Blog do Torero

28/04/2006

Copas de ouro

Pela Copa do Brasil saíram na frente o Fluminense e o Flamengo. O tricolor porque ganhou fora de casa, o rubro-negro porque em casa goleou.

 

Entre Santos e Ipatinga, a vantagem ficou com o time mineiro, que pode decidir a classificação em seu próprio estádio (o que talvez não seja grande vantagem, porque foi lá que ele perdeu o título estadual).

 

E houve um morno empate entre Vasco e Volta-Redonda. Como o próximo jogo será em São Januário, o time cruzmaltino é favorito.

 

Se as quatro partidas de volta respeitarem a lógica e a obviedade, teremos três cariocas e um mineiro nas semifinais.

 

Na Libertadores, o Internacional começou com o pé direito vencendo o Nacional do Uruguai em Montevidéu. É verdade que teve dois jogadores expulsos, mas, depois de uma vitória fora de casa, é o time brasileiro que está mais perto das quartas-de-final.

 

Já o Goiás começou com o pé esquerdo, perdendo por dois a zero para o bravo Estudiantes. Como o Goiás não faz dois gols numa mesma partida há nove jogos, será quase uma missão impossível derrotar os argentinos. Quase.

 

O Corinthians teve um começo estranho. Perdeu, o que não é bom, mas fez dois gols no adversário, o que não é nada mal. A lógica diz que o timão vence o River Plate em São Paulo. Mas os argentinos nunca foram de dar muita bola para a lógica. A partida leva todo o jeito de ser dramática feito um bolero. Ou um tango, em respeito aos portenhos.

 

Na disputa caseira, o São Paulo levou a melhor porque empatou fora de casa. O Palmeiras foi bravo e, sem Leão, se empenhou como um leão. Mas, no Morumbi, precisará da mesma valentia e de uma boa pitada de sorte.

 

Agora sim, as copas merecem uns copos.

 

Por Torero às 01h20

Poupar ou não, eis a questão

Vários times que estão disputando a Copa do Brasil e a Libertadores vão poupar seus atletas em jogos do campeonato brasileiro.

 

Então eu vos pergunto: Isso está certo?

 

Eu vos respondo: Certíssimo!

 

Com essa maratona de jogos nos meios e fins de semana, há que fazer um rodízio de jogadores. Até o atlético Ronaldinho, do Barcelona, já participou de um rodízio destes. E olhem que lá na Europa eles têm pré-temporada e outros luxos.

 

É claro que, no final das contas, esse rodízio só terá valido a pena para o campeão. Os outros terão perdido preciosos pontos no Brasileiro sem nenhuma recompensa por isso.

 

Mas, como diz minha sábia mãe, “quem não arrisca não petisca”, e há que se arriscar para conseguir um caminho mais curto para a Libertadores, e, principalmente, para ganhar a própria Libertadores.

 

Pergunte aos torcedores são-paulinos se eles trocariam sua terceira estrela por um melhor desempenho no Brasileiro do ano passado.

 

“Nunca!”, “Jamais!” e “Em tempo algum!” seriam suas respostas.  

 

 

 

PS: Neste fim de semana, excepcionalmente, não teremos as seções “Sábado do crioulo doido” e “Sempre aos domingos” (que por esta falta revela a imprecisão de seu título).  

Por Torero às 01h18

27/04/2006

Texto da Folha

Clique aqui para ler o texto de hoje na Folha (só para assinantes do jornal ou do UOL).

Por Torero às 07h07

Dica de vlog.

Um vlog (blog com vídeo) bacana é o Batendo Bola (www.batendobola.com.br).

Por Torero às 07h05

26/04/2006

Zé Cabala e o dia do goleiro

Como hoje é o dia do goleiro, republico uma entrevista de Zé Cabala com um célebre arqueiro:

 

Zé Cabala e o craque do hino

JOSÉ ROBERTO TORERO
COLUNISTA DA FOLHA

Quando entrei em sua sala, vi um Zé Cabala triste e cabisbaixo sob seu turbante verde-limão com apliques em laranja. - Eu falei pro Felipão jogar com a camisa azul, eu falei...
- Grande místico, sinto interrompê-lo, mas eu preciso fazer uma entrevista...
- Bem, eu nasci em Paracambi, quer dizer, no Tibete, e depois...
- Desculpe, mas a entrevista não é com o senhor, é com uma alma do além. O senhor poderia fazer uma incorporação?
- Preciso me concentrar...
- R$ 50?
- Cenzinho.
Depois de receber o dinheiro e dar-me um recibo para que eu pedisse reembolso à Folha, o grande esotérico plantou uma bananeira, deu uma estrela e começou:
- Ainda estou em forma.
- Eu quem?
- Eurico Lara, às suas ordens.
- Lara, o melhor goleiro da história do Grêmio?
- Em carne e osso, quer dizer..., em alma e espectro.
- Deixe-me ver..., pelas minhas anotações você começou a jogar no Grêmio em 1920...
- E só parei em 1935. Fui campeão 11 vezes.
- Dizem que o senhor foi um grande goleiro.
- Grande mesmo. Tinha um 1,90 m. Eu parecia um poste.
- É verdade que o senhor morreu em campo depois de defender um pênalti?
- Tem uns que dizem que morri defendendo um pênalti batido pelo meu próprio irmão, outros falam que foi cobrado pelo Friedenreich.
- E qual é a verdade?
- A verdade é que morri no hospital mesmo, não lembro direito se de tuberculose ou do coração. Uns 40 dias antes eu joguei o maior Gre-Nal de todos os tempos, o de 1935, ano do Centenário da Revolução Farroupilha. O Grêmio virou no finalzinho, e o empate bastava para o Inter. Eles já estavam até mandando pombos-correio para as cidades vizinhas. Mas só joguei o primeiro tempo. Estava com umas dores esquisitas no peito, sabe?
- E o senhor ganhava bem?
- Bem, depois dos jogos a gente tomava um banho num sobradinho do clube e então nos davam um sanduíche com suco. Não era tão ruim, podia repetir.
- Mas nem um tostão?
- Ganhava algum dinheiro em outras funções no clube. Fiz tudo por lá: cortei grama, fui técnico dos juvenis e guarda-esporte.
- Guarda-esporte?
- É quem cuida da bola, do material esportivo, das roupas...
- Puxa! O senhor fez de tudo pelo Grêmio. Merecia uma recompensa.
- Tive a maior de todas. Sabe o hino do clube, aquele do Lupicínio Rodrigues que começa com "Até a pé nós iremos, para o que der e vier...?".
- Sei, respondi tirando as mãos dos ouvidos.
- Pois bem, meu nome está lá.
- Em que trecho?, perguntei enquanto levava os indicadores até as orelhas. Ele pigarreou e recomeçou a, digamos, cantar:
- Lara, o craque imortal/ soube o teu nome elevar/ Hoje com o mesmo ideal/ nós saberemos te honrar...
- Muito bonito. Acho que não há outro jogador homenageado deste jeito.
- Não tem dinheiro ou estátua que valha isso, meu caro. Agora com licença, tenho que ir. O Everaldo está me chamando. Acho que o pessoal do inferno subiu e vai ter Gre-Nal.

Por Torero às 12h34

Dia do goleiro

Já que hoje é dia do goleiro, republico um textinho sobre o assunto:

 

Gancho, o goleiro, tinha esse nome por um motivo muito justo: em vez de mão, na ponta do braço direito possuía um gancho. Por causa disso ele jamais largava uma bola, pois elas sempre ficavam presas ao seu agudo espeto. O problema é que Gancho dava muito prejuízo ao seu clube, o Nova York do Maranhão, e assim, apesar de suas qualidades, acabou sendo despedido. Para não se afastar totalmente do futebol, ele tentou algumas outras ocupações. Primeiro quis ser roupeiro, mas rasgava os uniformes. Depois arriscou-se como massagista, mas rasgava os jogadores. Numa última tentativa, quis ser juiz. E este foi seu erro fatal. Num final de tarde de domingo, quando o crepúsculo manchava o azul do céu, Gancho sacou o cartão com a mão errada. Sobre a grama verde, o vermelho de seu sangue misturou-se ao do cartão.

Por Torero às 12h32

E o inesquecível atacante-pela-direita é mesmo inesquecível

A eleição para atacante-pela-direita surpresas, não-surpresas e surpresas dentro das não-surpresas.

 

Na décima posição (com seis votos) houve um empate triplo entre Nilton Batata, o bom pontinha-direita do Santos campeão de 78, que hoje vive nos EUA; Tupãzinho, o talismã, o homem do gol do título brasileiro de 90, o baixinho que fez 340 jogos e 52 pelo Corinthians; e  Tevez. E esta posição de Tevez foi uma surpresa para mim. Eu esperava que ele ficasse entre os primeiros. Talvez a torcida corintiana, sabiamente, tenha colocado seus votos no primeiro colocado.

 

Em nono (com sete votos), outros quatro jogadores, três deles muito rápidos: Sérgio Araújo, que teve sua melhor fase de sucesso no Atlético Mineiro; Almir, que fez vários gols num daqueles Santos que os santistas preferem esquecer; e Edu Bala, o rapídissimo ponta do Palmeiras e do São Paulo. O quarto nono colocado foi Vaguinho, sujeito divertido e que fez boa carreira no Atlético Mineiro e no Corinthians. Ele quase fez um gol histórico: no lance decisivo do jogo Corinthians x Ponte Preta, que acabou com o jejum corintiano de 22 anos, ele chutou a bola na trave antes de Basílio fazer o gol. Fez 548 jogos e 108 gols pelo Timão.

 

Com dez votos, em oitavo, ficaram Bebeto, o companheiro de Romário em 94, e Mirandinha (não o que jogou na década de 70 pelo São Paulo, mas o que jogou nos anos 90 pelo Corinthians).

 

Na sétima posição, uma surpresa: Marcelinho Carioca (17 votos). Mesmo sendo mais um meia que um atacante, por jogar com a sete ele conquistou vários votos fiéis.

 

Em sexto, Renato Gaúcho, com 25 votos. Foi realmente um grande atacante, com dribles infernais. Ele teve vários momentos brilhantes em sua carreira, sendo o maior deles a conquista do mundial de 83 pelo Grêmio. Mas no Flamengo e no Fluminense também teve ótimas passagens. Hoje é um técnico de times cariocas.

 

Com 26 votos ficou o veloz e surpreendente Mário Tilico, que jogou no São Paulo na passagem dos anos 80 para os 90.

 

A quarta posição é de Robinho (44). Talvez, quando vier a eleição do atacante-pela-esquerda, ele consiga ainda mais votos.

 

Em terceiro ficou Muller, com 70 votos, a maioria de são-paulinos. Ele era rápido e tinha um dos maiores QIs futebolísticos do país. Sem falar em seu calcanhar abençoado.

 

Na segunda posição ficou Edmundo (78), o Animal, jogador de um domínio de bola infernal. Certa vez vi o sujeito receber um lançamento e matar a bola no peito do pé correndo de costas. Quantos podem fazer isso sem se espatifar no chão?

 

E em primeiro lugar ficou ele, o imortal, o inesquecível, o primeiro e único Garrincha. O mais impressionante é que Mané teve 178 votos, mais do que o dobro do segundo colocado e a maior votação para um jogador até aqui. A vitória de Garrincha não foi surpresa, mas o tamanho desta vitória, sim. E ainda bem.

Por Torero às 07h12

Comentários comentáveis

Vejam alguns divertidos votos para os atacantes-pela-direita:

 

 

Edmundo, o animal que me deixou R$400 mil mais rico.
Wanderley Luxemburgo 

 

Pô, Torero! Só pode ser jogador que cai pela direita? Quero votar num jogador mais completo, como o Diego (ex-Santos e banco do Porto). Ele cai pela direita, pela esquerda, no meio do campo, na pequena área... enfim, um legítimo cai-cai.
Márcio 

 

Parafraseando Mazzaropi: ' O Garrincha tem as pernas tortas mas vai endireitar o meu Corinthians'.  Mais inesquecível que isso não dá!!!
Jugger 

 

Garrincha virou sinônimo de ponta direita e vice e verso.
Antonio Laercio da Silva 

 

fico com o mané...o mané do Edmundo...
Souza 

 

Lógico que é o meu peixe...Edmundo
Romário 

 

Píter, do Corinthians (jogou no início da década de 80, se não me engano). Na verdade não me lembro como era o futebol dele, mas ele é inesquecível pela imensa cabeleira black power que ostentava...
Fabio S. Abrão 

 

Um ponta direita inesquecivel é o goleiro Roger. Isso mesmo! tanto no Sao Paulo como no Santos ele foi, esta sendo e sempre será o titular da ponta direita do banco de reservas.O lugar ja esta ate demarcado com o seu nome. Esse ponta direita sera realmente inesquecivel!!!
Roger 

 

Inesquecível pra mim é o Buião! Lembro de um jogo no Palestra, contra a Ponte, o Ataque formado por Bizú e Buião. Bizú, que era centroavante cai pela esquerda e cruzou rasteiro, no pé do Buião, que na marca do penalti, sem marcacao, dominou, olhou pro goleiro e colocou, com maestria, a 3 metros da bandeirinha de escanteio! Inesquecivel!
Custodio 

 

Na final do mundial de 1993, Muller fez um gol de costas, meio esquisito, com a bola batendo em seu calcanhar e entrando mansamente no gol, enquanto ele a procurava onde ela não estava. Ele não quis fazer o gol, o gol quis ser feito por ele. Sem dúvida, o melhor ponta-direita que vi jogar.
Catraca 

 

Sem dúvida, Edu Bala, na sua fase de Palmeiras 1972!!! O cara era craque acertar "bombas" na trave em cobranças de falta. Lembro-me de um jogo no Pacaembu em 1972, creio que Palmeiras x São Bento pelo Paulistão, Edú conseguiu matar uma bola de "bunda" em plena corrida pela direita na maior "sentada na bola" jamais vista na história do futebol brasileiro, quiçá mundial! O Estádio veio abaixo em gargalhadas! Apesar de sua grossura Edú era muito querido pela torcida. Também, com aquele timaço de 1972, qualquer um seria!!!
Eduardo Tambasco Monaco 

 

Torero, tenho 41 anos e não tive como acompanhar, é claro, o Garrincha.Quando tinha 8 anos(1973), ele veio, como convidado,aos 40 anos, fazer um jogo pelo time de minha cidade.Fui, levado por minha mãe e um primo.No primeiro tempo, 0 a 0, com Garrincha mau pegando na bola e quando o fez, chutou a gol e a mandou quase na praça da minha cidade, sendo q o campo fica numa colina.Perguntei para minha mãe, por que me levaram já q o rapaz nada jogava?.No segundo tempo, ele jogou do lado aonde me encontrava.Aos 10 minutos, eu já pedia a minha mãe para ficar no alambrado para ficar perto dele.Foi um show.6 a 0, com 2 gols dele e um baile.O estadio,pequeno e lotado, veio abaixo.Tudo bem, q foi exibição e o outro time não estava com nada e ele tinha 40 anos, mas para mim foi inesquecivel.O bastante para saber q ele foi e sempre será o maior ponta direita de todos os tempos.
Flávio 

Por Torero às 07h11

Bombas em São Paulo

Hoje haverá o lançamento de “Bombas de alegria” em São Paulo. O livro é uma autobiografia escrita pelo jogador Pepe, uma autobiografia em forma de “causos” divertidos. O lançamento começa às 20h00 no bar Boleiros (Ministro Jesuíno Cardoso, 624, Vila Olímpia, tel. 3849-8042). E, para os que estiverem preocupados em perder o jogo Santos x Ipatinga, aviso que eles poderão assistir ao jogo no próprio bar, uma rara oportunidade de ver uma partida do Peixe ao lado de Pepe.

Por Torero às 07h09

24/04/2006

Invicto e invictor

Futebol também é cultura. Por isso, hoje vamos falar de latim. Latim? Isso mesmo, a flor do Lácio, a língua-mãe.

Em latim, aquele que não é vencido chama-se "invictus". Daí veio a palavra "invicto", em português.

 

Mas como é chamado aquele que não consegue vencer? Segundo a magistra Cecília Lopes, não existe uma palavra específica para esta situação, mas, se fôssemos inventar uma, seguindo as regras do latim, ela seria "invictor".

 

Até agora temos cinco invictores no campeonato. Três deles já conseguiram, pelo menos, empatar: Goiás, Paraná e Santa Cruz. Mas dois só perderam: Atlético-PR e Palmeiras. O primeiro deve mudar de vida quando Dagoberto estrear. O segundo, não sei se muda de vida com a saída de Leão.

 

Já os invictos são seis. O Fluminense, que só venceu, Figueirense, o carrasco do Palmeiras, Santos, que mantém seu futebol de resultados do Paulista, Vasco da Gama, que fez apenas sete faltas contra a Ponte, Internacional, mesmo que mais preocupado com a Libertadores, e o Botafogo. Destes últimos cinco, quatro venceram em casa e empataram fora. Só o Vasco fez o inverso. Venceu a Ponte Preta em Campinas e empatou em casa com o Inter.

 

Quanto às defesas, há duas invictas: Santos e Botafogo, dois campeões estaduais.

 

E temos três ataques invictores, três ataques que ainda não conseguiram fazer nem um golzinho: Goiás, Paraná e Santa Cruz.

 

Curiosamente não há nenhum time que seja ao mesmo tempo invicto e invictor, ou seja, que só tenha empatado. Pelo jeito, os empates serão coisa rara este ano.

 

Entre invictos e invictores, dois times chamam a atenção. Um é o Fluminense, que venceu seus dois jogos e parece ter se recuperado do fiasco no campeonato estadual (o time trouxe bons reforços, como Rogério, e vem revelando bons jogadores, como Lenny). O outro é o Palmeiras, que tomou uma goleada histórica, que  aprofundou sua crise. E esta crise pode chegar ao fundo do poço nas próximas três rodadas, quando o Palestra enfrenta São Paulo, Santos e São Paulo mais uma vez. 

 

E a surpresa do campeonato são os times cariocas. O pior deles, o Flamengo, está em oitavo lugar. Todos esperavam que os cariocas estivessem mais perto da turma dos invictores do que na dos invictos, mas, pelo menos neste começo de campeonato, eles vêm surpreendendo. Resta saber se isso é uma boa fase passageira ou se eles conseguiram mesmo alguma mudança. 

Por Torero às 07h22

Bombas de alegria

Hoje, às 19h00, na Vila Belmiro, será lançado o livro "Bombas de alegria", a autobiografia de Pepe. É uma grande chance para conseguir o livro e um monte de autógrafos dos craques santistas. Tive a sorte de fazer a orelha do livro. Vai aí o texto:

 

“Pepe é o maior ponta-esquerda do mundo.

 

“A frase acima parece exagero, mas não é. Nenhum outro fez 430 gols. Nenhum outro foi quatro vezes campeão mundial. Ele era veloz como poucos e chutava como ninguém (tanto que fazia a rude bola de antigamente chegar a 122 km/h). Nunca foi expulso e só jogou por um time em toda sua carreira.

 

“Mas, mais importante do que isso tudo, é que Pepe é um legítimo boa-praça. Em vez de colocar-se num pedestal de grande jogador, em vez de arrotar seus títulos e posar de grande jogador do passado, Pepe é do tipo que fica contando histórias e piadas, rindo e se divertindo.

 

“Por isso este seu livro de memórias é esperado há muitos anos. Ele vem juntando suas histórias num caderninho desde que começou no futebol. E escreveu-as como um bom contador de histórias, como um bom contador de piadas: dominando o ritmo, fazendo suspense na hora certa, descrevendo as personagens com graça, encerrando-as com chaves de ouro.

 

“Aqui o leitor vai encontrar causos divertidos como o gol-contra que ele marcou de cabeça (e de boina), o primeiro campeonato que conquistou (comemorado com sanduíche de mortadela e guaraná), as histórias de seu chute poderoso (que derrubou traves e desacordou um zagueiro), o técnico que motivou os jogadores mostrando um furúnculo em suas nádegas, as folclóricas excursões do Santos pelo mundo (com doenças venéreas, roubos, gozações e travestis), enfim, bastidores, tristezas e alegrias de um tempo em que campeões mundiais iam de bonde para o treino. Tudo com o humor de quem sabe que a glória não é assim tão gloriosa.

 

“Poucos jogadores seriam capazes de escrever sua própria história. Com a graça de Pepe, nenhum.

 

“Parece exagero, mas não é.”

Por Torero às 07h02

Língua do pé

Neste fim de semana li a revista Língua (editora Segmento, R$ 7,90). Este mês, por conta da proximidade da Copa, ela traz um número especial sobre futebol e linguagem e está bem interessante. Ela é especialmente interessante para professores de português, mas mesmo para o torcedor comum é uma boa pedida, com reportagens divertidas e uma bela programação visual.

Por Torero às 07h01

23/04/2006

O dia em que Telê abriu o portão

O dia em que Telê abriu o portão

(Texto enviado pelo leitor Gabriel França)

 

Lembro-me de ir ao CT do São Paulo quando bem pequeno. Era fascinante, pois não havia uma divisão muito clara entre o que era espaço para torcedores e que era permitido somente aos jogadores, tanto que bati bola umas três ou quatro vezes com craques do escrete dentro do palco onde ocorriam os rachões e os dois-toques.

Até que algo ficou diferente.

 

- Xi, Gabriel. Parece que o Telê mandou fechar as coisas por aqui. Agora só jogador pode entrar em campo.

 

- É chato esse Telê, hein, pai?

 

Chegou a esperada hora de pegar os autógrafos e eu estava ansioso para que minha listradinha ficasse rabiscada. E fomos então, meu pai e eu, ao alambrado.

 

Jogador pra cá, jogador pra lá e chega a vez do Telê, aquele sujeito que proibira que eu me divertisse um pouco com as figurinhas em forma de pessoa dos álbuns que eu colecionava. E o espanto veio quando o severo e rígido treinador ousou descumprir uma das regras que ele mesmo criara e abriu o portão para que eu entrasse.

 

Certo que foi para facilitar o rabisco, mas mais certo ainda que foi por acreditar que futebol é graça, magia e alegria. Telê sabia, e disso tenho certeza, que aquele gesto levaria alegria a um torcedor, talvez o motivo maior do futebol.

 

Não há táticas, estratégias ou resultados que se comparem aos momentos de alegria aos amantes do futebol que Telê proporcionou , assim como não há homenagens suficientes.

Por Torero às 01h11

22/04/2006

Dois filmes e um livro

Dois filmes e um livro

 

O último jantar

“O último jantar” não foi um grande sucesso no Brasil. Pelo contrário, foi um pequeno fracasso. Mas que eu achei um filme excelente, com um ótimo roteiro, feito com um humor negro e inteligente. Ele pode ser encontrado em qualquer boa locadora, mas só em VHS. De qualquer forma, é um desses filmes que vale a pena garimpar.

Foi dirigido pela Stacy Title e fez muito sucesso no Sundance, aquele festival de cinema independente promovido pelo Robert Redford. “O último jantar” tem esse nome porque conta a história de um grupo de amigos que convida pessoas para jantar e acaba matando estes convidados. Mas estes convidados têm uma coisa em comum. São todos extremistas.

O filme tem um final surpreendente, mas, é claro, eu não vou contar nada para não estragar a surpresa. No elenco, o destaque é a Cameron Diaz, que hoje é uma pop star mas que em 1996 ainda não era conhecida.

Enfim, “O último jantar” é um filme para aquela turma que gosta de comédias inteligentes, aquela turma que acha que o cinema pode ser uma coisa divertida, mas não necessariamente boba. Para aquela turma que acha que um filme não é só uma coisa que a gente vê enquanto come pipoca.

 

Matadouro cinco

Saiu por aquela coleção de livros de bolso da editora LP&M, um dos melhores livros que eu já li. Chama-se “Matadouro Cinco” e foi escrito pelo Kurt Vonnegut Junior. É um livraço! Inteligente, com um humor sutil, com uma estrutura narrativa muito interessante, onde a gente avança e recua no tempo, mas sem se perder. E o livro custa só quinze reais, quer dizer, o mesmo preço de um cineminha. Só que com várias vantagens. Um filme só te dá duas horas de diversão. Um livro dura muito mais. E também fica na nossa memória por mais tempo. Ainda mais nesse caso, porque Matadouro Cinco é um daqueles livros que se transformam em clássicos porque inventam uma nova forma de contar uma história. E esta nova forma tem duas características principais: o avanço e o recuo no tempo, e as micro-histórias que o autor vai espalhando pelo livro.

De certa forma, a estrutura do livro parece uma árvore de natal, com uma história principal, que é a árvore, mas com várias historiazinhas penduradas, que são as bolas de natal.

O Vonnegut faz isso nos seus outros livros, como Hócus-Pócus e Cama de Gato, que também são muito bons. Os livros dele estão esgotados há muito tempo. Tomara que a LP&M reedite os outros. Mas você já pode ler seu livro mais importante.

 

Bob Roberts

Tem dois tipos de filmes: ficção e documentário. Certo? Errado! Existe também o falso documentário. Ou seja, um filme que tem formato de documentário mas, na verdade, é uma ficção. É um tipo de filme que eu gosto muito, porque mostra como se pode manipular a verdade.

Nas locadoras você encontra poucos falsos documentários. Um deles é Bob Roberts. O filme é de1992, e o Tim Robbins é o diretor e o ator principal. Ele faz o papel de um cantor folk, uma espécie de Daniel, que está disputando a eleição para presidente dos Estados Unidos. E o filme é um documentário sobre a campanha desse tal Bob Roberts.

Os filmes políticos têm sempre o risco de serem chatos, de ficarem abaixo do que a gente vê no noticiário, ainda mais em tempos de Zé Dirceu e Roberto Jefferson. Mas este filme é uma comédia ácida, muito inteligente e bem dirigida, apesar de ser o primeiro filme do Tim Robbins como diretor.

O personagem Bob Roberts nasceu num esquete do programa "Saturday Night Live", em oitenta e seis. Outra coisa curiosa é que, no filme, o Gore Vidal, um dos maiores romancistas americanos vivos, faz uma ponta como ator. Enfim, se você quer ver um falso documentário de verdade, veja o Bob Roberts. Aí você vai ver que a verdade é que não existe verdade, não é verdade?

Por Torero às 07h04

21/04/2006

Telê

Telê morreu.

Aproveitando o imediatismo deste blog, pensei em escrever alguma coisa sobre esta triste notícia. Talvez uma crônica onde ele montasse uma seleção com outros grandes jogadores que já morreram, como Leônidas, Freidenreich, Domingos da Guia e outros divinos. E aí, da beirada do campo, mascando um palito, ele daria suas ordens rabugento e feliz. Mas achei que isso seria conseguir o aplauso fácil e um consolo falso. Mesmo porque não acredito em céu e similares.

Acredito que o depois da morte não há nada, que só sobrevive o que deixamos aqui. E, dessa forma, Telê está vivo, ativo e altivo. Ele deixou uma prova de amor ao futebol-arte, ao ataque, à ética, e um profundo desprezo aos pontapés. Talvez, nestes cem anos em que o Brasil convive com o futebol, não tenha havido um pregador tão eficiente da beleza neste esporte.

E Telê foi um exemplo de amor ao futebol. Um exemplo único. Que outro treinador, tendo o maior salário do país, viveria no CT de seu clube para acompanhar tudo mais de perto? Que outro treinador transformou-se numa era? Só Telê. O São Paulo não seria o que é hoje se não fosse este treinador teimoso e genial. Com ele o time do Morumbi deixou de ser um time da cidade para ser uma equipe do mundo. Os tricolores, hoje, devem deixar de lado o branco e o vermelho. Hoje, o verdadeiro tricolor está de luto.

Mas ele não foi treinador apenas do São Paulo. Foi o primeiro campeão brasileiro pelo Atlético Mineiro, com o Grêmio venceu o imbatível Internacional da década de setenta, e fez um Palmeiras memorável com jogadores medianos, como Pires e Mococa, que com ele jogaram como beckenbauers cafuzos. E, é claro, montou uma de nossas seleções mais amadas.

A Seleção de 82 é admirada por nós como se fosse uma campeã, e, se sentimos uma certa raiva dela, é que a amávamos tanto que não achamos justo que ela não sido campeã. É como um filho em que vemos infinito talento, mas que não vai tão longe quanto poderia.

Nós, os torcedores, os amantes do futebol, os que vemos este esporte como uma mistura de batalha e arte, perdemos um grande amigo. 

 

 

PS: Nesta seleção de inesquecíveis que nós, eu e vocês, leitores, estamos fazendo, o último item seria o técnico. Eu, como a maioria, iria votar em Telê. Agora não tem mais graça.

 

Por Torero às 15h49

Libertadores ainda que tardia

Agora sim a Libertadores começa de verdade. Agora não temos que fazer cálculos na margem do jornal, nem usar calculadora. Agora é mata-mata, e quem não mata, morre.

 

O Corinthians pega o River Plate. Será um jogo de vingança. Em 2003, o River matou o Timão nestas mesmas oitavas. Mas agora o time está bem melhor, com armas novas. Para aumentar o clima de vingança, o River é dirigido por Passarela, que vai querer mostrar que foi injustamente mandado embora do Parque São Jorge.

 

Para o Brasil, talvez o jogo mais interessante seja Palmeiras x São Paulo. Será a quarta vez que os dois clubes brasileiros se enfrentam numa Libertadores. E nas outras três o Tricolor saiu vencedor. A última foi no ano passado, com dois grandes jogos. O franco favorito é o São Paulo, mas nestas horas é que surpresas acontecem.

 

O Inter pega o Nacional, com quem, na fase anterior, empatou em 0 a 0 em Montevidéu e venceu por 3 a 0 em Porto Alegre. Deve ser o brasileiro que passará  às quartas com mais facilidade.

 

E o Goiás pega o aguerrido Estudiantes. O alviverde está com uma sólida defesa e um ataque assim, assim. Tanto que nos últimos sete jogos fez um gol e tomou outro, e houve cinco partidas sem gols. Não sei, não...

 

Só o Inter deve passar com certa facilidade. O resto vai ter que suar, e talvez sangrar, a camisa. Agora sim, a Libertadores começa de verdade.

Por Torero às 08h53

A Copa do Brasil chega às quartas na quarta

Se a Libertadores começa de verdade agora, a Copa do Brasil está melhorando. Por enquanto os torcedores acompanham apenas seus times. Na próxima fase é que a Copa passará realmente a chamar a atenção do país.

 

Não que não haja jogos interessantes. Teremos, por exemplo, um clássico de multidões: Flamengo e Atlético. Os dois lutarão para sair da má fase. Maiores chances para o Galo, que vem de uma heróica vitória sobre o Fortaleza.

 

Vasco e Volta Redonda farão uma disputa fluminense. O ex-time de Romário está invicto há seis jogos e é o favorito. Ainda mais que o Volta Redonda só se classificou graças a uma falha do goleiro do 15 de Novembro de Campo Bom.

 

Santos e Ipatinga devem fazer uma disputada equilibrada, com dois times bem armados mas sem genialidades. O Santos quase bobeou quando, no jogo da ressaca, venceu o Brasiliense por apenas 2 a 1. Já o Ipatinga de Camanducaia passou facilmente pelo Náutico, com um duplo 3 a 1.

 

E Cruzeiro e Fluminense devem fazer dois bons jogos. Ambos vêm de goleadas por 4 a 0, o que sempre dá um certo otimismo. O Cruzeiro tem um bom elenco e o Fluminense parece ter achado seu esquema de jogo no 3-5-2. Provavelmente será o melhor duelo destas quartas.

 

E falando em quartas, surgiu-me uma grande dúvida: O correto seria quartas-de-finais, quartas-de-final, quartas de final, quartas de finais ou semi-semifinal? Fui ao Houaiss e vi que o certo é quartas-de-final. Futebol também é cultura. E gramática.

Por Torero às 08h52

O Álbum da Copa não cola

Lembrando de meus álbuns de figurinhas, como um de 1970 que usava chapinhas de metal, e o da Copa de 78, que me deu mais alegrias que a própria Copa, comprei o álbum da Copa de 2006. Na verdade, seu nome correto é o pomposo “Official Licensed Sticker Album”, em inglês mesmo, sem tradução, o que, já de cara, é bem pouco simpático.

 

O álbum traz figurinhas autocolantes de 17 jogadores por seleção (no caso das seleções de menor tradição, como Arábia Saudita e Ghana e Angola, há oito figurinhas com dois jogadores em cada, o que também não é nada simpático).

 

O preço de cada saquinho é R$ 0,60, e em cada um vêm 5 figurinhas, o que dá 12 centavos por figurinha. Como são 596 figurinhas diferentes (um número um tanto absurdo), para completar o álbum você vai gastar, no mínimo, R$ 71,52. Isso, é claro, se você tiver a incrível sorte de nunca comprar uma figurinha repetida. Mas, se você tiver tanta sorte assim, é melhor jogar na megasena.

 

Cada estampa traz o local e a data de nascimento do jogador, sua altura e peso, e o clube em que atua. Eu gostaria de saber a posição de cada um, e o número de gols e jogos que fez pela seleção.

 

Em suma, as figurinhas são bonitas mas muito caras, há estampas com dois jogadores, o que as deixa um tanto sem graça (sem falar que não dá para transformá-los em jogadores para um partida de botão-de-papel), e as informações oferecidas não são lá grande coisa. É um álbum globalizado, ou seja, feito de maneira igual para o mundo todo, e acho que isso não deu muito certo.

Por Torero às 08h50

20/04/2006

Zé Cabala entrevista Tesourinha

Já que o assunto é ponta-direita, coloco aqui um texto sobre o assunto, publicado na Folha em 26/10/2001.

O negro encarnado

JOSÉ ROBERTO TORERO
COLUNISTA DA FOLHA

Como em todas as últimas quintas do mês, ontem procurei o mago dos magos para fazer uma entrevista transcendental. Dessa vez a porta foi aberta por um anão com rosto simpático, quase infantil. Perguntei seu nome e ele, em vez de dizê-lo, apenas apontou para um crachá onde estava escrito: "Dunga, assessor para assuntos esotéricos".
- Leve-me ao mestre Zé Cabala, pedi-lhe.
Ele tomou-me pela mão e, assobiando uma música alegre e saltitando um pouco estranhamente, levou-me até aquele que tem todas as respostas (ou quase todas, pois quando entrei no gabinete ele dava um tapa no computador, onde jogava o Show do Milhão).
- Droga!, como é que eu ia saber que picaço era um cavalo malhado!? Pensei que fosse...
- Desculpe interromper, honorável sábio...
- Tudo bem, tudo bem...
- Hoje eu gostaria de entrevistar um craque do Internacional, supremo mestre.
- Cheque ou cartão?
- Dinheiro.
- É pra já!
Sem perda de tempo, Zé Cabala colocou seu turbante vermelho, acendeu uma piteira ("Charuto faz mal para os pulmões") e tomou um gole de Johnny Walker 20 anos ("Cachaça faz mal para o fígado"). Aí deu uns rodopios pela sala, ensaiou uns passos de frevo, revirou os olhos e disse: "Muito prazer, meu nome é Tesourinha".
- Tesourinha?
- É que meu padrasto foi o fundador do bloco "Os Tesouras". Então meu irmão mais velho foi apelidado de Tesoura e eu fiquei sendo Tesourinha.
- Quando o senhor começou a jogar no Inter?
- Foi em 1939. Eu tinha 18 anos. No começo meu salário era um litro de leite por dia.
- Isso não é salário, é leitário.
- É que eu era muito magrinho. Mas já no ano seguinte eu tive aumento: além do litro de leite, passei a ganhar 200$000 por mês e mais um quilo de carne por dia.
- Ficou muito tempo no Inter?
- Dez anos. Ganhei oito títulos gaúchos. Depois fui para o Vasco.
- E como foi sua carreira lá?
- Fiquei de 49 a 52 e ganhei dois campeonatos cariocas.
- E chegou à seleção?
- Fiz 23 jogos. Mas eu queria mesmo era ter participado da Copa de 50. Um pouco antes, eu me machuquei e fiquei de fora. Se eu tivesse jogado, quem sabe...?
- E depois do Vasco o senhor se aposentou?
- Tentei, mas não consegui. Eu tinha lesionado o joelho e voltei para Porto Alegre. Só batia uma bola de vez em quando com meus amigos. Então o presidente do Grêmio foi me buscar em casa. Queria que eu fosse o primeiro negro a jogar no seu time. Eu aceitei. Mas logo voltei atrás.
Espremi minhas sobrancelhas como quem diz: "Como assim?"
- É que começaram a jogar pedra na minha casa. Uns torcedores do Inter, porque achavam que eu estava traindo o Colorado. E uns do Grêmio porque não queriam negro no clube. Aí eu desisti. Mas depois desisti da desistência.
Espremi mais as sobrancelhas e fiquei com dor de cabeça.
- É que o presidente, seu Vanzelotti, colocou um segurança para cuidar da minha casa e aí eu aceitei. Lembro que o primeiro jogo foi contra o Juventude, ganhamos de 5 a 3. Dez ônibus e sei lá quantos carros foram até Caxias ver o jogo. Até fiz um gol. Hoje os negros jogam no Grêmio. Mas eu fui o primeiro. Um ex-colorado, quem diria? Isso é que é vitória!

Por Torero às 13h08

19/04/2006

Quem é seu ponta-direita inesquecível? - Votação encerrada

Pensando melhor, o título deste post está errado. Não vamos eleger o "ponta-direita" inesquecível. Como no futebol moderno o ponta-direita está extinto, acho mais certo escolher algo como o "atacante-que-cai-ali-pela-direita" inesquecível. E, para exemplificar, já dou meu voto: Robinho.

Outros exemplos de atacantes pós-modernistas, ou melhor, pós-pontistas, são Bebeto, com seus 419 gols, Amoroso, atualmente esquentando o banco do Milan, Mulller, Paulo Isidoro, Tevez e Paulo Nunes.

Mas você pode votar em pontas-direitas tradicionais, como a saborosa dupla dos anos 70, Nilton Batata (do Santos) e Roberto Batata (do Cruzeiro, que morreu tragicamente aos 26 anos num acidente com seu Chevette).

Um tipo interessante é aquele ponta baixinho que corre à beça, como Alessandro, Camanducaia, Mauricinho e o menor de todos, o baiano Osni, com seu velozes 156 centímetros.

Há, claro, os bad boys, como Edmundo, também conhecido como “Animal”, e o inglês George Best, também conhecido como “The best”.

Falando em Best, lembro de alguns outros bons estrangeiros, como Conti, do Roma de Falcão, uma espécie de Zagallo destro; Lato, o polonês carequinha que foi artilheiro da Copa de 74; Rummenigge, o alemão que fez 45 gols pela sua seleção; José Augusto (o “Garrincha Português”), que fez sucesso na Copa de 66, e Valido, um argentino que ficou famoso por ter feito o gol que deu ao Flamengo o título estadual de 44 contra o Vasco (mas até hoje há quem reclame deste gol, afirmando que ele fizera falta num zagueiro vascaíno. Ou seja, o grande gol de Valido foi inválido).

Dos internacionais passo ao Internacional, onde há dois memoráveis: Tesourinha (veja entrevista com ele no post acima) e Valdomiro, que corria muito e chutava bem, um dos símbolos daquele time da década de 70.

Pelo Grêmio, lembro de outros dois: Renato Gaúcho, um dos mais dribladores modernos pela direita, e o vigoroso Tarciso, chamado de Flecha Negra e que também jogou de centroavante e ponta-esquerda.

Falando em flecha, há o Flecha Loira, apelido de Natal, ponta do célebre Cruzeiro de Tostão e companhia. Outro inesquecível cruzeirense (e corintiano) foi o longevo Eduardo, que às vezes jogava recuado, compondo o meio-campo.

E já que passamos pelo Corinthians, há lá alguns jogadores que fizeram miséria pelo lado direito do Parque São Jorge. Vaguinho foi um símbolo de amor ao time e a torcida retribuía com fervor. Gil, o Búfalo Gil, foi mediano no Timão mas foi muito bom no Fluminense. Paulo Borges merece ser lembrado por acabar com o jejum de 11 anos sem vitórias sobre o Santos. E de Santos veio Cláudio Christovam de Pinho, até hoje o maior artilheiro corintiano com 295 gols (o primeiro deles, olímpico e contra o Palmeiras).

Alguns atacantes-que-caem-ali-pela-direita, como Euller (o Filho do Vento), ficaram conhecidos por sua velocidade. Terto, que jogou dez anos pelo São Paulo, era outro destes. Corria como um atleta dos cem metros rasos. Mas, infelizmente, também cruzava como um. E talvez o mais lesto de todos tenha sido Edu Bala, do Palmeiras (e do São Paulo), que, dizem, corria muito e pensava pouco (tanto que a ele atribuíram a frase “Se eu corro, não penso; seu eu penso, não corro”. Frase bem inteligente, por sinal).

No Rio, os torcedores do Bangu hão de lembrar de Marinho, que levou o time ao vice-campeonato brasileiro de 85. Os flamenguistas talvez suspirem de saudade por Tita, os fluminenses podem escolher entre o risonho Cafuringa e o sério Telê Santana, o Fio de Esperança, os botafoguenses aplaudem Jairzinho (que na verdade só jogava na direita pela seleção), e os vascaínos vão dizer que bom mesmo era o Friaça, que encerrou sua carreira na Ponte Preta.

E já que chegamos a Campinas, de lá lembro de dois bons pontas: Capitão, do célebre Guarani campeão brasileiro, e Lúcio, da boa Ponte de Dicá.

Mas quem entende de pontas-direitas são os saudosistas, e eles dizem que Dorval, que marcou 198 gols pelo Santos, era excelente. Dizem que o franzino Ministrinho, ídolo palmeirense da década de trinta (tricampeão pela Juventus de Turim e campeão paulista em 34) era inigualável. Dizem que Luizinho, do Palmeiras e do São Paulo, reinou absoluto nas décadas de 30 e 40 (veja aqui uma entrevista com ele via Zé Cabala). Dizem que Joel, daquele Flamengo dos anos 50 e 60, era o melhor cruzador do planeta. E dizem que Julinho Botelho, da Portuguesa, da Fiorentina e do Palmeiras, só não foi para a Copa de 58 porque jogava fora do país e achava que não devia tirar o lugar de num jogador que atuasse no Brasil (acho melhor nem pensar em comparar com o presente).

Porém, o nome que mais simboliza essa posição é Garrincha. E, na verdade, seus dribles e suas pernas tortas são mais que símbolo da ponta-direita, são um símbolo do Brasil, um país torto, meio estropiado e um tanto ingênuo, mas com um talento nato, uma alegria quase infantil e uma melancolia escondida.

Enfim, vote no seu ponta-direita. Ou no seu atacante-que-cai-por-ali-pela-direita.

Por Torero às 06h05

17/04/2006

Post impostor

Não vou escrever nada hoje. E por um bom motivo: ainda é muito cedo para escrever algo sobre o Brasileiro.

 

O campeonato começou ontem, os times fizeram seus desfiles iniciais, já mostraram as suas coleções de jogadores para o Brasileiro 2006, mas seria precoce tirar conclusões e fazer previsões. Não adianta olhar tripas de pombos nem examinar fezes de cachorros. Por enquanto elas são apenas isso: fezes e tripas.

 

Ainda não se pode dizer que o Grêmio ressuscitou definitivamente, já que é o líder do torneio. Tampouco se pode falar que o Corinthians, último colocado, tem chances de ser rebaixado. O campeonato apenas está se espreguiçando.

 

No ano passado, só para comparar, os líderes depois da primeira rodada eram Santos e Atlético Mineiro. Um nem chegou à Libertadores. E o outro acabou rebaixado.

 

Mas é claro que os torcedores mais precipitados já farão previsões hoje, enquanto comem suas médias com pão na chapa. Os otimistas são-paulinos, depois de ganhar do Flamengo, dirão que o título está no papo. Os apocalípticos palmeirenses, depois de perderem em casa para a Ponte, dirão que meio time precisa mudar.

 

Uma rodada é apenas um ponto num plano. Não dá nem para traçar uma reta. Por isso ainda não se pode dizer que o Fluminense voltou a ter um dos melhores times do Brasil, nem que o derrotado Cruzeiro é uma falsa promessa. Seria exagero dizer que o Inter está abalado pela perda do Gaúcho e por conta disso ficará no pelotão intermediário. Por outro lado, seria imprudente afirmar que o Botafogo, embalado pela conquista do campeonato estadual, pode lutar pelas primeiras posições.

 

Os astrólogos acreditam que pela data e pelo local de nascimento pode-se prever algo sobre o destino do rebento. Mesmo sendo eu filho da grande astróloga Madame Litz, desconfio um tanto desta ciência. Assim, pela primeira rodada não dá para saber se Fortaleza e Paraná continuarão decepcionando, ou se o São Caetano seguirá conquistando belas viradas.

 

O Brasileiro é como um homem que vai viver 78 anos, mas agora está somente com dois aninhos. Ele mal anda e apenas aprendeu a dizer “mamã”. Não sabemos se ele será um cientista ou um deputado, um astronauta ou um cantor de tango. Por isso, apesar do mau futebol do Santa Cruz, seria apressado dizer que ele voltará para a série B. Ou que a Ponte Preta terá o melhor ataque da competição.

 

Falando em série B, ela segue pelo mesmo caminho: o líder é o Gama. Mas deve ser o primeiro de muitos.

 

Ou seja, ainda não dá para falar nada deste campeonato. Por isso, hoje não escreverei. Se bem que, pensando bem, já escrevi.

 

Por Torero às 07h46

Previsões dos leitores

Contei os cem primeiros votos do bolão de sexta-feira e, caso os vaticínios se confirmem, o campeão Brasileiro será o São Paulo, que teve 39% dos votos. O vice será o Corinthians (28%). Em terceiro ficará o Santos (10%), em quarto o Inter (6%), depois Flamengo (4%), Palmeiras e Goiás (3%), Cruzeiro e Fluminense (2%), e Atlético-PR, Santa Cruz, e Vasco (1%).

Por Torero às 07h35

16/04/2006

Nós, os tafaréis

Nós, os tafaréis

(texto enviado pelo leitor Carlos Alexandre Rodrigues)

 

Nestes tempos em que – infelizmente –  o racismo voltou a ser tema corrente nos noticiários esportivos, acho que cabe a lembrança de uma história que aconteceu quando eu era ainda criança, mas já fanático por futebol, em Londrina – PR. Pois tem a ver com futebol e racismo, ainda que um pouco diferente do racismo dito comum.

 

Em 1988 aconteceram as Olimpíadas de Seul, e, por mais que os jogos acontecessem de madrugada, valia a pena acordar às seis da manhã para assistir àquele time jogar. Romário e Geovani, ambos ex-Vasco (lembra dele? Pergunto do Geovani, não do Vasco, embora os dois andem meio sumidos), jogando muito, nos faziam ter a certeza que traríamos a medalha de ouro. Mas era o Taffarel, ao que eu me lembre, o maior ídolo da meninada que, mal acabava o jogo da seleção, fazia fila na quadra para jogar um misto de futebol de salão com bola de capotão, tão logo o jogo acabasse, até a hora do almoço, antes da aula.

 

Nestes jogos, todos que iam no gol – os seja, os últimos da fila, como na maioria das peladas – “eram” o Taffarel. Assim, afora os que estavam na fila, cada time tinha um Taffarel no gol, pois era uma delícia gritar “TAFFARELLLLLLLL” a cada bola defendida. Todos, menos um: o Ferrugem. Mas não porque ele não quisesse, já que ele até gostava de jogar no gol, pra onde ia até quando estava na bem colocado na fila: o pai dele é que não deixava.

 

O Ferrugem tinha esse apelido por razões óbvias: era cor de ferrugem, todo sardento, e tinha cabelo vermelho. Como se sabe, os “ferrugens”, quando adultos, passam a ser chamados de ruivos, mas até então são apenas Ferrugem, como esse nosso amigo. Ocorre que o pai do Ferrugem (que era adulto, e portanto, ruivo), não gostava que ele fosse chamado assim ou por qualquer apelido relacionado à “ruivisse” deles ou à “loirice” da mãe e das irmãs, carinhosamente conhecidas por “branquelas azedas”, e, para ele, quando nós o chamávamos de “Taffarel”, estávamos, na verdade, o chamando também, de branquelo azedo, e que isso era racismo.

 

O Ferrugem ficava triste com isso, e entendia que nada tinha de racismo. Na verdade, num grupo de crianças de 10 ou 11 anos, de todas as cores e raças, o que certamente não se via era racismo: tinha até japonês jogando de atacante! Mas para o seu pai, era racismo e pronto.

 

Pois então o Ferrugem era o único que podia ser o Taffarel.

 

Até que chegou o dia em que o Brasil jogou a semi-final com a Alemanha, e, num jogo onde tudo parecia perdido, o Taffarel pegou pênalti, quando o Brasil mais precisava (coisa que ele, depois, se habituou a fazer em Copa do Mundo também), e a Seleção foi para a final.... Às 8 da manhã, com a quadra repleta de “taffaréis”, a maioria inclusive, jogando na linha, chega o Ferrugem, todo orgulhoso, dizendo que o pai dele tinha deixado ele ser o Taffarel naquele dia.

 

De uma vez só, então, todos nós, meninos que jogávamos bola, mesmo sem perceber, entendemos o que era racismo e como combatê-lo: racismo é o tratamento de uma raça como inferior, como pior. O antídoto é mostrar que todos são bons, como nós, que éramos tafaréis e romários, independentemente da cor.

 

(mande sua história para blogdotorero@uol.com.br)

Por Torero às 07h14

15/04/2006

As duas melhores coisas do mundo - 1

As duas melhores coisas do mundo - 1

Numa erudita tertúlia travada com alguns filósofos no botequim da esquina de casa, chegamos à conclusão de que as duas melhores coisas do mundo são futebol e comida (a TV ficou em terceiro, e o sexo, no quarto, que, pensando bem, é o seu lugar).

Foi então que Nietzsche (o português dono do bar, que recebeu o apelido pelo seu vasto bigode) disse que o melhor mesmo era juntar os dois e comer no estádio. Nietzsche recebeu uma salva de palmas, e eu, tendo como desculpa a abertura do Brasileiro, me lancei na incumbência de fazer uma reportagem sobre comida nos estádios pelo país.

O primeiro que visitei foi o Arruda, no Recife, casa do Santa Cruz. Comecei com o pé direito, porque ali há uma grande variedade de acepipes, alguns muito bons. Se o time é de Série B (que também começa hoje), o cardápio é de Série A. O Arruda é uma espécie de Fasano dos estádios.

Antes de entrar no "Gigante da rua das moças" já se pode forrar o estômago nas barraquinhas. Aliás, a qualidade e o capricho mudam muito de uma para outra.

O salsichão em espiral é bem interessante (R$ 0,50), assim como os bons espetinhos de carne entremeados de cebola (R$ 1 a R$ 1,50) e os espetos mistos (vaca, frango e linguiça, R$ 1,50). Para os vegetarianos, há uma boa salada de fruta e, é claro, o tradicional queijo coalho (R$ 1 e R$ 1,50).

Já os mais corajosos podem enfrentar as asinhas de frango (um tanto desconfiáveis, R$ 0,25) e, principalmente, as largas fatias de fígado de boi (R$ 0,50). Eu, confesso, refuguei. Mas havia uma boa aceitação entre os locais.

No estádio, a variedade continua. Só de amendoim há três tipos: sem casca, com casca e cozido (todos a R$ 0,50 ou 3 por R$ 1). Já o saquinho com ovos de codorna sai por R$ 1. Os sorvetes (marca Só Mel, R$ 0,25) também possuem sabores diferentes dos do Sul, como graviola e cajá.

Os frequentadores dizem que há também roletes de cana (vendidos em tabuleiros, enfiados em palitinhos), mas são mais encontrados nos jogos vespertinos. Para meu azar, fui ao Arruda à noite.

Na região das sociais há uma certa sofisticação. Ambulantes oferecem doses de Johnie Walker e Teacher's por R$ 2. Há espetos de coração (raros na arquibancada), e o coalho vem com orégano.

Para os que conseguirem controlar a fome, na saída os preços em geral caem pela metade. E ainda mais em caso de derrota. Segundo os ambulantes do Arruda (que pagam R$ 15 para entrar no estádio), a vitória dá fome.

(continua no post abaixo)

Por Torero às 07h18

As duas melhores coisas do mundo - 2

As duas melhores coisas do mundo - 2


Sem peixe


Homenagem prestada, falemos agora da Série A. Começando pelo começo, por quem já começou no campeonato: o Santos, que ontem pegaria o Botafogo em casa.

Na Vila Belmiro há um comércio tradicional nas ruas que cercam o campo: pipoca, sorvete, espetinhos e dogões. De diferente, uma salsicha com queijo. As barracas têm qualidades muito diferentes entre si e é bom dar uma espiada na higiene dos ambulantes.

Dentro da Vila, há boas opções. O sanduíche de carne assada da lanchonete (R$ 2,50) é bem respeitável. O molho é caprichado, com bastante cebola e alho. Outra opção é a linguiça (em três versões: com alho, apimentada e com queijo, R$ 2,50). Curiosamente não há peixe no estádio do Peixe.

Quem foi ontem ao Morumbi, para ver o São Paulo estrear contra o Paysandu, pôde degustar as calabresas das barracas ao redor do estádio. Alguns vendedores dizem trazê-las de Bragança. Verdade ou não, meu estômago diz que elas são bem aceitáveis.

em São Januário, que ontem viu Vasco x Figueirense, as coisas não são tão saborosas. O Rio tem uma grande e merecida fama de possuir ótimos botequins, onde são encontradas obras de arte, como o sanduíche de pernil e abacaxi do Cervantes ou o bolinho de aipim do Bracarense. Porém a tradição de bons petiscos não chegou ao estádio do Vasco.

Há algumas lanchonetes e nenhum prato diferente. O hambúrguer (R$ 0,50) é comível, mas sua carne é muito fina (no mau sentido). O joelho italiano (massa com presunto e queijo, R$ 1) é sólido demais, e os salgadinhos (coxinha, salsicha empanada, bolinho de carne, R$ 1) são medianos.

Podem-se encontrar alguns ambulantes que montam pequenas churrasqueiras e vendem salsichão e espetinho. Isso é proibido, mas um dos vendedores explicou sua presença: "Se tiver conhecimento, não tem problema".

Há também alguns produtos industrializados, mas as marcas são pouco conhecidas, como o biscoito de polvilho Sortilège (R$ 1), o guaraná Frutline (R$ 2) e um sorvete sem identificação, que os ambulantes chamam de Dragão Chinês (R$ 0,50, muito ruim). Para as partidas monótonas pode-se recorrer aos vendedores de café que ficam zanzando pelas arquibancadas com uma garrafa térmica (R$ 0,50). Sem Romário, eles devem ter mais trabalho neste ano.
No Mineirão, mesmo fora de campo já são encontradas algumas coisas curiosas. O cachorro-quente (R$ 1), por exemplo, usa aquela salsicha suspeita de sempre e aquela gama de molhos (mostarda, catchup, maionese, vinagrete, batata palha,...).

Mas não pára por aí. No rotidógui mineiro você ainda pode colocar frutas cristalizadas. É isso mesmo, aquelas coisas que vêm nos panetones. Não cheguei a experimentar, mas fiquei com a impressão de que as passas são um estranho no ninho. Mais ou menos como quando o Roque Júnior decide subir para o ataque: pode até dar certo, mas é perigoso.

(continua no post abaixo)

Por Torero às 07h17

As duas melhorescoisas do mundo - 3

As duas melhores coisas do mundo - 3


Com jiló

 

Há também os espetinhos tradicionais (R$ 1,50). Uma variação interessante é o espetinho de frango enrolado no toucinho, onde um ajuda o outro e cada um sozinho não merece destaque. Uma espécie de Washington e Assis.

 

Nesta categoria, o melhor foi o espetinho-no-prato-com-cebola-e-jiló (R$ 2). O jiló sozinho é sem graça como um centroavante de um time sem meias, mas, com a carne e a cebola, faz uma bela triangulação. Na área dos doces, o destaque é uma farta pamonha com queijo, grande como um tijolo. E com o mesmo gosto.

Porém o grande sucesso culinário do Mineirão está dentro dos muros. É uma iguaria servida desde a inauguração do estádio, 30 e tantos anos atrás: o feijão tropeiro. Trata-se de uma verdadeira refeição e custa R$ 3,50.

O tropeiro vem numa embalagem de alumínio. O problema é que, para evitar assassinatos, não é servido com garfo e faca, mas apenas com uma colher de plástico. Por sorte, ou azar, o lombo é tão diáfano que quase sempre se consegue cortá-lo com a colher, a não ser onde a nervura é mais forte. Aí o jeito é tascar-lhe os dentes como um homem das cavernas.

O tropeiro vende cerca de 50% a mais nos jogos noturnos. Nas partidas vesperais, como a de hoje, do Atlético-MG contra o Corinthians, a torcida já vai almoçada e aí o sucesso é a cerveja.

Segundo Júlio Coelho, dono de 17 bares no estádio, em grandes jogos são vendidas mais de 10 mil quentinhas. Elas vêm com arroz (farto), feijão (decente), couve (seca), torresmo (bom), lombo (quase transparente), ovo (gema dura, mas salgadinho) e farofa.

A refeição mata a fome e é o grande sucesso do Mineirão, depois de Tostão e Reinaldo, é claro.

Quanto a petiscos, são decepcionantes. Como se trata de um estádio público, a Vigilância Sanitária só permite a venda de produtos industrializados, ou seja, batatas Chips, sorvetes Yopa...

Assim, acabaram com os "toreros" (vendedores ilegais que entram "na tora", "na marra"). Isso garante a saúde do torcedor, mas faz com que ele perca amendoinzinhos e sua família de pitéus.

Não sei porquê, mas o fim dos toreros me dá um frio na barriga.

 

(Publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 11/08/2002)

 

Por Torero às 07h16

14/04/2006

Participe do bolão para o Brasileiro

Amanhã começa o Brasileiro.

Vamos então fazer um bolão aqui no blog.

Haverá prêmios para os três torcedores que acertarem os cinco primeiros primeiro. E serão grandes prêmios: uma casa, um carro e uma TV de plasma. Não, pensando melhor, essas coisas são bens materias que não levam a nada. Vou dar livros. Isso, nada melhor do que saber, conhecimento e prazer encadernados. Ao primeiro colocado darei o "Bombas de alegria", autobiografia do Pepe que sai dia 24 deste mês. O segundo ficará com o "Jogos inesquecíveis", e o terceiro, meus pêsames, ganhará o meu "Terra Papagalli".

E adianto aqui os meus palpites.

Para primeiro, pela lógica (uma mulher sempre traída por seu esposo, o futebol) voto no São Paulo, que vem mostrando o melhor futebol. Se bem que seu próprio sucesso pode atrapalhá-lo, como aconteceu no ano passado, quando a Libertadores e o Mundial fizeram com que o time jogasse o Brasileiro com o freio de mão puxado.

Em segundo, voto no Corinthians, que tem um bom elenco, contratou jogadores para suas posições mais carentes e pode engrenar. Se bem que, se o Tevez for embora no meio do ano, o time perderá um bocado.

Em terceiro, o Inter, um time que sempre joga bem e que contará com Rafael Sobis, que fez falta na final gaúcha. Se bem que, como o time é dirigido pelo Abel, o Inter é sério candidato a vice.

Em quarto, voto no Cruzeiro, um time que buscou bons reforços e conquistou o título estadual. Se bem que ele teve dificuldade para vencer o Ipatinga.

E para o quinto lugar voto no Santos, o rei do um a zero. Se bem que o time pode perder Luxemburgo para a seleção depois da Copa e aí o time perderá bastante. 

Mas há outros que podem surpreender. O primeiro desta fila é o Goiás, que perdeu três jogadores importantes (Tabata, Paulo Baier e Alex), mas continua equilibrado e há alguns anos vem se mantendo no grupo dos melhores do Brasil. O Atlético-PR é um clube de altos e baixos e, mesmo tendo ido mal no estadual, pode se recuperar no nacional. O São Caetano já surpreendeu duas vezes e pode surpreender a terceira. O Vasco talvez fique melhor sem Romário. O Flamengo pode voltar a ser o Flamengo. Os sulistas Paraná e Juventude, que sempre começam bem, talvez se dêem melhor neste campeonato com quatro rodadas a menos. O Grêmio, que anda conseguindo títulos épicos, pode emplacar. O Botafogo, empurrado por Dodô, pode ir mais longe doque se espera. O Fortaleza perdeu o estadual mas vem jogando bem, e o Palmeiras, caso acerte seu ataque, é candidato.

Enfim, entre no bolão e vote nos seus cinco primeiros.

(PS: Valem os votos dados até as 16h00 de sábado. E, como entrarei em contato pelo email do remetente, não é aconselhável inventar emails)

Por Torero às 08h06

13/04/2006

Palmeiras x Cerro Porteño

0': Como estou num completo ócio, vou imitar o Juca e blogar enquanto vejo o jogo do Palmeiras.

1': Marcinho quase marca, mas a bola vai por cima. Um começo promissor. Parece que Marcinho está em noite de lua cheia.

2': Lúcio deu um chapéu. Isso deve ser um sinal divino: hoje é dia do Palmeiras. 

5': Salcedo perde um gol. Será mais um sinal da vitória palmeirense? Ou será um sinal de que o time não está tão atento assim.

6': Belo chute de Correa, de muuuito longe.

8': Correa cobra bem a falta. Mas o goleiro defende ainda melhor. Jogo animado.

11': Confusão na área palmeirense e o Cerro perde duas chances. Já não estou tão otimista.

14': Bela arrancada de Marcinho, que é parado por um coice de De Vaca.

18': A zaga formada por Daniel e Douglas é uma zaga grande, mas não uma grande zaga. Gamarra é difícil de substituir. Talvez, desse certo o Palmeiras jogar com três zagueiros.

20': Cerro cobra falta, mas abola vai para as mãos de Sérgio. 

23': Marcinho faz uma bela jogada e consegue escanteio. Na sequência, chuta a gol. Marcinho é o melhor em campo. Esse é o verdadeiro Marcinho. O que jogou o Paulista devia ser um clone, uma imitação fabricada na 25 de março.

30': Washington hoje está mal. Por que, quando ele não vai bem quando começa jogando? E há outros jogadores assim, como Basílio, ex-Santos e Palmeiras, e Jair, ex-Inter e Palmeiras. O Pepe me disse que são jogadores que precisam ver o jogo de fora para aí entender o que está acontecendo. Desconfio que outra explicação seja a de que eles são jogadores velozes, que se dão melhor frente a zagueiros já um pouco cansados.

32': Salcedo chuta a gol. Há nove minutos eu não falava sobre um chute, tanto que deu até para teorizar sobre Washington. Sinal de que o jogo não está muito bom.

39': Marcinho dá um belo passe para Lúcio, que perde a boa chance. Parece que Lúcio voltou ao seu normal.

40': Bom passe de Marcinho para Edmundo, que não domina. Marcinho é o melhor jogador em campo.

41': Washington não domina um lançamento. Ficaria de cara para o gol.

42': Baez monta em Washington. E não é metáfora.

46': Fim do primeiro tempo. Baez e Washington batem boca. Forma-se um bolo de jogadores. E Edmundo, vejam só, vai para o vestiário e nem quer saber da briga. O Animal amansou. 

Começo do segundo tempo: O juiz expulsa um jogador de cada clube e começa uma briga. Fazia tempo que eu não via um sururu destes. O problema é que isso pode render cartões vermelhos para o Palmeiras, o que será péssimo para a próxima fase. 

Todo o time paraguaio se retira. O palmeirense também. Nunca vi isso. Pareciam duas gangues. Mas as equipes voltam a campo. O jogo começa às 23:18.

1': Edmundo é substituído. Washington faria menos falta. 

2': Correa e Paulo Baier trocam de posição. Pode dar certo.

3': Ricardinho quase faz um golaço de bicicleta. A bola bateu na trave.

5': Boa cabeçada de Washington, boa defesa do goleiro paraguaio, bom começo de segundo tempo.

10': GOL! Salcedo chutou no ângulo de Sérgio. Faltou a proteção dos volantes.

12': Washington recebe impedido, o juiz não marca, e ele perde o gol.

16': Gol! Bela jogadinha ensaiada e Ávalos faz 2 a 0. Vai caindo uma invencibilidade de 27 anos no Parque Antártica pela Libertadores. Cinzas plúmbeas no horizonte. Crise à vista. É claro que o jogo não vale nada, mas no Palmeiras as crises não precisam de muito motivo.

22': O Cerro perde boa chance.

23': Bom chute de Lúcio. O goleiro larga e nenhum dos dois centroavantes palmeirenses estava por ali.

24': Washington recebe impedido de novo, o juiz não marca de novo e ele perde de novo.

25': Salcedo perde boa chance. O jogo melhorou um bocado. 

27': Agora é Paulo Baier que perde a chance. Um amigo meu, palmeirense e quase careca, não deve ser mais quase.

35': Ah, que falta faz um centroavante ao Palmeiras... 

36': GOOOOL! Belo passe do Marcinho Guerreiro para o Marcinho-Marcinho e a bola entra por baixo das pernas do goleiro paraguaio.

37': Boa defesa de Sérgio. Faltam oito minutos e o jogo ficou bom!

39': Gol! Ávalos faz falta e marca. Erro feio da arbitragem.

43': Pênalti para o Palmeiras. Marcinho chuta, o goleiro faz bela defesa, mas a bola sobra outra vez para Marcinho, que faz de cabeça. GOOOOL! Agora o Palmeiras tem três minutos para manter sua invencibilidade e tentar ser o primeiro do grupo.

46': Mais um chute de Washington. E a bola não entra.

48': Acabou. O Palmeiras não perdia para equipes estrangeiras no Parque Antártica desde 1979.

Por Torero às 21h03

12/04/2006

ABC - 1

Como ainda não fiz um texto que explique a conquista santista, faço aqui este Abc.

 

Amendoim: Comi dezenas (talvez centenas) de saquinhos de amendoim neste Paulista. O croc-croc dos dentes quebrando o amendoim ajudam a controlar a tensão. Uma curiosidade: no Morumbi os saquinhos de amendoim são grandes e custam R$ 3,00. Nos outros estádios, são três saquinhos pequenos por R$ 1,00.

 

Bi: o único bicampeão paulista é o goleiro Roger. Esse sim, é pé-quente.

 

Cléber Santana: Ele me parece daquele tipo de jogador que pensa que joga mais do que realmente joga. Mas, no último jogo, realmente jogou como pensa que joga.   

 

Defesa: Foi o trunfo do Santos. O time só tomou 19 gols em 19 jogos.

 

Empate: O Santos empatou apenas uma vez no campeonato. Foi na estréia, contra o São Bento.

 

Frango: Contra o Marília, Fábio Costa tomou o frango mais engraçado do campeonato. Foi segurar uma bola que sairia pela linha de fundo, só que ele saiu e a bola ficou. E o atacante adversário não desperdiçou. Uma cena digna das Videocassetadas. Mas Fábio Costa se recuperou e foi o melhor goleiro do campeonato.

 

Gol: O ataque santista foi apenas o sexto melhor da competição. Ficou atrás até do Rio Branco. E seu melhor artilheiro, Léo Lima, ficou em décimo-sexto lugar, com modestos cinco gols.

 

Helicóptero: Como um helicóptero normal não teria permissão para descer na Vila Belmiro, usou-se um helicóptero de hospital, que tem certas liberdades. Para quem estava na Vila, foi um show à parte. 

 

Ih...”: Foi o que a torcida disse quando, no jogo contra o Corinthians, Reinaldo se machucou logo aos dez minutos e entrou Geílson. Mas Geílson fez o gol da vitória e, sem este gol, não haveria título.

 

Jonas: O promissor atacante que veio do Guarani ficou fora logo na sexta rodada, mas acabou como vice-artilheiro do time. Talvez faça uma boa dupla com Reinaldo.

 

Kléber: O lateral ainda não está jogando tão bem quanto nos tempos de Corinthians, mas vem melhorando e a torcida já não pede outro jogador para a posição. Foi muito bem nos cruzamentos.

 

Léo Lima: Deve ter um irmão gêmeo. O que jogou o Brasileiro não pode ser o mesmo que jogou o Paulista.

 

Maldonado: O melhor jogador do time e do campeonato. As duas bolas que salvou contra o Palmeiras valeram por gols. É o queridinho da torcida. E com justiça.

 

(continua no post abaixo) 

Por Torero às 06h32

ABC - 2

Noroeste: A vitória sobre o melhor time do interior foi fundamental. Disputada na Vila, os dois times foram iguais. E o Santos só ganhou com um chute de Reinaldo que desviou no zagueiro.

 

Olé: A torcida do Santos não gritou “olé”. O time foi pragmático. Não é equipe de dar show, mas mostrou ser eficiente.

 

Palmeiras: A melhor partida do Santos talvez tenha sido contra o alviverde. Ali ele derrotou o então favorito ao título e assumiu a liderança isolada pela primeira vez.

 

Quase: O Santos foi o time do “quase”. Ele quase tropeçou muitas vezes, parecendo que perderia a vitória e os dois pontos que, no final, lhe tirariam o título. Foram nove vitórias por apenas um gol de diferença. Nove quases.

 

Rodrigo Tabata: O japonês ainda está devendo. Mas jogou improvisado no ataque. Se voltar para a meia, pode jogar como no Goiás.

 

Serginho: Durante a carreata em Santos, um carro fechou minha moto. Abaixei-me para soltar o palavrão, mas aí vi que quem estava no carro: era Serginho Chulapa. Aí, em vez de palavrão, soltei um “É campeão!”. E ele, contente, abaixou o vidro e apertou-me a mão.

 

Três-cinco-dois: Foi a solução encontrada por Luxemburgo. Quem não pode atacar muito, que pelo menos se defenda bem.  

 

Um a zero: Este foi o placar mais comum do Santos. Foram cinco magras vitórias por este escore.

 

Vila Belmiro: O décimo-segundo jogador do time neste campeonato.

 

Wendel: Melhor jogador da partida final. É esforçado como poucos e faz uma boa dupla com Maldonado desde os tempos de Cruzeiro.

 

Xis: O X da questão tem W e Y no nome: Wanderley Luxemburgo.

 

Yang: O Santos foi muito mais Yang que Ying neste campeonato. Muito mais raça que frieza, mais suor que tranqüilidade, mais coração que cérebro.

 

Zebra: Pode-se dizer que o Santos, sem estrelas e com time reformulado, foi uma zebra no Paulista. Uma zebra alvinegra.

Por Torero às 06h31

11/04/2006

Zé Cabala da semana

Como gol contra é coisa muito rara, considerei como resultado certo 2 a 0 para o Santos e procurei quem houvesse colocado um gol para Cléber Santana. Três dos 245 palpites estavam nesta condições, mas quem (a)postou primeiro foi Victor Cruz, às 13:31 de sexta-feira. Victor é o Zé Cabala da semana e vai receber o livro "Meu jogo inesquecível".

Por Torero às 10h10

10/04/2006

O duelo final e os chapéus brancos

O último dia de duelos em Paulistão City.  Dia de matar ou morrer. Dia de regar a grama com sangue.

 

Num belo saloon alviverde, o Princess´s Gold Earring, o índio Guarani lutou, lutou, mas não conseguiu vencer Mogi Boy. Foi um duelo terrível para os nervos bugrinos. O público olhava seus relógios de bolso com impaciência. As flechas passavam perto de Mogi Boy, mas nenhuma o alvejava. E o índio Guarani acabou morrendo, derrotado por si mesmo. Triste, triste...  

 

Tristeza de uns, alegria de outros. Marilia Mae venceu Bob Bento. Acertou-lhe um tiro logo no começo da luta, e depois mais outro. Porém, como se fosse um duelo de cinema, levou um balaço no finalzinho. Se tomasse outro, o pior aconteceria. Mas ela agüentou firme e, como por milagre, a bela cauguel de olhos azuis sobreviveu.  

 

Porém, o grande duelo aconteceu no Belmiro Village Saloon. Ele estava em festa. As cadeiras estavam cheias e todos os clientes usavam com chapéus brancos (e balões amarelos, o que é meio estranho numa cena de bang-bang).

 

Billy Santos enfrentaria Joe Joaquim. Se Billy vencesse, seria o maioral de Paulistão City. Se Joaquim perdesse, seria enterrado no cemitério da Segunda Divisão. Por isso os dois lutaram com todas as suas forças.

 

Nos primeiros vinte minutos houve tiros de ambos os lados, mas eles zuniam nos ouvidos dos combatentes sem acertá-los. E, para piorar, Jack Tricolor já havia acertado duas balas em seu oponente. Se tudo continuasse deste jeito, Jack seria o maioral.

 

Mas aí, aos 23 minutos de duelo, Billy usou a cabeça e acertou Joe Joaquim. A bala feriu Joe. Ele ficou tonto e deu tiros sem direção. Tão sem direção que acabou por acertar um segundo tiro em si mesmo. Ah, a vida de Joe daria um belo fado...

 

No resto do duelo, Billy deu alguns belos tiros, mas eles só passaram perto de Joe Joaquim. E Joe Joaquim não teve forçar para reagir. Billy Santos era o novo maioral. O bam-bam-bam. O campeão.

 

Mas o mais incrível ainda estava por vir: o teto do Belmiro Village Saloon se abriu e uma águia gigante desceu, trazendo no bico uma estrela de ouro. Billy Santos colocou-a no peito e, por um ano, é o xerife em Paulistão City.

 

Então os clientes jogaram seus chapéus brancos para o ar e eles se transformaram em estrelas.

Por Torero às 09h25

De Sul a Norte

Para começar, o Grêmio ganhou a final contra o favorito Inter. E na casa do adversário, e interrompendo uma terrível sequência de campeonatos (terrível para os gremistas, é claro). Depois da épica vitória na série B, mais uma conquista para ficar na memória dos torcedores. Haja espaço no disco rígido das cabeças tricolores.  

 

Em Santa Catarina o Figueirense venceu, e bem, o Joinville. Agora é o time que mais venceu o campeonato estadual. E ainda se mantém na primeira divisão do Brasileiro há algum tempo. Talvez seja o melhor momento na história do clube.

 

No Paraná, o Paraná de Mussamba superarou o Adap de Marcelo Peabiru. E lá se foram nove anos de jejum.

 

No Rio de Janeiro, o Botafogo foi campeão vencendo os dois jogos da final e com um belo gol de Dodô. Foi um campeonato atípico. Mas e daí? O importante é que acabou um jejum que já começava a incomodar.

 

Mas o maior jejum foi quebrado no Espírito Santo. O Vitória, que não era campeão há 30 anos, venceu o simpático Estrela do Norte, de Cachoeiro do Itapemirim.

 

Em Goiás, com um gol de Nonato (aquele que fez muitos gols pelo Bahia), o Goiás conquistou um título. E já está classificado para a Libertadores. Talvez, hoje, sua torcida seja a mais feliz do Brasil.

 

Em Pernambuco, o Sport, que anda sofrendo muito há um bom tempo, venceu o favorito Santa Cruz (nos pênaltis, para sofrer mais um pouco). E Carlinhos Bala, que fez um gesto pouco educado para a torcida adversária, foi expulso. Desta vez, Bala saiu pela culatra.

 

E, no Ceará, o campeão foi o Ceará (como previu esta humilde pitonisa antes de o campeonato começar). E o Ceará, mesmo precisando apenas de um empate, venceu  um Fortaleza cheio de estrelas. 

Por Torero às 09h24

08/04/2006

Cuidado! Cambistas vendem ingressos falsos

Foram descobertos no início da tarde de hoje, sábado, alguns ingressos falsos da partida Santos X Portuguesa. Eles estão sendo comercializados por cambistas nos arredores do Estádio Urbano Caldeira (Vila Belmiro).

O Santos FC a Polícia Militar solicitam aos torcedores que não adquiram ingressos de cambistas, pois eles podem ser falsos.


Os ingressos comercializados para a partida têm a cor de fundo cinza. Os que foram identificados na Vila Belmiro têm o fundo azul. Atenção na numeração das cadeiras atrás do ingresso. Elas não podem ter o mesmo número. Existe também uma tarja marrom magnética atrás do ingresso. Ela é porosa e áspera.

Por Torero às 14h05

07/04/2006

E o meia inesquecível não é Pelé - 1

Quando acabei de contar os votos para os meias inesquecíveis, fiquei boquiaberto e olhiaberto. Alguns resultados foram surpreendentes (sem falar que nunca mais farei uma eleição dupla como essa, pois tive que contar quase dois mil votos).

 

Mas antes de irmos aos “Vinte Mais”, vamos às curiosidades:

 

Na categoria “só uma pessoa lembrou de mim” tivemos nomes curiosos como Gatãozinho (um raro nome que é aumentativo e diminutivo ao mesmo tempo), Aritana (que fez meia dúzia de partidas pelo São Paulo) e Basílio. Isso mesmo, Basílio só teve um voto. O jogador que fez um dos gols mais importantes da história corintiana teve apenas um único e solitário voto.

 

Houve também alguns empates curiosos. O grande Cruyff empatou com o colossal Ribamar, ambos com 2 votos. Zizinho e Dener empataram com 6, Didi e Ricardinho, com 7, e Diego (que errou ao sair do Santos) empatou com o gordinho Carlos Miguel (ex-São Paulo), que empatou com o clássico Dicá, que empatou com o baiano Bobô, que empatou com o habilidoso romeno Hagi, todos com 5 votos.

 

Mas vamos aos nossos “Top 20”.

 

Em vigésimo ficou Zinho, com 10 votos. E nem todos foram elogiosos. Mas inesquecível não é o melhor, é o que fica na memória, e Zinho realmente ficará na memória de agradecidos palmeirenses, de admirados flamenguistas (onde ele também jogou, e bem, como ponta-esquerda) e de nervosos torcedores da seleção, que o viam girar feito uma enceradeira.

 

Em 19º. tivemos um empate triplo entre o grande Gérson, o ótimo Juninho Pernambucano e Tostão, nosso mestre jedai, todos com 11 lembranças.

 

Na 18ª. posição ficou o melhor estrangeiro que já jogou num time brasileiro, o senhor Pedro Virgílio Franchetti Rocha (12), com seus 393 jogos e 109 gols pelo São Paulo.

 

Em 17º. ficaram o sinuoso Djalminha e Adílio (15), grande craque do Flamengo e estrela das figurinhas Ping-Pong. Eu, confesso, quando via um jogo daquele Flamengo dos anos 80, não queria jogar como Júnior ou Zico, mas como Adílio. Ele tinha um drible elegante, coisa muito rara hoje em dia.

 

Rivelino (17), o Reizinho do Parque, o Patada Atômica, o pai do elástico, o comandante da Máquina Tricolor  de 75 e 76, ficou em 16º.

 

Falcão e Pita (18), dois refinados meias, terminaram em 15º.

 

Rivaldo, melhor jogador da Copa de 2002 e melhor do mundo em 1999, foi o 14º. com 19 votos

 

Kaká, o belo (e ganhou dois votos com esta justificativa), teve 27 votos e ficou em 13º.

 

Giovanni, o paraense que conquistou Santos, recebeu 29 sufrágios e conquistou um honroso 12º. lugar.

 

Daí temos um salto de votos para o 11º. colocado, que foi lembrado por 49 eleitores. E este décimo-primeiro é ninguém menos que Ademir da Guia, 153 gols e 866 partidas pelo Palmeiras.

 

(Os dez primeiros, por problemas de espaço, coloco no post abaixo)

Por Torero às 09h11

E o meia inesquecível não é Pelé - 2

 

À frente de Ademir ficou o artista Sócrates (57), um jogador que vi pela primeira vez num terrível Santos e Botafogo, na Vila Belmiro. O Santos vencia por 2 a 0 mas ele virou para 2 a 3. Fez até gol de calcanhar. Muitos anos depois tive o gosto de vê-lo jogar com a camisa certa, e ele até que fez uns gols e deu uns dribles, só para a gente ter o gostinho.

 

Alex (60), com votos azuis e alviverdes, é o nono colocado. E vários eleitores fizeram questão de lembrar Parreira da injustiça que pode cometer caso não leve Alex para a Copa.

 

Marcelinho Carioca, o Pé de Anjo, teve 63 votos e ficou em oitavo. Segundo seu bom site (www.marcelinhocarioca.com.br), ele já fez 959 partidas e marcou 435 gols (mas ele inclui aí seus tempos de juvenil). Pensei que ele seria o corintiano mais votado, mas não foi.

 

Em 7º. ficou Zinedine Zidane (69), o que mostra que os brasileiros sentem mais admiração do que ódio por seu algoz de 1998.

 

Na sexta posição ficou Neto (74), que disputou com Marcelinho e Sócrates a condição de corintiano mais votado. E venceu. Um reconhecimento pelo Brasileiro de 90 e pelos 90 gols que fez pelo time.

 

Em quinto lugar ficou Maradona (101), uma vida de tango e um futebol de sonho.

 

Raí é o quarto colocado. Teve 134 votos. A seu favor teve um futebol eficiente, gols decisivos e o fato de não ter grandes rivais na sua principal fonte de votos, a torcida são-paulina (o segundo mais votado do clube foi Kaká, com 27 votos). Raí é um excesso de adjetivos: bonito, inteligente, engajado, politicamente correto e craque. Pena que vá ser dirigente no Paris Saint-Germain e não no São Paulo.

 

O terceiro mais votado foi Zico, o pequeno grande Zico, o Zico que comandou o melhor time brasileiro dos últimos trinta anos, o Zico de 812 gols (333 no Maracanã), o Zico que escutará para sempre que não ganhou uma Copa. Para quem quiser saber mais sobre ele, Zico tem um site bem bacana, o www.ziconarede.com.br, com um blog simpático e cheio de fotos (um dia ainda aprendo a colocar fotos aqui).

 

Em segundo lugar ficou..., ai, ai, ai, que dor..., ai, ai, ai, que injustiça..., ficou Pelé. Isso mesmo, Pelé ficou em segundo lugar. Ele recebeu 141 votos. E 63 sujeitos não votaram nele mas fizeram questão de dizer que “Pelé não valia” ou eu “Pelé é hors concours”. Não era, não. E acabou perdendo. Se somássemos os votos de Pelé com seus votos “hours concours”, o Rei venceria com 204. Mas regras são regras. Pelé, nesta seleção de inesquecíveis, terá que se contentar com a camisa número oito.

 

E o primeiro colocado, o meia inesquecível, é Ronaldinho Gaúcho, craque, mágico e equilibrista. Ele teve 170 votos. É o melhor jogador do mundo, é simpático, é feliz e seu único defeito é jogar no Barcelona e não no time de cada um de nós.

 

Por Torero às 09h11

Comentários comentáveis

Vão aí alguns comentários comentáveis sobre os (e as) meias:

 

"Não cheguei a vê-lo jogar, mas meu pai falava sempre de um craque que atuou no interior lá pelos anos 50. Era o Lupo. Grande meia. Ia bem tanto pela direita como pela esquerda. Jogou em vários times e como dizia um técnico da época, "caía como uma luva", embora fosse meia e dos bons. Nunca furava, o Lupo. Jamais se soube ao certo o seu paradeiro.Dizem que abandonou cedo o futebol, fez o seu pé de meia e tornou-se empresário em Araraquara."
Julio Jatobá
Junior 

 

"Meia inesquecível ? Foi uma azulzinha e preta, já tinha até uns furos nela...! Era bem legal...eu adorava essa meia!"
Luiz Mollon

 

"Meias inesquecíveis? As meias do Pinda."

Fefê

"Roberto Baggio, por que me deu uma grande alegria na vida, em 94. Ronaldinho Gaucho, por que me da alegria até hoje."
Daniel 

 

"Raí e Raí. Se Zico teve Adílio, se Pelé teve uma infinidade de craques ao lado dele, inclusive o Edson, entende, Raí só teve Raí. Ou vocâ acha que é fácil ser campeão da libertadores e mundial ao lado de Dinho e Pintado?"
Dorini

 

"Raí, o jogador mais importante da história do SPFC e Kaká, o mais bonito :) [Hehehehe aposto que vou ser xingado pela justificativa do segundo escolhido.]"
Ricardo 

 

"Como Tri-Morumbi... Kaka, que meia e que gato! Uhhhhh .... e Rai... pelas lindas pernas!"
Cadu

 

"Sierra, meia chileno que chegou de helicóptero para a apresentação no São Paulo. Nojento, nunca fez um jogo razoável pelo tricolor. Inesquecível."
Demas 

 

"Meus meias inesquecíveis são Zinho e Mazinho, a dupla da Copa de 94, também conhecidos como Malzinho e Ruinzinho. Um parecia uma enceradeira, e o outro não tinha um mínimo de criatividade. Era desesperador vê-los em campo, principalmente naquela semifinal contra a Suécia. Sorte dos brasileiros que éramos privilegiados na defesa e no ataque, pois se dependêssemos desses dois, não levaríamos o caneco."
Hugo 

 

"De Lã e De Veludo, dois meias holandeses, da linha dos De Boer."
Zède 

 

"Meia inesquecível é aquela social que peguei no varal do vizinho..."
Timão eooo

Por Torero às 08h28

Cambistas e mousse de chocolate

Os ingressos para Santos x Lusa acabaram. Certamente, muitos deles estão nas mãos dos cambistas. Acho que estes, digamos, profissionais, são um mal desnecessário. Basta que não se compre mais deles para que desapareçam. Depende só de nós, comodistas, acabar com estes atravessadores. Claro que é pior ver o jogo pela TV, mas há que ter força de vontade. É mais ou menos como regime: a tentação é grande, mas temos que resistir à sobremesa. Mesmo que seja uma deliciosa mousse de chocolate.

 

Por Torero às 08h26

Minha escalação

Minha escalação para o Santos de domingo seria: Fábio Costa; Fabinho, Jardel, Ronaldo e Kleber; Maldonado, Wendel, Tabata e Léo Lima; Reinaldo e Geílson. Ah, e o mais importante: 17 mil caras gritando sem parar, empurrando o time como no Santos x Fluminense de 95.

 

Por Torero às 08h25

Ganhe um livro, caro Zé Cabala

E está aberto o novo concurso: o primeiro que acertar o resultado e os artilheiros do jogo entre Santos e Portuguesa leva um exemplar do livro “Meu jogo inesquecível” (Contato, 156 páginas), com textos de Chico Buarque, Juca Kfouri, Scolari, Dinamite, e este que vos escreve. Vamos ver quem é o Zé Cabala da semana.

Por Torero às 08h25

Boleiros 2

Estréia hoje o filme “Boleiros 2”, de Ugo Giorgetti, que, além de cineasta, é colunista de futebol do Estadão. O filme segue a mesma linha do simpático “Boleiros”, com várias histórias entremeadas, mas é um tanto mais triste. De certa forma, substituiu-se o saudosismo do primeiro pela modernidade, o passado idealizado pelo presente real. É um filme que, estranhamente, você gosta mais depois de algum tempo. Saí do cinema não gostando muito, mas agora gosto mais. Vá entender!

Por Torero às 08h24

05/04/2006

Jack Tricolor e Billy Santos em "O duelo trapalhão"

Estamos em Paulistão City. O vento assobia uma música tétrica e empurra rolos de feno de um lado para outro. No Saloon Morumby, dois caubóis miram-se com ódio.

 

De um lado está Billy Santos. Ele é baixinho e ninguém lhe botava muita fé, mas ele tem conseguido vencer seus oponentes. Do outro lado está Jack Tricolor. Ele é alto, usa revólveres de prata e botas de marca. Ninguém duvida que seja o melhor. Mas nem sempre os melhores saem vivos dos combates.

 

Billy cerra os olhos e cospe de lado. Se ele vencer ou mesmo empatar este duelo com Jack, Paulistão City terá um novo campeão. E Billy não é campeão há long, long time.

 

A tensão é grande. Os dois se olham fixamente. Quando um piscar, o outro vai atirar.  

 

É então que cai um cisco no olho de Billy Santos e ele pisca não uma, mas várias vezes. Jack Tricolor aproveita-se disso e atira. Mas a bala bate na fivela da Cintra, digo, cinta, de Billy, ricocheteia e acerta o próprio Jack. Não, a vida não é justa. E os duelos ainda menos.

 

Mas a luta ainda não estava terminada. Billy dá um tiro que bate num sino, volta e acerta sua própria mão, empatando a lide. (Não foi pênalti. Provavelmente o juiz percebeu seu erro nos dois lances anteriores e tratou de compensar).

 

Depois, Jack acerta nas esporas de Billy, mas a bala sobe e acerta o pobre caubói alvinegro em suas, digamos, costas baixas (no segundo gol tricolor, Júnior estava impedido). Parecia que os lances atrapalhados eram a Cintra, digo, sina, daquela batalha.

 

Então, para piorar ainda mais sua situação, Billy Santos perde uma de suas balas (a expulsão de Luís Alberto foi mais um erro) e fica à mercê de Jack, que dispara o tiro de misericórdia, o único que não ricocheteou em nada, indo direto ao seu alvo.  Era o fim da batalha.

 

Jack lutou melhor e mereceu vencer. Mas, por culpa do destino, digo, Cintra, o duelo esteve mais para Trapalhões do que para Faroeste. Aliás, o trio de arbitragem até poderia ser chamado de Triopalhões.

 

Agora, ferido e sem todas as suas armas, Billy Santos terá que enfrentar Joe Joaquim.

E o luso caubói irá se empenhar ao máximo. É que Joe Joaquim, seu irmão caçula Mack Manoel, o índio Guarani e Marília Mae farão um combate de vida ou morte, do qual só um deles sairá vivo. Os outros serão enterrados no cemitério da segunda divisão.

 

Na próxima semana, não perca o derradeiro, último e final capítulo de Paulistão City. Conseguirá Billy vencer Joe Joaquim? Jack Tricolor continuará sendo o maioral? Estas e outras respostas você terá neste mesmo blogcanal, neste mesmo bloghorário.

Por Torero às 07h51

04/04/2006

Aposta sem vencedores

Infelizmente ninguém deu uma de Zé Cabala e acertou os artilheiros do jogo São Paulo x Santos. Alguns erraram por apenas um gol. Sexta teremos nova aposta.

Por Torero às 20h49

O texto prometido ontem

Festa em Los Angeles é para pessoas comuns

JOSÉ ROBERTO TORERO
EM LOS ANGELES

Caro leitor , caso você algum dia vá parar na festa do Oscar, deixo-lhe aqui algumas impressões que podem ser úteis. Digo-lhe, que você começa a sentir o clima da festa quando coloca o seu smoking (o meu foi alugado por R$ 165! e nem era um dos mais caros). Aí, depois de conter o riso ao se olhar no espelho, você vai para o Shrine Civic Auditorium e será uma das 5.800 pessoas que assistirão ao Oscar ao vivo.
Chegando ali você vai encontrar um congestionamento diferente, de limusines. São centenas. Algumas brancas, a maioria negra, todas muito compridas e caras (para o dia do Oscar, elas custam US$ 100 por hora e são alugadas por nove horas). Durante esse congestionamento, você vai ver alguns fãs malucos. Havia, por exemplo, uma Marilyn, um Super-Homem e, é claro, um Jesus Cristo, que benzia todos os carros.
Então desce-se da limusine e os porteiros já começam a pedir seu bilhete. É o papel mais caro que já me caiu nas mãos. No câmbio negro, um ingresso atinge o preço de US$ 12 mil, o que me deixou tentado a ver a festa pela TV.
Depois de mostrar seu bilhete, você vai pisar no glorioso tapete vermelho. Mas a frequência do "red carpet", como dizem os americanos, não é tão nobre assim. Ele é pisado por pés bem comuns. Os famosos são poucos. Não há nada mais equivocado do que pensar que o Oscar é uma festa na qual só vão beldades e celebridades. Tanto que eu estava lá.
A maioria das pessoas que vai à festa do Oscar é uma gente comum, provavelmente parentes ou profissionais secundários nas empresas cinematográficas. Se você der uma olhada em volta enquanto está entrando no Shrine, terá a impressão de que está entrando num baile de debutantes. Com a desvantagem de que há mais mães do que filhas.
As roupas também não são lá grande coisa. Só umas poucas exceções usam Chanel, Prada, Gucci e Valentino. A maioria parecia usar uma roupa feita pela costureira do bairro. Mas, para não dizer que não falei das flores, digo que as bebidas são de primeira, em especial os vinhos. Porém os salgadinhos, que foram feitos por um tal de Wolfang Puck, uma mistura local de Laurent com Ofelia, deixam muito a desejar.
Depois de passar pelo "red carpet", você vai sentar no seu lugar. O meu era bem longe do palco. Provavelmente um espaço reservado para concunhados dos genros das sogras da tia-avó dos assistentes de produção. Fiquei no terceiro e último andar, de modo que, para ver Steve Martin, eu tinha de apertar bem os olhos e ter um pouco de imaginação. Para quem quisesse, havia uns binóculos à venda por US$ 10. Mas preferi olhar para um dos dois telões que ficavam dos lados do palco. Mesmo lá, vendo o Oscar ao vivo, o melhor era assistir pela TV.
Logo que começa a premiação, já podem ser vistos os primeiros derrotados indo ao bar. Mas agora as bebidas eram pagas. E bem pagas. Um refrigerante custava US$ 3. Num baile de debutante, pelo menos, a bebida é grátis.
Essas coisas podem fazer você pensar que não há vantagem em ver o Oscar de perto. Talvez seja verdade, mas há uma diferença importante. Quando se vê ao vivo os atores e apresentadores, os premiados e os perdedores, a equipe de filmagem e o público, se vê que o show é menos perfeito do que se pensa. Ao vivo ele perde muito de sua aura, de seu glamour, e se torna uma festa em que não há só beldades, mas também, e principalmente, gente normal, com ares de tia, de primo, de vizinho.
Depois da premiação, há uma grande aglomeração, pois todos querem pegar suas limusines. A saída do teatro fica parecendo o metrô da Sé, com a diferença de que todos estão bem vestidos.
Mas o chato mesmo é que o filme no qual trabalhei perdeu. E nestes momentos há que ser maduro e adulto. Por isso, amanhã, vou à Disneylândia.

 

PS: Este texto foi publicado em 27/3/2001.

Por Torero às 06h21

26/7/2001

Assistindo com o inimigo

JOSÉ ROBERTO TORERO
COLUNISTA DA FOLHA

H á poucos dias, recebi um e-mail que começava assim:
"Naquela tarde de domingo, ano de 1986, meu pai me levava pela primeira vez para assistir a uma partida de futebol profissional. Fui à Vila Belmiro, que no transcorrer dos anos se transformou na extensão da minha vida, numa espécie de imenso pote de ilusão. A partida era entre Santos e São Paulo.
Lembro-me de ter ficado ao lado de um são-paulino, menino como eu, inocente como eu, aprendiz como eu".
Valdomiro Neto, o autor do e-mail, lamenta o fato de não poder mais assistir, como no passado, a partidas de futebol ao lado de torcedores da equipe adversária.
É realmente uma grande perda não poder mais se sentar perto dos inimigos.
Recordo-me de ter visto vários jogos em minha distante adolescência, na Vila Belmiro e no Pacaembu, onde havia um ou mais torcedores do outro time perto de mim.
Enquanto espremia espinhas, me divertia escutando as piadas trocadas pelas torcidas. Nesses dias os disparos eram só verbais.
Com o tempo essa mentalidade foi mudando, aqui e no exterior. Os ânimos foram ficando exaltados, a cortesia entre as torcidas deixou de existir, e começamos a ouvir falar de tragédias. As torcidas se fecharam em guetos e transformaram-se em tribos inimigas.
Os estádios tornaram-se, então, o espaço da ferocidade.
Adolescentes violentos e sem perspectiva, a maioria tendo o seu time como única fonte de alegria, passaram a ser a fauna dominante nas arquibancadas dos estádios, espantando idosos, mulheres, crianças e homens que prezam a vida.
Isso modificou também os costumes e o uso do espaço nos estádios. Intensificaram-se as revistas e as apreensões de material bélico. Os torcedores passaram a ser divididos por cordas, como se fossem animais irracionais sedentos de sangue.
A própria Polícia Militar, que poderia estar oferecendo maior segurança à sociedade, passou a deslocar contingentes cada vez mais numerosos para poder conter a fúria desses tipos.
Não sou utópico nem dado à poesia suspirante, mas acho que deveríamos tentar trazer de volta um pouco dessa cordialidade perdida. Poderia, por exemplo, haver nos estádios um pequeno canto reservado para amigos que, por uma razão ou outra, torcem para times diferentes.
E mais: para que tal atitude fosse encorajada, dois torcedores que fossem assistir a uma partida juntos e com as camisas dos dois times em confronto pagariam apenas um ingresso.
Creio que desse modo estaríamos incentivando e premiando a idéia de que o futebol é importante, mas muito mais importantes são a amizade, o bom humor e o respeito à diferença.
E o e-mail de Valdomiro termina assim:
"Ainda bem que minha memória guarda aquele momento de sublime humanismo, de vital democracia.
Sempre que a violência vingar nos campos fecharei os olhos e resgatarei o momento em que os meninos se respeitaram.
Fiquei com o Santos, não contra o São Paulo. Fiquei com a paz, não com a truculência. Espero que os deuses me entendam, mas não nasci para ver o que estou vendo. Com 23 anos, tenho medo de ir a estádios".

Por Torero às 06h19

03/04/2006

Escrevendo com o inimigo

Ontem fui ao Morumbi com um amigo, o Maurício Arruda. Ele é roteirista e juntos fizemos o roteiro de um curta-metragem chamado “Uma história de futebol”, que concorreu ao Oscar em 2001. Até alugamos uns smokings e fomos a Los Angeles participar da festa. Mas isto é outra história (clique aqui para lê-la).

 

A história de hoje é o jogo entre São Paulo e Santos. Este meu amigo é são-paulino, e fomos ver o jogo da sala de imprensa. Na arquibancada seria impossível. Hoje há uma espécie de apartheid entre torcedores, e dois amigos que torçam para times diferentes não podem assistir ao jogo juntos. Uma pena. Nos anos 80 assisti a vários jogos com palmeirenses, corintianos e são-paulinos e era muito divertido. Um tirava sarro do outro, fazia piadas, etc... E era um jeito de mostrar que o futebol não é uma coisa tão importante assim (para ler um texto sobre este assunto, clique ).

 

Mas voltemos à partida. Ficamos na sala de imprensa (aliás, um bom lugar para ver um jogo: fica bem no meio do campo, há lugar de sobra e ainda há uma televisão para você ver o replay). Lá, enquanto víamos o jogo, escrevíamos dois textos. Tentamos ver o jogo como se fosse um filme. O resultado está nos posts abaixo.

 

 

(PS: Quem não for uolista ou folhista não vai conseguir acessar os links. Para estes, coloco os textos amanhã.)

Por Torero às 06h38

Uma alegre história de futebol

Por Maurício Arruda

 

 

A caminho do estádio fiquei imaginando em qual gênero de filme o jogo do São Paulo se encaixaria. Um drama psicológico, em que o jogo é disputado no meio de campo e vence aquele que aproveita a mínima falha do adversário? Um filme de ação, com muitos gols bolas na trave, sangue e cartões vermelhos? Uma comédia com tombos, tropeções, pisadas na bola?

 

O gênero foi definido logo aos quatro minutos do primeiro tempo, quando o São Paulo fez um gol que acabou anulado pelo juiz Rodrigo Cintra. Seria um filme de gângster. E o Edmundo faria o papel de uma testemunha-chave, afirmando que o campeonato paulista já estava acertado desde o começo para o Santos ser campeão. E ele parecia ter mesmo razão. O juiz ainda marcou um pênalti contra o São Paulo que não existiu, que partiu de uma falta duvidosa. E marcou impedimento ao invés de um pênalti claro em Aloísio.

 

Todo filme tem o momento da virada. E o dessa história aconteceu quando a torcida do São Paulo começou a gritar em coro para o juiz: “Vergonha! Vergonha!”. O juiz vilão parece ter escutado o recado. No finalzinho do primeiro tempo marca um pênalti a favor do São Paulo. Rogério, que não defendeu o pênalti contra, marcou o pênalti a favor. Não seria o nosso herói, mas um bom coadjuvante.

 

O empate não bastava para o São Paulo. Era preciso mais um gol, e para isso faltava encontrar um herói. Se já tínhamos o gênero do filme, o vilão, o momento da virada e os coadjuvantes, faltava o personagem principal, o protagonista.

 

O herói tricolor surgiu aos 20 minutos do segundo tempo. Era Alex Dias, que vinha de uma má fase, estava longe dos gols e precisava de uma redenção definitiva. Quando ele entrou, com seus toques e dribles, o São Paulo fez mais um gol. E o próprio Alex acabou com qualquer esperança santista ao fazer 3 a 1.

 

Agora só falta um final feliz. E ele virá com uma vitória contra o Ituano, inspirado pela derrota do Santos para a Portuguesa.

Por Torero às 06h34

Uma triste história de futebol

Por José Roberto Torero

 

 

A caminho do estádio ia pensando em qual gênero de filme o jogo do Santos se encaixaria. Seria um musical, em que o time joga por música, entrosado como uma orquestra regida pelo maestro Vanderlei Luxemburgo? Seria um filme juvenil, em que o protagonista é expulso no começo do jogo por uma falta no adversário? Ou filme de horror, com uma goleada do São Paulo?

 

Não, não seria nada disso. Seria um filme de gângster. E o vilão seria o juiz. Um vilão perverso. Daqueles que, no começo, parece estar do lado do mocinho. Tanto que ele errou em dois lances: o gol anulado aos quatro minutos e no pênalti santista.

 

Mas era só aparência. Como nos filmes de aventura, houve uma grande virada. O ardiloso vilão estava apenas dando esperanças ao mocinho. Depois de marcar o estranho pênalti de Maldonado, de expulsar Luís Alberto e de validar o segundo gol do São Paulo -no qual Júnior estava impedido-, a coisa ficou clara: ele era nosso inimigo.

 

O Santos, herói do meu filme, fez o que pôde. Fábio Costa realizou boas defesas, os zagueiros deram chutões, e até Geílson entrou em campo como se fosse a cavalaria que chega no último minuto. Mas seus galopes não tinham muita direção. E, além disso, o aliado do vilão, o São Paulo, era bem mais forte que o Santos.

 

No final, Alex Dias, que entrou no segundo tempo como Geílson (só que foi uma cavalaria que deu certo), é que fez o gol de misericórdia. Foi como aqueles golpes finais de filmes de caratê, quando se quebra de vez o inimigo com uma última cotovelada. Ou, no caso, chute. E ainda houve um olé, que funcionou como aquelas piadinhas que surgem nos créditos.

 

O consolo é que o filme terá continuação. Como nos seriados de antigamente, do tipo Flash Gordon, o desfecho será na próxima semana. O mocinho do meu filme ainda pode se dar bem em “Santos X Portuguesa, a missão”. 

Por Torero às 06h33

02/04/2006

Mulher ou Timão, eis a questão

Mulher ou Timão, eis a questão

Ano de 1990.Dezembro, dia de final de brasileiro, Timão jogando pelo empate.

 

Um dia antes, meu melhor amigo, palmeirense, me convida a ir à matinê de uma danceteria nos Jardins. Prontamente, recusei.Mas, ao ser informado que algumas meninas do colégio pelas quais eu nutria certa 'simpatia' lá estariam, os hormônios falaram mais alto e resolvi abrir mão, com pesar,  de assistir ao que seria nosso primeiro título brasileiro.

 

Lá chegando, um telão ligado, mostrando videoclipes da época. Utopicamente sonhei com o jogo sendo transmitido ao vivo , no telão, e já me acomodei numa mesa onde a visão era privilegiada.Quatro horas passadas, e nada do jogo. Eis que me dirijo cabisbaixo até o bar, em busca de um refrigerante, quando me deparo com uma TV escondida abaixo de uma escada que levava à cabine do DJ. Desligada.

 

Não pensei duas vezes e, sorrateiramente, levei o dedo indicador ao botão para ligá-la. A imagem do jogo se montou à minha frente, e ali parei, esquecendo do refrigerante, das meninas que dançavam na pista, e de meu amigo. Apenas sofria com a pressão são-paulina e as defesas de Ronaldo, com Neto apagado em campo, e com Tupãzinho se esforçando ao correr por todos os lados do campo, nem sempre com produtividade.

 

Intervalo de jogo. Vou até onde meu amigo estava. Ele, fulo da vida, me diz onde eu havia estado aquele tempo todo. Praticamente me pegando pelo braço, me obrigou a entrar na pista para dançar com as meninas, onde ele enxergava a oportunidade de 'fazermos um gol' naquele dia.

 

Disse que não gostava de dançar. E lá foi ele sozinho. Voltei para perto da TV, já naquele momento com a companhia de vários outros corintianos e são-paulinos.

 

Eu ali, imóvel, até o lance fatal.

 

Tupãzinho tabela com Fabinho, este chuta, a zaga rebate e Tupãzinho marca de carrinho o gol do título. Era emoção demais. Quase fui às lágrimas, pulando, me descabelando e acabando com qualquer possibilidade de 'ficar' naquele dia. Mas eu nem ligava, só queria comemorar, gritar, extravasar. Meu amigo só olhava, de longe, balançando a cabeça negativamente, gesto repetido pelas meninas que me motivaram a estar ali.

 

Mas, qualquer menina que lá estivesse, e/ou que não entendesse o tamanho do meu corintianismo, certamente 'não era para o meu bico'...

 

Texto enviado por Carlos Fabrício Colombo Marques.

 

 

(PS: Mande seu texto com até 3 mil toques para o blogdotorero@uol.com.br)

 

Por Torero às 07h49

01/04/2006

999

999

19 de novembro de 1969. Maracanã. Pelé, autor de 999 gols, prepara-se para bater o pênalti contra o Vasco da Gama.

Ele ajeita a bola na marca de cal. Antes de bater, olha para as arquibancadas. Centenas de milhares de pessoas querem compartilhar aquele momento histórico. Ele também olha para Andrada, o goleiro magricela que, para tornar ainda maior a alegria de Pelé, é argentino.

Pelé começa a correr. Escolhe o canto direito e bate colocado à meia altura. Ainda cego pelos inúmeros flashes das máquinas fotográficas, não consegue entender direito o que se passa, mas a reverberação de um comprido “Uuuh!” chega aos seus ouvidos. Ele esfrega os olhos e vê Andrada com a bola apertada contra o peito. Não tinha sido daquela vez.

Pelé ficou triste e desmotivado; até pediu para ser substituído minutos mais tarde. No jogo seguinte, contra o São Paulo, esteve outra vez perto da glória, mas por duas vezes mandou a bola de encontro às traves.

Vieram outras chances. No empate contra o Palmeiras, o jovem goleiro Leão rebateu a bola à frente de seus pés; ele, porém, mandou-a para fora. Alguns dias depois deu dois chapéus em Ditão, mas acabou chutando em cima de Ado. Pena! Ele adorava vencer o Corinthians...

Pelé foi ficando nervoso e um dia, sem que ninguém visse, começou a beber. Primeiro foi uma cerveja, depois uma caipirinha e no fim acabou experimentando aguarrás. O efeito disso foi que começou a chegar atrasado aos treinos, caiu de rendimento e, diante dos clamores da torcida, perdeu a posição para Brecha.

Isso foi fatal para seus planos de jogar a Copa de 1970. Zagallo, receoso, não o convocou para a equipe tricampeã. Tostão jogou um pouco mais recuado no meio-campo e Dario foi o centroavante.

Nos anos seguintes, na reserva, Pelé não conseguiu fazer seu milésimo gol. Decidiu então despedir-se do futebol. As glórias passadas ainda estavam na memória de todos, e a Vila Belmiro lotou naquela tarde de 1972 para ver o seu adeus contra um combinado de craques. Quem sabe se na partida derradeira ele não chegaria ao milésimo gol.

Pelé estava infernal. Num lance brilhante, a Vila Belmiro quase veio abaixo. Pôs a bola no meio das pernas de Piazza, deu o drible da vaca em Luís Pereira, deixou Figueroa no chão e chutou colocado no ângulo. Ele já ia dar um soco no ar quando viu a bola sendo espalmada para escanteio pelo goleiro. O nome dele era Andrada.

Daquele dia em diante, ninguém mais o viu. Pelé deixou a barba crescer e ficou conhecido pelos habitantes de Três Corações como um mendigo esquisito, que vivia chutando pedrinhas como se estivesse cobrando um pênalti. E nunca acertava.

“Acorda, acorda!”

“Que foi, Assíria?”

“Você está tendo um pesadelo e não pára de me chutar!”

“Sonhei que perdi o pênalti contra o Andrada, entende?”

“Que bobagem... Dorme, Edson.”

Mas ele não consegue mais dormir e passa a noite em claro. Enquanto isso, em algum lugar, Andrada tem o mesmo sonho de Pelé. E sorri.

 

(Publicado originalmente em "Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso")

Por Torero às 07h48

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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