Blog do Torero

30/10/2006

Os alvinegros - Série A

Nada é mais simples que uma camisa alvinegra. Em qualquer jogo de praia ou de várzea lá estão elas em um dos times, muitas vezes com o preto desbotando e virando marrom.

Elas são as camisas mais comuns do futebol. E deve haver um motivo para isso.

Os racionais obtusos dirão que é porque são as camisas mais baratas. Mas os racionais obtusos não entendem de futebol e símbolos.

As camisas alvinegras não nos são as mais caras por serem as mais baratas. Elas são tão queridas porque são um resumo da dualidade, um símbolo de vida e morte, bem e mal, tudo e nada, amor e ódio. Não há outras duas cores que façam tão bem esta oposição e complementação.

E, feito este inútil preâmbulo sobre alvinegros, falemos deles:

Para a Ponte a coisa está preta. Perdeu em casa por 2 a 1 para outro alvinegro, o Botafogo. Se tivesse vencido, teria saído da zona de rebaixamento, deixando por lá o tricolor das Laranjeiras. Já o Botafogo venceu três jogos seguidos e agora já sonha com a Libertadores.

Para isso terá que ultrapassar o alvinegro Vasco da Gama, que venceu o Flamengo por 3 a 1. Mas isso não será fácil. O Vasco está embalado por quatro vitórias seguidas. Porém, como suas duas próximas partidas são fora de casa, contra Atlético-PR e Cruzeiro, quem sabe?

O Figueirense perdeu o jogo (0 a 2) e a chance de deixar o Brasileiro mais emocionante. Se tivesse vencido o São Paulo, estaria ao lado do Botafogo, armando o bote para a Libertadores, e o tricolor do Morumbi não continuaria tão disparado na frente. Mas, sem Cícero para abastecer Soares e Schwenck, as coisas ficaram difíceis.

O Santos teve que penar muito para vencer o São Caetano. Tanto que, na minha opinião, o melhor em campo foi o jovem goleiro Felipe. Pelo São Caetano, gostei do pequenino Élton, que correu do começo ao fim e por pouco não abre o placar. Esbarrou, justamente, em Felipe.

De qualquer forma, foi um São Caetano muito mais vivo do que nas últimas partidas. Se jogasse assim desde o começo do campeonato, provavelmente estaria nas posições intermediárias.

Quanto ao alvinegro da Vila Belmiro, continua com a melhor defesa do campeonato, mas sente a falta de um atacante mais decisivo, que pode ser Reinaldo, Jonas ou Fabiano, três que tiveram muitos problemas físicos este ano.

E o Corinthians venceu o Palmeiras num jogo ruim e se afastou da zona do rebaixamento. A próxima partida é contra o Fortaleza. Pode parecer uma vitória certa, mas o time cearense está desesperado e dos desesperados pode-se esperar qualquer coisa. Até um bom jogo.

Falando em Corinthians, eis aí um clube em que não há meios tons. Ele vai da mais negra tristeza para a mais alva felicidade em uma rodada, da euforia para a depressão em um segundo, da solução para a crise em um instante. Para este alvinegro, ou é branco ou é preto.

Por Torero às 06h04

Os alvinegros - Série B

Curiosamente, na equilibrada Série B (e equilibrada mesmo, porque a diferença entre o primeiro e o último é de 23 pontos; enquanto na Série A é de 39) só há dois times alvinegros, o Atlético Mineiro e o Ceará. Mas em compensação há um surpreendente número de camisas alvicelestes: Avaí, Marília, Paysandu, Remo, Santo André e São Raimundo.

Como hoje é dia de alvinegros, vamos a eles:

O Atlético Mineiro, mesmo com a derrota de virada para o Gama do artilheiro Vanderlei (18 gols), continua na liderança. Só que agora tem ao seu lado o Sport, que ganhou do São Raimundo fora de casa. São Raimundo que, se tivesse vencido, estaria fora da zona de rebaixamento (aliás, os quatro times que hoje seriam rebaixados para a Série C estão a, no máximo, uma vitória de escapar da degola).

O Atlético praticamente está de volta à Série A. E, se voltar com o título e com este apoio da torcida, pode fazer como o Grêmio, que mal voltou e já se apresenta como candidato às primeiras colocações.

O caso do Ceará não é tão brilhante, mas já esteve bem pior. Há algum tempo atrás ele parecia fadado a descer para a terceira divisão, mas começou uma forte recuperação e de lanterna já foi para a 14ª. Posição, com cinco pontos de distância do rebaixamento. O time está há oito jogos sem perder. Desta vez empatou com o CRB fora de casa.

E, para não dizerem que tenho preconceito de cor, falarei no vermelho América-RN, que esta semana venceu o Paulista em Jundiaí. Era um confronto decisivo para as pretensões dos dois clubes.

Curiosamente, no rubro América as coisas são brancas ou pretas. Em outras palavras, com ele é vitória ou derrota. Em seus 32 jogos houve apenas um único empate. Foram, é verdade, 14 derrotas, mas nenhum clube da Série B teve tantas vitórias quanto ele: 17. 

Como se vê, alguns não são alvinegros no uniforme, mas na alma.

Por Torero às 05h57

Os alvinegros - Série C

Na Série C só há um alvinegro, o Treze de Campina Grande, também conhecido como o glorioso Galo da Borborema.

Nesta rodada, o Treze perdeu por 1 a 0 do Criciúma, fora de casa, mas permanece no G-4 (em quarto lugar, dois pontos à frente do Vitória). O gol aconteceu logo no primeiro minuto de jogo e o Treze não conseguiu o empate nos 89 minutos seguintes.

Na verdade, o forte do time é quando ele joga em casa. Lá em Campina Grande foram 42 jogos: 34 vitórias e 8 empates. É o único time da série C que ainda não perdeu em seus domínios. No terreiro do Galo, ninguém canta de galo.

 

Por Torero às 05h49

29/10/2006

Escudos do mundo inteiro

Um livro indicado para boleiros fanáticos é “Escudos dos Times do Mundo Inteiro”, de Rodolfo Rodrigues (ex-repórter de Placar e Lance!).

Editado pela Panda Books, todo em quatro cores, o livro traz dois mil e quinhentos escudos de clubes e federações.

Você quer ver como é o símbolo do Gençlerbirligi, da Turquia? Está lá. Prefere algo mais caseiro, como o tradicional Maruinense, de Sergipe (que em 2007 vem fará 90 anos)? Está lá. Quer conhecer o estranho símbolo da federação do Afeganistão. Está lá. Quer comparar os escudos de oito Flamengos espalhados pelo Brasil? Estão lá.

O livro traz ainda a data de fundação e os estádios dos clubes com suas capacidades.

Só para não dizer que não falei dos espinhos, encontrei um erro, pois o Pacaembu é colocado como estádio do Corinthians, o que não é correto.

Mas é um erro menor. O que vale mesmo é que é um belo livro, que eu gostaria de ter ganho quando tinha doze anos e fazia meus times de botão.

Por Torero às 10h09

24/10/2006

Resultado do concurso de desenhos

E eis que, com considerável atraso, colocarei aqui o resultado do concurso de desenhos.

Devido ao grande número de concorrentes, consegui três prêmios especiais, que são três ingressos duplos para a "O Chalaça - A peça", baseada livremente num livro deste que vos escreve. "O Chalaça" está sendo encenado no Tusp (rua Maria Antonia, 294), às quartas e quintas, sempre às 21h00, pela Cia Les Commediens Tropicales, com direção do premiado Marcio Aurélio, de Agreste. Os ingressos valem para esta semana.

Os três artistas que ganharam o prêmio especial foram:

Bernardo Scarambone, com seu intrépido Black Red:

 

Fernando Monteiro (que já ganhou algum prêmio deste blog), com seu aristocrático Sir Arah:

E a senhorita Érica Martins Dias (finalmente uma filha de Eva ganhando um prêmio por aqui!), com seu Jesse Bacalhau (notem o detalhe do lápis atrás da orelha):

E vamos agora aos três primeiros colocados. Lembro que o terceiro e o segundo receberão ingressos duplos para a peça "Xadrez, truco e outras guerras", em cartaz até no teatro Linneu Dias, no Shoping Pompéia Nobre, para este sábado, às 21h00. A peça é por Aurea Karpor, uma talentosa diretora.

Bem, e em terceiro lugar, com uma montagem muito bacana de James Colorado (e montagem aqui tem dois sentidos), ficou Rafael Vieira Flores:

Na segunda posição, um artista que não sabe desenhar mas é muito esperto (como acontece com muitos artistas plásticos de vanguarda). Ele é o cruel Clériston Córdova, que justificou sua obra assim: "É o desenho de Caetano Bill, que ninguém vê, ninguém se importa, ninguém vai ao estádio, ninguém...".  

Sim, o desenho é isso mesmo, um pontinho preto.
 
Mas vamos ao vencedor, o senhor Leo Yoshida, um desenhista bom pra dedéu, que ganhou com seu imponente Jack Tricolor:
Leo  ganhou um exemplar de "Xadrez, truco e outras guerras", o que não sei se é prêmio ou castigo. 

Por Torero às 17h33

23/10/2006

Três tricolores tristes. E um alegre.


O crepúsculo tingia a abóboda celeste em tons de azul, laranja e vermelho. E sob este céu tricolor, dois tricolores caubóis se enfrentaram na rua central de Brasileirão City. De um lado, Jack Tricolor, atirador experiente e de barbas brancas. De outro, Sancho Pampa, com seu vasto bigode e suas largas bombachas.

Cada um veio de um lado da rua. Olharam-se nos olhos. Agitaram os dedos. Geralmente este estudo inicial dura alguns minutos, mas Jack não estava para brincadeiras. Quando Pampa piscou pela primeira vez, Jack, feito um raio, sacou sua arma e acertou uma bala no inimigo. 

Curiosamente, os cinqüenta mil fãs de Pampa nem soltaram um “Oh...” de lamento. Pelo contrário. Gritaram e pediram para seu caubói atacar. Os pampeiros não choram, os pampeiros não desanimam.

Começou então uma troca de tiros. As balas zuniam de lado a lado, mas acertavam chapéus, raspavam em casacos e não acertavam o inimigo em cheio.

Os dois pararam por alguns minutos para beber água (na verdade, uísque no caso de Jack e chimarrão no de Pampa). Na volta, enquanto Jack ainda enxugava a boca, foi a vez de Pampa surpreender e acertar um tiro relâmpago.

Daí em diante, Pampa dominou. Mas sua pontaria não estava lá essas coisas. Nos últimos 15 minutos do duelo, os dois caubóis trocaram algumas armas e aí, com novos revólveres, Jack voltou a levar perigo. Era tarde. O empate estava decretado. Mas foi um empate em que os dois terminaram com sentimentos diferentes. Pampa saiu triste. Jack, alegre.

Louis Laranjeira, outro tricolor, apenas empatou com Young Boy. Louis atira bem, tem boas armas, mas não deslancha. Só não deve ir para Série B Village porque Black Bridge anda sendo perseguido pelos juízes (não conscientemente, mas acho que há uma idéia no ar de que a lógica é que a Ponte deve ser a quarta equipe rebaixada).

E Sam T. Cruz, outro triste tricolor, perdeu mais uma vez. Desta vez até acertou tiros em seu oponente, John Esmeraldine. E três! Mas recebeu cinco tiros no peito. Só um milagre salva Sam T. Cruz. Mas parece que o tempo dos milagres já ficou para trás.

E para não dizerem que esta coluna tem preconceito contra bicolores, falemos da vitória de Tim Timão sobre Will Uai. Foi magra, por contagem mínima, mas trouxe alívio depois de sete duelos em que Tim só empatava ou perdia. Pelo jeito, deu certo a idéia de Tim Timão de se esconder numa caverna em Jarinu. O time pode ter ressuscitado (mais uma vez). E, por coincidência, a vitória veio com uma bala da marca Renato, nome que significa “renascido”.

Na próxima quarta, Tim terá que provar que renasceu numa terrível luta contra Big Green, seu arquiinimigo. Será um duelo desesperados muito bom de assistir, ainda mais se você não torcer para o caubói perdedor.

Por Torero às 08h05

Sessenta mil!

Em Série B Village, o destaque foi, de novo, Rob Gallo, que se manteve isolado na liderança. E, mais importante do que isso, teve mais de 60 mil fãs a vê-lo vencer o simpático Hank Hawaii por 4 a 1. 60 mil! Brasileirão City (que nesta rodada teve média de 14 mil pagantes) receberá Rob Gallo de braços abertos.

Mas o duelo mais empolgante foi entre Cliff Reciff e James Capibaribe. Os dois são inimigos de longa data, e, neste ano, Cliff ainda não havia vencido James. Só que desta vez foi diferente.

James perdeu uma de suas armas (Vicente) ainda no primeiro tempo. Então, aproveitando-se da vantagem, Reciff matou Capibaribe com dois tiros certeiros saídos de sua Fumagalli cano duplo (que passou a ser um dos artilheiros do torneio). Com isso, Reciff firmou-se como vice-líder. Já o caubói alvirrubro está a perigo, pois passou para o quarto lugar e está apenas um ponto à frente do perigoso Paul East. 

Por Torero às 08h03

Série C

Na Série C, o Ipatinga abriu dois pontos na liderança (9 a 7) com mais uma vitória, desta vez sobre o Brasil de Pelotas (5 a 1), que é o lanterna do campeonato, com apenas 1 ponto. Mas ainda faltam dez rodadas e é muito cedo para comemorações ou pesares.

Quanto aos baianos, hoje o Vitória estaria classificado para a Série B, mas o Bahia continuaria na C, uma alegria dupla para os torcedores do rubronegro.

Por Torero às 08h02

Dica

Para quem gosta de Fórmula-1, uma boa dica é assistir à corrida plugado no site oficial da categoria (www.formula1.com). Depois de fazer sua inscrição, você pode ver imediatamente os tempos (e as parciais) das voltas de cada piloto, e assim ficará sabendo muito mais do que nos informa o Galvão Bueno. Na corrida, isso não é tão interessante, mas nos treinos é excelente.

Por Torero às 08h01

20/10/2006

Drummond e o futebol - 1

(Ontem escrevi na Folha um texto sobre a produção literária de Carlos Drummond de Andrade em relação ao futebol. Mas achei que ele poderia ser maior. Então, como o blog permite certos luxos, decidi reescrevê-lo aqui.)

Vou começar com uma obviedade: Drummond não era um cronista esportivo. Escrevia raramente sobre o assunto. Mas, como escreveu por muito tempo para jornais, mesmo esse “raramente” acabou resultando numa produção de quantidade razoável. E de qualidade rara. Por exemplo:
 
“Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
Futebol se joga na rua,
Futebol se joga na alma.


Mesmo sem jamais se propor a ser um cronista de futebol, poucos escreveram tão bem quanto ele sobre o assunto. CDA não falava de táticas ou dos grandes jogos da rodada. Seu principal assunto era o torcedor. É claro que falou sobre um ou outro jogador, principalmente Pelé e Garincha, mas o seu olhar foca principalmente o torcedor.

Acho que CDA sentia até uma inveja deste torcedor, um torcedor fanático, capaz de gestos de amor grandiloquentes, de uma fé quase religiosa em seu time ou sua seleção.

Aliás, a seleção foi o seu principal assunto. Ele escrevia sobre futebol quase que apenas em tempos de Copa do Mundo. E foi escrevendo cada vez mais. Em 1954 fez apenas uma crônica; em 58 foram 3; em 62, apenas uma; em 66, ano de derrota na Inglaterra, são 5 textos; em 1970, no auge de seu interesse, são 7; depois o número cai para 2 em 74 e 78, mas volta a subir para 5 em 82, empolgado por aquela brilhante seleção.

Essa pesquisa não feita por mim, é claro, mas por dois netos seus, Luís Maurício e Pedro Augusto, que editaram, pela Record, o livro “Quando é dia de futebol”, uma bela reunião dos textos de Drummond sobre o assunto.

Seu primeiro texto futebolístico, cronologicamente falando, aparece em 1931. Chama-se “Enquanto os mineiros jogavam” e narra um episódio em que ele, passando de bonde pelo centro de Belo Horizonte, vê uma aglomeração de homens escutando um jogo de futebol pelo rádio. Um time mineiro jogava no Rio de Janeiro e dois mil torcedores ficaram ali, na avenida Afonso Pena, a torcer à distância, a torcer de ouvido.

CDA fica pasmo ao ver esse exemplo de paixão: “Não posso atinar bem como uma bola, jogada à distância, alcance tanta repercussão no centro de Minas. Que um indivíduo se eletrize diante da bola e de um jogador, quando este joga bem, é coisa de fácil compreensão. Mas contemplar, pelo fio, a parábola que a esfera de couro traça no ar, (...) eis o que excede de muito a minha imaginação. Para mim, o melhor jogador do mundo, chutando fora de meu campo de visão, deixa-me frio e silencioso.”

Com, o tempo, este pasmo de Drummond vai sendo substituído pela compreensão do jogo e do amor ao jogo. Nas Copas seguintes, pouco a pouco ele vai se aproximando, e, vá lá, se apaixonando pelo futebol.

Em 54, por exemplo, que é a primeira Copa sobre a qual ele escreve, já com 52 anos, ele faz uma crônica sobre como gostaria de ouvir a irradiação do jogo entre Brasil e México. E seria uma narração homérica: “Quando Bauer, o de pés ligeiros, apoderou-se da cobiçada esfera, logo o suspeitoso Naranjo lhe partiu ao encalço, mas já Brandãozinho, semelhante à chama, lhe cortou a avançada. A tarde de olhos radiosos se fez mais clara para contemplar aquele combate, enquanto os agudos gritos e imprecações em redor animavam os contendores.”

Mas o jeito de narrar futebol é outro, com termos mais técnicos, e isso o afasta um pouco. Ele não consegue penetrar no futebol por conta desta técnica, por não ser um iniciado nesta magia. Tanto que nessa crônica ele diz: “Confesso que o futebol me aturde porque não sei chegar ao seu mistério. Entretanto, a criança menos informada o possui. Sua magia opera com igual eficiência sobre eruditos e simples, unifica e separa como as grandes paixões coletivas.”

Na Copa seguinte, a da Suécia, ele já faz três textos. Dois depois da vitória final. Num deles, Drummond sugere que os jogadores poderiam ocupar o lugar de ministros, piada que vai aprimorar com o passar dos anos e fará mais duas vezes.

Noutra crônica ele fala contra a idéia de que o futebol é o ópio do povo: “Não me venham insinuar que o futebol é o único motivo nacional de euforia e que com ele nos consolamos da ineficiência ou da inaptidão nos setores práticos. Essa vitória no estádio tem precisamente o encanto de abrir os olhos de muita gente para as discutidas e negadas capacidades de organização, de persistência, de resistência, de espírito associativo e de técnica.”

Por outro lado, mantendo uma posição de equilíbrio, ele não faz um oba-oba, não se identifica nem se projeta na seleção. Numa crônica de 1959, dirigida ao torcedor, que CDA acha que se entrega demais ao jogo, ele diz: “De resto, não somos 60 milhões de campeões, o que inflacionaria a espécie; eles são apenas onze e seus reservas. Penso nas coronárias e sugiro (diante do espelho): Calma, torcedor.”

Em 1962, ano do bicampeonato, há apenas um texto sobre futebol (Seleção de ouro). E ele é sobre a vitória final. Drummond retoma a idéia de que a vitória é uma grande chance para que o Brasil cresça como nação:

“A vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo lavou os corações, desanuviou os espíritos, entusiasmou as filas, uniu os desafetos e tornou possível a solução imediata dos problemas que nos afligem. Não há hesitação possível. Ou tiramos deste triunfo as conseqüências que comporta, ou os desperdiçamos a última e grande chance oferecida por Deus, talvez já um tanto fatigado de ser brasileiro.”

E sua idéia de utilizar a conquista da seleção como alavanca para o país não pára por aí. Algumas linhas abaixo ele retoma uma idéia exposta na Copa anterior, e sugere alguns jogadores para o ministério:

“Reparem que o Gabinete se compõe de treze ministros e um presidente de Conselho. Nossos onze campeões são catorze, inclusive Pelé, o técnico Aimoré e o Dr. Gosling. Trata-se de um Ministério escolhido pelo destino, e é só dispor cada homem na posição correta. Naturalmente o primeiro-ministro há de ser Mauro, capitão do escrete. (...) Um velhinho como Nilton Santos fica certo na Justiça (...) Na Fazenda, pede-se Gilmar, tão econômico no deixar passar gols, defendeu a meta como o Tesouro.”

Três anos depois, em 1965, ele faz uma pequena crônica em que conta a primeira vez que um menino (desconfio que um dos netos) assiste ao seu primeiro jogo ao vivo: um Santos x Botafogo no Maracanã, e guarda um papelzinho de bala onde escreve “Meu primer partido de fútbol”. É um texto carinhoso, quase cândido, que de certa forma compara o torcedor a uma criança, o que não me parece muito errado.

Vem a Copa de 66 e aí o interesse de CDA pelo futebol já é maior. Ele faz um poema sobre a convocação. Mas é uma poesia em que ele ri do número de convocados (mais de 40!). Ou seja, ele já está mais informado sobre a seleção e até critica a convocação por atacado realizada naquele ano.

Para aquela Copa ele ainda faz um texto sobre os treinos em Caxambu, um outro, muito engraçado, sobre uma pessoa que quer pedir um documento numa repartição pública em dia de jogo e um belo poema intitulado Aos Atletas. Um pedacinho:

“Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.

(...)

O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.”

Há aqui um tema que será explorado mais vezes: a derrota como fato cotidiano e até nobre da vida; a derrota como parte integrante e indissociável da vitória.

(continua no post abaixo)

Por Torero às 10h39

Drummond e o futebol - 2

Em 1970, CDA faz sete textos sobre futebol. É um novo recorde. É interessante notar que ele é totalmente a favor da conquista da Copa, ao contrário de parte da esquerda da época. Tanto que seu primeiro texto deste ano sobre futebol é “Carta sem selo”, uma carta dirigida à bola, pedindo que ela ajude o Brasil a ganhar a Copa: 

“Bolinha minha, meu amigo redondo, suplico-te: não deixes a Copa ficar com Britânia ou outra qualquer nação que dela não precisa como precisamos nós. Faze o seguinte: se nossos atletas não derem tudo o que têm a obrigação de dar, assume por ti mesma o ataque,vai em frente e, sozinha, ganha para nós esse terceiro campeonato.”

Depois temos a “Oração do brasileiro”, uma oração em que ele pede ajuda a Deus para ganhar a Copa. CDA começa a entrar no mundo mágico do torcedor, se ombreia com ele, tanto que num determinado trecho ele diz:

“Escute aqui, ó irmãozinho.
Meu coração, agora, tá no México
Batendo pelos músculos de Gérson,
A unha de Tostão, a ronha de Pelé,
A cuca de Zagalo, a calma de Leão
E tudo mais que liga meu país
A uma bola no campo e uma taça de ouro.”

É uma transformação e tanto. E ele fica surpreso com essa transformação. Tanto que alguns dias depois escreve: “Que é de meu coração? Está no México, voou certeiro, sem me consultar, instalou-se, discreto, num cantinho qualquer, entre bandeiras tremulantes, microfones, charangas, ovações, e de repente, sem que eu mesmo saiba como ficou assim, ele se exalta e vira coração de torcedor, torce, retorce e se distorce todo, grita: Brasil!, com fúria e amor.”

Ele se anima com a seleção, diferentemente de parte da esquerda, mas não perde o senso crítico, não deixa de perceber que a vitória será usada pela ditadura militar e por políticos em geral. Então faz um irônico texto (Seleção, Eleição), cheio de slogans, como: “Vote na Arena, que conquistou a Taça Jules Rimet para você.”

Em 74 o número de textos diminui. Mas a qualidade, não. Usando o sermão da montanha como base, ele faz o “Sermão da Planície”, onde diz, de várias formas, que os bem-aventurados são aqueles que não participam do futebol. Mas, no final, paradoxalmente, acrescenta:

“Bem-aventurados os que, depois de escutar este sermão, aplicarem todo o ardor infantil no peito maduro para desejar a vitória do selecionado brasileiro nesta e em todas as futuras Copas do Mundo, como faz o velho sermoneiro desencantado, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.”

É uma distância tremenda daquele sujeito de quarenta anos atrás que não entendia como os mineiros podiam estar torcendo por jogadores que nem estavam vendo. Agora ele compreende esta torcida. E faz parte dela.

Naquela Copa, o Brasil foi derrotado, e assim volta o tema da derrota como parte inseparável da vida. “Afinal de contas, o mundo não acabou, com a vitória da Seleção Holandesa sobre a Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Continuou o mesmo, já repararam? (...) Nenhum pobre ficou efetivamente mais pobre porque deixamos de fazer os gols considerados indispensabilíssimos para o orgulho (ou vaidade) nacional.”

Para a Copa de 78 ele faz apenas dois textos. E nos dois ele faz uma ligação irônica entre futebol e política. Num primeiro, diz que, caso o Brasil ganhe a Copa, Geisel e Figueiredo cederão a presidência do Brasil ao técnico Cláudio Coutinho. E volta, pela terceira vez, à idéia de colocar os jogadores como ministros. 

No segundo texto, retorna a idéia de que a derrota não é o fim do mundo. Ele fala que há coisas mais importantes. Reconhece a magia do futebol, mas não deixa de ver que a vida vai muito além do campo. Isso pode parecer óbvio, mas não é. É muito fácil, quando se escreve sobre esporte, considerar os jogos como a coisa mais importante do mundo, nem que seja por um dia. Mas ele não cai neste erro, tanto que escreve:

“Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
Cuidar dos nossos problemas.”
 
Em 82 ele faz vários microtextos sobre futebol antes mesmo da Copa começar, um deles dizendo que a Copa já é nossa, e que eles bem poderiam mandar já a taça pelo correio aéreo para evitar burocracias. E neste texto, sabiamente ele termina dizendo “O melhor da festa é comemorar antes.” Para quem não lembra, esta seleção saiu entre palmas e assovios, e havia a certeza de que íamos ganhar a Copa fácil, fácil. Infelizmente, não foi bem isso que aconteceu.

Depois da frustrante derrota de 82, ele realizou seu texto mais bem acabado sobre derrotas. “Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não encontravam consolo na bebida; (...) vi a notícia do suicídio no Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; (...) vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança, vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas... E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. (...) A Copa de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos. E agora, amigos, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano está na segunda metade?”
 
Então? É ou não um cronista esportivo de primeira?

Por Torero às 10h38

16/10/2006

Os masoquistas, digo, goleiros da rodada.

Nada é pior do que ser goleiro. Nada. O sujeito tem que ser um tanto masoquista para escolher esta profissão.

No fim das contas, a culpa é sempre dele. Se o goleiro defendesse tudo, o time sairia de campo pelo menos com um zero a zero. Mas os goleiros não são perfeitos. Mesmo assim, nós, torcedores, pensamos: Por que ele não adivinha para onde vai o chute do atacante? Por que não saltou mais alto? Por que não saltou mais rápido? Por que não cortou o cruzamento? Por que tentou cortar? Por que não tem quatro braços?

Esta semana vários goleiros saíram cabisbaixos de campo. O garoto Felipe, de apenas 18 anos, do Santos, deve ter sido o mais triste. Faltando dez minutos para acabar o jogo, o ex-vice-líder vencia o Botafogo por 3 a 2, e fora de casa. Mas dez minutos e uma falha depois, Felipe saía de campo cabisbaixo, e o Santos iria cair três posições na tabela. O Santos ainda não havia levado quatro gols numa partida este ano. O “time da virada”, segundo o grito da torcida, provou seu próprio veneno.

O segundo mais triste deve ser Silvio Luiz, do Corinthians, que perdeu por 3 a 0 para o Flamengo. Ele não falhou grosseiramente em nenhum lance, mas a bola raspou em suas mãos no primeiro gol (no qual ele deve ter ficado aflito depois de ver as trapalhadas de Marinho e Marquinhos), chegou a espalmar o pênalti, mas a bola entrou, e, no terceiro gol, a pontinha de sua luva roçou na bola. Ou seja, quase defendeu os três lances. Mas “quase” não ganha jogo. Nem empata.

Já o goleiro mais alegre deve ser Bruno, do Flamengo. Não tomou nenhum gol e seu time subiu quatro posições.

O segundo mais feliz deve ter sido Rogério Ceni, que também não levou gol e ainda deu um passe para Danilo fazer o primeiro gol são-paulino. E isso é uma novidade. Pelo menos não lembro de uma falta em que, em vez de chutar, Ceni só rolasse a bola para um companheiro. Se ele não tivesse perdido um pênalti logo no começo da partida, seria um dia perfeito.

Mas o goleiro mais desesperado deve ser Guto, do Santa Cruz. Seu time parece ter desistido de lutar para não cair para a Série B. E, se o Santa já tomou 56 gols em 29 jogos, nestas nove partidas que faltam deve levar mais de vinte. Guto deve ter pesadelos terríveis. Deve sonhar com atacantes cara a cara, com várias bolas sendo chutadas ao mesmo tempo contra seu gol, com suas mãos desaparecendo e deixando suas luvas vazias. Para piorar, seu próximo jogo é contra o Goiás de Souza, o artilheiro do campeonato.

Quando eu era criança, até pensava em ser goleiro. Mas não tenho nenhuma inveja de Guto.
 

Por Torero às 08h34

Os 1s da 2ª

Na Série B, o goleiro mais infeliz foi Rafael, do Paulista. Ele foi o goleiro mais vazado da rodada. Levou quatro gols do São Raimundo, que entrou em campo como o último colocado na tabela. E o pior é que o Paulista vinha empatando bravamente em 1 a 1 até os 20 do segundo tempo. Mas então o São Raimundo marcou três gols e tirou o Paulista do G-4. Agora a equipe de Jundiaí caiu para a sexta posição e pode ter seu sonho de subir à Série A adiado.

Já o goleiro mais feliz desta rodada da B começou no Paulista, Mas saiu de lá. É Artur, do Coritiba. É verdade que ele tomou um gol no jogo contra o CRB, mas seu time fez dois e com isso o Coxa finalmente voltou a fazer parte dos quatro primeiros. A torcida, que andou um tanto hostil ao time (“um tanto hostil” é um eufemismo, na verdade a torcida e os jogadores brigaram no aeroporto Afonso Pena há poucos dias), finalmente voltou a apoiar a equipe. E Artur, que foi poupado na tal briga, deve estar mais contente ainda.

Na próxima rodada, os dois goleiros se enfrentarão. E o jogo será em Curitiba. Pela lógica, Rafael e Artur derramarão novas lágrimas. As do primeiro, de tristeza, as do segundo, de alegria. Isso, pela lógica. Mas o futebol e a lógica nunca se deram muito bem.

Por Torero às 08h33

12/10/2006

Entre a masturbação e a suruba

Abaixo, trechos do texto de hoje na Folha de S.Paulo, intitulado "Entre a masturbação e a suruba":

"Quiromaníaco leitor, quiroprática leitora, aquele que nunca teve prazeres solitários que levante a mão. Se ela não estiver ocupada, é claro. (...)

"Ontem à noite, quando chegava ao meu prédio, flagrei meu porteiro, possuidor da rara alcunha de Zé, praticando um prazer solitário. Ele estava num canto, na penumbra, segurando algo que eu não podia ver direito. (...)

"Meu pai me olhava com certa desconfiança quando eu pedia a chave do Corcel, talvez pensando que eu fosse fazer algo que maculasse o estofamento de seu carro. (...)

"Eu, confesso, pratico as duas coisas (...)."

Uolistas e folhistas podem ler o texto inteiro clicando aqui

Por Torero às 06h48

09/10/2006

Concurso de desenhos

Como alguns leitores cobraram, vamos ao concurso de desenhos dos personagens de Brasileirão City e Série B Village. Os melhores serão publicados aqui no blog. E, é claro, haverá alguns prêmios. Para o primeiro, um livro meu (muitos dirão que isso é castigo e não prêmio). Para o segundo e terceiro lugares, entradas para a boa peça "Ira", baseada em livro deste que vos escreve, e que está em cartaz aos sábados na sala Lineu Dias no shopping Pompéia Nobre. 

Os desenhos devem ser enviados para blogdotorero@uol.com.br, em jpeg.

Por Torero às 09h38

Dois alegres e dois tristes em Brasileirão City

Ontem à noite, o cheiro de pólvora se espalhava pelas ruelas de Brasileirão City.

 

Foram duelos terríveis. Agora é matar ou morrer, e ninguém quer a segunda opção.

 

Dois caubóis sofreram mais que os outros neste fim de semana.

 

O primeiro foi Tim Timão, que foi derrotado por John Esmeraldine e assim voltou ao grupo que será mandado para Série B Village.

 

Tim estava empatando a luta, mas roubaram-lhe uma das armas, Betão, e daí em diante a luta ficou desequilibrada, fácil para John Esmeraldine, que, se tivesse pontaria melhor, poderia ter transformado o colete de Tim em peneira.

 

Um fato curioso é que Esmeraldine lutou usando um chapéu da marca Geninho, que já pertenceu a Tim. Em Tim o chapéu teve azar, mas em Esmeraldine caiu melhor, tanto que John está sendo chamado de “aquele-que-voltou-dos-mortos”, pois houve momentos neste campeonato em que parecia estar morto, mas depois do novo chapéu, recuperou-se e passou a atirar muito melhor. Está até com o melhor revólver de Brasileirão City, um Souza Colt especial que já tem 15 marcas em seu cabo de madrepérola..

 

O outro caubói que muito sofreu nesta rodada foi Sancho Pampa. Não só porque tombou frente ao eficiente Billy Santos, mas porque passou para o terceiro lugar e está com o quarto e o quinto nos seus calcanhares.

 

Sancho, o caubói que usa bombachas, tinha esperança de vencer e partir para cima de Jack Tricolor, mas lutou mal e mereceu perder. De qualquer forma, como ele sempre diz, “não está morto quem pelea”.

 

E quem anda peleando mal são Caetano Bill, Sam T. Cruz e Bob Baião. Eles não venceram nesta rodada e parece certo que acabem entre os quatro últimos. Os urubus já sobrevoam seus corpos.

 

Já os caubóis mais contentes do fim de semana foram, obviamente, Jack Tricolor e Black Bridge. O segundo porque venceu Young Boy e saiu da zona de rebaixamento pela primeira vez em muito tempo. O primeiro porque ganhou de Louis Laranjeira (de virada e fora de casa), abrindo sete pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

 

Black Bridge volta a ter esperanças de não ser mandado para o purgatório que é Série B Village. E Jack Tricolor já comprou uma camisa nova para colocar a estrela de xerife. Mas, sabiamente, nenhum dos dois ainda está contando vantagem. É como diz aquele ditado do Velho Oeste: “Quem comemora antes chora depois.”

Por Torero às 08h34

Gallo lá em cima, Bacalhau lá em baixo

Em Série B Village os tiros são tantos que se tem que assistir aos duelos por entre as frestas das janelas. Lá há sempre um inimigo às suas costas, outro à frente e um de cada lado. Todas as posições são disputadas (a diferença entre líder e lanterna na Série A é de 32 pontos. Na B é de apenas 21).

Num duelo de desesperados, Jessé Bacalhau perdeu para o Índio Guarani, que acertou-lhe três flechadas. Os dois seguem entre os quatro últimos e é bem possível que acabem em Hell C Hill.

A adorável Marilia Mae levou tantas balas de Coxa Cox que sua roupa ficou indecente, cheia de furos. Marilia mais uma vez perdeu a chance de se aproximar dos líderes. E Coxa Cox, depois de oito duelos sem vencer, finalmente lavou a égua e volta a se aproximar daqueles que vão para Brasileirão City. Depois da vitória, ele até rezou no meio da rua. E continua não falando com ninguém.

O novo líder é Rob Gallo. Por ter tomado um rabo-de-galo antes da lide contra Al Lee Gator, ele parecia um tanto sonolento. Mesmo assim, venceu o caubói que se veste de amarelo e assumiu a ponta. Mas o mais fantástico foram os fãs de Rob Gallo. Cinquenta e um mil estavam no cânion Big Boy from Minas para ver a vitória de seu favorito. É o recorde de público do ano, seja em Brasileirão City, Série B Village ou Hell C Hill.

Ray Moon, o caubói paraense (inimigo fidagal de de Jeff Curuzu), venceu Hank Hawaii, alvejando duas vezes a camisa florida do simpático mané catarinense. Luta para fugir de Hell C Hill, e para isso o próximo confronto, contra Jessé Bacalhau, será decisivo.

O melhor duelo da semana talvez tenha sido entre Paul East e James Capibaribe. Cada um acertou três tiros no outro, e os dois se mantiveram na zona de acesso. James tem o melhor ataque do torneio, e outro caubói pernambucano, Cliff Reciff, tem a melhor defesa.

Aliás, Cliff era o líder até esta rodada, mas empatou com John Lettersoup, em Maceió, e foi para o segundo lugar. Em B Village não se pode titubear.

O nobre Sir Arah, que duela de luvas brancas e cartola, venceu o bom Paul T. Guar, que se veste de encarnado (4 a 2). Sir Arah esteve por muito tempo entre os quatro últimos, mas se recuperou nas últimas rodadas e finalmente respira aliviado.

Big Bigger e Andrew Ramalho fizeram o único duelo sem tiros certeiros. Pior para Andrew, que ainda tem esperanças de passar à zona de acesso. Mas agora, nem tanto.

Ken Dango lutou com gama, digo, gana, e venceu Jeff Curuzu. Com isso subiu três posições na tabela. Ken Dango possui o melhor revólver da região, um Van Der Ley que já meteu 15 balas nos adversários.

Por fim, Django Villa Nueva, o caubói goiano-mexicano, e Sam Raymond, o manauara, ficaram no 1 a 1. Eles correm risco de rebaixamento e o empate foi ruim para os dois (mas pior para Sam, que é vice-lanterna).

Faltam nove rodadas para que saibamos quem é quem em Série B Village. Por enquanto, nada está decidido. E parece que será assim até o último pôr-do-sol.

Por Torero às 08h32

Na última sexta-feira fui ver o filme “O ano em que meus pais saíram de férias”, dirigido por Cao Hamburguer (que também dirigiu o filme do Castelo Rá-Tim-Bum).

Ele se passa durante a Copa de 70 e conta a história de um menino, Mauro. Seus pais, ativistas políticos, “saem de férias”, e ele é deixado com o avô. Mas o avô morre e ele acaba ficando sozinho, ou melhor, com um vizinho do avô. E tem que aprender a viver neste novo mundo.

Todas as questões técnicas do filme estão bem resolvidas: fotografia, decupagem, montagem, direção de arte, música, etc... E isso não é fácil numa indústria que ainda engatinha.

É um belo filme, daqueles que o público vai dizer que “parece filme americano”. Mas não é. É melhor que isso. É um bom filme brasileiro. Estreará dia 2 de novembro.

Como o personagem principal é um garoto, decidi levar meu sobrinho Leocádio para vê-lo comigo (clique aqui para ler a crítica de Leocádio). Ele achou o filme meio triste e legal. Perguntei-lhe se o filme era mais triste ou mais legal, e ele me respondeu que o filme era legal porque era meio triste. Leocádio ainda vai ser crítico de cinema.

 

Por Torero às 08h30

05/10/2006

E se seu timer acabar?

Sonhador leitor, sonhada leitora, pensemos em pesadelos: pensemos que, certo dia, um imenso tsunami varra a cidade de Santos do mapa. Ou que o Corinthians afunde em dívidas e seja repartido entre seus credores. Ou que o Morumbi seja demolido e em seu lugar se construa um imenso condomínio de prédios de luxo. Ou que o Palaia se transforme no presidente vitalício do Palmeiras. Ou que a Portuguesa caia para a Série C.

Tais tragédias poderiam levar estes times à extinção.

E aí finalmente chegamos à grande pergunta: O que você faria se seu time acabasse?

 

Este é o começo do texto de hoje na Folha de S.Paulo. Uolistas e folhistas podem ler o resto clicando aqui.

Por Torero às 14h28

02/10/2006

A (ou Eleição ou futebol?, eis a questão)

Neste fim de semana quase sem jogos, vários torcedores devem ter sofrido crise de abstinência futebolística, cujos sintomas são: boca seca, suores e olhadas desesperadas pela janela em busca de algum futebolzinho.

Muitos devem ter substituído o futebol pela política e acompanhado a apuração dos votos como se ela fosse, ao mesmo tempo, um monte de campeonatos estaduais e um grande campeonato nacional.

Aliás, as eleições são disputadas num esquema interessante: começa com um torneio de votos corridos mas, caso nenhum time consiga mais de 50% dos pontos, há uma partida final entre os dois melhores colocados, um mata-mata.

E neste campeonato nacional de votos teremos uma final entre o corintiano Lula e o santista Alckmin. Curiosamente, os dois candidatos lembram seus clubes.

Lula tem origem simples e uma torcida apaixonada, mas seus dirigentes fazem trapalhadas inacreditáveis.

Já Alckmin parece bem organizado, mas mostra um futebol sem graça, chocho, que não empolga nem sua própria torcida.

Realmente será um jogaço. O corintiano, como o Corinthians, tem uma defesa frágil. Porém, ao santista, como ao Santos, falta talento para atacar. 

Mas vamos ao futebol propriamente dito.

No distante sábado, o Inter passou pelo Paraná (com três gols de zagueiros) e voltou ao G-4. Ao derrotado Paraná restou o consolo de, mesmo assim, ainda estar na zona de classificação para a Libertadores.

Já o São Paulo empatou com o Atlético-PR e agora tem cinco pontos na frente do segundo colocado.

Curiosamente, poucos pontos também separam Lula de Alckmin. A questão é ver se quem tem a vantagem vai conseguir mantê-la. Serão duas emocionantes finais de campeonato. Mas uma delas é bem mais importante.

 

Por Torero às 08h42

B (ou Finalmente sai o resultado do concurso)

Depois de algumas horas rindo com os nomes enviados pelos leitores, consegui eleger os nomes para vários caubóis de Série B Village. Foi uma escolha difícil. Algumas vezes tive que deixar alguns nomes para um mesmo caubói e só defini o vencedor no último instante. E a escolha foi decidida no conjunto. Por exemplo, se havia dois com nomes “Big”, eu tive que ficar com apenas um.

Lembro que alguns nomes já estavam escolhidos há tempos, como os de Guarani (Índio Guarani), Marília (Marília Mãe) e Sport (Cliff Reciff). E dois eu acabei inventando: Ray Moon para o Remo, Ken Dango para o Gama e o mexicano Django Villa Nueva para o Vila Nova.

Mas vamos aos vencedores:

Para o América, fiquei com o sonoro Paul T. Guar, de Rick Rojas.

O Atlético Mineiro doravante se chamará Rob Gallo, um caubói que sempre toma um rabo-de-galo antes de seus duelos. O nome foi enviado por Rvicalvi.

Hank Hawaii (idéia de Rafarezaghi), representará o Avaí. E será um caubói que veste bermudas e camisas coloridas.

Carlos Andrade Cunha achou um nome criativo para o Brasiliense, relativo ao seu símbolo, o jacaré: “Al Lee Gator”

“Sir Arah” será um refinado caubói inglês. Com cartola e tudo. O nome para o Ceará foi dado por Ricardo Araújo.

O Coritiba doravante será conhecido por “Coxa Cox”, nome criado por Thiago Queiroz.

O CRB vai ser representado por “John Lettersoup” (Cecelindo).

Marcos Tonelo sugeriu um sugestivo nome para o Ituano: “Big Bigger”.

Frederico Bento inventou um mavioso nome para o Náutico: “James Capibaribe”.

Vários mandaram o nome “Paul East” para o Paulista, mas Fernando Monteiro foi o primeiro.

O Paysandú, segundo a sugestão de Flávio Vieira, será “Jeff Curuzu”.

“Jesse Bacalhau” foi o divertido nome criado por Frederico Bento para a Portuguesa.

O Santo André foi traduzido para o cauboilês como “Andrew Ramalho” por Bonilha.

E, para o São Raimundo, Marcos Costa encontrou “Sam Raymond”.

Quanto aos livros, fiquei em dúvida, mas acabei decidindo por mandar o Terra Papagalli para Bonilha, um leitor obsessivo que fez um perfil para cada um de seus personagens. E “O Mundo é uma bola” vai para Fernando Monteiro, que ficou em segundo lugar em vários nomes.

Por Torero às 08h42

C (ou Estou a dois passos do purgatório)

Finalmente temos os oito times que vão participar do octogonal decisivo, os oito times que tentarão escapar da infernal terceira divisão (e infernal não porque estar na terceira seja algo terrível, mas porque a CBF abandona os times menores, logo eles que mais precisam de ajuda).

O Bahia e o Ferroviário se classificaram pelo grupo 25. E o Bahia terminou como o melhor time desta fase. Mas o primeiro colocado do grupo seria o Ananindeua (que tem um nome que parece inventado por um fanho). Mas o time paraense perdeu seis pontos por incluir um jogador irregularmente em duas partidas. É um absurdo que estas coisas ainda aconteçam.

Pelo 26 passaram à próxima fase o Vitória e o Treze-PB. A dois pontos da classificação ficou o Tuna Luso, que recentemente foi alvo de uma ótima reportagem na Folha, que bem mostra como são as coisas na Série C. (Para lê-la, uolistas e folhistas podem clicar aqui e aqui).


Pelo 27, o bom Ipatinga e o Brasil de Pelotas passaram para a próxima fase. Parecem ser aqueles times pequenos e bem organizados. Neste grupo, quem ficou de fora foi o Noroeste, que tropeçou em casa frente aos dois classificados. Depois até se recuperou, mas já era tarde.

E os últimos dois classificados foram o Criciúma, que não faz muito tempo estava na Série A, e o surpreendente Grêmio Barueri. Neste grupo 28, a judiação aconteceu com o América-MG, que, se vencesse o J. Maluceli por dois a zero no último jogo, teria passado à próxima fase.  

Agora estes oito times cortarão o Brasil para cima e para baixo a fim de escapar do inferno e passar para o purgatório da Série B.

Por Torero às 08h40

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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