Blog do Torero

10/07/2006

Arrependimentos eternos

Ontem, depois da final da Copa, fiz um sádico passeio pelos Champs-Elysées.

 

Sim, confesso, queria ver os parisienses sofrendo.

 

E por dois motivos pouco nobres. O primeiro, obviamente, é a vingança, pois foram eles que nos tiraram da Copa (se bem que desta vez eu até acho válido aquele argumento de que perdemos para nós mesmos). E o segundo motivo é que acho os parisienses os sujeitos mais arrogantes do planeta.

 

Para meu regozijo, neste passeio vi cenas típicas como uma bela senhora com a pintura borrada pelas lágrimas, alguns homens tristes abraçados na bandeira francesa, sujeitos andando sem rumo e uns poucos estourando seus fogos numa falsa felicidade pelo segundo lugar.

 

Vi também algumas projeções que usaram o Arco do Triunfo como tela. Provavelmente as projeções foram preparadas antes do jogo, pois, ironicamente, a primeira delas foi o rosto de Zidane e a frase: “Zizou, on t’aime”, algo como “Zizou, nós te amamos”.

 

 

Os organizadores da festa não podiam adivinhar que ele seria expulso de campo e acabaria como um dos responsáveis pelo vice-campeonato. Aliás, ser derrotado e expulso em sua última partida era algo que não estava previsto nem pelo mais sádico torcedor. A derrota até seria suportável, mas a expulsão, provocada por uma agressão tola, maculou o que poderia ser uma grande despedida. A última imagem de Zidane num campo de futebol acabou sendo vergonhosa.

 

Não é à toa que hoje o L’Equipe trouxe um editorial em sua primeira página perguntando a Zidane o porquê de ele fazer aquilo. E o título da capa é algo como “Arrependimentos eternos”.

 

Quanto à partida, a França até foi um pouco melhor, mas seu gol partiu de um pênalti inexistente.

 

No final, foi um jogo que mostrou bem o que foi o futebol desta Copa: muito esmero na marcação e uma profunda falta de criatividade nos ataques. Tomara que o futebol não seja assim daqui para a frente. 

 

Foi uma Copa tão ruim quanto a de 94, e que, como a de 94, teve que ir para os pênaltis.

 

Uma Copa que poderíamos ter vencido se Parreira tivesse ousado um pouco na escalação e se tivesse conseguido inflamar seus comandados.

 

Uma Copa onde a melhor coisa, para mim, foi passear entre os antipáticos e derrotados parisienses.

 

Mas eu estaria bem mais feliz se o melhor momento tivesse sido em campo, vendo o Brasil jogar como Brasil.

 

Por Torero às 07h11

09/07/2006

Zidanix contra os romanos

 

Não aguentei e interrompi as férias.

 

É que estava eu aqui pensando que, se fosse escrever um romance que contasse a vida de um grande jogador imaginário, certamente não faria com que sua partida final fosse a decisão de uma Copa do Mundo. Parecia pouco crível, um exagero. Mas é o que vai acontecer com Zidane.

 

Amanhã, todos os olhos estarão voltados para ele. Todos vão querer ler a última página de sua biografia. Por enquanto, o enredo está perfeito: começou com a grande conquista de 1998, depois houve a humilhante derrota de 2002, a desistência da seleção, o retorno a pedidos (o herói tem sempre que ser convencido a lutar), e, agora, a volta por cima, a decisão.

 

Se a França vencer, então teremos um final perfeito, daqueles de filme americano. Zidane, aos 34 anos, será comparado a Napoleão. Mais que isso, será comparado a Asterix. Será Zidanix!

 

E terá ao seu lado velhos e valorosos companheiros: Henryx, que, com 28 anos, é o garotinho da turma, Thuramix, 31, que na partida contra Portugal foi sensacional, Vieirix, 30, o volante que derrotou a Espanha, e Barthix, um goleiro de 36 anos, baixinho e careca, mas que até aqui vem tendo muita competência (e, cá entre nós, um tanto de sorte).

 

Porém, caso a Itália seja campeã, não haverá um filme americano, mas, ironicamente, um filme francês. Em vez de um herói absoluto, nosso personagem será um homem que tropeçou no último degrau que o levaria ao panteão dos deuses. Mas ele terá provado seu valor para si mesmo e terá conseguido o respeito dos seus pares.

 

Amanhã, se os gauleses vencerem, farão uma grande comemoração. Não terão os javalis das festas de Asterix, mas cantarão muito, farão trenzinhos, beberão vinho (alguns levam até taças para a rua), acenderão fogos vermelhos e ficarão dando voltas em torno do Arco Triunfo, buzinando e com os corpos para fora do carro.

 

E o Arco do Triunfo não será, por uma noite, o símbolo de Napoleão, e sim de Zidanix e seus companheiros.

 

Isso, se Zidanix vencer. Mas acho que dessa vez os romanos é que ganharão.

 

 

Por Torero às 03h17

03/07/2006

Férias!

Estou, a partir de hoje, tirando um mês de férias. Do trabalho e do futebol. Serão trinta dias de desintoxicação (a não ser que eu tenha uma recaída no meio do caminho, é claro, e dê uma olhadinha para na internet para ver como anda o Campeonato Brasileiro).

Digo aos leitores que foi um prazer escrever todos os dias durante a Copa, quando pensamos e torcemos juntos sobre o futebol.

Também foi um prazer estar aqui na Alemanha com a equipe da Folha e da Folha Online (Cobos, Edu, Fábio, Bueno, Arruda, tio Rangel, Perrone, Rossi, Tostão, Juca e Soninha). Aliás, esta foi a melhor parte da Copa, já que os jogos da seleção.. Pronto, já ia começar a falar de futebol de novo.

Férias! Preciso de férias!

Até a volta. 

Por Torero às 02h49

Complexo de poodle

Vai aqui o link para o texto de hoje na Folha, que fala sobre um mal que atingiu alguns jogadores da seleção, o complexo de poodle (na Folha saiu "poodles", no plural), oposto ao complexo de vira-latas. Para ir para lá, clique

Por Torero às 02h42

02/07/2006

Os dez mandamentos

E Moisés desceu do Monte Sinai segurando duas placas de pedra, cada uma com cinco mandamentos. E eles são:

 

1-) Amar a beleza do futebol sobre todas as coisas, porque perder jogando feio é o que há de pior.

 

2-) Jamais convocar jogadores que não estejam no auge da sua forma. Principalmente se forem laterais.

 

3-) Não cultuar falsos ídolos.

 

4-) Não ficar arrumando a meia durante um lance perigo, porque o Henry pode ficar sozinho e fazer o gol.

 

5-) Se os reservas estão melhores, devem virar titulares. E vice-versa.

 

6-) Atleta de peso só é bom se for no sentido metafórico.

 

7-) Fazer uns coletivos de vez em quando é importante. Os jogadores têm que saber de cor onde estão seus companheiros.

 

8-) É melhor substituir do que lamentar. E, de preferência, já no intervalo. Não nos últimos minutos.

 

9-) Dois jogadores iguais na mesma posição fazem o papel de um.

 

10-) Jamais deixar o Zidane sem marcação especial.

 

Por Torero às 08h08

01/07/2006

De volta às pequenas coisas da vida

O Brasil perdeu. E mereceu.

Só fomos melhores nos dez primeiros e nos últimos dez minutos da partida. Nos outros setenta, a França dominou.

Parreira teve a chance de mudar a partida no intervalo, teve a chance de mudar sua história. Mas não fez isso. E os sinais eram claros:

Cafu estava levando um baile pela direita. Mas o técnico preferiu não tirá-lo e nosso capitão, que tantas honras teve em 2002, acabou fazendo a falta que deu origem ao gol francês. Parreira tirou-o nos minutos finais e aí ele ficou ainda mais caracterizado como um dos grandes culpados pela derrota.

Ronaldo também esteve mal. Só nos últimos 15 minutos jogou como se esperava que ele jogasse nos 90. Estava sem fôlego. Ou sem fogo.

Kaká, como está no texto abaixo, poderia ter sido substituído no intervalo. Robinho, que foi nosso melhor atacante durante a Copa, poderia ter entrado no começo do segundo tempo, e não quando faltavam apenas quinze minutos para a desclassificação. "Ele trouxe a chama que faltava para o time", disse o próprio Parreira noutro jogo. Se é assim, e se estava em condições de jogo, deveria estar em campo desde o primeiro minuto.

Aliás, Robinho, Fred, Cicinho, Juninho Pernambucano e Gilberto Silva mostraram ter essa chama, esse desejo de vitória. Além disso estavam em perfeitas condições físicas. Deveriam ter sido titulares, como foi falado e repetido durante a cobertura da Copa.

Mas não foram. E só daqui a quatro anos eles terão outra chance. Só que aí talvez então já não estejam no seu auge, ou podem estar machucados. Enfim, perderam a chance de brilhar, de conquistar o planeta.

O consolo para é que vai para a lata de lixo a idéia de que o futebol bonito não ganha campeonatos. Zidane driblou, lançou e jogou bonito. Aos 34 anos tornou-se de vez o maior carrasco da seleção brasileira. De uma seleção brasileira que não jogou bonito, a não ser contra o Japão.

Quanto a nós, torcedores, já não seremos mais campeões mundiais, já não venceremos mais esta guerra mundial, já não nos fantasiaremos de verde e amarelo. Só nos resta voltar às coisas pequenas da vida: aos nossos amores imperfeitos, aos nossos amigos de todos os dias, às nossas piadas no trabalho. Coisas que, no final das contas, não são tão pequenas assim. 

Por Torero às 17h49

O primeiro tempo será o penúltimo?

O primeiro tempo começou bem para o Brasil, com a França esperando em seu campo. Mas pouco a pouco eles foram ganhando espaço e aos 20' já dominavam o Brasil.

O pior é que não parece um jogo tão difícil. A França não é um grande time, mas está se animando.

O Brasil não consegue atacar. Ronaldinho Gaúcho teve algumas poucas chances, mas não brilhou. Não chega a ser realmente um atacante, mas também não está armando. E Ronaldo está num mau dia. Não quanto ruim quanto no primeiro jogo, mas mais ou menos como no segundo. Kaká também pouco se apresenta. O resultado é que ficamos sem infiltração e contra-ataque.

Para mim, o melhor brasileiro do primeiro tempo foi Lúcio, o que é mau sinal.

Para o segundo tempo, Parreira poderia colocar Robinho no lugar de Kaká e trazer Ronaldinho Gaúcho definitivamente para a armação.

Se continuarmos assim, serão os últimos 45 minutos da seleção na Alemanha.

Por Torero às 15h57

Faltam 43 minutos

Falta menos de meia hora para começar o jogo. Já estou em meu lugar no estádio e neste instante entram  Barthez e Dida para o aquecimento.

Minha visão do estádio é essa aí da foto de cima.

O estádio é muito alto e inclinado. A acústica é ótima e há este telão no alto.

 

 

Por Torero às 14h16

E deu Portugal!

Mais uma disputa de pênaltis. E venceu o time que atacou mais. Foram 28 chutes contra 11. Mas é claro que as estatísticas a favor de Portugal foram ajudadas pela expulsão de Rooney.

A Inglaterra foi brava como não havia sido ainda nesta Copa. Jogou com raça e não amarelou. Portugal fez o que pôde e o que sabe. Marcou com vontade mas atacou sem brilho. E novamente faltou talento suficiente aos ataques para vencer as defesas.

O herói acabou sendo Ricardo, goleiro do Sporting. Ele já havia feito milagre na semifinal da Eurocopa, quando, já no desempate, ele defendeu o  pênalti inglês e marcou outro.  

Os jornais portugueses na internet já estão com a manchete "Portugal nas meias-finais". 

Agora é esperar que a seleção brasileira vença para que haja o jogo Brasil x Felipão, o jogo que todos queríamos e não queríamos.

 

Por Torero às 13h45

60% a 40%

O primeiro tempo entre Portugal e Inglaterra foi equilibrado. Mas está sendo um bom jogo. Não está Tão amarrado como a maioria das outras partidas.

Os dois times ficaram mais nos chutes de longe, e cada goleiro fez duas defesas. Os melhores ataques lusitanos foram pela esquerda, com Figo, que com seus 33 anos vem sendo o melhor português. Pela Inglaterra não consegui ver um que tenha se sobressaído. É uma equipe equilibrada. Talvez Lampard.

Para o segundo tempo, tudo está indefinido, mas gostei um pouco mais de Portugal. 60% a 40%. Não por coincidência, Portugal chutou seis vezes a gol e a Inglaterra, quatro.

E faltam três horas e seis minutos para o jogo que realmente interessa.

Por Torero às 11h58

Três tiros e um furo

Os jornais de hoje travaram um duelo em relação à escalação da seleção. O Estado de S.Paulo de que o ataque seria Adriano e Ronaldo. O Globo falou que seria Ronaldo e Robinho. E a Folha de S.Paulo apurou que seria Ronaldinho e Ronaldo, entrando Juninho no meio. Venceu a Folha.

Por Torero às 11h19

Palpites

Perguntei aqui para as pessoas que estão em volta de mim qual seus palpites para o jogo. Eis aqui as respostas:

Batista: "4 a 0" Brasil. Fora o baile!"

Bento: "3 a 0 França. A história se repete. Na primeira vez é drama, na segunda é comédia. Ou seja, vão rir da gente."

Preta: "0 a 0, passando com muito sofrimento nos pênaltis. O Parreira gosta de fazer a gente sofrer."

Raimundo, o rei do Submundo: "Dessa vez não consegui bater um papo com o juiz. 2 a 1 para eles."

Tico: "1 a 0."

Teco: "0 a 1."

Lelê: "2 a 0 Brasil."

Zé Cabala: "2 a 0 França."

Gulliver: "1 a 1 e perdemos nos pênaltis."

Tostão: "1 a 0 Brasil."

Clóvis Rossi: "Vai ser aquela coisa de sempre, 1 ou 2 a 0 Brasil."

Felip Vivanco (jornalista espanhol do Vanguardia): "2 a 1 "Brasil."

Christian Valois (jornalista francês de um diário de Montpellier): "Eu sou pessimista em relação à França: 2 a 1 Brasil."

Luís Fernando Verissimo: "2 a 0 para o Brasil está bom."

Sérgio Xavier (editos da Placar): "2 a 0."

André Rizek (rep'roter da Placar): "2 a 1."

Por Torero às 11h07

Nacionalismo ou nazismo?

Uma curiosidade contada por brasileiros que vivem aqui: Quando começaram a aparecer bandeiras nos carros como na foto abaixo, houve um sério debate e pensou-se em proibir as tais bandeiras. É que, depois do nazismo, o nacionalismo deixou de ser incentivado por aqui, e as grandes demonstrações nacionais, comuns nos tempos de Hitler, passaram a ser vistas com maus olhos.

No final das contas as bandeirinhas foram permitidas. Mas me parece muito saudável este cuidado com o excesso de nacionalismo. Coisa que não acontece com os EUA, por exemplo, onde os aeroportos, cheios de bandeiras monumentais, realmente lembram a propaganda nazista.

E, geralmente, o excesso de nacionalismo serve de desculpa para invadir o direito das outras nações.

Por Torero às 10h50

Falta pouco

Faltam quatro e vinte minutos para o jogo. Os jornalistas da Folha e do Uol já estamos aqui no estádio. Na foto acima, uma das salas de imprensa. Este estádio é que ofereceu a pior infra-estrutura até agora, de forma que nem todos os jornalistas conseguiram uma mesa para trabalhar. Tive sorte e peguei uma das últimas (mas tive que roubar a cadeira de alguém).

Hoje vou tentar ficar escrevendo boletins de quando em quando, inclusive durante o jogo. Vamos ver se vai dar certo.

 

Por Torero às 10h42

Álbum de figurinhas

Mark Pinho, 3 anos, vive em Augsburg.

Mark fala português e alemão. E adora carros. Tanto que a primeira palavra que disse foi "auto" ("carro" em alemão). Seus pais são brasileiros, mas foram fazer um curso na Alemanha e acabaram ficando por lá. Devidamente vestido com a camisa de Kaká, Mark palpitou que o jogo será 3 a 1 para o Brasil. Tomara que ele esteja certo.

Por Torero às 08h54

Texto na Folha de S.Paulo

Para ver o texto de hoje na Folha, clique.

Por Torero às 08h41

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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