Blog do Torero

31/12/2007

Nove contra o nove

(No capítulo anterior, Zé Cabala e Gulliver conhecem o memorável, glorioso e inesquecível Memorial das Glórias Inesquecíveis)

 

11
(Ou: “O dia em que o centroavante viu a grama pela raiz”)


A capa do Diário de Banânia na manhã de quarta-feira podia ser chamada de tudo, menos de comum.

Era uma página toda preta, sem nenhum outro texto a não ser: “Noves fora, nada”. Compreende-se. A edição do dia do enterramento do  Beleza não poderia ser comum.

Faltando meia hora para a cerimônia fúnebre, eu, Zé Cabala, Berta e suas nove meninas entramos na Kombi e rumamos para o cemitério.

Chegando lá, tivemos que parar o carro (se é que nossa Kombi pode ser chamada assim) a um quilômetro de distância. Um quilômetro! Toda Banânia tinha ido dar adeus ao seu ídolo maior.

Era um mar de gente em amarelo e preto. Velhos, adultos, crianças. Uns estavam enrolados em bandeiras, outros portavam fotos. Os que não choravam, cantavam o hino do clube:

“Viva o Banânia!
Viva o Banânia!
O povo clama por você.
Viva o Banânia!
Viva o Banânia!
Cultiva a glória de não perder.”

No meio da rua, um enorme carro de som. Margarido, lá em cima, gritava: “Ei, ei, ei, Beleza é nosso rei!”

E a multidão, lá embaixo, ecoava o refrão.

Faixas, havia mais de cem: “Valeu, Beleza!” era a mais comum, mas lembro-me de algumas criativas, como: “Beleza pura!” e “Novecentas e noventa e nove vezes obrigado”.

Depois de muitos empurrões, cotoveladas, bundadas e pisões, alcançamos a porta de entrada.

Meia hora depois saía o féretro.

Jaci caminhava à frente do cortejo. Tinha feito as unhas e estava maquiada. O cabelo, cortado rente, ganhara uma pintura ruivo-farmácia.

“Um tanto enfeitada para a ocasião”, observei.

“Isso porque você não está vendo o decote”, rebateu Zé Cabala.

Ser anão tem suas inconveniências.

Mais atrás vinham os homens trazendo o caixão coberto com o manto auri-negro. As seis alças foram assim divididas:
-Cabeça e RCL vinham à frente.
-No meio, Capacho e Margarido.
-Guttemberg, o jornalista, segurou a alça traseira direita, o que foi uma surpresa.
-Mas inesperado mesmo foi ver um enorme negro segurando a alça traseira esquerda. Na verdade, enorme é pouco. Era quase um gigante. E a cabeça raspada dava-lhe um ar ainda mais assustador.

Zé Cabala me cutucou e perguntou: “Aquele não é capitão do Laranjal?”

“Isso mesmo. Alguma coisa não cheira bem aqui.”

“Deve ser o morto”, disse Zé Cabala.

Andamos alguns metros e paramos diante da sepultura. Os coveiros se levantaram para receber o esquife. Reinava um silêncio apavorante.

O padre começou a vociferar em seguida. Chamava-se Rocha. Era um tanto corcunda e tinha uma voz grave e metálica. Agitava os braços e erguia-se nos pés enquanto repetia o trecho de I Coríntios 15:55: “Onde está, ó, morte, a tua vitória? Onde está, ó, morte, o teu aguilhão?”

Felizmente ele não ouvia pensamentos. Se ouvisse, teria me escutado dizer: “no Proparoxil-9, padre, no Proparoxil-9”.

Somente quando a terra começou a ser lançada sobre o caixão é que se ouviu uma manifestação de pesar. Era um gemido tão intenso e deselegante que poderia ser confundido com um grito de pavor.

Ele vinha da garganta do zagueiro central e capitão do Grêmio Laranjal.

“Não, não!”, ele urrava, à beira da cova. “Me soltem! Eu quero ir junto com ele, ai, ai, ai!”

Os coveiros tiveram dificuldade em contê-lo.

Aquilo se prolongou por um minuto. Ele próprio, percebendo o vexame, retirou-se para um canto do cemitério, onde ficou a sós com sua dor.

Havia algo de intrigante naquilo. Assim como quem não quer nada, fiz uma sondagem junto ao padre Rocha.

“Perdão, reverendo, o senhor conhece aquele homem?”

“Eu o batizei e crismei.”

“Quem é ele?”

“É o Viriato.”

“Ele era muito amigo do Beleza?”

“Amigo? Não, era mais que isso. Muito mais.”

PS: Gulliver acredita que a ilustração deste texto é de um ilustre antepassado seu (apesar de o nanismo não ser transmitido geneticamente). O quadro foi pintado por Diego Velázquez. Aliás "Sombras de Goya", filme sobre outro pintor espanhol, está em cartaz em algumas cidades, é excelente. Talvez o melhor do ano. E tem roteiro de Jean-Claude Carrière.

Por Torero às 08h42

28/12/2007

9x9: O jardim de Margarido

 

10

(Resumo do capítulo anterior: No Bar Mitzvah, Cabeça conta que Daphne, a filha adolescente do técnico, está grávida de Beleza.)

Aquela revelação nos deixou boquiabertos. Metaforicamente falando, é claro. Afinal, naquele bar cheio de moscas não era seguro ficar de boca aberta.

Para digerir a nova informação, e a comida do Bar Mitzvah, decidimos atravessar a rua e conhecer o Memorial das Glórias Inesquecíveis.

Margarido nos recebeu com um sorriso.

“Bem-vindos, sherloques!”

Para nossa surpresa, o Memorial era a sua própria casa. Todos os cômodos estavam consagrados para o Banânia, menos um pequeno quarto onde ele dormia.

Na sala, em lugar de destaque, havia uma camisa do Banânia emoldurada. Ela estava suja e com manchas de terra.

“É a da final”, exclamou Margarido com orgulho.

Depois, sem nos perguntar nada, foi até um aparelho de som e pôs um CD que tocava o hino do clube em vários ritmos: samba, jazz, bossa nova, funk. Não sabíamos, mas era o começo de um tour pelo museu. E com direito ao melhor dos guias.

Vimos todo tipo de tralha pelo tal Memorial. Por exemplo:
- a súmula do primeiro jogo, contra o extinto Guarani de Cruz do Poço;
- o único exemplar existente da camisa original do B.E.C., com listras verticais em amarelo e preto;
- um fio de cabelo de Zé Paulo, beque que fez o primeiro gol contra da história do time;
- as luvas de Zóio, goleiro que ficou 639 minutos sem tomar gol em 1977;
- cinco ou seis bonecos, em tamanhos diferentes, do mascote do clube – um macaco amarelo;
-e muitas flâmulas, fotos, bandeiras, bolas, adesivos, apitos, pedaços de rede, tufos de grama e bandeiras de escanteio.

Não agüentávamos mais ver bugigangas. Ainda mais que Margarido contava a história de cada objeto. Depois de duas horas, finalmente acabamos a visita.

“Voltem daqui a uns dois dias. Estou acabando o Espaço Beleza. Quero que vocês sejam os primeiros a ver”, disse Margarido.

“Será um prazer”, menti.

Então ele ergueu uma fita VHS e falou:

“Ah, e será que vocês não querem ver a fita da final. Comprei de uma produtora local.”

Como a fita registrava os últimos momentos do Beleza, queríamos.

O câmera começou a gravar no exato momento em que ele se livrava de alguns fãs, dirigindo-se até o círculo central. Lá chegando, cumprimentou o trio de arbitragem e ofereceu uma banana ao capitão do Laranjal, um negro alto, parrudo e de careca reluzente.

“É um costume”, explicou Margarido. “O capitão do Banânia sempre oferece uma banana ao adversário.”

As gentilezas continuaram. O jogador do Laranjal ofereceu-lhe, em troca, um galho de laranjeira.

Em seguida, os dois se abraçaram e Beleza se espetou no galho. O adversário ria quando Capacho apareceu de repente com o copinho d’água. Beleza lavou seu ferimento e depois bebeu a água. Então o jogo começou, ele marcou o gol, comemorou, caiu e morreu. Exatamente como RCL tinha contado e como escutamos pelo rádio.

Com isso, finalmente acabamos o tour e voltamos para nossa Kombi.

Quando chegamos ao Musa Paradisíaca, Zé Cabala perguntou: “Sabe o que falta para termos uma boa agência de detetives?”

“Lentes de aumento?”

“Não.”

“Revólveres?”

“Não.”

“Detetives de verdade?”

“Também não. Falta escrever nosso nome na porta da Kombi. Talvez até com um slogan.”

Quando Zé Cabala mete uma idéia na cabeça, é difícil tirá-la de lá. Então aceitei a idéia e sugeri: O que você acha de: ‘Agência Falcão Maltês, serviço garantido ao gosto do freguês’?”

“Hum..., não, não. Quero algo mais comercial.”

“Que tal: ‘Zé Cabala e Gulliver, Investigações Criminais e Futebolísticas. Preço aquém para um serviço do Além’?”

“Bom, mas muito comprido.”

“Então desisto...”, resmunguei.

Zé Cabala coçou o turbante, que é o que ele faz sempre que está prestes a ter uma grande idéia, e disse: “Já sei!”

Ele pediu uma lata de tinta e um pincel emprestados para Berta. Depois, escreveu na lateral da Kombi:

Zé Cabala & Gulliver   Detetives particulares

E, logo abaixo, colocou:

(também fazemos frete)

Então ele recuou alguns passos para ver melhor a sua obra, olhou-a de vários ângulos e disse: “Agora sim, somos uma agência de detetives séria”.

 

 
PS: O slogan vencedor foi de Luciano Claudino, de Campinas, SP. Mande aí seu endereço para o blogdotorero@uol.com.br.

 

Por Torero às 08h10

26/12/2007

9x9: 9

(Resumo do capítulo anterior: Nossa dupla de detetives fala com Jaci, a viúva de Beleza, e descobrem que ela é uma lunática, ou seja, adepta da curiosa religião do Lunatismo. Jaci lhes diz que desconfia de Cabeça, o irmão do defunto: “No dia da morte do Beleza, o sujeito até soltou rojões.”)

9

(ou: "Caim tinha lá suas razões")

 
Cabeça era dono de um bar, o Bar Mitzvah. Era aquele tipo de botequim tão comum que até parece franchising.

A única diferença era que havia um retrato do Beleza. E em tamanho natural.

O Cabeça não estava quando chegamos. Quem nos atendeu foi um adolescente gago, que nos perguntou se queríamos comer o PF da casa.

“Sã-são só três pa-paus.”

Respondemos que sim e fomos nos sentar numa das mesas lá fora. Foi uma boa decisão, porque, do outro lado da rua, à direita, notamos uma casa pintada metade de preto, metade de amarelo. Sobre a porta, uma placa: Memorial das Glórias Inesquecíveis.

“Isso me lembra aquele roupeiro. Como era mesmo o nome dele?”

“Hortênsio?”, arriscou Zé Cabala.

“Não.”

“Begônio? Violeto? Petúnio? Tulipo?”

“Margarido! Ele disse que era diretor desse Memorial, não disse?”

“É... pode ser.”

“Talvez seja bom dar uma passada lá.”

“Mais tarde. A comida está chegando.”

Comida era uma palavra generosa para designar o que vinha naqueles pratos. Gororoba seria mais apropriado. Tratava-se de um combinado de arroz papa, caldo ralo de feijão, uma porção de batatas fritas que soltava mais óleo que nossa Kombi e um bife que só podia ser mascado como chiclete.

Dispensamos a sobremesa.

Cabeça chegou logo depois de bebermos um café que parecia ter sido tirado de um cartucho de impressora.

Mal nos apresentamos e ele perguntou:

“Quem contratou vocês?”

“Um importante grupo empresarial da cidade. Agora nós perguntamos e o senhor responde.”

“Olha, se a Jaci pensa que eu vou abrir mão da minha parte da herança, pode ir tirando o cavalinho da chuva. Eu vou querer cada porra de centavo daquele fi...”

“Calma. Só queremos saber qual foi a última vez que viu o seu irmão.”

“Quando eu o levei para o jogo.”

“Você lhe deu uma carona?”

“Não, eu era o motorista dele.”

“Sei.”

“Deixei o cara na porta do estádio.”

“E falaram sobre o quê no caminho?”

“Ah! Porra nenhuma. Ele pôs um I-pod na orelha e ficou lá na dele, ouvindo pagode. Só uma hora que me cutucou e pediu a cachaça.”

“Ele bebia?”

“Mais que respirava. Por isso eu sempre tinha uma garrafinha no carro.”

“Ouvimos dizer que você soltou fogos quando soube da morte do Beleza.”

“É..., bom..., sim..., foi uma homenagem.”

Era uma resposta tão cínica que resolvi ser direto: “O senhor e seu irmão se davam bem?”

“Super.”

“Desde pequenos?”

“Desde. Eu era o mais velho e cuidava dele o tempo todo. Nós éramos amigos tão na vida quanto no futebol.”

“O senhor também foi jogador?”

“Começamos juntos no Banânia. Eu era o camisa 10. Um cracaço! Não segui carreira porque estourei os meniscos. Já o Beleza nunca foi talentoso com a bola no pé, mas fazia gol de qualquer jeito. Era até irritante.”

“Como assim?”

“Ele era aquele grosso que sabe fazer gol. A bola batia na canela, no joelho, no nariz, e entrava. Era levantar a bola na área e correr para comemorar.”

“O que o senhor fez depois que abandonou o futebol?”

“Cagadas.”

“Pode ser mais específico?”

“Foi uma burrada atrás da outra. Bati o carro, briguei, fui preso e tive filhos com três mulheres diferentes. Hoje me ralo para pagar pensão.”

“O Beleza não o ajudou?”

“Aquele só queria saber dele mesmo. O máximo que fez foi me contratar como motorista e me ajudar a comprar este bar.”

“Então vocês eram sócios?”

“É. Eu cuidava do lucro e ele do prejuízo.”

“Como é?”

“Volta e meia ele trazia o time para encher a cara. Reserva, titular, juvenil... Fora a putaiada. Se essa porra não quebrou até hoje, é porque eu me matei atrás do balcão. Eu e o Paudervan, não é, Páuder?”

O garoto gago respondeu: “É-é.”

Cabeça olhou para baixo, dentro dos meus olhos e falou: “Sei que vocês estão pensando que eu matei meu irmão, mas pô!, tudo tem limite! Eu não ia matar um cara que é sangue do meu sangue. Vocês deviam era estar desconfiando da maluquinha.”

“Que maluquinha?”

“A filha do RCL, a Daphne.”

“Que é que tem ela?”

“Como: que é que tem? Ela está esperando um filho do Beleza!”

(No próximo capítulo você vai entrar no soberbo Memorial das Glórias Inesquecíveis e saberemos qual o slogan da dupla detetivesca).

Por Torero às 08h10

25/12/2007

E o slogan vencedor é... você quem sabe.

Como houve muitos bons palpites para o slogan da agência de Zé Cabala e Gulliver, e como esta é uma decisão muito importante, resolvi dividi-la com os leitores.

Do lado esquerdo há nove sugestões de slogans selecionadas por mim (na verdade havia vários outros bons palpites, mas, para fazer gracinha, decidi ficar nos nove mesmo). Vote naquele que você gostar mais. O resultado aparecerá no texto de sexta-feira.

Por Torero às 19h49

24/12/2007

Nove contra o nove: capítulo 8

8

(ou: "Mais chifrada que bunda de toureiro") 

(Resumo dos capítulos anteriores: Zé Cabala e Gulliver estão em Banânia investigando o assassinato de Beleza, o centroavante que morreu ao fazer seu milésimo gol.)


Saindo do IML, fomos falar com Jaci, a viúva de Beleza.

Ela era a imagem acabada de uma dona de casa quando nos abriu a porta. Estava de cabelo preso e vestia um avental sobre a roupa. Para completar, esfregava as mãos num pano de prato.

“Lembra de nós?”

“Claro. Do velório. O anão e o cara de turbante. Como é que eu ia esquecer?”

“Pois bem, fomos contratados para investigar a morte do seu marido.”

Ela bufou e disse: “Tudo bem, podem entrar. Só não reparem na bagunça.”

Era difícil não reparar. A sala estava entulhada de mobília. Até uma máquina de costura havia por ali. Ao lado dela, pendurado num cabide, se espalhava um vestido longo de cetim cinza. A gola e as bordas da manga tinham adereços prateados. Nós nos acomodamos no sofá, ela puxou a cadeira da máquina de costura.

“O que vocês querem saber?”

“Comece do começo”, disse eu, fazendo uma cara tipo Philip Marlowe.

“Vocês têm tempo?”

“Todo o tempo do mundo”, disse eu, desta vez tomando ares de Hercule Poirot.

“Bem, eu era professora numa escola perto do estádio, o treino dos juvenis terminava na mesma hora que eu saía da escola. Foi a minha desgraça. Um dia cruzei com o Beleza, ele me chamou para um sorvete e, quando vi, estávamos namorando. Minha mãe não gostou do namoro, mas meu pai sim. Ele era torcedor do Banânia e ficou se achando o máximo quando o Beleza começou a aparecer lá em casa.
 
“E acabaram se casando?”

“É. Foi um casamento naquele esquema antigo: véu, grinalda e hímen.”

“Vocês foram felizes?”

“Fomos. Por quinze dias. Eu me lembro que estava toda apaixonada e resolvi levar um bolo surpresa para ele. Tinha um bê e um jota desenhados com chantili em cima. Levou um tempão para fazer.”

Jaci parou por um momento e se reajeitou na poltrona.

“Chego lá, abro a porta do alojamento. Ele e a cozinheira estavam..., como direi?”

“Não diga, já entendemos.”

“Entendemos?”, perguntou Zé Cabala.

“Depois eu explico”, falei. “Por favor, continue.”

“Essa foi só a primeira vez. Depois vieram outras e outras. Fui mais chifrada que bunda de toureiro.”

“Aquele jornalista que me entrevistava?”, perguntou-me Zé Cabala.

“Não, aquele é Torero. Continue, continue”, falei impaciente para Jaci.

Ela continuou: “Tive minhas crises de ciúme, é lógico. E fiz o que qualquer mulher faria: gritei, ameacei ir embora, quebrei coisas. Mas isso só fez ele se tornar mais cruel. Um dia, sem mais nem menos, começou a me bater.”

“!?”

“E, para piorar, me proibiu de sair de casa. Quer dizer, proibiu não, eu estou sendo injusta: ele me deixava ir à igreja e à casa dos meus pais.”

“E nunca pensou em se separar?”

“Eu não podia.”

“Por quê?”

“Porque eu sou lunática.”

“Ah!”

“Não é o que os senhores estão pensando. Não sou louca, apenas adoro a Mãe das Trevas.”

Eu e Zé Cabala trocamos um olhar que dizia:

“O que será que ela está falando?”

Ela escutou nossos olhares e explicou: “O Lunatismo é uma religião pouco conhecida no resto do país, mas tem vários adeptos aqui em Banânia. Depois posso lhes dar uns folhetos. De qualquer jeito, o que importa é que nós, lunáticos, acreditamos na indissolubilidade do matrimônio. Uma vez casado, casado até o fim.”

Fiquei com medo que ela começasse a pregar e mudei de assunto:

“Talvez a senhora possa nos ajudar fazendo uma pequena reconstituição do último dia do seu marido.”

“Claro. Vocês não querem um café? Eu acabei de passar.”

Dissemos que sim. A cozinha era um ambiente mais claro, apesar dos azulejos marrons e de uma geladeira vermelha. Nós nos sentamos e Zé Cabala avançou sobre um prato de doces (cajuzinhos, bons-bocados, brigadeiros, beijinhos e bem-casados) que havia sobre a mesa.

“O Beleza sempre acordou tarde; anteontem acho que foi lá pelo meio-dia. Aí ele almoçou e depois voltou para a cama para tirar uma soneca.”

“Ele sempre fazia isso?”

“Sempre. Quando deu três, três e pouco eu fui lá chamar. Ele se levantou e foi para o estádio.”

“A senhora deu a ele alguma coisa para comer?”

“Por que vocês querem saber isso?”

“Curiosidade.”

“Acho que nada.”

“Nada mesmo?”

“Bem...”

Nessa hora ela se juntou a nós, trazendo três xícaras de café numa bandeja. Zé Cabala levava o último bom-bocado à boca.

“Na verdade dei-lhe um bom-bocado que nem esse. Era o doce favorito dele.”

Enquanto Zé Cabala tossia, perguntei: “A senhora sabe de alguém gostaria de ver o Beleza morto?”

Jaci olhou um instante para o vazio e depois falou com ar sério:

“Talvez a pessoa que o odeia há mais tempo do que todo mundo.”

“Quem seria?”

“O Cabeça.”

“Que seria...?”

“O irmão dele. No dia da morte do Beleza, o sujeito soltou um monte de rojões.”

 

(Amanhã, uma surpresa sobre o concurso de slogans para a dupla de detetives. E na quarta-feira você vai conhecer dois importantes lugares de Banânia: o “Bar Mitzvah” e o “Memorial das Glórias Inesquecíveis”).

Por Torero às 08h45

22/12/2007

Leiaute

Eis aqui mais duas sugestões de leiaute para a gloriosa e enferrujada kombi de Zé Cabala e Gulliver:

 

Enviado por Rogério Quintanilha.

 

Enviado por Lucya Fernandes.

Por Torero às 10h34

21/12/2007

9 contra o nove: capítulo 7

7

(ou "Bom dia, senhor cadáver")

 
Depois de falar com Capacho, Suzi Mel e RCL, saímos do estádio, passamos pela Praça Central e vimos o marco zero da cidade, onde havia a gigantesca estátua de uma banana. No pedestal, uma orgulhosa placa informava: “O maior monumento dedicado a uma fruta em todo o mundo.”

Almoçamos uns sanduíches de mortadela bem razoáveis e, como a já caía a tarde, voltamos para o Musa Paradisíaca.

Tudo estava um tanto diferente em relação à noite anterior. Já de cara tivemos dificuldade para estacionar a Kombi, pois as vagas estavam tomadas por duas picapes, um cavalo, alguns carros de passeio e uma viatura. Mesmo assim, Berta havia reservado um quarto para nós. Como todas as meninas estavam ocupadas, novamente dormimos sozinhos.

Na manhã seguinte, a manchete do caderno de esportes do Diário de Banânia era: “E agora?”.

A reportagem, assinada por João Guttemberg, girava em torno da pergunta: “Poderá o Banânia viver sem seu ídolo maior?”

O próprio autor respondia: “Sim.”

Para ele, a equipe ficaria mais solidária, passando a desenvolver um jogo mais coletivo. E apontava Capacho como um substituto à altura do falecido.

Outras notícias: o jogo tinha sido invalidado e a data da final fora remarcada para domingo. Má notícia para o morto, que ficava a um gol da marca milenar.

Decidimos começar o dia pelo Instituto Médico Legal, para ver se havia alguma novidade sobre o veneno. 

A própria médica legista nos atendeu. Neiva Augusta era o seu nome. Ela nunca se separava de uma caixa de lencinhos descartáveis.

“Pois não?”

“Somos os detetives Gulliver e Zé Cabala, doutora. Estamos cuidando do caso do Beleza.”

“Meu Deus, que horror!”, ela começou a choramingar. “Eu não me conformo! Como uma coisa dessas pôde acontecer?”

Sem esperar pela resposta, ela deu um giro sobre o próprio corpo e começou a subir uns lances de escada. Fomos atrás.

Deitado sobre uma maca de alumínio, Beleza era o único hóspede da sala dos cadáveres. Seria preciso boa vontade para reconhecer um ídolo naquele corpo esverdeado. A única coisa que chamava a atenção, fora uma pequena inchação no joelho e uma tatuagem de flecha no pênis, eram os pés. Poucas vezes vi exemplares tão grandes, largos e grossos.

Zé Cabala, por brincadeira, disse: "Bom dia, senhor cadáver."

Foi a senha para Neiva Augusta derramar novas lágrimas e lamúrias: "Coitadinho, coitadinho..."

Quando ela se acalmou, iniciei as perguntas:

“Então, doutora? Já sabe como apagaram o nosso amigo?”

“Sim. O veneno usado se chama Proparoxil-9.”

“E o que ele faz?”

“O Proparoxil-9 é um composto volátil de polipropasinol e metacreno em resolução líquida.”

Balançamos a cabeça como se tivéssemos entendido tudo. Ela entendeu que não entendemos nada e explicou:

“Uma vez dentro do organismo, ele é fatal, mas o tempo de efetividade é difícil de ser determinado. Numa pessoa de hábitos saudáveis, pode demorar até um dia.”

“E no caso do Beleza?”

“Com o fígado desse jeito? Entre alguns segundos e uma hora.”

Tendo acabado de dizer isso, doutora Neiva desabou no choro. “Olhem só para ele, um homem na flor da idade! Fico tão triste!”

Não sabíamos o que dizer, ela sim:

“Por que eu não passei no concurso para pediatra, meu Deus? Por que? Eu odeio esse trabalho!”

Era só o que nos faltava: uma legista sentimental.

Saindo dali, compramos dois saquinhos de pipoca para ajudar nosso raciocínio.

Se a ação do Proparoxil-9 se deu em no máximo uma hora, era preciso recompor todos os passos do Beleza sessenta minutos antes de ele morrer. Assim saberíamos quem poderia ter-lhe dado o veneno.

“Já temos dois bons suspeitos, com motivo e ocasião para o assassinato”, disse eu para Zé Cabala.

“Quens?”, ele perguntou, assim mesmo, no plural.

“Capacho, que queria ser titular e deu um copo de água antes do jogo começar, e aquele jornalista.”

“O Iceberg?”

“Guttemberg.”

“Como ele poderia ter envenenado o Beleza?”

“Lembra que ele deu uma banana para o defunto comer antes do jogo?”

Ele olhou para mim com os olhos arregalados e disse: “Grande Gulliver!”

Ah, como eu detesto estes trocadilhos.

 

(PS: Na segunda-feira, neste mesmo blogcanal, neste mesmo blog horário, Zé Cabala e Gulliver conhecerão Jaci, a lunática viúva de Beleza)

Por Torero às 08h04

20/12/2007

Concurso!

Gulliver e Zé Cabala pensam em escrever na lateral de sua Kombi enferrujada o nome de sua agência de detetives. Mas há um problema. Eles não sabem qual será o nome da agência. Aí é que entram o criativo leitor e a imaginativa leitora.

Preciso de palpites para o nome da agência. Pode ser apenas o nome, ou pode vir com um slogan do tipo: "Zé Cabala & Gulliver, Detetives Associados. Alto nível e baixo preço", ou "Gulliver & Zé cabala, sherloques associados".

Mande sua sugestão até as 24h00 de segunda-feira. Na terça, escolho o vencedor.

O prêmio (ou castigo) será um livro autografado deste que vos escreve (os sebos pagam um pouco a mais pelos livros com autógrafos).

 

PS: Quem quiser pode fazer como o Tales Loyelo, que até mandou uma ilustração:

 

Por Torero às 07h25

19/12/2007

Nove contra o 9: capítulo seis

6

(ou "A mulata que tinha mais curvas que o caminho de um bêbado")

(Resumo dos capítulos anteriores: Zé Cabala e Gulliver estão na cidade de Banânia, onde foram contratados por Berta, empresária local do ramo de diversões púbicas, digo, públicas, para investigar a morte de Beleza, o centroavante que morreu envenenado após marcar seu milésimo gol. Neste momento estão no vestiário do clube, onde vão falar com um dos suspeitos: Capacho, o reserva de Beleza.)
 

Capacho nos olhou do alto ao baixo, ou seja, primeiro para Zé Cabala e depois para mim, e perguntou:

“Vocês são da polícia?”

“Detetives particulares.”

“Na tevê vocês parecem maiores.”

Fiz que não senti o golpe e contra-ataquei: “Queremos fazer algumas perguntas. Para começar, explique esse apelido.”

“Nunca viram um capacho? É aquele tapete que fica na porta para as pessoas pisarem e tirarem a sujeira da rua?”

“Quem deu o apelido?”

“O Beleza, é claro.”

“Posso estar sendo precipitado, mas não me parece muito elogioso.”

“E não é. O Beleza dizia que eu nunca ia tomar seu lugar; que eu era só um capacho para ele pisar.”

“Você sonhava em ser titular?”

“Todo dia.”

“Quando foi a última vez que vocês conversaram?”

“Ontem.”

“Ontem, quando?”

“Logo no começo do jogo. Ele se espetou o dedo num galho, acho, e mandou eu levar um copo d´água.”

“Lembra-se das palavras que ele usou?”

“Me traz uma água aí, Capacho!”

“Você levou?”

“Claro. Por que você acha que eu tenho esse apelido?”
  
“E aí?”

“Aí ele bebeu, jogou o copo na minha cabeça, eu catei e voltei para o banco.”

“Você seria capaz de matar para ser titular?”, perguntou Zé Cabala na lata.

“Não. Mas eu torcia para ele ser atropelado. E por um caminhão. Agora, se vocês querem mesmo alguém capaz de matar, deviam dar um pulo no terceiro andar.”

O terceiro e último andar do Estádio Municipal Pacóvio Costa era onde ficavam os manda-chuvas. Notamos isso pelo piso de carpete de madeira e porque era o único lugar do estádio em que as paredes estavam pintadas.

Vínhamos andando pelo corredor quando, de repente, começamos a ouvir risadas. Batemos à porta.

RCL disse: “Ah, entrem, amigos! Vamos chegando, vamos chegando! Já se conhecem? Não? Essa é Suzi Mel, a patroa.”

“Encantado”, disse eu. E não estava mentindo. Suzi Mel era uma mulata com mais curvas que o gráfico da bolsa de valores.

“Quem são eles?”, ela perguntou para RCL.

“Gulliver e Zé Cabala, detetives particulares”, respondi.

“Ah!, tomaram que resolvem o caso logo. Isso pode prejudicar o turismo, e hoje em dia é suicídio você depender só da bana...”

“Su, meu amor, pode parar com a campanha, eles não votam aqui”. E falando conosco, explicou: “Minha esposa é candidata.”

“A vereadora?”, perguntei.

“A prefeita”, ela corrigiu. “Tenho uma dívida para com essa cidade que me acolheu.”

“Meu Deus, ela não pára! Vocês querem o quê? Cerveja ou uísque?”

Ia dizer que não bebemos a trabalho, mas Zé Cabala foi mais rápido: “Três pedrinhas no escóti! E se tiver um salgadinho, vai bem.”

“Senhor Gulliver?”

“Nada, obrigado. Eu fico alto só com um gole”, disse eu, fazendo um trocadilho involuntário.

RCL assumiu um ar tristonho e falou: “Olhem, eu, mais do que ninguém, vou sentir falta do Beleza. Perdi um grande centroavante e um grande amigo. Não, mais que isso! Na verdade ele era quase como um filho para mim.”

“Quando vocês o viram pela última vez?”

“Na entrada do estádio”, Suzi se antecipou. “Eu estava panfletando. Ele me deu um beijo na testa e...”

Ela pôs a mão na testa, parecia meio tonta. Por fim, apoiou-se na parede:

“Gente, que coisa! Me desculpem, eu normalmente não fico assim.”

“Tudo bem, Su, vem cá.”

Suzi Mel foi até perto do marido, que acolheu sua mão e começou a alisá-la com carinho. Ato contínuo, ela olhou para nós, deu um suspiro e continuou a história:

“Depois que o Beleza fez o gol, foi direto para a frente do alambrado. Passou gritando: ‘Eu sou Beleza! Eu sou Beleza!’ E fez aquela comemoração dele.”

RCL o imitou, dando socos no peito, e depois disse: “Aí ele cumprimentou a torcida, virou, deu uns passos e tchum, caiu. Os jogadores vieram e formou aquele bolo. O Magoo, nosso goleiro, começou a agitar os braços feito um desesperado. Eu não quis nem saber: invadi o gramado. Cheguei antes do doutor Penteado e ainda dei uma olhada: o Beleza estava com aquele olhar parado, a língua mole, caída de um lado.”
 
O técnico-prefeito ia continuar com sua mórbida descrição se seu celular não tocasse.

“Fique à vontade. Nós já estávamos indo”, falei.

Enquanto Suzi Mel nos acompanhava até a porta, ainda ouvimos um pedaço da conversa:

“Oi, Tchutchuquinha! O pápis vai demorar um pouquinho, tá? Claro que eu leio uma história para você, meu amor. Beijocucha para você também. Nhom-nhom-nhom, tchuque-tchuque, tchau...”

“É a filha de vocês?”

“Não, a Daphne é do primeiro casamento dele.”

“Quantos anos ela tem? Dois, três?”

“Quinze. E perto dela as meninas da Berta são umas freiras.”

 

 

(PS: Amanhã é dia de concurso aqui no blog.)

Por Torero às 07h15

18/12/2007

9 x 9

5
(ou “Em busca de Capacho”)

Fomos procurar Capacho no treino do Banânia.

O técnico, com um agasalho onde se liam as iniciais R.C.L. às suas costas, gritava com os jogadores num megafone. Quando nos viu, disse:

“O que vocês querem? São vendedores, Testemunhas de Jeová ou espiões do Laranjal?”

Como ele esqueceu de desligar o megafone, todos olharam para nós.

“Somos detetives profissionais”, respondi secamente, “contratados para investigar a morte do Beleza.”

Ele deixou o treino e veio falar conosco.

“Muito prazer. Meu nome é Reginaldo Costa Lacerda. Sou técnico, tesoureiro, preparador físico, médico e presidente do clube. E, nas horas vagas, o prefeito da cidade. Sou suspeito de alguma coisa?”

“Todo mundo é”, falei com ares de filósofo.

“Já sei, vocês querem saber onde eu estava na hora da morte da vítima, não é? Eu vejo muito filme americano, sei como são essas coisas”, disse RCL.

“O senhor não estava no banco de reservas?”, perguntei.

“Na verdade, não. Fui expulso na semifinal e peguei dois jogos de suspensão. Fiquei bem atrás do banco, mas na arquibancada.”

“Entendo.”

“Posso ajudar com mais alguma coisa?”, perguntou RCL.

“Com o seu indicador”, disse Zé Cabala.

“Perdão?”

“Use o indicador para apontar o Capacho.”

“Ah, o Capacho! É aquele que está colocando a caneleira. Vocês também estão desconfiados dele?”

“Desconfiamos de todos”, ponderei.

“O treino acaba em quinze minutos. Se quiserem, podem esperar no vestiário.”

O vestiário do Banânia era sujo, úmido e tinha aquele inconfundível odor mijal. Para piorar, os degraus estavam meio escorregadios, o que fez Zé Cabala descer a escada num tombo de filme de mudo. Como estava de turbante, não machucou a cabeça. Porém, conseguiu alguns hematomas.

Um rapaz que estava por ali, carregando uma pilha de camisas, perguntou: “Machucou?”

“Só a bunda e o joelho.”

“Se você quiser, posso fazer um curativo. No joelho, é claro.”

Zé Cabala agradeceu e o rapaz foi até um móvel capenga, de onde tirou uma caixa de isopor onde havia álcool, rolos de gaze e remédios em geral. Depois de pedir a meu parceiro que se sentasse, ele aplicou uma bolsa de gelo sobre o seu joelho contundido.

“Você trabalha para o clube?”, perguntei para passar o tempo.

“Dia e noite.”

“De quê?”

“Sou roupeiro, torcedor símbolo, diretor do Memorial das Glórias Inesquecíveis e historiador oficial do Banânia.”

“Parece que neste clube, todos têm muitas funções. Sou Gulliver, muito prazer. Este é Zé Cabala.”

“Meu nome é Margarido. Já está melhor, senhor Zé Cabala?”

“Ô!”

Revelei o motivo de nossa visita e perguntei-lhe o que sabia sobre Beleza.

“Tudo”, ele respondeu. “Por exemplo, o Beleza fez sua estréia no dia 21 de fevereiro de 1987, aos dezesseis anos, num jogo contra o Laranjal. E de cara já marcou  dois. No começo ele comemorava os gols dando saltos mortais, mas, com a idade, trocou as acrobacias por socos no peito. Dos 16 troféus do Banânia, 15 foram ganhos na era Beleza (o outro foi ganho num torneio de truco entre presidentes de clube). Entre estes 16, 4 foram Copas Saladas de Fruta, o título mais importante da região, que é disputado entre as equipes de Banânia, Laranjal, Jaboticabal, Abacaxilândia e Pessegópolis.”

“Você sabe tudo mesmo”, eu disse.

“E mais um pouco”, falou Margarido sem modéstia.

Naquele instante os jogadores começaram a descer para o vestiário, tirando as camisas suadas, os calções amarfanhados, as meias sujas de terra e jogando tudo num cesto de vime. Margarido esperou que ele ficasse cheio, o apanhou pelas alças e disse: “Haja alvejante!”

Então um sujeito magricelo e com ar inocente aproximou-se de nós e disse: “Vocês que estão me procurando? Eu sou o Capacho.”

(No capítulo de amanhã você finalmente vai conhecer o senhor Capacho. Além disso, entrará em cena a sinuosa e malemolente Suzi Mel)

Por Torero às 05h38

17/12/2007

Nove contra o 9

4
(ou “O cronista que falava latim”)

Quando acordamos, fomos direto até a sede do Diário de Banânia, o maior e único jornal da cidade.

Depois de algumas perguntas, chegamos até um sujeito careca.

“O senhor é João Guttemberg, o cronista esportivo?”, perguntei.

“Em carne, osso e cadeira de rodas”, ele disse. “E vocês, quem são?”

“Gulliver e Zé Cabala, detetives particulares.”

“Detetives particulares em Banânia? Estamos ficando chiques. Em que posso ajudá-los?”

“Numa investigação de homicídio.”

“Uh-lá-lá!”

“Fomos contratados para trabalhar no caso do Beleza.”

“Está bem, façam lá suas perguntas. Mas sejam rápidos, que tenho que ir até Laranjal cobrir o treino dos caras.”

“Seremos, senhor Guttemberg. Primeira pergunta: o senhor tem inimigos na cidade?”

“Nenhum.”

“E o Beleza?”

“Não está mais na cidade.”

“O senhor não parece muito abalado com a morte dele.”

“Claro que não. O que o mundo perdeu com a morte do Beleza? Perdeu um alcoólatra, um viciado, um fraudador do fisco, um proxeneta, um caloteiro, um chantagista, um estelionatário e um arrogante. O mundo ficou melhor de ontem para hoje.”

“Como era a relação dos senhores?”

“Profissional.”

“Defina profissional.”

“Ele era um atleta preguiçoso e eu falava mal dele.”

“E ele aceitava as críticas?”

“Nem sempre o Beleza me agradeceu com beijos. Umas duas ou três vezes nos pegamos no tapa. Eu levei certa desvantagem, é claro.”

“Quando foi a última vez que os senhores se falaram?”

“Ontem. Eu tinha que tirar uma foto dele comendo uma banana. Também faço as vezes de fotógrafo. Jornal pequeno, sabem como é.”

“Chegou a fazer essa foto?”

“Sim.”

“Mas não a vi no jornal.”

“Claro que não. A morte dele mudou o foco da matéria. Quem quer uma foto engraçadinha se podemos ter um cadáver na capa. Os jornais, e as pessoas, preferem as tragédias.”

“Seria fácil de achar essa foto?”

Guttemberg começou a remexer num amontoado de envelopes em sua mesa e logo a encontrou.

“É essa.”

Foi a primeira vez que vimos uma imagem do falecido.

Pense num homem pardo, baixo e com o pescoço curto. Os cabelos, lisos e ensebados, formavam caracóis logo acima das orelhas. Olhos fundos, queixo pontudo, nariz de batata, braços longos e nas pernas grossas. Quase uma versão moderna do australopiteco.

Na foto ele realmente devorava uma banana, o que realçava sua aparência simiesca.

“Não quero me meter no trabalho dos outros”, ele disse enquanto girava uma caneta na ponta dos dedos, “mas vocês já fizeram a pergunta mais importante de todas?”

“Qual o sentido da vida?”, perguntou Zé Cabala.

“Não. Qui prodest.”

“Quem ganha?”, traduzi a frase, aproveitando para exibir meus conhecimentos de latim (palavras cruzadas também é cultura).

“Exatamente”, falou Guttemberg. “Quem se beneficia com a morte do Beleza? Eu não ganho nada a não ser uma enorme satisfação pessoal, mas alguém por aí deve lucrar bastante com isso.”

“Alguma indicação?”

“Quem sai ganhando quando um jogador morre?”

Eu cocei a cabeça, Zé Cabala, o turbante.

“O reserva!”, gritou Guttemberg. “O reserva é quem mais sai ganhando com a morte do titular. Se eu fosse vocês, iria agora mesmo falar com o Capacho.”

 


(Como o texto de hoje foi um tanto pequeno, resolvi indenizar o leitor e amanhã, excepcionalmente, teremos um novo capítulo)

Por Torero às 08h29

14/12/2007

9 contra o nove

3
(ou “A história da mulher arco-íris”)

(Resumo do capítulo anterior: Zé Cabala e Gulliver vão até o velório de Beleza, o centroavante. Lá, descobrem que ele foi assassinado, e oferecem seus serviços de detetive. A viúva não aceita seus préstimos e diz que o marido é um canalha, um patife, etc, etc... Quando a dupla sai, alguém os segue e diz: “Eu contrato vocês!”)

Olhamos para trás e vimos que aquela voz rouca saía de uma garganta de mais ou menos uns quarenta e cinco anos, cercada por uma echarpe laranja, que ficava sobre um vestido roxo que, por sua vez, se equilibrava em sapatos vermelhos (os autores do ploc-ploc). Sobre tudo isso, um chapéu amarelo.

Dentro deste arco-íris de mau gosto estava uma mulher carnuda. Seu rosto devia ter mais maquiagem que o do Bozo.

E ela não estava sozinha. Logo atrás vinham nove mulheres. Uma de cada jeito. As senhoritas atendiam pelos nomes de:
-Aureli, loira,
-Ebônia, negra,
-Fumiko, oriental,
-Ana Fada, gordíssima,
-Rúbia, ruiva,
-Calvina, calva,
-Popoporã, índia,
-Píncara, altíssima,
-e Baby, anã

Depois de nos cercarem, a policromática mulher falou: “Meu nome é Berta. Estas são as minhas meninas. Podemos conversar no meu escritório?”

Entramos todos na Kombi e Berta nos guiou até um grande sobrado, onde num letreiro de neon lilás podia-se ler: “Musa Paradisíaca”.

Um forte cheiro de dama da noite exalava dos jardins quando estacionamos nossa Kombi.

Fomos levados até uma sala com grandes poltronas e sofás. Seria uma sala comum não fosse pelas bananas. Havia quadros de bananas, esculturas de bananas e, é claro, todos os móveis tinham tecidos com motivos inspirados em banana. Só aí entendi a sutileza do nome do lugar. Ele não se chamava “Musa Paradisíaca” apenas porque havia mulheres que poderiam levá-lo ao paraíso. “Musa Paradisíaca” também é o nome científico da banana. Ah, poucos vêem a beleza dos trocadilhos...

“Bem, Berta, qual seu interesse no caso?”, falei para quebrar o gelo.

“O Beleza era nosso melhor freguês. Nós adorávamos aquele sujeito.”

“E em que vocês trabalham?”, perguntou Zé Cabala, não sei se com ingenuidade ou ironia.

“Digamos que estamos no ramo de relações públicas”, esclareceu Berta.

Fiz cara de importante e disse: “Mas será que vocês podem pagar nosso preço?”

“Quanto vocês cobram?”

Decidi chutar alto: “Cinquenta por dia. Mais despesas.”

“Que despesas?”, perguntou Berta.

“A gasolina da Kombi, dois pingados pela manhã, dois cachorros-quentes no almoço e uma pizza à noite.”

Vi que ela tinha achado pouco e acrescentei: “Com refrigerante. Uma Fanta uva para cada um.”

Ela não se abalou: “Pago cem. Mas vocês têm uma semana para encontrar o assassino.”

Engoli em seco. “No próximo domingo lhe entregaremos o nome do culpado”, disse eu fazendo cara de Humphrey Bogart. Mas isso não impressionou a arco-irisada mulher. Acho que, olhando de cima, não percebeu a semelhança.

De qualquer modo, ela estendeu-nos sua mão e selamos o acordo. Seu bracelete valia mais que a nossa Kombi.

“Bem, para começar”, disse eu, “queremos fazer algumas perguntas sobre o Beleza.”

“Ótimo.”

“Quando vocês se conheceram?”

“Foi há vinte anos. Eu era arrumadeira de um hotel em Laranjal. O time do Banânia foi fazer um jogo na cidade e ficou hospedado no hotel em que eu trabalhava. O Beleza estava começando e..., bem..., digamos que ele me obrigou a arrumar os lençóis mais de uma vez.”

“Por quê?”, perguntou Zé Cabala.

Berta olhou para mim em busca de socorro. Com um alçar de sobrancelhas eu a fiz entender que certos apartes de meu colega deveriam ser ignorados.

“Nós ficamos íntimos e um dia eu reclamei de meu salário”, continuou Berta. “Foi aí que ele disse a frase que mudou minha vida: ‘Porra, Berta, um baita corpão desses! Vai ser puta lá em Banânia. Te arranjo um monte de freguês!’”

Ela teve um pequeno tremor na voz. Respirou fundo e continuou:

“Ele me deu o dinheiro do ônibus, pagou não sei quantas noites adiantadas e me arranjou uma fila de fregueses. Depois me emprestou o dinheiro para comprar essa casa. E nunca me cobrou a dívida.”

“Nunca?”

“Não em espécie.”

Dessa vez Berta não resistiu e seus olhos ficaram marejados. Para se acalmar, mandou que servissem licor de banana.

Depois de tomar uns sete ou oito cálices, ela já parecia mais tranquila. Então perguntei:

“Berta, se você fosse detetive, por onde começaria a investigação?”

“Falaria com quem o odiasse mais.”

“Sua viúva?”

“Não. João Guttemberg. O cronista esportivo paralítico.”

“Pode deixar, vamos dar uma imprensada no Guttemberg”, prometi. Para meu desgosto, ninguém percebeu o trocadilho. É uma arte perdida. 

Naquela noite dormimos num dos quartos do “Musa paradisíaca”. Infelizmente, as nove meninas estavam de luto e nenhuma se ofereceu para nos fazer companhia.

Por Torero às 07h21

13/12/2007

Boletim do Zé Cabala

Criamos cá um Boletim Especial do "Nove contra o nove". Assim o leitor será avisado cada vez que houver um novo texto da história.

Se você olhar no lado esquerdo da tela, verá um novo botão, logo abaixo das categorias. É ali que você se inscreve no tal do boletim. Ou, se preferir, pode clicar aqui

O Boletim vem com um desenho da dupla e, para os que são meio distraídos (como eu), pode ser útil para que não se perca nenhum capítulo da novela zécabalística.

Por Torero às 04h01

12/12/2007

Nove contra o nove

2

(ou: "Um velório sem lágrimas nem defunto")   

(Resumo do capítulo anterior: Zé Cabala e Gulliver fracassam em sua missão de salvar o Corinthians do rebaixamento e, por via das dúvidas, decidem tirar umas férias longe de São Paulo. Quando estão na pequena cidade de Banânia, ligam o rádio e escutam a transmissão de um jogo local, onde um jogador chamado Beleza faz seu milésimo gol e cai durante a comemoração.)
 
“E agora? Não deu para saber o que aconteceu com o cara”, disse Zé Cabala.

“Como não? Você não ouviu o locutor?”

“Ouvi. Ele disse: ‘o Beleza acaba de mor...’”

“Então?”

“Esse ‘mor...’ pode ser muita coisa. Vai ver ele acabou de ‘mor...’der a língua e não pode dar entrevista.”

Trabalho há muito tempo com Zé Cabala, mas confesso que até hoje não sei se ele é um sujeito brilhante que se faz de bobo ou um tolo que se faz de gênio. Olhei para meu parceiro para ver se descobria a resposta, e vi que ele estava dando cabeçadas no rádio para que voltasse a funcionar. O pior é que deu certo.

“Que coisa incrível, Alaor, quer dizer que o nosso ídolo está morto?”

“Pois é, Nestor, o Beleza agora vai ver a grama pelo lado da raiz.”

“Caramba, o cara morreu mesmo!”, disse Zé Cabala dando um soco na direção e fazendo o rádio parar de funcionar mais uma vez.

“Isso pode ser bom para nós”, pensei e falei.

“Por quê?”

“Ora, por quê! Porque vamos até o velório oferecer seus serviços de carteiro espiritual, de internet das almas. Aposto que a viúva vai querer falar com o falecido.”

Como estávamos sem dinheiro no bolso nem comida no estômago, na mesma hora Zé Cabala aprovou a idéia.

Naquela noite, entramos em nossa Kombi laranja-ferrugem (meu parceiro evita tirar a ferrugem porque tem medo que não haja mais carro debaixo dela) e fomos até o Velório Municipal. Foi fácil achá-lo. Era só seguir a multidão.

O lugar mais parecia uma feira. Do lado de fora havia barraquinhas de frutas, pipoqueiros, sorveteiros, vendedores de cachorro-quente etc... Mas a maioria dos vendilhões comercializava um item especial: camisas do Banânia.

Aliás aqui vai uma descrição daquele manto sagrado: a cor principal é o amarelo berrante, porém a gola, as mangas e o número são pretos. O distintivo é o desenho de uma folha de bananeira, com uma banana de cada lado, costurada à moda antiga, com linha preta. Ao pé dessa folha, a sigla B.E.C., que quer dizer Banânia Esporte Clube. Não vi ninguém vendendo o calção do clube ou seus meiões, mas deixo a nota para a posteridade: ele é preto; eles, amarelos.

A multidão de torcedores foi mantida do lado fora por um cordão de isolamento. Eram milhares. Todos estavam tristes e muitos se debulhavam em lágrimas.

Dissemos que éramos assessores espirituais e nos deixaram entrar. Quem iria barrar um anão e um cara de turbante?

O ambiente do lado de dentro era o oposto do do lado de fora. Havia pouca gente (umas quarenta pessoas) e quase nenhum clima de consternação.

Outra coisa estranha é que não havia corpo no caixão. Perguntei o motivo disso para um sujeito e ele me informou que Beleza ainda estava sendo examinado pelos legistas.

No lugar de honra, solitária, via-se a viúva, uma mulher magra e de longos cabelos negros.  Vez por outra, alguém lhe transmitia os pêsames.

Estávamos caminhando em direção a ela para oferecer nossos serviços quando um sujeito deu-me uma barrigada na testa. Era um japonês troncudo e que usava um cavanhaque à la barba de bode. Após subir numa cadeira, ele começou a falar. Falar não, berrar:

“Pessoal, olhem aqui, prestem atenção: para quem não me conhece, eu sou o Delegado Fukuda. É o seguinte: quero ver todo mundo circulando. É, é isso mesmo, podem ir embora. O corpo do Beleza não vem para cá. Ele vai passar a noite no Instituto Médico. Foram feitos uns exames preliminares e, bom, eu não queria falar de uma coisa que ainda é segredo de investigação, mas o fato é que ele foi... assassinado.”

Um “oh!” ecoou pelo recinto.

“Isso mesmo. Veneno!”, completou o sujeito.

Puxei a manda da camisa de Zé Cabala e perguntei: “Ainda vamos oferecer nossos préstimos espirituais para a viúva?”

“Faremos melhor que isso”, ele respondeu. “Vou oferecer nossos serviços de detetives particulares.”

“Bom, eu até já vi uns filmes e li uns livros sobre isso, mas você entende dessas coisas?”, perguntei.

“Fiz um curso por correspondência.”

“Sério?”

“Sério. Li quase metade da apostila.”

Então Zé Cabala subiu numa cadeira e disse:

“Por favor, um minuto da sua atenção. Sou o detetive Zé Cabala e este é Gulliver, meu altivo auxiliar (ah, como odeio estes trocadilhos!). Estávamos de passagem por esta aconchegante cidade quando soubemos desse triste acontecimento. Como nossa especialidade são os crimes esportivos, gostaria de oferecer os nossos serviços aos interessados e em especial à senhora viúva.”

Ela nem titubeou e respondeu um seco “Não, obrigada.”

“Não!?”, espantei-me e interroguei-me. “A senhora não quer saber quem envenenou o Beleza?”

“Não.”

“Nem como?”

“Não.”

“Nem quando?”

“Não.”

“Nem por quê?”

“O porquê eu sei. Meu marido era um canalha, um crápula, um patife!”, gritou ela.

O mais estranho é que ninguém se opôs. Acho até que alguns concordaram com a cabeça.

Eu olhei para Zé Cabala, ele olhou para mim, e começamos a sair de fininho.

Porém, percebemos que um ploc-ploc nos seguia. Mal cruzamos a porta do velório e escutamos uma voz rouca dizer: “Esperem aí. Eu contrato vocês!”

Quando olhamos para trás, mal pudemos acreditar no que vimos.

 

Por Torero às 08h10

11/12/2007

Como é a Kombi de Zé Cabala?

Enquanto não chega o próximo capítulo, peço ajuda dos leitores para decidir como é a Kombi de Zé Cabala citada no primeiro capítulo. Vocês acham que ela é...

 Verde e amarela, como a bandeira nacional?

 Branca e anil, como o segundo uniforme do Brasil?

 A tradicional Kombi branca, mas com um pára-choques laranja para dar uma certa graça?

Modelo ferrugem?

 Um exemplar da categoria "Sim, fui hippie, e daí?"?

 Uma versão clássica?

 Ou seria do tipo "Ficou um pouco de cada uma das cores que ela já teve"?

Por Torero às 11h24

10/12/2007

Nove contra o nove

1

(ou "A morte do matador")

Sou um anão. Anão, não. Deficiente vertical.

Meu nome é Gulliver. E não é apelido. É que meu pai gostava de fazer piadas. Por conta desta sua gracinha, desde pequeno (desculpe o trocadilho) tive que escutar gracejos do mais baixo nível (desculpe este também).

Trabalho como assistente de um sujeito chamado Zé Cabala. Ele é que é o cérebro da equipe. Para você ver como estamos mal. Formamos uma dupla singular. Zé Cabala é magro e alto, e eu sou razoavelmente rechonchudo, de forma que, de longe, parecemos um “10”, ou melhor, um “1o”.

Você já deve ter ouvido falar de Zé Cabala. Foi um célebre nigromante ludopédico. Ou seja, ele adivinhava os resultados dos jogos para apostadores, benzia jogadores, recebia espíritos de craques do passado, fazia trabalhos para clubes ganharem campeonatos, etc. Tivemos fregueses famosos, como aquele técnico com nome de país pequeno. Não, não é Liechtenstein.

Mas chega de introdução. Vamos aos fatos.

No último Campeonato Brasileiro, Zé Cabala foi contratado por torcedores do Corinthians para que o time não fosse rebaixado. Se você não acompanha futebol, eu lhe digo: o Corinthians caiu. E a Fiel não aceitou muito bem as nossas desculpas. Na verdade, mal terminou o jogo e ligaram para nós, avisando que iriam quebrar todos os nossos ossos.  

Meus ossos são pequenos mas tenho certo apego a eles, de modo que sugeri que a Zé Cabala que saíssemos da cidade e tirássemos umas férias. Cinco minutos depois estávamos na Kombi 68 de Zé Cabala e disparávamos pela estrada. Disparávamos é modo de dizer, porque ela não passa dos cinquenta.

Pensávamos em ir para o Paraguai, para a Bolívia, ou outro paraíso tropical, mas nosso pneu furou em Banânia, uma daquelas cidades tão pequenas que não têm Bradesco nem Pernambucanas.

Enquanto eu trocava o pneu, Zé Cabala ligou o rádio para escutar alguma coisa. Estava passando um jogo de futebol.

“Que demais, ouvintes, que demais! Fogos estouram e bandeiras tremulam! É o esquadrão aurinegro que vem adentrando ao gramado do Pacóvio Costa! É dia de decisão: Banânia Esporte Clube de um lado, Grêmio Recreativo Laranjal do outro! Vai que vai, Alaor!”

“Vou que vou, Nestor, mas olha: está a maior confusão aqui embaixo. Está todo mundo em volta dele.”

“Você está falando do maior ídolo da história do Banânia?”

“Do próprio.”

“Aquele que já fez 999 gols pelo clube?”

“Ele mesmo.”

“E qual é o nome dele, Alaor?”

“Bê de bola, e de estádio, ele de lance, e de euforia, z de zorra e a de alegria, É Beeeeeeeeleza!”

“Que demais!”

“Até o juiz está pedindo autógrafo. E nesse momento o capitão da equipe adversária oferece um galho de laranjeira para ele. Eu vou tentar me aproximar. Não empurra, cacete!”

“Oi, Alaor?”

“Vai você se foder!”

“Olha o microfone aberto, Alaor.”

“Eu peço desculpas ao ouvinte, mas realmente está complicado trabalhar aqui. Deve ter mais gente no gramado do que na arquibancada, Nestor.”

“Eu sei, eu sei, é toda uma ansiedade, é toda uma expectativa em torno da marcação do gol mil. A cidade está em polvoro... Bzzzzzzzzz!”

“Que foi isso?”, perguntou Zé Cabala.

“O rádio pifou.”

“Que chato...”

“Chato é trocar pneu”, respondi.

Naquela altura eu já tinha tirado fora o pneu furado, colocado o estepe no lugar e girado a manivelinha até minhas mãos ficarem cheias de bolhas.

“Você se importa de terminar o serviço?”, perguntei.

Quando Zé Cabala apertou as porcas, o rádio voltou a funcionar. Milagre? Não. Carro velho é assim, você aperta uma coisa e liga outra.

“Um minuto de bola rolando. Viriato cerca, Fefê se livra; tem Beleza na entrada da área. Fefê lança, Beleza recebe a bola, domina, chuta... E é gol! Gooooooooooooool! É mil, é mil! Uma cla-mo-ro-sa falha de Nove Dedos! Beleza corre para o alambrado. É mil! Ele dá socos no distintivo do Banânia! Que demais! Agora está sendo carregado nos ombros! Nunca um atacante da sexta divisão obteve essa marca! Mil! Eu repito: mi... minha nossa Senhora! O que aconteceu?”

“Ele caiu no meio do gramado.”

“Vai até lá, Alaor.”

“A polícia não deixa, Nestor. Daqui da beira do gramado não dá para ver nada. Os companheiros estão em volta dele. Sai da frente, pessoal!”

“Deve ser a emoção, Alaor. Não é todo dia que se faz mil gols.”

“Com certeza, Nestor, com certeza. O doutor Penteado está indo para lá. Foi emoção, doutor?... Ele passa correndo. Daqui a pouco nós pegamos o depoimento dele.”

“É o Capacho ali no aquecimento, Alaor?”

“Exatamente, Nestor. Tudo indica que o Beleza não tem condições de seguir jogando.”

“Está me parecendo distensão, Alaor. Na hora do chute ele estava meio desequilibrado.”

“Agora a polícia forma um cordão de isolamento, a gente não consegue se aproximar... Ah, meu Deus! Tem jogador chorando ali!”

“É de sirene esse barulho?”

“Acho que é. Vou tentar falar com o Fefê. Oi, Fefê, por favor... Não, o Fefê não quer falar. Vou tentar o Mingau.”

“Olha a ambulância à tua direita, Alaor.”

“Pois é, Nestor, a ambulância se dirige até o local. Ela está parando agora e os funcionários descem com a maca! Só um minuto que o doutor Penteado vem vindo. Doutor Penteado, por favor, uma palavrinha.”

“Ah, Alaor, é uma tragédia, uma tragédia... Eu peço a todos que tenham força espiritual nesse momento, porque o nosso querido Beleza acaba de mor... Bzzzzzzzzzz!”


 

(Não perca o final da frase acima e o segundo capítulo de “9 x 9” na próxima quarta-feira.)

Por Torero às 08h23

07/12/2007

Nove contra o 9

Na próxima segunda-feira vou começar algo diferente aqui no blog. Será um folhetim, como aqueles dos velhos tempos. Ou, pensando bem, não será exatamente como nos velhos tempos, quando os jornais publicavam histórias em capítulos para fidelizar seus leitores. E será diferente por dois motivos:

Primeiro, não estamos em um jornal, mas na internet, o que favorece uma maior interação entre leitor e escritor. Além disso, os leitores terão os capítulos antigos à sua disposição, o que vai facilitar o acompanhamento da história.

Segundo, porque aqueles romances geralmente tinham o amor como tema, e este terá o futebol como assunto central. Além disso, teremos um detetive, ou melhor, dois, procurando desvendar um crime. E com certo humor. Ou seja, será um folhetim ludopédico-detetivesco-humorístico (em português parece picaretagem, mas em alemão fica witziger Kriminalfeuilleton, e aí parece mais mais sério).

Os detetives são velhos conhecidos dos leitores deste blog e da Folha, e atendem pelos nomes de Zé Cabala (o sábio dos sábios, o supremo nigromante, o carteiro das almas) e Gulliver, seu assistente anão.  

Os capítulos sairão às segundas, quartas e sextas.

Durante a publicação, iremos conversando. Os leitores poderão escarafunchar a feitura do romance, meio que fazendo um raio-x do texto. E também poderão dar palpites, que podem acabar mudando a trama.

Já fiz um grande rascunho da história (junto com Marcus Aurelius Pimenta, com que escrevi alguns livros), mas nada impede que ela vá mudando enquanto estiver sendo publicada aqui.

O folhetim chama-se "Nove contra o 9" e vai girar em torno de Beleza, um centroavante que tinha 999 gols e justamente no dia em que... bem, não vou estragar o suspense.

Acho que poderemos nos divertir aqui como na Copa dos Pesadelos (se bem que neste caso seremos menos interativos e mais literários).

Até segunda.

 

PS: Outro convite: Meu sobrinho Lelê lançará seu primeiro livro neste domingo, em São Paulo. Será na Livraria da Vila (rua Fradique Coutinho, 915), das 15h00 às 17h00 e a Denise Fraga dará uma canja, lendo alguns dos textos. 

Por Torero às 08h56

04/12/2007

Zé Cabala e o presidente

Quando toquei a campainha do pequeno bangalô de Zé Cabala, demoraram muito para atender. Só depois de algum tempo é que Gulliver, seu assistente anão, destravou as sete chaves da porta.

“Desculpe a demora, é que tive buscar um banquinho na cozinha para olhar pelo olho mágico. Não sei por que fazem essas coisas tão no alto...”

Quando entrei, perguntei para Zé Cabala: “Por que esta segurança toda, mestre? Olho mágico, sete chaves...”

“Ah, meu caro gazeteiro, é que fui contratado por alguns corintianos para salvar o time da série B, mas parece que meus poderes falharam. Eu estava meio gripado no dia, sabe?”

“E o senhor está com medo de alguma represália?”

“Represália, surra, sova, esquartejamento... chame como quiser.”

Bem, falando em Corinthians, hoje eu gostaria de entrevistar o presidente mais famoso do clube: Vicente Matheus.

“É para já”, disse o célebre nigromante. E então pegou um dicionário e bateu várias vezes com ele na cabeça, até cair sentado na poltrona.

Quando ele abriu os olhos, perguntei: “Senhor Vicente Matheus?”

“Sou eu, em carne e osso. Quero dizer, em alma e espectro.”

“Bem, vamos começar pelo começo. Onde o senhor nasceu?”

“Em Toro, na Espanha, noventa e nove anos atrás.”

“E quando chegou no Brasil?”

“Em 1912. Arranjamos uma casinha em Guaianazes.”

 “É verdade que, quando criança, sua vida não foi fácil?

“Minha infantilidade foi muito difícil. E você sabe: o difícil não é fácil. Lá em casa éramos meu pai Luís, minha mãe Manglória, quatro irmãos e cinco irmãs. Eu precisei parar de estudar para ajudar meus pais. Primeiro nós tínhamos uma lojinha de secos e molhados, mas depois meu pai arrendou uma pedreira e a coisa melhorou. Sabe como é, de gole em gole, a galinha enche o papo.” 

“E como o Corinthians entrou na sua vida?”

“Foi em 24. Um tio meu, o Avelino, me levou para ver uma partida do Corinthians. Foi amor à vista.”

“À primeira vista, o senhor quer dizer?”

“Não, à vista mesmo. Contrário de a prazo. Foi duma vez só.”

“E, já na década de 50, o senhor era dirigente do clube, não?”

“Sim. E em 59 assumi a presidência pela primeira vez. Quem está na chuva é para se queimar.”

“Qual era o seu estilo como presidente?”

“Eu era um dirigente à moda antiga, que amava o Corinthians e não usava o clube para ficar rico ou entrar na política. E resisti o mais que pude a essa história de ter nome do patrocinador na camisa.”

“O senhor fez contratações importantes, não é?”

“Claro! Trouxe ótimos jogadores: o Lero-lero, o Bom-Bril, o Aristóteles...”

“Como?”

“Biro-Biro, Palhinha e Sócrates. Errei de propósito, só para lhe dar o gostinho.”

“Por quanto tempo o senhor foi presidente?”

“De 1959 a 1961, de 1972 a 1981 e de 1987 a 1991.”

“E qual o título que o senhor mais gostou de ganhar?”

“O Brasileiro de 1990 foi sensacional, mas não teve nada igual ao Paulista de 1977. Nunca tive um dia tão feliz na minha vida. Cheguei em casa sem os sapatos.”

“Parece que em 77 o senhor contratou os serviços de Zé Cabala. Essa informação é verdadeira?”

“Verdadeiríssima. Fui um dos primeiros clientes dele. O Zé Cabala disse que tinha um trabalho espiritual enterrado atrás de uma das traves do campo principal. A gente cavou e encontrou mesmo um sapo. Isso foi dois dias antes da vitória por 1 a 0 contra a Ponte. Este Zé Cabala é maravilhoso. Merece até uma bonificação.”

“E, para terminar, qual sua opinião sobre o rebaixamento?”

“Como dizem que eu disse: ‘É uma faca de dois legumes’. Os outros vão rir da gente, vão fazer piada da gente, mas quem é corintiano vai ficar ainda mais corintiano. Quando é que a gente cresceu? Quando ficou mais de vinte anos sem ganhar título. Na Série B, a torcida vai aumentar e ficar mais fanática. Esse negócio de lógica não funciona com a gente, não.”

Por Torero às 21h29

03/12/2007

Brasileirão City: o fim de Tim Timão

O crepúsculo manchava de vermelho as ruas de Brasileirão City. O crepúsculo e o sangue.

Foi o último dia de duelos. Duelos decisivos. Duelos mortais.

Jack Tricolor, o campeão, o vencedor, o glorioso, foi derrotado por Harry Hurricane, no Arena Saloon. Mas e daí? Isso não mudou nada. Durante o ano, ele foi o melhor com folga e mereceu receber sua quinta estrela de xerife.

Billy Santos levou quatro tiros de Louis Laranjeira. Seu uniforme branco ficou manchado de vermelho. Mas e daí? Ele acabou em segundo lugar e isso era o máximo que poderia conseguir.

Black Red, o caubói que anda sempre com um Urubu em seu ombro, caiu frente a James Capibaribe. Mas e daí? Black Red, que há alguns meses parecia destinado a ir passar um ano em Série B Village, recuperou-se e acabou como o terceiro melhor de Brasileirão City. Foi uma recuperação e tanto, como aqueles mocinhos que levam uma flechada no ombro mas, usando apenas com a mão esquerda, conseguem matar toda a tribo inimiga.

Will Uai, o caubói que só se veste de azul, teve a missão mais fácil do domingo: matar o já morto Paul T. Guar (e dentro de seu próprio saloon, o Big Boy from Minas). Em 25 minutos Will já tinha acertado dois tiros no rubro inimigo. Depois ficou fazendo malabarismos com seus revólveres. Como prêmio por sua campanha, irá participar do grande rodeio Los Libertadores.

O curioso é que Will Uai contou com a ajuda de seu maior inimigo, Rob Gallo, que venceu, e bem, a Big Green. Green foi, durante todo o ano, um caubói surpreendente. Ganhava duelos que pareciam perdidos, perdia os que pareciam ganhos. Se não perder a cabeça e jogar as boas armas fora, poderá ter um bom 2008.

Seth Fire e Phil Gueira fizeram um duelo equilibrado. Phil precisa vencer para ir para Sul-Americana, uma competição para a qual todos querem ir, depois todo mundo quer abandonar. Mas só o que Phil Gueira conseguiu foi empatar o duelo no finalzinho. Seu consolo é que no ano que vem estará mais uma vez trocando balas em Brasileirão City.

Joaquim Wayne, o caubói de largos bigodes e que sempre anda com o cinto de balas atravessado no peito, venceu o simpático Blue Reed. Blue lutou mal, perdendo a cabeça, e uma de suas armas, logo aos sete minutos. Mas resistiu por um bom tempo. Só na segunda metade do duelo é que Joaquim Wayne acertou o primeiro tiro em Blue. Depois disso, o cavaleiro das araucárias desanimou e levou mais dois balaços. Assim ficou em penúltimo lugar e terá que passar um tempo em Série B Village. O curioso é que Blue Reed teve o melhor revólver de Brasileirão, o Colt Josiel, que acertou os inimigos nada menos do que vinte vezes.

Cliff Reciff precisava vencer o já rebaixado Young Boy participar da Sul-americana. Para sua sorte, Young estava sem nenhum interesse no duelo, tanto que, durante o duelo, escondeu-se atrás de um barril e começou a limpar seu revólver. Porém, sua arma disparou acidentalmente e dois tiros alvejaram Cliff, que acabou ficando fora da Sul-americana. O bang-bang é uma caixinha de surpresas.

Mais desinteressado que Young Boy estava James Colorado. O caubói internacional enfrentou John Esmeraldine, mas tinha pouca gana de vencer. Tanto que no intervalo do duelo trocou seus dois revólveres dourados (Gil & Fernandão) por duas garruchas. Já Esmeraldine queria derrotar seu oponente, mas o bandoleiro do cerrado tem tão má pontaria que teve que dar três tiros à queima roupa para acertar a bala fatal. Escapou de ir para Série B Village, mas, se não melhorar, e muito, logo estará por aquelas bandas.

E por fim chegamos ao mais visto, lamentado e comemorado duelo de Brasileirão City: Tim Timão x Sancho Pampa.

Tim Timão precisava vencer, mas mal começou o duelo e Sancho, que tem experiência em duelos dramáticos, acertou-lhe um tirázio logo de cara. Tim não esmoreceu e, aos trancos e arrancos, conseguiu empatar as coisas colocando, sem muita classe, é verdade, uma bala no corpo de Sancho. No entanto, precisava acertar mais uma. E isso não estava fácil para Tim Timão, que anda com pontaria de vesgo. Até o fim do duelo ele tentou de tudo. Mas não conseguiu nada. E vai para Série B Village. Depois do duelo, os fãs de Tim ajoelhavam-se, enrolavam-se em bandeiras, lamentavam. Se bem que alguns já entoavam gritos de guerra.

O problema de Tim Timão é que seu antigo fornecedor de armas, Dudu A. Lib, deixou-o apenas com alguns revólveres de espoleta e uns rifles enferrujados. E, sem boas armas, ninguém vai muito longe em Brasileirão City.

Os admiradores de Tim Timão derramaram tantas lágrimas pelas ruas de terra de Brasileirão City que formaram um mar de lama. Aliás, mar de lama parece ser o problema de Tim Timão.

Por Torero às 08h25

02/12/2007

Dois avisos

O primeiro é que o Kajuru estréia nesta segunda-feira, às 19h30, seu próprio site. O endereço é www.sitedokajuru.com.br.

O segundo é que, também nesta segunda, mas um pouco mais cedo, às 18h30, será lançado o livro "Donos da Terra", de Odir Cunha. O livro é uma grande reportagem sobre o primeiro título mundial do Santos, conquistado há 45 anos. Pepe, Mengálvio e Lima estarão lá.

E o "lá" é a loja Santos Mania, na avenida Washington Luís, 446, em Santos.

 

Por Torero às 10h28

01/12/2007

Assim falou Zé Cabala

(publico hoje o primeiro texto em que aparece o personagem Zé Cabala, de 4 de maio de 2001)

O escritório , ou melhor, o consultório de José Cabala fica no número 13 de uma rua escura na Vila Boa Esperança.

A entrada possui uma estátua de cada lado. À direita, há um Buda com o distintivo do Corinthians tatuado na barriga. À esquerda, um Exu com a camisa do Flamengo.

A porta foi aberta por um anão chamado Gulliver, e o visitante foi levado até uma sala cheia de estrelas fosforescentes pelas paredes. Gulliver reparou nas suas mãos e comentou:

- Que unhas bem feitas!

- Sempre que posso vou na manicure.

Depois de pendurar seu sobretudo preto num cabide do corredor, o visitante entrou na sala de Zé Cabala e, com alguma dificuldade, sentou-se em posição de lótus.

- Esse meu joelho...

Então ele olhou para as paredes e notou três diplomas: o de Cristalologia Esóterica, por Harvard; o de Astrologia Kármica Indiana, por Princeton; e o de Mandingas, Feitiços e Sortilégios Aplicados ao Futebol, por Oxford.

Pouco depois, sob o som de música new age, Zé Cabala apareceu. Usava um turbante branco com uma grande pedra vermelha ao centro e vestia uma túnica roxa que se arrastava pelo chão.

- O que você deseja?

- Antes de tudo, agradecer pela graça alcançada, mestre.

- Essa classificação me deu trabalho mesmo."

- Foi um milagre.

- E dos grandes.

- Mas agora eu queria...

- Já sei. A receita.

- Receita Federal?, o visitante olhou para os lados e perguntou preocupado: - Onde?

- Não, meu filho, a receita da vitória."

- É, isso, agora eu quero ganhar o campeonato.

- Muito bem. Para que ficar nos feijões se podemos ter camarões?

- Essa palavra me faz mal, mestre.

- Camarões?

- Me derruba.

- Bem, para que você ganhe o campeonato, primeiro temos que limpar os seus chacras.

- As chácaras? Mas elas nem são minhas. Não sei como elas foram aparecer na investigação.

- Chacras, meu filho, chacras.

- Ah, claro...

- E depois temos que ouvir o I-Ching.

- Não pode ser um pagode?

- I-Ching, meu filho, não Sting.

- Ah...

- E por fim você terá que fazer cinco trabalhos.

- O que o mestre mandar.

- Mate onze galinhas pretas e jogue o sangue delas sobre um túmulo pintado de preto e branco, enterre um sapo numa encruzilhada de três ruas, faça uma oferenda de champanhe para Oxum, acenda 77 velas de sete dias e, principalmente, deixe o Paulo Nunes na reserva."

- Só isso?

- Só.

- O senhor me deixou feliz.

- Você também vai me deixar contente: são R$ 500.

- Eu não sei se tenho esse dinheiro na minha conta!

- Nem nas do exterior?

- Bem, talvez alguma coisa...

O visitante, contrariado, levou as mãos à carteira, tirou um talão e começou a preenchê-lo. Foi então que Gulliver aproximou-se do cliente e disse baixinho ao seu ouvido:

-Cheque não, Wanderley, cheque não.

Por Torero às 08h48

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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