Blog do Torero

26/11/2005

Bem-aventurados sejam os birutas

Foi inacreditável. Eu mesmo só acreditei porque vi tudo com estes olhos que a terra, ou pior, os vermes, hão de comer.

Quando o juiz apitou um pênalti inexistente (minutos antes acontecera outro que deveria ter sido marcado mas não foi) contra o Grêmio aos 35 do segundo tempo, pensei que o sonho gaúcho havia acabado. Afinal o Náutico já havia perdido um pênalti no primeiro tempo, e como 85% dos pênaltis são convertidos, toda a estatística estava a favor dos pernambucanos.

Mas o Grêmio estava acima das estatísticas. Acima da lógica. Tanto que, em vez de forçar mais uma expulsão e acabar com o jogo, preferiu ficar com apenas sete. Uma prova de coragem. Ou de sandice. Mas há dias em que a sandice é a melhor saída.

Então o segundo pênalti foi batido. O primeiro havia sido defendido pela trave. O segundo foi defendido por Galato. E fazendo o contrário do que o seu treinador havia dito-lhe durante a confusão.

Só essa defesa já seria o suficiente para que a partida fosse cantada em verso e prosa por décadas. Mas a Fortuna ainda tinha mais surpresas preparadas para os tricolores. E, depois de uma esperta cobrança de lateral, Anderson, o precoce gênio gremista que fazia sua última partida pelo time, arrancou pela defesa adversária e marcou o gol da vitória.

É ou não é inacreditável? Quem diria que um time com sete jogadores, prestes a ter um pênalti cobrado contra ele aos 35 do segundo tempo, acabaria vencendo a partida? Nem o mais biruta dos gremistas.

Aliás, bem-aventurados os birutas gremistas que viajaram até Recife para ver esta partida. Eles contarão a história deste jogo até o dia de sua morte. A cada festa de aniversário seus netos o cercarão e pedirão "Vô, conta de novo aquela história do Grêmio". E os birutas contarão a inacreditável fábula de uma partida de 115 minutos, em que mesmo com sete o Grêmio foi campeão Brasileiro da Série B.

Bem-aventurados sejam os birutas.

Por Torero às 17h31

Pai Torero ataca outra vez.

Sim, eis que Pai Torero novamente faz suas adivinhações. No Bate-papo de quinta falei que Grêmio e Santa Cruz voltariam à primeira divisão, conforme prova o texto abaixo (tudo bem, errei ao dizer que o Grêmio empataria, mas eu não contava com o gol de Anderson. Nem o Náutico. E acho que nem os gremistas).

 

(03:09:16) Amanda: Torero, quem sobe para a primeira divisão?

(03:10:20) Torero: Amanda, acho que Grêmio e Santa Cruz voltam à primeira. O primeiro com um empate contra o Náutico e o segundo vencendo a Lusa.

Por Torero às 16h59

25/11/2005

Gol!, o filme

Filmes sobre futebol são raros. Filmes bons sobre futebol são raríssimos. E não é o caso de “Gol!”, que entrou em cartaz no Brasil dia 18 de novembro em 33 cinemas.

 

Dirigido por Danny Cannon ("Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado"), o filme custou o mesmo que o passe de um craque: US$ 30 milhões. O dinheiro veio de uma tabelinha entre Fifa, Uefa, ligas inglesa e americana de futebol, Real Madrid, Newcastle e Adidas. Isso garantiu ao filme uma boa produção, mas só. A história é cheia de clichês. Por exemplo:

 

-O protagonista é pobre mas tem um imenso talento.

 

-Seu pai é contra ele jogar futebol.

 

-Sua avó é a favor.

 

-Há uma história de amor em que ele se apaixona por uma boa moça.

 

-Ele beija um amuleto que recebeu da avó antes de fazer o gol decisivo no último de jogo.

 

-E isso sem falar que em cada decisão do personagem principal há um close e a música sobe.

 

É muito difícil filmar futebol com alguma verdade. O futebol não é como o beisebol ou como o box, que podem ser coreografados.  Por isso é preciso filmar muito, e de preferência lances de verdade. Alguns curtas brasileiros como “Cartão Vermelho” e “Uma História de Futebol” são tão ou mais convincentes (e estão disponíveis no site www.portacurtas.com.br). Futebol é um assunto tão difícil que nem John Huston conseguiu filmar bem o seu “Fuga para a Vitória”.

 

“Gol!” é o primeiro de uma trilogia. Neste capítulo inicial, Santiago (Kuno Becker) vai jogar no Newcastle, da Inglaterra. No segundo ele passará a jogar no Real Madrid e no terceiro estará na Copa do Mundo.

 

O filme foi mal de público na Inglaterra e não foi bem na primeira semana no Brasil, fazendo apenas 5008 espectadores com 33 cópias (152 espectadores/cópia). Uma boa estréia fica em torno de mil por cópia e 500 é um número bem razoável.

 

Para que não me chamem de amargo, digo que há belas cenas no estádio de St. James Park e que é divertido ver Zidane, Raúl e Beckham em aparições especiais. Mas isso é pouco. Não justifica as estrelas que o filme recebeu na Folha.

 

Em resumo, seria bacana assistir “Gol!” numa Sessão da Tarde, mas para cinema, parece pouco.

Por Torero às 09h50

24/11/2005

Minha seleção

E eis que o Brasileiro está chegando ao fim. Não sabemos ainda quem será o campeão, mas já podemos começar a tirar algumas conclusões.

 

A primeira é que a grande marca do campeonato foi a confusão. Principalmente por conta de juízes, usem uniformes ou togas.

 

A segunda é que não houve um time sobre o qual se pudesse falar “sem dúvida, este mereceu ser campeão”. Os melhores times até aqui foram mesmo Inter e Corinthians, mas o segundo teve momentos ruins no primeiro turno e vitórias polêmicas no segundo, enquanto o Inter mostrou um time equilibrado mas sem poder de explosão.

 

A terceira é sobre a seleção do campeonato. Aliás, esta vem sendo a questão do momento no Bar da Preta, templo da gastronomia popular onde presto minha devoção a etílicos e frituras. Depois de muitos debates no balcão do bar (a verdadeira tribuna pátria), cheguei à minha seleção, que é a seguinte:

 

-Fábio Costa (que começou mal, mas teve um final de campeonato exuberante);

 

-Gabriel (seus 16 gols merecem respeito),

 

-Gamarra (um zagueiro que não faz faltas sempre faz falta),

 

-Lugano (um zagueiro que faz faltas na hora certa também faz falta) e

 

-Jorge Wagner (que se reinventou como ala esquerdo);

 

-Mineiro (um relógio, sempre jogando bem),

 

-Marcelo Mattos (mais barato e eficiente que Mascherano),

 

-Petkovic (jogou poucas mas boas partidas) e

 

-Ricardinho (que carregou o time nas costas);

 

-Tevez (o argentino que foi o craque do Brasileiro) e

 

-Rafael Sobis (a revelação do campeonato).

 

-Como técnico escolheria o Muricy Ramalho, que montou um time bem consistente (sempre achei "consistente" um adjetivo para bolos, mas agora já foi).

 

Esta seleção é bem respeitável, mas, como futebol é um poço de discórdia, certamente vocês devem ter alguma idéia melhor para alguma posição. Pois bem, digam lá qual foi, na sua opinião, a grande injustiça que cometi, o grande jogador que faltou neste escrete.

Votem e na próxima semana dou o resultado.

 

 

 

PS: Lembre-se que só vale trocar um jogador. A graça é ver quem foi o esquecido. E também não vale votar em atletas que tenham abandonado o barco antes do fim do campeonato, como Fred e Robinho.

Por Torero às 05h36

21/11/2005

Microscópico texto que conta mui sucintamente o sentimento deste cronista ao ver a atuação do juiz Márcio Rezende de Freitas no jogo Corinthians X Internacional

De novo!

Por José Roberto Torero às 08h17

Uma previsão

No bate-papo desta quinta arrisquei um palpite para o jogo de domingo. O texto está aí abaixo e no arquivo do bate-papo.

(03:17:41) O cara: Qto. será o jogo entre corinthians e Inter

 

(03:18:14) Torero: Cara, eu chuto que Timão X Inter vai ficar no 1 a 1. Se o Tevez jogar.


PS: Se alguém se interessar, Pai Torero também lê mãos e tarô.

Por José Roberto Torero às 08h13

20/11/2005

Plágios

Os leitores deste blog mandaram algumas criações (ou recriações) que fariam inveja a Rod Stewart (que plagiou Jorge Ben) e Yann Martel (escritor canadense que plagiou Moacyr Scliar). Separei três destas obras (ou reobras) e agora repasso-as aos leitores (ou releitores). O escritor mineiro Leo Cunha mandou este singelo plágio de Alberto Caeiro:

 

O menor gol do Tévez

é mais belo que o maior gol do Sobis.

Mas o maior gol de Tévez

não é mais belo que o menor gol do Sóbis.

Porque gol do Coringão não é gol do Colorado.

 

 

O otimista Zenóbio Saraiva devolveu-me o plágio na mesma moeda:

 

E agora, José?

O Inter se f...oi,

O Goiás não subiu,

a coisa melhorou,

e agora, José?

e agora, Você?

que não torce pro Timão,

que zombou da gente,

e agora, Você?

ouça nosso hino,

veja o agito da nossa bandeira,

e agora, colorados?

que foram goleados,

mandem o recado, aos familiares: cheguemo, joguemo e perdemo.

 

 

Por fim, o leitor Jorge Augusto fez um divertido plágio de Pneumotórax, de Manuel Bandeira:

Timão, Inter, Goiás em jogos noturnos.

Campeonato inteiro que podia ter vencido e que não foi.

Corre, corre, corre. 

Mandou chamar o técnico:

- Faltam só mais três.

- Só mais três, só mais três, só mais três...

- Respire.

 .................

O técnico tem a escalação de cabeça e o coração cheio de superstição.

- Então, torcedor, não é possível já adotar o discurso de campeão?

-Não. A única coisa a fazer é chamar o craque argentino!

 

Por Torero às 17h11

Pausa para o café

Sim, eu sei, este espaço é para escrever sobre futebol. Mas os leitores que passam por aqui de certa forma são meus amigos, para quem falo minhas opiniões e de quem escuto outras, e sendo assim, como se estivesse num bar, posso mudar de assunto de vez em quando (e quem não gostar sempre pode dar uma volta pelo bar ou ir ao banheiro, voltando quando o assunto for outra vez futebol).

 

Pois bem, feita esta abertura, digo que acabei agora, agorinha, de ler um livro. E gostei muito. Seu nome (por sinal, bem feio) é “Cartas a um jovem escritor e suas respostas”. O título e a capa sem graça dão a impressão de que atrás dele virão páginas e páginas de chatice, de dúvidas de jovem escritor e coisas assim, mas não.

 

O livro é composto pela correspondência entre Fernando Sabino (por volta dos 20 anos) e Mário de Andrade (aos 50 e poucos), e é muito saboroso de ler. Mais pelas cartas de Mário do que pelas de Sabino (mas sem a provocação destas não existiriam aquelas). As cartas do velho Mário ao jovem Fernando são uma aula de ética e de estética. De amor à literatura e à humanidade. Pode ser um livro especialmente importante para quem quer ser escritor ou coisa assim.

 

Eu já gostava de Mário de Andrade (confesso que mais por “Amar, verbo intransitivo” do que por “Macunaíma”), mas depois da leitura desta correspondência passei a ter um carinho especial por ele. E, quando vi que a última carta foi escrita só um mês antes de sua morte, ai, ai, ai, meus olhos deram uma marejada. Teria encharcado o pobre livro se não fosse eu um santista durão, já calejado por grandes tristezas. E pronto!, eis que falamos de meu combalido time e estamos de volta ao futebol.

Por Torero às 06h43

03/11/2005

Zé Cabala e a entrevista giratória

Naquele dia, quando bati à porta do grande oráculo ludopédico Zé Cabala, Gulliver, seu assistente anão, veio atender.

 

“Como está o mestre hoje?”, perguntei.

 

“Tendo um dia de pião."

 

“Muito trabalho?” 

 

Quando o gnomo parou de rir, falou: “Eu disse pião, não peão.”

 

Entrei na casa e vi que o sábio dos sábios realmente estava jogando pião. Com certeza devia ser algum tipo de exercício de integração ao cosmos.

 

“Lamento estragar sua atividade transcendental, mestre dos mestres, mas eu gostaria de entrevistar o Quarentinha.”

 

“É pra já!”, disse o maharish dos maharishs, que logo colocou seu turbante e começou a girar. Ele contava o número de voltas: 1, 2, 3, 4... Quando chegou ao 40, tombou no chão e disse: “Quarentinha às suas ordens.”

 

“Waldir Cardoso Lebrêgo, maior artilheiro da história do Botafogo?” 

 

“Eu mesmo”, disse ele enquanto cambaleava pela sala.

 

“Vamos começar pelo começo."

 

“Bom, nasci em Belém do Pará, no dia 15 de setembro de 1933. Aos 16 anos já era titular do Papão. Aliás, nasci na rua Curuzu, no número 1118, ao lado do estádio do Paysandu. E meu pai foi um grande meia do time.”

 

“Parece que você herdou o futebol dele.”

 

“O futebol e o apelido. Nos tempos de exército ele era chamado pelo seu número, quarenta. Daí, quando eu comecei a jogar, é claro que começaram a me chamar de Quarentinha.”

 

“Quanto tempo o senhor ficou no Papão?”

 

“Só até 1953. Aí fui para o Vitória da Bahia. Um monte de gente foi me jogar no primeiro treino. Logo no primeiro lance soltei a bomba. O goleiro Periperi nem viu por onde a bola passou. E o Vitória foi campeoníssimo naquele ano. Dos 19 jogos, ganhamos 16.”

 

“E por que o senhor saiu do Vitória?”

 

(continua no texto abaixo)

Por Torero às 05h20

Zé Cabala e a entrevista giratória - Parte II

“É que o Botafogo foi jogar na Bahia e o Nílton Santos cismou que eu tinha que ir para o Rio de Janeiro.”

 

“E logo de cara o senhor explodiu por lá?”

 

“Explodi nada. Implodi. Nos dois primeiros anos eu não me adaptei, e para piorar eu ainda tinha que disputar posição com o Carlyle e o Dino da Costa, de modo que em 56 fui emprestado para o Bonsucesso. Aí, sim, eu comecei a jogar bem. Fui vice-artilheiro do campeonato carioca e ainda por cima marquei o gol no 1 a 0 contra o Botafogo. No ano seguinte eu estava de volta e fomos campeões.”

 

“Aí começou a sua melhor fase?”

 

“Isso. Depois do campeonato de 57 eu fui três vezes seguidas artilheiro do campeonato, em 58, 59 e 60, e fomos campeões de novo em 61 e 62. Era um time sensacional, com Manga no gol, Nilton Santos na defesa, Didi no meio, e  Garrincha, eu, Amarildo e Zagallo no ataque.”

 

“Então as suas maiores glórias foram no Botafogo?”

 

“Se foram! Joguei 442 partidas e fiz 308 gols por lá.”

 

“E a seleção?”

 

“Pelas minhas contas fiz 17 gols em 17 jogos. Uma vez, nos tempos do Feola, eu estava tão bem que entrei com a camisa 10 e o Pelé com a 9. Só não fui para a Copa do Mundo no Chile porque tive um problema nos meniscos e tive que ser operado.”

 

“O senhor encerrou sua carreira no Botafogo?”

 

“Não. Em 64 voltei para o Vitória da Bahia e ainda ganhei dois campeonatos baianos.  Depois fui para a Colômbia jogar no América de Cáli e fiquei por lá até encerrar a carreira.”

 

“Dizem que o senhor não comemorava seus gols, é verdade?”

 

“É verdade. Eu nunca fazia festa e às vezes a torcida ficava brava com isso. Mas pense bem, por que eu ia vibrar se eu era pago para fazer gols? Era só a minha obrigação. Você não vê um dentista pulando de alegria quando arranca um dente.”

 

“É..., pensando assim...”

 

Mas ele nem ouviu meu comentário, porque recomeçou a girar, desta vez no sentido anti-horário, e a cada giro contava: quarenta, trinta e nove, trinta e oito... Quando chegou ao zero caiu de novo. E, enquanto ajeitava seu turbante, comentou: “Agora sei como se sente um pião.”

Por Torero às 05h19

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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