Era meia-noite. Estava sozinho em casa, na frente do computador. Pensava, sem inspiração, sobre o que escrever nesta coluna. Como as idéias não vieram, acabou vindo o sono; não resisti e, ali mesmo, dei uma cochilada.
Fui acordado por uma voz estranha e rouca. Quando abri os olhos, vi a figura de um velho barbudo e pálido.
"São Pedro?!"
"Calma", ele disse sorrindo. "Estou longe de ser um santo."
"Então é o demônio?"
"Também não. Sou o fantasma do barão de Itararé."
A revelação me deixou pasmo e emocionado. Emocionado porque era uma honra estar em frente a Aparício Torelly, o barão de Itararé, jornalista que fez grande sucesso nas décadas de 40 e 50, época em que publicou o satírico "A Manha". Pasmo por sentir que a mão dele era feita de nada e eu tinha apertado o ar.
Vendo meu embaraço, ele explicou sua presença:
"Outro dia você estava lendo algumas daquelas velhas bobagens que escrevi. Como é raro que alguém me leia hoje em dia, resolvi dar um pulo para conhecê-lo pessoalmente."
Essa frase me deixou mais tranquilo. Ele não estava ali para me assombrar. Tentei ser educado e o convidei para tomar uma cerveja. Ele aceitou e exigiu que ela estivesse bem gelada. Enquanto bebia, eu podia ver o líquido passar pelo corpo de vapores e esparramar-se no chão. Lucimar, minha faxineira, ia ficar louca.
"É, meu caro", disse ele, "definitivamente o fígado faz muito mal à bebida..."
Não sei se o leitor já esteve diante de um fantasma. Se não, lembre-se: aja com naturalidade e sirva-lhe uma cerveja. Ele soltou a língua e conversamos como velhos amigos.
"Pois, é, barão, eu escrevo sobre esportes."
"Sabe como defino o esporte? Esporte é tudo aquilo que fazemos para deixar de fazer aquilo que deveríamos fazer."
"No seu tempo o esporte era uma atividade marginal, mas hoje ele é importante na nossa sociedade. Os jogos são transmitidos pela TV, os jogadores ganham fortunas..."
"E jogam como no meu tempo? Há um Zizinho, um Jair?"
"Bom...."
"Eu suspeitava: o trabalho enobrece o homem, mas depois que o homem se sente nobre não quer mais trabalhar."
"Tudo bem, mas a culpa nem sempre é dos jogadores. A última Copa, por exemplo, perdemos por causa do Zagallo..."
"Zagallo!? Aquele ponta do Botafogo que usava cabelo escovinha e tinha medo de ir à linha de fundo?"
"Esse mesmo. Nosso técnico."
"Se dependesse dos técnicos, os besouros não voavam."
"Ele não armou direito o time e nós tomamos 3 a 0 da França."
"É como sempre digo: de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo."
Depois disso, levantou-se, esticou os braços e disse:
"Hora de ir."
"Mas é cedo", respondi.
"Por isso mesmo. As visitas, alegrias me dão. Umas quando vêm, outras quando vão."
E então desapareceu. Corri para o computador e escrevi sobre o que aconteceu. Não é todo dia que um espírito vem ajudar minha falta de idéias.
PS1: Este texto foi publicado na Folha de S.Paulo em 15 de setembro de 1998. PS2: Quem quiser saber mais sobre o Barão, leia o post abaixo.
Como bem podem ler os alfabetizados, a capa acima é do livro "Barão de Itararé - Herói de três séculos", do insigne (insigne que dizer louvável, e não insignificante) jornalista Mouzar Benedito.
É uma curta e simpática biografia daquele que talvez seja o pai do humorismo jornalístico brasileiro, ou seja, é uma espécie de pai do Pasquim e avô do Planeta Diário. Conta desde o seu nascimento numa carroça quebrada até o seu fim entre as baratas.
A biografia traz ainda um apêndice com vários textos, piadas e frases do Barão (vulgo Aparício Torelly), que servem como uma amostra grátis, ou quase, do seu humor (falando em amostra grátis, vai aí uma frase do Barão: "O homem é um animal que pensa, a mulher é um animal que pensa o contrário").
E o preço do livro é um absurdo: apenas R$ 3. Vou até escrever por extenso: três reais. Este, aliás, é o preço de cada um dos doze livros desta coleção, intitulada "Viva o povo brasileiro".
Caros parceiros do "Fica, Dualib", hoje é dia de mobilização.
Serão votadas as contas de nosso mestre, e elas precisam ser aprovadas! Afinal, o que é um rombinho de 72 milhões?
Sim, caros ficadualibistas, precisamos que as contas sejam aprovados pelo Conselho Deliberativo, caso contrário o Corinthians voltará a contratar, pagará suas dívidas, construirá o tal estádio, a MSI pode voltar, etc... Pior, o time poderá ser o mais poderoso do país, coisa que já poderia ser se não fosse por nosso mestre Dualib e seus antecessores.
É fundamental que coisas como esta viagenzinha para a Londres (de 53 dias!) continuem a acontecer (só de avião e hotel, 140 mil reais).
Nossos espiões do Conselho Deliberativo me garantiram que farão de tudo para aprovar as contas.
A hora é agora! Não podemos nos dispersar! Fica, Dualib!
a-) A do estilista Ronaldo Ésper, que diz ter roubado vasos de cemitério sob efeito de remédio.
b-) A do rabino Henry Sobel, que diz ter roubado gravatas sob efeito de remédio.
c-) A de Wagner Canhedo, que diz que as armas encontradas em sua fazenda foram um presente.
d-) A de Renan Calheiros, que diz que era seu o dinheiro entregue ao lobista para sua amante.
e-) Mangabeira Unger, que diz que chamou o governo Lula de "o mais corrupto da história" por influência da mídia.
Vote numa das cinco ou lembre de outra.
PS: Na contramão das alternativas acima está Mano Menezes, o técnico do Grêmio. Ele, que foi derrotado nas finais da Libertadores, disse que "o Boca foi mais equipe e o resultado foi extremamente justo". Eis aí um que não leva jeito para a política.
(Em homenagem ao líder do campeonato, republico aqui um texto sobre um craque cruzmaltino)
Há muito tempo eu não entrevistava o grande telefonista dos espíritos Zé Cabala.
Cheguei à sua casa lá pelas dez da manhã, e Gulliver, seu assistente anão (que prefere ser chamado de homem-compacto), foi logo dizendo que seu mestre estava muito ocupado, estudando para ser MBA.
"Ele quer ser Master Business Administration?"
"Não. Mestre Brasileiro de Aguardente."
Realmente, quando cheguei à sala do sábio, à sua frente, ao invés de sua venerável bola de cristal, havia algumas garrafas de aguardente.
Ele tomava um gole, bochechava, estalava a língua no palato e então dizia algo como: "Esta tem um sabor levemente amadeirado", ou "Encorpada, com acidez pronunciada".
Quando me viu, interrompeu seus estudos e disse: "Meu caro foliculário, há quanto tempo!".
"Sim, mestre, voltei."
"Pois não percamos tempo, vamos à incorporação!"
Então Zé Cabala pegou um copo grande, botou um pouco de cada garrafa e bebeu tudo de um só gole. Depois gritou: "Pinga!".
"Mais? Será que o senhor já não bebeu muito?"
"Não, meu caro, eu sou José Lázaro Nobles, o Pinga."
"Aquele Pinga que jogou na Portuguesa e no Vasco, o sétimo maior artilheiro do futebol brasileiro?"
"Isso mesmo, com 548 gols. Nasci na Mooca e comecei como meia-esquerda na Portuguesa, em 1944. Até hoje sou o maior artilheiro do clube."
"E qual foi seu grande momento no futebol?"
"Ah, sem dúvida foi o ano de 1952, quando fui campeão e artilheiro do Rio-São Paulo, campeão brasileiro pela selecão paulista e campeão pan-americano pelo Brasil. Aí fui vendido para o Vasco na maior transação do futebol brasileiro até então."
"E como foram as coisas lá?"
"Uma maravilha. Fiz 250 gols pelo Vasco. Em 56, passei a jogar de ponta-esquerda e aí não paramos de ganhar títulos. Foi um Carioca em 56 e outro em 58, mais um Tereza Herrera e um Torneio de Paris em 57."
"Você foi dos primeiros jogadores a ser garoto-propaganda, não é?"
"É verdade, a Gillette publicou um anúncio comigo. Ah, se fosse hoje..."
"E de onde veio seu apelido?"
"Não foi de onde você está pensando, meu rapaz. Pinga vem de pinga-fogo, que é como chamam aos cavalos muito fogosos. Na verdade, meu irmão mais velho, o Arnaldo, é que era chamado de Pinga. Mas aí, como eu era melhor que ele, eu virei o Pinga I, e ele, o Pinga II. Aliás, nós fizemos um dos melhores ataques da história do clube, com Renato, Pinga II, Nininho, Pinga I e Simão."
Depois de dizer isso, o grande mestre começou a dar um monte de soluços. Quando finalmente eles acabaram, Zé Cabala perguntou: "A entrevista foi boa?".
(No "Sempre aos domingos" de hoje, o leitor Felipe Rangel conta a odisséia que viveu para conseguir um ingresso)
Conseguir ingressos para o jogo contra a Coréia do Sul, pela Liga Mundial de Vôlei, foi um trabalho de Hércules. Quem fica na fila - longa e demorada, porque o portão de acesso à bilheteria era liberado para apenas uma pessoa por vez - teve de conviver com informações conflitantes sobre a disponibilidade das entradas.
Por volta das 14h20, soube que se esgotaram as arquibancadas para a sexta. Quando cheguei perto do portão, o que havia acabado eram as cadeiras de sábado. Conformável, se um cambista não perambulasse oferecendo o tal setor.
Como se nada bastasse, os "organizadores" resolveram separar quem compraria para sexta de quem queria ir ao jogo de sábado. E eu, que queria ingressos para os dois jogos, fiquei vendido no lance. Me mantive na mesma fila... conformado com cadeira na sexta e arquibancada no sábado.
Apesar de tudo, ainda sou a favor de que o Brasil sedie competições internacionais. Mas coisas assim precisam ser revistas.
O assunto é batido. Mas acho importante continuar batendo. Porque o estatuto do torcedor não está se fazendo valer. E o amante do esporte vive assim condenado ao Deus-dará. Julguei o seu canal importante para divulgar esse eterno abuso.
Não há momento mais triste na vida de um atleta do que o momento da aposentadoria. Com menos de quarenta anos ele já é um velho e tem que parar de fazer a única coisa que sabe. Ainda com três décadas de vida pela frente, o jogador é considerado um inútil.
Para falar sobre este difícil momento, resolvi entrevistar um jogador que se aposentou há pouco tempo. E isso foi há pouco tempo mesmo. Há uma meia hora.
Ele foi um grande atleta. Parou com 37 anos e nas últimas seis temporadas marcou quase 70 gols e ganhou tudo o que podia pelo Arsenal. Centroavante por vocação, acabou indo jogar como meia ofensivo para que ele e Henry, o centroavante do time, pudessem fazer inesquecíveis jogadas. E, juntos, os dois conquistaram todos os 18 títulos que disputaram.
Entrevistei este grande jogador logo após a sua volta olímpica pelo estádio, quando a multidão, emocionada, acenava bandeiras e lenços para o ídolo que partia.
Seu nome? Torero. Sim, estou falando do grande capitão, do dono da mítica camisa 1 do Arsenal.
Curiosamente, eu, ele e seu técnico temos o mesmo nome e a mesma aparência. Coisas da vida. Mas vamos à entrevista:
(O jogador durante sua última volta olímpica)
Torero, o que você sentiu quando estava dando a volta olímpica? Era uma mistura de tristeza e alívio. Foi ruim pensar que não vou mais ouvir os aplausos da torcida, que não vou mais me atirar no chão depois de um gol. Mas também havia o prazer de encerrar um belo capítulo na história do time.
Do que você vai sentir mais saudades? Ah, certamente vai ser de levantar a taça depois das conquistas. Era o meu grande momento. Também gostava muito de correr com a bandeira do clube em volta do gramado depois de ganhar um campeonato.
(O capitão é o segundo da direita para a esquerda)
E do que não vai sentir saudade nenhuma? Da seqüência de jogos. Às vezes eram até dez num mesmo dia. Tudo bem que cada um tem só dez minutos, mas, mesmo assim, não é fácil, não.
Você era protegido do técnico? De jeito nenhum! Tínhamos o mesmo nome, o mesmo rosto, a mesma barba e as mesmas olheiras, mas ele só me escalava quando eu era realmente a melhor opção. Ele é meio obcecado por vitórias, sabe? Não escalaria nem a mãe se ela não estivesse em boas condições.
Mas você era a voz do técnico dentro de campo? Mais que isso. Eu era o técnico dentro de campo. Manja aquele papo de psicólogo de identificação projetiva? Eu era isso.
(Torero vibra ao ganhar um de seus 18 títulos)
Como você definiria seu estilo de jogo? Modéstia à parte, eu era um Pelé. E isso não é força de expressão, eu era um Pelé mesmo. Só que fiz uma plástica, fiquei branco feito o Michael Jackson, ganhei essa barba e fiquei com essa cara. Acho que saí perdendo.
(O capitão em seu momento favorito)
Qual o seu grande momento no futebol. Essa é fácil! Foi quando ganhamos nosso primeiro campeonato mundial no nível de dificuldade 6. Nunca pensei que chegaria a tanto.
Você começou muito velho, não é? Pois é, foi uma carreira estranha, porque comecei com 32 anos, ou seja, só participei de seis temporadas. Mas ganhei seis Campeonatos nacionais, seis Copas nacionais e seis Mundiais de Clubes. O que mais eu posso querer?
(Torero dá uma volta olímpica ao lado de Lenny, ex-Fluminense)
Já estava ficando monótono? Nunca pensei que fosse dizer isso, mas estava. A certeza de ser campeão no final tira um pouco da graça da coisa.
Há alguma coisa que você não conseguiu fazer no futebol? Um gol de bicicleta. O meu amigo Henry fez, mas eu, não. Marquei gol de cabeça, de pé direito, de pé esquerdo, de voleio, de fora da área, de tudo quanto é jeito. Mas faltou o de bicicleta...
(Número 1, futebol nota 10)
E é verdade que você pode voltar? Bem, digamos que não é mentira. O técnico está formando um time só de escritores. Já temos o Drummond para o gol (um tanto magro, mas tudo bem), o Borges no meio, o Gregório de Matos na zaga e eu na frente. Mas será um time apenas para exibições.
Dá vontade de jogar de novo? Dá. Mas só por brincadeira. Mais ou menos como você aqui no blog, que agora só escreve de vez em quando e não tem mais que treinar, quer dizer, se inteirar sobre o assunto. Aliás, nós dois estamos meio que nos aposentando ao mesmo tempo. Eu como jogador e você como cronista esportivo. A vida é cheia de coincidências.
Você pensa em trabalhar noutra coisa? Talvez eu dê uma olhada no Futebol Manager.
(O resumo de uma carreira)
Você acha que, com sua aposentadoria, seu técnico também vai parar com o Playstation, digo, com o futebol? Ele vai diminuir bastante a freqüência de jogos, mas não vai parar. O coitado gosta muito de escrever e se acostumou a fazer um joguinho entre um texto e outro, entre um capítulo e outro, só para separar os assuntos. Antes, ele lavava louça, agora faz um joguinho no Playstation. Além disso, coitado, é um viciado. Esse não tem mais cura. Tsc, tsc...
Para acabar: você pensa em procurar um psicólogo para ajudá-lo neste momento difícil? Não acho necessário. Mas eu procuraria se fosse um cronista que fez um texto sobre um jogador que é ele mesmo.
Nos últimos três dias vi três filmes 3. Homem-Aranha 3, Piratas do Caribe 3 e Shrek 3.
São três blockbusters, mas aviso que não tenha nada contra blockbusters, tanto que vi as três versões destas três séries.
Porém, as três versões que estão nas telas de todo o Brasil (e isso não é figura de linguagem, porque estes três filmes ocupam mesmo quase todas as telas do país, o que não sei se é bom) são decepcionantes.
Homem-Aranha 3 é pior que os dois filmes anteriores. As cenas em que o Aranha salta e luta pelas ruas foram feitas com uma câmera vertiginosa, o que deve facilitar para o pessoal da animação, pois não há a necessidade de um realismo tão fiel, mas prejudica o acompanhamento das lutas, tanto que há momentos em que o espectador não entende quem bate em quem e onde está cada personagem. Para aumentar a confusão, no final há uma luta quadrúpla. A idéia de fazer o herói enfrentar três adversários parece que dilui a trama e aumenta a quantidade de efeitos especiais. Ou seja, Aranha 3 ficou um filme com mais histórias, mas cada uma delas é menos intensa, menos emocionante. Ficou um filme mais infantil que os anteriores.
O terceiro Piratas do Caribe é melhor que o segundo, que foi bem chato, e pior que o primeiro, que foi ótimo. Também recorre ao grandioso,a heróis gigantes, como no filme do Homem-Aranha (estarão os americanos se rendendo aos vilões japonses?). O problema é que a trama é tão complexa que o espectador se perde, não sabendo quem trai quem, ou quem quer o quê. Mas há alguns bons momentos, como o de Jack Sparrow no limbo, onde há criatividade visual e de roteiro. Acho que é o melhor das três terceiras sequências.
Eu gostei muito dos dois primeiros Shreks. Tinham excelentes piadas e boas histórias. Mas, neste terceiro, confesso que bocejei várias vezes (e as crianças ao meu lado não vibraram muito). A introdução de um novo herói (Arthur), diminui a empatia com Shrek. Além disso, os números musicais não são tão bons quanto nos filmes anteriores e o roteiro usa o mesmo truque de Aranha 3, ou seja, o herói tem que enfrentar uma míriade de vilões, o que, mais uma vez, dilui a trama. Há alguns bons momentos, ou seja, boas piadas isoladas (o que deu um divertido trailer), como se o roteiro tivesse sido feito por um bom cartunista, mas não por um roteirista. Quanto à qualidade da animação computadorizada de Shrek, não há do que reclamar. É excelente. Pena que não tenha uma boa história para sustentá-la.
O Grandes Momentos do Esporte desta semana (TV Cultura, sábado, às 10h15) vai falar sobre a seleção brasileira de 1982, a melhor que eu vi jogar e que foi quase um trauma tão grande quanto a de 50. É o primeiro programa de três sobre o assunto.
Neste teremos a preparação dos jogadores, um compacto da partida de estréia contra os soviéticos e, se entendi direito o release, entrevistas com o técnico Telê Santana, o zagueiro Oscar, Zico, Serginho e Sócrates.
Para os futebólos, é uma boa oportunidade para rever uma grande equipe. Para os masoquistas, uma oportunidade de reviver uma grande tristeza.
(republico aqui um texto da Folha (com algumas modificações). O motivo, o leitor vai entender daqui a alguns dias)
Isso mesmo, vicioso leitor e viçosa leitora: eu sou um viciado. E chegou a hora de me confessar, de me abrir com meus três leitores.
E a verdade é que há alguns meses eu sou um viciado.
Tudo começou no Natal, inocentemente. Valter, meu concunhado ofereceu-me a droga. Só por diversão, só para experimentar, e eu aceitei. Pensei que provaria apenas aquela vez e que nunca mais veria a coisa. Mas qual o quê? Dois dias depois eu já procurava Valter e pedia mais uma dose.
O pior é que não parei por aí. Em poucos dias descobri onde comprar eu mesmo a coisa, e então já não dependia mais de meu concunhado. Passei a consumir a droga sozinho.
Logo descobri que a droga existia há um bom tempo e eu não era o único viciado. Meu amigo Basílio estava muito mais dependente do que eu. Muito mais. Sabia como usar a droga de vários jeitos. Pior que isso: ele se encontrava com mais seis ou sete sujeitos da nossa idade e ficava na casa de um deles consumindo a coisa por horas e horas seguidas. Simplesmente não conseguiam voltar para casa.
A coisa chegou a tal ponto que sua esposa descobriu o covil em que estavam, foi até lá e fez escândalo. Disse que homens daquela idade deviam ter mais responsabilidade, que ele tinha filhos para criar e não podia se entregar àquilo até altas horas. Triste cena...
Entrei na internet para ver se havia mais viciados. Sim, há. Muitos. Milhares. E eles trocam informações de como usar melhor a coisa. A utilização desta droga alastrou-se tanto que já é uma questão de saúde pública, uma epidemia!
De minha parte, estou me afundando mais e mais. Ontem mesmo fiquei até as 3h40 da manhã acordado, de olhos vidrados, usando a coisa. Ela me deixa feliz, excitado, e mal acabo de usá-la, já quero outra vez.
Isso já começa a atrapalhar meu trabalho. Estou escrevendo um livro novo, mas tenho deixado-o de lado por conta desta droga maldita. Minha editora pensa que estou com um bloqueio criativo. Não, cara Isa, é vício mesmo. E confessá-lo é o primeiro passo para a cura. Cura que não sei se desejo.
Antes que este texto cause seja mal interpretado, é preciso esclarecer uma coisa: Esta perversa droga não tem nada a ver com bolinhas, mas tem bola. Não tem nada a ver com crack, mas tem craques. Chama-se Winning Eleven e é jogado no Playstation.
É um game de futebol em que você escala os times, compra e vende atletas e pilota os jogadores. Você pode jogar com o Arsenal de Henry, com o Barcelona de Ronaldinho, ou com times da Série C do Brasileiro, como o Bahia. Pode jogar com dezenas de seleções e há vários tipos de campeonato.
Os jogadores se movem com uma perfeição sensacional. Para quem, como eu, é do tempo do Tele-Jogo, isso é uma evolução impensável. Naquele tempo havia apenas um botão. Se não me engano, o Winning Eleven usa nove botões. Nove! Mais um e o Lula não poderá jogar.
É inevitável a comparação do Winning Eleven com o velho e tradicional jogo botão. E há vantagens e desvantagens. Vantagens: Os movimentos do jogo são muito bonitos e você pode praticar sozinho. Desvantagens: O jogo de botão é menos aleatório, depende menos da sorte, do acaso, principalmente em jogos contra o computador.
Pode ser saudosismo meu, mas me parece que minha droga da adolescência tem uma pequena vantagem sobre este vício moderno.
Mas chega de escrever por hoje. Daqui a pouco meu Japão vai enfrentar o Brasil na final da Copa.