A mais lembrada

(O texto de hoje foi enviado por Ricardo Pierocini)


Eu sou ela. Aquela que sempre é lembrada quando o árbitro não marca pênalti para o seu time ou não anula o gol claramente impedido do time adversário. Isso mesmo: Sou mãe de um juiz de futebol.

Gostaria de aproveitar o dia das mães para compartilhar um pouco do meu fardo. Ainda me lembro do dia em que Judas (nome fictício para preservar a identidade do meu filho) ainda adolescente me comunicou que ocuparia suas horas vagas apitando jogos. Tentei convencê-lo a ser como os colegas de sua idade que faziam coisas normais como pichação, rachas e outras pequenas contravenções. Mas Juju sempre foi um garoto decidido.

Falhei ao não perceber os primeiros indícios de sua vocação para o ofício de errar, digo, de apitar. Enquanto todos os seus coleguinhas  queriam uma bola de futebol no aniversário, ele, uma bandeirinha. No quarto, pôsteres do Arnaldo Cezar Coelho e do Godoy.

No colégio, nas aulas de Português, em vez de resumo, entregava a súmula do livro.  Nunca disse uma palavra quando terminava um namoro, somente retirava do bolso de sua camisa (só andava com camisas de bolso) um cartão de cor vermelha.

O primeiro jogo profissional em que ele atuou foi inesquecível. Eu estava no estádio. Tudo ia bem até que, aos 45 do segundo tempo, ele marcou um pênalti contra o time da casa. Foi uma loucura. O estádio inteiro o xingando, ou melhor, me xingando. Não consegui me segurar. “ Seus brutos, desse jeito vocês vão assustar meu menino. É o primeiro jogo da vida dele. Vocês nunca erraram, não? Quem nunca errou que atire a primeira pedra.” Hoje, refletindo melhor, não repetiria aquela frase. Fui atingida por chinelos, pilhas, amendoins e outros objetos não identificados.

Meu pequeno Iscariotes é um bom menino. Ele me disse que aquela a quem os torcedores se referem não sou eu. É uma mãe multiuso. Quase um pretinho básico. Serve para extravasar frustrações.  Aquela mãe é a mesma dos políticos, dos motoristas barbeiros e dos operadores de telemarketing que nos ligam às 8 da manhã no sábado.

Nesse dia das mães, como presente para mim, ele não vai apitar nenhum jogo. Ainda bem. Porque na semana passada ele apitou o jogo do meu time. Não é que o FDP expulsou o zagueiro sem ele ter feito nada?