que jogo..., torcida brasileira, que jogo...

A partida começou com um atraso de mais de uma hora.

Primeiro, os dois Zagallos, o técnico de 74 e o assistente de 06, queriam jogar com a camisa amarela (13 letras), mas o árbitro não permitiu.

No par ou ímpar para ver quem tinha o direito de usar o manto canarinho, ganhou a de 06, mas, como a camisa de Ronaldinho Gaúcho teimava em amarelar, trocaram-se as camisas.

Um segundo atraso aconteceu porque o juiz viu que a seleção de 2006 estava de salto alto e exigiu que todos colocassem chuteiras.

E houve mais um atraso porque, quando os flashes dos fotógrafos dispararam, Leão tirou a roupa e posou de cuecas. Até que o convencessem a colocar o uniforme foram mais quinze minutos.

Finalmente, a execução do hino nacional. Leão reclama com o maestro, dizendo que a banda está desafinada, e Juninho Pernambucano chora. É que Ronaldo, com 115 kg, está pisando no seu pé.

No aquecimento, a seleção de 06 faz um triathlon: Robinho pedala, Kaká corre e Ronaldinho Gaúcho... nada.

Na última hora, Parreira pensa em escalar Ronaldo como goleiro, pois gordo como estava, fecharia qualquer gol. Porém, como Ronaldo já está no meio do campo e demoraria muito para chegar ao gol, Parreira desiste da mudança.

0’: O Brasil de 06 ganha no cara e coroa. Leão reclama da moeda do juiz.

0’1”: Começa o jogo, e Leão reclama do som do apito do árbitro.

1’: Leão olha para Ronaldo e Adriano, e reclama que há 3 bolas em campo.

2’: Leão reclama consigo mesmo, acusando-se de reclamar muito. O psicólogo da seleção entra em campo e faz um atendimento de urgência.

7’: Jogada diminutiva: Juninho inverte para Ronaldinho, que passa para Ricardinho que manda para Robinho, que perde para Nelinho, que toca Marinho, que lança Jairzinho, que dribla Huguinho, Zezinho e Luizinho, mas chuta para fora.

12’: No centro do campo, Rivellino tenta aplicar um drible da vaca em Ronaldo mas, devido à enorme circunferência do fofômeno, a bola sai pela lateral.

17’: Mineiro, Pernambucano e Gaúcho trocam passes interestaduais.

18’: Caju e Cafu aliteram na lateral.

22’: Ronaldo persegue Mostarda.

24’: Ronaldo persegue Caju.

26’: Ronaldo persegue Carpeggiani, pensando que era um bife parmegiana.

28’: Ronaldo persegue Piazza, pensando que era pizza.

30’: Ronaldo é perseguido pelo pipoqueiro, pois comeu todo seu estoque e não pagou.

44’: O campo é invadido. Mas não são torcedores. São integrantes do Movimento dos Sem-Terra que invadiram as laterais da seleção de 2006 alegando que tratava-se de terra improdutiva.

45’: No intervalo César Maluco elogia Parreira "É preciso ser muito maluco para escalar o Ronaldo desse tamanho".

46’: No início do segundo tempo dão por falta de Adriano, Ronaldo Fofômeno e Robinho, todos levados para a balada por Paulo César Caju.

56’: De tanto girar, Ricardinho e Dirceu colidem no meio de campo.

63’: Cafu vai para o ataque. E volta para a defesa de carona no maca-móvel.

71’: Rivelino bate falta. Jairzinho se abaixa. Roberto Carlos se abaixa. Dida se abaixa. Todo mundo se abaixa que ninguém é besta. Mas a bola vai por cima do travessão.

77’: GOOOOOOL! Quando tudo parece se encaminhar para um zero a zero categórico, um tiro de meta batido pelo Nelinho engana o Dida e é gol de 74.

86’: GOOOOOOOL! Lucio para Zé Roberto, Zé Roberto para Juan, Juan para Lúcio, Lúcio para Roberto Carlos, que chuta. A bola bate em Kaká, depois em Ronaldinho, em Adriano, na pança do Ronaldo e entra. É o primeiro gol de pebolim da história das Copas. 1 a 1.

89’: Roberto Carlos, o lateral meia-boca, deixa de cuidar do meia-esquerda Rivellino e passa a cuidar da sua meia direita. Rivelino se aproveita e manda uma meia-bicicleta da meia-cancha. A bola descreve uma meia-lua e é GOOOOOOOOOL!

90’: Termina o jogo. O Brasil de 74 vence por 2 a 1 e a seleção de 06 conquista os três pontos negativos.

Na saída de campo, os dois Zagallos gritam para a torcida: “Vocês vão ter que nos engolir!” Ronaldo escuta, diz que engolir é com ele mesmo e sai correndo atrás dos dois.

PS: Houve 208 votos. 54,3% foram para a derrota da seleção de 06; 23,6% para o empate e 22,12% para a derrota da seleção de 74.

PS2: Abaixo, o convite para você comentar o próximo jogo.

Por Torero às 07h11

Próximo jogo: 74 x 90


Caros leitores-escritores, agora as seleções de 2006 e 1990 dividem a liderança do Pesadelo das Copas, cada uma com três pontos negativos.

Nesta quinta-feira, não perca a gloriosa lide entre as seleções de 74 x 90.

Quem vencerá? Ou melhor, quem perderá? Zagallo ou Lazzaroni? Quem dará o nó tático em si mesmo?

Mande aí (ou melhor, aqui) seu comentário, o lance que só você viu, as notas dos jogadores, as grandes entrevistas e as inesquecíveis jogadas.

Para lembrar, as seleções são essas aqui:

1974:

Goleiros: o animal Leão, Renato (não é o Gaúcho) e Valdir Peres (naquele tempo, ainda com algum cabelo).

Laterais: Zé Maria (el bigodón), Nelinho (o da bomba), Marco Antônio e Marinho Chagas (o loiro, não confundir com o moreno).

Zagueiros: Luís Pereira (o Chevrolet, já quase sem capota), Marinho Peres (o moreno, não confundir com o loiro) e Alfredo Mostarda é Helmanns.

Meias: os italianos Carpeggiani, Piazza e Rivellino, monsieur Paulo César Caju e Ademir da Guia (o ex-vereador).

Atacantes: Jairzinho (o jogador, não o do Balão Mágico), Valdomiro (com V ou W?), o azarado Mirandinha, o maratonista Dirceu, Edu (já com certa barriguinha), Leivinha (atual Leivão) e César Maluco Beleza.

Técnico: Mário L. Zagallo (o treze letras).


1990:

Goleiros: Vai que é sua, Taffarel, Flor de Acácio, Zé Mané Carlos.

Laterais: Branco, aquele que “devia receber cartão amarelo pelo olhar”, e os inhos Jorginho e Mazinho.

Zagueiros: Ricardos Gomes e Rocha, Mozer, Aldair e Frei Mauro Galvão.

Meias: o zangado Dunga, o argentino Alemão, von Bismarck, onde está Valdo, Silas (o camisa 10, quem diria?) e o titã Tita.

Atacantes: o cabeludo Careca, o careca Romário, Müller Bola Fora, Bebeto Chorão e Renato Carioca, digo, Gaúcho.

Técnico (?): Sebastião Lazaroni

 

Por Torero às 07h09

17/02/2008

E agora, Teixeira?

Segundo o jornal Le Parisien, citado pelo Lance!, o cirurgião Eric Rolland, que operou Ronaldo, colocou entre os motivos para a contusão de Ronaldo o fato de ele ter "um modo de vida contrário ao de um atleta". Se entendi bem, disse que Ronaldo é um baladeiro.

Ricardo Teixeira tomará alguma providencia frente a esta ofensa a um campeão mundial? Ou só Bernardo Santi (ler post abaixo) será sacrificado?

Em tempo: os médicos do PSV não contestaram a afirmação de Santi.

Por Torero às 11h37

16/02/2008

Teixeirada

E Ricardo Teixeira, o presidente da CBF, fez mais uma bobagem. Na verdade, mais que bobagem. Um ato de autoritarismo burro.

RT Demitiu o médico Bernardo Santi porque ele disse o que todos pensam: ou seja, que Ronaldo, em seus tempos de PSV, teve uma suplementação química que incluía anabolizantes.

Quem lembra do atacante nos tempos do Cruzeiro sabe que ele teve um crescimento abrupto, que realmente não parece nada natural.

E, alegando que não se trata assim um campeão do mundo, Ricardo Teixeira demitiu o médico. É o mesmo Ricardo Teixeira que teve problemas na alfândega brasileira quando chegou da Copa dos EUA. Afinal, não se devia tratar campeões do mundo dressa maneira. Ou seja, com honestidade.

Que saudades Ricardo teixeira deve ter da censura...

Por Torero às 09h26

14/02/2008

A primeira grande derrota no Pesadelo das Copas

A abertura do nosso inglório torneio foi inacreditável! De tão ruim.

 

A seleção de 66 entrou vestindo o uniforme amarelo, enquanto a de 90 veio de azul (Dunga vestia uma versão com suspensórios).

 

Antes mesmo de o jogo começar, um problema para Feola: o banco de reservas só tem 10 cadeiras e ele tem 30 suplentes. No começo, o jeito foi ter que colocar alguns jogadores no colo dos outros e uns sentados no chão. Depois, devido à falta de público, a organização cedeu parte da numerada ao time.

 

Tocam o hino nacional duas vezes e é dado o chute inicial. Por Dunga, em Pelé.

 

1’: Os três zagueiros tiram dois ou um para ver quem marca Pelé. Ricardo Gomes ganha. E chora.

 

5’: Feola cochila.

 

10’: A equipe de 90 passa a discutir entre si o valor do prêmio a ser recebido e esquece do jogo.

 

12’: Feola ronca.

 

22’: Branco oferece a Garrincha uma garrafa d'água batizada, mas o efeito é inverso: Mané sai driblando todo mundo a torto e a direito, e só é parado por um carrinho de Dunga (no caso um Gordini).

 

25’: Feola baba.

 

37’: GOOOOL! Garrincha cruza a bola rasteira para ninguém, mas Taffarel coloca pra dentro, de calcanhar, como fez contra a Bolívia em 93.

 

38’: O grito de gol acorda Feola.

 

39’: Teixeira diz para Havelange: "Você não gosta da minha seleção, mas a sua filha gosta".

 

40’: Feola volta a dormir.

 

41’: Dunga diz que os portugueses são uns maricas, pois não marcaram Pelé como se deve. E atropela o camisa 10. Com o Gordini.

 

42’: O jogo está tão enfadonho que Gérson fuma, Garrincha escuta os pios dos passarinhos e Tostão lê um livro de Fernando Pessoa.

 

50’: Manga e Lima são espremidos por Dunga.

 

52’: Muller perde um gol embaixo da trave.

 

53’: Romário e Renato Gaúcho jogam futevôlei atrás do gol de Taffarel.

 

56’: Edu, com 16 anos, se aquece, mas Zito o manda de volta para o banco (da escola).

 

57’: Garrincha, estropiado, mancando e velho, passa por Aldair, Galvão, Mozer, dois Ricardos e marca. Mas o último toque foi da bengala e o tento é anulado

 

62’: Muller perde um gol embaixo da trave.

 

63’: Branco bate falta, a barreira sai da frente com medo, mas a bola explode no poste (explode mesmo, substituição da bola. E no poste mesmo, fora do estádio).

 

54’: Muller perde um gol embaixo da trave.

 

67’: GOOOOOL! A fogueteira Rosimeiry acerta Gilmar com um rojão, deixando o gol livre para Bebeto empatar.

 

77’: Dunga tenta  fazer falta em Gérson, mas este escapa da canelada e leva vantagem no lance. Porém, em vez de seguir na jogada, tira um cigarro do bolso, dá uma baforada e diz que o importante é levar vantagem em tudo, certo?

 

88’: GOOOOOL! Pelé, mesmo machucado, pega uma bola no meio de campo e passa por Alemão (que evita fazer a falta), dribla Branco, deixa Valdo no chão e, antes de ser derrubado por Dunga, põe Tostão na cara de Taffarel. Galvão Bueno grita “Sai que é sua, Taffarel!" O goleiro sai e Tostão toca por cima. 2 a 1. O Brasil de 66 volta ficar na frente.

 

90’: O árbitro encerra a partida sem um segundo de acréscimo. Por pena dos torcedores. Feola acorda e pergunta. “Quanto foi, quanto foi?”

 

Na saída de campo, perguntado sobre o que achou de jogar contra o Brasil, Garrincha responde: Era o Brasil? Pensei que fosse a Alemanha. Tinha, Mozer, Muller, Bismarck, Alemão...

 

 

(Com 77,42% dos 155 votos, a Seleção de 1990 perde o jogo e ganha os três pontos negativos, saindo na frente no Pesadelo das Copas)

 

(Abaixo, a prévia do jogo entre as seleções de 2006 e 1974, um inolvidável duelo entre Parreira e Zagallo)

Por Torero às 08h39

A segunda partida: 74 x 06

Vamos ao segundo jogo do Pesadelo das Copas, agora entre as seleções de 1974 e 2006.

A de 74, para quem não lembra (como eu), teve os seguintes convocados:

Goleiros: Leão (25, Palmeiras), Renato (29, Flamengo), Valdir Peres (23, São Paulo)
Laterais: Zé Maria (25, Corinthians), Marco Antônio (23, Fluminense), Nelinho (24, Cruzeiro), Marinho Chagas (22, Botafogo).
Zagueiros: Luís Pereira (25, Palmeiras), Marinho Peres (27, Santos), Alfredo Mostarda (27, Palmeiras).
Meias: Carpeggiani (25, Internacional), Piazza (31, Cruzeiro), Rivellino (28,
Corinthians), Paulo César Caju (25, Flamengo), Ademir da Guia (32, Palmeiras)
Atacantes: Jairzinho (30, Botafogo), Valdomiro (28, Internacional), Leivinha (24, Palmeiras), César Maluco (29, Palmeiras), Mirandinha (22, São Paulo), Edu (24, Santos), Dirceu (22, Botafogo)
Técnico: Mário Jorge Lobo Zagallo

Uma curiosidade: César Maluco honrou o apelido ao fazer uma brincadeira com a delegação do Zaire. Quando os jogadores africanos estavam descendo a escada rolante do estádio, o brasileiro apertou o botão que invertia para subida o sentido, quase provocando um acidente.


Já os de 2006 são fáceis de lembrar.

Goleiros: Dida (32, Milan), Rogério Ceni (33, São Paulo), Júlio César (26, Inter de Milão)
Laterais: Cafu (36, Milan), Cicinho (26, Real Madrid), Roberto Carlos (33, Real Madrid) e Gilberto (30, Hertha Berlim).
Zagueiros: Lúcio (28, Bayern), Luisão (25, Benfica), Juan (27, Bayer Leverkusen), Cris (29, Lyon).
Meio-campo: Émerson (30, Juventus), Zé Roberto (32, Bayern), Gilberto Silva (29, Arsenal), Mineiro (30, São Paulo), Kaká (24, Milan), Ronaldinho Gaúcho (26, Barcelona), Juninho Pernambucano (31, Lyon), Ricardinho (30, Corinthians).
Atacantes: Ronaldo (30, Real Madrid), Adriano (24, Inter de Milão), Fred (22, Lyon), Robinho (22, Santos, digo, Real Madrid).
Técnico: Parreira.
 
Vote aqui ao lado e mande os melhores lances do jogo, os grandes trechos das entrevistas pós-partida e as notas dos jogadores. Na segunda, publico um resumo da partida (se é que alguém vai aguentar ler tanta tristeza)

Por Torero às 08h38

11/02/2008

Finalmente, vamos ao primeiro jogo!

Muito bem, eis que vamos começar a nossa “Copa dos Pesadelos”, digo o nosso “Pesadelo das Copas”. O glorioso torneio será disputado entre as seleções de 66, 74, 90 e 2006. E, seguindo a sugestão dos leitores e o modelo da Copa dos Sonhos do Juca, todos jogarão contra todos. Sim, teremos um campeonato de pontos corridos. Serão seis jogos inesquecíveis. Infelzimente.

A partida de abertura será entre as seleções de 1966 e 1990. Os leitores podem votar aqui ao lado em quem perde a grande partida (a derrota vale três pontos, o empate, 1, e a vitória, zero). E podem mandar sugestões de lances, as notas dos jogadores, o clima do jogo, etc... Enfim, sonhe, ou pesadeleie, com o jogo, e mande seu comentário. A partir dos vossos comentários e votos é que farei o texto de quinta-feira, com o resultado do jogo e os melhores lances. 

Aqui vão alguns dados para refrescar a memória do leitor sobre estas seleções:

A de 66 usou mais de quarenta jogadores na fase de preparação. Além disso, passou por cinco cidades diferentes antes de viajar para a Europa (Lambari, Caxambu, Teresópolis, Três Rios e Niterói).

Outra novidade que não deu certo foi o preparador físico. Saiu Paulo Amaral e entrou o professor de judô Rudolf Hermanny, cujos métodos não haviam sido testados no futebol. Resultado: o time brasileiro "morria" nos 20 minutos finais das partidas. Mas, se houvesse uma briga em campo, o time iria muito bem.

A equipe tinha jogadores ainda muito jovens (como Edu, Tostão e Jairzinho) e outros já um tanto maduros demais, (como Djalma Santos, 37, Bellini e Garrincha, que nesta época já estava no Corinthians).

Resultado, uma equipe instável e sem padrão tático.

Nada menos que 20 dos 22 jogadores entraram em campo pela seleção, numa época em que não eram permitidas substituições. Apenas Jairzinho e Lima disputaram os três jogos do Brasil na Inglaterra.

Eis os convocados:

Goleiros: O já veterano Gilmar (35, Santos), o pouco frutífero Manga (29, Botafogo).
Laterais: O senhor Djalma Santos (37, Palmeiras), o jovem Fidélis (22, Bangu), Paulo Henrique (23, Flamengo) e Rildo (24, Botafogo).
Zagueiros: Bellini, que foi capitão em 58 e reserva em 62, (36, São Paulo), Brito (26, Vasco), Altair (28, Fluminense), Orlando (30, Santos).
Meias: Gérson (25, Botafogo), Denílson (23, Fluminense), Lima (24, Santos) e Zito (33, Santos).
Atacantes: Pelé (25, Santos), Garrincha (32, Corinthians), Jairzinho (21, Botafogo), Alcindo (21, Grêmio), Silva (26, Flamengo), Tostão (19, Cruzeiro), Paraná (24, São Paulo), Edu (16, Santos).
Técnico: Vicente Feola


Já a seleção de 90 era a seguinte:

Goleiros: Taffarel (24, Internacional), Acácio (31, Vasco), Zé Carlos (28, Flamengo)
Laterais: Jorginho (25, Bayer Leverk. (ALE)), Branco (26, Genoa (ITA)), Mazinho (24, Vasco).
Zagueiros: Ricardo Gomes (25, Benfica (POR)), Mozer (29, Olympique (FRA)), Aldair (24, Benfica (POR)), Ricardo Rocha (27, São Paulo), Mauro Galvão (28, Botafogo)
Meias: Dunga (26, Fiorentina (ITA)), Alemão (28, Napoli (ITA)), Bismarck (20, Vasco), Valdo (26, Benfica (POR)), Silas (24, Sporting (POR)), Tita (22, Vasco).
Atacantes: Careca (29, Napoli (ITA)), Romário (24, PSV (HOL)), Muller (24, Torino (ITA)), Bebeto (26, Vasco), Renato Gaúcho (27, Flamengo).
Técnico: Sebastião Lazaroni
Fogueteira: Rosimeiry
Frase: “Foi a minha primeira e última Copa" (Romário, na chegada ao Brasil após a eliminação).

Só para lembrar, em 90, pela primeira vez os familiares dos jogadores tiveram livre acesso à concentração da seleção. O hotel brasileiro transformou-se em uma passarela de parentes, convidados, empresários e dirigentes. Já a imprensa esportiva, boicotada por criticar a equipe, não podia entrar na concentração.

Em campo, Lazaroni tentou inovar - lançou Mauro Galvão como líbero, transformou os laterais em alas e adotou um esquema europeu. Você deve lembrar do resultado.

Ah, e quase ia esquecendo: a Copa do Mundo de 1990 foi a primeira de Ricardo Teixeira na presidência da CBF.

Por Torero às 11h59

08/02/2008

1990: Assim falou Zé Cabala

Sou um anão.

Um anão trapezista.

Meu nome é Gulliver. Trabalhei a vida toda num circo, o Grande Circo Grushenko. Apesar do nome, ele não era russo nem grande. Era um circo tão pobre que sua mulher barbada só tinha buço.

Em maio de 1990 fazíamos apresentações de fim-de-semana em Paracambi. Raramente nosso público passava de uma dúzia de pessoas.

Meu melhor amigo era o homem-bala, um cara alto, magro e que adorava livros de auto-ajuda. Seu olhar era meio perdido e um pouco revirado, talvez em conseqüência das muitas cabeçadas que dava. Chamava-se Zeca Bala e, por causa de suas aterrisagens infelizes, tinha sempre a cabeça cheia de ataduras.

Certo dia eu estava fazendo um curativo em meu cotovelo (os anões têm certa dificuldade para alcançar a barra do trapézio), quando levei um susto: limusines chegavam uma atrás da outra e paravam na entrada do circo. Assim que a poeira assentou, saiu de dentro de uma delas um sujeito de terno e óculos escuros que me olhou de baixo a baixo e disse:

— Queremos alugar essa espelunca para uma reunião da CBF.

Fui correndo falar com o dono do circo, o seu Cândido, um ex-militar que tinha trocado a caserna pelo picadeiro. Ele, mais do que depressa, acertou-se com o chefe dos engravatados. Com aquele dinheiro nossos salários foram postos em dia e todos ficamos muito felizes. Os palhaços chegaram a chorar.

Como fui o garçom da reunião, pude ouvir a conversa. Os dirigentes diziam que a Copa da Itália deveria ser a redenção do nosso futebol, que em 1982 e em 1986 havia jogado bem mas perdera. O homem encarregado de promover o retorno aos caminhos da glória era Sebastião Lazaroni, um treinador que gostava de invenções táticas e de um palavreado pernóstico.

Na hora em que eu recolhia os copos, os dirigentes falavam que seria bom para a seleção ter um conselheiro, alguém que fosse uma mistura de psicólogo, neurolingüista e feiticeiro. Um queria que fosse sua mulher, outro queria que fosse sua amante, um queria que fosse seu filho, outro queria que fosse seu namorado e assim por diante. Furioso, o técnico Lazaroni deu um soco na mesa: — Chega! Agora eu não quero um conselheiro nem que ele caia do céu!

Por uma grande coincidência, nesse exato momento Zeca Bala caiu do céu, furando a lona do circo e aterrisando de cabeça bem no meio dos engravatados.

Mas isso não foi obra de magia. Há uma explicação perfeitamente plausível: é que, longe dali, Zeca treinava seu número com o disparador de canhão, e este, aproveitando o inesperado pagamento, tinha bebido um pouco além da conta. Assim, o disparador exagerou na pólvora e meu amigo voou mais longe do que imaginava.

Ao ver aquele homem de ataduras na cabeça caído ali no centro do picadeiro, os dirigentes cercaram-no e trocaram olhares de perplexidade. Por fim, um deles ousou perguntar: — Quem é o senhor?

Zeca, ainda meio tonto, tirou o capacete e leu ali o seu nome. Porém, como ele havia rachado, em vez de Zeca Bala parecia que estava escrito Zé Cabala:

— Acho que me chamo Zé Cabala. De propósito ou não, meu amigo havia rebatizado a si mesmo.

Os engravatados apertaram a rodinha em volta dele e começaram a debater:

— Se ele se chama Zé Cabala, obviamente deve ser um profeta!

— Um mestre das ciências ocultas!

— Um vidente!

Os homens ainda estavam atônitos quando um outro perguntou: — Se o senhor é mesmo adivinho, diga: nós podemos ganhar a Copa do Mundo?

Meu amigo nem ouviu a pergunta, pois olhava para o buraco na lona por onde caíra e falava consigo mesmo: — Tudo o que sobe, cai; mas nem tudo o que cai, sobe.

Os dirigentes, em coro, deixaram escapar um longo “ohhh” de admiração.

E ele não parou por aí. Acho que estava meio zuretado por causa do tombo e continuou a falar frases como:

— Inútil o barco quando a jornada é terrestre...

— Numa pequena ilha, não há homem que vá muito longe...

— Se cortarmos as patas do cavalo, teremos que ir a pé...

— Dois não é mais que um, mas também não é menos que três.

Aquelas frases impressionaram tanto os dirigentes que eles começaram a aplaudir meu amigo. Ele, porém, ergueu a mão esquerda e todos pararam repentinamente. Aí disse: — Aquele que tem apenas uma mão não pode bater palmas.

Depois de um segundo de silêncio os engravatados começaram a aplaudi-lo ainda mais fortemente e a gritar: — É um sábio! Um grande sábio!

O resultado disso foi que, algumas semanas depois, desembarcávamos em Turim. Eu como assistente de Zé Cabala. Ele, como conselheiro da seleção.

Aliás, falando em seleção, devo dizer que a nossa não era nem ótima nem péssima. O goleiro era o jovem e promissor Taffarel. Os alas eram os competentes Jorginho e Branco. No miolo da zaga, a novidade: três zagueiros. Ricardo Gomes, Mauro Galvão e Mozer, com Mauro Galvão incumbido de bancar o líbero sem nunca ter jogado dessa maneira antes. Para proteger os três zagueiros, dois volantes: Dunga e Alemão. Para proteger os volantes, um armandinho: Valdo. E para proteger o armandinho: Müller e Careca. Nosso grupo na primeira fase tinha Suécia, Costa Rica e Escócia. Previam-se três vitórias fáceis.

Meu amigo continuava falando coisas sem sentido, mas, a cada vez que abria a boca, era mais reverenciado pelos membros da comissão técnica. E eu, é claro, não contei nada para ninguém.

No dia do primeiro jogo, Lazaroni foi à nossa procura. Ele abriu uma pasta e, consultando um monte de papéis, nos revelou que os suecos tinham um bom goleiro, Ravelli, e um quase craque, Brolin. Os outros eram robôs. Mesmo de posse de todas essas informações, queria ouvir as palavras do sábio:

— Longo é o caminho que leva ao lugar distante — disse Zé Cabala.

Lazaroni repetiu a frase em voz baixa, bateu o indicador no queixo e saiu dali intrigado, mas agradecido.

No jogo, logo de cara nossa seleção sofreu um gol: belo lance de Brolin no meio dos nossos zagueiros. Por sorte empatamos com Careca e, de novo com ele, viramos no segundo tempo. Mas não foi uma virada redentora, com gols perdidos e olé. Foi um 2 a 1 suado e eles tiveram chance de empatar.

Depois daquilo, o trabalho de todos na comissão técnica foi posto sob suspeita. Quer dizer, de todos menos o de Zé Cabala. Ele continuava a gozar de prestígio e suas frases corriam de boca em boca. Antes do jogo contra Costa Rica, chamaram-no novamente e, novamente, ele deu seu conselho:

— Não se pode entrar numa casa sem portas.

De fato, a defesa costa-riquenha parecia uma casa sem portas. E sem janelas. O Brasil, lento e sem imaginação, não tinha uma britadeira para abrir os buracos. Quando a bola chegava aos pés dos nossos atacantes, eles já tinham um marcador em cima, outro na sobra e um terceiro para fazer a falta. É duro dizer, mas ganhamos por acaso. Müller deu um voleio dentro da área e a bola desviou num beque para azar do goleiro Conejo. Foi isso e só.

Desesperado, Lazaroni recorreu de novo a Zé Cabala, perguntando-lhe o que devia fazer para melhorar o time. Meu senhor ajeitou o turbante verde-amarelo e falou pausadamente: — Só quando se chega ao fundo do poço é que se começa a subir.

Lazaroni disse: — Sei, sei... — e saiu coçando a cabeça.

Contra a Escócia, mais uma vez ganhamos com um gol esquisito: Careca ficou cara a cara com o goleiro e chutou; a bola espirrou e ia saindo pela linha de fundo quando Müller a alcançou e deu um toquinho para as redes. Quase deu remorso de comemorar. De qualquer forma, passamos para as oitavas-de-final.

No Brasil ninguém agüentava mais aquele futebol de resultados. Nossa equipe fazia reunião atrás de reunião para encontrar uma saída para aquela chochice, até porque o adversário seguinte seria ninguém menos que a Argentina, campeã mundial. A coisa chegou a tal ponto que uma noite, lembro-me bem, a delegação se reuniu num anfiteatro e chamou meu amigo para uma palestra.

Perguntaram: — Mestre, quando vamos parar de jogar tão mal?

E ele respondeu: — As circunstâncias não duram para sempre.

Perguntaram: — Como se explicam esses jogos sem graça?

E ele respondeu: — Antes de ser árvore, a árvore foi semente.

Perguntaram: — Que devemos fazer para melhorar o desempenho?

E ele respondeu: — Se tiveres carro, não use o cavalo; se tiveres cavalo, não use os pés; se não tiveres pés, use o carro.

Perguntaram: — Devemos insistir no esquema com líbero?

E ele respondeu: — Não há soluções se não houver problemas.

Perguntaram: — Que falta para que mostremos nosso verdadeiro futebol?

E ele respondeu: — A ave não nada no mar, o peixe não corre pelos campos, a corça não voa pelos céus.

A cada sentença de Zé Cabala, eu pensava: agora seremos descobertos, vão perceber que o cara está biruta... Mas os dirigentes e os jogadores apenas sacudiam a cabeça, admirados.

Tudo corria bem até que o volante Dunga perguntou o que deveria ser feito para que ganhássemos a Copa e o Brasil voltasse a ser o país do futebol. Zé Cabala já ia responder quando aconteceu o desastre: eu tinha ficado ali pelos bastidores e, como estivesse um tanto enfadado com aquelas frases, comecei a fazer embaixadas com uma bola. Foi então que a deixei escapar e ela foi bater no controle de um daqueles contrapesos que se usa no teatro. O saco de areia soltou-se e, é claro, caiu bem na cabeça de Zé Cabala. Ele desmaiou na hora. Todos o cercaram, mas, depois de alguns instantes, acordou e disse que estava bem, muito bem mesmo, como há muito tempo não se sentia.

As pessoas voltaram a seus lugares e Dunga repetiu a pergunta.

O grande mestre limpou a garganta e, em vez de dizer uma daquelas coisas sem sentido, falou:

— É simples: para começar, deveríamos reduzir a comissão técnica pela metade, parar com essa retranqueira e deixar o time jogar mais solto. E mais: Deveríamos escalar o Renato Gaúcho e deveríamos ter trazido o Neto e também o João Paulo, do Guarani. E mais: deveríamos valorizar as categorias de base, organizar um calendário decente, conter o excesso de torneios e respeitar acesso e descenso. E mais: temos que mandar os dirigentes corruptos para a cadeia e fazer uma devassa nas contas dos cartolas.

Fomos demitidos na hora.

Naquela noite dormimos embaixo de uma ponte. Durara pouco nossa vida de glórias. Em compensação, meu amigo voltara ao normal e já não falava apenas máximas medíocres.

Na manhã seguinte resolvemos que não iríamos nos entregar, porque um homem de verdade nunca deve desistir de seus objetivos: decidimos pedir esmolas. Graças ao turbante de Zé Cabala, que o deixava com cara de louco, conseguimos juntar umas moedas e matar a fome.

Na hora do jogo entre Brasil e Argentina, ficamos em frente a uma loja de eletrodomésticos para ver a partida. A seleção jogou melhor, mas no futebol não ganha quem joga melhor, e sim quem faz gols. Num lance genial, Maradona saiu driblando nossa inexpugnável defesa: passou por Alemão, Dunga, Branco, atraiu os três zagueiros e tocou para o meio, onde Cannigia vinha livre, leve, solto, desembaraçado, tranqüilo, despreocupado e feliz.

Com calma ele driblou Taffarel e chutou para o gol vazio.

Ainda pressionamos e criamos chances, mas nossos homens de frente, talvez desacostumados das situações de gol, acabaram errando bolas fáceis.

A partir daquele jogo, a Argentina tornou-se a sensação da Copa. Com muito esforço e pouco brilho, eles foram eliminando fortes seleções. A primeira vítima foi a Iugoslávia; a segunda, a dona da casa, a Itália de Totó Schillaci.

Mas o mais incrível é que eles derrotaram essas equipes sem vencê-las. Esses dois jogos foram decididos na cobrança de pênaltis, e nas duas vezes brilhou a estrela de Goycochea. Ele, que nunca foi um goleiro extraordinário (aliás, era reserva e só foi escalado porque Pumpido se machucou), acabou fazendo defesas inacreditáveis e classificou o time para a decisão contra a Alemanha, um repeteco da final de 1986.

A decisão foi truncada, feia, com muitas faltas e poucas jogadas que valessem a pena ser vistas. Quase no fim, Klinsmann se enroscou nos zagueiros e o juiz apontou a marca de cal. Brehme bateu rente à trave, sem chances para Goycochea. Era o tri dos germânicos.

Quanto a Zé Cabala e eu, decidimos conhecer o mundo: fomos faxineiros na Torre Eiffel (como dava trabalho lustrar todo aquele ferro!), desarmadores de minas em Benguela, camareiros de um motel em Mikonos, sorveteiros em Jerusalém, cozinheiros no MacDonald’s de Moscou, varredores de rua em Bangladesh, mecânicos de bicicleta em Pequim e estivadores em Sydney. Aí conseguimos ser aceitos como grumetes num navio que ia para o México, onde fomos babás de chiuauas por dois anos, e de lá seguimos, num comboio ilegal, para a Califórnia.

Se Zé Cabala tivesse que contar o que nos aconteceu depois disso, ele diria: — Quem dá a volta ao mundo, ao seu mundo volta.

Foi o que aconteceu conosco. Mas isso é outro capítulo.

 

(Na segunda-feira começaremos oficialmente o "Pesadelo das Copas")

Por Torero às 11h55

07/02/2008

Os quatro cavaleiros do apocalipse

E eis que depois de sete rodadas, mais de um terço da primeira fase, nenhum dos quatro grandes está entre os quatro primeiros no Paulista.

No ano passado tivemos apenas dois grandes entre os semifinalistas. Será que este ano será pior?

Parece que sim. Ainda mais que está chegando a Libertadores e isso deve atrapalhar um bom tanto.

Por Torero às 23h04

1974: Uma Copa torturante

Nas Olimpíadas de Munique, em 1972, tinham acontecido atos de terrorismo contra a delegação de Israel. Então, na Copa de 74, que também seria na Alemanha, acharam melhor levar uns seguranças.

Eu tinha vinte e poucos anos e acabara de entrar para o Exército, mas como minha mãe era tia da cunhada do irmão do genro da sobrinha da nora do primo de um coronel, consegui uma vaga como segundo segurança do massagista.

O primeiro segurança, meu superior, era um cara que tinha um apelido engraçado: Brutus. Ele trabalhava num setor especial do Exército, um tal de SNI, Serviço Nacional de Informação. Ele me disse que era um “agente de captação de dados através de métodos heterodoxos”, o que não faço a menor idéia do que seja. Nunca perguntei, mas acho que o Brutus tinha esse apelido porque gostava muito dos desenhos do Popeye.

Antes que me esqueça, meu nome é Cândido. Cabo Cândido.

Logo que chegamos a Frankfurt, eu e Brutus descobrimos que tínhamos uma coisa em comum: gostávamos de jogar mau-mau; ficávamos horas nas cartas. Como eu sempre perdia, uma vez falei:

— Brutus, jogar mau-mau com você é uma tortura.

E ele respondeu com voz cavernosa: — Essa é a minha especialidade — e riu tanto que quase caiu da cadeira.

Bem, vamos ao que interessa.

O Brasil era o campeão do mundo, mas contusões e aposentadorias nos tiraram Pelé, Tostão, Gérson, Carlos Alberto, Brito e Clodoaldo.

No gol, Leão ganhou a vaga. A defesa era respeitável: Nelinho, Luís Pereira, Marinho Peres e Marinho Chagas. O meio-campo também era forte: Piazza, Rivelino e Paulo César. E o ataque era pelo menos razoável: Valdomiro, Leivinha e Jairzinho.

Eu achava que era time de sobra para o tetra. O Brutus não. Ele dizia que nome não ganha jogo e que o esquema do Zagallo era retranqueiro. Como eu era teimoso e ele era turrão, essa discussão começava logo de manhã no palitinho, continuava à tarde no dominó e só terminava à noite no mau-mau.

Campeão mundial, o Brasil fez a partida de abertura contra a Iugoslávia no Wald Stadion. Eu não duvidava da vitória. E por goleada!

— Esses branquelos têm que comer muito mocotó para ganhar da gente!

— Não sei — disse o Brutus. — Comunista é duro na queda.

Ele estava certo. Foi um jogo lá e cá. Atrás nos agüentamos, mas do meio-campo para a frente, tirando Rivelino e Jairzinho, só tristeza. Paulo César — que tinha sido vendido antes da Copa para o Olympique de Marseille — parecia um pouco desmotivado; Leivinha não desencantava e Valdomiro ia bem, mas errava passes, chutes e cruzamentos. No fim, 0 a 0. Brutus tinha a sua explicação para o empate:

— Contra comunista tem que jogar duro, não adianta enfeitar!

Paciência. Lá fomos nós pegar a Escócia. Bebemos meia garrafa de uísque para comemorar por antecipação e Brutus foi para o estádio dizendo que não podíamos perder para um time que usava saias.

Não podíamos, mas quase perdemos. O Brasil até que atacou, mas esbarrou na retaguarda dos escoceses. Os jogadores que tinham ido mal na primeira partida continuaram não indo bem. O Brutus não se conformou com aquele segundo 0 a 0:

— Assim não dá! O Leivinha tá apanhando mais que estudante em passeata, o Paulo César joga mais escondido que guerrilheiro e o Valdomiro tá mais isolado que o Partidão!

Nunca entendi muito bem as coisas que o Brutus falava. No dia seguinte, por exemplo, ele chegou para mim e cochichou: — Cândido, acho que esse Zagallo deve ter sido torturador no passado.

— Por quê, Brutus?

— Porque ele domina as técnicas da profissão. O time está tão mal escalado que dói, mas ele fica ali, impassível, só vendo a gente sofrer. E tem mais: numa boa tortura, o torturado não pode perder a esperança de vez, entende? Senão ele não se importa com mais nada. E é isso o que acontece com o Brasil. Esses empates mantêm o time vivo, mas a gente não pára de sofrer. Coisa de profissional.

O certo é que com aqueles dois empates estávamos mesmo numa sinuca de bico. Tudo se decidiria em Gelsenkirchen — eh, nominho! — no jogo contra o Zaire. Eles tinham tomado de 9 a 0 da Iugoslávia e de 2 a 0 da Escócia. O Brasil precisava então ganhar pelo menos por três gols de diferença.

Era isso ou o vôo de volta.

Nem dá para imaginar o estado de nervos em que o Brutus ficou. Ele dizia que até o time dos pracinhas da FEB, treinando direitinho, ganharia do Zaire, mas que aquela seleção...

E veio o jogo. Bola daqui, bola dali, o Brasil em cima e lhufas. Pensei que a gente ia virar o primeiro tempo já com uns quatro gols na frente. Que nada! O placar foi unzinho a zero, gol de Jairzinho. Veio o segundo tempo e continuou a lengalenga. O Brasil superior, mas sem rapidez, sem entrosamento, sem trama de jogadas.

— Parece o pessoal da esquerda — disse o Brutus.

Resultado: faltando quinze minutos, estávamos caindo fora da Copa.

Aí, para dar uma esperancinha, veio o segundo gol. A zaga deles rebateu mal e a bola caiu nos pés de Rivelino, que mandou o canhão para as redes. Mas aquele resultado ainda não bastava. Com o 2 a 0, os escoceses ficavam com a vaga.

E toca a roer unha!

Mas então, quando o juiz já ia apitar o toque de recolher, passaram a bola para o Valdomiro e ele resolveu mandar para o gol. Não era o mais recomendado: ele estava sem equilíbrio, não tinha ângulo e, para piorar, pegou esquisito na bola. Não me pergunte como, mas ela entrou. O goleiro Kazadi engoliu um dos maiores frangos da história das copas e, graças a ele, passamos para a fase seguinte.

E quem vinha pela frente? A Argentina, a Holanda e a Alemanha Oriental.

Aí o Zagallo resolveu mudar o time. Nelinho deu lugar a Zé Maria, saiu Piazza e entrou Paulo César Carpegianni, e Leivinha, contundido, foi substituído por Dirceu. Com isso o time passou do 4-3-3 para o 4-4-2.

Os progressos apareceram no jogo contra a Alemanha Oriental. Como naquela Copa tudo foi sofrido, o gol só saiu numa cobrança de falta. Jairzinho ficou no meio da barreira adversária e se abaixou na hora do chute. O Rivelino mandou o tiro bem naquele buraco e a bola estufou o canto direito do goleiro Croy. Inacreditável! O Brutus vibrou muito com aquele gol e ficou pulando de alegria.

— Isso é que é tática! Infiltra um espião no meio dos comunas e depois manda a bomba!

Ele era um cara meio estranho.

Bom, e lá vieram os argentinos. Era o primeiro Brasil x Argentina numa Copa. Rivelino, sempre ele, fez 1 a0, batendo de fora da área, mas Brindisi empatou. Saímos do sufoco no segundo tempo, depois de uma roubada de bola do Zé Maria, que entrou pela área e cruzou para o Jairzinho. Belo gol!

A decisão de quem iria à final seria contra os holandeses, que vinham de um 2 a 0 sobre os alemães orientais e de um 4 a 0 contra os argentinos. Eles podiam até empatar. Vi esse jogo pela televisão, ao lado do Brutus, ele ali dizendo que o Brasil tinha que se cuidar, que o futebol deles era moderno, coisa e tal.

Eu respondi meio bravo: — Quê! Isso é jogo de peladeiro!

Sinceramente era o que eu achava. Os laterais avançavam como se fossem pontas; o tal de Krol, que era zagueiro, se mandava para o ataque a hora que bem entendia; o pelé deles, o Cruyff, jogava em todos os lugares do campo; e eles não tinham centroavante, porque os dois da frente — Rep e Resenbrink — zanzavam pelo ataque para confundir a marcação. Tinha lá um Haan, habilidoso, e o tal de Neeskens, que entendia do riscado. Mas era só.

No primeiro tempo a partida foi equilibrada: eles mais rápidos, claro, e nós pesadões, tocando a bola, esperando a hora do bote. Mas no segundo tempo, num piscar de olhos, eles definiram o jogo. O primeiro gol foi de Neeskens, num chute dividido com Luís Pereira, que encobriu Leão. O segundo numa escapada rápida que acabou com um toque de chapa de Cruyff.

Restou-nos decidir o terceiro lugar. Perdemos para a Polônia: 1 a 0, gol do carequinha Lato, artilheiro do mundial com sete gols.

Meu amigo ficou enfurecido com o resultado desse jogo: — Odeio perder para vermelhos! — Para espairecer, decidimos ir a uma cervejaria e escolhemos uma chamada Der Röte, que, por acaso, quer dizer “O vermelhão”.

O dono era um sujeito com bochechas rosadas, casado com uma mulata brasileira que tinha uns trezentos dentes muito brancos. Curiosamente, todos os garçons usavam ternos amarelos como uniforme.

Quando soube que éramos brasileiros, o dono do Der Röte veio até nossa mesa e apresentou-se:

— Minha nome ser Dieter Bonn, mas toda munda chama eu de Dito Bombom. Depois fez com que experimentássemos uns vinte tipos de cerveja, das mais variadas cores, texturas e gostos.

Os neurônios de Brutus ficaram tão bêbados que ele começou a comparar as seleções com modelos econômicos. Disse que o Brasil lembrava um capitalismo de Estado, com algum espaço para a livre-iniciativa, mas amarrado por um sistema rígido e um tanto ultrapassado. A Holanda era o anarquismo, com cada um fazendo o que bem entendia, mas tudo de uma forma orgânica; a Polônia era socialista, organizada, forte na defesa mas sem muita mobilidade; e a Alemanha era o capitalismo dos países ricos, poderoso, eficiente, sempre jogando duro e entrando para ganhar nas divididas.

No dia seguinte fomos assistir à final da Copa entre a Holanda e a dona da casa, a Alemanha Ocidental. Todo mundo esperava a vitória da Laranja Mecânica, que começou na frente com um gol de Neeskens cobrando pênalti. Mas a Alemanha empatou com Breitner, também de pênalti, e passou à frente numa girada de Gerd Müller aos 43 minutos do primeiro tempo. Depois, a Holanda não teve forças para reagir e entregou os pontos.

Voltamos ao bar do senhor Bombom para tomar a última cerveja em Munique. Eu, que tinha torcido para a Holanda, estava inconformado:

— Os peladeiros tinham um jogo mais bonito, mais criativo, com mais liberdade. Não foi justo...

Então o Brutus fincou o garfo numa batata, ergueu o braço e exclamou: — Ao vencedor, as batatas!

E Bombom, erguendo um copo, emendou: — E o cerveja!

(Do livro "Futebol é bom pra cachorro!")

Por Torero às 08h40

06/02/2008

Perdemos, iê, iê, iê!

(Para que os leitores se lembrem um pouco da Copa de 1966, coloco aqui um textinho publicado no livro "Futebol é bom pra cachorro", que escrevi com Marcus Aurelius Pimenta)

 

Sejamos francas, tudo que nós, mulheres, fazemos, fazemos para impressionar os homens. Pintar o rosto, usar minissaia, bater bolos, emagrecer, engordar, dar salto mortal segurando cálices de cristal, tudo é para impressionar os homens. No meu caso, para impressionar o Jiló.

Me apaixonei por ele num jogo Cruzeiro x Atlético. Lembro como se fosse hoje. Ele estava usando um enorme colar com o símbolo da paz, uma fita laranja na cabeça, calça roxa de boca larga e sapatos plataforma. Seus olhos azuis combinavam com sua camisa do Cruzeiro. Meu coração disparou feito boiada assustada. Quase mudo de time.

O jogo terminou 4 a 0 para o Cruzeiro, mas dessa vez eu nem chorei. Só fui até ele e disse:

— Aqui ó, meu nome é Amélia, mas pode me chamar de Mel.

— Prazer, Jiló.

— Jiló, seu time mereceu a vitória. Como perdedora, quero te pagar um pão de queijo e um caldo de cana.

Ele respondeu: — Vamos lá, broto — e aquela frase entrou no meu ouvido como se fosse uma doce melodia, o que prova que, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a música está nos ouvidos de quem ouve. Bom, pão rima com mão, queijo rima com beijo e cana quase rima com cama, de modo que, de rima em rima, uma coisa puxou a outra e assim começou o nosso romance.

Dois meses depois, quando estávamos sentados no meu Simca na rua do Amendoim, tomei coragem e pedi a mão dele em casamento. O Jiló me respondeu que antes de aceitar precisava de uma prova de amor. Eu achava mesmo que ele ia dizer aquilo, tanto que tinha posto a minha melhor roupa de baixo:

— Faço o que você quiser, Jiló.

Aí o danado abriu um sorriso e disse:

— Tá bom, então quero um autógrafo dos Beatles.

— Mas eles são ingleses! Por que você não me pede um autógrafo da Wanderléa ou do Erasmo?

— Beatles, Beatles, Beatles! Se você me ama, me traz um autógrafo dos Beatles! — Ele pegou sua bolsa de couro e saiu do carro batendo a porta com força.

Como eu amava o Jiló demais da conta, três dias depois peguei um avião da Panair para a Inglaterra. Pelo menos eu tinha um consolo: veria a Copa do Mundo de 1966. Para minha sorte, o grupo do Brasil jogava justamente em Liverpool.

Gente, eu achava que a gente iria conquistar o tri com um pé nas costas. Mais que isso: com as mãos amarradas e uma venda nos olhos. Nós tínhamos Pelé, Zito, Gérson, Amarildo e ainda o velho Garrincha. Quem poderia vencer esse time? Infelizmente essa pergunta tinha uma resposta: os cartolas.

Depois do bicampeonato, em 1958 e 1962, o futebol virou negócio de Estado no Brasil, e a CBD foi ficando cada vez mais parecida com o Congresso Nacional, de tanto político que aparecia por lá. O técnico Vicente Feola, o mesmo da Copa da Suécia, não tinha pulso firme e ia aceitando as pressões.

A coisa ficou tão absurda que foram chamados 44 jogadores e formaram-se quatro seleções para o período de testes. Até convocação por engano teve. Alguém falou que na lista tinha que ter um jogador do Corinthians, e indicaram o Ditão, aquele zagueiro; só que a datilógrafa da CBD não sabia o nome completo dele e foi se informar com um jornalista. O rapaz, por engano, deu a ela o nome de outro Ditão, o do Flamengo.

Chegando à Inglaterra, peguei o trem para Liverpool. Lá, me hospedei num hotel de segunda categoria. Talvez de terceira. Ou quarta.

Mal ajeitei os trens, saí e fui comprar um LP chamado Revolver. Depois fui fazer vigília na frente dos estúdios, esperando a chegada de John, Paul, George e Ringo. Para meu azar, começou a chover. Esperei, esperei e nada. O dia seguinte foi igual ao primeiro, e o terceiro bastante parecido com o segundo.

Fiquei uma semana naquela vida, até que resolvi me dar uma folga e ver a estréia do Brasil. O jogo aconteceu numa tarde fria, contra a Bulgária, um time violento, sem graça e cheio de caras com o nome terminando em “ov”. Se o Jiló fosse búlgaro, ia se chamar Jilov.

O Brasil precisou de dois gols de falta para ganhar: um de Pelé e outro de Garrincha. Tabelinha, jogada mesmo, nadica de nada.

O outro jogo foi dali a três dias, contra a Hungria, que já tinha tomado de três de Portugal. Eu pensei: isso vai ser mais mole que curau.

O time estava bem desfalcado, sem Pelé e Zito. No primeiro tempo a coisa foi parelha, mas nós fizemos um gol. Quem marcou foi meu conterrâneo Tostão. Aí, quando veio o segundo tempo... Menino, que tristeza! Os húngaros corriam muito mais, trocavam passes rápidos, desarmavam com uma facilidade que dava dó. Perdemos de 3 a 1 e ficamos com saldo zero.

No dia seguinte, às cinco da manhã eu já estava na porta do estúdio. Para não ser supreendida novametne pela chuva, dessa vez peguei de um, um tudo*. Fui com duas calças, galochas, uma blusa de lã, um casaco de couro, um sobretudo, uma capa, um chapéu e um guarda-chuva. Pois não é que fez um sol de rachar! E eles, é claro, não deram as caras mais uma vez.

Aí veio o jogo contra Portugal, que tinha vencido suas duas partidas e estava classificado. Surgiu então o boato de que eles iam facilitar as coisas para nós. Bom, é difícil provar essas coisas, mas posso dizer que no começo eles estavam jogando em ritmo de treino; só um deles, um tal de Morais, destoava. Gente, esse aí desceu a lenha no Pelé! Se o boato era verdadeiro, tinham esquecido de avisar o Morais. E também os atacantes deles, porque o jogo terminou 3 a 1. Um vexame: nós, os bicampeões do mundo, não tínhamos nem passado da primeira fase!

Como o Brasil voltou para casa, resolvi torcer para os nossos irmãos portugueses, que iam continuar jogando em Liverpool. O primeiro adversário deles foi a seleção da Coréia do Norte, que tinha despachado a Itália. Achei que o resultado tinha sido só uma zebra, mas mal o juiz apitou o começo do jogo e os coreanos vieram para cima numa correria danada. Quando olhei para o placar, tive que arregalar os olhos: 3 a 0, gols de Pak-Seung-Jin, Li-Don-Woon e Yang-Sung-Hook. Se o Jiló fosse coreano eu iria chamá-lo de Ji-Loh-Zim.

Se eles continuassem a jogar daquele jeito, acho que ganhariam de 100 a 0, mas os lusos conseguiram um golo, como eles dizem, e aí os orientais amarelaram. Foi então a vez dos portugueses passarem a correr feito doidos e, no fim, viraram o jogo para 5 a 3, com quatro gols de Eusébio. Foi um jogo de arrebentar coração; na minha opinião, o melhor daquela Copa.

Eu continuava indo aos estúdios. Um dia, perguntei ao porteiro se havia alguém gravando. Ele respondeu que sim, que lá estavam quatro rapazes e o conjunto se chamava Be... alguma coisa.

Passei a noite dormindo em frente à porta. Quando foi de manhãzinha, um dos quatro rapazes tropeçou em mim. Mais que depressa me levantei e perguntei:

— Você é o Paul?

— Não.

— John?

— Não.

— George?

— Não.

— Então é aquele... como é o nome mesmo... Bingo?

— Você quer dizer Ringo?

— Isso, Ringo!

— Também não.

— Uai, quem é você?

— Sou Joseph. Ele é Saul, este é Geoffrey e aquele é Django.

Então eles colocaram chapéus com orelhas de cachorro, deram-se as mãos e falaram ao mesmo tempo: — Nós somos os Beagles!

Como consolo, ganhei um chapéu daqueles. Pode uma coisa dessas?

Para esquecer Beagles e Beatles, fui para o hotel e assisti ao videoteipe da semifinal entre Portugal e Inglaterra. Era a primeira vez que se usava videoteipe numa copa, e eu achei demais da conta. O time inglês, além jogar em casa, era bom que só: tinha Banks, Alan Ball, Hunt, o matador Hurst, Bobby Moore e Bobby Charlton. Se o Jiló fosse inglês ia se chamar Bobby Jilorton. No fim, vitória suada da Inglaterra por 2 a 1, os dois gols de Bobby Charlton. Na final eles enfrentariam os alemães ocidentais, que tinham vencido a União Soviética também por 2 a 1.

Já fazia três dias que eu estava na porta do estúdio, quando um sujeito chamado Pete Best me disse que os Beatles não gravavam ali fazia muito tempo e, que se eu quisesse encontrar um deles, teria que ir a Londres. Ele tentou me convencer que já tinha sido um beatle e até insistiu em me dar um autógrafo. Eu ri na cara dele e saí andando. Quando olhei para trás, o pobre homem estava abraçado a um poste e chorava com uma tristeza de dar dó.

Peguei então o trem para Londres. Para não perder a viagem, comprei um ingresso para a grande final.

Eu era uma das 95 mil pessoas que estavam no estádio de Wembley naquele dia. Como a torcida inglesa não é das mais comportadas, tratei de me sentar no meio de uns padres barbados que estavam por ali.

O jogo foi parelhinho da silva, mas como era diferente do nosso futebol! Não tinha aquele toque estilento, aqueles passes trivelados, aquelas tabelas manhudas, aqueles vai-que-vai-mas-não-vai... Era um estilo vigoroso, cheio de encontrões, com passes retos e muitos cruzamentos na área.

A Inglaterra era um bocadinho melhor e vencia por 2 a 1 até os 44 minutos do segundo tempo, quando, depois de um bate-rebate na pequena área, Weber empatou. Nessa hora, um sujeito de terno amarelo que estava sentado atrás de mim ficou de pé, começou a dançar e cantou com um sotaque estranho: — Olê, olá, o Alemanha está botanda pra quebrar!

A partida foi para a prorrogação e aí aconteceu aquele lance que até hoje dá o que falar. Hurst chutou a bola, que bateu na trave e depois caiu sobre a risca do gol. O estádio inteiro explodiu de alegria e os padres ao meu lado pularam tanto que pareciam macacos. Eu disse para o de óculos redondo: — Não foi gol! Bateu na linha! — Ele só respondeu: — Imagine!

Já o homem de terno amarelo atrás de mim chorava e gritava — Seus bandidas, suas safados!

Com aquele lance, os jogadores alemães se descontrolaram. No final, a Inglaterra ainda fez mais um gol, Hurst de novo, e levou a taça.

Aí foi uma festa só. Todos abraçavam todos e os padres, menino, pulavam que nem pipoca. Foi então que a barba de um deles caiu.

— Uai, gente, mas esse é o Paul! — eu disse a mim mesma, de forma que ninguém escutou. E se aquele padre era o Paul, logo o de óculos só podia ser o John, o narigudo era o Ringo e o de turbante era o George. Eles perceberam que eu os tinha reconhecido e pediram que eu ficasse quieta. Respondi que tudo bem, desde que eles autografassem o meu ingresso.

Quando cheguei a Belo Horizonte e dei os autógrafos para o Jiló, ele olhou para aquilo meio assim, sem interesse, e guardou o ingresso na gaveta. Eu não entendi nada.

— Uai, mas você não queria os autógrafos dos Beatles?!

— Sabe, Mel, os Beatles são legais, mas meio alienados. A gente tem que dar valor ao que é nosso.

E pôs na vitrola um disco do Geraldo Vandré.

Depois de ouvir aquilo, o que que eu podia fazer?

Pois foi o que eu fiz.

Até hoje eu guardo um caco daquele disco que eu quebrei na cabeça do Jiló.

Por Torero às 15h16

05/02/2008

Votação encerrada

E eis que, às 8h41, encerra-se a votação para o Pesadelo das Copas. Os votos ficaram assim distribuídos:

90: 87
06: 47
66: 18
74: 12
94: 10
98: 9
78: 7
50: 3
86: 3
34: 2
54: 2
82: 1

As seleções de 30, 38, 58, 62, 70 e de 2002 não foram votadas nem uma vez. A surpresa (nem tão surpreendente) foi a quinta colocação da seleção campeã de 94.

Olhando o resultado, acho que o melhor é irmos direto para a semifinal. Aí teríamos os seguintes jogos: 1990 x 1974 e 2006 x 1966. E, depois, a final. Seriam apenas três partidas, o que é pouco. Talvez quatro, se fizermos uma disputa de terceiro lugar.

Cheguei a pensar em fazer as quartas-de-finais com oito clubes, mas aí teríamos muitos jogadores repetidos. Há, por exemplo, as três seleções da década de 90.

Ficamos mesmo com as quatro seleções?

Mandem vossos palpites.

 

PS: Para quem quiser ler a primeira Copa dos Pesadelos, ela está nos posts entre os dias 24/1/7 e 14/3/7. Outro modo é clicar aqui do lado esquerdo, onde ela disponível em pps.  

Por Torero às 09h02

Michael Jackson e os Meninos da Vila

O Santos contratou Michael Jackson Quiñones, do Equador. As piadas serão inevitáveis.

Os maldosos, por exemplo, dirão que Michael Jackson vai estar à vontade, pois o time está cheio de garotos.

Já os pessimistas dirão que, depois da chegada de Betão, Marcinho Guerreiro e Michael Jackson, está completo o elenco de Thriller.

 

 

Por Torero às 08h23

Texto da Folha

Para ler o texto de hoje na Folha, sobre a atual situação dos campeões estaduais do ano passado, como Paranavaí, Santos, América-SE, Coruripe e Nacional-PB, clique  aqui (só para folhistas e uolistas).

Por Torero às 08h05

03/02/2008

Copa dos Pesadelos 2

Caro leitor, caríssima leitora, vamos começar nossa Copa dos Pesadelos 2. Ou melhor, nosso Pesadelo das Copas, já que o torneio será entre as piores seleções brasileiras que estiveram presentes às Copas do Mundo.

E nosso primeiro passo para este Pesadelo das Copas é escolher quais as nossas piores seleções de todos os tempos. Cada leitor pode escolher duas seleções por comentário.

Vamos lá, lembre as escalações absurdas, as frustações, as derrotas terríveis e escolha suas seleções de pesadelo. 

Por Torero às 11h29

01/02/2008

Os bastidores do Folhetim

Estas são as primeiras versões desenhadas pelo ilustrador Rogério Doki para Guttemberg, Jaci e Viriato. Notem que o cronista esportivo não andava em cadeiras de rodas (uma sugestão de última hora de Marcus Aurelius Pimenta, co-autor do foilhetim) e que Viriato não era careca nem tinha aquele coletinho que lhe dá um ar mais, digamos, moderno.

 

 

Na primeira versão, Margarido era mais jovem e não tinha a bandeira com que enxugaria suas lágrimas.

 

 

 

 

RCL tinha mais cara de prefeito do que de técnico. E Suzi Mel não era mulata.

 

Daphne tinha uma roupa mais despojada, Capacho era mais esportista e Cabeça, mais relaxado. Estes três mudaram porque passaram a usar as roupas da cena final. Assim Daphne ficou mais chique, Capacho perdeu a roupa esportiva e Cabeça ficou mais elegante, pois tentava impressionar Suzi Mel. 

Por Torero às 07h32

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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