Joga logo pra cá, Ulisses!
(O texto de hoje do "Sempre aos domingos" é de autoria do leitor Carlos Eduardo Souza)
Ulisses era um garoto pobre e apaixonado por futebol. Menino, não podia jogar no time do seu bairro. E não jogaria mesmo que adulto, pois era muito perna-de-pau também. Mas sonhava.
Seu lugar era sempre ali, à beira do campinho de terra, sentado num tijolo que já era seu, assistindo aos jogos e dando, o que ele achava ser, instruções aos jogadores. Mas o que a turma mais gostava nele era ir buscar as bolas que caíam ribanceira abaixo. Nisto Ulisses era espoleta.
Tinha mesmo de ser, para que a bola não cruzasse a avenida lá embaixo e fosse dar no rio. O que era raro, aliás. Raro, porque era a bola ir rolando perambeira abaixo e ó o Ulisses lá, pisando aqui e ali como se não pisasse!
Na avenida, Ulisses se metia entre os carros, que freavam bruscamente, pensando vir, logo atrás, uma criança. Eis que surgia então o magricela, correndo e narrando sua própria partida de futebol:
“Lançamento em velocidade para Ulisses pela direita! A zaga pára pedindo impedimento! Ulisses domina...”, momento em que ele alcançava a bola. “Lá vai Ulisses! Passa por um, dois, três adversários...”, vinha ele ziguezagueando entre os carros, com a bola nos pés. “É ele e o goleiro! Vai marcar, atirou para o gol...” E ele chutava a bola de lá, do meio da avenida, de volta para o campinho lá em cima (era a parte que mais gostava), “... E é gol! É gol! GOOOOLLLL!!!” E ele subia o barranco de novo, num êxtase incontido, às vezes socando o ar, feito um Pelé, comemorando o “seu gol” e dizendo: “Golaço! De Ulíssimo...” – era assim que o “seu narrador” o chamava: Ulíssimo – “... o craque da nº. 8!” Ele gostava era da 8. Nos “seus jogos”, ele formava o meio campo às vezes com Zico, com Maradona e até com Pelé. Por respeito, a 10 era deles.
O pessoal achava meio doido, mas não tinha ninguém que quisesse fazer algo tão chato e – pior! – tão perigoso quanto ele. Inda mais com aquele entusiasmo todo! Se fosse outro, a bola caía no rio. Já caíra uma vez com o Ulisses também, é verdade. Mas ele pulou atrás, correnteza abaixo, e o jogo só atrasou um pouquinho.
(E o Ulisses voltando e dizendo: “Sangue! Suor! Lágrimas! Não tem mesmo bola perdida para ele! Na raça! Um golaço de Ulíssimo! Rei! Rei! Rei!”)
Por pena, o time do bairro já pensou em deixá-lo jogar pelo menos uma partida. Mas esse dia ainda não chegou.
Na final do campeonato da cidade, o terrão estava lotado. O jogo era duro, a poeira que subia era densa e o empate ia levando a decisão para os pênaltis.
O time de Ulisses pressionava e, faltando poucos minutos para o fim, o zagueirão adversário, um tal de Mococa, deu um chutão e mandou a bola lá embaixo, no meio dos carros.
De um salto que até quebrou o tijolinho, Ulisses se atirou às pressas perambeira abaixo, no afã de ajudar seu time. A bola pipocava de um carro para outro, mas, num pum, Ulisses a alcançou antes que caísse no rio, o que, certamente, levaria ao drama das penalidades.
“- Joga logo pra cá, Ulisses!”, gritou de cima um dos jogadores que, aflito, queria o recomeço da partida e da pressão.
Ulisses chutou. Como nunca chutara antes, aliás. Esqueceu-se até de narrar a jogada, que seria, por certo, o mais belo dos seus gols.
O jogo pôde então recomeçar. A pressão continuou forte, mas infelizmente o time de Ulisses não conseguiu o gol salvador do título. Ia ser mesmo nos pênaltis.
Durante o intervalo, enquanto atletas relaxavam a musculatura e treinadores pensavam suas listas de batedores, do meio da torcida alguém gritou:
“- Cadê o Ulisses?”, apontando o tijolo quebrado, à beira do campinho.
Lá da avenida, podiam-se ouvir buzinas e vozes. Alguns correram para a beira do terrão, na direção do tijolinho e de onde viram Ulisses pela última vez. Outros, nem isto.
Do meio de um engarrafamento enorme e de uma balbúrdia sem fim, via-se o corpo de um garoto cercado de paramédicos e enfermeiros ser conduzido para dentro de uma ambulância.
Silêncio. Perplexidade. Consternação.
Muitos tentavam descer o barranco, sem a mesma destreza do menino, e, quem sabe, fazer parar a ambulância que, no entanto, já ia longe.
Dias depois, no hospital público da cidade, Ulisses recebia a visita do presidente do clube (que era também o capitão e o goleiro do time). Por sorte, Ulisses estava bem. O atropelamento lhe rendera “boas” fraturas e escoriações, mas não corria mais riscos.
Das mãos do presidente, Ulisses recebeu uma medalha de campeão e uma placa (que foram, na verdade, encomendadas exclusivamente para ele, já que seu time não vencera aquela final – coisa que ele nunca soube. Tão desolados ficaram com o acidente de Ulisses, que perderam nos pênaltis). Na placa, os dizeres: “Ao nosso campeão de honra: Ulíssimo. Pelos valiosos préstimos à nossa equipe durante o campeonato de clubes da cidade”.
O presidente teve de explicá-lo o significado da palavra “préstimos” e, após dar-lhe um beijo paternal, deixou a enfermaria. Como ouvira algo ao sair, entreabriu novamente a porta para ver o que era.
Lá estava Ulisses: medalha ao pescoço, plaquinha numa das mãos e a escova de dentes na outra, feito um microfone, dizendo para “alguém” ao vazio:
“- É, foi uma grande partida e, graças a Deus, saímos vencedores. Estou feliz pelo prêmio, apesar da contusão. Mas todos podem ficar tranqüilos: assim que estiver liberado pelo Departamento Médico, vou voltar aos gramados para ajudar meus companheiros a conquistar ainda mais títulos”.
E não duvidem! Afinal, são promessas de Ulíssimo, o Rei.





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