Há várias surpresas nos campeonatos estaduais.
O Palmeiras lembra o sujeito que está começando uma corrida, tropeça, dá uns passos largos, parece que vai se esborrachar a qualquer instante, mas recupera o equilíbrio e aí passa a correr calmamente.
A má surpresa para os palmeirenses é que o Corinthians também jogou bem. Parece que o clube está disposto a vencer outra vez. E, com a chegada de Ricardinho, o time vai ficar bem interessante.
Já os santistas tiveram boas e más surpresas. A má é que os três gês do ataque, Gilmar, Geílson e Galvão, não fazem gols (palavra que também começa com gê). A boa é que Jonas, com jota, salvou o time no último minuto e parece ser um bom jogador.
E o São Paulo, campeão mundial, surpreendentemente parece já ter desistido do Paulista. Ou seja, há um mês era o melhor do mundo, mas agora não consegue ir bem num torneio estadual. É a gangorra do moderno futebol brasileiro. Até que os novos nomes, o novo técnico e a equipe do ano passado se ajustem, já estaremos no Brasileiro.
Curiosamente, assim como o São Paulo sofre
Já no campeonato Fluminense, o Fluminense vai assim assim. É vice-líder de seu grupo, atrás do Americano. O campeonato está a uma rodada do fim da primeira fase da Taça Guanabara e pode não ter nenhum dos quatro grandes entre os quatro finalistas. É uma possibilidade remota, é claro, mas só esta possibilidade já é uma surpresa. E os quatro estão em situações distintas: O Botafogo pode se classificar com uma derrota, o Fluminense precisa de um empate, o Vasco precisa vencer e torcer por outros resultados e o Flamengo já está fora.
Enfim, os campeonatos estaduais estão cheios de surpresas. O que não é surpresa para ninguém.
Por Torero às 07h27
Em vez de escrever apenas às segundas e quintas, passarei a escrever às segundas, quartas e sextas (e em edições extraordinárias, ou extra ordinárias, como diriam os inimigos).
Por Torero às 07h27
A discussão do passe livre é coisa antiga e ainda está longe de acabar. Há um interessante documentário sobre isso, chamado, justamente, "Passe livre". O filme tem 73 minutos e foi dirigido por Oswaldo Caldeira em 1974. Há depoimentos de João Saldanha, Zagallo, João Havelange e de vários jogadores. O principal entrevistado é Afonsinho, jogador inteligente e bem articulado que jogou por Botafogo, Atlético Mineiro, Vasco, Flamengo, Fluminense e Santos.
Afonsinho começou jogando no XV de Jaú, passou pelo Olaria e foi despontar como uma das feras do Botafogo de Marinho Chagas, Paulo César Caju, Gérson e Jairzinho.
Ele era tão cabeça que virou música de Gilberto Gil ("Prezado amigo Afonsinho; eu continuo aqui mesmo; aperfeiçoando o imperfeito; dando tempo, dando jeito"). No final das contas, ganhou sua luta contra os cartolas e foi o primeiro jogador brasileiro a conseguir o passe livre.
Afonsinho encerrou a carreira aos 35 anos, em 1982. Hoje ele vive no Rio de Janeiro, trabalha como psiquiatra no Pinel e faz parte de um simpático projeto feito pela ONG IBISS (Instituto Brasileiro de Inovações
O filme vai passar dias 31/01 (17h30) e 02/02 (12h00) no Canal Brasil, e, além de falar sobre um assunto polêmico, tem ótimas músicas e cenas raras do futebol do começo dos anos 70.
Por Torero às 15h48
Um site de santistas fanáticos: www.fanaticosantista.com.br
Por Torero às 16h05
Por Torero às 08h14
Quem é seu goleiro inesquecível? Quando você era pequeno e pulava na cama de sua mãe, quem você imitava? Nos joguinhos com os amigos, quem você imaginava que era? Oberdan? Poy? Cejas? Lara? Félix? Toinho? Mão de Onça?
Eu gostava de pensar que era o Manga, o goleiro do Internacional. E tudo porque o sujeito, na final do Brasileiro de 75 contra o Cruzeiro, pegou um cruzamento do Nelinho só com uma mão. Um goleiro normal precisaria de três mãos para segurar uma bola cruzada pelo Nelinho. Mas o Manga usou uma só. Desmoralizante.
Depois desse jogo, Nelinho deve ter ido ao psicólogo e, com o rosto entre as mãos, soluçou: “Não sou mais o mesmo, doutor, não sou mais mesmo... Com uma mão só, como é que pode...?”
É claro que o nosso goleiro inesquecível depende da idade.
Os mais antigos vão falar de Gilmar, o clássico goleiro de Corinthians e Santos. Eu nunca o vi jogar, mas dizem que ele era sensacional, com grande senso de colocação, elasticidade e reflexo. E deve ter sido mesmo, afinal ganhou quatro títulos mundiais.
Outros santistas citarão o uruguaio Rodolfo Rodrigues, que fazia a torcida sentir que havia um urso feroz defendendo sua meta.
Aliás, quem gosta de goleiros estrangeiros poderá lembrar de Ortiz, do Atlético Mineiro, que jogava com uma faixa na cabeça e saía driblando de vez em quando, ou do argentino Fillol, ou do genial belga Pfaff, e talvez do Yashin, tido por muitos como o maior de todos os tempos.
Se eu fosse um púbere, meu goleiro inesquecível seria Marcos, que em dias inspirados pode jogar até de olhos vendados.
Um garoto são-paulino certamente colocará Rogério Ceni em seu pedestal (ou num pôster na porta do armário, o que dá no mesmo).
Um santista talvez vote
Zetti, Leão e Raul, elegantes, sem saltos mirabolantes, podem ser lembrados por muitos.
Dida e Carlos, os homens-de-gelo, também são citáveis, assim como Taffarel, que nunca decepcionou nos momentos decisivos e talvez tenha sido o mais influente goleiro brasileiro numa Copa.
Os baixinhos poderão se identificar com Mazzarópi, do Vasco e do Grêmio.
E há muitos outros, como Barbosa, o da Copa de 50, os clássicos Renato e Velloso, o cabeludo Rafael, o calvo Picasso, Ronaldo, símbolo do Corinthians, e Neneca, que em 78 fechou a meta do Guarani.
Enfim, vote no seu goleiro inesquecível. O meu é o Manga, com sua pele que parecia a superfície lunar, seu ar mal-encarado e sua defesa com uma só mão.
Daqui a onze semanas teremos uma seleção de inesquecíveis. Eles não serão necessariamente os melhores, os mais ricos ou os mais vitoriosos, mas serão aqueles que, quando nos encontrarmos num asilo, diremos, “goleiro mesmo era o...”
Por Torero às 05h40
O Palmeiras é o favorito para vencer o Campeonato Paulista?
A resposta é óbvia: sim e não.
Sim, porque está com 100% de aproveitamento. Ganhou duas dentro e duas fora de casa, ou seja, não se intimida quando joga em campo adversário e já não tem medo de jogar em casa.
Não, porque venceu todas as quatro partidas por apenas um gol de diferença. Foram conquistas frágeis, sem demonstrar uma grande superioridade técnica.
Sim, porque estas vitórias magras mostram um time aguerrido, com uma vontade de vencer maior do que a dos outros times.
Não, porque as vitórias magras podem facilmente se transformar em empates e derrotas.
Sim, porque o time é líder mesmo sem contar sem seu melhor jogador na temporada passada: Juninho. Quando ele voltar, a equipe vai ficar ainda mais competitiva. E, se já é líder sem ele, imagine com.
Não, porque os outros times também estão melhorando. As equipes do interior estão perigosas e perdendo o medo dos quatro grandes, o São Paulo vai aprendendo a viver sem Cicinho e Amoroso, o Santos começa a encontrar seu caminho e o Corinthians, encerrando o rodízio e colocando Roger e Ricardinho em campo, terá o melhor elenco do país.
Sim, porque, se com o time do ano passado, Leão já fez milagres e entrou na Libertadores, agora, com reforços, o título é questão de tempo.
Não, porque a Libertadores vai desviar o foco e atrapalhar um bocado.
Enfim, há bons argumentos pelo sim e pelo não. Eu, como não sou de ficar em senões, digo que não sou pelo sim e, sim, pelo não.
Por Torero às 06h14
Elson, goleiro de Venha Ver, Rio Grande do Norte, era cego. Mas compensava essa falta com sua audição extremamente apurada. Elson defendia de ouvido, escutando o assobio da bola no ar. Durante algum tempo ele fez muito sucesso, pois pressentia os efeitos da bola e não havia problema se sua visão estava encoberta. Porém, um dia, as torcidas adversárias perceberam a origem de seu talento e começaram a levar apitos para o campo. Elson teve que mudar de profissão. Hoje faz armações de óculos
Felisberto, apesar do nome, era um infeliz, um pé-frio, um caipora. Nunca ganhou uma aposta e nem há loteria ou carteado em que tenha se dado bem. Até no par ou ímpar era um fracasso. Para ele, todos os jogos eram de azar. Porém, Felisberto era um excelente meia-direita. Fazia belos lançamentos, corria com elegância e driblava com facilidade. Sob seu comando, o Ferradura Atlético Clube invariavelmente chegava às finais da bela cidade de Xangrilá, Rio Grande do Sul. Mas aí, é claro, sempre perdia. Depois de 12 vice-campeonatos, os jogadores já estavam cansados do pé-frio de Felisberto e, dessa vez, antes que entrassem em campo, decidiram que seu principal atleta ficaria no banco. Felisberto protestou, mas os argumentos e as cordas o fizeram aceitar a reserva. O Ferradura, é claro, conquistou a taça. E Felisberto, que nem tocara na bola, foi aclamado como o grande responsável pela vitória. Hoje, sempre que olha para aquele solitário troféu em sua estante, uma lágrima rola por sua face. E ninguém sabe se é de tristeza ou de alegria.
Gancho, o goleiro, tinha esse nome por um motivo justo: em vez de mão, na ponta do braço direito possuía um gancho. Por causa disso ele jamais largava uma bola, pois elas sempre ficavam presas ao seu agudo espeto. O problema é que Gancho dava muito prejuízo ao seu clube, o Nova Iorque do Maranhão, e assim acabou sendo despedido. Para não se afastar totalmente do futebol, ele tentou ainda ser roupeiro, mas rasgava os uniformes, e massagista, mas rasgava os jogadores. Numa última tentativa foi ser juiz. Mas morreu em sua partida de estréia, quando, ao tentar puxar um cartão com a mão errada, o vermelho de seu sangue misturou-se ao do cartão.
Por Torero às 05h19
- Caros espectadores e caríssimas espectadoras, pode-se dizer tudo do nosso convidado de hoje, menos que ele é discreto. Pelo contrário, a sua fama é justamente a de ser exasperado, ruidoso, estridente. Com certeza você já o viu na boca de policiais e de mestres de bateria. Crianças, também gostam dele, bem mais do que os pais, eu diria. Ultimamente, porém, ele se tornou o centro das atenções. Senhoras e senhores, com vocês o... apito. - Priiiiiiiiiiii! - Então, o que o senhor tem feito? - Muito barulho, Torero, muito barulho. Priiiiiiiii! - Realmente, mas eu queria saber como o senhor se sente sendo alvo da desconfiança geral. - Ah... nada de mais. As pessoas sempre desconfiaram de mim. - Sempre? - Sempríssimo! Vamos falar o português claro, Torero, a coisa mais fácil que tem é roubar numa partida de futebol: você trava o jogo, marca uma faltinha aqui, um impedimento ali, expulsa um cara por reclamação, e como último recurso dá aquele pênalti duvidoso. - O que deu errado dessa vez? - Nada, uma bobeada do Edílson, outra do Danelon, mas nada de anormal. - E o senhor acha que existe um jeito de acabar com o roubo no futebol? - Acabar, não, mas dá para diminuir bastante. - Como? - Algumas coisas poderiam ser implantadas já: dois ou três juízes por jogo, videoteipe para conferir jogadas duvidosas, bola com chip para saber se a bola entrou, uso de equipamentos eletrônicos... Tem tudo isso no futebol americano. - E por que essas novidades não vêm para cá? - Dizem que a controvérsia faz parte do futebol. - Eu sempre achei essa conversa meio esquisita, uma desculpa para que as coisas fiquem como estão. - Priiiiiiii!. - O que foi? - Cartão amarelo para você! Não admito que pensem em mudar as coisas. As regras são imutáveis. I-mu-tá-veis. - Isso é um absurdo! -Está me contestando? Fim de jogo! Priiiiiiiiii! - Mas logo agora que a discussão ia pegar fogo!? Os nossos telespectadores vão sair perdendo! - Eu decido quem ganha e quem perde. - Pois bem, então ficamos por aqui. Não sei a opinião dos senhores é a mesma que a minha, mas acho que o nosso convidado de hoje bem merecia um cartão vermelho. Boa noite e até a próxima. PS: Este é o texto da entrevista que fiz com o apito no programa Cantos Gerais, que apresento no Canal Brasil todas as quartas-feiras, às 22h30.
Por Torero às 14h05
Sete são os pecados capitais, sete são as maravilhas do mundo e sete são os motivos para um jogador de futebol sair do Brasil. Sim, genista leitor e genetriz leitora, os motivos não são oito, nem seis, mas sete.
E quais são eles?
Ora, o primeiro é dinheiro. O jogador tem uma carreira curta e pensa que a Europa é o Eldorado onde ele pode fazer seu pé de meia. Ele parte em busca de um maior salário e, principalmente, em busca da porcentagem de sua venda. É claro que às vezes eles levam calote, são surpreendidos por altos impostos de renda e têm que pagar cinco vezes mais por um cafezinho, mas a ilusão é de que lá ele vai ganhar uma fortuna a cada fim de mês.
O segundo é o desejo de fama. Para muitos não basta fazer sucesso em sua própria aldeia. É preciso fazer sucesso no exterior. Há aí um certo complexo de inferioridade-caipira, mas a verdade é que este sentimento vem se alastrando entre nós e até o Parreira acredita nele (tenho a impressão de que para nosso técnico quem está na Espanha ou na Itália é naturalmente melhor do que quem ficou por aqui).
O próprio Brasil é o terceiro motivo. É um país com graves problemas sociais e que não consegue superar sua vocação genética para a corrupção. Ir para um país de “primeiro mundo” (como se houvesse mais de um) acaba sendo um sonho de muita gente, sejam eles cidadãos de Governador Valadares, sejam eles jogadores de futebol.
O quarto é a onda. Formou-se uma onda, uma moda, de ir para o exterior. Até garotinhos de nove anos dizem que querem jogar no Real ou no Manchester, ao invés de dizerem Corinthians ou Flamengo. Robinho, desde os primeiros jogos na Vila, já dizia que seu desejo era jogar no Barcelona.
O quinto é o desejo de cultura. Muitos jogadores (“muitos” talvez seja exagero, fiquemos com “alguns”) saem daqui com o desejo de aprender uma nova língua, de conhecer novas culturas, etc. São raros, mas existem.
O sexto é a segurança. Este item poderia estar incluído no terceiro, mas tanto se fala nisso que ele acaba merecendo o status de ser um motivo isolado. Principalmente depois do seqüestro de familiares de jogadores (Robinho, Luís Fabiano e Marinho).
Mas estes seis motivos foram só um preâmbulo. O sétimo motivo é que é interessante, e ele é... o empresário.
Sim, meus caros e caríssimas, o empresário é um motivo à parte nesta história toda. Tão à parte que vou falar dele à parte no post abaixo.
Por Torero às 08h07
O empresário é uma mistura de corretor de ações, cafetão, advogado e Grilo Falante. Ele pode ser um ex-jogador, um rábula ou só um sujeito com espírito de comerciante.
O empresário não investe muito. Muitas vezes é dono de parte do passe de um jogador sem gastar um centavo para isso. Seus conhecimentos, suas amizades, sua capacidade de negociar e de representar são seu capital.
Segundo o dicionário Houaiss, empresário é “aquele que é dono ou dirigente de uma empresa”. Sendo assim, deveríamos arranjar outro nome para o empresário, já que ele não possui uma empresa típica, daquelas com funcionários, chaminés e produção. A empresa de um empresário é sua língua. Ele não precisa de sede, mesa ou cadeira. Basta um celular. Ele poderia ser chamado de intermediário, intermediador, mediador, ou simplesmente de vendedor. Mas “empresário” dá um ar mais charmoso.
Há empresários grandes, como Wagner Ribeiro, e há empresários pequenos, que juntam jogadores do interior num flat e tentam colocá-los em clubes menores. Há empresários-técnicos de grandes times, mas que usam laranjas e há empresários que são técnicos de juvenis, e só aceitam jogadores em seu time se estes lhe derem parte de seu passe.
O empresário interessa ao clube e ao jogador. Os clubes brasileiros têm esquemas amadores e não conseguem eles mesmos fazer suas vendas e compras com agilidade. Quanto aos jogadores, em geral não sabem se representar bem, e fazer eles mesmos uma negociação com o dirigente de seu clube poderia gerar um desgaste desnecessário.
Há empresários para outras profissões, e não apenas para jogadores. Os escritores, por exemplo, têm seus agentes, que negociam a venda de seus livros para outros países ou para a televisão e cinema.
O problema é que os jogadores, ao contrário dos livros, não podem estar em vários países ao mesmo tempo. Por isso os empresários, para ganhar dinheiro, têm que fazer sua mercadoria circular o máximo possível.
E este é o problema do empresário: ele não pode ter um cliente feliz num só lugar por muito tempo. O que faria o empresário de Pepe, que só jogou pelo Santos em toda a sua vida. E os de Rogério Ceni e Marcos? Provavelmente já cometeram o suicídio. Já os dois goleiros me parecem muito felizes.
O empresário só ganha dinheiro quando um jogador muda de clube. Por isso, se o sujeito está bem num time, o empresário logo sussurra em seus ouvidos que “é hora de mudar”, “é hora de ganhar dinheiro”. E, se o jogador se der mal no novo clube, melhor ainda, porque aí o empresário tentará levá-lo de volta ao clube de origem e ganhará sua porcentagem na venda e na revenda.
O empresário tem que fazer sua mercadoria circular, mesmo que seja para um time da segunda divisão espanhola, levando um solar cearense para a polar Islândia ou colocando seu pupilo, que mal fala português, num time chinês. Exportar é o que importa.
Com os empresários, o lucro máximo substituiu a idéia de felicidade. Como, aliás, no mundo.
Por Torero às 08h06
Já dizia o sábio filósofo Calderón de Mejía: “Tudo o que o homem deseja é ouvir três sons: o alarido das palmas, o tilintar das moedas e o gemido das mulheres.”
Tendo isso como verdade insofismável, eu vos pergunto: então por que os jogadores de futebol vão embora do Brasil?
Comecemos pelo primeiro item: mulheres. Lá fora eles não conhecerão mais e melhores senhoritas do que aqui. Mesmo nosso principal Don Juan, Ronaldo Fenômeno, valoriza a prata-da-casa. Cicarelli e Raica estão aí de prova.
Com o alarido das palmas dá-se o mesmo. É melhor ficar do que ir. Tirando uma ou outra exceção, a verdade é que a maioria dos jogadores recebia mais elogios e glórias cá do que lá. Quereis exemplos? Dou-vos aos montes.
-França era ídolo no São Paulo, hoje amarga a reserva de um time japonês que caiu para a segunda divisão;
-Renato chegou à seleção, mas agora foi posto à disposição pelo Sevilha e talvez nem vá à Copa por conta disso;
-Luís Fabiano, um centroavante sensacional, vem acumulando fracassos;
-Diego: de craque consumado voltou à categoria de promessa;
-Fábio Luciano, zagueiro de seleção que bem poderia estar no lugar de Roque Junior, nem é mais comentado;
-e mesmo Robinho, amado pelos santistas, hoje é visto com desconfiança pelos torcedores do Real.
Quanto ao dinheiro, é claro que há diferença, mas ela nem é tão grande assim. Nenhum dos citados acima ganharia menos de R$100 mil hoje no Brasil. Alguns estariam perto dos R$ 200 mil.
Uns poucos anos com este salário e você pode comprar uma casa em Jericoacoara, deitar na rede e ficar para sempre olhando a dança das dunas.
Mesmo assim, é claro que o jogador ganha mais no exterior. Porém, lá ele terá mais gastos e não vai conseguir escapar do imposto de renda. Aqui ele consegue driblar o leão (aliás, como os ricos em geral), mas na Europa as coisas são bem diferentes. Ou seja, no final das contas não acho que seja tão lucrativo assim ir para fora do país.
Mas, além de mulheres, fama e dinheiro, há outros motivos para que o jogador pense duas, ou duzentas, vezes antes de sair:
A adaptação nunca é fácil. A língua é outra (menos em Portugal, mas aí a lógica é que é outra), os costumes são outros (imagine o que não sofrem as esposas dos jogadores em alguns países muçulmanos) e o clima é outro (perguntem ao centroavante Alberto o que ele acha do frio do russo. Ele responderá: “cof, cof, atchim!”).
E por fim há o quesito felicidade. E em geral os jogadores gostam mais do Brasil do que dos outros países. Quantos boleiros você lembra que foram para o exterior e ficaram por lá? Eu só me recordo do Mazola (Itália), do Amarildo (Itália) e do Nílton Batata (EUA). Talvez haja mais um ou outro, mas a grande maioria volta correndo.
Mas, se ir embora não é bom para os jogadores, é bom para quem?
Essa é a questão, viçosa leitora e viscoso leitor, essa é a questão.
Hoje, você responde. Segunda, respondo eu (mas já adianto que o título da coluna será algo como “empresários, os emissários de Satanás”).
Por Torero às 06h41
Viciado leitor, viçosa leitora, o jejum está acabando. Daqui a poucos dias começam os campeonatos regionais mais importantes do país e novamente teremos nas telas e nos campos nossos times e nossos inimigos, que sem eles a vida não tem graça nem gosto.
Sim, a nossa síndrome de abstinência está chegando ao fim. Daqui a poucos dias (umas 60 horas, no meu caso) veremos as novas formações de nossas equipes e nossos novos (ou velhos) ídolos.
Mas o que fazer até lá?
Eu, que estou em Santos, tenho me virado vendo uns joguinhos na praia. Realmente não são grandes espetáculos de técnica e arte, mas há uns bons chutões, de vez em quando um drible interessante e uns gols engraçados. Ou seja, a coisa está mais para “Videocassetadas” do que para “Grandes Momentos do Esporte”, mas para quem está no deserto, qualquer poça d’água é lagoa.
Mas há outras saídas para nossa síndrome de abstinência, e aqui ofereço-lhes três:
A primeira é um livro. Chama-se “Meu jogo inesquecível” e traz 56 depoimentos, cada um contando qual e como foi o jogo de sua vida (o meu foi o
É um livro divertido, para ler saltando as páginas, procurando primeiros os jogos de seu time e depois algumas curiosidades, como o jogo do jornalista Flávio Gomes, um Portuguesa x Rio Branco.
A segunda opção é apenas para quem tem tevê a cabo. São os filmes oficiais das Copas, que estão passando no Sportv. São sensacionais! Têm imagens que nunca vimos aqui no Brasil. Com elas entendemos melhor o futebol daqueles tempos, a visão que os estrangeiros têm da seleção brasileira e podemos ver as seleções de outros países, o que é raro nos documentários nacionais, sempre focados no nosso próprio time. Para quem realmente gosta de futebol, são programas imperdíveis!, tanto que já usei dois pontos de exclamação neste parágrafo e eu detesto isso. Hoje, às 21h06, passa o filme da Copa de 1966 (reprise na quarta-feira, às 16h30).
E o terceiro paliativo é um site, enviado pelo leitor Marcelo Lyra. Ele traz imagens daquelas figurinhas (ou figuronas, já que eram grandes) de futebol que vinham junto com o chiclete Ping Pong, lá pelos fins da década de setenta. O site é o www.cardspingpong.com.br. Lá você vai ver o Muricy Ramalho cabeludo, lembrará do supertime do Flamengo, com aquele meio-campo perfeito formado por Carpegiani, Adílio e Zico, e os palmeirenses matarão a saudade do belo Rosemiro, o “namoradinho da Raquel Welch”.
Enfim, são três bons calmantes para suportar as próximas 60 horas.
Por Torero às 07h01
A notícia saiu no site da revista Placar. Pelo jeito, não fui só eu que exagerei na passagem de ano.
É que o jogador Adriano, em vez de se apresentar ao Atlético Paranaense depois das festas de fim de ano, errou de casa e apresentou-se ao Cruzeiro. Só nesta terça-feira é que ele pegou um avião para Curitiba.
Adriano tem seus direitos contratuais presos ao Atlético, mas jogou pelo Cruzeiro no Brasileiro de 2005. Daí a confusão que o fez errar de endereço. Por mais de mil quilômetros.
Por Torero às 15h51
Faceira leitora, facecioso leitor, a grande verdade é que o ano novo só começa realmente depois das previsões. Muitos preferem não se arriscar em tal empreitada, mas o bom cronista esportivo tem obrigação de ser uma espécie de vidente. Ele tem que tentar prever os fatos, mesmo que erre mais do que um analista econômico. Minha esperança é que, assim como acontece com as videntes e com os economistas, depois de algum tempo as pessoas esqueçam meus erros e só se lembrem dos acertos. Mas creio que os solertes leitores deste blog não deixarão que isso aconteça. Tudo bem, o importante é encher o peito de coragem e palpitar. Para começo de conversa, digo que o campeão paulista será o Corinthians. O São Paulo perdeu peças importantes, Santos e Palmeiras ainda estão montando seus times e não acredito em surpresa do interior. No campeonato carioca, acho que Fluminense será bi, com o Vasco em segundo. Bi também serão o Atlético Paranaense, o Santa Cruz e o Internacional. Já em Minas não teremos um bicampeão: o Ipatinga deve ficar pelo meio do caminho e 2006 será o ano do Cruzeiro, que repatriou Élber. A vitória na Bahia será do Vitória, não do Bahia. Ceará no Ceará e Goiás em Goiás. No Pará, ninguém parará o Remo. No Amazonas, o Nacional fará o diabo com o São Raimundo. Em Santa Catarina, Figueirense. Na Paraíba, o Treze de Campina Grande. Em Alagoas, CRB. Mas chega de estaduais! Vamos aos campeonatos nacionais. Para começar, a Copa do Brasil deve ir para o Santos. Na série C, desta vez o Ipatinga sobe. Na B, finalmente chegará o ano do Marília, que tantas vezes já chegou perto de carimbar o passaporte para a série A. Na A, que é voto mais difícil, porque ninguém sabe como estarão os times até lá, arrisco que dará Santos. Muitos dirão que é um voto mais de torcedor do que de analista. A estes respondo: é verdade! Mas, além disso, o fato é que o Santos é um clube com bastante dinheiro em caixa e um técnico bom para montar times e especialista em campeonatos de pontos corridos. Enfim, os dados estão lançados. Se o leitor quiser deixar aqui gravados os seus palpites, fique à vontade. No dia 31 de dezembro de 2006 darei o troféu Zé Cabala a quem tiver acertado mais palpites. PS: Só aceitarei críticas de quem tenha feito mais pontos do que eu. Aqueles que só sabem ser profetas do passado terão que ficar no silêncio dos covardes.
Por José Roberto Torero às 07h29
Caro senhor Torero, meu nome é Alaor, tenho 55 anos, e escrevo-lhe para dizer que meu primeiro de janeiro foi um suplício. Um suplício! Não teve um joguinho para eu ver na tevê. Unzinho só que fosse.
Pois bem, senhor Torero, como não havia jogos na tevê, tive que fazer outras coisas. Pela manhã fui ao mercado com minha mulher. Ela ficou radiante. Disse que eu não fazia isso desde 1983, quando a tevê quebrou. Pode ter sido impressão, mas acho que seus lábios tremeram de emoção.
Depois almocei com minha velha mãe, com quem estava brigado sei lá desde quando. Ela quase teve um enfarte quando me viu abrindo seu portão. Soltou um “Minha nossa senhora!” e correu para me abraçar. A pobrezinha chorou tanto que encharcou minha camisa. Por pouco não pego um resfriado.
Como fomos à feira, à tarde, em vez de pipocas e cerveja, comi uma salada de frutas e tomei suco de laranja com acerola. Uma overdose de vitamina C.
Mais à tardinha, meu filho veio até mim e disse que precisa conversar. Ele estava com problemas com a esposa. Dei-lhe uns conselhos, contei-lhe uns casos e ele ficou mais aliviado. Parece que nem vai mais se separar.
À noite, em vez de ver os gols da rodada, chamamos os vizinhos para um bate-papo. Contamos piadas, rimos e até improvisamos uma cantoria.
Já na hora de deitar, em vez de ver as mesas-redondas, minha mulher atacou-me furiosamente. Parecia que ela não fazia sexo há anos. E, pensando bem, talvez seja verdade.
Enfim, senhor Torero, neste Ano Novo fiz as pazes com minha mãe, discuti as coisas da vida com meu filho, tomei vitaminas em vez de cerveja, cantei com os vizinhos e fiz amor com minha mulher. Um suplício! Não vou sobreviver a mais um fim de semana como esse. No próximo domingo espero que haja algum joguinho na tevê. Nem que seja da terceira divisão.
Atenciosamente, Alaor, o torcedor.
Por Torero às 04h59
Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").