Blog do Torero

24/10/2005

Futebol e morte

Por conta de um texto que escrevi para a Folha de S.Paulo, recebi uma carta da tia de Diogo Borges, um dos jovens assassinados semana passada. Pedi e ela me autorizou a publicar aqui o seu texto. Acho que ele pode nos ajudar a entender, ou sentir, o que são o futebol e a morte.

Meu nome é Madalena Borges, sou a tia de Diogo Lima Borges, o rapaz que foi assassinado no último domingo no metrô Tatuapé.

Estava lendo as notícias e li o seu texto da Folla de S.Paulo. Me emocionei com o conteúdo, não pude conter mais uma vez as lágrimas que insistiram em cair.

Meu coração está sangrando desde o domingo, quando recebi a notícia da morte do meu sobrinho.

Como você bem escreveu, nada tem mais importância agora. O céu fica escuro, mesmo que brilhe o sol, dá um frio na alma, um frio difícil de passar. Percebemos à duras penas, como a vida é importante, o quão ela é frágil e o pouco valor que o ser humano dá à ela.

É muito triste ver nas páginas de jornais, estampados os rostos de nossa família. A dor que sentimos é imensa, ainda mais pela forma como ocorreu a morte do Diogo.

Ser assassinado, um menino ainda jovem com toda vida pela frente.... choca...e choca muito mais pelo "motivo", se é que se pode dizer que é motivo vestir a camisa de um outro time que não o seu.

Fica tudo tão pequeno, percebe-se que os verdadeiros valores ficaram muito atrás no tempo, um tempo que parece não voltar mais...

Dá-se valor à coisas tão ínfimas e esquece-se de dar valor a nossa vida, que é o bem mais precioso que podemos ter.

Diogo foi assassinado... e isso ficará como um estigma em nossa família para sempre. Algo que nunca poderemos explicar, algo que nunca vamos esquecer, as cenas que nós presenciamos nunca mais serão apagadas de nossa mente, da nossa vida.

A pessoa que ceifou a vida de Diogo, não vitimou somente ele, vitimou uma família inteira e vitimou a si mesmo, nós choramos a perda e ele infelizmente, chorará a culpa, ele também ficará marcado para sempre, e triste deverá ser a hora que tiver que prestar contas ao Pai lá de cima, sinto pena dele sabia?

Um animal mata para sobreviver, saciar sua fome e o ser humano, um ser racional que tem opções mata pelo simples ato de matar, triste isso, degradante.

Amar o seu time, torcer por ele agora perde o sentido, porque esse amor pode levar a morte.

Ninguém imagina a dor dessas três famílias que agora choram a perda de um dos seus, não dá para explicar em palavras o que sentimos, qualquer palavra fica pequena para expressar a dor dessa perda, ainda mais por um motivo tão idiota, tão sem sentido.

O que pode levar um ser humano a se armar, vestir a camisa de um time e sair por aí atacando, matando?

O que será que se passa na cabeça de pessoas assim?

Não existe mais valor, não existe mais amor, pelo jeito para eles não existe mais nada.

Madalena Borges

Por José Roberto Torero às 07h18

08/10/2005

O outro outro

Ontem pela manhã ocorreu um fato muito estranho, tão estranho que vou escrevê-lo para esquecê-lo.

 

Era o meu aniversário. Como presente de Deus para meus 42 anos, acordei com dores nas costas. Decidi caminhar um pouco para ver se ela passava. Fui até a praça Vilaboim, sentei num banco e comecei a ler uma reportagem sobre o atacante Borges, do Paraná Clube.

 

Foi quando sentou-se um homem no banco. Olhei-o com atenção. Era eu. Ou melhor, um outro eu, com menos cabelos brancos, uns cinco quilos mais magro e vestindo uma camisa do Juventus. Ele também me percebeu e trocamos um olhar assustado. Quando me recuperei, disse:

 

- Conheço você de algum lugar...
- Eu ia dizer o mesmo...
- Por acaso você não se chama Torero?
- É o meu sobrenome. Mas não me chamam assim há muito tempo.
- E como te chamam?
- Touro. É o apelido que me deram quando jogava de médio-volante.

 

Vi que estava diante de uma possibilidade de mim mesmo. Uma espécie de universo paralelo. Curioso, perguntei: Como você começou a jogar futebol?

 

Ele achou a pergunta estranha. Mas não menos que aquela situação. Então respondeu:

 

- Quando tinha 15 anos fiz um teste num time de várzea chamado Universo, lá em Santos, e passei.

- Entendi o que está acontecendo. Você é eu, só que passou no teste do Universo. Lembro que fui até lá, perdi um gol na cara do goleiro e acabei dispensado.

- Eu lembro desse lance. Para mim a bola bateu na trave e entrou.

- A minha saiu. Acontece... Como foi a sua carreira?

- Do Universo fui para o Jabaquara e de lá para a Portuguesa Santista. Tenho um estilo violento, meio Chicão. Não consegui me firmar no time e fui vendido. Joguei no Marília, no XV de Piracicaba, no Itararé, no Tanabi, no Linense, no Garça e agora sou reserva no Juventus. E você?

- Sou colunista esportivo.

- E nunca jogou futebol profissionalmente?

- Nunca. Acontece... Você é feliz como jogador?

- Fui. Quer dizer, sou. Hoje faço 42 anos. Estou muito velho para o futebol. Nem o Valdo e o Cerezzo jogaram com essa idade. Acho que está na hora de me aposentar...

- Também faço 42. Para colunista esportivo até que sou novo.

 

Ficamos em silêncio, nos olhando por algum tempo, um com inveja do outro. Ele, porque não estou em fim da carreira. Eu, porque ele foi um jogador de verdade.

 

Então nos levantamos e saímos, cada um para seu lado, sem olhar para trás.

 

  


PS: Este conto é baseado em outro, que está no livro “Zé Cabala e outros filósofos do futebol”, que por sua vez é baseado em outro, de Jorge Luis Borges, chamado "O outro".

 

PS2: Quando tinha quinze anos, fiz mesmo teste para jogar num time chamado Universo. E não passei.

Por Torero às 07h54

07/10/2005

Chalaças de César Maia

Na página 3 da Folha de S. Paulo do dia 6/10, quinta-feira, na seção Tendências/Debates, reparei num título que me chamou a atenção: “Chalaça e a base aliada”, escrito por César Maia, prefeito do Rio de Janeiro. E o título me chamou a atenção porque em 1994 escrevi um livro chamado “O Chalaça”, sobre um personagem real, o secretário particular do imperador D. Pedro I (e também seu capanga e alcoviteiro).

 

No artigo, César Maia cita trechos de uma carta do Chalaça para o Marquês de Barbacena, seu inimigo político. Mas esta carta não existe. Na verdade trata-se de um trecho do livro. Porém, ele não revela isso. E, pior, ainda acrescenta frases como “Que horror o transporte de uma pequena fortuna em libras esterlinas na cueca!”, que não constam do livro.

 

Mas o mais engraçado ainda estava por vir. É que ele citou um personagem do livro, o filósofo Calderón de Mejía, como um grande sábio da época, e até usou algumas de suas frases como suporte para sua argumentação. Porém, infelizmente, tal sábio jamais existiu.

 

Enfim, acho muito honroso ter o prefeito carioca entre meus leitores, mas não posso deixar de dizer que ele esqueceu de citar a fonte, inventou trechos e se apoiou na filosofia de um pensador inexistente. Em outras palavras, plagiou, mentiu e caiu no conto do vigário; ou, no caso, do filósofo. Parece que César Maia não conhece muito bem a diferença entre realidade e ficção.

Por Torero às 23h45

06/10/2005

Os bem votados

Veja abaixo a lista dos mais votados como "Melhor jogador do Campeonato Brasileiro". Publico aqui somente os que tiveram pelo menos três votos (até as 8h53 de hoje).

Tevez: 195
Romário: 61
Petikovic: 57                       
Rogério Ceni: 57
Zveiter: 38
Roger: 37
Amoroso: 33
Marques: 33
Cicinho: 32
Marcinho: 30
Alex Dias: 30
Giovanni: 25
Robgol: 18
Fred: 18
Edílson, o juiz: 17
Robinho: 13
Ricardinho: 11
Gamarra: 9
Diego (Flamengo): 8
Dagoberto: 8
Rafael Sóbis: 8
Gabriel: 8
Paulo Báier: 8
Lúcio: 7
Lugano: 6
Michel Bastos: 5
Kerlon: 4
Marcos (Pal): 4
Edmundo: 4
Márcio Guerreiro: 4
Rodrigo Tabata: 3
Obina: 3
Borges (Paraná): 3
Danilo: 3

Por Torero às 08h41

Sobre o autor

Formado em Letras e Jornalismo e quase formado em Cinema, é autor de treze livros (como "O Chalaça"), escreveu roteiros para cinema (como "Pequeno Dicionário Amoroso") e para tevê ("Retrato Falado").

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