Blog do Torero

31/03/2006

Porcentagens

Contei os cem primeiros votos para o placar de São Paulo e Santos. Segundo os leitores, o Santos tem apenas 16% de chances de vencer. O empate ficou com 28% e o São Paulo é o favorito para 56%. Ou seja, a maioria acredita que o campeonato não acaba neste domingo.

Por Torero às 17h13

Meus meias inesquecíveis - Votação encerrada

Caros blogamigos, chegou a hora. Vamos escolher nosso par de meias. Isso mesmo, vamos eleger os dois de uma vez.

 

Sim, é uma exceção, mas os meias são a exceção do futebol. Ali não há lugar para quem não tem talento. Nas outras posições pode-se ser rápido ou forte, mas aqui, mais que tudo, é a morada do talento. Os meias deviam usar paletós de veludo e sapatos de couro alemão. O 8 e o 10, usem o número que usar, são os nobres do futebol. São duques, barões e viscondes. Que criança não quis jogar na meia? Só depois de reprovados ali é que eles vão procurar outra posição. Eu, é claro, fui empurrado para a ponta-esquerda.

 

Os bons meias são muitos. Não recordarei de todos, mas lembro, por exemplo, de Dicá, que vi já um tanto gordo (os nobres podem ser gordos), mas ainda com muita classe. E, já que falamos em rechonchudos, lembrei de Neto, que tinha um QI 200 e uma patada de jumento.

 

Falando em patada, lembro de Rivellino, e, falando em Rivellino, passo para seu rival Ademir da Guia. Sendo o assunto Palmeiras, não há como esquecer Jorge Mendonça. Do Jorge passo ao Mendonça, do Botafogo. E, se o assunto é Botafogo, não há como não falar de Quarentinha e Didi, o príncipe etíope.

 

Didi me lembra Zizinho, seu antecessor, e Zizinho me lembra Flamengo, time dos grandes Adílio e Zico. De Zico passo para a seleção de 82, cheia de meias, como Falcão, Cerezo, Paulo Isidoro e Sócrates, e de Sócrates passo para Raí. De Raí vou para o Rei (sobre quem tive a sorte de fazer o roteiro do filme Pelé Eterno, filme que vi –morram de inveja- em sua versão de seis horas).

 

Do Rei vou para o Santos, onde estiveram três magníficos meias: Pita, Aílton Lira e Giovanni, que na semifinal do Brasileiro de 95 pintou seu cabelo de vermelho. Cabelos pintados me fazem lembrar de Paulo César Caju e Ricardinho. Ricardinho me lembra Marcelinho Carioca, e a palavra carioca me faz chegar aos Juninhos Paulista e Pernambucano. Pernambuco lembra Bahia que lembra Bobô,

 

Bobô lembra São Paulo, que lembra Pedro Rocha, que me faz chegar aos estrangeiros, como o genial holandês  Cruiyff, os poloneses Deyna e Boniek, o falante francês Platini, e os argentinos Maradona, que teve uma vida de tango, e Ardiles.

 

De Ardiles vou para ardiloso, e ardiloso me faz pensar em Gérson, que gostava de levar vantagem em tudo, certo? De Gérson vou para cigarro, de cigarro para palha e aí chego a Palhinha. Pelo diminutivo lembro de Djalminha, Zinho, o genial Ronaldinho e Leivinha, hoje comentarista como Mário Sérgio, que usava bigode como Zenon, que jogou no Guarani com o bom Renato Pé Murcho, que era franzino como Tostão, que jogou no Cruzeiro com Dirceu Lopes, de onde chego ao Dirceu da seleção de 78. E Dirceu é o nome do meu pai, que não tem nada a ver com a história.

 

Pois bem, escolha seus dois meias. Acho que uma boa tática é você pensar que está morrendo. Aí, em seu delírio derradeiro, quando você estiver vendo os melhores jogos de sua vida passar em frente aos seus olhos, preste atenção em quais são os meias que estarão fazendo uma tabela no meio de campo. No meu caso, seriam Pelé e Geovanni. É claro que nunca jogaram juntos, mas delírio é delírio. Delire e vote.

 

(PS: Pelé não é hors concours) 

Por Torero às 08h34

Aposta

Caros Zés Cabalas, vamos a outro concurso. O primeiro a acertar o placar e os autores dos gols entre São Paulo e Santos leva um livro. E desta vez o prêmio é melhor, pois não é um livro meu. Desta feita o vencedor receberá um exemplar de “Meu jogo inesquecível” (Contato, 156 páginas). Bom, para falar a verdade há um textinho meu, sim, mas há outros 55 para compensá-lo, como os dos músicos Chico Buarque, Ivan Lins e Nando Reis, os dos jornalistas Juca Kfouri, Joelmir Beting, Luiz Zanin e Marília Ruiz, e os dos boleiros Scolari, Dinamite, Viola e Marcelinho Carioca. Mande aí seu palpite.

Por Torero às 08h32

Interior x Capital

Geralmente a capital do estado tem sempre os melhores times. As capitais são uma espécie de  golias futebolístico. Mas há vários davis por aí, vários times de outras cidades que, nestas finais estaduais, estão tentando vencer os gigantes das capitais:

 

Em Minas, o simpático Ipatinga desafia o poderoso Cruzeiro de Belo Horizonte.

 

Em Santa Catarina, o Joinville se baterá contra o Figueirense da bela Florianópolis.

 

No Paraná, o Paraná terá que enfrentar o Adap de Campo Mourão.

 

No Rio, o Madureira, que não é do interior mas é do subúrbio, tenta seu primeiro título estadual depois de 73 anos de existência.

 

Na Bahia, a final do primeiro turno está sendo entre o Vitória, de Salvador, e o Colo Colo, de Ilhéus.

 

No Espírito Santo, o Estrela do Norte, de Cachoeiro do Itapemirim, vai encarar o Vitória, de Vitória.

 

E, em São Paulo, o São Paulo terá que enfrentar o Santos, time de uma cidade mais de vinte vezes menor que a capital do estado.

 

Por Torero às 08h21

Livro para palmeirenses bem-humorados

 

Um livro simpático para palmeirenses é Coadjuvantes (Martins Fontes, 148 pp., R$ 29,50), de Gustavo Piqueira (com prefácio deste que vos escreve). O livro conta a adolescência de um palmeirense que cresceu exatamente no período mais negro da história do clube, o jejum entre 1976 e 1993. O livro é bem humorado e tem o charme de contar a história dos derrotados, daqueles que não venceram. E isso é um ato de coragem. Afinal, quantos livros de futebol falariam sobre Darinta, Aragonés e Bizu?

 

 

Por Torero às 08h20

30/03/2006

Edílson faz confissão

Edílson Pereira de Carvalho, o árbitro que bagunçou o Campeonato Brasileiro do ano passado, está dando agora uma entrevista para o programa Altas Horas, do Serginho Groisman, que vai ao ar neste sábado de madrugada. E ele confessou para qual time torce: é o Sport Clube Corinthians Paulista.

Ou seja, Edílson fez toda aquela confusão no Brasileiro e ainda comemorou o campeonato.

Realmente, não há justiça no mundo.

 

 

Por Torero às 15h40

Texto de hoje na Folha

Se você é uolista ou folhista, clique aqui  para ler o texto de hoje na Folha. O tema? As amantes e o futebol.

 

Por Torero às 07h45

29/03/2006

Pondo a boca no trombone, digo, microfone

Muita gente está contra os tais microfones utilizados no jogo Palmeiras x Corinthians. Eu sou a favor. Totalmente a favor.

 

É verdade que ele não deveria ser testado num grande clássico, o que só aconteceu porque a Federação desejava ganhar publicidade com a inovação, mas esse erro de estréia não invalida o tal microfone.

 

Na verdade, acho que o dispositivo é só um ensaio do que virá. Com ele poderemos ter alguém olhando câmeras que cobrem todo o campo e se comunicando com o juiz (e talvez tenha sido o que aconteceu no domingo). Com ele poderemos escutar o que diz o árbitro para os jogadores e vice-versa. Será um tremendo Big Brother. O árbitro estará mais vigiado e será bem mais complicado o surgimento de novos Edilsons.

 

Hoje em dia os juízes concorem com a TV, e é uma concorrência desleal. Ela tem muitos olhos, os árbitros, apenas seis. A ajuda da imagem digital, de microfones e chips podem diminuir esta diferença. Aliás, se já usássemos o tal chip, talvez hoje o goleiro Marcelo pudesse ler seu nome pichado em vários muros de maneira pouco elogiosa.

 

Também é preciso entender que a inovação não é só o microfone, mas as várias câmeras que vão fatiar o campo e permitir o controle total. É claro que ainda haverá falhas. O José Roberto Wright e o Arnaldo César Coelho volta e meia erram com a ajuda da TV (o Wright, pelo menos, volta atrás). Mas os erros vão diminuir.

 

Um perigo do uso da tecnologia é a demora nas decisões. E isso seria realmente uma perda lamentável. A tecnologia tem que trazer precisão e velocidade, não lentidão, discussões e polêmica. Aí a tecnologia seria burra. Ou os tecnólogos.

 

Outro risco da biguebroderização seria a instauração do politicamente correto dentro do campo. Coisas que, para alguns, dão graça ao futebol, como a sutil puxada na camisa do adversário, o palavrão ribombante, a jura de morte dita pelo zagueiro e a cotovelada vingativa e discreta do atacante, acabariam expulsas dos gramados. Eu acharia ótimo. Pelé, que era um mestre nestas pequenas malandragens, mais perdeu do que ganhou com a impunidade.

 

O microfone & cia. podem ser um pequeno passo para a humanidade, mas será um grande passo para o futebol. No futuro, nós mesmos vamos poder escolher as câmeras que queremos e poderemos escutar tudo, desde os gritos do técnico até as bravatas do juiz. E nós, torcedores, passaremos a assistir ao jogo de dentro de campo. 

Por Torero às 07h26

28/03/2006

Convite 1

Para você que é desempregado, vagabundo ou milionário, hoje, às 15h45, na ESPN, passa Benfica x Barcelona. Tem tudo para ser um jogão. Eu vou sentar na minha poltrona, pegar um balde de pipoca e assistir. E o melhor é que amanhã poderei dizer que passei a tarde toda trabalhando.

Por Torero às 07h37

Convite 2

O Museu da Língua Portuguesa é sensacional. Se você ainda não foi, está perdendo tempo.

Ele funciona na Estação da Luz e aos sábados é grátis (nos outros dias, a inteira é R$ 4,00 e a meia, R$ 2,00).

Eu, confesso, fui meio empurrado, pensando que "museu" e "língua" em geral são duas palavras que atraem coisas chatas. Me enganei. E feio.

O Museu é divertido e belo.

O primeiro andar, com uma exposição sobre "Grande sertão: veredas" é muito bacana.

O segundo andar, com uma tela de mais de cem metros onde passam vários minidocumentários (11 de seis minutos cada), e com um jogo criado por Marcelo Tas e Bráulio Mantovani, é bacanérrimo.

E o terceiro andar, onde há uma sala de projeção e a Praça da Língua (um treco que eu nunca vi antes e que nem vou tentar explicar), é bacanerrissíssimo.

Enfim, é um museu que vale a pena. Com trocadilho.

Por Torero às 07h34

27/03/2006

Tim Timão e Big Green, o duelo de duas mortes

Mais balas do que mosquitos cruzaram os ares de Paulistão City. Sim, ontem foi dia de tiroteio. Dia em que homens viram heróis. Ou defuntos.

 

Billy Santos, disparando suas balas de fogo embaixo de chuva, conseguiu vencer Jesse Juventus, que lutou bravamente. Eu estava lá e vi, escondido num canto do Pacaembu Saloon e protegido por uma capa à prova de chuva e de balas. Aliás, mais à prova de balas do que de chuva. Atchim!

 

Kid Norusca e Caetano Bill venceram o caubói Mack Manoel e a cauguel Marilia Mae, mas estão muito feridos. Ainda têm chances, mas só um milagre pode fazer suas esperanças sobreviverem a mais uma rodada de Paulistão City.

 

Lá embaixo da tabela, Mogi Boy está praticamente enterrado. Só falta uma pá de terra. Resta ver quem serão seus três companheiros de lápide. Por enquanto, os principais candidatos são o índio Guarani (muito ajudado neste fim de semana), Marilia Mae, Joe Joachim e seu irmão menor, Mack Manoel.

 

Mas foi no Saloon Morumby que aconteceu o mais esperado duelo do domingo: Big Green x Tim Timão.

 

Tim Timão estava ferido e pensava-se que ele não lutaria bem. Mas só pensou isso quem não sabe o que Tim Timão sente por Big Green. Quando ele viu o chapéu verde do inimigo, seu sangue ferveu, ele esqueceu de todos os tiros que havia levado, e começou a disparar suas armas. E logo no primeiro tiro acertou seu oponente.

 

Só que Big Green não é chamado de big à toa, e um grande não desiste da batalha. Ele levantou, sacudiu a poeira e partiu para cima. Tanto que logo depois também conseguiu alvejar Tim Timão (numa jogada que teve origem numa marcação errada do juiz, pois foi Washington quem fez falta no zagueiro corintiano).

 

Ver seu sangue jorrar fez bem ao implacável Tim Timão -ele luta melhor ferido-, e Tim começou a disparar novamente até que seu revólver argentino acertou o inimigo em cheio. O tiro furou a camisa verde-esmeralda de Big Green, mas Big usava uma medalhinha de ouro que ganhou de um Abade, e assim a bola, digo, a bala, não entrou em sua pele (vi várias vezes o lance e não vi a tal falta. Já quem viu a câmera da federação, diz que ela aconteceu).

 

Depois disso várias balas zuniram perto de um e de outro (o Palmeiras teve um pênalti não marcado a seu favor e Ricardinho perdeu duas boas chances), mas nenhuma acertou seu alvo (na verdade, parece que Marcelo chegou a colocar a bola dentro do próprio gol depois de uma defesa. Ah, se já houvesse o chip...).

 

O resultado do fim de semana é que Tim Timão, mesmo lutando com vigor, sofreu diversos ferimentos e está morto. Kid Norusca e Caetano Bill ainda respiram. Mas por aparelhos. Big Green e Jack Tricolor têm chances, mas terão que torcer para que uma bala perdida acerte Billy Santos. E Billy Santos tem que matar mais dois para ser o maioral em Paulistão City, o que não acontece desde o tempo das carruagens.

 

Enfim, meus amigos, não percam na próxima semana o duelo entre Jack Tricolor e Billy Santos. O duelo que pode decidir tudo.

Por Torero às 08h28

Prêmio

E o Zé Cabala da rodada, o primeiro a acertar o resultado de Palmeiras x Corinthians, e os autores dos gols, foi o Ânderson, assim mesmo, com um correto circunflexo no “a”. O Ânderson votou às 13h23 da quinta-feira e ainda acertou a ordem dos gols. Ele vai receber como prêmio, ou punição, um Terra Papagalli, romance histórico da autoria deste que vos escreve.

Por Torero às 08h26

26/03/2006

Final ou Fuvest?, eis a questão

Final ou Fuvest?, eis a questão

Essa história se passou no ano de 1983. Era a final do campeonato paulista e, mais uma vez se enfrentariam São Paulo e Corinthians.

 

Para mim havia apenas um problema, a primeira fase do vestibular da Fuvest seria no mesmo dia do jogo e eu havia me preparado para o vestibular.

 

Fazer a prova ou assistir o jogo, eis a questão.

 

No domingo de manhã eu saí de casa com o material da prova embaixo dos braços mas alguma coisa me dizia que eu não faria aquela prova. De qualquer maneira eu me dirigi à capital (a prova seria no bairro da Liberdade e naquela época eu morava na cidade de Suzano, na grande São Paulo).

 

Para meu desespero, um amigo meu também faria o vestibular e, como eu, era São Paulino.

 

No caminho tentávamos racionalizar e encontrar justificativas para tamanha besteira. Acabamos nos convencendo de que não estávamos tão bem preparados assim para a prova da Fuvest e, finalmente, e de consciência “tranquila”, alteramos o nosso traçado. Toca para o Morumbi!

 

Do vale do Anhangabaú pegamos o ônibus da torcida tricolor e chegamos ao estádio com algumas horas de antecedência. Foram algumas horas de angústia. Tudo o que eu conseguia enxergar à minha frente era a face do meu pai e como ele ficaria “irritado” com tal gesto. De novo eu racionalizei, afinal ele também era São Paulino e, “com certeza iria entender”.

 

Enfim, para encurtar a história, naquele dia uma das chuvas mais fortes que eu já vi caiu sobre a cidade de São Paulo. Estávamos ensopados na arquibancada, com frio apesar de ser verão, e para completar, o doutor Sócrates colocou a pá de cal sobre o nosso entusiasmo e nos trouxe de volta à realidade. É impressionante como até hoje eu tenho aquele lance estampado em minha mente. Doutor Sócrates mata a bola na coxa, na entrada da área pela direita e toca cruzado, rasteiro, no canto direito de Valdir Peres.

 

Era o fim. Hora de voltar para casa. E agora, o que dizer quando lá chegar. Tomamos uma lotação que nos levaria de volta ao Anhangabaú. Nosso dia de infortúnios ainda não havia acabado. Como se nada pior pudesse acontecer, a lotação quebrou na avenida Cidade Jardim. Ainda chovia e adivinhe? Sim, tivemos de empurrar a lotação por um bom trecho até que o motor voltasse a funcionar. Era o complemento com chave de ouro para esse inesquecível dia.

 

Ao chegar em casa minha mãe me perguntou como eu tinha ido no vestibular. Eu respondi “Não muito bem mamãe. Acho que não deu para passar, agora eu vou dormir”.

 

No ano seguinte eu prestei o vestibular e fui aprovado. Muitos anos já se passaram, o São Paulo depois ganhou alguns títulos sobre o Corinthians com a ajuda do Rei Raí - por ironia do destino o irmão do Doutor ou será o Doutor o irmão do Rei? - mas esse, sem dúvidas, foi o pior dia da minha vida.

 

Até hoje duas perguntas me assombram: “Como o doutor Sócrates pôde encontrar aquele espaço?” e “Onde foi que eu deixei o meu material da prova da Fuvest?”

 

 

Texto enviado por Paulo Pessoa.

 

(Para participar do Sempre aos domingos, mande seu texto de até 3 mil toques para blogdotorero@uol.com.br)

Por Torero às 07h38

25/03/2006

Um livro para ateus, outro para homens e um último para mulheres

Um livro para ateus, outro para homens e um último para mulheres

A Bíblia

 

A Bíblia é um livro excelente! E eu não estou falando em relação à fé. É que a Bíblia pode ser lida como literatura. Tanto o Velho como o Novo Testamento.

 

O Novo Testamento traz uma história perfeita, excelente, em quatro versões, o que é uma coisa bem moderna.

 

Mas acho que literariamente o Velho Testamento é mais rico. Ali você vai encontrar poesias eróticas, dramas familiares, contos fantásticos, guerras sangrentas, heróis cabeludos, dilúvios que quase exterminam a humanidade..., tem de tudo.

 

O que o James Joyce fez em Ulisses, aquele encadeamento de estilos, onde cada capítulo é escrito de uma forma diferente, a Bíblia já tinha feito milhares de anos antes. Mas, como ninguém lê a Bíblia como literatura, a gente acaba não valorizando esse texto, que é divino, mesmo para os ateus, como eu.

 

Malu de bicicleta

 

Se você é leitora e não leitor, por favor, pare de ler aqui. Obrigado. É que o livro de hoje é um livro sobre homens. Um livro que revela muito da psicologia masculina. Eu me senti até um tanto traído quando li esse livro, porque pensei: “Pô, essas coisas são um segredo nosso!, a gente não pode deixar as mulheres saberem que a gente pensa desse jeito!”. "Malu..." conta a história de um galinha, de um conquistador, de um cara que traçava todas as mulheres. Mas aí ele se apaixona, se casa, e começa a desconfiar que a mulher o trai. É uma trama simples mas que prende o leitor, que fica querendo saber se o personagem principal está sendo traído ou não.

 

Mas o mais interessante de “Malu de bicicleta” não são as peripécias sexuais. É a investigação psicológica feita pelo Marcelo Rubens Paiva, que revela como realmente pensam os homens. E isso não é uma coisa muito bonita. Espero que as mulheres não leiam o livro. Assim elas vão continuar com uma boa imagem da gente. Ainda bem que eu pedi para elas não lerem este texto.

 

A mulher que escreveu a Bíblia

 

Para manter o equilíbrio dessa coluna, para que não me chamem de sexista, de machão antiquado e de outras verdades, vou falar agora de um livro sobre mulheres. Ele foi escrito pelo Moacyr Scliar, que é um dos principais nomes da literatura brasileira, um escritor com mais de cinqüenta livros.

 

O Scliar conta a história de uma mulher feia, mas muito feia mesmo, que foi parar no harém de Salomão, que, para quem não sabe, tinha setecentas esposas e trezentas concubinas. E essa mulher era feia mas sabia escrever, o que era muito raro na época, de modo que ela acaba recebendo a missão de escrever a história do povo judeu.

 

O livro tem uma escrita muito ágil, muito saborosa, e o leitor vai escorregando pelas páginas sem perceber. É daqueles livros que, de repente, você olha e diz: Nossa, já tô na página 122!” E isso quase sempre é um bom sinal. Mas o que eu gostei mais foi da revelação da psicologia feminina. O livro parece mesmo ter sido escrito por uma mulher. E entender o pensamento das mulheres não é fácil, para nós, homens. Não mesmo!

Por Torero às 07h42

24/03/2006

Libertadores e Copa do Brasil começam a esquentar

A rodada de meio de semana da Libertadores foi emocionante e, em geral, boa para os brasileiros, quase todos perto da classificação. Em ordem de chances de passar para a próxima fase, a coisa está mais ou menos assim:

 

O Internacional, depois da vitória heróica sobre o Pumas, está praticamente classificado.

 

O Goiás lidera com larga vantagem e foi uma surpresa entre os brasileiros. Perdeu vários jogadores, mas saiu-se muito bem nesta primeira fase e ainda está com um pé na final do estadual.

 

O São Paulo está em segundo, mas joga duas vezes em casa e tem tudo para ser campeão do grupo.

 

O Palmeiras quase venceu ontem, mas bobeou no finalzinho e cedeu o empate. Mesmo assim, jogou bem e parece que está se acertando. O time já não é tão imprevisível quanto há um mês. Mesmo que perca do Atlético, classifica-se vencendo o Cerro Porteño no Parque Antártica, o que está longe de ser uma missão impossível.

 

O Corinthians corre sérios riscos. Deve ganhar fácil do Deportivo Cali, mas a decisão da vaga será o jogo contra o Universidad Católica, em Las Condes, no dia 6 de abril. Se perder, provavelmente o sonho da Libertadores ficará adiado por mais um ano.

 

E o Paulista, mesmo com dois dos três jogos restantes em casa, tem chances remotas. É o brasileiro mais perto de cair nesta fase.

 

Na Copa do Brasil, as coisas começam a se decidir. Dos dezesseis grupos, quatro não terão o segundo jogo. Passaram direto para as oitavas o Santos, que enfrentará o Brasiliense, o redivivo Guarani de Toninho Cerezo, o Cruzeiro, que agora tentará vencer o Vitória, e o Fluminense, que bem precisava de uma vitória destas.

 

Dois grandes já caíram: o Botafogo foi vencido pelo Ipatinga de Walter Minhoca e o Grêmio, num jogo emocionante, foi batido nos pênaltis pelo 15 de Novembro.

 

Ainda correm perigo o Atlético-PR, que perdeu para o Volta Redonda, e o Vasco, que só empatou com o Iraty mas decide.

 

Mas a Copa do Brasil ainda está naquela fase em que só sabemos contra quem nosso clube jogará. Daqui a pouco, quando sobrarem oito times, é que o torneio vai mesmo pegar fogo.

Por Torero às 10h17

Texto da Folha

Link para o texto de ontem da Folha, que é sobre times pequenos e mulheres pouco belas: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk2303200618.htm

(PS: Só para assinantes da Folha ou do UOL)

 

 

Por Torero às 10h16

23/03/2006

Um aviso

Passa hoje, às 17h30, e amanhã, às 10h00, no Canal Brasil, o filme Flamengo Paixão, dirigido por David Neves.

Por Torero às 09h56

Uma pergunta

O Corinthians passou pelo Tigres. Passará por Leão?

Por Torero às 09h54

Uma aposta

O primeiro que acertar placar e autores dos gols de Palmeiras x Corinthians ganha um livro da lavra deste que vos escreve. Não sei se é prêmio ou punição, mas é grátis.

Por Torero às 09h54

22/03/2006

E o volante inesquecível mais votado foi...

Os votantes dos volantes foram tantos que citarei aqui não os dez, mas os vinte mais votados.

 

Fora estes vinte, outros 95 foram citados, entre eles Batista (4), Zito (1), Dudu (8), Dino Sani (2), o hábil Moacir (3), Zé Carlos (2), Dema (5), Mauro Silva (7), Josué (4), o bom baiano Paulo Rodrigues (3), o potente Lima (3), o imortal Capitão (4) e os volantes da seleção, Émerson (4) e Zé Roberto (1).

 

Em 19º. ficaram os lutadores Dinho e Magrão, com 10 votos.

 

O 18º. Foi Zé Elias (11), quase sempre citado como o “Zé da Fiel”.

 

Um voto à sua frente ficou Amaral, inesquecível por seu empenho e beleza.

 

Com 14 votos, em 14º. lugar, houve um tríplice empate: o grande Clodoaldo, o marcante Pintado e o saudável Fubá.

 

Em 13º. ficou Cerezo (19), que, pensei, estaria entre os dez mais.

 

Na décima-primeira posição tivemos um empate entre Biro-Biro e Andrade, fôlego e classe, disposição e estilo.

 

Finalmente, chegando aos dez mais, temos Redondo (22), o mais votado entre os jogadores que nunca atuaram por times brasileiros. E o sujeito realmente merece. Perto de Redondo, os outros pareciam jogar uma bola quadrada (essa foi ruim, eu sei, mas não pude resistir).

 

O 9º. Lugar foi para o incansável César Sampaio (23), um jogador que todo mundo gostaria de ter em seu time.

 

Em 8º. ficou um volante violento, o paradigma, o mitólogico e inesquecível Chicão. E, curiosamente, este símbolo de macheza e virilidade teve 24 votos.

 

À sua frente, com 27 lembranças, ficou Vampeta, o das cambalhotas na rampa do Planalto.

 

Em sexto, outro corintiano: Ezequiel (35). Para mim, foi uma surpresa. Nunca imaginaria que o esforçado Ezequiel teria tanta gente reconhecendo seu trabalho.

 

O quinto colocado foi Galeano (38), para mim, o mais típico dos volantes.

 

Em quarto, o mais votado entre os estrangeiros: Rincón (44), volante do melhor Corinthians que eu vi jogar. 

 

A medalha de bronze vai para o mais habilidoso dos volantes: Falcão (51).

 

A de prata, com 77 votos, fica com aquele que, acho, é o mais marcante dos volantes brasileiros. E não digo marcante apenas no sentido de que ele marcava bem, mas porque ele marcou época, tanto que criaram a expressão “Era Dunga”. Na história dos volantes brasileiros, talvez tenhamos que escrever A.D. e D.D.

 

E em primeiro ficou Mineiro (102), que fez o gol mais importante da história do São Paulo. Não só pelo gol, mas por ser o motor que empurra a máquina tricolor.

 

Por Torero às 07h16

20/03/2006

Um passeio pelos estaduais ou Tradição e ruptura

Os campeonatos estaduais começam a se definir e há uma disputa entre ruptura e tradição. Em alguns estados há várias caras novas nas finais, em outros, há os de sempre, e em alguns temos uma interessante mistura de nomes antigos e desconhecidos.

 

No Rio de Janeiro, por exemplo, os pequenos é que reinam. Madureira, América, Americano e Cabofriense farão as semifinais da Taça Rio. Não me lembro que isto tenha acontecido alguma outra vez. Nenhum dos quatro grandes estar entre os semifinalistas é sinal de alarme. Com luz vermelha piscando e sirene tocando. Torcerei pelo América, que, caso fosse um campeonato por pontos corridos, já seria o campeão. De qualquer forma, ele já está classificado para a Série C do Brasileiro e para a Copa do Brasil de 2007. Ou seja, terá um ano cheio, o que pode sedimentar sua recuperação. Quanto aos quatro grandes, sem querer agourar, lembro que no Brasileiro deste ano caem quatro clubes.

 

Em outro Rio, o Grande do Sul, o favorito Inter espera pelo seu rival, que deve ser o Grêmio, que só precisa empatar em casa com o Veranópolis. Nada como a tradição gaúcha.

 

Em Santa Catarina começarão as semifinais: Os tradicionais Figueirense e Joinville e os emergentes Atlético de Ibirama e Juventus são os candidatos ao título. O simpático Avaí de Guga ficou pelo caminho.

 

Mais semifinais no Paraná, onde o tradicional Paraná enfrentará o nem tão tradicional Rio Branco e o tradicionalíssimo Coritiba jogará contra o novato Adap. O Atlético Paranaense, que nos últimos anos vem sendo o destaque do estado, ficou sem vaga e foi abandonado pelo seu técnico alemão.

 

Em Pernambuco, faltam três rodadas para o final do returno. O Sport é líder, um ponto à frente do Santa Cruz, que venceu o primeiro turno. No próximo domingo tem Santa e Sport no Arruda. Se o Santa de Carlinhos Bala vencer este turno, nem haverá final.

 

Na Bahia, a decisão do turno será entre Vitória e Colo Colo. O Bahia está fora das finais, e isso já está virando tradição.

 

Em Goiás passaram para as semifinais os tradicionais Goiás, Vila Nova e Atlético, que venceram 28 dos últimos 30 campeonatos, e o virgem Anapolina. Saíram na frente o virgem e o Goiás.

 

No Ceará, as semifinais terão os já conhecidos Fortaleza, Ceará e Ferroviário. O novato na festa será o Icasa, que já nem é tão novato assim.

 

No quadrangular final do Distrito Federal, o Luziânia vem à frente, seguido pelos já conhecidos Brasiliense e Gama, e pelo nem tão famoso Ceilândia.

 

Na Paraíba, terra de tradições, o tradicional Treze de Campina Grande ganhou o primeiro turno em cima do seu tradicional rival, o Botafogo, e já se garantiu na Série C do Brasileiro.

 

Em Minas, Cruzeiro e Atlético empataram. Melhor para o Cruzeiro, que com outro empate vai à final. Na outra semifinal, o invicto Ipatinga venceu o América fora de casa. E esta vitória pode ser um sinal de que o Ipatinga está tirando o lugar do América em Minas Gerais. 

 

Por fim, em São Paulo, o campeonato parece estar centralizado em três times tradicionais: Santos, São Paulo e Palmeiras. O Santos, para acabar com seu jejum de mais de vinte anos, continua no seu regime de vitórias diet (ontem, porém, teve até um segundo golzinho de sobremesa). O São Paulo bobeou frente ao Noroeste, com Alex Dias perdendo vários gols, e o Palmeiras conseguiu uma vitória sensacional, daquelas que empurram o time. Logo atrás vêm o Noroeste, a surpresa do Paulistão, e o São Caetano, que já não é surpresa mas ainda não é tradição.

 

Enfim, uns times caem, outros sobem e alguns se mantêm. Como diria o grande comentarista esportivo Oswald de Andrade: “Os times vêm, os times vão, os times vão e vêm, mas não em vão.”

Por Torero às 07h32

19/03/2006

Crônica de uma bicuda anunciada

Crônica de uma bicuda anunciada

A data eu não lembro, mas eram umas 10h30 da matina de um mês de julho quando a tia da escola tocou o sino. Era a senha para que a criançada fizesse fila em busca de um cachorro-quente, alimento fácil de fazer e de comer aos montes, mas raríssimo numa merenda de colégio.

 

Era também 1992, ano em que o São Paulo disputaria pela primeira vez, no final do ano, o título de melhor do mundo, time mais poderoso do planeta, bambambam entre os esquadrões de todo o continente. Enfim, era um jogo aguardadíssimo, desses de acelerar o coração, mesmo o de uma criança de apenas 9 anos de idade, como eu, fanática por futebol.

 

Só sei que no pátio da escola, como era comum, tinha uma gincana de festa junina, que devido aos atrasos da direção da escola, havia se transformado numa festa julina com desfecho trágico, pelo menos para o coração de um moleque são-paulino. É que lá pelas tantas, quando a criançada não agüentava mais comer cachorro quente, começou um sorteio de bugigangas úteis no dia a dia, mas nem por isso menos bugingas do que deveriam ser, como ventiladores, quadros pintados á mão, arranjos de flores e edredons para camas.

 

O responsável por comandar a festa toda, e o ritual de entrega dos presentes era um tiozinho magricela, com um bigode ralo e com alguns fios brancos (é, dizem que nas tragédias, a gente se recorda de fatos que nem imagina). Tinha um ar piadista, um jeito bonachão, e soltou da goela a frase que eu mais queria ouvir na vida. “Aí molecada, quem subir aqui nesse palco e cantar o hino do São Paulo, sem errar, ganha uma passagem de ida e volta para o Japão”.

 

Suei frio, subi as escadas com toda a velocidade que tinha nas minhas pernas bambas. Tímido que só eu, quase arranquei o microfone daquele senhor que no momento era o meu herói. Colocaria uma foto dele ao lado do pôster com Muller, Raí, Palhinha, Cafu, Zetti e do grande Macedo. Bom, colocaria...

 

Cocei o pescoço, preparei a garganta e cantei o hino de cor e salteado, sem um errinho, uma estrofe pulada, métrica fora do tom, ou sei lá como se define isso. Me recusei a olhar para a platéia, com medo de gaguejar, típico dos tímidos. A verdade é que quando terminei de cantar senti um alívio, e olhei para o rosto do meu mais novo ídolo em busca do prêmio. “Me dá a passagem, tio?”, sussurrei.

 

Alguns alunos aplaudiam, e corinthianos e palmeirenses me vaiavam, é claro.

Não importava, eu tinha o passaporte, e voaria rumo a Tóquio. O problema é que o tal senhor do bigode ficou sem palavras, sem nada nos bolsos e nas mãos. Quando percebi a enrascada em que havia me metido, o silêncio já pairava no ar.

 

Não medi as conseqüências e lembrei de Ronaldão, o maior zagueiro de todos os tempos, pelo menos para um garoto são-paulino em 1992. Meti a bicuda naquela canela fina e só ouvi o gemido. “Ui!”.Mas tenho certeza, até hoje, que meu coração doeu bem mais diante daquela tragédia.

 

 

Texto de Ângelo Renato Tibério.

Por Torero às 05h07

18/03/2006

E o meu voto para volante vai para...

E o meu voto para volante vai para...

Galeano.

 

Isso mesmo, Galeano.

 

É fácil exaltar os feitos de um Pelé, rei dos reis, autor de mais de mil gols.

É fácil cantar a glória de um Garrincha, gênio do imprevisível, poeta do drible.

 

É fácil cantar a arte de Rivelino, a inteligência de Didi, a classe de Falcão, o talento de Sócrates, a genialidade de Zico, a sagacidade de Romário, o passo e o compasso de Ademir da Guia.

Já tecer louvores a Galeano e aos galeanos não é assim tão simples.

Muitos dos belos gols dos gênios acima nasceram dos passes de um Tião, de um Caçapava, de um Miron, de um Mococa, de um Chicão, de um Galeano. Mas eu lhes pergunto: "Alguém se lembra deles?""

E eu lhes respondo: "Ninguém."

A história louva os arquitetos, elogia os decoradores, mas esquece os pedreiros.

E quem é o pedreiro do futebol?

É o volante. É o Galeano. São os galeanos.

Galeano é o símbolo daqueles jogadores de quem ninguém gosta, daqueles que vaiamos, daqueles a quem chamamos de burro quando erram um passe, daqueles de quem dizemos que não é digno de vestir a camisa do nosso clube.

Mas Galeano, como a Amélia do samba, têm muitas virtudes.

Galeano é um herói anônimo e solidário, que joga pensando no time. Geralmente só e sem cobertura, é aquele que leva dribles humilhantes, que cai sentado, que dá carrinhos, que agarra os velozes atacantes pelos pés.

Também é aquele que tem que fazer faltas atrás de faltas e que, por isso, passa a vida a contar cartões amarelos, expulsões, multas e julgamentos.

Pobre carregador de piano que substitui o lateral, o beque-central, o quarto-zagueiro, o meia de armação e às vezes até atreve-se a fazer gols.


Os galeanos são vários e podem se chamar Amaral, Claudiomiro, Leandro Ávila, Dunga, Marcos Basílio, Reidner, Gilmar, Edmilson, Capitão, Simão ou até Galeano.

Nobre Galeano, tu, como os bombeiros, como os doadores de sangue, como os anjos da guarda, tens a sina de só ser lembrado na hora da dificuldade e depois esquecido. Jamais és o eleito da torcida.

Mas, pelo menos hoje, meu voto é teu.

 

(PS: Votação encerrada)

Por Torero às 05h45

Convite

 

Hoje estarei na Bienal às 15h00, falando sobre literatura e cinema. Mas se alguém da platéia perguntar alguma coisa sobre futebol, estamos aí. E amanhã, domingo, às 16h00, estarei conversando sobre literatura infantil.

Por Torero às 05h44

16/03/2006

Qual o seu volante inesquecível?

Eleger o volante inesquecível é um paradoxo, pois o volante é o mais esquecível dos jogadores. E antes que o leitor franza o cenho, pense em quantas vezes você gritou o nome dos volantes do seu time. Poucas, muito poucas. Gritamos os nomes dos artilheiros quando eles marcam gols, dos meias quando dão belos dribles, dos goleiros quando fazem grandes defesas, dos zagueiros quando salvam um gol em cima da linha e, às vezes, até dos laterais quando cruzam com perfeição.

 

Mas os volantes, que são os que saem mais sujos de campo, nunca têm o seu nome gritado. E eles não reclamam. O volante é, antes de tudo, um discreto.

 

Ele é um destruidor, mas não o destruidor-salvador, como os zagueiros e os goleiros. Ele não mata o dragão que solta fogo pelas ventas. Mata-o quando mal começa a engatinhar. O volante acaba com a jogada antes que a jogada seja realmente uma jogada. Por isso não é visto como herói, mas como operário. E ninguém bate palmas para os operários. Ou você já parou em frente a uma construção e começou a aplaudir os pedreiros dizendo: “Que alinhamento de tijolos! Uma beleza, uma beleza!”? Não, meus caros, os volantes nasceram para a sombra. 

 

Mas há exceções. Creio que as duas maiores são Zito e Dunga, que nas Copas lideraram suas seleções. Eles são símbolos de eficiência e garra, mas também foram os generais de vitórias inesquecíveis (se bem que, cá entre nós, o pessoal lembra mais de Pelé, Garrincha e Romário).

 

Existem vários tipos de volantes. Há o volante-jumento, que distribui patadas para todo lado, e entre estes o meu ídolo era Chicão. Seu bigode de bandido mexicano impunha respeito. E o bigode combinava com seu futebol.

 

Há o volante-gato, que tem um estilo mais aristocrático. É o caso de Zé Carlos, que desfilou seu futebol pelo Cruzeiro e pelo Bugre, de Andrade, que jogava o fino no Flamengo, de Dudu, símbolo palmeirense, de Carlos Alberto Pintinho, do Superfluminense, e de Marcos Assunção, que jogou algum tempo pelo Santos. Desta estirpe também são muitos meias recuados, como Cerezo, Falcão, Carpegiani, Renato, Juninho Pernambucano e Rincón.

 

Batista, do Inter, fez o caminho inverso. Era um volante e virou meia. E era dos mais completos. Marcava, tinha um bom passe e um fôlego de camelo.

 

Aliás, os volantes-camelos são um capítulo á parte. Eles correm muito e nunca se cansam, como Biro-Biro, César Sampaio, Paulo Almeida, Flávio Conceição, Fabinho, Mineiro, Josué e o belo Amaral.

 

Há o volante-carrapato, como Caçapava, China, Wilson Mano, Galeano, Bonamigo e seu exemplo máximo: Mauro Silva, que desde os tempos de Brangantino já transformava times médios em equipes competitivas.

 

E o volante-formiga, típico do São Paulo, como Pintado, Doriva e Dinho. Esses são bem fáceis de esquecer. A não ser que você seja são-paulino, porque os volantes do nosso time, a gente lembra.

 

Pelo Santos, por exemplo, além dos já citados Zito, Chicão, Dunga, Paulo Almeida, Renato, César Sampaio e Marcos Assunção, lembro de Dema, que parecia que iria chegar à seleção, Lima, o cornga, que no começo dos anos 70 se fixou por ali, Clodoaldo, o tricampeão, Carlinhos e Gallo, do time de 95, e agora há este Maldonado, tão bom que é o principal xodó da torcida. Apesar de ser volante.

 

Mas há outros, muitos outros. Há Vampeta, boa mistura de habilidade e velocidade e marcação, Vanderlei, daquele Atlético campeão brasileiro em 71, Nasa, um volante-volante, Claudecir, que até fazia gols, Márcio Araújo, que pôs Falcão na reserva, Bernardo, que parecia ter dois metros e meio, a dupla da seleção, Émerson e Zé Roberto, que tanto sucesso faz em terras estrangeiras, e os outros que eu esqueci. Mas, como já disse nas primeiras linhas, os volantes são esquecíveis.

 

O meu voto só revelarei amanhã, aqui na seção "Sábado do criolo doido". É um voto tão particular que merece um texto especial. Mas você pode votar já. Diga aí: Qual o seu volante inesquecível?

 

(PS: VOTAÇÃO ENCERRADA)

Por Torero às 19h54

Texto de hoje na Folha de S.Paulo

Procura-se um técnico

JOSÉ ROBERTO TORERO
COLUNISTA DA FOLHA

Desempregada leitora, vagabundo leitor, você quer um trabalho com salário de R$ 300 mil, numa corporação com muito dinheiro para gastar e tendo à sua disposição subordinados de reconhecido talento?
Então você deve se apresentar à rua São Jorge, 777, no horário comercial, munido de CIC e RG, e falar com o senhor Kia Joorabchian.
Sim, meu caro, um dos cargos mais importantes do futebol brasileiro está vago. Por enquanto ninguém pegou o lugar de Antônio Lopes (pelo menos até o momento em que escrevo estas mal atachadas linhas).
Geralmente, quando um time está fritando um técnico, já conversa com outros. Mas isso não aconteceu com o Corinthians, que agora enfrenta um vácuo de poder enquanto encerra o Paulista e disputa a Libertadores. Lamentável, tsc, tsc...
Mas não é hora de lamentações, e sim de ação! E eu, meu caro, como estou sempre disposto a contribuir para o bem do futebol nacional, venho aqui dar meu palpite sobre quais as características ideais para o novo treinador:
A primeira é que ele seja corintiano. É necessário amar o clube. Chega de mercenários e de técnicos que nem sabem como é o escudo do time. Passarella, por exemplo, sucumbiu porque não entendia a alma alvinegra. Pois que o próximo seja alguém que já tenha declarado seu amor ao Sport Club Corinthians Paulista.
Outra qualidade necessária é a diplomacia. Como é um clube com clara divisão entre MSI e velha-guarda, é necessário alguém acostumado a conviver com grupos discordantes, que brigam por qualquer coisinha. Terá que fazer com que as duas partes dêem as mãos ou, pelo menos, não se atraquem. Uma mistura de terapeuta de casais com juiz de boxe.
É importante que seja alguém que fale a linguagem dos jogadores. Nada de técnicos metidos a professores universitários, dizendo frases em inglês. Tem que ser alguém que se expresse de um modo simples. E, se comer os esses, melhor ainda.
Como a MSI é uma coisa um tanto nebulosa, seria de bom tom um treinador pouco curioso, que não pergunte de onde vem o dinheiro que lhe traz tantos atletas.
O novo técnico também deve saber falar com a imprensa. Ninguém no país dá tantas entrevistas quanto o técnico do Corinthians, e colocar nesse posto alguém que não saiba se expressar seria um erro lamentável.
E, por fim, é preciso que seja um sujeito que entenda de futebol, que fale sempre do assunto, que demonstre conhecimento e preocupação com a coisa.
Pois bem, meus caros leitores, pensei, pensei e cheguei à conclusão de que só uma pessoa tem todas essas qualidades. Isso mesmo, ele: Luiz Inácio Lula da Silva!
Talvez tenha sido isso que o presidente corintiano tanto queria falar com o presidente brasileiro na Inglaterra. Só porque os guardas da rainha não deixaram Dualib entrar é que o Corinthians ainda não anunciou seu técnico.
Lula lá!

Por Torero às 12h38

15/03/2006

E o lateral-esquerdo mais lembrado foi...

Quando nasceu o menino, veio um anjo torto, um chato dum querubim, e disse no seu ouvido, “vai, moleque, vai ser lateral-gauche na vida”.

 

Isso aconteceu com muitos. Com Rildo (2), com Lúcio (4), com Paulo Róbson (1), com Felipe (2), com Pedrinho (2), Everaldo (1), Zeca (3), Dutra (1), Nery (5), Kléber (7), Luxemburgo (2) e Nonato (3).

 

E quais os mais memoráveis deles? Quais são os que foram mais amados, idolatrados e, até, odiados? É o que veremos agora. Sim, meus caros, com fogos de artifício e rufar de tambores, vamos aos resultados do “lateral-esquerdo inesquecível”!

 

Curiosamente, vários foram lembrados não por momentos sublimes, mas pelos instantes de dor que causaram. Foi o caso de Ademar (2), do Náutico, que perdeu o pênalti na decisão da série B no ano passado, o caso de Bigode (2), da Copa de 50, o de Edinho (4), uma invenção de Cláudio Coutinho que não deu certo, de Jacenir (8) e Elias (6), que trazem tantas lembranças de lambanças à Fiel, e do inesquecível Denys, que com 15 votos acabou em 12º. lugar.

 

Ele ficou à frente de Sorín (12), o estrangeiro mais votado, de Nelsinho (12), aquele loirinho que corria muito e parecia o Sting, de Júnior (10), do Palmeiras e do São Paulo, e de Maldini (8). 

 

Em 11º. ficou Sylvinho (19), aquele ex-corintiano que teve uma longa virgindade futebolística, pois demorou muito para marcar seu primeiro gol.

 

Entrando na “Galeria dos Dez Mais” temos Marinho Chagas (21), o diabo loiro, tão imprevisível quantos as senhoritas em dias especiais.

 

Cinco votos acima ficou o lateral-goleiro Ronaldo Luís, que acabou sendo lembrado menos por cruzamentos perfeitos ou chutes venenosos do que pelos gols adversários que evitou em cima da linha. Ele ainda foi o campeão de votos anulados, pois um mesmo internauta votou várias vezes nele. Tsc, tsc...

 

O oitavo foi Serginho (27), o rápido ex-são-paulino que infelizmente desistiu de jogar pela seleção brasileira.

 

Em sétimo ficou o glorioso Nilton Santos (28). O número pode parecer pequeno frente à fama do jogador, mas há que lembrar que até agora ele é o jogador pré-televisão mais votado.

 

O sexto foi Leonardo (30), que teve grandes momentos no Flamengo e no São Paulo, mas que fez a maior parte de sua carreira no Milan.

 

Léo, do Santos, ficou em quinto lugar, com 34 votos. Para mim, que não vi Rildo e Dalmo, é o maior lateral-esquerdo da história do time.

 

Branco, o quarto colocado com 49 votos, teve o lance mais lembrado entre os laterais-esquerdos: o gol frente a Holanda na Copa de 94.

 

A medalha de bronze vai para Wladimir (52), o jogador que mais vezes vestiu o manto corintiano até hoje (803 partidas).

 

Roberto Carlos, nosso titular da lateral há uma dezena de anos, foi o segundo mais lembrado, com 60 votos. Ele é polêmico e muitos o consideram antipático e esnobe, mas o fato é que poucos conseguiram ser tão bons por tanto tempo. Desde seus primeiros passos (e chutes) pelo União São João, ele se mantém na crista da onda.

 

E o vencedor, com 82 votos, foi o senhor Leovegildo, também conhecido como o “Júnior do Flamengo”, um jogador que conseguiu unir todas as boas qualidades de um lateral-esquerdo: cruzava, chutava, driblava, marcava, tinha velocidade e resistência. Um lateral-esquerdo tão gauche, mas tão gauche, que era destro.  

Por Torero às 07h16

Comentários comentáveis

Já que o assunto é lateral-esquerdo, desta vez selecionei alguns comentários mais sinistros:

 

O meu lateral inesquecível é Jacenir! Que lindo era ver aquela zaga com Giba, Marcelo Djian, Guinei e Jacenir. Segurança total para o sempre ídolo Ronaldo.

(Thiago Dacal)

 

Ademar, aquele desgraçado que perdeu o segundo pênalti do Náutico contra o Grêmio no ano passado e tá jogando aqui no glorioso até hoje, me dando ódio. Nem se quisesse eu conseguiria esquecer.

(Davi)

Elias, que jogou no Corinthians entre 1993 e 1994. Pelo lado negativo, claro. Ele foi o pior jogador que já vi com a camisa corinthiana e me fez pegar raiva da camisa 6. Por muito tempo - e por culpa dele - achava que vestir a 6 era sinônimo de ser perna-de-pau. Ele faz parte dos que, de tão terríveis, se tornam inesquecíveis.

(Bruno Hoffmann)

Sempre que tento pensar em futebol para esquecer meus problemas, lembro que o Lúcio joga no meu time, e decido voltar a pensar em meus problemas. Os outros problemas me incomodam menos. Infelizmente não consigo esquecê-lo.

(Edu)
 

Jorginho Paulista!! Ver esse cara jogar faz qualquer perna de pau sonhar em ser jogador...

(Luciano)

Inesquecível mesmo é o Marcinho "Caganeira" que jogava no Grêmio em 2005 e num jogo contra o Bahia deu a famosa entrevista dizendo que tinha sido substituido porque tava muito fraco ja que tava com caganeira e especificou os detalhes. Não teve narrador que conseguisse continuar narrando o jogo a sério depois daquela..

(Alexandre Morais)

Fico com o Paulo César Magalhães, campeão do mundo pelo Grêmio em 83. Era podre de ruim. Não sabia passar, chutar e nem cobrar lateral. Aliás, foi o inventor da cobrança de lateral para trás.

(Dylan)

 

O lateral esquerdo que não esqueço é o Wanderley Luxemburgo, que ainda me deve uma grana.
(Edmundo Animal)

 

Por Torero às 07h09

13/03/2006

Tim Timão e Jack Tricolor, o duelo sangrento

O vento empurrava preguiçosos rolos de feno de um lado para outro nas ruas de Paulistão City. Tudo parecia em paz. Mas apenas parecia. De repente começou o tiroteio. Foi um “salve-se quem puder”. Ou melhor, um “mate quem conseguir”.

 

Logo de cara, Big Green e Caetano Bill enfrentaram os caubóis lusitanos Joe Joaquim e seu irmão menor Mack Manoel. Big Green sofreu mas venceu. De quebra, talvez tenha achado sua melhor arma. Trocou o otimista Colt 4-4-2 pelo modesto Smith & Wesson 3-5-2 e deu certo (com a volta de Paulo Baier, deve dar mais certo ainda).

 

Já Caetano Bill não teve a mesma sorte. Foi ferido por Mack Manoel e está quase morto. Kid Norusca também bobeou. Trocou tiros com Bento Boy e os dois saíram perdendo. Ou empatando, o que dá quase no mesmo.

 

Billy Santos, que estava com sua roupa imaculada, sem um furo de bala há muito tempo, levou duas flechadas de um índio Guarani. Foi o bam-bam-bam de Paulistão City por uma semana, mas já não é mais. Lutou sem o mesmo ânimo de sempre e, quem não tem pontaria, tem que atirar mais e se esquivar com perfeição. Senão...

 

Porém, o grande duelo, o principal, o mais emocionante, aconteceu ontem, às quatro da tarde, no Saloon Morumby.

 

A tensão era total. Tim Timão e Jack Tricolor olhavam-se nos olhos. Escondido embaixo de mesas e atrás de pilares, o ansioso público esperava o duelo.

 

Então começa o bang-bang! Jack Tricolor é muito mais rápido, atira com as duas mãos como se fossem quatro e despeja chumbo em Tim Timão. Estranhamente, Tim não conseguia dar nem um tirinho, e só então reparou que sua arma não havia sido carregada corretamente por seu assistente, o mexicano Tony Lopez (como se troca o Roger por um terceiro zagueiro? É muito medo!).

 

Por meia hora as balas de Jack zunem nos ouvidos de Tim, que vai se salvando como pode (Betão jogou muito bem). Mas então o inevitável acontece: Tim é alvejado.

 

Os dois param para tomar um uísque e desamassar os chapéus (os caubóis também têm vaidade).

 

No segundo tempo, Tim volta novamente com a arma descarregada (ah, Tony Lopez...) e logo de cara leva um segundo balaço. Só aí, já com sangue escorrendo, é que Tim coloca balas Roger dum-dum em seu revólver. E a coisa muda de figura. Tim passa para o ataque e finalmente consegue dar um tiro livre em Jack. Só que Jack estava com seu colete à prova de balas (marca Rogério Ceni) e se safou dessa. No fim, Tim ainda acerta um belo tiro em Jack, mas era pouco e era tarde. Jack vencera o duelo.

 

Ferido no corpo, na alma e no coração, Tim Timão decidiu que precisava de mudanças e deu um chute nos fundilhos de Tony Lopez. E Jack Tricolor, com sua calça vermelha, seu colete negro e seu chapéu branco, pagou uma rodada para todos no Saloon Morumby.

 

Por Torero às 08h38

12/03/2006

Ouvindo o olheiro

Ouvindo o olheiro

Acho que em todo lugar do mundo há a figura do olheiro. Pois aqui em Londrina-PR ainda há um técnico, o Zequinha, que é lendário na revelação de jogadores, mas, talvez ele nem saiba, também revela advogados. A história, embora meio triste, é real, e aconteceu comigo.

 

Dizem que o Zequinha tem um olho clínico fora do comum, e conhece um jogador bom só pelo jeito que ele amarra a chuteira. Na época dessa história, ele trabalhava nas categorias de base do Londrina, onde, também na época, jogava meu padrasto, o Carlão (que foi goleiro do Botafogo do Rio de Janeiro entre 1993 e 1997).

 

Pois eu, então com 9 pra 10 anos de idade, insistia quase todo dia para que o Carlão me conseguisse um teste com o Zequinha. O Carlão conhecia de longe um perna-de-pau, e já tinha utilizado todas as desculpas possíveis para que eu não fosse fazer teste no Londrina. O fato é que perto do meu aniversário, ele finalmente se rendeu e marcou um dia à tarde para que eu fosse fazer o tal “teste”.

 

Com chuteira nova e meu futebol guardados numa sacolinha, cheguei ao campo e me apresentei ao Zequinha:

 

- ... Oi Zequinha, eu sou o Alexandre, que veio pro teste.

- Oi! Alexandre? Ah, o do Carlão, né? Muito bem. Joga de que, Alexandre?

- Ah, de qualquer coisa!!

 

Minha curta de carreira atleta profissional amador teve seu primeiro ponto negativo ali. Diz a sabedoria popular que quem joga de qualquer coisa não joga coisa nenhuma, e imagina se o Zequinha não sabia disso. Pois ele foi até simpático. Me pediu pra esperar um pouco que já ia arrumar um lugar no time reserva, pra começar o teste.

 

- Bom Alexandre, já que você joga de qualquer coisa, então entra ali no meio, mais como atacante.

 

Pra encurtar a história, com o colete azul dos reservas, peguei acho que duas vezes na bola, além de correr errado o tempo todo. Foi uma das minhas melhores atuações, é verdade, mas não serviu para convencer o Zequinha, que, ao final ao treino, veio me questionar:

 

- Alexandre, você tá estudando?

- Tou sim, Zequinha.

- Então continua, tá? O futebol é muito ingrato, muita gente tenta e não consegue, etc, etc... .... Quem sabe você não vira um bom advogado ou médico?

 

Não me lembro de mais nada da conversa, pois não precisava de perspicácia maior do que a que eu já tinha com menos de 10 anos de idade pra notar que eu havia sido reprovado. Cheguei em casa e resumi pro Carlão, que ainda tentou me confortar, dizendo que futebol era ingrato, muita gente tentava e não conseguia, etc, etc.

 

O fato é o seguinte: seguindo os conselhos do Zequinha Pé de Galo, continuei a estudar, e hoje sou advogado, razoavelmente bem sucedido (uma espécie de Josué do Direito, digamos assim: aplicado, com razoáveis recursos técnicos e que, se não é fundamental, é útil para compor um time campeão) e o único que pode dizer, com orgulho, que foi revelado pelo Zequinha.

 

 

Texto enviado por Carlos Alexandre Rodrigues.

 

Por Torero às 06h44

10/03/2006

Corinthians x São Paulo

Corinthians e São Paulo farão o melhor duelo do fim de semana. Um duelo de morte. São os dois clubes que tiveram os lampejos mais brilhantes até agora, os dois clubes que deram as maiores goleadas. Mas, se o Santos vencer o Guarani, quem perder está morto no Paulista. Enterrado.

 

Os dois clubes tiveram um meio de semana muito diferente. O São Paulo goleou jogando em casa, o Corinthians viajou e perdeu.

 

O Timão tem um técnico à beira do precipício, que pode cair com uma leve brisa (ou com o tufão gerado por uma derrota para o São Paulo). Muricy está tranqüilo, firme como uma rocha, e parece ser o principal candidato a entrar para o rol dos grandes técnicos brasileiros, junto com Luxemburgo Leão, Parreira e Felipão.

 

O São Paulo não fez contratações retumbantes. Alex Dias, Thiago, Mineiro, Josué e Danilo não custaram milhões. Já o Corinthians optou por comprar jogadores de grife, como Tevez, Roger, Ricardinho, Nilmar e Mascherano. No Brasileiro, deu certo.

 

O São Paulo divide a autoria dos seus gols. Não há um grande artilheiro isolado no time. Por ouro lado, o Corinthians tem um artilheiro sensacional, que vem fazendo gols de todos os jeitos. Nilmar tem mais o dobro dos gols do vice-artilheiro.

 

Mas acho que o mais importante é ver qual dos dois times está realmente disposto a lutar pelo estadual. Os dois me parecem, e com razão, mais preocupados com o campeonato continental, sendo que o Corinthians de uma forma mais tensa, pois nunca ganhou o torneio.

 

Tenho a impressão que é o São Paulo quem se interessa mais pelo Paulista. E, como o Tricolor vem de uma semana menos conturbada, é ligeiramente favorito.

 

Porém, como disse Gertrude Stein, grande poeta e comentarista esportiva, uma rosa é uma rosa e um clássico é um clássico. A certeza é que será um ótimo jogo. Menos aguerrido que Santos e Palmeiras, mas, provavelmente, mais bonito.

 

Por Torero às 06h31

Texto de ontem na Folha

A alma do negócio

 

JOSÉ ROBERTO TORERO
COLUNISTA DA FOLHA

Consumidor leitor, consumada leitora, daqui até a Copa você verá um monte de anúncios com os jogadores da seleção brasileira. Além dos seis que já fazem publicidade do Santander, e de Parreira, que faz propaganda de uma escola de inglês, virão muitos outros. Pode sobrar até para o roupeiro da seleção. Sim, meu caro, nos próximos meses todo jogador será um candidato a garoto-propaganda. Ivete Sangalo que se cuide.

Mas eu não venho aqui criticar este fato. Pelo contrário. Venho, por meio desta coluna, colaborar com a propaganda nacional, sugerindo alguns reclames, como se dizia nos meu tempo.


O zagueiro Lúcio, por exemplo, que joga na Alemanha, poderia fazer um comercial da Volkswagen. Ele apareceria dando muitos chutes e cabeçadas num carro da montadora alemã e depois, cansado, diria: "Já quebrei muitos alemães, mas este aqui agüenta qualquer coisa".

Já Roque Júnior, que anda falhando em momentos importantes, poderia fazer um comercial mais ou menos assim. Ele cometeria vários erros na defesa (o que não deve ser difícil) e, a cada falha, os torcedores brasileiros arrancariam os cabelos, fechariam os olhos e roeriam as unhas. Menos um, que continuaria calmo e tranqüilo. Então a câmera daria um close nesse torcedor, e um narrador diria: "Quem tem AGF Seguros fica tranqüilo até nos maiores desastres".

Para Dida, até já vejo a cena. No vestiário da seleção, enquanto vários jogadores fazem seu aquecimento pulando para lá e para cá, vemos uma geladeira. A câmera vai até ela, a porta se abre, e lá dentro está Dida. Ele olha para a câmera e fala: "Sempre me perguntam como é que eu consigo ser tão frio nos momentos decisivos. O segredo é esse aqui. Enquanto o pessoal faz o aquecimento, eu fico na minha Brastemp A320".

Aí passa o Parreira e diz: "Tá na hora, pessoal!". Então nosso goleiro sai da geladeira e vai a campo com a seleção. E de cachecol.

Os reservas também têm um bom potencial. Imaginem Gustavo Nery, Juninho Pernambucano, Ricardinho, Marcos e Cicinho sentados no banco de reservas durante um jogo. Aí um deles diria: "Ninguém entende mais de banco do que a gente, e o nosso é Unibanco".

Cafu, que vai à sua quarta Copa aos 35 anos, seria um bom vendedor de xaropes para rejuvenescimento. Enquanto ele faria malabarismos com a bola, um locutor diria em off: "Quem usa Rejuvenil? Cafu. Quem não usa? Sifu". Pouco sutil, mas impactante.

E, como estamos chegando perto do período de propaganda política, Zé Roberto poderia fazer campanha para o PT ou para o PSDB. Ele, de terno e chuteiras, olharia para a câmera e diria, sério: "Comecei na lateral esquerda, mas hoje jogo no meio-campo. E estou dando conta do recado. Confie em quem começa na esquerda e vai parar no centro".

Tudo bem, não foram grandes idéias, mas em compensação eu cobro bem menos que o Duda Mendonça.

Por Torero às 06h29

08/03/2006

A horda de caranguejos

Como uma horda de caranguejos invadindo uma praia e afugentando os banhistas, os times pequenos avançam sobre os grandes.

 

No Rio de Janeiro, os líderes dos dois grupos são Madureira e Americano. E o primeiro turno poderia ter sido vencido pelo América, caso o juiz não cometesse um erro crasso na final.

 

Em Minas, o líder é o Ipatinga, que já foi campeão no ano passado. E em terceiro lugar, encostado nos líderes e com um jogo a menos, vem o Ituiutaba, que venceu o Cruzeiro no último fim de semana. Estes três times, mais o Atlético, estão embolados na pontuação e passarão as semifinais. Ou seja, podemos ter uma final entre Ipatinga e Ituiutaba, ao invés do tradicional Atlético x Cruzeiro.

 

Em Goiás, nada de Goiás e Vila Nova. Os líderes são o redivivo Atlético (que já venceu nove vezes o campeonato estadual, a última em 88) e o desconhecido Mineiros. Aliás, acabasse hoje a fase de classificação, Goiás e Vila Nova estariam fora das semifinais (justiça seja feita, o Vila Nova tem um jogo a menos).

 

Em Santa Catarina, um líder é o tradicional Joinville, mas no outro grupo desponta o nada famoso Atlético de Ibirama. No baiano, o Colo-Colo encabeça o grupo 1, à frente do tradicional Bahia. No Mato Grosso, os dois grupos são liderados por Luverdense e União, que nunca levantaram a taça. E, no Espírito Santo, o primeiro turno foi vencido pelo simpático Estrela do Norte, virgem em títulos estaduais. 

 

Ou seja, em vários estados há pequenos times desafiando os grandes. E isso ocorre por dois motivos: desorganização dos grandes, como no Rio, e organização dos pequenos, como em Minas.

 

O problema é que o crescimento dos pequenos muitas vezes é algo efêmero. Onde está o Caxias que foi campeão gaúcho? E o Botafogo de Ribeirão Preto que disputou as finais com o Corinthians há poucos anos?

 

São raros exemplos como os de São Caetano e Juventude, que conseguem destaque por um longo tempo. Para isso é preciso organização e um projeto de longo prazo, e não só um presidente rico ou uma prefeitura generosa que financiem um bom campeonato.

 

Para dificultar ainda mais a ascensão dos miúdos, a mobilidade atual dos jogadores dificulta que um clube pequeno consiga fazer dois bons campeonatos seguidos, pois o sucesso provoca uma emigração dos principais atletas, o que é muitas vezes facilitado pelo fato de os times pequenos praticamente pertencerem a empresários que só querem fazer dinheiro, e não montar um clube de tradição.

 

Resumindo, a horda de caranguejos avança, mas a maioria vai acabar na panela.

 

Por Torero às 06h05

07/03/2006

Distintos distintivos

Para os fanáticos que gostam de distintivos, vale a pena dar uma boa olhada no http://www.distintivos.com.br/.  

Por Torero às 06h35

06/03/2006

O terrível duelo entre Billy Santos e Big Green

O tiroteio continua. Os caubóis permanecem de pé e as balas zunem de um lado para outro como se eles estivessem no meio de um enxame de abelhas. E alguns foram feridos.

 

Um par de atiradores, Marília Mae e Bento Boy (conhecidos como os Blue Brothers por estarem sempre vestidos de azul) alvejaram Tim Timão e Jack Tricolor (e há que se destacar que os Blue Brothers jogaram bem, merecendo os pontos conquistados).

Kid Norusca foi baleado por White River no meio da semana, mas ontem desferiu um balaço num índio (Guarani, por sinal), e recuperou sua confiança. Está ferido, mas não morto.

 

Caetano Bill foi alvejado na quarta-feira e é, entre os seis principais duelistas (ou seriam hexalistas?), o que mais está sangrando. Não deve sobreviver por muito tempo.

Mas o duelo mais importante da semana aconteceu entre Billy Santos e Big Green. Aliás, que duelo! Eu estava lá, escondido atrás de um barril (de chope), e vi tudo de perto. Foi um combate emocionante! As balas raspavam num e noutro, às vezes até acertando-lhes a trave, digo, o chapéu.

 

Billy Santos começou muito bem e parecia que ia pegar Big Green de jeito, mas Big suportou bem a pressão (ah, como joga esse Gamarra!) e depois inverteu os papéis, encurralando Billy Santos, que, por sua vez, também conseguiu se esquivar das balas (ah, como joga esse Maldonado!).

 

Mas, depois que pararam para beber água, as coisas mudaram de figura. Billy Santos mudou de revólver (trocou o Colt 3-5-2 por um Smith & Wesson 4-4-2) e aí a saraivada de tiros em cima de Big Green foi terrível. Tão terrível que quase sobrou chumbo para Cansian Judge (aliás, vi todas as mesas redondas, todos os replays, e acho que o juiz Cansian acertou nos lances polêmicos: as bolas na mão dentro da área foram apenas bolas na mão, Correa realmente usou o braço para ganhar uma jogada no meio de campo, o pênalti foi pênalti (Leão fez escândalo por nada) e, quanto ao lance de Geílson, que no campo me pareceu pênalti claro, foi uma bela encenação).

 

O final da história todos já sabem. Com sua última bala, Billy Santos conseguiu acertar Big Green, vencendo o glorioso duelo.

 

Porém, não se pense que Big Green está morto. Foi apenas um tiro no ombro. Sim, meus caros, Big Green ainda pode lutar.

 

Só que Billy Santos está com seu uniforme branco imaculado. E, se não sangrar nos próximos seis combates, receberá o beijo da mocinha e a faixa de campeão.

 

De qualquer modo, muita água vai rolar debaixo da ponte, muitos arbustos ainda correrão pelas ruas de Paulistão City.

Por Torero às 07h39

05/03/2006

O pior dia da vida de Fábio - 1

O pior dia da vida de Fábio - 1

Em 1989 o São Paulo chegou a mais uma final de Brasileiro, dessa vez contra o Vasco da Gama de Bebeto, detentor da melhor campanha durante a competição. Diante dessa melhor campanha, o Vasco poderia sagrar-se campeão apenas vencendo o São Paulo no Morumbi. Ao São Paulo, só a vitória ou o empate forçariam um segundo jogo no Maracanã.

 

Nesse dia meu pai marcou dentista por volta das 11h00. A nossa ida ao Morumbi dependeria de como meu pai iria sair do dentista, afinal ele iria arrancar um dente e, normalmente, os dentistas recomendam repouso. Depois de sofrer por mais de meia hora na cadeira do dentista, por causa de uma mal sucedida anestesia, meu pai teve a certeza que teria que ir para casa e descansar. Saí com uma cara triste do dentista, mas o que realmente colaborou para nossa ida ao Morumbi foram os inúmeros ônibus e carros que passavam com bandeiras tricolores rumo ao estádio.

 

Mesmo com a boca inchada e com muita dor, meu pai decidiu ir. Decisão tomada perto da Radial Leste, caminho para nossa casa. Antes, meu pai passou em um mercado e comprou um pacote de bombons e refrigerantes - não tínhamos comido e bebido nada. O calor estava de rachar e o trânsito, lento. Ao chegarmos ao Morumbi, dificuldades para parar o carro. Corremos para as bilheterias, com medo que os ingressos de arquibancada acabassem. Já eram 15 horas.

 

Compramos duas arquibancadas, fomos passar pela Polícia Militar e eles, sabe-se lá o motivo, não permitiram nossa entrada com o pacote de bombons, que seria nosso almoço. Talvez achassem que aquele senhor de boca inchada e aquele mirrado menino estariam levando bombas em vez de bombons. Voltamos para a rua e deixamos os bombons em cima de uma árvore, em um terreno baldio ao lado do estádio. Antes verificamos se ninguém estava olhando o esconderijo.

 

(continua no post abaixo)

Por Torero às 08h45

O pior dia da vida de Fábio - 2

O pior dia da vida de Fábio - 2

Voltamos para a entrada da arquibancada, entramos no estádio. Não tinha jeito de acharmos um lugar para sentar, tamanha a lotação. Meu pai, com dores intensas, decidiu sair das arquibancadas, voltar às bilheterias e comprar numeradas inferiores. E foi lá que fomos assistir ao jogo, não sem antes o meu pai ter a calça rasgada por um prego  - em uma daquelas cadeiras de madeira que ainda existem no setor de cativas, com um prego com ponta para fora. Além do rasgo na calça, um pequeno corte na coxa. Mas para quem já tinha passado por um dentista carniceiro, tido o dente extraído e estava com a boca inchada e dolorida, aquilo não era nada. O maior medo era a possibilidade de um tétano.

 

O São Paulo jogou muita bola aquele dia, com Bobô, Raí, Nelsinho, Nei Bala e Mário Tilico sendo os principais destaques. O goleiro Acácio foi o melhor em campo. Em determinado momento ele defendeu uma cabeçada do Nei Bala que todo o estádio gritou gol. Durante o intervalo, em vez dos gritos de São Paulo, São Paulo, o estádio virou um palanque eleitoral. Os dois candidatos que disputavam o 2º turno, na primeira eleição direta para Presidente desde 1960, estavam no Morumbi. De um lado os gritos de Lula, Lula!!! Do outro lado os gritos de Collor, Collor!!! Meu pai, profético como deveria ter sido profético em relação ao jogo, disse:

 

- Não confio nesses dois, ainda não sei em quem votar amanhã!

 

E no dia seguinte ele foi de Collor... Arrependeu-se amargamente com a poupança confiscada pouco tempo depois, como meio que se arrependeu de votar em Lula em 2002 pelos escândalos semelhantes a todos que os outros partidos já viveram...

 

Voltando ao que interessa. No segundo tempo o panorama seguiu o mesmo. Gols perdidos pelo São Paulo, ótimas defesas de Acácio e o Vasco achou um gol. Cruzamento de Luís Carlos Winck e gol de Sorato de cabeça.

 

Em ano que tínhamos sido campeões do Paulista, a tristeza até que não era tão grande pela perda do Brasileirão. Mais doido foi no ano seguinte – mas eu diria que todos os sofrimentos em perder duas finais de Brasileiro consecutivas foram supridos pelos títulos da Era Telê.

 

Saímos do estádio e fomos procurar os bombons estrategicamente escondidos e eles tinham desaparecido. Fomos pegar o carro e ele tinha um risco lateral enorme na lataria. Fomos comprar uns pães para comer quando chegássemos em casa e eles pareciam ter sido feitos apenas no dia anterior. Estavam duros.

 

Resumo: Apesar de todo o prejuízo, da derrota do São Paulo, da boca dolorida de meu pai, da calça rasgada, dos bombons perdidos, entre outros fatos negativos, ali pude ver de onde surgiu o fanatismo pelo São Paulo que eu tenho até os dias de hoje e que tento repassar para minha filha de 6 anos. Valeu pai, você me fez um torcedor feliz!!!

 

Fábio José Paulo (FAJOPA)

 

(Mande sua história com até 3 mil toques para blogdotorero@uol.com.br)

Por Torero às 08h44

04/03/2006

A maior das artes - I

A maior das artes - I

                                                           I

Muito já se debateu sobre qual seria a mais importante das artes. E já se ouviu todo o tipo de resposta:

 

*para os que amam a música, não há outra atividade mais harmoniosa;

 

*os poetas não hesitam em colocar sua musa nas máximas alturas do Olimpo;

 

*os pintores mal reconhecem as outras artes como merecedoras deste nome;

 

*os escultores dizem que os pintores são apenas uns pretensiosos bidimensionais;

 

*os atores gargalham e bradam que nenhuma arte supera a arte dramática;        

 

*os arquitetos professam que nenhuma arte faz obras mais úteis que a sua;

 

*os cineastas afirmam que a sua é a melhor por conter todas as outras;

 

*e os bailarinos riem e dão saltinhos presunçosos quando perguntados sobre esta questão.

 

Mas nenhum deles deve ser levado totalmente a sério. Advogam em causa própria, tentando erguer a importância de suas artes à custa de sofismas. Porém, não se deve criticá-los muito duramente. São apenas filhos vomitando elogios às próprias mães, o que raramente é justo mas sempre é compreensível. Para fugir destas parcialidades, precisamos examinar a questão com isenção e criticidade, fazendo um justo arrazoamento para saber qual das artes merece o lugar mais alto no panteão.

 

Talvez, antes disso, devamos definir o que seja a arte. Recorramos ao velho Aurélio, que diz ser a arte uma "capacidade que tem o homem de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria", ou então: "toda atividade que supõe a criação de estados de espírito de caráter estético carregados de vivência pessoal e profunda."

 

Ora, dito isto, não vejo como negar a indiscutível verdade: a maior de todas as artes, a mais importante, a mais valiosa, não é outra que não a velha e nobre arte culinária.

 

(continua no post abaixo)   

Por Torero às 06h42

A maior das artes - II

A maior das artes - II

                                                             II

Os argumentos a seu favor são tantos que mal consigo colocá-los em ordem. Comecemos por tentar reconhecer a culinária como merecedora da definição de arte do Aurélio. Eu vos pergunto: Não é o ato de cozinhar uma capacidade que tem o homem de pôr em prática uma idéia, valendo-se de dominar a matéria? E mais: A comida não nos provoca estados de espírito carregados de vivência pessoal e profunda? Fizéssemos esta pergunta a Proust e receberíamos um tratado como resposta.

 

Mas a culinária não é apenas uma arte. É a maior e mais antiga delas. Provavelmente nasceu quando algum nosso antepassado, enquanto brincava com seu peludo rabo, descobriu que a banana ficava melhor sem a casca.

 

Acima de tudo, as obras culinárias são as mais amadas pelos seus artesãos. Tanto que eles literalmente a consomem. Não se vê pintores comendo quadros nem bailarinas engolindo suas sapatilhas de ponta, mas não há cozinheiro que não experimente sua própria produção. Mais que provar, muitos deles a absorvem totalmente e a criatura passa a fazer parte do seu criador. É uma simbiose perfeita. O inventor dá a vida à sua obra, que por sua vez mantém seu Deus vivo.

 

Quanto aos efeitos, não há arte mais recompensadora. Basta ficar à porta de uma boa cantina para verificar quão benéficos são seus resultados. Os veneradores desta arte saem dos seus templos, os restaurantes, sempre sorridentes, de bom humor e com as faces rosadas. Por outro lado, nas portas dos teatros e dos cinemas é fácil vermos os espectadores com os olhos marejados e feições desfeitas, havendo até mesmo os que saem chorando como viúvas sem herança.

 

E, se a culinária é a mais nobre, é também a mais útil das artes. O homem pode sobreviver sem valsas, versos, quadros, filmes e danças. Até mesmo sem teto.  Mas, apesar de poder passar toda sua vida sem estas artes, ele não sobreviveria mais do que alguns dias sem o alimento. A culinária não é só a mais bela das artes, é também a mais necessária.

Por Torero às 06h41

03/03/2006

Quem é seu lateral-esquerdo inesquecível?

O meu, digo logo de cara, é o Leovegildo. Ele era sensacional. Inteligente, driblador, rápido, cruzava com perfeição, chutava forte ou colocado, etc... Perfeito! Seu único defeito era este nome: Leovegildo. Mais precisamente, Leovegildo Lins Gama Júnior. Mas ele ficou conhecido apenas como Júnior, e como Júnior foi o maior lateral-esquerdo da história do Flamengo.

 

Quase votei em Marinho Chagas, o inventor do lateral-esquerdo-atacante, que às vezes avançava até de forma irresponsável. Ver aquele potiguar loiro disparando pela esquerda, numa época em que os laterais ainda não tinham licença para atacar, era um espetáculo.

 

Curiosamente, os laterais-esquerdos têm uma certa vocação para se transformaram em meias. É como se fossem bons demais para ficar só ali pela beirada do campo. Um bom exemplo é Felipe, do Vasco (e de tantos outros clubes), um sujeito que dribla com uma facilidade irritante, mas que acabou desperdiçando seu talento. Outro lateral-quase-meia é o excelente e ainda selecionável Júnior, do Palmeiras e do São Paulo. Ele só não foi titular da seleção porque já existia Roberto Carlos, o touro, com sua velocidade, sua resistência e sua patada absurda.

 

Acho que o único lateral tão rápido quanto Roberto Carlos foi Serginho, do São Paulo e do Milan. Vê-lo dar uma arrancada ao lado dos outros jogadores era como ver um racha entre uma Ferrari e uma Kombi.

  

Eu também gostava muito de Marco Antonio, do Vasco, um negro esguio, que jogava com classe e era incapaz de dar um bicão, de Pedrinho (Vasco e Palmeiras), um eficiente e lépido lateral, e de Gilberto Sorriso (São Paulo e Santos), que cruzava muito bem e ainda por cima tinha este simpático apelido.

 

Alguns laterais ficam tão ligados a um clube que o time acaba sendo-lhes um sobrenome. São os casos de Zeca do Palmeiras, que jogou 12 anos pelo clube, Vanderlei do Cruzeiro, Oldair do Atlético, César do São Caetano, Miranda do Guarani e Odirlei da Ponte Preta. Mas poucos superam Wladimir do Corinthians, que fez nada menos do que 803 jogos pelo time. Não era espetacular, mas tinha uma regularidade impressionante. Dificilmente você falava “Hoje o Wladimir decepcionou...”

 

Os corintianos também podem se lembrar dos habilidosos Sylvinho e André Luiz, de Gustavo Nery, provável reserva de Roberto Carlos, e de Cláudio Mineiro, dono de um chute muito respeitável.

 

Os santistas mais antigos talvez votem em Dalmo, que fez o gol mais importante da história do clube, ou em Rildo, que muitos colocam na seleção santista de todos os tempos. Os mais jovens provavelmente irão preferir o pequeno Léo, uma formiga incansável que suava a camisa do começo ao fim das partidas.

 

Há alguns laterais que são mais discretos, uma espécie de Ringo Star futebolístico. O maior exemplo é Everaldo, o jogador menos falado da seleção de 70. Outro discreto na seleção foi Rodrigues Neto, eficiente lateral da seleção de Cláudio Coutinho. E Vacaria aparecia pouco no genial Inter da década de 70.

 

Por outro lado, alguns nascem para ser estrelas, como Leonardo e Branco. Os dois eram completos. Defendiam e atacavam muito bem. E cada um tem lance inesquecível na Copa de 94. O de Leonardo é sua cotovelada em Tab Ramos, que não era para pegar tão bem quanto pegou, e o de Branco foi aquela cobrança de falta contra a Holanda. 

 

Mas, entre as estrelas, talvez ninguém tenha brilhado tanto quanto Nilton Santos. Não o vi jogar, mas quase votei nele só pelo tanto que eu já o imaginei em campo. A descrição de quem o viu em ação é sempre eufórica, entusiasmada. Dizem que era um jogador inteligentíssimo. Não posso falar de sua sabedoria com os pés, mas quanto à da cabeça, posso confirmar. Entrevistei-o para a revista Placar há alguns anos e confesso que me senti na frente de um Buda. Ele explicava tudo com clareza, um leve humor e uma observação fina, inteligente. Um sábio esse tal Nilton Santos.

 

Enfim, escolha seu lateral-esquerdo. O meu poderia ser Léo, Marinho Chagas ou Nilton Santos, mas fiquei mesmo com o Leovegildo. 

 

(PS em 8/3: Votação encerrada)

Por Torero às 07h40

01/03/2006

Craques de A a Z

H

Heleno era um brigão. Brigava com os adversários, com o juiz, com a torcida e às vezes até com seus próprios companheiros. Porém, Heleno era o melhor jogador de Espumoso, e, assim, todos perdoavam seu gênio ruim. Todos menos Norminha. Ela disse que só namoraria com Heleno se ele melhorasse seus modos. Sanguíneo, mas apaixonado, Heleno aceitou a imposição da moça. Já no primeiro jogo apareceram mudanças: Heleno não fez uma falta, não deu um empurrão, não arranjou uma briga, não soltou um palavrão. Em compensação, não fez nem um gol. Não foram poucas as cartas anônimas que Heleno recebeu depois desse dia. Umas diziam que Norminha tinha mais amantes do que dedos, outras que era um homem travestido, outras ainda que era a encarnação do diabo. No dia em que ela partiu de Espumoso, difamada e cabisbaixa, Heleno derramou uma lágrima. E toda a cidade comemorou.

 

 

I

Isael, lateral direito, conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria. Isael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou mé­di­co, dentista, manicure... Dava tudo quanto ela queria. Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado. Isael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de time e de cidade. Vi­ve­ram três anos assim. Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Isael mudava de time e de cidade. Os amantes moraram em Varre-sai, Quebra-freio, Salgadinho, Holanda (no Ceará), Vai-de-cães, Sombrio, Fundão, Tróia (no Cea­rá), Passa e Fica, Paracambi, Espera Feliz, Califórnia (no Ceará), Quimami, Não-me-toque, outra vez em Varre-Sai, Chuvisco, Tuntum... Por fim mudaram-se para Solidão, em Pernambuco, onde Isael, já quase privado de sentidos e de inteligência, planejava matar Maria Elvira com seis tiros, deixando-a em ­decúbito dorsal, vestida de organdi azul. Mas, dessa vez, ela tornou-se amante do pre­sidente do clube, e ­Isael passou a ter os melhores salários de sua vida. É o capitão do time e, quando se aposentar, já tem garantido o cargo de técnico vitalício do Solidão Esporte Clube. Hoje os dois estão muito bem e não há casal mais feliz do que Isael e Maria Elvira.

 

 

J

Jumento, do União de Coxixola, era um centroavante que possuía uma patada tão possante que seu clube nem usava mais rede atrás das traves, tantas as que ele já havia estragado. Jumento abandonou o futebol depois de cobrar um pênalti numa partida contra o Internacional de Uauá, time cujo goleiro era seu irmão Macaco. Era apenas um amistoso, mas nenhum dos dois queria perder. Jumento cobrou a penalidade com força e Macaco pulou no canto certo, encaixando a bola contra o coração. O disparo, porém, foi tão forte que Macaco acabou sendo empurrado para dentro do gol com o pei­to esmigalhado. Jumento foi ­absolvido pela justiça e aclamado pelos torcedores, mas até hoje pode ser visto na pra­cinha de Coxixola, cabisbaixo e tris­te, lamentando o talento, ou a maldição, que a natureza lhe deu.

 

Por Torero às 06h21

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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