Blog do Torero

30/08/2007

Passo Profundo e passando para o fundo

Ontem, depois de uma viagem de avião (só duas horas de atraso) que foi quase agradável (só não foi agradável porque foi de avião), cheguei aqui em Passo Fundo.

O que mais gosto na proposta desta Jornada Literária é, na verdade, a Pré-Jornada. Ou seja, meses antes dos escritores chegarem, a cidade, e mesmo a região, começa a ler os autores convidados, de modo que, quando você vai falar, há centenas de pessoas que leram seus livros. Isso deixa as conversas muito mais úteis e divertidas. É o passo profundo de Passo Fundo (este foi péssimo, eu sei).

Na primeira vez em que vim aqui, em 99, nem acreditei quando vi um público de três mil pessoas para me ouvir falar (na verdade, vieram para ver o Luís Fernando Verissimo e o Zuenir Ventura, mas eu estava no meio deles). E fiquei ainda mais impressionado quando vi que muitas pessoas haviam lido o "Xadrez, truco e outras guerras". Isso me deixou tão impressionado que, ao fim da Jornada, tiveram que me colocar no avião à força, pois eu não queria voltar para casa. Lembro que, agarrado ao pé da cama do hotel, eu gritava: "Deixem-me ficar, deixem-me ficar, aqui me lêem!"

Acho que essa tal Pré-Jornada é o pulo-do-gato da Jornada. Ela faz com que o encontro não seja apenas um oba-oba, um encontro mais interessado em famosos do que em livros. Não é uma feira do tipo "Caras", onde as pessoas nem sabem quem vão ouvir. Aqui fala-se para leitores. E isso faz com que a Jornada seja, para mim, a principal festa literária do país.

Mas isso não impede alguns momentos chatos.

Ontem, por exemplo, houve uma palestra sobre "arte e transcendência". Foi tão aborrecida que passei para o fundo da sala. Já meu sobrinho Lelê, realmente transcendeu e dormiu.

A culpa, acho, foi do excesso de palestrantes e do ego dos escritores, que ficam citando um monte de outros autores e filósofos, e, pior, a si mesmos. Além disso, o tema também era muito aberto, de forma que cada um interpretava transcendência de uma maneira.

Na verdade, um escritor, principalmente um ficcionista, fala bem é de seus livros. Sobre o resto, é apenas um palpiteiro. Mas alguns se levam muito a sério, como se contivessem a sabedoria suprema, e isso é um tanto chato. Não foi à toa que o Lelê dormiu.

De qualquer forma, hoje tem palestra do Carlo Ginzburg (meu sobrinho tem uma opinião interessante sobre seu cabelo) e deve ser bem interessante.

E por agora é só, porque daqui a pouco vou falar para oitocentas crianças. Que Deus me ajude. 

Por Torero às 12h41

29/08/2007

Jornada de Passo Fundo.

Estou indo agora pegar o avião (argh!) para Passo Fundo (oba!).

Vou participar de uma das coisas mais estranhas e interessantes do Brasil, a Jornada Literária. É uma coisa estranhíssima, pois há lá milhares de leitores de um país sem leitores, e uma centena de escritores de um país de analfabetos.

Vou escrever diariamente alguma coisa aqui no blog sobre a Jornada. E meu sobrinho Lelê também vai fazer alguns textos. Se nosso avião não cair.

 

Por Torero às 09h09

23/08/2007

A volta de Zé Cabala

Para matar a saudade, eis aqui uma recente entrevista com Zé Cabala, publicada originalmente na Revista do Brasil:

 

O primeiro Brasileiro

Quando cheguei à casa de Zé Cabala, o grande vidente, o supino telefonista dos espíritos, ele roncava estirado numa rede.

- Mestre?

- Anh? O quê? Eu vou pagar, eu vou pagar!

- Sou eu, mestre.

- Ah..., sei... Quem você quer entrevistar hoje?

- O pessoal da Revista do Brasil me pediu um texto sobre o primeiro campeão brasileiro.

- Já lhe falei que o preço da consulta aumentou?

- De novo?

- Sabe como é, essa política cambial...

- Tudo bem, vamos lá.

Sem sair da rede, o supino MSN das almas deu uns tremeliques. Eu sabia que aquilo significava que algum jogador estava baixando. Esperava que o espírito tivesse um sotaque mineiro, mas o que ouvi foi um cumprimento assim:

- Diga aí, meu rei!

- É... O senhor jogou no Atlético?

- Afe!, só se foi no de Alagoinhas!

- Deve ter havido um engano, eu preciso escrever sobre o primeiro campeão nacional, e qualquer um sabe que esse time foi o Atlético Mineiro em 1971.

- Não, senhor, foi o Bahia em 1959!

- Perdão, mas aquilo era a Taça Brasil.

- E a Taça Brasil era o quê, meu bom? Campeonato regional?

- Não, era nacional.

- Pois então. Olhe, a edição de 1959 teve dezesseis participantes. E não era timinho não, meu nego, era Santos, era Grêmio, era Vasco, era briga de cachorro grande!

- Desculpe, estou falando com quem?

- Com o grande Biriba. Quer dizer, grande como jogador, porque eu era baixinho.

- O senhor era ponta-esquerda, não era?

- Era. Fiz 113 gols pelo Bahia. E olhe que eu comecei tarde no futebol. Eu jogava lá na areia de Itapuã, mas aí o pessoal insistiu tanto que eu fui fazer teste no Bahia. E passei. Isso foi em 54. Eu já tinha 26 anos. Em compensação joguei até os 40.

- Pois não, senhor... Biriba. Então o Bahia precisou enfrentar grandes esquadrões para ser campeão?

- Primeiro a gente passou pelo CSA, depois pelo Ceará e aí decidiu a vaga do Grupo Norte contra o Sport. Ganhamos por 3 a 2 em casa, mas tomamos uma piaba de 6 a 0 em Recife.

- E onde foi a negra?

- Foi comprar pão e já volta. Eh! Eh! Eh! Desculpe a piada, velho, baiano é assim mesmo. Mas, falando sério, a negra foi na Ilha do Retiro. Aí nós lavamos a jega: 2 a 0.

- Depois veio quem?

- O Vasco, todo cheio de guéri-guéri. Ganhamos a primeira lá no Rio, perdemos a segunda na Fonte Nova e aí, na Fonte Nova de novo, ganhamos o desempate por 1 a 0.

- A final foi contra o Santos, não foi?

- Santos não, demônios! Aquele foi um dos maiores times de todos os tempos: Manga; Getúlio, Urubatão, Formiga e Dalmo; Zito e Jair da Rosa Pinto; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe.

- Foram três jogos de novo?

- Claro, meu rei. A glória para ser gloriosa tem que ser dificultosa. Metemos 3 a 2 na Vila Belmiro, perdemos por 2 a 0 na Fonte Nova e aí, no desempate, no Maracanã, metemos 3 a 1.

- Caramba!

- Olhe, eu respeito o Atlético Mineiro, mas os primeiros campeões brasileiros não foram eles não, foram Nadinho; Leone, Henrique, Vicente e Beto; Flávio e Bombeiro; Marito, Alencar, Léo e euzinho, o Biriba.

- Realmente foi uma grande vitória!

- Menino, prefiro dizer que foi um grande triunfo, um grande êxito.

- O senhor não gosta da palavra vitória?

- Não muito.

- Agora me diga uma coisa: o que o senhor acha do Bahia atualmente?

Naquele momento Zé Cabala começou a emitir os famosos zumbidos, como óóóin, bzzz e tu-tu-tu... Com tantos anos de visitas eu já sabia que aquilo significava a perda do contato e o fim da entrevista.

Pois bem, cara leitora e barato leitor, eis aí a verdade: pensei que ia escrever uma matéria sobre o Atlético Mineiro e acabei falando do Bahia. Tudo bem, o tricolor merece. Ele foi o legítimo vencedor na época em que o campeonato brasileiro dava seus primeiros passos. Na falta do reconhecimento da CBF, fica aqui essa modesta homenagem.

Por Torero às 20h58

21/08/2007

O herói do Pan

E na pesquisa sobre o quem foi nosso maior herói do Pan, Thiago Pereira ganhou fácil, com cerca de um quarto dos votos.

Ou seja, venceu quem venceu mais vezes, seguindo a própria lógica do quadro de medalhas.

Em segundo lugar ficou Hugo Hoyama, com 15%. Uma colocação pelo conjunto da obra.

Com o bronze ficaram Marta, do futebol feminino, e Diogo Silva, que ganhou nosso primeiro ouo da competição.

Para mim, uma surpresa foi a baixa votação de Giba, do vôlei, com apenas 2,14%. Pode-se dizer que trata-se de um esporte coletivo, mas aí como explicaríamos a posição de Marta? Talvez a expulsão de Ricardinho tenha diminuído a simpatia da seleção de vôlei, ou talvez estejamos acostumados a vencer neste esporte. 

Outro que pensei que seria mais lembrado foi Diego Hipólito, que ganhou duas medalhas de ouro na ginástica mas recebeu menos de 1% dos votos.  Pelo jeito, este esporte, na versão masculina, ainda não empolgou.

Por Torero às 13h26

Juízes sem juízo

Uma dúvida: quais são os pores juízes, os do futebol ou os da justiça?

Faço essa pergunta porque os nossos homens de preto, ops!, os dois tipos vestem-se de preto. Vou tentar de novo: Faço esta pergunta porque os juízes do apito são sabidamente incompetentes, quando não, corruptos. Mas os do martelinho querem deixar os companheiros dos gramados para trás.

Eis que, depois do caso Richarlyson, agora foi a vez do juiz Marcio Lucio Falavigna Sauandag, da 30ª Vara Criminal de SP, absolver o estilista Ronaldo Ésper da tentativa de furtar vasos do cemitério.

Segundo alega o juiz, a conduta de retirar os vasos de um local abandonado não constitui crime.

Então, liberou geral. Vamos todos roubar vasos do cemitério. E lápides e flores e dentaduras!

Viva a justiça!

 

Por Torero às 10h59

18/08/2007

Drummond, o boleiro.

Amanhã, domingo, 19 de agosto de 2007, às 12h00, a TV Cultura vai mostrar um "Grandes Momentos do Esporte" especial. Será sobre Carlos Drummond de Andrade (que morreu em 17/8/1987) e o futebol. Mais especificamente sobre as crônicas em que ele fala de futebol. Está tudo num livro chamado "É dia de futebol" 

Segundo o release , "o programa traz o depoimento de Pedro Drummond, neto do poeta, que revela "intimidades" curiosas do avô, sobretudo a respeito de suas preferências futebolísticas e das reações mal-humoradas aos maus resultados; do professor de Literatura da USP Flávio Aguiar, que lê e analisa os vários textos de Drummond sobre o futebol, e dos ex-jogadores da Seleção Brasileira Tostão e Reinaldo, fãs confessos do escritor."

Abaixo, coloco um texto sobre o livro que publiquei na Folha:

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA BOLA

"Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma."

Estes quatro versos são de Carlos Drummond de Andrade. Mesmo sem jamais se propor a ser um cronista de futebol, poucos escreveram tão bem sobre o assunto quanto este vascaíno.

Ele não falava de táticas ou dos grandes jogos da rodada. Seu principal assunto era o torcedor. E acho até que ele sentia uma certa inveja deste torcedor, capaz de gestos de amor grandiloquentes e de uma fé quase religiosa.

Em seu primeiro texto sobre futebol, em 1931, ele narra um episódio em que, passando de bonde pelo centro de Belo Horizonte, vê uma multidão escutando um jogo de futebol pelo rádio. Um time mineiro jogava no Rio de Janeiro e 2.000 torcedores ficaram ali, na avenida Afonso Pena, a torcer de ouvido.

CDA fica pasmo ao ver esse exemplo de paixão: "Não posso atinar bem como uma bola, jogada à distância, alcance tanta repercussão no centro de Minas".

Vinte e três anos depois, durante a Copa da Suíça, ele já aceita melhor o insano amor do torcedor: "Sua magia opera com igual eficiência sobre eruditos e simples, unifica e separa como as grandes paixões coletivas".

Na Copa seguinte, a da Suécia, pode-se dizer que, se ele ainda não está na arquibancada, pelo menos, já observa a festa da janela: "Como deixar de lançar papeizinhos ao ar, sujando a cidade mas engrinaldando a alma, e de estourar bombas da mais pura felicidade e glória, mesmo que arrebentemos os próprios tímpanos".

Em 1962, Drummond está ainda mais animado e chega a sugerir alguns jogadores para o ministério: "Reparem que o Gabinete se compõe de 13 ministros e um presidente de Conselho. Nossos 11 campeões são 14, inclusive Pelé, o técnico Aimoré e o dr. Gosling. Trata-se de um ministério escolhido pelo destino, e é só dispor cada homem na posição correta".

Vem a derrota na Copa de 66, e CDA faz um belo poema intitulado "Aos Atletas": "Hoje, manuscritos picados em soluço chovem do terraço chuva de irrisão. Mas eu, poeta da derrota, me levanto sem revolta e sem pranto para saudar os atletas vencidos".

Há nesta poesia um tema que será explorado mais algumas vezes: a derrota como fato cotidiano e até nobre da vida; a derrota como parte integrante e indissociável da vitória.

1970 é o ano em que CDA mais faz textos sobre futebol. E é interessante notar que ele se coloca totalmente a favor da conquista da Copa, ao contrário de parte da esquerda da época. Tanto que até escreve a "Oração do brasileiro", uma oração em que ele pede ajuda a Deus para ganhar o Mundial do México.

Drummond transformara-se definitivamente em torcedor. E fica surpreso com essa transformação: "Que é de meu coração? Está no México, voou certeiro, sem me consultar, instalou-se, discreto, num cantinho qualquer, entre bandeiras tremulantes, microfones, charangas, ovações, e de repente, sem que eu mesmo saiba como ficou assim, ele se exalta e vira coração de torcedor, torce, retorce e se distorce todo, grita: Brasil!, com fúria e amor".

É uma distância tremenda daquele sujeito de 40 anos atrás, que não entendia como os mineiros podiam torcer por jogadores que não viam. Ele finalmente passa a compreender a torcida. E faz parte dela.

Por Torero às 08h40

12/08/2007

Raça rubro-negra

Raça rubro-negra

(O texto deste "Sempre aos domingos" foi escrito por Fabio Nicolau Ferreira)

 

Foi há algum tempo, no meado dos anos 70. Tudo corria bem. A Transamazônica e a crise do petróleo iam de vento em popa. Tínhamos o Garibaldo, nada menos que dois reis, Eliana Pittman e seu carimbó, e nossos presidentes usavam óculos enormes. A felicidade imperava.

Acontece que ainda existia gente avessa ao progresso. Acuadas, estas pessoas fugiam para regiões inóspitas onde não pudessem ser atingidas pela alegria contagiante, e lá viviam isoladas do mundo exterior.

Dentre estes ascetas estava um velho amigo meu dos tempos de colégio, o Pinduca. Nesses tempos de solidão, o Pinduca, que odiava o apelido, encontrou uma forma de mudar de nome. Nada como a subversão para substituir um trauma de infância por outro um pouco mais adulto. Pinduca precisava de um codinome e não demorou muito a encontrar seu preferido: Leônidas.

Flamenguista doente, Pinduca escolheu o nome de seu maior ídolo. Quando criança, éramos obrigados a escutá-lo contar os feitos do craque como se tivesse idade o suficiente para tê-los presenciado. "Diamante Negro!", gritava. Ou: "Sem as duas chuteiras!!" O rosto branquelo do Pinduca se avermelhava, e sua voz se alterava para tornar mais grandioso e dramático todos os feitos de Leônidas. Se é que havia feito mesmo.

Mas os tempos já eram bem menos poéticos, e foi o nosso Leônidas viver como eremita no interior do Brasil. Mais precisamente entre Pelotas e Marabá. De tempos em tempos eu me perguntava como ele viveria sem futebol. Na solidão a gente dá um jeito, mas e o Flamengo, como anda? Devia torturar o pobre do Pinduca.

Já fazia seis ou sete anos que tinha sumido quando ele reapareceu. Num domingo de manhã, magricela e sujo, o Pinduca bate à minha porta.

- Pindu...

- Fala baixo, fala baixo, estão por toda a parte - disse ele, tapando minha boca e me empurrando pra dentro.

Eu estava curioso para saber o que fez ele se arriscar a voltar para o Rio. Nem perguntei, ele foi logo explicando.

- Zico.

- O quê?

- Zico. O Zico, o Zico e o Zico.

- Tá, o que tem o Zico? Você veio só por causa do Flamengo? Eu sabia que não ia durar muito essa história de exílio. Cê sabe que o mar não tá pra peixe né?

- Sei. Pelo tanto de vezes que ouvi Dom e Ravel no rádio. Uma tortura.

- Ao menos deu pra matar a saudade do futebol.

- Eu até tava resistindo bem naquele fim de mundo. Esse bendito rádio me salvou. Tô sabendo de tudo. O Fio Maravilha, a Copa do Mundo. Que final hein? E o chute do meio de campo do Pelé? Caramba, como passou perto. E a defesa do Banks? Antológica!

- Mas era rádio Pinduca. Como é que você sabe?

- Mas dá pra saber. Só que é por isso mesmo que voltei. Como você sabe, eu nem tinha nascido no tempo do Leônidas. Era muito pequeno e não vi Zizinho. Nem o Evaristo, o Joel, o Almir, o Dida, ninguém. Nunca fui ao Maracanã. Ópio do povo sabe, pega mal. E agora tem essa coisa.

- Que coisa Pinduca?

- Esse Zico. Já viu como ele bate falta? Um gênio!

- Já vi sim.

- Pois eu não! Você não entende? Eu posso morrer sem ter visto um único grande craque do meu time. Eu tenho que ver esse cara. Vai que não aparece outro. Por isso procurei você.

- Por que eu?

- É que você mora aqui, do lado do Maraca. Fico escondido aqui até a hora do jogo, vejo o Zico, e volto rápido. Amanhã já tô de viagem de novo. Só tem mais uma coisa, eu não tenho grana pro ingresso.

Enfiei a mão no bolso e tirei o que tinha.

- Pra geral deve dar. Você tem mais algum? Pro amendoim, sabe.

Tudo pela velha amizade.

Trancados em casa, foi só esperar pelo jogo. O Pinduca nem dormiu, e não se cansava de contar as jogadas de Zico. Até que o vi, elétrico, se preparar para ir ao estádio. Quando já estava na porta, comentei:

- O Zico é mesmo melhor que o irmão.

- Que irmão?

- O Edu, do América, é irmão dele. Você não sabia?

- Mas como pode? - disse isso com os olhos esbugalhados, e foi saindo com tanta pressa, que nem tive tempo de perguntar o motivo de tanta surpresa.

Fiquei em casa escutando o jogo. Era Flamengo e Vasco, e meu cardiologista tinha me proibido de ir ao Maracanã. Só que se sofre o mesmo, ou ainda mais, pelo rádio. Mesmo sendo vascaíno, até tentei torcer para o Flamengo, para alegrar o Pinduca. Mas não deu. Quando Zico fez o gol da vitória, amaldiçoei o Galinho. Terminada a partida, fui tomar um ar, andar um pouco. Quando voltei, ele já estava em casa. Estava preparado para a gozação. Sabia que seria grande, afinal, o Pinduca vinha segurando isso por anos. Não dava para alugar ninguém no meio do nada.

Para minha surpresa ele estava cabisbaixo. Nunca o tinha visto daquele jeito num dia de vitória do Flamengo. Aconteceu alguma coisa. Vai ver o descobriram!

- Que foi Pinduca? O Flamengo ganhou cara.

- Mas o Zico...

- Ele acabou com o jogo, você não viu?

- O Zico cara. O Zico. Por que ninguém me disse? - quase chorando.

- Que tem o Zico, Pinduca! - eu não agüentava mais ouvir falar aquele nome.

- O Zico cara... ninguém me falou...

- Ninguém te falou o quê, deus do céu!?

- Por que ninguém me falou que o Zico é branco caramba!?

Por Torero às 14h43

08/08/2007

Um lugar na platéia

Vou começar com uma confissão: estou ficando velho. Na verdade, todo mundo está, mas depois de uma certa idade, isso fica mais claro por conta das dores nas costas, da miopia acentuada, das visitas frequentes ao médico, do tanto de remédios que vão se acumulando no armário do banheiro etc...

Por conta disso, o sujeito (no caso, eu) toma consciência de que já não tem todo o tempo do mundo pela frente e começa a selecionar o que vai fazer. Por exemplo, pensa duas, ou doze, vezes antes de ir ao cinema. Afinal, tirar o pijama, pegar o carro e ficar duas horas numa sala para ver um filme que não vale a pena é um desperdício de tempo (por isso, peças experimentais de teatro, nunca mais!).

Porém, ontem, resolvi arriscar e fui ver “Um lugar na platéia”, filme dirigido por Danièle Thompson. Não tinha lido nada sobre o filme e havia apenas a indicação da minha professora de francês (que desconfio gostar de tudo que é falado na língua de Molière).

Arrisquei. E me dei bem.

Foram duas horas que coloco na lista do tempo ganho, não na do perdido.

A sinopse do filme é péssima. Seria algo mais ou menos assim: “Em Paris, Jéssica começa a trabalhar como garçonete em um café que fica perto de um teatro, de uma sala de concertos e de uma casa de leilões. Em breve, uma famosa atriz estreará seu novo espetáculo vaudeville, um pianista dará um concerto de sua carreira e um colecionador de artes venderá suas obras.”

É uma sinopse espanta-espectador. Mas julgar um filme pela sinopse é muito injusto. É como julgar uma mulher pelos sapatos. Na verdade, o que importa está sobre eles.

No final das contas, acho que o filme é sobre a relação entre o erudito e o popular, sobre o que faz uma obra de arte valer a pena, uma coisa na qual eu sempre penso. Por exemplo, o que faço que tem mais valor: um livrinho de contos que ganhou o Jabuti mas vendeu apenas três mil exemplares ou o roteiro do programa “Retrato Falado”, que é assistido por dezenas de milhões de pessoas? O que é mais nobre: falar às massas ou à alta cultura? O que é mais útil, um programa de tevê, que pode ser esquecido em minutos mas é visto por muita gente, ou um obscuro livro de poemas, que será lido por poucos mas pode sobreviver por muito tempo?

Não tenho as respostas. E o filme também não as dá. Pelo menos, não explicitamente. E está aí uma das graças da ficção. Sem usar um discurso didático, científico, mas apenas contanto uma história, ela pode nos dar mais idéias e sentimentos sobre alguma coisa do que uma tese acadêmica ou um tratado filosófico. Falar, ou pensar, com histórias é uma das coisas que fazem o ser humano ficar acima dos chimpanzés (ainda que só uns centímetros).

Reiterando: vendo um filme como esse, fico contente em ser do time da ficção e não do time da academia. O poder de uma história bem contada é enorme. Ela fala coisas quase impossíveis de serem tratadas somente pela razão.

Aliás, talvez isso também aconteça porque este é um filme de mulher. E não há aí qualquer preconceito. Digo isso porque acho que é um filme que “pensa sentindo”, e isso é muito típico de mulheres, que conseguem juntar (ou não conseguem separar) estas duas coisas.

Além disso, outra característica que me parece revelar que trata-se de um filme de mulher é que os homens desta história são mais profundos e sentimentais do que nos filmes em geral. Ou seja, é um tanto otimista em relação ao gênero masculino. Nós, homens, talvez não sejamos tão simpáticos e condescendentes com nós mesmos. Acho que Daniele Thompson nos vê melhor do que somos, mas isso não me parece erro, e sim um tanto de generosidade ou esperança.

O filme, descrito como uns parágrafos acima, pode parecer uma tese sobre cultura, mas é bem mais, e menos, do que isso. É a história sobre pessoas que trabalham com arte (um colecionador, um pianista e uma atriz, mas também uma garçonete do “Café dos Teatros”, uma recepcionista de uma casa de espetáculos, uma esposa de pianista etc...). Ou seja, não é sobre uma idéia, mas sobre pessoas.

Para não dizer que não falei da parte técnica, digo que os atores são todos excelentes, o roteiro é ótimo [Daniele Thompson é uma roteirista experiente, fez o roteiro de “Rainha Margot” e trinta anos atrás escreveu o roteiro de um filme indicado ao Oscar (não que isso seja uma glória absoluta)]. A fotografia e a montagem não são mirabolantes, antes, servem à história, e, quando há uma boa história, é o que basta.

Enfim, pegue um lugar na platéia para ver “Um lugar na platéia” (ah, eu tinha ido tão bem até aqui...).

Por Torero às 05h57

Mensagem aos ficadualibistas


Caros irmãos, sofremos um duro golpe. Nosso mestre foi afastado por sessenta dias. Triste, triste...

Por dois meses não teremos o prazer de ver Dualib à frente do timão do Timão. E parece que este é o primeiro passo para um impeachment. Pior ainda: a torcida, que suportou Dualib sem protestar e aplaudiu a chegada da MSI, finalmente parece que acordou e está se manifestando.

Mas, como diz o ditado, “a esperança é a última que é deposta”. Ainda podemos crer na eficiência dos nossos tribunais. Afinal, se Dualib não for condenado pelos crimes dos quais é acusado, sempre poderá exigir seu cargo de volta.

E no Brasil, como diz o ditado, “a justiça tarda e falha”.

Por Torero às 05h56

07/08/2007

Para quem não leu no Folha Online

07/08/2007 - 14h25

Juiz do caso Richarlyson tem 15 dias para se explicar ao CNJ

da Folha Online

O juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, que arquivou a queixa-crime apresentada pelo volante são-paulino Richarlyson contra o diretor administrativo do Palmeiras, José Cyrillo Jr., que insinuou que o atleta é homossexual, vai ter que se explicar ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Os advogados de Richarlyson entraram com uma reclamação disciplinar no CNJ. O relator da reclamação e corregedor nacional de justiça, Cesar Asfor Rocha, já enviou um ofício ao magistrado solicitando informações. Junqueira Filho terá 15 dias para responder.

Depois disso, o plenário do conselho vai decidir sobre a abertura de processo administrativo disciplinar contra o juiz.

No documento em que relaciona os motivos para o arquivamento do caso, Junqueira Filho classifica o futebol como "jogo viril, varonil, não homossexual" e sugere que um atleta gay deve abandonar a carreira ou montar um novo time e criar uma federação própria para continuar atuando.

A polêmica começou em junho, no programa "Debate Bola" da TV Record. Indagado sobre a possibilidade de haver um atleta homossexual no elenco palmeirense disposto a assumir publicamente sua opção, Cyrillo começou a responder dizendo: "O Richarlyson quase foi do Palmeiras".

Paulo Vannuchi, ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, disse que a sentença tem "evidente conteúdo homofóbico". Em nota, Vannuchi "expressa confiança em que o Judiciário procederá revisão da decisão demonstrando compromisso com princípios constitucionais que configuram o Estado democrático de direito".

Por Torero às 16h31

05/08/2007

Ouro a ouro

Ouro a ouro

(O texto deste "Sempre aos domingos" foi enviado por Carlos Pizzatto)  

 

- Que bela briga, hein?

- A do James Dean Pereira, no boxe?

- Não, não. No quadro de medalhas. Briga entre Brasil e Cuba. Tête-a-tête.
Corpo a corpo.

- Pois é. Está pau a pau.

- Mas, tem uma coisa eu não entendo...

- O quê?

- Quantos habitantes Cuba tem?

- Tem 11 milhões.

- E o Brasil?

- 180.

- Milhões!?

- É.

- Ué, como pode Cuba, com 11 milhões de pessoas, ter mais medalhas de ouro
do que o Brasil, que tem 180 milhões?

- Simples. O Brasil é um país pobre, de terceiro mundo. Já Cuba é um país
riquíssimo. Economia muito forte, sem pobreza. País capitalizado, de
primeiro mundo. Quanto mais riqueza, mais medalhas de ouro, entende?

- É, acho que entendi.

 

Por Torero às 08h34

04/08/2007

Juiz titular deveria ir para a reserva

A sentença do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho é inacreditável. Recorre a argumentações absurdas, é preconceituosa, usa maiúsculas infantilmente e traz um trecho do hino do Internacional e ditos populares numa tentativa de humor lamentável. Como um sujeito destes pode ser juiz, profissão que pede um mínimo de decoro e bom senso?

A íntegra do texto está aqui. Os leitores que leiam e tirem suas conclusões sobre o sujeito.

 

Processo nº 936-07

Conclusão

Em 5 de julho de 2007. faço estes autos conclusos ao Dr. Manoel Maximiano Junqueira Filho, MM. Juiz de Direito Titular da Nona Vara Criminal da Comarca da Capital.

Eu, Ana Maria R. Goto, Escrevente, digitei e subscrevi.

A presente Queixa-Crime não reúne condições de prosseguir.

Vou evitar um exame perfunctório, mesmo porque, é vedado constitucionalmente, na esteira do artigo 93, inciso IX, da Carta Magna.

1. Não vejo nenhum ataque do querelado ao querelante.

2. Em nenhum momento o querelado apontou o querelante como homossexual.

3. Se o tivesse rotulado de homossexual, o querelante poderia optar pelos seguintes caminhos:

3. A – Não sendo homossexual, a imputação não o atingiria e bastaria que, também ele, o querelante, comparecesse no mesmo programa televisivo e declarasse ser heterossexual e ponto final;

3. B – se fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omitir, ou silenciar a respeito. Nesta hipótese, porém, melhor seria que abandonasse os gramados...

Quem é, ou foi BOLEIRO, sabe muito bem que estas infelizes colocações exigem réplica imediata, instantânea, mas diretamente entre o ofensor e o ofendido, num TÈTE-À TÈTE”.

Trazer o episódio à Justiça, outra coisa não é senão dar dimensão exagerada a um fato insignificante, se comparado à grandeza do futebol brasileiro.

Em Juízo haveria audiência de retratação, exceção da verdade, interrogatório, prova oral, para se saber se o querelado disse mesmo... e para se aquilatar se o querelante é, ou não...

4. O querelante trouxe, em arrimo documental, suposta manifestação do “GRUPO GAY”, da Bahia (folha 10) em conforto à posição do jogador. E também suposto pronunciamento publicado na Folha de São Paulo, de autoria do colunista Juca Kfouri (folha 7), batendo-se pela abertura, nas canchas, de atletas com opção sexual não de todo aceita.

5. Já que foi colocado, como lastro, este Juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual. Há hinos que consagram esta condição: “OLHOS ONDE SURGE O AMANHÃ, RADIOSO DE LUZ, VARONIL, SEGUE SUA SENDA DE VITÓRIAS...”.

6. Esta situação, incomum, do mundo moderno, precisa ser rebatida...

7. Quem se recorda da “COPA DO MUNDO DE 1970”, quem viu o escrete de ouro jogando (FÉLIX, CARLOS ALBERTO, BRITO, EVERALDO E PIAZA; CLODOALDO E GÉRSON; JAIRZINHO, PELÉ, TOSTÃO E RIVELINO), jamais conceberia um ídolo seu homossexual.

8. Quem presenciou grandes orquestras futebolísticas formadas: SEJAS, CLODOALDO, PELÉ E EDU, no Peixe: MANGA, FIGUEROA, FALCÃO E CAÇAPAVA, no Colorado; CARLOS, OSCAR, VANDERLEI, MARCO AURELIO E DICÁ, na Macaca, dentre inúmeros craques, não poderia sonhar em vivenciar um homossexual jogando futebol.

9. Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma Federação. Agende jogos com quem prefira pelejar contra si.

10. O que não se pode entender é que a Associação de Gays da Bahia e alguns colunistas (se é que realmente se pronunciaram neste sentido) teimem em projetar para os gramados, atletas homossexuais.

11. Ora, bolas, se a moda pega, logo teremos o “SISTEMA DE COTAS”, forçando o acesso de tantos por agremiação...

12. E não se diga que essa abertura será de idêntica proporção ao que se deu quando os negros passaram a compor as equipes. Nada menos exato. Também o negro, se homossexual, deve evitar fazer parte de equipes futebolísticas de héteros.

13. Mas o negro desvelou-se (e em várias atividades) importantíssimo para a história do Brasil: o mais completo atacante, jamais visto, chama-se EDSON ARANTES DO NASCIMENTO e é negro.

14. O que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro, porque prejudicariam a uniformidade de pensamento da equipe, o entrosamento, o equilíbrio, o ideal...

15. Para não se falar no desconforto do torcedor, que pretende ir ao estádio , por vezes com seu filho, avistar o time do coração se projetando na competição, ao invés de perder-se em análises do comportamento deste, ou daquele atleta, com evidente problema de personalidade, ou existencial; desconforto também dos colegas de equipe, do treinador, da comissão técnica e da direção do clube.

16. Precisa, a propósito, estrofe popular, que consagra:

“CADA UM NA SUA ÁREA,

CADA MACACO EM SEU GALHO,

CADA GALO EM SEU TERREIRO,

CADA REI EM SEU BARALHO”.

17. É assim que eu penso... e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo!

18. Rejeito a presente Queixa-Crime. Arquivem-se os autos. Na hipótese de eventual recurso em sentido estrito, dê-se ciência ao Ministério Público e intime-se o querelado, para contra-razões.

São Paulo, 5 de julho de 2007

MANOEL MAXIMIANO JUNQUEIRA FILHO

JUIZ DE DIREITO TITULAR

 

Por Torero às 07h20

02/08/2007

Desesperar? Jamais!

Acalmai-vos, irmãos ficadualibistas!

Como diz a música: "Desesperar, jamais! Aprendemos muito nestes anos. Afinal de contas, não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo."

Sim, é verdade que Dualib pediu afastamento por sessenta dias. Mas isto não é uma derrota. Nosso líder, nosso capo, nosso general, apenas recuou para contra-atacar. Provavelmente, com este sábio gesto ele vai esvaziar a próxima reunião, de terça-feira, onde haveria real perigo de começar um processo de impedimento.

A situação está difícil, mas "nada de correr da raia, nada de morrer na praia".

A idéia de Dualib é sumir da mídia e esperar que as coisas esfriem, torcendo para que a oposição se contente com esta pequena vitória e fique com preguiça. Ele também confia na incompetência da justiça brasileira. Se nada for provado contra ele, tentará voltar. Dualib segue o exemplo de outros sábios, como ACM e Roriz, que também fizeram recuos estratégicos (não para fugir ou porque fossem culpados, mas apenas para reagrupar forças e defender-se das falsas acusações).

E, de qualquer forma, o novo presidente só assume segunda-feira. Assim, o Corinthians ainda não deve vencer no final de semana, já que, desde a volta de Dualib, o alvinegro não ganhou uma, uminha que fosse.

Por Torero às 06h41

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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