(No capítulo anterior, Zé Cabala descobre que Margarido é o assassino. Depois, ele e Gulliver vão até o Musa Paradisíaca a fim de receber seu pagamento)
27
Passamos a noite em festa no Lupanar.
E, quando digo festa, quero dizer que Berta fechou a casa e nós bebemos, comemos, contamos piadas, cantamos e dançamos. Fizemos tudo que um adulto pode fazer em momentos de euforia.
E, quando digo tudo que um adulto pode fazer em momentos de euforia, quero dizer tudo mesmo. Tirando forças sabe-se lá de onde, eu e Zé Cabala fizemos um tour completo pela casa.
Como ele desvendou o caso, ficou com cinco garotas: Aureli, a loira, Ebônia, a negra, Fumiko, a oriental, Ana Fada, a vasta, e Baby, a anã. Eu, modestamente, fiquei com quatro: Rúbia, a ruiva, Calvina, a careca, Popoporã, a índia, e Píncara, a altíssima.
Não gosto de me gabar, mas no fim da noite as moças me disseram: “Você foi um gigante, Gulliver!”. Com ponto de exclamação e tudo.
*
Na tarde seguinte, as nove garotas e Berta abanavam lenços brancos para se despedirem de nós.
“Vou sentir falta de vocês, meninos.”
“Também sentiremos saudades, Bertoca!”
“Olha: desculpa por eu ter duvidado de vocês. Foi um erro.”
“Um erro perdoável”, disse eu com condescendência.
“Não, é que vocês são muito espertos. Me despistaram o tempo todo com aquela conversa de “não temos idéia”, “são muitos suspeitos”... Na verdade vocês já desconfiavam do Margarido, não é?”
“Desde o primeiro minuto”, falou Zé Cabala.
“Bem , o que importa é que o Beleza está vingado.”
“E a justiça foi feita.”
“Graças a Deus! Quer dizer, graças a vocês.”
Aproveitei a deixa e emendei: “Falando nisso, será que podemos receber nosso pagamento?”
“É claro”, disse ela. E, tirando uma nota do sutiã, falou: “Aqui estão os cinquenta paus.”
“Cinquenta? E o resto?”
“Que resto?”
“Nós não combinamos quinhentos?”
“Combinamos.”
“Então! Que papo é esse de cinqüenta?”
Berta tirou uma calculadora do sutiã (que àquela altura já me lembrava uma cartola de mágico), seus olhos secaram e sua voz ficou firme novamente:
“Querido, faça as contas comigo: vocês ficaram com nove meninas. Cada uma custa cinquenta. Nove vezes cinquenta, quatrocentos e cinquenta. Quinhentos menos quatrocentos e cinquenta, cinquenta.
“A noite de ontem não foi cortesia?”, perguntei.
Berta e as meninas soltaram gargalhadas.
Ficamos mudos por alguns segundos, mas depois também rimos. Afinal, tivemos uma grande noite, resolvemos nosso primeiro caso e ainda ganhamos cinquentinha.
Nos despedimos das meninas, entramos em nossa Kombi e fomos em direção ao sol poente, que manchava de vermelho o horizonte e as poças de lama.
Enquanto Zé Cabala dirigia, eu imaginava qual seria nosso próximo caso.
A resposta veio a cavalo. Ou melhor, a pé.
É que, de repente, à beira da estrada, vimos uma beldade de pernas longas e cabelos sedosos acenando para nós. Uma autêntica top model, daquelas que só vemos em sonhos. Ou na capa da Caras. Ela estava ao lado de uma van fumegante com o capô aberto.
“Vamos parar?”, perguntei para Zé Cabala.
Ele piscou para mim, como que dizendo “É claro que vamos!”, e brecou.
A beldade aproximou-se e disse: “Oi. O meu nome é Linda.”
“Isso não é nome, é pleonasmo”, falou Zé Cabala dando um piparote em seu turbante.
Ela riu. Seus dentes eram tão brancos que, se não estivéssemos de óculos escuros, teríamos ficado cegos. Quando me recuperei, perguntei:
“Podemos ajudá-la em alguma coisa?”
“Vocês me dão uma carona?”
Demos. Mas essa é outra história.
Por Torero às 08h20
Preciso dos endereços dos vencedores dos concursos para mandar-lhes os prêmios. Só para lembrar, são eles: Luciano Claudino, que bolou o slogan: “Zé Cabala & Gulliver – Detetives Particulares (também fazemos frete)”, Denilson, que nomeou a Kombi da dupla de “Hebe Camargo”, Mário Klein (tese doida), Davi Kikuchi (tese perfeita) e Bruno Yazbeck (prêmio: “Sou daqueles que gastam a carga inteira da Bic para escrever um bilhete”).
Os premiados podem escolher entre os livros “Nuno descobre o Brasil” e “Xadrez, truco e outras guerras”.
Por favor, mandem seus endereços para: blogdotorero@uol.com.br
PS: O leitor, e escritor, Al-Chaer quer enviar seu livro “Partituras” para três leitores. Diz ele: “A minha intenção seria presentear Deise (que nos comentários-diálogos escreveu meu nome entre aspas... e não é sempre que temos o nosso nome destacado assim...he he he); Grace Carvalho (aquela da TESE "maior doida" de dizer que o Torero é lindo d++++++) que nos mandou beijos num comentário do penúltimo capítulo (nossa sorte é que os beijos vieram em número par); e Mário Klein, que disse que teria que doar o seu prêmio para a empresa, por ter acompanhado o Folhetim do trabalho (essa pra mim foi a melhor de todas!).
Por Torero às 22h49


(Depois de o Banânia vencer a Copa Salada de Frutas nos pênaltis, Zé Cabala prepara-se para revelar quem matou Beleza)
26
“Quem matou o Beleza foi...” disse Zé Cabala enquanto girava seu indicador, desenhando um círculo no ar que cercava os nove suspeitos. Mas, então, de repente, em vez de apontar o dedo definitivamente para alguém, coçou o turbante.
“Caramba, já ia esquecendo! Antes de revelar o assassino, tenho que dizer como descobri tudo.”
Eu e os nove suspeitos soltamos um longo “Oh...”, um tanto pela decepção de não saber imediatamente quem era o culpado, um tanto porque teríamos que aguentar uma explicação.
Zé Cabala não se abalou com nosso lamento e, enquanto a torcida invadia o campo para roubar tufos de grama e pedaços de rede, começou a falar:
“Bom, eu descobri tudo quando ouvi o narrador de rádio aqui na cabine do lado dizer: ‘Apiiiita o árbitro. É a hora da verdade!’.”
“Você partiu da frase do narrador para armar essa hipótese?”, perguntei.
“A gente tem que partir de alguma coisa”, ele disse voltando-se para mim. Depois, virando-se para os nove, continuou: “Naquela hora eu falei para mim: nós passamos esse tempo todo tentando ver o que as pessoas tinham feito antes do jogo. E se fosse o contrário? E se a hora da verdade fosse durante o jogo? E se o assassino tivesse matado o Beleza depois do apito do juiz?”
“Mas como ele faria isso?”, perguntei.
“Eu também não sabia. Mas aí, quando chegou a notícia da morte do Nove Dedos, eu matei a charada.”
“Chega de enrolação, diga logo que matou o Beleza!”, falei.
Meu sócio ajeitou o turbante e disse calmamente: “Nosso assassino é um poeta. Ele bolou um modo de matar o Beleza em seu momento de glória máxima, ou seja, depois de fazer o milésimo gol. E não foi só isso: ironicamente, o Beleza ainda morreria por amor ao time, pois seu último gesto seria dar aqueles socos no distintivo do Banânia. Coisa de gênio. Parabéns, Margarido.”
Os outros vinte olhos que estavam na tribuna de honra voltaram-se para Margarido, que, afetando modéstia, disse: “Obrigado, obrigado.”
“Isso mesmo”, continuou Zé Cabala. “No domingo passado, Margarido chegou cedo ao estádio, foi até o guarda-roupa e pegou a camisa do Beleza. Ele era o roupeiro do time, ninguém iria desconfiar de nada. Aí descosturou o símbolo do clube - a folha de bananeira- e pôs ali uma ampola com o veneno, que provavelmente foi roubada do doutor Penteado. Quando viu que a cápsula estava bem acomodada, costurou tudo novamente. Ele sabia que, na hora em que o Beleza fizesse o gol, daria socos no próprio peito. Assim a cápsula estouraria e o proparoxil-9 faria seu trabalho.”
“Como você chegou nisso!?”, exclamei interrogativamente.
“Bom, eu achei estranho quando a gente viu a camisa do Beleza no Memorial das Glórias Inesquecíveis. Lembra que ela tinha manchas de suor?”
“Lembro.”
“Pois é, nós vimos a camisa um tempão depois. Se a mancha fosse de suor, já teria evaporado. Era veneno. Mas só pensei nisso durante o jogo de hoje.”
“E por que ele deixou a camisa emoldurada.”
“O melhor jeito de esconder uma coisa é deixá-la bem à mostra. Mas ele se deu mal, porque agora a polícia tem a prova do crime.”
Pedi um último esclarecimento: “Só tem uma coisa que não bate: Como ele tinha tanta certeza de que o Beleza ia fazer o gol?”
O próprio Margarido esclareceu: “Eu não tinha, aí é que entra o Nove Dedos. Saquei o dinheiro da poupança e ofereci tudo a ele. Lá se foram minhas economias, mas valeu a pena. No primeiro chute, a bola entrou.”
“E depois ele veio pedir mais para o segundo jogo?”
“Pior. Ameaçou contar tudo. Mas aí, chamei o sujeito para conversar e dei-lhe um licor de banana com proparoxil-9.”
Alguns minutos depois, o delegado Fukuda estava colocando algemas no ajudante geral, roupeiro, torcedor símbolo, presidente da ONG Sangue AuriNegro, diretor do Memorial das Glórias Inesquecíveis e historiador oficial do Banânia.
Margarido aproveitou para fazer um discurso final:
“Só quero dizer que matei por amor. Amor ao Banânia. Todos os times têm seus ídolos, homens que são mais que jogadores, homens que são símbolos de algo maior. O Laranjal tem o Pudim. O Pessegópolis tem o Cachaça. Mas o Banânia não tinha ninguém até que o Beleza apareceu. Ele nos ensinou a sonhar, nos fez acreditar que o impossível era possível. Até os adversários reconheciam que ele era um mágico da pequena área. Oh, desculpem!”
“Tudo bem, chore à vontade”, disse o compreensivo delegado Fukuda.
Depois de enxugar suas lágrimas com a bandeira do Banânia, Margarido continuou: “Matei o Beleza pelo seu próprio bem. Não é preciso usar turbante para adivinhar o que vinha pela frente: depois de largar o futebol, ele ia continuar fazendo dívidas, brigando no trânsito, engravidando menores, mijando nos chafarizes. Ia macular sua memória. O Beleza era duas pessoas: o Beleza dos estádios e o Beleza das ruas. O Beleza dos estádios era um mito, o Beleza das ruas era um verme. E ia acabar matando o Beleza dos estádios. Eu podia deixar isso acontecer? Nunca! Então fiz o que era preciso. E faria de novo...”.
Depois de olhar em silêncio a bandeira encharcada de lágrimas, Margarido arrematou: “Eu seria capaz de dar a vida por esse time!”
“Você deu. Vai passar o resto dos seus dias numa cadeia”, falou Fukuda.
“Posso levar um radinho comigo?”
“Pode.”
“Então tudo bem.”
“Deus, você é pinel mesmo!”
“Pinel, não. Apaixonado!”
“Sente-se, Margarido, eu não dei ordem para você ficar de pé”, bradou o delegado.
“Viva o Banânia!...”
“Não ouviu o que eu disse? Você não pode subir na cadeira desse jeito.”
“Viva o Banânia!...”
“Pare de cantar, Margarido! Isso já é desacato!”
“Viva o Banânia! Viva o Banânia!, O povo clama por você. Viva o Banânia! Viva o Banânia! Cultiva a glória de não perder...”
Ouvimos o hino do Banânia até que o camburão sumiu de vista.
Depois, eu e Zé Cabala entramos na Hebe, nossa velha perua, e tomamos a direção do Musa Paradisíaca. Como tínhamos descoberto o assassino, concluímos que era nosso direito cobrar os quinhentos mangos de Berta. No caminho, Zé Cabala desabafou:
“Sabe?, fiquei com pena do rapaz?”
“Do Margarido?”
“É. Eu achava que ele era um bom sujeito. Só não gostava quando chamava a gente de xeróx.”
“Xeróx, não. Sherloques.”
“Pois é, coitado, ainda por cima falava errado.”
(Liberei os comentários para o post anterior. São mais de duzentos e estão muito divertidos. Vale a pena ler. E digo que foi um prazer escrever esta história convosco.)
(Os vencedores: Davi Kikuchi foi o primeiro a acertar tudo, Mário Klein deu a resposta mais doida (onde todos ajudam a matar o Beleza mas ninguém é culpado) e Bruno Yazbeck, que deu a resposta mais longa (ele precisou dividi-la em onze comentários diferentes!), ganha o prêmio extra. Houve muitos quases.
(Quarta-feira, no Musa Paradisíaca, o vigésimo-sétimo e último, final, derradeiro, empolgante e epilogante capítulo de nossa história)
Por Torero às 08h39
(No capítulo anterior, nossos detetives ficam sabendo que Nove Dedos, o goleiro do Laranjal, morreu envenenado, e Zé Cabala diz que sabe quem é o assassino. Por outro lado, a final da Copa Salada de Frutas terminou em 0 x 0 e teremos uma decisão por pênaltis)
25
O certo seria esperar a série de cobranças para revelar o autor do crime, mas eu já não agüentava mais. Quando vi, estava de pé no assento e falei:
“Zé Cabala sabe quem matou o Beleza!”
Todas as pessoas da tribuna de honra olharam para nós naquele momento. Vendo que não tinha saída, Zé Cabala levantou-se, ficando da minha altura, arrumou seu turbante, fez uma cara de inteligente e começou seu discurso:
“Foi um caso difícil, permitam-me dizer. Um caso árduo, penoso e que exigiu hercúleos esforços intelectuais da nossa parte. Mas estes esforços foram recompensados.”
No campo, a série de pênaltis começou com chutes dos laranjalenses. Alain bateu o primeiro. Bola num canto, goleiro no outro. Laranjal 1 x 0.
“Antes de mais nada, digo que o Beleza foi um homem amado. Amado por aquela multidão de anônimos lá fora. E também por quem o matou.”
Jeba bateu o primeiro pênalti do Banânia. Uma paulada no centro do gol. Laranjal 1 x 1 Banânia.
“Já os outros oito que estão aqui odiavam o Beleza.”
Sumô, um volante meio gordo e de olhos puxados, foi o incumbido de bater a segunda penalidade do Laranjal. Chute bonito, no ângulo. Laranjal 2 x 1 Banânia.
“E eles ficaram muito gratos à pessoa que colocou o proparoxil-9 num determinado lugar.”
Mingau bateu seu pênalti com elegância. O goleiro laranjalense Cocoricó ainda tocou a ponta dos dedos na bola, mas em vão. Laranjal 2 x 2 Banânia.
“Esta pessoa matou o Beleza na frente de milhares de pessoas e ia escapar das garras da justiça.”
Kong, o substituto de Viriato, bateu sem muita força, mas teve sorte. A bola passou por debaixo do corpo do goleiro Edgarson. Laranjal 3 x 2 Banânia.
“Ia. Mas não escapou. Agora, eu lhes pergunto: por quê?”
Fefê foi para a bola com altivez. Bateu no canto do goleiro, mas com força e convicção. Laranjal 3 x 3 Banânia.
“E eu lhes respondo: porque chegaram à cidade dois combatentes obstinados, dois guerrilheiros incansáveis, duas panteras da liberdade, dois ferozes campeões da justiça.”
Como ninguém comentasse nada, ele explicou: “Eu e Gulliver.”
“Ah...”, fizeram todos.
Dircenilson fez sua cobrança no centro do gol. Edgarson ainda tentou defender com a perna, mas só resvalou na bola. Laranjal 4 x 3 Banânia.
“Nós dois, mesmo diante da escuridão da incerteza, mesmo diante do cipoal da dúvida, trabalhamos diuturnamente até chegar à resposta.”
Pereba, lateral-esquerdo do Banânia, disparou uma bomba no canto direito. Cocoricó nem se mexeu. Laranjal 4 x 4 Banânia.
“Pois agora vou lhes dizer quem matou o Beleza e, por tabela, o pobre Nove Dedos, o goleiro que sabia demais.”
Pilastra, o comprido camisa nove do Laranjal, chutou a bola no canto direito. Edgarson tocou na bola e esta bateu na trave direita. Depois correu por sobre a linha, bateu na trave esquerda e... não entrou. Laranjal 4 x 4 Banânia.
O estádio explodia de felicidade, esperando apenas o último pênalti. Mas, na Tribuna de Honra, todos estavam de costas para o campo. Nossos nove companheiros tinham olhos e ouvidos apenas para Zé Cabala (por sorte, eu estava ao seu lado e de frente para o campo, e assim podia dar uma olhada de esguelha na cobrança de pênaltis)
“Sem mais delongas digo que...”
Lupinaldo arrumou a bola com carinho para fazer a última cobrança do Banânia. Depois, deu nove passos para trás. Sobre os ombros do jovem pesava a terrível responsabilidade. Ele correu com estilo, sem olhar para a bola, mas tropeçou num buraco e caiu quando estava a um passo do chute. Mesmo assim, seu joelho bateu na bola, que foi dando pulinhos em direção ao gol. Por ironia do destino, o goleiro Cocoricó tinha escolhido o canto errado para saltar. A bola, envergonhada, cruzou a linha fatal. Banânia 5 x 4! Banânia campeão!
O estádio virou uma grande confusão. Todos se abraçavam. Todos urravam de felicidade.
Todos, menos os que estavam na tribuna de honra, porque neste instante Zé Cabala levantou o dedo indicador e disse:
“Quem matou o Beleza foi...”
*
(Diga aí quem matou o Beleza, como e por quê. O primeiro a acertar ganha um livro. O que der a explicação mais doida, também. E inventarei algum critério absurdo para dar um terceiro prêmio. Zé Cabala completará a frase na segunda-feira)
Por Torero às 08h03
(No capítulo anterior, Zé Cabala, Gulliver e nossos nove suspeitos chegam à tribuna de honra do estádio municipal para assistir à final entre Banânia e Laranjal)
24
O primeiro tempo do jogo não deixou saudades.
Foi um festival de erros de passe, faltas, encontrões, cotoveladas, agarrões, bate-bocas e cartões amarelos.
Enquanto Zé Cabala brincava com canudos de refrigerante, eu continuava pensando no crime. Aquelas nove pessoas podiam ter matado o Beleza.
Mas qual delas o fez?
Fui tirado daquele estado de concentração por Nestor, o locutor, que entrava na tribuna de honra fumando um cigarro. Após dar uma baforada, ele anunciou com voz grave:
“Acabamos de receber uma notícia lamentável.”
Pensei que o homem ia dizer logo do que se tratava, mas ele levou o cigarro à boca e deu outra longa tragada. Só depois desse pequeno suspense, ele falou:
“O goleiro Nove Dedos está morto. Acharam seu corpo numa vala à beira da rodovia estadual. Exames preliminares do legista atestam que ele foi envenenado por volta das seis horas da tarde de ontem. Tomara que o segundo tempo seja melhor. Adeus.”
Murmúrio, lamentações e cochichos tomaram conta da sala. Houve também um riso, de Daphne. Ela ia começar com suas gargalhadas, mas rapidamente RCL deu-lhe uma gota de um remédio.
“Que remédio é esse?”, perguntei.
RCL explicou: “É um preparado à base de proparoxil-9. O doutor Penteado que receitou. Mas tem que ser muito bem diluído, senão é perigoso. Tipo arsênico.”
Mais essa! Na minha cabeça, mil pensamentos se cruzavam. Bem, mil é exagero. Mas foram pelo menos três: Quem matou Nove Dedos? Quem matou Beleza? A mesma pessoa que matou os dois?
Foi então que Zé Cabala, que andava tão calado nos últimos dias, disse uma frase que guardarei para sempre em minha memória: “Com mil macacos! Matei a charada!”
Cochichei em seu ouvido: “Você descobriu quem matou o Beleza?”
“Descobri.”
“Certeza absoluta?”
“Absolutíssima!”
“Quem foi?”, perguntei ansioso.
“Agora, não. Vamos ver o jogo. Depois eu conto.”
Roí as unhas durante todo o segundo tempo. Tentava raciocinar, mas não conseguia descobrir o culpado.
Minha saída foi me distrair com o jogo, que melhorou bastante.
Aos dez minutos, Jeba, volante do Banânia, acertou uma cobrança de falta na trave.
Aos dezessete, Ramilete, meia-direita do Laranjal, perdeu um gol feito na pequena área.
Lupinaldo, o jovem que substituiu Capacho, fez uma linda jogada aos trinta e dois minutos. Driblou dois defensores inimigos e colocou Fefê na cara do gol, mas ele deu um chute de bico por cima do travessão.
E, aos quarenta e dois, o lance que quase calou as arquibancadas. Harley Deividisson, do Laranjal, roubou a bola de Piche, o quarto-zagueiro bananiense, e tocou por baixo do goleiro Edgarson. Tudo parecia perdido quando Bip-Bip, o lateral-direito bananiense, correu feito um papa-léguas e conseguiu tirá-la em cima da linha.
Soprava um vento frio e o sol se punha quando o juiz apitou o fim da partida.
Zero a zero.
O título da Copa Salada de Frutas teria que ser decidido nos pênaltis.
*
(Como sexta é feriado e muita gente lê este folhetim no trabalho, vou antecipar o próximo capítulo para quinta-feira, amanhã. E aí finalmente você verá Zé Cabala dizer: "Quem matou o Beleza foi..." Além disso, teremos o concurso final. Prepare sua tese.)
Por Torero às 07h43
Tem enquete nova aqui do lado esquerdo. Palpiteie sobre a grande final entre Banânia e Laranjal.
Por Torero às 11h02
Hoje não tem 9x9, mas, se você quiser ler sobre um crime de verdade que envolve futebol e jornalismo, clique aqui.
Por Torero às 06h58
(arte de Rogério Quintanilha)
(No capítulo anterior, Berta despede nossa dupla de detetives)
23
Eram dez horas da manhã quando saímos do lupanar. Uma nuvem negra pairava sobre nossas cabeças. Guardamos nossas coisas na Kombi – não eram muitas - e nem mesmo nos despedimos de Berta e das meninas, pois estavam dormindo.
“Tudo pronto?”, Zé Cabala perguntou.
“Sim, vamos embora”, respondi.
Faltava um quilômetro para chegar à estrada. Meio sem querer, fiz uma sugestão:
“Estou com a barriga vazia. Por que a gente não toma um pingado antes de partir?”
“Com pão na chapa?”
“Com pão na chapa.”
“Vamos nessa!”
De algum modo Banânia já fazia parte de nós e era difícil partir sem ao menos um adeus. Queríamos olhar uma última vez para aquelas ruas empoeiradas, para aquelas vitrines vazias; guardar mais vivamente as lembranças de um lugar que poderia ter sido o local de nascimento de Gulliver & Zé Cabala – Detetives Particulares (também fazemos frete).
Só esquecemos um detalhe: era domingo de manhã.
Não havia praticamente ninguém nas ruas, exceto por uns bêbados, entregadores de jornal e meninos que iam para a escola dominical com caras de sono e bíblias debaixo do braço.
As lojas estavam fechadas e suas fachadas exibiam apenas pichações, restos de cartazes e cocôs de pombo.
A Kombi continuou zanzando sem rumo até que avistamos alguém ao longe. Era o jovem Paudervan. Ele varria o chão em frente ao Bar Mitzvah. Zé Cabala engatou a segunda e fomos até lá.
“Tudo beleza, Paudervan?”
“Nãnão.”
“Que é aconteceu, rapaz?”
“Eu só me fofodo!”
Paudervan abriu seu coração. Para economizar tempo e sílabas, eu mesmo relatarei sua história: Paudervan fora sorteado na promoção Torcedor Campeão. Ganhara os dois ingressos para assistir à final na tribuna de honra. Até já tinha convidado sua namorada.
“A Mamarcinha!”
Chegando em casa, porém, uma de suas irmãs o lembrou de algo. No exato dia da final, seus pais (velhos e doentes) iam comemorar bodas de ouro. A família toda se reuniria, parentes de longe tinham confirmado presença. Seria ele o único a faltar?
“Vocês não querem assistitir ao jo-jo-jo...”
“Jornal?”, perguntou Zé Cabala.
“Nãnão.”
“Joanete?”
“Nãnão.”
“Joelho?”
“Com mil macacos, Zé Cabala!”, gritei enfurecido. “Será que você não entende que ele está querendo dizer jogo, jogo, jogo!”
Foi preciso dizer aquela palavra três vezes antes que eu me desse conta do que aquilo representava.
Representava uma segunda chance. Era a oportunidade de retomar o fio de Ariadne!
Era como o renascimento da Fênix, de Eurídice, de Lázaro!
E, se não fosse tudo isso, pelo menos a gente via um joguinho antes de se mandar.
Pouco antes do jogo começar, estacionamos nas proximidades do Estádio Municipal. Tínhamos mais noventa minutos para resolver o caso.
Mostrando os ingressos que Paudervan ganhara, fomos admitidos na tribuna de honra. Era uma sala pequena, mas cheia de confortos.
Para começar, ela tinha apenas onze poltronas, como se fosse feita para um time de futebol. O ambiente era climatizado e duas moças risonhas de uniforme apareciam de tempo em tempo puxando um carrinho com bebida, salgadinhos e doces.
Por uma dessas coincidências que só acontecem nas histórias de detetive de segunda categoria, conhecíamos todos os nossos nove companheiros de sala.
RCL, enfiado num agasalho amarelo, nem parecia estar ali. Passava o tempo todo falando com seu auxiliar técnico através de um radinho que tinha sintonia chiada e irritante. “Bah!’, ele disse quando nos viu.
Suzi Mel, ao seu lado, se exibia num longo preto com cauda de lantejoulas douradas. Tinha um decote cavado e um broche em forma de cacho de bananas no centro do peito. “Tudo bem?”.
Um vestido indiano azul neném foi a opção de Daphne. Transparente, ele deixava à mostra sua calcinha e sutiã, que eram brancos. Uma tiara roxa prendia-lhe os cabelos. “Olha, fofo, eles vieram!”
Capacho apresentou-se num conjunto jeans e camiseta pólo de cores claras, que ajudava a disfarçar sua magreza. Sua perna direita tinha um gesso cheio de coraçõezinhos vermelhos. “Panacas!”
Jaci voltara ao clássico conjuntinho de camiseta branca e calça jeans. Passaria por uma viúva discreta, não fosse pelo anel em forma de quarto crescente que rebrilhava em seu dedo médio. “Que surpresa desagradável...”
Guttemberg, ao seu lado, nos lançava um olhar de cachorro bravo, como se quisesse continuar a briga interrompida de dias atrás. “Espero que fiquem longe de nós.”
Cabeça seguia com seu projeto de embelezamento. A barba de cinco dias era uma coisa do passado e ele trajava um paletó verde oliva, camisa de linho branca e calça de pregas bege-clara. O cabelo estava empastado de gel. “E aí, dupla de dois?”
Camisa xadrez, uma calça surrada e um par de tênis esburacados cobriam Margarido. Foi com essa roupa que ele viu o Banânia ser campeão pela primeira vez. Nem quis imaginar a situação da cueca. “É hoje, sherloques! É hoje!”
Mais próximo a nós, no fundo, Viriato usava uma camisa vermelha e um colete (sim, um colete) com adereços prateados. A calça era um jeans claro. Depois da briga com Nove Dedos, realmente acabou expulso do Laranjal. Mas tinha acertado contrato para jogar a próxima temporada pelo Banânia. “Oi, rapazes.”
Os times já estavam em seus lados, os repórteres já tinham se retirado para as laterais, a torcida cantava e o juiz consultava o cronômetro para autorizar o início da decisão. Como estávamos bem do lado da cabine de rádio, ouvimos nitidamente o grito de Nestor, o locutor:
“Apiiiiiiita o árbitro! É a hora da verdade!”
*
(Os desenhos dos personagens são de Rogério Doki)
(Aviso aos caros leitores e às caríssimas leitoras que ainda não é o momento de fazer o comentário com a resolução do caso, pois no próximo capítulo teremos uma importante revelação.)
Por Torero às 06h18


(No capítulo anterior, Suzi Mel conta que era chantageada por Beleza, que ameaçava contar o porquê de seu apelido Suzi Boca de Mel. Depois, todos vão à missa de sétimo dia do centroavante defunto)
22
Chegamos à Matriz do Bom Jesus das Bananas cinco minutos atrasados. O padre Rocha já fazia o sermão.
Ele escolheu como tema aquele trecho do Evangelho de Lucas em que o anjo fala às mulheres à porta do sepulcro: “Por que buscais entre os mortos o que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou.”
Não deixava de ser uma verdade. Pelo menos na minha cabeça, o Beleza continuava muito vivo.
Com a igreja lotada, tivemos que ficar em pé nos fundos, o que, para alguém da minha altura, significava ver bundas, bundas e bundas... Não reclamei.
Dos conhecidos, quase ninguém apareceu. As exceções foram Cabeça e Suzi Mel. Margarido chegou um pouco atrasado e nem conseguiu entrar.
Por ali só se via uma coisa: torcedores.
No fim das contas eram os únicos que amavam o Beleza. E sinceramente, porque, de longe, restrito às quatro linhas do gramado, ele não era nenhum golpista, estuprador de menores, mentiroso ou chantagista; era apenas o ídolo das tardes dominicais.
Os homens eram a maioria. Tinham o cabelo lavado e a barba feita. Muitos andavam com passo manco, por causa dos sapatos que lhes oprimiam os dedos. As mulheres pareciam uma versão suburbana da realeza com seus vestidos de festa resgatados do guarda-roupa. Os cabelos tinham formatos engraçados e os esmaltes brilhavam além da medida.
O cheiro que impregnava o ambiente era difícil de classificar. Seria um composto de naftalina, perfumes azedos, talcos de liquidação e loções de R$ 1,99. Felizmente as janelas permaneceram abertas durante o ofício.
Terminada a missa, a multidão saiu em silêncio, cortado apenas por um ou outro soluço.
Cabeça voltou rapidamente para sua casa, mas Suzi Mel ainda se animou a falar com alguns eleitores. Margarido se aproximou e comentou conosco.
“Político é uma merda! Não pode ver povo que já vai pedindo voto.”
“E você”, Zé Cabala perguntou, “vai votar nela?”
“Claro. Ela vai continuar botando dinheiro da família no Banânia.”
“E a cidade?”
“É menos importante que o time”. Ele riu e, logo em seguida, assoou o nariz. “E então, sherloques? Nada de novo?”
“Nada. Mas a gente está chegando lá!”
“Sabem de uma coisa? Agora eu já nem sei mais se quero que vocês encontrem o cara.”
“Não?”
“Sabem como é, pode abalar os jogadores. Com essas histórias todas eu já estou me sentindo inseguro.”
“Que histórias?”
“A morte do Beleza, o sumiço do goleiro e agora o Capacho.”
O espanto tomou conta de nossas expressões. Mais uma novidade? Mais um fato que nos escapava?
“O que houve com Capacho?”, perguntei.
“Deu no rádio agora há pouco. Ele sofreu um acidente em casa. Parece que machucou a canela e vai desfalcar o time.”
Zé Cabala começou a rir lembrando da briga de ontem. Confesso que senti um certo remorso. Margarido foi em frente:
“Mas quer saber? Deus escreveu certo por linhas tortas. O Lupinaldo joga muito mais bola do que ele. Não entendo porque o RCL estava insistindo com o Capacho.”
Eu disse: “Vai ver é porque o Capacho obedece às instruções dele””, mas pensei: “Nenhum técnico deixa o genro na reserva.”
*
Berta nos recebeu com um olhar de poucos amigos quando entramos pela porta do Musa Paradisíaca.
“E então, meninos?”
“Foi uma missa tocante”, respondi. “O padre Rocha estava particularmente inspirado.”
“Não é disso que eu estou falando.”
“E do que seria?”
“Do nosso trato. E aí? Chegaram a alguma conclusão? Descobriram o criminoso?”
“Estamos juntando as pistas, Berta. Tudo ficou um pouco mais complicado nas últimas horas. Cabeça voltou à lista e Suzi Mel entrou nela. Não temos evidências materiais e, por outro lado, há muita gente implicada.”
“Vocês sabem que dia é hoje?”
“Sábado?”
“Sinto muito, meninos, mas o tempo de vocês acabou. Como diria o Justus, vocês estão demitidos.”
“Tudo bem, Berta...”
“Hoje vocês ainda podem dormir aqui. Mas amanhã de manhã eu quero ver o quartinho desocupado.”
“Sim, claro.”
“E, naturalmente, não vou lhes dar um tostão.”
“Naturalmente...”
“Boa noite.”
“Boa noite...”
Não consegui dormir. E por três motivos. O primeiro era a dor do fracasso. O segundo é que deixáramos de ganhar nosso dinheiro. E o terceiro é que Zé Cabala roncava tão alto que eu tinha a impressão de estar deitado ao lado de um furacão.
*
(Segunda-feira, Zé Cabala e Gulliver dizem adeus a Banânia)
Por Torero às 06h54
(No capítulo anterior, nossos heróis (esta não é a palavra exata para Gulliver e Zé Cabala, mas vá lá...) descobrem que Suzi Mel deu um gel para Beleza passar no cabelo alguns instantes antes do jogo.)
21
Saímos tão cedo de Banânia que nem chegamos a ler o Diário. Em Laranjal, porém, compramos a edição do “Observador Municipal”. Já na capa, um estranho destaque: o goleiro Nove Dedos sumira.
O texto dizia:
“Até o fechamento dessa edição, às 20h30, o goleiro Nove Dedos não tinha se apresentado na concentração do Grêmio, iniciada às 18h00. Sabina R., sua diarista, disse tê-lo visto pela última vez na hora do almoço, quando discutiu com uma pessoa ao celular e saiu de casa às pressas.”
Aquela droga de história só se complicava.
“Querem um café, detetives?”, perguntou Cecílio, o gerente da concessionária. “É de máquina.”
Aceitamos e perguntei: “Cecílio, você conhece ou já ouviu falar do goleiro do Laranjal, o senhor Nove Dedos?”
“Se conheço o Nove Dedos? Essa é boa! Ele praticamente mora aqui.”
“Doido por carros, hem?”
“Jogador só tem cérebro para três coisas: carro, veículo e automóvel.”
“E as mulheres?”
“São acessórios dos carros.”
“Interessante. Bem, chegou ao nosso conhecimento que o Nove Dedos teria comprado uma picape aqui.”
“Importada, sim, senhor.”
“Nova?”
“Cem por cento.”
“Ele já pagou?”
“Cinqüenta por cento.”
“E o restante?”
“Ficou de acertar na segunda.”
“Pagou com cheque ou cartão?”
“Dinheiro vivo. Um bolão assim de notas de cem. Eu até brinquei com ele. Falei: ‘Cara, que banco você roubou dessa vez?’ Ele deu uma risadinha e fez uma piada que eu não entendi.”
“Que piada?”
“Disse que estava pensando em abrir uma avícola.”
Aquela frase encerrou nossa visita.
Voltamos para Banânia. Na entrada da cidade, compramos o Diário. O sumiço de Nove Dedos, que traumatizava Laranjal, lá se resumia a uma notinha de três linhas.
Mas, a propósito de notinhas, uma outra chamou-me a atenção. Falando em reforços para a próxima temporada, RCL citava o nome de Viriato. Aquilo me pareceu uma rematada burrice, e por duas razões:
A primeira: o zagueiro titular do Banânia se sentiria desprestigiado.
A segunda: o pessoal do Grêmio Laranjal, desconfiado da história, certamente não escalaria o becão para a final (se bem que, por conta da briga com Nove Dedos, talvez ele já não tivesse mesmo como continuar no Laranjal).
Em frente à casa de Suzi Mel, tivemos o desprazer de conversar com o mordomo pernóstico.
“O RCL está?”, perguntei.
“Cedo partiu para suas errâncias.”
“Disse aonde ia?”
“Não a este que vos fala.”
“E Suzi Mel?”
“Madame ainda há pouco deixou o lugar sob cujo teto me abrigo.”
“Sabe aonde foi?”
“Ao comitê, se o que me disse era a verdade.”
De posse do endereço, fomos até a sede da coligação “Banânia Para Todos”. Um nome sugestivo para um comitê político.
Batemos palmas uma, duas, três vezes e ninguém veio nos atender. Já tínhamos dado as costas para a casa quando o barulho de alguma coisa caindo ecoou lá fora.
“Você ouviu isso?”
“Ouvi.”
Meu amigo fez cadeirinha para eu pular o muro; depois alcançou-me do outro lado. Entrando pelo corredor lateral, ouvimos uns ahs e ohs. Eles vinham do que devia ser o quintal dos fundos.
“Mas o que é isso, Zé Cabala!?”
“Gente fazendo sexo.”
“Eu sei. Você não ouviu o ponto de exclamação junto com o de interrogação? Foi só uma pergunta retórica.”
“O que é pergunta retórica?”
“É quando você não faz realmente uma pergunta, mas sim uma afirmação em forma de... Ah, deixa para lá, vamos voltar para o carro.”
“Ainda não!”, disse Zé Cabala me pegou pelo braço. “Só uma olhadinha...”
No estrito interesse da investigação, concordei.
Demos uns passos e as vozes ficaram mais nítidas. Uma delas era de Suzi Mel. Mas e seu parceiro de cópula, quem poderia ser? RCL? Um correligionário do partido?
Avançamos mais um tanto. Agora já podíamos discernir frases.
A mulher dizia: “Você é dez! É o máximo! Muito melhor do que ele!”
E o homem, menos prolixo, balbuciava: “Uh! Uh!”
Faltava pouco para chegarmos a um ponto de observação favorável, mas aí o imponderável entrou em cena: Zé Cabala, que vinha logo atrás de mim, tropeçou e derrubou um monte de caixas, fazendo um barulhão.
Com isso, Suzi Mel surgiu, apavorada e nua, tentando esconder suas fartas carnes com suas pequenas mãos. A seu lado, o amante nem tinha essa preocupação.
“Cabeça!?”, exclamei e perguntei.
“Porra! O que vocês estão fazendo aqui?”
Suzi Mel lutava para colocar, o mais discretamente possível, uma calcinha. Estava furiosa:
“Vocês não podem entrar aqui sem um mandado. Isso é abuso! Vou exigir a cassação da licença de vocês dois!”
Aquela ameaça não nos causou medo, pois não tínhamos licença nenhuma. De qualquer forma, tentei usar de diplomacia:
“O seu mordomo, dona Suzi Mel, disse que a senhora estaria aqui no comitê. Paramos em frente e começamos a ouvir gemidos. A última coisa que passou pela nossa cabeça é que duas pessoas estariam fornicando. Achamos que a senhora estava sendo ameaçada e corremos risco de morte para defendê-la. Não é justo que fale conosco nesse tom de voz.”
Não sei se ela se sentia confusa, culpada ou o que quer que seja, o fato é que se acalmou.
“Agora vamos conversar como pessoas civilizadas. Que eu saiba, dona Suzi Mel, esse não é o seu marido.”
“É verdade... E quer saber por que estou com ele? Porque eu sou uma puta.”
“Não exagere.”
“Quer dizer, eu era uma puta.”
“Não exagere.”
“Mas eu era mesmo. Lá em Curral Velho, dez anos atrás. O Banânia fazia suas pré-temporadas lá.”
“Prossiga.”
“Nós sempre atendíamos os jogadores, era uma tradição. E eu era uma das preferidas por ser menor de idade. Tudo corria bem até que saíram uns livros idiotas dizendo que o sexo prejudicava o desempenho dos atletas. A comissão técnica acreditou nessa baboseira e eles receberam ordens expressas de não ir à zona. Todos obedeceram, menos uma pessoa.”
“Deixe-me adivinhar: o Beleza.”
“Já lhe contaram a história?”
“Foi só um palpite.”
“Ele ia lá todas as noites. Todas. E uma vez levou o Reginaldo.”
“O RCL?”
“Ele mesmo.”
“A mulher dele tinha morrido e desde então ele nunca mais tinha...”
“Já entendi, pode ficar nas reticências.”
“Pois naquela noite ele tirou a barriga da miséria.”
“Barriga? Não seria o...”
Pigarreei para interromper Zé Cabala. A sutileza não é o seu forte.
Suzi Mel continuou: A noite foi tão boa que ele pediu minha mão em casamento.”
“Que otário!”, comentou meu sócio em seu estilo franco e direto.
“Ele não era um otário, era um romântico”, disse Suzi Mel.
Tive vontade de dizer “dá no mesmo”, mas continuei calado.
“Eu era uma moça bonita. Sou ainda. Eu merecia mais do que lavradores, operários, caminhoneiros e jogadores de quinta categoria. Aceitei o pedido. Decidi mudar para Banânia, mas com a condição de apagar meu passado. Queria uma vida nova, uma história nova, até um nome novo.”
“Qual era o seu nome antigo?”, Zé Cabala perguntou.
“Suzi Boca de Mel.”
“Por quê?”, perguntou Zé Cabala. Às vezes seu raciocínio é mais lento que nossa kombi.
“Deixa para lá. O que importa é que ele aceitou as condições. Fui apresentada à sociedade bananiense como uma professora, o que não deixa de ser verdade, porque ensinei muitos garotos a...”
Interrompi: “E os bananienses caíram nessa?”
“As pessoas acreditam no que querem. Nós nos casamos e um mês depois já era convidada para dirigir a Liga de Senhoras. Peguei gosto pela coisa: mandar nas pessoas, ter assessores, ser aplaudida. Aquilo me arrepiava! Uma vez me candidatei e pá: fui a primeira mulher a ser eleita vereadora na cidade.”
“Deixe que eu continuo daqui”, disse o Cabeça, que, além das cuecas, já tinha colocado as meias e os sapatos. “Meu mano procurou a Suzi e disse que estava com saudades da sua boca de mel. A Suzi falou que aquilo tinha acabado, que ela era casada, mas o Beleza não estava nem aí: ou ela fodia com ele, ou ele fodia com a carreira política dela.”
“Aí eu virei escrava do Beleza”, Suzi concluiu. “Tinha que transar onde, quando e como ele quisesse. Às vezes o filho da puta me ligava no meio da noite, bêbado. Eu contava uma mentira qualquer para o Reginaldo e saía.”
“Poxa!”, Zé Cabala não se conteve. “Mas então você ficou super feliz quando o Beleza morreu?”
Um sorriso rasgou a boca de Suzi Mel.
“Feliz? Eu fiquei extasiada. Fiquei fora de mim de tanta alegria. Mas eu não o matei. Alguém me roubou esse privilégio.”
“E a história de vocês dois?”, disse apontando para ela e para Cabeça.
“É o seguinte: meu irmão morreu, mas eu também sabia do lance. Eu era o secretário dele, pô! E... pô, faz uma pá de tempo que eu estou de olho nela. Aí, na quarta-feira, quando as coisas estavam acalmando, eu liguei para a casa dela e... Bom, eu falei: eu sei o seu segredo, gata.”
“Na hora que eu ouvi aquilo eu fiquei louca”, Suzi completou. “Eu pensei: puta merda, isso nunca vai acabar!”
“Aí, pimba: a gente marcou um encontro.”
“Caraca!”, exclamou Zé Cabala. “Aquela hora, no bar, que você estava se embonecando...”
“Pode crer. Eu vim para cá e... Meu! Era tudo que eu imaginava e mais um pouco.”
“E eu descobri que o Cabeça era o meu par perfeito. Sexualmente falando, é claro.”
Se eu já estava me sentindo desorientado com a história até ali, fiquei totalmente confuso depois de ouvir as versões daqueles dois. Aquilo parecia não ter fim. Ia perguntar sobre a vasilhinha de gel quando um sino tocou ao longe.
“Caralho!”
“Que foi, Cabeça?”
“São seis horas.”
“Jesus amado!”, disse Suzi Mel.
“E daí que são seis horas?”, perguntei.
“Porra, cara, a missa!”
“Que missa?”
“A missa de sétimo dia do Beleza.”
Quando chegamos à rua, cada dupla entrou num carro. O deles estava atrás, o nosso na frente. Olhando pelo retrovisor, vi Suzi oferecer ao amante um pequeno vasilhame de plástico. Era o gel.
*
(No triste capítulo de sexta-feira, a demissão de Gulliver e Zé Cabala)
Por Torero às 05h46

(No capítulo anterior, Jaci e Guttemberg confessam seu amor lunático, e nossa dupla de detetives descobre que Daphne e Capacho vão casar.)
20
Resolvemos ir até a casa de RCL. Desta vez, nem precisamos tocar a campainha. Daphne estava sentada no banco do jardim. E Capacho estava ao seu lado.
“Oi, entrem”, ela disse quando nos viu. “Vocês sabiam que eu tinha voltado da clínica de repouso?”
“Ãrrã.”
“Eu vou para lá quando a coisa fica mais... sabe como é, né? Lá é lindo, gente, vocês precisam ir! Gramadinho, uma graça! E o café da manhã? Tem cereal, bolo de fubá...”
“Dafinha, meu bem”, Capacho segurou-a pelo braço. “Acho que você não deve ficar exposta ao sol desse jeito. Vou buscar um chapéu para você.”
“Dafinha!?”, exclamei e interroguei.
“É como eu a chamo.”
“Desde...”, reticenciei.
“Desde hoje de manhã, quando nós voltamos.”
“Voltamos? Voltamos a quê?”
“A namorar.”
“Ih, é uma confusão, nem tenta entender!”, Daphne completou. “A gente está sempre terminando e voltando, terminando e voltando.”
“Não diga.”
“Digo. Mas agora isso acabou. Acabou, não é, fofo? A gente está de casamento marcado.”
“Dois suspeitos de assassinato se casando? Parece que essa é a moda em Banânia.”
“Nós somos suspeitos???” perguntou Capacho com ênfase.
“Claro!”, eu disse. “Os dois têm motivo: ela está grávida de um filho dele e você queria a vaga de titular.”
Capacho não gostou do meu tom inquisidor. Desmentindo o apelido, ele me empurrou e disse:
“Repita isso se tiver coragem.”
Sou pequeno, mas o tamanho de um homem nada diz sobre seu temperamento. Tenho gênio de brutamontes. Não pensei duas vezes. Na verdade, nem uma. Dei-lhe um tremendo pontapé na canela.
“Ui, ui, ui!”
Capacho recuou, gritando de dor e pulando numa perna só.
“Isso foi golpe baixo!”, reclamou Capacho.
“Vindo dele, todos os golpes são baixos”, disse Zé Cabala. Ah, como odeio estes trocadilhos.
Houve um xinga daqui, xinga dali, até que Daphne se impôs.
“Pára, pára!”
Quando ficamos mais calmos, ela falou: “Gente, que horror! Eu não estou entendendo nada. Que história é essa de que nós somos suspeitos?”
Como eu ainda estava um tanto excitado por causa da briga, Zé Cabala deu as explicações:
“É o seguinte: o Beleza morreu porque botaram um veneno no corpo dele. Você deu um copo d’água para ele, não deu?”
“Dei.”
“E você jogou spray nos olhos dele, não jogou?”
“Como vocês descobriram?”
“Não interessa!”, falei, retomando a direção da conversa. “O que importa é que vocês dois tiveram a oportunidade de matá-lo. Enquanto não tivermos certeza de que não foi uma coisa nem outra, vocês são suspeitos.”
“E a bruxa da minha madrasta fica fora dessa?”, Daphne perguntou.
“O que tem a Suzi Mel?”
“Lembra que eu contei para vocês: eu estava no corredor que dá para o vestiário, esperando o Beleza?”
“Sim, para falar do seu filho.”
“Do nosso filho!”, corrigiu Capacho com orgulho cornal.
“Pois é, então”, prosseguiu Daphne. “Eu estava lá, esperando de bobeira, aí fiquei nervosa e dei uma saidinha até a porta. Quando vejo, ele está no maior papo com a Suzi Mel. Ela estava mexendo no cabelo dele, assim, e aí tirou da bolsa uma vasilhinha. Sabe gel?”
“Sei.”
“O Beleza abriu a vasilhinha e começou a passar no cabelo.”
“Ela passou?”
“Não, ele. Ela só ia falando assim: põe mais aqui, põe mais ali... Esse veneno que vocês falaram pode entrar no corpo da pessoa pelo couro cabeludo?”
Podia.

“Arrá!”, disse Berta quando dissemos que Suzi Mel tinha entrado para a lista de suspeitos.
“Arrá o quê?”, perguntei.
“Arrá que sempre achei aquela mulher meio estranha.”
“Não tem nada a ver, Bertoca”, disse Zé Cabala. “Que motivo ela tinha para matar o cara?”
“E eu sei lá? Isso não é meu trabalho. Mas, se ela é inocente, por que não contou antes?”
Berta não esperou pela nossa resposta – e não teríamos nenhuma. Ela levantou de sua poltrona forrada em tecido com motivos banânicos e começou a andar resmungando palavrões. Achei que era meu dever acalmá-la.
“Calma, Berta, é só uma questão de tempo até apanharmos o culpado.”
“Arrá!”
“Arrá o quê?”
“Você disse que é uma questão de tempo, mas prometeu me entregar o culpado antes da final. E nos já estamos na sexta-feira.”
“Bem...” disse eu sem nada para dizer.
“Olha, eu vou ser sincera, meninos: acho que vocês não vão conseguir resolver o caso a tempo.”
“Mas é claro que vamos!”
“Como, criatura, como? Esse negócio da picape, por exemplo. Eu não entendo como o cara quase bate em vocês e fica por isso mesmo. Se fosse num filme, vocês tinham dado um cavalo-de-pau e seguido o cara.”
“Um cavalo de pau com a nossa Kombi? A Hebe não ia aguentar.”
“Bom, pelo menos uma meia-volta.”
Tentei acalmar nossa contratante e improvisei uma mentira: “Fique tranquila, Berta. Já tínhamos decidido ir amanhã até Laranjal.”
“Tínhamos?” Como sempre, Zé Cabala não podia manter a boca fechada.
“Vamos falar com o rapaz da concessionária e, na volta, teremos uma conversinha com Suzi Mel. Só peço que você mantenha a calma, minha cara, porque nós já passamos por isso milhões de vezes e sabemos exatamente o que estamos fazendo.”
“Milhões?”, ela perguntou.
“Está bem, milhares”, falei com modéstia.
*
(Por questões cabalísticas, voltarei a escrever às segundas, quartas e sextas. Mas inventarei algo para as terças e quintas)
(No gigantesco capítulo de quarta-feira, teremos sexo (finalmente!) e o desaparecimento de um de nossos personagens. Quem será?)
Por Torero às 06h18
(No capítulo anterior, Viriato bate no goleiro do Laranjal, acusando-o de ter se vendido, nossa dupla de detetives conhece o glorioso Espaço Beleza e quase bate Hebe Camargo, sua velha perua)
19
Mal a noite caiu e fomos para o Templo da Lua.
Lá, fomos levados para uma sala em forma de quarto crescente. Logo chegaram Jaci e Guttemberg. Sentamos ao redor de uma mesa redonda. Pensei em fazer um preâmbulo, dizendo que sabíamos que o Proparoxil-9 tinha sido colocado no bom-bocado ou na banana, mas, nem tivemos tempo de falar nada.
Jaci foi direta: “Nós estávamos tramando tudo há muito tempo.”
Guttemberg foi seco: “Somos culpados.”
Eu e Zé Cabala trocamos um olhar palerma. Não pensamos que as coisas seriam tão fáceis. Resolvi saber dos detalhes.
“Senhor Guttemberg, admiro sua franqueza e sua objetividade. Nossa cliente, porém, vai querer saber a história completa. O senhor poderia começar pelo começo?”
“Sim, claro. Bem, eu vim para Banânia há uns dez anos. Como não conhecia ninguém, procurei a igreja. Minha família é toda de lunáticos, e eu fui criado ouvindo as verdades da Mãe das Noites.”
“A Lua, presumo.”
“Ela mesma. Agora é preciso que o senhor entenda uma coisa, senhor Gulliver, um detalhe da nossa organização.”
“Sou todo ouvidos.”
“Quando um lunático forasteiro chega a uma cidade, ele é auxiliado por um fiel local. Nós chamamos esse auxiliador de irmão-satélite. Ele é quem cuida da sua mudança, quem o apresenta aos irmãos de fé, quem trata, enfim, de facilitar sua adaptação ao novo meio.”
“E seu irmão-satélite foi Jaci”, disse eu fazendo ares de Pepe Carvalho.
“Exatamente. Nós passávamos grande parte do tempo juntos, conversamos muito e foi aí que eu fiquei sabendo da história dela.”
“Que história?”, perguntou Zé Cabala.
Jaci perdeu a paciência: “A minha, saco! Que o Beleza me chifrava, me batia. Quantas vezes eu vou ter que falar disso?”
Não gostei do tom de voz dela e intervim: “Tantas quanto for necessário, se me permite. Devo lembrá-la que a senhora acabou de confessar um homicídio.”
“Eu?”
“A senhora não disse que tramou tudo?”
Jaci olhou para cima, como quem pede paciência aos céus, ou ao teto, e disse:
“Seu QI é mais baixo que você, hein? Eu quis dizer que nós tramamos o nosso casamento.”
Senti-me ofendido duplamente. Detesto ser xingado com trocadilhos rasteiros.
Guttemberg tomou a palavra: “Somos culpados por desejar -desejar, note bem- a morte do Beleza. Se vamos pagar por esses maus pensamentos? Claro, mas não perante a justiça dos homens, e sim perante o tribunal da Santa Lua.”
Com mil coiotes uivantes, aquela história de “somos culpados” era só um jogo de palavras!
Depois dessa desconfissão, Jaci falou: “Com licença, vamos voltar para nossa Lua-de-mel.”

Desolados, eu e Zé Cabala fomos para o Musa Paradisíaca. Lá encontramos o doutor Penteado, médico do Banânia e de Daphne.”
Ele estava com a anã sentada em seu colo, o que, confesso, me incomodou um pouco.
O médico não se encabulou com aquele encontro e disse: “A Berta me falou que vocês queriam falar comigo a respeito da filha do Reginaldo.”
“Sim, a senhorita Daphne.”
“Eu trato essa menina desde criança. Ela sofre de uma doença rara chamada Síndrome de Kormanski. Essa doença se caracteriza pela formação de pequenos inchaços no sistema nervoso central. Dependendo do lugar em que esses inchaços se formam, ocorre uma alteração da freqüência dos circuitos elétricos.”
“O que isso provoca?”
“No caso dela, uma descarga de serotonina.”
“Que seria...?”
“Serotonina é um neurotransmissor. Ela é a responsável pela liberação de alguns hormônios que nos dão sensações como prazer e felicidade.”
“Daí as gargalhadas.”
“Exatamente.”
“Por um momento pensei que fosse por causa do meu tamanho.”
“Imagine, seu tamanho é ótimo.”
Tive a impressão de que ele me deu uma piscadela, mas fiz que não vi nada e perguntei: “Diga-me uma coisa, doutor Penteado: essa síndrome tem algum efeito colateral?”
“Há pouquíssimos estudos publicados, e infelizmente nenhum deles é conclusivo. Na maioria das vezes tudo se resume a um ataque de euforia, mas foram relatados alguns casos de violência.”
“Ela teve algum desses casos?”
“Que eu saiba, não. Mas por que vocês não perguntam para ela? Daphne já voltou da clínica. E parece que está noiva.”
“De quem?”
“Do Capacho.”
Mais um casamento. E nem estávamos em maio.
[No próximo capítulo (agora faltam menos de nove), finalmente Gulliver bate em alguém (mas com um golpe baixo, é claro)]
Por Torero às 06h10
18
(No capítulo anterior, Gulliver, o anão, quase briga com Guttemberg, o paralítico. Mas o Sumo Sacerdote do Sacro Plenilúnio conseguiu evitar o confronto de titãs)
Na manhã seguinte, a manchete do Diário de Banânia era: “Pau come no treino do Laranjal.”
Nosso amigo Viriato era o destaque numa foto no alto da página. Ele estava sendo contido por outros nove jogadores enquanto tentava chutar um goleiro caído no chão. A legenda dizia: “Viriato acusa: Nove Dedos se vendeu.”
“Quem é Nove Dedos?”, perguntou Zé Cabala.
“Diz aqui que é o goleiro do Laranjal. Suspeito, não?”
Menos de uma hora depois estávamos sentados no sofá lilás de Viriato.
Ele estava com um olho inchado e uma mão enfaixada.
“E aí: já pegaram o assassino?”
“Hoje estou achando que foi a viúva.”
O becão ergueu as mãos para o alto e começou a comemorar: “Eu sabia! Ah! Ah! Ah! Eu sabia! E pensar que por anos eu fui o único a desconfiar daquela mocréia!”
“Na verdade, nós achamos que ela tem um cúmplice: aquele jornalista, o Guttemberg.”
“Coitado, deve ter sido manipulado pela Jaci. Mulher não presta.”
“E esse Nove Dedos, o que ele fez?”
“Se vendeu!”
“Como é que você sabe?”
“Ontem cedo ele me apareceu no treino com uma picape laranja. Zerinho, zerinho! Na hora eu liguei para o Cecílio.”
“Quem?”
“O Cecílio, da concessionária. Perguntei para ele: ‘Cecílio, e essa história do Nove Dedos’. E ele disse: ‘Ah, ele veio aqui ontem, pá-pá-pá’. Aí o que eu faço: ligo para o Nove Dedos e digo que sou representante do Banânia, que a gente precisava conversar, coisa e tal...”
“E...?”
"E não é que o canalha se entregou? O vagabundo disse assim: ‘Conte comigo, meu amigo. Vamos conversar sobre o novo jogo. Mas a gente tem que dar uma repensada nos valores.’ Pode?”
“Ele falou isso?”
“Palavra por palavra.”
“E quando você se identificou?”
“No treino da tarde.”
“Como ele reagiu?”
“Mal. Me chamou de bicha maluca, espalhafatosa, fofoqueira e mentirosa.”
“E o senhor?”
“Quebrei a cara dele. Mentiroso eu não sou.”
Fizemos uma viagem de volta tranqüila, com tempo para reparar nos laranjais que, aos poucos, iam cedendo lugar ao verde dos bananais.
Quando já estávamos chegando no trevo, um carro entrou cantando os pneus na rodovia e quase bateu na Hebe Camargo (é como chamamos nossa idosa perua). Fomos parar no acostamento e a Kombi morreu. Um susto dos diabos! Zé Cabala teve que mostrar seus reflexos.
“Você viu o carro?”, perguntei.
“Tanto vi que brequei.”
“Notou que era uma picape laranja?”
“Notei. E daí?”
“Nada, nada...”
Zé Cabala religou a Hebe, que tossiu um pouco mas pegou. Ela é velha mas aguenta o tranco. Eu detestava admitir, mas havia algo de estranho no fato de o goleiro do Grêmio Laranjal aparecer em Banânia. Ainda mais dirigindo daquele jeito.
Quando estávamos a um quilômetro do Centro, uma pessoa fez sinal para que parássemos. Era Margarido.

“Ei, sherloques, vamos para o Espaço?”
“A Hebe não é exatamente um foguete”, respondi.
“O Espaço Beleza”, ele explicou. “Eu terminei de ajeitar. Não querem ver como ficou?”
Como tínhamos que enrolar até a noite, quando poderíamos falar com Gutemberg e Jaci, aceitamos.
Pulamos o tour e fomos direto conhecer o Espaço Beleza, que ocupou o lugar do antigo quarto de Margarido. Onde antes havia uma cama, um guarda-roupa e um criado-mudo, agora só se viam lembranças do goleador.
O proprietário se mudou para uma edícula de oito metros quadrados nos fundos da casa.
O Espaço Beleza tinha coisas como: a foto de sua primeira comunhão, seu boletim escolar, roupas velhas, chuteiras, meiões, bonés, fotos e recortes de jornais.
As camisas do B.E.C. ocupavam uma das paredes. Eram cinco ou seis. A da última partida estava até emoldurada atrás de um vidro. Ela ficava no centro, como um sol rodeado por astros de menor importância.
Margarido ainda fez questão de nos mostrar uma coisa antes de partirmos. Remexendo nos bolsos da calça, tirou dali uma carteira. Aí, abrindo-a com cuidado, mostrou-nos um ingresso.
“Olhem só o que eu comprei. Vou ver o jogo lá das sociais. Na tribuna de honra.”
Balançamos a cabeça fingindo admiração. Ele continuou:
“Tive que entrar no cheque especial, mas tudo bem, o Banânia merece.”
Confesso que senti alívio quando entrei na Kombi. Um pouco porque não tenho paciência para fanáticos como Margarido e outro tanto porque estava ávido para interrogar Jaci e Guttemberg. Já me preparava para pôr o cinto de segurança quando meu parceiro deu um grito:
“Já sei!”
“O quê?”
“A picape laranja! Será que era o goleiro do Laranjal que estava dirigindo ela? E, se era, o que ele estava fazendo em Banânia? Será que isso tem alguma coisa a ver com o crime?”
“Tenho que lhe dizer uma coisa, Zé Cabala.”
“Diga.”
“A velocidade do seu raciocínio é espantosa.”
“Ah, imagina...”, disse ele afetando modéstia.
“Estou falando sério.”
“Ora, ora, o que é isso, Gulliver... Se você treinar bastante pode ficar igual a mim.”
(No próximo capítulo, Jaci e Guttemberg confessam)
(O nome escolhido para a Kombi foi Hebe (enviado por Denilson), que até lembra um pouco “Herbie”, o nome do carro de “Se meu fusca falasse". Dercy Gonçalves e Gretchen também foram cogitadas, mas, em questão de perua, Hebe é imbatível.)
Por Torero às 07h36
17

(No capítulo anterior, Gulliver e Zé Cabala conhecem a mãe de Capacho, digo, Redernílson, e descobrem que ele era um pequeno gênio em química. Depois, vão até o Templo do Luar, onde Guttemberg, o cronista esportivo, e Jaci, a viúva de Beleza, iriam se casar)
O Templo do Luar tinha a forma de uma grande bola. Ou, no caso, de uma lua cheia.
Um diácono nos recebeu à entrada. Estava enfiado numa túnica branca e, em sua careca, havia várias tatuagens que imitavam crateras lunares.
Pensei que seríamos barrados, mas Zé Cabala colocou as duas mãos sobre seu turbante, curvou-se e disse: “Salve, irmão lunático”, com o que o diácono fez uma grave reverência e nos deixou passar.
O casamento devia ter acabado há uns poucos minutos quando chegamos, pois Guttemberg estava à porta, recebendo cumprimentos ao lado de Jaci.
Entramos na fila e esperamos a nossa vez:
“Meus intrigados parabéns”, disse aos noivos.
“Você convidou esses dois?”, perguntou Jaci, aborrecida.
“Claro que não, querida”, respondeu Guttemberg. “Se você quiser posso tirá-los daqui agora.”
Guttemberg desabotoou seu paletó. Aquilo equivalia a um chamado para a briga. Ergui os braços e fechei os punhos. Zé Cabala optou por uma posição de caratê. Alguns convidados saíram correndo apavorados.
Eu sentia que estava perto da resposta e não podia recuar. Resolvi provocá-los:
“Você não acha estranho, Zé Cabala, esses dois se casarem quatro dias depois da morte do Beleza?”
“Sim!”
“Você não acha estranho eles terem escondido isso?”
“Sim!”
“Será que eles não queriam que a gente concluísse que a morte do Beleza era a condição sine qua non para eles ficarem juntos?”
“Sine o quê?”
“Apenas concorde.”
“Sim!”
“E mais. Você não acha estranho eles ficarem tão chateados com a nossa presença?”
“Bem, até dá para entender. Eles acabaram de casar e querem...”
“Chega!”, gritou o noivo, tirando o paletó e jogando-o no chão. “Eu não vou agüentar isso calado. Minhas pernas não funcionam, mas meus punhos são mortais. Quem vem primeiro?”
Zé Cabala recuou um passo e Guttemberg levou o braço para trás. Naquele instante, até imaginei a manchete do Diário de Banânia para o dia seguinte: "Paralítico e anão fazem duelo de titãs."
Já me preparava para o pior quando um grito ecoou no salão:
“Parem!”
O grito fora dado por um homem velho e com cabelo e barba compridos: o Sumo Sacerdote do Sacro Plenilúnio. Jaci e Guttemberg ergueram as mãos e fizeram dois círculos em cima de suas cabeças - provavelmente uma saudação dos lunáticos.
“Posso saber o que está acontecendo?”
Jaci tomou a palavra: “Mestre, esses dois homens nos chamaram de assassinos. E, pior que isso, vieram ao casamento sem serem convidados.”
“Se o que a irmã Jaci disse é verdade, aconselho que os senhores se retirem”, disse o lunático-mór.
Decidi me defender: “Ela não disse toda a verdade, senhor. Há fortes indícios de que esse casal tramou a morte do Beleza. Temos que fazer algumas perguntas.”
“Sinto muito”, disse o Sumo Sacerdote do Sacro Plenilúnio. “Se os senhores quiserem falar com os nubentes, terão que esperar até que se cumpra a amorosa alunissagem nas crateras do Leito da Tranqüilidade.”
“A lua-de-mel?”
“Em linguagem pagã.”
“Então voltaremos amanhã cedo.”
“Cedo não, só quando a Mãe de todas as Mães nos tiver honrado com o fulgor prateado de sua presença.”
“Quê!?”
“Ele quis dizer à noite, Zé Cabala, quando a Lua aparecer no céu. Tudo bem, só queremos a garantia de que eles não fugirão.”
“Os senhores têm a minha palavra.”
Quando viu que tudo estava terminado, Jaci se abaixou para ficar da minha altura. Era como se labaredas saíssem do seu olhar. Ela bateu com o buquê de flores no meu peito e disse:
“Preste atenção, nanico. Vocês atrapalharam o meu casamento e eu não gostei disso. Pensem bem no que vão fazer, porque, se vocês não se comportarem, eu vou destroçar vocês!”
“Irmã!”
“Perdão, mestre.”
“Em nossa igreja não agimos dessa maneira.”
“Eu sei, mestre”. E, com ares de doida, concluiu. “Eu ainda tenho muito a aprender para ser uma verdadeira lunática.”
“Nem tanto”, emendou Zé Cabala.
[No capítulo de amanhã, o pau vai comer (sim, tem a ver com Viriato)]
Por Torero às 07h01
16
(No capítulo anterior, nossa dupla de detetives descobre que Guttemberg, o cronista esportivo, e Jaci, a viúva de Beleza, vão se casar)
Dez minutos depois estávamos em frente à redação do Diário de Banânia. Aquilo causou uma sensação de dejá-vu. Era como se tivéssemos voltado ao primeiro dia da investigação. Parecia que andávamos em círculo. Ou talvez fosse em espiral, cada vez nos aprofundando mais na vida dos suspeitos. De qualquer modo, estávamos ficando meio tontos.
Fomos atendidos por uma secretária de cabelos espetados e piercing no nariz. Li seu nome no crachá.
“Marcinha, eu queria falar com o senhor Guttemberg, por favor.”
“Está de licença, sangue bom. Tirou uns dias para casar. Maior bosta, cara, maior bosta!”
“Por quê?”
“É que eu odeio essas frescuras, tipo maquiagem, calcinha, sutiã. E, pô, vou ter que usar hoje à noite.”
“No casamento?”
“Só.”
Rindo, virei-me para Zé Cabala: “Que engraçado! Nós também vamos ter que usar, não é?”
“Sutiã?”
“Não, Zé Cabala, essas frescuras, tipo terno e gravata.”
“Ah, claro...”
Virei-me para Marcinha e perguntei:
“Diga, querida, a que horas mesmo nós devemos chegar na Matriz para o casamento?”
“Que Matriz?”
“Não é na Matriz? Será que eu me enganei?”
“Está zoando, brô? O Guttemberg é dos lunáticos, meu! Vai casar lá naquela igreja de maluco deles. Às oito, tá ligado?”
Tínhamos três boas horas pela frente antes do casamento de Guttemberg. Para passar o tempo, decidimos fazer uma visita a Capacho. Ligamos para o Memorial das Glórias Inesquecíveis e Margarido nos deu o endereço.
“Rua Drosófila, 45, é aqui”, disse eu ao chegarmos.
Batemos palmas em frente a uma casa simples, um bangalô de madeira cercado por uma horta mal cuidada. Uma senhora de cabelos brancos veio lá dos fundos carregando uma bacia com milho:
“Vocês são colegas do Redernílson?”
“De quem?”, perguntei segurando o riso.
“Do meu menino, o Redernílson.”
“O apelido dele é Capacho?”
“É, mas eu detesto. Imagina, trocar um nome bonito desses por um apelido. E vocês são quem?”
“Somos jornalistas, boa senhora. Viemos fazer uma entrevista com o Capacho, digo, Redernílson.”
“Ele não está, mas podem esperar aqui dentro.”
A simpática velhinha nos levou até um pequeno poleiro, atrás da casa, onde havia umas doze galinhas, e ficou atirando milho para elas.
“É já que eu acabo, gente. Aí vou passar um café para vocês”, disse a mãe de Capacho. “Meu nome é Maria da Purificação. E vocês”
“Juca Kfouri, seu escravo”, disse Zé Cabala.
E eu falei: “Jorge Kajuru, ao seu dispôr.”
“Pois é, o Redernílson está nervoso como o jogo, sabe? Eu não posso falar nada, que ele já fica todo... Cruz credo!”
Pensei que dona Maria da Purificação poderia nos contar alguma coisa sobre Capacho e perguntei:
“Sabe?, nós estamos querendo mostrar aos leitores o lado humano do Redernílson, o que ele gosta, o que não gosta... A senhora poderia nos dar uma mãozinha?”
“Tudo pelo meu Redernílson. O que vocês querem saber?”
“Que tal se a gente desse uma espiada no quarto dele? Algo me diz que ali nós vamos encontrar um bom material.”
Além da cama de solteiro, o quarto de Capacho tinha uma cômoda e um guarda-roupa. Uma escrivaninha velha ficava do lado da porta. Enquanto falava conosco, a boa velha ia tirando o pó dos móveis com uma flanela cor de abóbora.
“O Redernílson gosta de ficar aqui lendo, ouvindo música.”
“Ele era estudioso no tempo da escola?”
“Demais da conta! Estão vendo aquilo lá em cima?” perguntou ela apontando para o guarda-roupa. “Pega para mim.”
Zé Cabala esticou o braço e apanhou uma caixa. Nela estava escrito “Laboratório Químico Juvenil”.
“A paixão dele: química. Era um dez atrás do outro. Ele passava a tarde fazendo experiência, misturando coisas. Uma vez ele inventou um veneno... Precisa ver, acabou com uns ratos que estavam azucrinando a gente. Os coitados amanheceram durinhos: as patas para cima, o olhão parado! Podia ter virado um cientista. Pena que...”
“Que...?”
“A televisão faz um mal muito grande, sabe? Só fala de futebol, futebol... Aí os meninos se encantam e deixam o estudo de lado.”
“É.”
“Garoto de tudo, ele me vai fazer um teste no Banânia. Fez escondido, que eu nunca que ia deixar. Não, senhor. Que desperdício! Um menino tão inteligente! Foi, passou e começou a jogar. Quer dizer, jogar não, que aquele bêbado, tarado, sem-vergonha não deixava. Até pôs o apelido no Redernílson... Mas Deus é pai, ele ouviu as minhas... Gente, eu aqui falando, esqueci do café. Espera que eu vou pôr a água no fogo.”
“Não, não, pode deixar. Já está na nossa hora. Voltamos amanhã.”
Vinte minutos depois, estacionávamos nossa poderosa Kombi na frente do Templo do Luar.
(No próximo capítulo, o casamento dos lunáticos Guttemberg e Jaci)
[Enquete: Preciso de um nome para a Kombi. O melhor palpite ganha um livro autografado (o sebo paga mais se tiver o autógrafo)]
Por Torero às 07h19
15

RCL dirigia o treino do banco de reservas. Como da outra vez, usava o alto-falante e dava ordens para os jogadores.
“Retroceda pelo meio, Minhoca! Recomponha a linha de amparo!”
Para nossa surpresa, Capacho treinava entre os reservas. Parecia desmotivado e sem ânimo. No seu lugar jogava um garoto franzino e imberbe. Não entendo muito de futebol, mas era visível o modo como ele se destacava.
Esperamos o treino acabar. Enquanto os jogadores iam para o vestiário, perguntei para RCL: “Podemos conversar?”
“Mais tarde.”
“Quando?”
“Depois que o Corinthians voltar para a Séria A.”
“Poxa, não dá para esperar tanto. Uma palavrinha só... O que é que custa, prefeito?”
Ele virou o corpo num rodopio teatral e disse: “Eu vou te dizer o que é que custa: custa a paz do meu lar! Minha filha ficou tão perturbada com aquela conversa que não conseguiu parar de rir. E aí Suzi Mel me obrigou a levá-la para uma clínica de repouso. Isso é o que custa!”
“Parece que sua filha e sua esposa não se dão muito bem”
“Não, não muito.”
“Quanto tempo depois da morte da mãe de Daphne o senhor casou com Suzi Mel?”
Ele olhou para o círculo central, como se lembrasse de um tempo distante e disse: “Uns seis meses. O Banânia foi jogar em Miravacas e eu fui convidado para fazer uma palestra numa escolinha municipal. A Suzi Mel era uma das professoras. Teve um almoço depois, eu peguei o endereço dela, carta daqui, carta dali...”
“Seis meses não é muito tempo.”
“O que isso tem a ver com a morte daquele verme?”
“Toda informação pode ser útil. Quando Daphne volta da clínica?”
“Quando parar de rir.”
"O senhor não sabia mesmo que ela estava grávida?"
RCL tinha sinais de transtorno. Suava nas têmporas e a veias do pescoço saltavam num ritmo nervoso.
“Eu não matei o Beleza, está bem? Por causa dele eu sou o técnico mais vitorioso da história do Banânia. Se sou grato a ele por isso? Sou. Se admirei ele como jogador? Muito. Agora escutem: o Beleza deve muito a mim também. É, a mim! Ninguém dá valor, mas alguém teve que armar o time para ele fazer aquele monte de gols. E em troca disso...”
Ele passou a mão pelo rosto.
“Se eu soubesse, se eu tivesse a mais leve desconfiança de que ele estava abusando da minha filha, eu já teria posto estricnina na infiltração dele.”
“Que infiltração?”, Zé Cabala perguntou. Fiquei feliz de ver que ele estava atento.
“Como assim?”
“Infiltração! O senhor falou em infiltração.”
“Nunca!”
“Claro que falou. O senhor aplicava infiltração nos jogadores?”
“Raramente.”
“No Beleza?”
“Uma ou outra vez.”
“E no dia do jogo, você aplicou?”
“Sim, como sempre.”
“A seringa”, um sorriso iluminou meu rosto. “Com mil macacos! Onde está a seringa?”
“Bem...”
“Deixe-me adivinhar: foi destruída.”
“Claro. Vocês acham que eu sou trouxa? Se o pessoal da Federação pega, eu estou fodido.”
A seringa era mais um modo de inocular o Proparoxil-9 no Beleza. Já tínhamos a banana dada pelo Gutemberg, o copo de água de Capacho, as flores de Viriato, a cachaça do Cabeça e o spray de Daphne. E isso sem falar no bom-bocado de Jaci. Eram pelo menos sete modos de matar o Beleza.
Resolvemos dar uma passada no Bar Mitzvah. Não que tivéssemos esperança de encontrar a garrafinha de cachaça. Se Cabeça tinha alguma culpa no cartório, certamente já teria se livrado dela. No fundo só queríamos beber alguma coisa.
Zé Cabala entrou dando um tapa na mesinha de ferro: “Paudervan, uma cerveja e um amendoinzinho!”
“Já estatá sassaindo.”
Cabeça estava atrás da caixa registradora. Assim que ouviu o tapa na mesa de ferro, olhou para nós. Notamos, com certa admiração, que ele tinha feito a barba.
Depois de alguns instantes, ele saiu de lá de trás da caixa registradora e se pôs diante de um espelho. Espelho que, inclusive, era uma aquisição nova. Foi pregado no lugar onde antes ficava o retrato do Beleza. Freud explica.
Cabeça lavou o rosto, cheirou as axilas e, após tirar uma tesourinha do bolso, passou a cortar os pelos das narinas. Higiene feita, veio andando na nossa direção.
“Sintam-se em casa, rapazes.” E depois, já perto da porta. “Vou dar um pulinho ali e já volto.”
“Mulher?”, perguntei.
“Sim.”
“E, para você tirar os pelinhos do nariz, deve ser coisa nova.”
“Isso mesmo. Já teve alguma mulher que você sempre quis comer e nunca conseguiu?”
“Está brincando? Olhe bem para mim.”
“Pois é, então. Eu consegui. Tinha um obstáculo, mas agora não tem mais. Olhem só, estou até tremendo!”
“Paixão é uma coisa perigosa”, disse eu. “Muito gente perde a noção do certo e do errado por causa dela.”
“Tudo bem, vale a pena”, disse Cabeça antes de sair pela rua assobiando Raindrops keep falling on my head.
Paudervan apareceu logo em seguida com a cerveja e os amendoins. Sempre indiscreto, Zé Cabala perguntou se ele sabia quem era o novo amor de Cabeça. Estiquei o pescoço para ouvir a resposta:
“Nãnão. Mamas acho que hoje é o didia dos apapaixonados. Já é o sessegundo que apaparece.”
“Quem foi o outro?”, perguntei.
“O Guguttemberg. Ele didisse que ia cacasar com a Jajaci, a viúva do Bebeleza.”
Por Torero às 07h41
(No capítulo anterior, Daphne confessa que está grávida de Beleza)
14
Um longínquo trovão explodiu no céu, quebrando o negrume da noite. Berta fez o sinal da cruz.
Zé Cabala estava ao nosso lado. Tinha um termômetro na boca e os pés enfiados numa bacia de água quente. A chuva que tomamos na porta da casa de RCL não lhe fez muito bem. Se pelo menos ele tivesse tirado aquele turbante encharcado...
“Acho que o Professor já sabia da gravidez de Daphne”, falou Berta. “Um pai não pode ser tão bobo assim.”
“Falando nisso, qual é a história daquela adorável família?”, perguntei com ares de Miss Marple.
Berta tomou um gole do licor de banana, mudou a posição das pernas e, pudica, cobriu os joelhos com a barra do vestido antes de dizer:
“O Reginaldo é filho das duas famílias fodonas daqui: os Costa e os Lacerda. Tem até um ditado local sobre isso.”
“Qual?”
“Se você não é Costa nem Lacerda, você é um bosta ou um merda.”
Zé Cabala riu ao ouvir aquilo. Mentes simplórias gostam de humor simplório. Berta prosseguiu:
“Ele sempre quis ser jogador de futebol. Só que era um perna-de-pau. Aí o que ele fez? Enfiou dinheiro no time e comprou o cargo de técnico.”
“Um cargo vitalício”, comentei.
“E para a vida toda”, emendou Zé Cabala.
Berta olhou com estranheza para Zé Cabala, não sabendo se o comentário era piada ou não. Eu também nunca sei. Depois, ela continuou com a história: “Um dia ele casou com uma prima, a Mariana, mas ela morreu no parto da Daphne.”
“Pobre Dafófis...”
“Pobre nada!”, disse Berta. “Aquela é da pá virada! Vocês já viram um daqueles ataques de riso?”
“Já tivemos o prazer”, disse meu sócio.
“Ela é assim desde pequenininha?”, perguntei.
Berta estendeu o lábio inferior para baixo e ergueu os ombros. Depois concluiu: “Dos problemas dessa cabeça eu não entendo. Mas, se vocês quiserem mais informações, é só falar com o médico dela, o doutor Penteado. Dia sim, dia não, ele está por aqui.”
*
Na manhã seguinte, a primeira coisa que fizemos foi olhar a página de esportes do Diário de Banânia. Aliás, semanas de decisão são ótimas para o noticiário esportivo. Tudo é assunto. Até a unha encravada de um reserva.
No caso, as preocupações estavam em torno do novo centroavante. A manchete do Diário mostrava uma foto de Capacho amarrando as chuteiras e, logo abaixo, a pergunta: “Será este o novo nove?”.
O jornal fez uma pesquisa. Eis o resultado:
- 52 % ponderavam que o time deveria contratar outro atacante.
- 26 % achavam que Capacho tinha condições de substituir o Beleza.
- 13 % argumentavam que o juvenil Lupinaldo era muito mais jogador do que ele.
- e 9 % não sabiam o que dizer sobre o assunto.
Eu seria um desses 9 %.
Entrevistado, RCL não economizava elogios ao seu pupilo: “Capacho é um atleta obediente e disciplinado. Sua principal qualidade é que se amolda às circunstâncias do jogo. Sei que não me decepcionará.”
O Diário também lançava uma promoção: chamava-se ‘Torcedor Campeão’. Quem tivesse a paciência de recortar um anúncio, escrever ali qual o melhor jornal de Banânia (só havia um) e enviar a correspondência, concorria a dois ingressos para a decisão de domingo. E na tribuna de honra!
Para finalizar, havia uma notinha sobre Margarido. Ele foi de carro até Laranjal e provocou os torcedores inimigos que estavam na fila para comprar ingressos. O gerente do Memorial das Glórias Inesquecíveis atirou-lhes bananas e disse que as enfiassem..., bem, é melhor deixar para lá essas sutilezas de torcedores.
Depois de ler o jornal, fomos até o estádio Pacóvio Costa em busca de alguma pista material. Os jogadores ainda chegavam para o treino. Fomos direto falar com Margarido, que estava remendando uma camisa do clube. Ao ver-nos entrando, parou seu trabalho e abriu um sorriso:
“E então, sherloques? Resolveram o mistério?”
“Ainda não, e por isso viemos aqui. Como você sabe, o Beleza foi morto por envenenamento.”
“Ouvi falar.”
“O que nós queremos é recolher algumas peças de evidência e levá-las para análise laboratorial.”
“Peças?”
“Exatamente.”
“Tipo o quê?”
“Um copinho d’água, desses de plástico, uma casca de banana e o galho de laranjeira que o Viriato deu a ele no início do jogo.”
Margarido parou de costurar, desanimado: “Sem chance, já foi tudo para o lixo. Se vocês tivessem falado antes...”
Enquanto dobrava a camisa e a colocava numa pilha, Margarido arregalou os olhos: “Opa! Acho que tenho uma coisa para vocês!”
Levantando num arranco, ele foi até corredor. Quando voltou, vinha remexendo num cesto de lixo.
“Droga!”
“O que foi?”
“O spray.”
“Que spray?”
“O spray de pimenta que a Daphne jogou nos olhos do Beleza.”
“Ela queria temperar o cara?”, perguntou Zé Cabala.
“Não, é uma arma de defesa”, expliquei.
Margarido continuou: “Eu estava levando a camisa do Beleza -ele exigia que eu passasse a camisa dele antes do jogo- quando chego no corredor e encontro os dois no maior barraco.”
“Discussão feia?”, perguntei.
“Feia. Do tipo: ‘Você é isso!’, ‘Você é aquilo!’. Aí uma hora ela tira o spray da bolsa e descarrega na cara do cara. Tchhhhh!”
Botei a mão no queixo, fazendo cara de foto de escritor em contracapa, e comentei: “Eis aí mais uma pista.”
“É, mas pista demais despista”, completou Zé Cabala coçando o turbante.
(E a partir de hoje folhetim passa a ser diário (de segunda a sexta). O resultado da votação foi 90 a 37. E, para começar a nova fase, no capítulo de amanhã teremos um inesperado romance)
Por Torero às 08h53
(Resumo do capítulo anterior: Nossos detetives descobrem que Viriato, o zagueiro e capitão do time adversário, teve um caso com Beleza.)
13
Chovia a cântaros quando tocamos a campainha da mansão do prefeito, técnico e presidente do Banânia, o honorável RCL. Tínhamos que elucidar a questão do filho. Filho que, por sinal, não era conhecido naquela casa. Nem mesmo pelo futuro avô:
“O quê!? Como assim? Isso é ridículo! Quem lhe contou essa mentira?”
Não abri a boca.
“Diga logo! Eu vou quebrar a cara do sujeito. Se não disser, quebro a sua mesmo.”
“Calma, benzinho”, dizia Suzi Mel tentando acalmá-lo.
Mas estava adiantando pouco. Ou menos que isso. RCL apontou o indicador para mim e berrou: “Como você pode fazer uma acusação dessas? Minha menininha é um anjo. Vamos ver se você consegue repetir isso na cara dela. Daphne!”
Suzi Mel baixou a cabeça e resmungou: “Bem agora que eu liderava as pesquisas...”
“Daphne!”, gritava RCL.
O telefone tocou na sala ao lado e o mordomo apareceu. Em seu estilo empolado, anunciou que havia uma comunicação ao aparelho para madame. Sorrindo, Suzi Mel nos deixou.
“Daphneeee!”
Daphne e Suzi Mel se cruzaram na entrada da sala de visitas. Nem se cumprimentaram. RCL, que estava colérico, mudou completamente de feição.
“Dafófis, querida!”
E foi buscá-la pela mão, trazendo-a com todo cuidado até uma cadeira.
“Sente aqui, minha vida. Pápis quer falar com você.”
Dafófis, ou melhor, Daphne, estava descalça e vestia um camisão com estampa das Meninas Super Poderosas. Ele lhe chegava até os joelhos. Só quando sentou é que notou nossa presença ali na sala:
“Quem são esses?”
Ela não esperou pela resposta e começou a gargalhar.
“Um anão e um cara de turbante? Rá, rá, rá!”
Reconheço que não sou uma figura comum e sei que a gravata borboleta e os suspensórios estão fora de moda. Mesmo assim, nunca tinha presenciado uma reação daquelas. RCL tentou contornar a situação:
“Respeite a visita, docinho.”
Foi inútil. Ela se deitou no chão e se dobrou, assim como quem está com vontade de mijar.
“Ah, mas eles são muito engraçados! Rá, rá, rá!”
RCL olhou para nós e disse, meio sem jeito: “Não reparem, isso acontece às vezes.”
Era impossível não reparar. Ainda mais quando ela começou a perder o ritmo da respiração, babou pelos cantos da boca e revirou os olhos.
“Não devíamos chamar um médico ou um exorcista?”, perguntou Zé Cabala sem muito tato.
“Já passa”, disse RCL. E o prefeito-técnico-presidente estava certo. Logo o ataque acabou e ela se levantou.
“Dafófis, coração, está melhor?”
“Ãrrã.”
“Bom, olha, esses senhores ouviram falar uma coisa que deixou o pápis muito tristinho. Ele ouviu falar que você está...”
“Grávida?”
“É.”
“Do Beleza?”
“Sim.”
“Eu não tenho culpa, pápis! Faz anos que eu falava para ele usar camisinha.”
“Anos?”
“É.”
“Quantos?”
“Foi ele que me deu meu primeiro sutiã.”
“Canalha! Verme! Pulha!”
“O que é pulha?”
“Se ele já não estivesse morto, eu iria agora até a casa dele e... Miserável!”
RCL enfiou o rosto entre as mãos por alguns instantes e depois disse: “Filha, é o seguinte: em hipótese alguma você vai ter...”
“Eu vou ter o filho.”
“O quê?”
Daphne se pôs de pé. Pensei que ela fosse dizer alguma coisa importante, mas não. Ela começou a rir de novo.
“Eu vou ter o filho, rá, rá, rá!”
“De novo, não... Calma, minha filha..., calma...”, choramingava o Professor.
Suzi Mel voltou e ficou olhando a cena como quem vê uma peça de teatro pela centésima vez.
Eu queria sair daquele hospício, mas ainda tinha uma pergunta a fazer.
“Senhorita, por favor, preciso lhe fazer uma pergunta.”
“Rá, rá, qual?, rá, rá!”, disse ela entre risadas.
“Quando foi a última vez que a senhorita viu o finado?”
Ela se acalmou de repente e respondeu: “Foi no corredor do estádio, no dia do último jogo. Ele vinha passando gel no cabelo, todo gostosão, aí eu falei: ‘Vou ter um filho, cara’. E ele: ‘E eu com isso?’. E eu: ‘E eu com isso que o filho é teu’. E ele: ‘Meu ou do resto do time?’. E eu: ‘Eu só transo com os titulares, seu corno!’”
O Professor emitiu um grunhido de dor; Suzi Mel um suspiro. Daphne esperou um segundo e continuou:
“Pensei que ele fosse dizer alguma coisa, mas não. Ele só piscou, apontou o dedo para mim, assim como se fosse um revólver, e foi andando para o vestiário. Me deu uma vontade matar aquele sujeitinho! Matar! Rá, rá, rá!”
PS: Uma dúvida, caros leitores: vocês preferem que nosso folhetim seja diário, mas sem enquetes, ou três vezes por semana, mas com enquetes (como a da Kombi)?
Por Torero às 06h20
(Resumo do capítulo anterior: No gigantesco enterro de Beleza, o zagueiro central do time adversário, Viriato, dá escândalo, chorando compulsivamente e ameaçando se atirar na tumba para ser enterrado junto com o centroavante)
12
No dia seguinte, fomos atrás de Viriato. Ele morava na cobertura do prédio mais alto de Laranjal.
O zagueiro abriu a porta ainda com os olhos ainda vermelhos do velório. Pelo menos combinavam com seu robe de chambre.
“Por aqui, senhores”, disse com voz grave.
Do lado esquerdo de quem entrava, havia uma foto em tamanho natural: ele e o Beleza, nus, se abraçando no vestiário depois de algum jogo. Bolhas de espuma cobriam-lhes as partes íntimas.
“Fiquem à vontade.”
Ficar à vontade ali não era fácil. O apartamento tinha tantos quadros, gravuras, xilogravuras e esculturas, que você precisava andar com cuidado para não quebrar nada.
“Sentem-se”, ele nos disse apontando para um sofá fúcsia.
“Estão com sede? Querem alguma coisa? Um licor de banana ou de laranja?”
“Estamos com sede de respostas”, disse eu fazendo ares de Charlie Chan.
Viriato não se fez de rogado e respondeu: “Podem começar o interrogatório.”
Pigarreei e disse: “Talvez uma ou outra pergunta seja meio embaraçosa, mas esperamos que compreenda que são feitas no exclusivo interesse da investigação.”
“Sim, eu e Beleza tivemos um caso.”
Zé Cabala olhou para um lado, eu para o outro. Viriato nem ligou para nosso constrangimento e continuou:
“Quando eu entrei no time do Banânia, ele ainda estava nos juvenis, mas de vez em quando treinava com os profissionais. Na primeira vez que o vi tomando banho no vestiário, me apaixonei. O Beleza foi se aproximando, e começamos um caso. Fiquei tão apaixonado que durante os treinos nem conseguia marcar o danado direito. Vocês sabem, zagueiro não pode ser sentimental. Mas ele percebeu e começou a se aproveitar. Metia a bola entre as minhas pernas, me dava chapéu, fazia gato e sapato de mim. Como o pessoal da comissão técnica me respeitava, eles decidiram promover o Beleza. Esperto, não? Isso era o Beleza, senhores: um mestre da sedução, um perfeito canalha. Meu Deus, que saudades!”
Suspiros, soluços. Esperamos que ele se recompusesse.
“A última vez que o senhor o viu foi no dia do jogo, não foi?”
“Foi.”
“E deu-lhe um galho de laranjeira, correto?”
“Um galho com flores de laranjeira. É uma tradição do nosso time. Nós...”
Ele parou um pouco para pensar.
“Não é engraçado? Aquilo foi um retrato do nosso amor: eu lhe dei flores e ele me deu uma banana.”
“Como acabou o caso de vocês?”
“Quando ele virou titular, disse que não queria mais saber de mim. Eu ameacei quebrar a perna dele, mas na hora agá não consegui. Eu amava aquele patife. A saída foi pedir para ser vendido. Acabei rodando o mundo. Vocês já ouviram falar de Nauru?”
“Bauru?”, perguntou Zé Cabala.
“Não, Na-u-ru; com ene. Fui campeão por lá. E depois rodei por Vietnã, Honduras, Kuwait e Taiwan. Quebrei muitos atacantes nesses lugares. Sou veado, mas jogo duro.”
“Quem você acha que matou o Beleza?”
Viriato tinha um estilo um tanto rude, tanto no futebol quando no verbo: “Foi a vaca da Jaci.”
Surpresos, mantivemos a pose.
“Aquela mulher é um perigo! Se faz de santinha, de coitada... mas eu é que sei. Olho nela.”
Viriato nos acompanhou no caminho da porta, mas, ao passar pela foto dos dois nus, parou e uma lágrima rolou pela sua face.
“Então você se foi”, disse ele para o Beleza da foto. Pensamos que ele iria parar por aí, mas Viriato continuou: “E eu que te esperei por todos esses anos... Ah, Belisário, eu sonhava que um dia a gente fosse se reencontrar, eu sonhava que a gente ainda ia ficar junto de novo... Por quê, Belisário, por quê?”
Aconteceram coisas difíceis de se descrever a partir daí. Primeiro ele deu grito pavoroso, um aaah! que nos deixou de cabelos arrepiados. Depois apanhou uma escultura – dois homens fazendo sexo – e começou a bater com ela na foto feito um ensandecido. Bateu, bateu, bateu. Quebrou a moldura, o vidro, até o reboco da parede.
Quando acabou, secou o suor da testa e disse:
“Onde será que eu pus o telefone do vidraceiro?”
Nos despedimos e saímos rápido dali.
Os sinos da Matriz tocavam a ave-maria quando Zé Cabala parou a Kombi diante do Instituto Médico. Apesar da chuva, que já tinha começado a cair, a lúgubre Neiva Augusta nos recebeu com um sorriso de festa. Provavelmente tivera um dia sem cadáveres.
“Olá, queridos!”
Uma dúvida nos levara até lá. Viriato não tinha dado nada para o Beleza comer, portanto, não poderia ser listado como suspeito. Por outro lado, tinha motivação forte para cometer o crime e seu comportamento era, no mínimo, inquietante.
Resolvemos que era hora de aprender um pouco mais sobre o Proparoxil-9.
“Mas o quê, exatamente?”, Neiva perguntou.
“Ele poderia ser armazenado num lugar que não fosse um alimento?”
“Sim.”
“No espinho de um galho de laranjeira, por exemplo?”
“Sim. Mas para isso a pessoa teria que injetar o veneno ali com uma seringa.”
“Entendo...”
“Olha, eu sei que não vou dar uma boa notícia para vocês, mas o Proparoxil-9 é uma solução de altíssima adaptabilidade. Em linguagem simples, isso quer dizer que ele pode ser misturado a qualquer coisa: um xampu, um creme hidratante, um esmalte de unha. Só precisa de contato com o corpo, entende? Aí ele entra na corrente sanguínea e...”
“Babau”, concluiu Zé Cabala sem muita sutileza.
(PS: No próximo capítulo, você vai conhecer melhor a jovem Daphne, a filha do presidente do clube e que está grávida do Beleza)
Por Torero às 07h10
Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").